segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A loucura do alpinista e a loucura de todos nós

Você já parou para pensar porque inúmeras pessoas ao redor do planeta escalam montanhas? Uma resposta simples para esta questão é que elas fazem isso com o objetivo de sair da rotina e viver algumas aventuras. Esta resposta vale, certamente, para a maioria dos montanhistas amadores que querem viver experiências leves que não impliquem em grandes riscos à vida. Mas como explicar o comportamento daquelas pessoas que decidem escalar montanhas extremamente perigosas como o Everest ou o K2? Por que diachos esses alpinistas profissionais decidem sair de casa, deixando para trás família e amigos, e passar "o pão que o diabo amassou" em escaladas extremamente longas e arriscadas nas quais inúmeras pessoas já morreram tentando alcançar o cume? Porque alguém se submeteria a tantas privações, a tanto frio e a tantos riscos "somente" para chegar no alto de uma montanha... e logo depois descer? Qual o sentido de uma atividade dessas? Aliás, há algum sentido nisso? Na minha visão, toda atividade humana tem algum sentido ou muitos sentidos, só precisamos analisar com o devido cuidado para encontrá-lo ou encontrá-los. Pois bem, o que me trouxe a todas estas questões foi, em primeiro lugar, a leitura do clássico livro-reportagem No ar rarefeito, do jornalista e alpinista profissional Jon Krakauer - que retrata uma expedição ao monte Everest feita por ele e outros alpinistas em 1996 e que resultou na morte de nove pessoas. Trata-se de uma obra fundamental e muitíssimo bem escrita sobre a atividade do alpinismo - aliás, Krakauer é autor de outras obras sobre o tema e também dos livros Na natureza selvagem, que inspirou o maravilhoso filme de Sean Penn, e Missoula: estupro e sistema judicial em uma cidade universitária, sobre o qual já escrevi anteriormente. Em segundo lugar, estes questionamentos me foram suscitados também pelos filmes Evereste e Meru - O centro do universo, ambos disponíveis no catálogo do Netflix. O primeiro é uma ficção baseada no livro de Krakauer (e rejeitada por ele) que retrata a famosa e trágica expedição de 1996, ao passo que o segundo é um belíssimo documentário que acompanha um grupo de três alpinistas de elite que alcançou, pela primeira vez, o topo do monte Meru, na Índia - e advinha quem é um dos principais entrevistados do filme? Sim, isso mesmo: Jon Krakauer.

Em determinado momento deste documentário, um dos alpinistas pergunta para si mesmo: "Por que fazemos este tipo de coisa?". E sua resposta é a mais simples possível: "Pela vista! Pela vista". É claro que observar uma bela paisagem pode ser um elemento a mais para motivar o sujeito a se engajar em uma escalada. Mas não acredito que esta seja a única e muito menos a principal motivação para o alpinista decidir abandonar momentaneamente sua vida cotidiana, viajar para um país distante e se expor a inúmeros riscos. Se houvesse algum motivo religioso para tal empreitada, que mais se assemelha, olhando friamente, a uma via crucis, eu até compreenderia mais facilmente, mas na maioria dos casos não há. O sujeito decide escalar o monte Everest não porque o sacrifício e a dor o reaproximarão de deus, mas por diversos outros motivos. Um deles pode estar relacionado ao anseio por se distanciar da vida urbana e se conectar à natureza. A grande questão é que para isso não é necessário ir até o Everest ou o K2, basta se deslocar para alguma reserva ambiental perto de casa. Um outro motivo, próximo a esse, pode estar relacionado ao desejo de se libertar, ainda que temporariamente, da rotina e das obrigações cotidianas. A ideia de ir para o Everest pode ser tentadora, neste sentido, já que se trata de uma escalada que dura vários meses - isto é, vários meses longe da "vida real". É possível pensar ainda que o desejo de escalar pode estar relacionado à busca por um senso de pertencimento a um grupo, já que o alpinismo é, em grande medida, uma atividade coletiva. Mas isto ainda não é suficiente para explicar, pois existem formas muito mais simples e menos arriscadas de se sentir parte de uma equipe - jogar futebol na quarta-feira à noite é uma possibilidade. Você não precisa escalar uma montanha perigosa para obter isso; além do mais, muitos alpinistas preferem escalar sozinhos. É possível argumentar também que o que move o alpinista é vontade de superar os próprios limites. Esse discurso de superação está presente na fala de muitos alpinistas no livro e nos filmes e aponta para um desejo de provar para si mesmo que é capaz de enfrentar todos os desafios. Krakauer, nesse sentido, propõe uma interpretação interessante. Segundo ele, os desafios de escalar uma montanha são mais claros e concretos do que os desafios regulares da vida e, portanto, mais "fáceis" de identificar, enfrentar e superar, mesmo quando são difíceis. Como aponta em certo momento, ao falar sobre a sua juventude: "O alpinismo se tornara o principal foco da minha existência, à exclusão de quase tudo o mais. Chegar ao topo de uma montanha era tangível, imutável, concreto. Os perigos subjacentes emprestavam ao ofício a seriedade de propósitos que em grande medida faltava ao restante da minha vida". 

Krakauer também enxerga a atividade de escalar montanhas como uma parte constitutiva de sua personalidade. Em certo momento do livro, ao falar sobre como a sua esposa aprendeu a lidar com suas constantes ausências para escalar, Krakauer afirma: "Linda acabou aceitando minhas escaladas: percebeu que era uma parte crucial  (ainda que incompreensível) daquilo que eu era. O alpinismo, e isso ela entendeu, era uma expressão essencial de algum aspecto estranho e imutável de minha personalidade que eu não conseguia mudar, assim como não poderia mudar a cor de meus olhos". No documentário Meru um dos alpinistas fala algo semelhante: ao perguntar para si mesmo "porque eu faço isso?" ele responde: "porque ou eu faço ou eu fico louco". É a 'loucura' do alpinismo que de certa forma "cura" ou redireciona a sua própria loucura. Uma outra interpretação possível - e que não exclui as demais - é que o alpinismo seria uma maneira não de superar a si mesmo (ou não somente de superar a si mesmo), mas de superar aos outros. Krakauer sinaliza também para esta possibilidade ao afirmar que a cultura do alpinismo/montanhismo é caracterizada "por uma competição intensa e por um machismo indisfarçável; a grande preocupação da maioria de seus integrantes era impressionar uns aos outros". Esta competição aparece, segundo ele, no esforço de muitos alpinistas para se diferenciar dos demais fazendo percursos arriscados sozinhos e com pouco ou nenhum apoio de tecnologias. Os sujeitos mais admirados pelos alpinistas costumam ser aqueles que se arriscaram mais - e que saíram vivos, claro. Mas mesmo aqueles que morreram fazendo algo ousado e tentando superar os limites estabelecidos e os próprios limites, são vistos também como heróis ou mártires, isto é, como sujeitos corajosos que  ousaram enfrentar o desconhecido e o imprevisível. Aliás, uma outra interpretação possível sobre esta atividade é justamente que ela permite ao ser humano explorar o mundo para além daquilo que é conhecido. A ideia de estar onde nenhum outro ser humano esteve é bastante tentadora para algumas pessoas, em especial para os alpinistas profissionais. Aliás, no livro A simples beleza do inesperado, o físico e divulgador científico Marcelo Geiser (sobre o qual já escrevi anteriormente) diz algo que se encaixa perfeitamente nesta interpretação: "Muito do conhecimento humano vem da nossa ânsia de querer ver o que está além do imediato. Talvez essa seja a característica mais marcante da nossa espécie. Os outros animais querem segurança. Para isso repetem uma rotina familiar, dentro de padrões de comportamento comprovados pelo tempo, que evitam o risco. Mesmo as espécies migratórias não podem ser chamadas de exploradoras: qualquer desvio da rota tradicional pode ser letal. Já os seres humanos precisam explorar o desconhecido, submetendo-se muitas vezes a condições extremamente incômodas e mesmo ameaçadoras para alcançar seu objetivo. Nós nos arriscamos como indivíduos e nos arriscamos coletivamente, tentando expandir nossas fronteiras para além do conhecido".

