terça-feira, 17 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... pornografia

Ela está por toda parte, embora pareça invisível. Falamos pouquíssimo dela, ainda que ela faça parte da vida e do cotidiano de uma significativa parcela da população. Para algumas pessoas religiosas ela é uma forma de pecado, para algumas feministas uma forma de opressão contra a mulher, para alguns cientistas ela prejudica o cérebro e vicia como uma droga, para alguns psicólogos ela influencia negativamente nas relações e nos processos de desenvolvimento, ao passo que para muitos homens e mulheres ela é vista e praticada como uma forma saudável de se estimular a fantasia e exercer a sexualidade. Sim, você já sabe do que eu estou falando. Eu estou falando da pornografia. O que me traz a esse tema complexo, delicado e pouco explorado são os fantásticos documentários Pornocracy e Rocco, atualmente disponíveis no Netflix. Comecemos pelo primeiro, uma primorosa investigação sobre a "indústria pornô", conduzida pela ex-atriz pornô, diretora de filmes adultos e escritora feminista Ovidie. Neste documentário, a diretora nos traz e tenta responder a uma questão inquietante: se o advento da internet no fim dos anos 1990 teve o impacto de uma bomba atômica na anteriormente ultralucrativa e glamourosa indústria pornô - na medida em que ninguém atualmente precisa mais pagar para ter acesso a imagens e videos pornográficos - quem está de fato lucrando com a pornografia? E sua resposta passa pela emergência de um megaconglomerado pornô, administrado pela empresa MindGeek, que atualmente controla os principais sites pornográficos. Curiosamente, esta empresa é dirigida por um empresário da área de tecnologia de informação totalmente à parte do mundo pornô. Para ele, como para muitas outras pessoas, a pornografia é um negócio como outro qualquer, isto é, um meio de se ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Pois bem, que a pornografia é um negócio lucrativo - e também um negócio que se beneficia, em grande medida, da exploração de mulheres - poucos questionarão. Mas a questão que eu gostaria de trazer neste post é se a pornografia pode ser reduzida a um mero negócio. Que algumas pessoas lucram com ela, isto é óbvio, mas existem pessoas que também lucram com o cinema e com a literatura e poucos diriam que o cinema ou a literatura se resumem a formas de se ganhar dinheiro. Em alguma medida estes artefatos são também manifestações artísticas - e o são justamente por atenderem a certas necessidades ou anseios humanos, demasiado humanos, como as necessidades por expressão, por identificação, por reflexão, por imaginação e por significado. Mas a quais necessidades ou anseios a pornografia atende ou tenta atender? Porque certamente ela responde a alguma necessidade humana profunda. De outra forma, porque, afinal de contas, as pessoas consumiriam tanta pornografia todos os dias em todas as partes do mundo, como demonstram inúmeros dados e pesquisas sobre o tema? Algum motivo deve haver - ou vários. Pois bem, esta complexa questão me traz ao fantástico e chocante documentário Rocco, que acompanha o famoso ator pornô Rocco Siffred durante o período que culminou com a gravação de sua última cena. Este filme traz tantos elementos para reflexão que eu precisaria de vários textos para analisá-lo com toda a profundidade que ele merece. Tratarei aqui apenas de alguns aspectos pertinentes à questão de quais necessidades humanas a pornografia atende ou pretende atender.

O documentário tem início com uma interessante fala de Rocco - que é dita enquanto a câmera expõe em close o seu pênis: "Eu penso em mim como alguém que foi pago para ser a pessoa que queria ser". Veja bem, ele não está dizendo que foi pago para ser aquilo que muitos homens gostariam de ser, o que também seria verdade. Ele está dizendo que foi pago para ser o que ele próprio gostaria de ser - e com isso ele sugere que os outros homens não são (e nem são pagos para ser) o que gostariam de ser. Os homens, em geral, se reprimem e são reprimidos, poderia ter dito Rocco, mas ele não. Ele sempre pôde dar vazão aos seus desejos. E de fato, ao longo de sua extensa carreira, Rocco pôde colocar em prática todas ou quase todas as suas fantasias sexuais, especialmente aquelas mais sórdidas e violentas, algo que a maioria dos homens apenas sonhou fazer. E veja bem que eu estou falando dos homens e não das pessoas em geral porque embora a pornografia seja consumida por homens e mulheres, sem dúvida alguma o maior público consumidor é masculino. Na verdade, a pornografia é, em grande medida, voltada para o homem e seu prazer. O objetivo imediato da maioria absoluta das produções pornôs é simples: fazer o homem (o ator e o espectador) gozar - e tanto isto é verdade que a maioria das cenas se encerra com a ejaculação masculina. O gozo feminino ou a encenação do gozo feminino não tem valor em si, só servindo na medida em que contribui para o gozo masculino. Muito embora as cenas pornôs em geral se foquem nos corpos das mulheres, sendo o homem apenas um pênis sem rosto, o foco primordial, o objetivo final e o elemento central é o homem e seu prazer. O pornô, em geral, não passa de uma celebração da potência masculina.