Bom, para finalizar esta discussão - sem pretender esgotá-la, claro -, gostaria de trazer uma última questão: é possível dizer que a escolha de escalar montanhas perigosas como o Everest e o Meru é uma escolha racional? No entendimento de Krakauer a resposta é negativa. Como ele afirma logo na introdução do seu livro, "havia muitas e ótimas razões para não ir, mas tentar escalar o Everest é um ato intrinsecamente irracional - um triunfo do desejo sobre a sensatez. Qualquer pessoa que contemple tal possibilidade com seriedade está quase que por definição além do alcance de argumentos racionais". Eu não tenho como discordar dele, mas penso que o mesmo vale para todas ou quase todas as escolhas que fazemos. Ou você acredita que as escolhas humanas são puramente racionais? Quando decidimos nos relacionar com determinada pessoa, viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, o que está em jogo não é simplesmente a nossa razão ou um cálculo frio de prós e contras. Há muita emoção envolvida em cada escolha humana. E eu diria mais: sem nossas emoções teríamos muita dificuldade para escolher - muito provavelmente ficaríamos eternamente avaliando prós e contras sem nunca conseguirmos tomar uma decisão final. É a emoção que dá peso e valor aos prós e aos contras e nos permite, enfim, escolher qual caminho iremos seguir. E isto vale tanto para a escolha de escalar ou não o monte Everest quanto para as demais escolhas da nossa vida. Em todos estes casos, podemos pensar, pensar e pensar a respeito de todas opções disponíveis e sobre as possíveis consequências de cada uma de nossas ações, mas isto não será suficiente para tomarmos uma decisão. Pensar demais não ajuda a escolher; pelo contrário, muitas vezes acaba atrapalhando. Por outro lado, estar atento às nossas emoções - mas sem ignorar a razão - costuma ajudar. É claro que por vezes as emoções podem nos levar para caminhos que posteriormente julgamos equivocados, mas não há o que fazer. Toda escolha, seja ela guiada majoritariamente por nossa razão ou por nossas emoções ou por ambas, é sempre um ato de coragem. Isto significa que se o sujeito decidiu escalar o Monte Everest ou se relacionar com determinada pessoa ou viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, ele tomou uma decisão corajosa - tão racional e irracional quanto qualquer outra decisão de sua vida. Enfim, os alpinistas não são irracionais por escolherem escalar uma montanha perigosa. Na verdade, se eles são "loucos" em alguma medida, eles são tão "loucos" quanto todos nós. 

Observação 1: um exemplo interessante de como as emoções são necessárias para os processos de decisão pode ser encontrado no clássico O erro de descartes, do neurocientista português Antônio Damásio. Neste livro, o autor relata o agora famoso caso de Elliot, um homem que teve uma parte de seu córtex cerebral retirada devido a um tumor, o que resultou em uma terrível perda em sua capacidade emocional. Ao ser exposto, por exemplo, a imagens perturbadoras - que deixariam qualquer um de nós no mínimo incomodados - Elliot não se afetava de forma alguma. E esta incapacidade de sentir e expressar emoções gerou no sujeito uma debilitante incapacidade para decidir. Ao se deparar com uma escolha qualquer, Elliot não conseguia imprimir valor emocional à cada uma das opções e com isso nunca chegava a uma decisão final.

Observação 2: o jornal El País publicou no início deste ano uma interessante entrevista com o alpinista espanhol Kilian Jornet, que escalou o Everest duas vezes em seis dias sem corda nem oxigênio extra. Refletindo sobre seus feitos, ele afirmou, bem na direção da minha conclusão: “Me chamam de louco, mas todos vivem a sua loucura para sentir alguma coisa”. Exatamente!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Precisamos falar sobre... ansiedade

Tenho que confessar: sou uma pessoa extremamente ansiosa. Sim, eu sou psicólogo e, supostamente, eu não deveria sentir ansiedade ou tristeza ou raiva ou medo. Eu deveria ter apenas belos sentimentos como a alegria, o amor e a gratidão. Eu deveria ser uma pessoa totalmente zen e bem-resolvida. Afinal, como eu posso pretender ajudar as pessoas se eu próprio sinto muito do que os meus pacientes sentem? Como eu poderia auxiliar pessoas ansiosas se eu próprio sou ansioso? Quando comecei a atender, há cerca de 10 anos, eu ficava, como todo bom ansioso, muito preocupado com isso, mas aos poucos fui entendendo que esta era uma preocupação inútil e despropositada - como grande parte das preocupações que temos. Eu podia negar ou tentar construir uma ilusão a meu respeito e a respeito dos psicólogos em geral, mas o fato, um tanto óbvio - e o mais difícil, por vezes, é perceber o óbvio - é que eu sou um ser humano como qualquer outro e estou sujeito aos mesmos sentimentos e problemas que todo mundo. E eu posso ajudar outras pessoas não porque eu sou perfeito ou bem-resolvido, o que não é nem poderia ser verdade, mas porque eu possuo formação, experiência e legitimidade profissional, conhecimento técnico, disposição para me aproximar da realidade do paciente/cliente e vontade de contribuir com seu aperfeiçoamento enquanto ser humano. Além disso, sempre fiz e continuo fazendo terapia, de forma a estar consciente e atento às minhas falhas e limitações enquanto pessoa e enquanto terapeuta. E mais: na relação terapêutica eu observo e analiso os problemas e dilemas das pessoas com uma certa distância, pois não estou diretamente envolvido em suas questões. E isso me possibilita uma  atuação ao mesmo tempo próxima (pois se trata de uma relação com um certo grau de intimidade) e distante (pois se trata de uma relação profissional) - e por óbvio eu não consigo manter a mesma distância das minhas próprias questões. Enfim, aos poucos fui entendendo que por mais que eu quisesse, eu não teria como escapar dos meus próprios sentimentos. Feliz ou infelizmente, eu estou tão sujeito à ansiedade, ao medo e a tristeza quanto qualquer um - assim como um bombeiro está sujeito a ter um incêndio em sua casa ou um médico está sujeito a ficar doente. A grande conclusão é que, no fim das contas, somos todos humanos. E o ser humano, por sua própria natureza, é problemático e vulnerável. E também ansioso.

Existem cachorros ansiosos?
E eu diria mais: o ser humano é o único animal ansioso. Ou você já viu algum outro animal demonstrando ansiedade? Aposto que algumas pessoas diriam que sim: "Ah, mas meu cachorro é super-ansioso. Ele não para um segundo e vive roendo e destruindo os móveis lá de casa". Ok, ele de fato me parece agitado e um tanto estressado, mas será que realmente ele está ansioso? Não creio. No meu entendimento, a ansiedade diz respeito à uma relação do sujeito com o futuro. É o futuro, ou melhor, a imaginação deste futuro, que pré-ocupa o ansioso, fazendo com que ele tenha, no presente, uma série de reações corporais e comportamentais extremamente incômodas. E, pelo que se saiba, somente os seres humanos concebem e planejam o futuro com a complexidade que o fazemos. Todos (ou quase todos) os outros animais, e também as crianças pequenas, vivem essencialmente o presente e não tem a capacidade de projetar ou imaginar o que virá, para além de um futuro próximo. Certamente todos estes seres sentem medo e ficam estressados, mas não ansiosos. A diferença é que o medo e o estresse são reações ao que está acontecendo com o sujeito neste exato momento (por exemplo, ao visualizar uma cobra ou realizar uma prova), ao passo que a ansiedade é uma espécie de medo daquilo que ainda não aconteceu ou do que se imagina que irá acontecer. Como sempre digo aos meus pacientes, a ansiedade é a "síndrome do E se?". E se eu começar a namorar e a pessoa me trair? E se eu casar e me arrepender? E se eu viajar e o avião cair? E se eu engravidar e o filho morrer? E se ele sobreviver e eu não der conta de educá-lo? E se eu for demitido? E se eu não for demitido e continuar frustrado com meu trabalho? E se eu desenvolver um câncer? E se eu envelhecer e for abandonado por todos? Quem é ansioso certamente vive com vários "e se's" martelando na cabeça grande parte do tempo - mas não todos os "e se's", já que a pessoa ansiosa se foca essencialmente nas possibilidades negativas, ignorando solenemente as possibilidades positivas (de por exemplo, o avião não cair, do filho não morrer ou da demissão não ocorrer). Na cabeça do ansioso o futuro será sempre trágico e triste e nada pode ser feito para evitar.

É possível prever o futuro?
O ansioso, em geral, não suporta a ideia de não ter o controle sobre o rumo dos acontecimentos. Se tem uma coisa que o tira do sério é a incerteza. Não saber o que vai acontecer ou se determinada coisa vai acontecer exatamente da forma como ele gostaria que acontecesse, tira o ansioso do eixo. Tudo o que ele quer é ter a certeza de que tomou a decisão correta, de que as coisas vão dar certo e de que, enfim, sua história terá um final feliz. O grande problema é que a vida é repleta de incertezas e fazer uma escolha, quase sempre, é mergulhar no desconhecido. Podemos pensar e ponderar com cuidado sobre todas as opções, mas nunca saberemos de fato quais serão as consequências das nossas decisões. Embora sejamos os únicos animais com capacidade para imaginar o futuro, não somos muito bons em prever o que de fato irá acontecer. Só o que nós fazemos (na verdade, só o que podemos fazer) é imaginar - e o pensamento ansioso se constitui como mais uma maneira de imaginar o que irá ocorrer. Mas a questão é que não temos como saber. Façamos um exercício: tente imaginar como estará o mundo e a sua vida daqui a 20 anos? Agora suponhamos que exista uma máquina do tempo que pudesse te levar imediatamente ao ano de 2037. Será que você encontraria as coisas exatamente como as imaginou? Difícil saber, pois se trata de um exercício de imaginação, mas eu arrisco uma resposta: duvido muito! E como eu posso fazer tal afirmação? É simples: basta observarmos as previsões que foram feitas no passado sobre o mundo atual. Embora elas tenham acertado em alguns pontos, erraram terrivelmente em muitos outros. Deem só uma olhada nas imagens abaixo, que foram feitas no final do século XIX pelos ilustradores franceses Jean-Marc Côté e Villemard (utilizei a última delas na conclusão do meu livro O cérebro vai à escola). Eles tentaram imaginar, em 1899, como seria o mundo no ano 2000. Analise as imagens atentamente e tente observar o que eles acertaram e o que erraram.






E então: nós temos atualmente barbearias mecanizadas? Passeios conduzidos por baleias no fundo do mar? Máquinas para fazer a limpeza doméstica? Bombeiros voadores? Equipamentos que transferem o conhecimento dos livros diretamente para o cérebro dos estudantes? A resposta para quase todas estas perguntas é um sonoro "Não!". A única previsão relativamente acertada dos ilustradores foi a existência de máquinas autônomas para limpeza doméstica, que já são vendidas, mas ainda estão longe de serem baratas, populares e realmente úteis. Enfim, esses ilustradores podem até ter acertado algumas de suas previsões ou parte delas, mas no geral eles erraram vertiginosamente, assim como nós muito provavelmente erraremos ao imaginar o nosso futuro e também como possivelmente nós erramos na previsão que fizemos da nossa vida no passado. Tente se lembrar de como você imaginava, quando criança, que seria a sua vida quando você tivesse a sua idade atual? Você acertou sua previsão? Como os ilustradores, você pode até ter acertado em alguns aspectos, mas muitos outros você deixou passar ou simplesmente não conseguiu imaginar. E o motivo para isso é simples e um tanto óbvio: os rumos da vida e do mundo são imprevisíveis. Podemos até especular, imaginar, conjecturar, mas não temos como saber com precisão o que irá acontecer.

“O medo nos mantêm vivos", diz o pai Crood.
Bom, agora que já compreendemos minimamente algumas características da ansiedade, eu gostaria de trazer uma outra questão: por que, afinal de contas, somos ansiosos? Se a ansiedade é tão ruim para quem a sente, porque o processo de seleção natural não simplesmente eliminou a ansiedade da nossa mente? O desenho animado Os Croods pode nos ajudar a explicar esse aparente paradoxo. Neste filme, acompanhamos uma família pré-histórica liderada por um pai que morre de medo do mundo exterior. Eles moram todos juntos numa caverna e são constantemente advertidos por esse pai dos perigos do lado de fora. “O medo nos mantêm vivos. Nunca deixe de ter medo”, diz o pai como uma espécie de mantra. Pois bem, será que esse pai tem razão em defender a necessidade do medo? Na minha visão, esta recomendação faz todo sentido, tanto no mundo ficcional em que eles vivem quanto, em certa medida, no mundo real. Afinal de contas, o mundo deles, assim como o nosso, está repleto de perigos e riscos. Simplesmente ignorá-los não me parece uma boa estratégia de sobrevivência. Pense, por exemplo, em programas como o Largados e pelados do Discovery Channel: se os participantes forem tranquilos demais, provavelmente se darão mal. Um pouco (e até um tanto) de ansiedade num contexto de luta por sobrevivência não faz mal a ninguém; pelo contrário, pode favorecer a vida. Mas o mesmo vale, em alguma medida, para o contexto da vida de cada um de nós. Pré-ocupar-se com algumas coisas pode favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis. Por exemplo, se você fica ansioso com uma viagem de carro, isto pode fazer com que você dirija com mais cuidado; se você se preocupa com a possibilidade de ter um infarto na meia-idade isso pode fazer com que você se engaje em atividades físicas; se você vê um cachorro na rua e sente medo dele, isto provavelmente fará com que você se afaste e evite uma mordida. Em todos estes casos, a ansiedade ou o medo podem favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis que estão sob nosso controle, mas o grande problema começa quando a ansiedade e o medo ultrapassam todos os limites e ao invés de ajudar começam a atrapalhar. 

Pois bem, uma dificuldade comum na área da saúde mental é definir quando determinado sentimento ou comportamento deixa de ser "normal" e se torna "patológico". Já discuti esta questão infinitas vezes neste blog - e até já escrevi uma monografia sobre isso - e o resumo da história é o seguinte: 1) existem muitos pontos de vista e nenhum consenso sobre o que é "normal" na área de saúde mental - aliás, não há consenso nem sobre o que é "saúde" nem sobre o que é "mental";  2) o que é entendido como "normal" varia de lugar pra lugar, de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e também ao longo do tempo; 3) as classificações e definições presentes nos "manuais de doença" (CID e DSM) são modificadas de tempos em tempos e representam apenas maneiras peculiares, dentre muitas outras, de se compreender os "transtornos mentais". No caso específico da ansiedade, diferenciar a "ansiedade normal" da "ansiedade patológica" não é uma tarefa nada simples. Pessoalmente - na verdade, profissionalmente - eu tento me distanciar o quanto posso da linguagem e da lógica psiquiátricas. Quando um sujeito me procura, simplesmente não me interessa qual o seu diagnóstico - se é "transtorno de ansiedade generalizada", "transtorno do pânico" ou "transtorno obsessivo-compulsivo". O que eu quero de fato saber é o que ele sente, o que ele pensa e porque ele se comporta de tal ou qual maneira. O que é normal, nesse sentido, só pode ser definido pelo próprio sujeito e não por classificações ou critérios externos a ele. Só o sujeito pode dizer se a ansiedade que ele sente é ou não é normal. Assim, se ele me disser que sua ansiedade está exagerada eu simplesmente acreditarei em suas palavras e tentarei ajuda-lo a compreender seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e a buscar estratégias que permitam o controle da sua ansiedade.

Pois, de fato, só o controle é possível, não a cura. Aliás, vi outro dia em uma livraria da minha cidade uma obra chamada "O fim da ansiedade" e sempre me deparo na internet com cursos ou sites que prometem "acabar com a ansiedade" das pessoas. Sinto dizer que nada disto é possível. A dolorosa verdade é que a ansiedade é parte constituinte de nós, seres humanos, assim como a tristeza, o medo e a raiva - e também a alegria e o amor. Certamente nós podemos aprender a controlar algumas de suas manifestações e efeitos e até buscar tratamento psicológico e psiquiátrico quando ela extrapola nossos próprios limites e começa a trazer muitos prejuízos, mas acabar com ela simplesmente não é possível. E o motivo é simples: só acabaríamos com a ansiedade se conseguíssemos deixar de pensar no futuro e/ou se conseguíssemos pensar somente nas possibilidades positivas. Se você conseguisse eliminar de forma permanente os pensamentos negativos sobre o futuro de sua mente, substituíndo-os por pensamentos positivos, aí sim você chegaria ao "fim da ansiedade". Porém, ao contrário do que pregam os "gurus do pensamento positivo", isto não é possível e muito menos desejável. Afinal de contas, a vida não é, nem será no futuro, simplesmente positiva. A vida é quase sempre contraditória e ambígua: boa e ruim ao mesmo tempo - boa em alguns aspectos, ruim em outros, boa em alguns momentos, ruim em outros - a depender, claro, da forma, como avaliamos estes aspectos e estes momentos. Imaginar que tudo dará sempre certo, que não haverá sofrimento e que o final será necessariamente feliz, não passa de uma forma de ilusão - assim como o pensamento contrário de que tudo dará sempre errado, de que só haverá sofrimento e de que o final será necessariamente infeliz. Um pensamento muito mais maduro e realista e que pode ajudar a diminuir a ansiedade, é admitir para si mesmo: "Eu não sei como será o futuro, pois tenho apenas o controle parcial do rumo dos acontecimentos. Pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu temo, pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu gostaria, pode ser que as coisas não aconteçam da forma como eu gostaria mas pode ser que eu me adapte. Ou pode ser que as coisas aconteçam de uma forma totalmente diferente do que eu tenho capacidade de imaginar atualmente. Eu não tenho como prever o que irá acontecer".