Os filmes de Rocco não fogem desta regra - pelo contrário, eles a levam a níveis extremos. Como o documentário expõe com grande crueza, eles são totalmente focados na dominação masculina e, consequentemente, na submissão feminina. As cenas de gravação, neste sentido, são incrivelmente chocantes (pelo menos para mim), na medida em que expõem a grande violência a que as atrizes são submetidas nos sets de filmagem. Certamente é possível contra-argumentar que elas o fazem por livre e espontânea vontade como parte de uma relação comercial (na qual elas vendem o próprio corpo em troca de dinheiro) e também que algumas realmente gostam da submissão durante o ato sexual - caso, por exemplo da atriz pornô feminista Kelly Stafford que afirma em certo momento do documentário: "Como eu posso estar me humilhando como mulher se é isto que eu quero? Se sou eu que estou aproveitando, sou eu que quero fazer isso, nunca é humilhante. Eu não quero ser humilhada. Quero mostrar que sou mulher. Sou uma mulher forte. Preciso de um homem forte para me foder". Esta atriz, não por acaso escolhida por Rocco como parceira de sua última cena, afirma ainda, em tom elogioso, que o sexo com Rocco ocorre "em um nível muito animalesco, é muito bruto". E isto talvez ajude a explicar o apelo que os filmes pornôs, especialmente os mais violentos, como aqueles produzidos por Rocco, tem sobre muitos homens. Talvez tais produções permitam que os homens façam, pelo menos no terreno da fantasia (na medida em que se colocam imaginariamente na pele de Rocco) aquilo que não podem ou não conseguem fazer na realidade. Afinal, transar de forma "animalesca" e "bruta" na vida real é bem mais complicado, pois depende necessariamente do consentimento da pessoa, homem ou mulher, com quem você pretende fazer sexo - de outra forma você estaria cometendo o crime de estupro.

Na análise que fiz da série Westworld, que retrata um "parque de diversão" para adultos onde tudo é permitido, escrevi que a atratividade deste parque se devia justamente ao fato dele permitir aos participantes, majoritariamente homens, um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade - em um ambiente controlado e seguro. Pois a mesma coisa pode ser dita da pornografia: ela permite aos seus usuários vivenciar situações sexuais e violentas, extremas ou não, sem, supostamente, quaisquer constrangimentos e efeitos colaterais. Como bem afirma a jornalista Pamela Paul no interessante livro Pornificados: como a pornografia está transformando a nossa vida, os nossos relacionamentos e as nossas famílias, "a pornografia dá sem exigir esforço". Em outro momento, falando especificamente sobre o consumo de pornografia por homens envolvidos em relacionamentos estáveis, a autora afirma: "a pornografia proporciona a exitação adicional de outras mulheres sem o perigo de realmente estar com elas" - e por perigo ela quer dizer, na verdade, "sem as implicações de se relacionar com uma mulher real". Afinal de contas, as mulheres reais não agem como as mulheres nos filmes pornôs: elas não estão disponíveis e com vontade para o sexo o tempo todo, não se atiram sem pudor para cima dos homens, não aceitam todas as práticas e posições sexuais e, muitas vezes, gostam de estar no controle e desejam que os homens se preocupem com o prazer delas. Enfim, na vida real, elas são pessoas completas e complexas e não simplesmente "objetos" do prazer masculino. Na pornografia, pelo contrário, o foco está majoritariamente no controle e no poder masculinos. Como afirma Pamela Paul "o enfoque é sobre uma mulher (ou, cada vez mais, várias mulheres) a serviço do prazer sexual do homem".  

Bom, talvez uma palavra chave em toda esta discussão seja "controle", afinal a pornografia serve em grande medida para dar aos homens não o controle, mas a ilusão de controle sobre as mulheres e o mundo. Se na vida real, os homens tem um poder limitado - ainda que, em geral, maior do que as mulheres (não nos esqueçamos jamais: vivemos em um mundo machista!) - no pornô os homens são soberanos, são reis que tudo podem e tudo fazem. Como afirma Pamela Paul, "a pornografia, literalmente, cria um mundo sonhado, livre de exclusões, constrangimentos, competitividade estressante e rejeição", o que, certamente, é algo extremamente tentador. E não é por outra razão que muitos homens estejam exagerando no consumo de pornografia: exatamente porque ela, como as drogas e também, em alguma medida, como as artes e as religiões, permite a eles sair temporariamente da dura realidade e adentrar em um mundo onde a vida é mais fácil e manejável. O grande problema é que isto não passa de uma ilusão. Como já discuti anteriormente, não creio ser possível viver só de realidade, mas viver só de fantasia também não me parece algo desejável, nem saudável. A pornografia, certamente tem uma função no mundo contemporâneo - ao que me parece fortemente ligada aos anseios por controle, dominação, fantasia e novidade - mas, ao mesmo tempo, penso que se não soubermos separar ficção de realidade, corremos o risco de nos perder, especialmente quanto trazemos ou tentamos trazer para a realidade elementos que deveriam permanecer no terreno da ficção. Tentar agir como um ator pornô e esperar que sua parceira ou as mulheres em geral se comportem como atrizes pornográficas (ou melhor, como as personagens que elas interpretam nos filmes - sim, elas são atrizes!) só poderá resultar em mais e mais frustração. Afinal de contas, entre o sexo real e a pornografia e entre a realidade e a fantasia há uma distância significativa, impossível de ser totalmente eliminada.
Comentários
3 Comentários

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito interessante!

Luiza Aldsr disse...

Muito bom! Mas achei o final meio confuso. Você começa falando de todos os males que o pornô gera. Mas depois me parece que a chave para a cura do pornô está na moderação. O que você realmente quer dizer? Abolição ou moderação?

Felipe Stephan Lisboa disse...

Querida Luiza, não proponho nem a abolição nem a moderação do pornô. Na verdade o que trago é apenas uma reflexão. O que cada um vai fazer com esa reflexão, eu não sei. De toda forma, não vejo a pornografia nem como um grande mal nem como um grande bem, e sim como algo que certamente atende certos anseios humanos mas que, por outro lado, pode levar ao exagero por se tratar de uma espécie de fuga da realidade. Como quase tudo na vida, a pornografia é ambígua. Não tenho uma solução para lidar com ela e nem teria uma recomendação direta ao leitor. Somente o que me proponho a fazer é uma reflexão. Um abraço