Aceitar a falta de controle, mais do que tentar imaginariamente controlar o incontrolável, pode ser um importante passo para diminuir o nível de ansiedade. É claro que isto não é algo simples de se obter e muito menos de se manter, mas certamente uma terapia pode ajudar muito nesse processo de aceitação. Existem também outras atitudes que podem (repito: podem) ajudar no controle da ansiedade. Tudo aquilo que eu recomendei no post sobre concentração, vale igualmente para a ansiedade: ioga, meditação, tai chi chuan, atividades físicas em geral, etc. E o motivo é simples: estar concentrado em algo significa estar focado no presente - e não no passado ou no futuro. E tudo o que te traz ao presente ajuda a melhorar a concentração e também a diminuir a ansiedade. Se você está focado no aqui-e-agora, o futuro, neste exato instante, não existe, e, logo, não há ansiedade. É claro que é impossível permanecer focado no presente todo o tempo. Muitas vezes pensaremos no que passou - e ficaremos tristes ou alegres a depender se o pensamento foi relativo a um momento bom ou ruim do passado. Muitas outras vezes pensaremos no que virá - e ficaremos alegres ou ansiosos ou a depender se o pensamento é relativo a uma expectativa boa ou ruim do futuro. Esta oscilação passado-presente-futuro faz parte da vida, não há o que fazer, assim como não há como evitar que a ansiedade lhe visite de vez em quando. Alguns remédios de fato podem ajudar a acalmar um pouco aquelas pessoas que se encontram em níveis elevados de ansiedade e que provavelmente já possuem consequências físicas relacionadas ao problema (enxaqueca, bruxismo, problemas de estômago ou intestino, alterações no sono, etc), mas nenhuma medicação tem a capacidade de eliminar permanentemente a ansiedade. De fato, alguns remédios e atividades como meditação e o ioga, auxiliam a acalmar o corpo e, por conseguinte, a mente - já que mente e corpo estão intrinsecamente conectados - mas nenhum remédio ou atividade de relaxamento tem a capacidade de desligar por completo os nossos pensamentos - e se pensamos, podemos pensar no futuro e ficar ansiosos. Só o que podemos fazer é tentar relaxar o corpo e a mente, buscar nos conectar sempre que possível com o aqui-e-agora e nos esforçar para aceitar que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Pessoalmente, tenho que confessar que ainda não atingi este nível de aceitação, mas espero um dia poder dizer com convicção e sinceridade as belas palavras de Paulo Leminski: "Não discuto com o destino. O que pintar eu assino". 

Sugestão de leitura: O livro definitivo da ansiedade

domingo, 12 de novembro de 2017

Anatomia de uma imagem: uma reflexão sobre os usos e abusos das imagens cerebrais

"Normal" versus "Negligência extrema""
Foi através de um grupo de estudo que participo, o GENE - Grupo de Estudos em Neurociência e Educação, que fiquei sabendo de uma reportagem publicada no portal BOL no último dia 4 de Novembro denominada "Imagens de dois cérebros infantis mostram a diferença que o amor dos pais faz". A reportagem começa afirmando que duas tomografias divulgadas pelo Texas Children's Hospital (veja imagem ao lado) "deixam clara a diferença que o amor dos pais ou cuidadores faz no desenvolvimento dos bebês. O cérebro da direita, que é menor e tem estruturas mais obscuras, pertence a um bebê que viveu quase toda a vida com uma família abusiva. Já o da esquerda, visivelmente maior, vive com uma família amorosa e feliz". Mais à frente, a reportagem traz um depoimento do professor Bruce Perry, chefe de psiquiatria do referido hospital, para quem "estas imagens mostram o impacto negativo que a negligência e os maus-tratos têm no desenvolvimento do cérebro do bebê e criança. Este cérebro da direita é bem menor do que a média esperada para esta idade e tem ventrículos aumentados e atrofia cortical. Essencialmente, isso significa que o bebê da direita vai sofrer com atrasos no desenvolvimento e problemas de memória". Eu não tenho dúvidas de que o amor e o cuidado dos pais, especialmente na primeira infância, são fundamentais para a saúde e o bem-estar das crianças. Também não tenho dúvidas de que a negligência e os maus tratos podem afetar negativamente o desenvolvimento cerebral e cognitivo delas. Por outro lado, eu tenho muitas dúvidas com relação a esta reportagem e, especialmente, com relação a esta imagem.

Comecemos pela reportagem. A primeira grande dúvida é: quem é o(a) repórter? Não encontrei em nenhum lugar o nome de quem escreveu esta matéria. E isto é muito perigoso, afinal de contas, nenhuma pessoa física está se responsabilizando por seu conteúdo - apenas a pessoa jurídica do portal. Minha intuição é que a matéria não foi escrita por um jornalista - ou então por um jornalista muito ruim ou muito apressado. Afinal de contas, a matéria comete uma série de erros jornalísticos primários. Em primeiro lugar, quando a matéria aponta para "duas tomografias divulgadas" ela não responde três questões básicas: 1) Quando foram divulgadas? 2) Quem divulgou? e 3) Aonde podemos encontrar esta divulgação? Com relação à primeira questão, de fato não há qualquer indicação da data em que as tomografias foram divulgadas. Pois eu pesquisei e descobri a resposta: elas foram divulgadas em um trabalho apresentado no Encontro Anual da Sociedade de Neurociência dos Estados Unidos no ano de 1997. Sim, queridos leitores, a reportagem apresenta como uma grande novidade os resultados preliminares de um trabalho apresentado 20 anos atrás. Com relação à segunda questão (quem divulgou?) a reportagem cita o nome do professor Bruce Perry, mas não deixa claro qual o papel dele nesta pesquisa. Pois bem, no referido trabalho podemos observar que ele é o primeiro autor do paper, escrito conjuntamente com o neurologista Ronnie Pollard - que sequer é mencionado pela reportagem. Na verdade, eu aposto que o "repórter" não leu o trabalho original, tendo se baseado no máximo em outras reportagens sobre o tema - escritas provavelmente por repórteres que também não leram o trabalho original. Finalmente, com relação à última questão (aonde podemos encontrar esta divulgação?), a matéria se limita a dizer que foi escrita "com informações do Daily Mail". E você, por acaso, sabe o que é o Daily Mail? Simplesmente um dos jornais menos confiáveis do mundo - tanto que o Wikipedia baniu a utilização de matérias do jornal como fonte para seus verbetes. Os editores da Wikipedia justificaram esta atitude em função da "reputação do jornal de verificação insuficiente de fatos, sensacionalismo e produção acelerada". Pois foi justamente nesta fonte que se baseou o "repórter" do BOL para escrever sua matéria. 

Passemos agora para a imagem em si. Como disse anteriormente, a imagem com as duas tomografias foi publicada originalmente em um trabalho apresentado em 1997 - denominado Altered brain development following global neglectin early childhood, que poderíamos traduzir por "Desevolvimento cerebral alterado subsequente à negligência global na primeira infância". Pois bem, neste trabalho, os já referidos autores pretenderam estudar o desenvolvimento cerebral de crianças negligenciadas na primeira infância. Para tanto, analisaram três medidas de crescimento cerebral (altura, peso e circunferência fronto-occiptal) em um conjunto de 122 crianças negligenciadas - recrutadas através do Serviço de Proteção à Criança e de outras agências de acompanhamento de crianças abusadas e negligenciadas. Estas 122 crianças foram avaliadas e, posteriormente, classificadas em quatro grupos: 1) Negligência Global (40); 2) Negligência Global com exposição pré-natal a drogas (18); 3) Negligência Caótica (36) e 4) Negligência Caótica com exposição pré-natal a drogas (28) - no paper eles explicam a diferença entre os dois tipos de negligência, mas para simplificar é possível dizer o seguinte: a Negligência Global é mais severa que a Negligência Caótica. Importante ressaltar que das 122 crianças, 43 foram avaliadas com equipamentos de neuroimagem (Ressonância Magnética e Tomografia Computadorizada) ao passo que as demais foram avaliadas de forma mais simplificada, através da medição da circunferência do crânio. Uma possível falha do estudo é que eles não avaliaram, para fins de comparação, crianças não-negligenciadas. Eles apenas compararam as medidas das crianças negligenciadas com os parâmetros médios utilizados pelos pediatras em seus consultórios. No caso dos exames de neuroimagem, um grupo de neuro-radiologistas analisou as imagens e as classificou como normais ou anormais tendo em vista os parâmetros definidos pelos pediatras.

E quais foram os resultados desta pesquisa? Bom, os pesquisadores encontraram, no caso das medições simples, "dramáticas diferenças" na circunferência fronto-occiptal das crianças "globalmente negligenciadas" quando comparadas com os parâmetros pediátricos - nenhuma diferença significativa foi encontrada no caso daquelas "caoticamente negligenciadas". Já no caso dos exames de imagem, os neuro-radiologistas classificaram 3 das 26 imagens referentes a crianças com negligência caótica como anormais (11,5%) assim como 11 das 17 imagens referentes a crianças com negligência global (64,7%). Os especialistas também apontaram para um aumento nos ventrículos e para uma atrofia no córtex em uma significativa parcela das crianças globalmente negligenciadas. Poucas anormalidades em áreas específicas do cérebro foram observadas. De uma forma resumida, estes dados apontam para a seguinte conclusão: foram encontradas significativas diferenças na estrutura cerebral de crianças "fortemente" negligenciadas quando comparadas com o esperado para crianças das mesmas idades - o mesmo não ocorrendo com crianças "medianamente" negligenciadas. Importante ressaltar que nada é dito sobre o funcionamento do cérebro, já que o estudo se focou apenas em seus aspectos estruturais. Mas um dado que não pode passar despercebido é que um número significativo das imagens cerebrais de crianças negligenciadas foi considerado normal pelos especialistas - das 43 imagens, 26 foram avaliadas como sendo normais, o que equivale a cerca de 60%. Certamente, dentre as crianças fortemente negligenciadas, esse percentual cai para 35%, mas mesmo nesse grupo mais vulnerável é possível observar que algumas crianças se enquadram dentro dos parâmetros esperados. Isto não significa, cabe observar, que elas não foram afetadas pela negligência, mas que se o foram, isto não gerou mudanças na estrutura cerebral detectáveis pela metodologia utilizada. Mas e a famosa imagem? Pois bem, ela aparece no final do estudo e é apresentada como algo que ilustra toda a discussão sobre o impacto da negligência. Sobre ela é dito o seguinte - e eles se referem à imagem no plural por se tratar, na verdade, de duas imagens: "Estas imagens ilustram o impacto negativo da negligência no cérebro em desenvolvimento. Na tomografia da esquerda está a imagem de uma criança saudável de três anos de idade com um tamanho de cabeça médio. Já a imagem à direita  vem de uma criança com três anos de idade que sofreu severa negligência com privação sensorial. O cérebro desta criança é significativamente menor que a média e possui um desenvolvimento anormal do córtex". 

Nada mais é dito sobre a imagem. Não ficamos sabendo, por exemplo, quais são as histórias de vida destas duas crianças cujas imagens cerebrais foram escolhidas para ilustrar o estudo. Só o que sabemos é que uma delas possui um tamanho de cabeça dentro da média assim como um cérebro "normal" - e que imagino que não tenha sido negligenciada, embora isto não esteja dito - e que a outra possui uma cabeça menor assim como um cérebro "anormal", devido às negligências. Mas que negligências foram essas? O texto fala apenas em negligência com privação sensorial, mas não discorre de forma mais aprofundada sobre como isto ocorreu. O que me parece que os autores fizeram foi contrapor a imagem cerebral de uma "criança média" - imagem esta que provavelmente não foi feita por eles, já que no referido estudo não foram avaliadas crianças não-negligenciadas - com a imagem cerebral de uma criança que passou por uma experiência extrema de negligência. Certamente, das 43 crianças que foram escaneadas, muitas tinham um cérebro maior e mais próximo da média, mas para gerar um impacto visual eles provavelmente escolheram expor o menor cérebro. Alguns podem estar se perguntando: mas qual o problema disso? Se a intenção dos autores é chamar a atenção para o importante tema da negligência infantil, qual o problema em distorcer um pouco as coisas? Bom, minha crítica não diz respeito diretamente aos autores. Eles estavam apenas apresentando os resultados preliminares de uma pesquisa em um congresso e decidiram apresentar uma imagem que ilustra o problema - e ela realmente ilustra o problema. Minha crítica está na forma como essa imagem foi utilizada ao longo dos anos. A reportagem do BOL, por exemplo, desvinculou-a completamente do trabalho original e a apresentou como se fosse representativa de todos os casos de negligência - quando se trata apenas de uma comparação entre o tamanho de dois cérebros individuais. E dois cérebros não representam todos os cérebros do mundo, pois existe uma enorme variação no tamanho e na estrutura cerebral entre as pessoas - e também inúmeras formas e níveis de negligência. Algumas crianças negligenciadas têm uma diminuição no tamanho total do cérebro, mas outras se desenvolvem normalmente. Não há uma regra única que valha para todos os casos. Cada pessoa é única e cada cérebro se desenvolve de uma maneira. E isto ocorre devido à neuroplasticidade, que pode ainda permitir às crianças negligenciadas superar um momento inicial de abandono e violência e desenvolver suas funções cerebrais e cognitivas de forma semelhante, ainda que não igual, às outras crianças. Enfim, a imagem dos dois cérebros, dependendo da forma como é interpretada, pode levar à entendimentos díspares. Se por um lado pode ser lida como um alerta sobre a importância do cuidado e do afeto nos momentos iniciais da criança, por outro lado ela pode levar à uma visão determinista de que se houver uma negligência nos primeiros anos, ocorrerão danos permanentes na estrutura cerebral, que jamais poderão ser superados. De fato, em alguns casos, a recuperação é difícil e lenta, mas existem muitos casos de superação, que não podem ser desconsiderados. Cada caso é um caso.

Observação: em uma interessante reportagem publicada pelo jornal The Guardian (denominada "É errado a neurociência definir as políticas de proteção à criança e aos primeiros anos?"), a colunista Zoe Williams escreve o seguinte sobre a famosa imagem: "Val Gillies, pesquisador em política social da Universidade de South Bank, afirma sobre os scans: 'Essa ilustração do cérebro é de um trabalho apresentado por Bruce Perry. Não há detalhes sobre a história de vida das crianças. Nós não sabemos o que significa 'normal'. Não sabemos o que significa 'negligência extrema'. Nem sequer temos uma escala de tamanho na imagem. Ela tem um impacto poderoso, mas eu nunca vi outra imagem como essa. Quando as pessoas dizem: 'Eu vi uma imagem cerebral mostrando o que negligencia faz ao cérebro' é dessa imagem que elas estão falando". De imediato é possível observar inúmeros erros na imagem: sem detalhes sobre o estudo de caso, exceto pelo fato de que "negligência extrema" significava viver em um orfanato romeno [PS: isto não está claro no trabalho original], poderíamos estar lidando com qualquer coisa, desde os efeitos da desnutrição até a deficiência. Mas mesmo sem o drama da imagem, o uso dessas populações extremas é enganador. Sue White, professora de serviço social da Universidade de Birmingham, explica: 'Se você tem médicos trabalhando com crianças sintomáticas, obviamente traumatizadas, olhando para seus marcadores neurobiológicos para ver o que está acontecendo, esta é uma área legítima de estudo. Eles estão tentando desenvolver tratamentos para elas. Mas não existe uma população de pessoas 'normais' com as quais esses mesmos exames podem ser feitos. Você não pode simplesmente retirar um conjunto de crianças do ensino fundamental e colocá-las em um scanner cerebral. Pois existe um grupo de militantes do bem-estar da infância que, penso eu, por razões muito bem intencionadas, aproveitaram os resultados desses casos extremos para dizer: 'Precisamos de muito investimento nos primeiros anos porque olhe o que acontece nos cérebros das crianças se elas são criadas com privações'. O fato é que a maioria das crianças não é comparável".
divulgadas pelo Texas Children's Hospital, nos Estados Unidos, ... - Veja mais em https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/ciencia/2017/11/04/imagens-de-dois-cerebros-infantis-mostram-a-diferenca-que-o-amor-dos-pais-faz.htm?cmpid=copiaecola
Imagens de dois cérebros infantis mostram a diferença que o amor dos pais faz... - Veja mais em https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/ciencia/2017/11/04/imagens-de-dois-cerebros-infantis-mostram-a-diferenca-que-o-amor-dos-pais-faz.htm?cmpid=copiaecola
Imagens de dois cérebros infantis mostram a diferença que o amor dos pais faz... - Veja mais em https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/ciencia/2017/11/04/imagens-de-dois-cerebros-infantis-mostram-a-diferenca-que-o-amor-dos-pais-faz.htm?cmpid=copiaecola

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

De que forma o foco em pessoas ricas e escolarizadas distorceu as pesquisas cerebrais

No dia 31 de Outubro, a revista The Atlantic publicou um excelente artigo do jornalista científico Ed Yong denominado "How a Focus on Rich Educated People Skews Brain Studies". Segue a tradução que fiz desse texto, cuja versão original pode ser lida aqui. Aliás, este é o segundo artigo de Yong que traduzo para este blog. O primeiro pode ser lido aqui.

Em 1986, o psicólogo social David Sears alertou seus colegas que o hábito de estudar quase exclusivamente estudantes universitários estava produzindo um retrato estranho e distorcido da natureza humana. Ele não foi o primeiro a fazer essa crítica, nem o último: décadas mais tarde, outros psicólogos observaram que as ciências sociais tendiam a se focar em pessoas das sociedades WEIRD - isto é, das sociedades ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas [no original, WEIRD: western, educated, industrialized, rich and democratic]. Os resultados de tais estudos são frequentemente interpretados como sendo representativos da humanidade como um todo, ainda que seus participantes tenham sido retirados de uma "parcela particularmente pequena e incomum" do gênero humano.

As mesmas preocupações foram levantadas em praticamente todas as áreas da ciência que envolvem pessoas. Os geneticistas aprenderam mais sobre o DNA das pessoas da Europa e América do Norte do que do resto do mundo, onde existe uma maior diversidade genética. O chamado Human Microbiome Project  (Projeto Mircrobioma Humano) se constituiu, de fato, como Urban-American Microbiome Project (Projeto Microbioma dos Norte-americanos Urbanos), já que seus participantes eram quase inteiramente de St. Louis e Houston, nos EUA.

A neurociência enfrenta os mesmos problemas. Quando os cientistas utilizam scanners para investigar a estrutura e o funcionamento do cérebro humano, esses cérebros costumam pertencer a pessoas ricas e escolarizadas. E a menos que os pesquisadores tomem medidas para corrigir esse viés, o que obtemos é uma compreensão do cérebro que é incompleta, distorcida e, bem, um pouco estranha.

Kaja LeWinn, da Universidade da Califórnia, em São Francisco, demonstrou isso re-analizando os dados de um grande estudo que escaneou 1162 crianças e jovens entre 3 e 18 anos para ver como seus cérebros mudavam à medida que cresciam. Os jovens vieram desproporcionalmente de famílias ricas e escolarizadas, então LeWinn ajustou os dados para ver como iria ficar se eles fossem mais representativos da população dos EUA. Isso é chamado de "ponderação", e é uma estratégia comum que os epidemiologistas usam para lidar com os desvios em suas amostras. Em um exemplo fácil de entender, se você acabou recrutando duas vezes mais meninos que meninas, você atribui às meninas duas vezes mais "peso" que os meninos.

Quando LeWinn ponderou seus dados para fatores como sexo, etnia e riqueza, os resultados pareceram muito diferentes dos originais. O cérebro como um todo se desenvolveu mais rápido do que se pensava antes, e algumas partes amadureceram mais precocemente do que outras.

Natalie Brito, da Universidade de Nova York, apontou que este estudo "demonstra claramente como nossa interpretação do desenvolvimento cerebral se altera com base em quem está representado dentro da amostra". Ela acrescenta que a maioria dos neurocientistas reconheceria ou concordaria que as amostras representativas são importantes, mas que há razões práticas pelas quais essas amostras são difíceis de obter. E um dos motivos mais óbvios é que os estudos de escaneamento cerebral são muito caros, e, por isso, a maioria deles é pequena e se baseia em "amostras de conveniência" - isto é, em quem é mais fácil de recrutar.

"A pesquisa com neuroimagem também é complexa e difícil de conduzir e, por conta disso, acredito que há uma tendência de se concentrar em seus aspectos tecnológicos", aponta Duke Han, da Universidade do Sul da Califórnia. Isso é sintomático de um problema no campo da neurociência sobre o qual já escrevi a respeito: uma tendência a se focar nas inovações tecnológicas que nos permitem estudar o cérebro e esquecer as pessoas cujos cérebros estão sendo estudados.

Talvez o próprio cérebro estimule esse lapso. Nós entendemos intuitivamente que nossos pensamentos e comportamentos variam consideravelmente de pessoa para pessoa. Mas quando se trata do pedaço de matéria cinzenta por trás desses comportamentos, é fácil esquecer essa variação. "Até certo ponto, eu acho que há uma entendimento de que um cérebro é um cérebro é um cérebro", diz LeWinn. "Isso é problemático. O cérebro de cada pessoa é moldado por suas experiências, e queremos capturar a diversidade das experiências das pessoas, mais do que de apenas alguns tipos".

Por exemplo, no estudo que ela reanalisou, cerca de 35% das crianças tinham pais com educação superior e cerca de 38% tinham pais que ganhavam mais de US$100 mil por ano. Se a amostra tivesse sido verdadeiramente representativa da população dos EUA, essas proporções seriam 11% e 26%, respectivamente. E a ponderação dos dados para dar conta destas distorções produziu uma imagem diferente do desenvolvimento do cérebro.

Os cérebros ficam maiores à medida que nos desenvolvemos, antes de encolher novamente durante a infância tardia. Nos dados não ponderados, os cérebros atingem o máximo do volume aos 6 anos de idade, em média, e o máximo da superfície em torno dos 12 anos. Mas nos dados ponderados, os cérebros atingiram esses marcos 10 meses e 29 meses antes, respectivamente. O padrão de desenvolvimento geral do cérebro também mudou. Nos dados não ponderados, três dos quatro lobos do cérebro atingem sua área máxima nas idades de 12 a 13 anos, com apenas o lobo parietal atingindo mais cedo o auge, em torno dos 10 anos de idade. Mas os dados ponderados revelaram ainda mais do processo de maturação, que acontece desde a parte de trás do cérebro até a parte da frente, e que ocorre dos 9 até os 11 anos de idade.

"Esses resultados jogam luz sobre uma questão que não tem recebido a devida atenção nas pesquisas com neuroimagem - a falta de diversidade dentre os participantes do estudo", diz Han. "A menos que essas questões sejam adequadamente abordadas, seria recomendável discutir com prudência as implicações de determinado estudo".

Jim Coan, da Universidade da Virgínia, aprendeu a mesma lição com seu próprio trabalho. Uma década atrás, ele colocou 16 mulheres em um scanner cerebral, comunicou que iria dar um choque elétrico nelas e olhou para as partes de seus cérebros que respondem às ameaças. Ele descobriu que essas áreas ficavam menos ativas se as mulheres segurassem a mão de um estranho, ainda menos ativas se segurassem a mão de seus companheiros e menos ativas ainda se elas estivessem em um relacionamento feliz. "Eu tive que levantar US$30 mil para fazer esse experimento e todos as participantes eram brancos, ricos e escolarizados. E, no entanto, nós pensamos: 'Aqui está a história', disse ele. "Quando você está sozinho, você é o maior responsável por responder à uma situação ameaçadora, então você tem mais reações à ameaça. Agora, se você está junto do seu parceiro romântico, que você confia, você reage de forma menos intensa porque você terceirizou a necessidade de resposta".

Anos mais tarde, o pesquisador recebeu mais recursos para realizar um estudo maior e mais representativo com a participação de pessoas mais diversas em termos socioeconômicos e raciais da comunidade local. "E os resultados mudaram", diz ele. Os parceiros românticos ainda reduziram a resposta da ameaça, mas a mão de um estranho não teve nenhum efeito. Por quê? Talvez isto ocorra porque, como ele demostrou em outro estudo, a riqueza do bairro em que você cresce afeta a maneira como seu cérebro pesa recompensas e ameaças. "Isso não deve surpreender ninguém", diz ele. "O contexto em que você se desenvolve molda a maneira como o seu cérebro funciona e provavelmente a forma como ele está estruturado".

Os neurocientistas estão cada vez mais frustrados com essa verdade evidente. Estudos com escaneamento cerebral estão ficando maiores e os pesquisadores estão se esforçando mais para recrutar amostras que sejam ao menos representativas da comunidade local - se não da América do Norte como um todo.

Adolescente-Brain Cognitive Development study - o maior estudo do desenvolvimento do cérebro infantil nos Estados Unidos - talvez esteja fazendo o melhor trabalho possível. Ele está se esforçando para recrutar cerca de 11500 crianças com idades entre 9 e 10 anos com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento cerebral delas nos próximos 10 anos. O plano é obter uma amostra verdadeiramente representativa e lidar com todas as pequenas distorções com a mesma abordagem de ponderação que LeWinn se utiliza. Isso tem muitas vantagens, diz Wes Thompson, da Universidade da Califórnia, em San Diego, que está envolvido no estudo. Você não somente pode ver o que acontece no cérebro médio norte-americano à medida que ele se desenvolve, mas também como diferentes subgrupos diferem deste padrão e como indivíduos diferem do seu subgrupo específico.

"Uma vez que os estudos mais amplos estão começando a acontecer, esse é o momento de pensar sobre o problema da amostragem", diz LeWinn. "Estamos finalmente fazendo estudos que são grandes o suficiente para obter amostras representativas".

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O preço da liberdade

O impactante documentário One of us (Um de nós), recém-lançado pelo Netflix, acompanha três jovens que decidiram sair da comunidade ultraortodoxa dos judeus hassídicos de Nova Iorque. Estes jovens (Etty, Ari e Luzer) tomaram a difícil decisão de abandonar a família, os amigos e toda a comunidade - sendo, por eles, abandonados - em função de não coadunarem mais com as crenças, práticas e, também, violências que acontecem de forma velada no interior desta comunidade extremamente reclusa - que, em geral, não permite aos mais jovens frequentar escolas não-hassídicas, estudar matérias seculares como inglês, matemática e geografia, conviver com pessoas externas, acessar a internet, assistir filmes, ler livros não permitidos, etc. Seus membros vivem, ou melhor, pretendem viver, dentro de uma bolha, fortemente separados do resto do mundo. O grande problema é que, exatamente como uma bolha de sabão, a película que separa o mundo interior do mundo exterior, é extremamente frágil, podendo se romper a qualquer momento. No caso desta comunidade específica, eles vivem no meio de um grande bairro, situado em uma grande cidade, localizada, por sua vez, em um dos maiores e mais seculares países do mundo. Como eles podem se manter isolados de tudo isso? Como podem manter a "pureza" de suas crenças e práticas em um mundo secular como o que vivemos? Bom, eles conseguem isso através de uma série de regras extremamente rígidas que regulam e mesmo impedem o contato e a relação de seus membros com o "mundo exterior". E agindo desta forma eles tem obtido sucesso neste propósito. Afinal de contas, os judeus hassídicos existem há centenas de anos e as atuais taxas de "abandono" não passam de 2%, segundo o documentário. Isto significa que a comunidade tem conseguido se manter coesa e isolada do resto do mundo - não um isolamento total, claro, afinal de contas, os sistemas político e judiciário são os mesmos para todos os cidadãos norte-americanos e grande parte dos produtos que são consumidos por eles são produzidos fora da comunidade. No entanto, apesar deste relativo sucesso, um "vírus maligno" ronda a comunidade hassídica, podendo fazer com que a bolha se rompa de vez e a comunidade se dissolva. Veja só o que disse um dos líderes hassídicos durante uma enorme cerimônia realizada em um estádio:

As pessoas estão entrando em um mundo diferente. Como a mosca que entra na teia de aranha, alguns já foram atraídos. Viemos prestar atenção ao chamado dos líderes espirituais da nossa nação que reconheceram e identificaram os perigos da internet. Algo que ameaça nossa continuidade como pessoas de Deus. Vi com meus próprios olhos darem a crianças de 11 anos Blackberrys, iPhones e iPods. As pessoas estão enlouquecendo?

Você deve estar se perguntando: por que todo este medo da internet, meu deus? E a resposta não é difícil de entender: a internet possibilita aos membros da comunidade hassídica, em especial aos mais jovens (isto é, aqueles cujas crenças ainda não estão totalmente cristalizadas), terem acesso a outras realidades e a descobrirem que a religião que praticam é apenas uma dentre milhares de outras existentes no mundo - e isto significa, em última instância, que a "verdade" que acreditam é somente uma dentre muitas outras possíveis. Enfim, o vírus que a internet traz é o vírus do relativismo, que traz consigo os vírus da dúvida e do questionamento - e não existe nada mais perigoso para grupos fundamentalistas do que o relativismo, a dúvida e o questionamento. Isto porque, como bem apontam os sociólogos Peter Berger e Anton Zijderveld no magnífico livro Em nome da dúvida (que já mencionei em outro post), a relativização é o "processo no qual o status absoluto de alguma coisa é enfraquecido ou, em alguns casos, destruído". No caso da comunidade hassídica o que é enfraquecido através do acesso à internet - e, mais amplamente, através do contato com o "mundo exterior" - é o status absoluto ou indiscutível de suas próprias crenças e práticas. Ao invés de serem entendidas simplesmente como "verdades absolutas" ditadas por Deus, tais crenças e práticas passam a ser compreendidas como "verdades relativas" criadas pelos homens. E chegar a esta percepção pode ser decisivo, em alguns casos, para que a pessoa decida abandonar a comunidade. Quanto tudo aquilo que fazia sentido deixa de fazer, algumas vezes não resta outra opção senão se retirar. No entanto, a liberdade tem um preço. E ele não é barato.

Mas antes de entrar nesta discussão, gostaria de deixar claro porque me refiro à comunidade hassídica como fundamentalista - afinal de contas, quando muitas pessoas pensam em fundamentalismo imediatamente vem à mente a imagem de um terrorista muçulmano. A questão é que esta imagem não corresponde totalmente à realidade. Isto porque: 1) nem todos os muçulmanos são fundamentalistas, 2) nem todos os fundamentalistas são muçulmanos e 3) nem todos os fundamentalistas são terroristas. Mas o que caracteriza, então, uma pessoa ou grupo fundamentalista? Como já apontei anteriormente, o que define o fundamentalismo é a intolerância à dúvida e ao questionamento. O fundamentalista não suporta o relativismo e a pluralidade do nosso mundo e acredita que a sua verdade é a verdade absoluta. Todas as outras crenças e práticas, são vistas como mentiras ou equívocos. Só ele tem a verdade. Mas uma questão interessante sobre os fundamentalistas é que nem todos pretendem impor suas "verdades" sobre os demais. Na verdade, uma parcela significativa deles não age desta forma. Isto porque, como apontam Berger e Zijderveld existem duas versões do "projeto fundamentalista". Na primeira delas, os fundamentalistas "tentam dominar toda uma sociedade e impor sua crença sobre ela". Este é o caso dos Estados Totalitários, nos quais todas as pessoas que vivem sob seu regime são forçadas a seguir determinadas práticas e crenças - pense, por exemplo, na sociedade retratada pela fantástica série The Handmaid's Tale. Já o terrorismo - ou, pelo menos, algumas de suas manifestações - também poderia ser enquadrado dentro desta forma de fundamentalismo, no entanto, ele se constitui mais como uma estratégia política de desestabilizar o inimigo através da disseminação do medo, do que de uma tática voltada para a imposição uma "verdade". Por outro lado, de acordo com os autores, a segunda versão do fundamentalismo "abandona qualquer tentativa de impor uma crença a todos - a sociedade, em geral, pode ir para o inferno, por assim dizer - mas tenta instituir o não questionamento da crença fundamentalista em uma comunidade muito menor". Eles denominam esta forma de fundamentalismo de "subcultural ou sectário" apontando ainda que a sua principal característica é um "micrototalitarismo" que pressupõe a criação de "rigorosas defesas contra a contaminação cognitiva que contatos externos ameaçam introduzir  no sistema". Como você já deve ter notado, este é o caso dos judeus hassídicos e também dos Amish

Pois bem, este micrototalitarismo de fato funciona para manter a coesão da comunidade hassídica. O grande problema é que, devido às múltiplas formas de contaminação cognitiva (como a internet, a literatura e o cinema), um número pequeno mas crescente de membros tem abandonado a comunidade. E para auxiliar estas pessoas foi criada até uma entidade, denominada Footsteps, que tem como objetivo acolher, apoiar e orientar os "dissidentes". Afinal de contas, abandonar sua família, seus amigos e toda a sua comunidade - e, mais do que isso: todo o universo que te constituiu e que você compreende - não é nada fácil. Como afirma uma das responsáveis pela Footsteps: "Ninguém sai sem estar disposto a pagar o preço. E o preço da liberdade é muito alto. A comunidade é sua família. Se você está doente, alguém aparecerá e cuidará dos seus filhos. Trarão comida para você. Será levado ao hospital se não puder ir sozinho. Você nunca está sozinho, tem muito ajuda. Você perde muito quando sai". Pois um dramático exemplo disto pode ser encontrado na trajetória de Etty. Aos 27 anos ela decidiu sair da comunidade, motivada pelos frequentes abusos e violências de seu marido, e levou consigo todos os seus sete filhos. No entanto, seu ex-marido entrou na justiça e conseguiu a guarda legal de todos eles em função de um absurdo dispositivo judicial denominado status quo - que favorece a guarda pelo progenitor que tem condições de manter as crenças e práticas religiosas anteriores da criança. Ou seja, além de perder seus amigos, parentes e sua fonte de renda (isto é, seu marido), Etty "perdeu" ainda todos os seus filhos. Com os outros sujeitos retratados pelo filme não foi diferente: eles também perderam tudo e tiveram de começar a vida do zero. 

Mas não só: eles tiveram, e ainda tem, de aprender como funciona o "mundo exterior" - tal qual Kaspar Hauser, Kimmy Schmidt, os filhos do Capitão Fantástico ou os irmãos do filme Wolfpack. Um interessante depoimento do jovem Ari deixa bem claro como se dá esse processo: "Eu não sei nada. Eu não sei nem o básico da matemática. Nunca frequentei a faculdade, o ensino médio, nada. Frequentei escolas judaicas desde que nasci, desde que entrei na escola. Tenho que aprender muitas coisas novas, começando por inglês, o que acho que aprendi. Eu também tenho que aprender como as pessoas vivem de fato no mundo e como as coisas funcionam". Esta frase dele, curiosamente, é muito semelhante a uma fala de um dos personagens do filme Capitão Fantástico - que conta a história um pai que decidiu educar seus seis filhos de uma forma muito peculiar, isolados do resto do mundo. Pois bem, em determinado momento do filme, o filho mais velho desabafa com o pai, após desastrosas tentativas de interação com pessoas de fora da sua família: "Eu não sei nada! Eu não sei nada! Eu sou uma aberração, por sua causa! Você nos transformou em aberrações! A menos que tenha saído de um maldito livro, eu não sei nada sobre nada!". As pessoas retratadas pelo documentário One of us poderiam facilmente dizer o mesmo para seus pais. Aliás, Ari afirma o seguinte sobre o complexo processo de saída de sua comunidade e recomeço no "mundo exterior": "estruturaram a sociedade [hassídica] para você não sobreviver ao mundo lá fora. Estruturaram o mundo para que, se você sair, o único jeito de sobreviver é sendo um criminoso. Todos que saem acabam voltando, acabam presos ou em uma clínica de reabilitação. Mas nunca sobrevivem lá fora". Este sujeito, especificamente, foi internado em uma clínica de reabilitação devido à dependência de cocaína e, depois de um tempo, acabou por retornar à comunidade. Mas mesmo de volta, não conseguiu deixar de se sentir 'um peixe fora d'água'. Como afirmou ao final do documentário, "eu não me sinto preparado para viver em uma sociedade secular. Sinto uma certa angústia no mundo. Não estou culpando a comunidade ou algum rabino. Eu não estou culpando ninguém. Mas eu ainda não encontrei o meu lugar".

O curioso é que este mesmo sujeito, algum tempo antes, declarou o seguinte sobre estar do lado de fora: "É uma liberdade incrível. Tudo o que eu não deveria fazer, estou livre para fazer. Após saborear esta vida... apague a vida antiga". A grande questão é que a liberdade - no sentido "negativo" de não ser coagido a agir e viver de determinada maneira - é uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que ela possibilita ao sujeito exercitar sua vontade e sua capacidade de escolha, por vezes o excesso de escolhas que ele é obrigado a fazer sobrecarrega sua mente e gera esgotamento. Este é o paradoxo da escolha, que já discuti em outro post: tendemos a acreditar que ter mais liberdade e mais opções é sempre melhor, no entanto, quanto mais opções temos, mais perdidos, ansiosos e angustiados nos sentimos. Em uma comunidade fechada e disciplinada, como a que vivem os judeus hassídicos, certamente o nível de liberdade individual é bastante limitado, pois a vida é em grande parte regida pelas normas e regras da comunidade. Por outro lado, esta restrição da liberdade pode funcionar como uma liberação da angústia de ter que tomar decisões a todo momento. Não é por outro motivo que Berger e Zijderveld afirmam que "o totalitarismo, com efeito, é uma espécie de liberação. O indivíduo, confuso e aterrorizado por 'todas as decisões que precisa tomar' pode receber a reconfortante dádiva de absolutos renovados". Com isto eles querem dizer que, contrariamente ao que muitos pensam, o totalitarismo pode gerar uma curiosa forma de liberdade: não aquela liberdade de se fazer o que se quer - pois num regime totalitário isto não é possível - mas aquela liberdade de não ser obrigado a fazer continuamente escolhas e arcar com suas consequências e responsabilidades. 

Mas isto não significa, cabe apontar, que o totalitarismo seja bom ou que devemos lutar pela volta do regime militar, como fazem algumas pessoas. Pelo contrário, defender coisas como essa é de uma absurdo sem tamanho. Afinal de contas, se existem alguns ganhos devido à restrição de liberdade, existem também inúmeras e gigantescas perdas, sendo a principal delas a impossibilidade de se fazer as pequenas e grandes escolhas da vida. Se fosse dada à você a possibilidade de escolher entre uma vida "enclausurada" mas "satisfatória" e uma vida "livre" mas "angustiante", o que você escolheria? Eu aposto que muitos - eu não saberia dizer se a maioria - escolheriam a liberdade, com todos os seus problemas e dilemas. Mas o fato é que esta não é propriamente uma escolha. Atualmente, a maior parte das pessoas no mundo ocidental não vive sob regimes totalitários e nem confinados em comunidades sectárias e isto significa, como bem afirmou o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre no clássico O ser e o nada, que estamos todos "condenados à liberdade". Este é o caso também das pessoas retratadas pelo documentário. À partir do momento em que decidiram sair da comunidade elas tiveram e continuarão tendo que lidar com os mesmos problemas e dilemas que todos nós: o que faremos da nossa vida? O que será do futuro? Qual o sentido da existência? Não havendo mais uma comunidade para lhe acolher e lhe dar todas as respostas, a única saída agora é procurar estas respostas por si mesmo - e  lidar com as angústias e ansiedades deste processo. Já que o sentido não está mais dado pela comunidade, não resta outra alternativa a não ser construir o próprio sentido. Como bem afirma o dissidente Luzer, "todos nós estamos procurando um propósito, um sentido. E eles [os membros da comunidade] tem isso. Eles tem um propósito e um sentido. Eu sempre tentarei encontrar isso".

Sugestão de leitura: Review do documentário One of us (site Vida Prática Judaica)