quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando os 'estranhos' batem à nossa porta: reflexões sobre a crise dos refugiados

A situação dos refugiados é uma das principais, senão a principal, crise humanitária do mundo atualmente. Todos os dias milhares de pessoas são forçadas a sair às pressas de seu país devido à conflitos armados e/ou perseguições e buscarem abrigo em outras nações. Inúmeros países, muitos à contragosto, tem recebido estas pessoas. O Brasil, por exemplo, acolheu até o final de 2016 cerca de 9552 refugiados de diversos países - em especial da Síria, do Congo, do Paquistão, da Palestina, da Angola e, de forma crescente, da Venezuela. No entanto, ao mesmo tempo em que diversas nações, grupos e indivíduos tem se esforçado para receber, acolher e integrar estas pessoas, tem se multiplicado pelo mundo discursos xenofóbicos de ódio que tem como principal mote a ideia de que estas pessoas são invasoras que trazem a desordem e roubam os empregos. No início deste mês, por exemplo, o refugiado sírio Mohamed Ali, que vive e trabalha no Rio de Janeiro há 3 anos, foi hostilizado na rua por um homem que gritou repetidas vezes "Sai do meu país!", afirmando ainda: "O nosso país está sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças". Não gosto de pensar que se trata simplesmente de uma atitude irracional, haja vista que existe alguma racionalidade (diferente da minha, por exemplo) por trás de um ato preconceituoso como esse - ademais, a ideia de irracionalidade é há tanto tempo utilizada como categoria acusatória por pessoas de todos os lados de todos os conflitos e controvérsias, que  acabou por perder a sua força ("Você é irracional!" acusa a pessoal supostamente racional. "Não, você é que é irracional", rebate outra pessoa supostamente racional em uma troca infinita de acusações). Enfim, ao invés de considerar atitudes xenofóbicas e ofensivas como a descrita acima simplesmente como comportamentos irracionais prefiro encará-las como comportamentos preconceituosos baseados em estereótipos, isto é, em visões preconcebidas e generalizantes sobre determinadas pessoas e grupos. De forma mais profunda é possível enxergar em tais atitudes um enorme medo daquilo e daqueles que vem de fora e daquilo que é estranho ou diferente - a ideia de xenofobia aponta justamente nesta direção.

Em sua última obra publicada em vida, Estranhos à nossa porta, o eminente sociólogo polonês Zygmunt Bauman trata justamente desta questão. Segundo o autor,  os refugiados incomodam muitas pessoas exatamente porque trazem as marcas da diferença, seja na língua que falam, na roupa que vestem, na religião que professam e na forma como se comportam. Eles são os tais "estranhos" que batem à nossa porta. Como afirma Bauman, "refugiados da bestialidade das guerras, dos despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectivas têm batido à porta de outras pessoas desde o início dos tempos modernos. Para quem está por trás dessas portas, eles sempre foram – como o são agora – estranhos. Estranhos tendem a causar ansiedade por serem 'diferentes' – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar". Segundo o sociólogo, os refugiados são um "lembrete" permanente para as pessoas que estão detrás das portas, especialmente para aquelas das classes médias e altas, de  que todos estamos à mercê de forças que não controlamos e de que a vida confortável que levam pode ser perdida num piscar de olhos. Como afirma Bauman, "estes nômades - não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel - nos lembram de modo irritante, exasperante e aterrador, a (incurável?) vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado". O medo, enfim, é que estes estranhos, vindos de lugares exóticos e caóticos, tragam consigo o "vírus do caos e da desordem" que poderá eliminar ou desfigurar o confortável modo de vida que muitas pessoas vivem, especialmente nos países desenvolvidos.  

Diante destes 'estranhos', todos nós, enquanto pessoas e enquanto nações, temos basicamente duas alternativas iniciais: ou mantemos a porta fechada ou a abrimos e permitimos que entrem. A primeira alternativa, chamada por Bauman de "política da separação" é aquela na qual decidimos manter distância destes estranhos, seja através da negação de vistos ou da construção de muros - o presidente Trump é, talvez, o maior representante desta forma de política, que se manifesta não somente no impedimento de entrada mas também, e especialmente, na segregação e marginalização daqueles que já entraram. Para Bauman, a construção de muros ao invés de pontes, é a pior escolha possível, especialmente porque tal política acaba por gerar aquilo que ela pretende evitar. Como afirma o sociólogo, "enganosamente reconfortantes a curto prazo (por colocarem o desafio fora de vista), essas políticas suicidas armazenam explosivos para uma detonação futura". Isto porque ao segregarem os refugiados - e os imigrantes de uma forma geral - tais políticas acabam por reforçar uma já disseminada distinção entre "nós" e "eles" e, com isso, gerar um sentimento de ódio "deles" contra "nós" que certamente contribui para que alguns se aproximem de determinados grupos extremistas. Mas qual a solução, então? Para Bauman, a única alternativa viável é a solidariedade. Parece algo banal de se dizer, mas eu não teria como discordar de Bauman: a única saída possível para a situação dos refugiados e dos imigrantes  é estendermos os braços para eles e dizermos "Sejam bem vindos. Fiquem à vontade. Mi casa, su casa". Somente se (e quando) compreendermos que não existem "nós" e "eles" mas sim um gigantesco e planetário "nós", e também quando aprendermos a substituir hostilidade por hospitalidade, é que a situação começará a melhorar. Como bem afirma Bauman, "a humanidade está em crise - e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos".

Certamente não se trata de uma saída fácil, mas um primeiro passo, como eu tenho insistido neste blog, é ter ou desenvolver empatia por estas pessoas. Isto pode ser construído de diversas maneiras e eu destacaria especialmente a conversa e a convivência com refugiados como formas ímpares de se aproximar e entender suas histórias e pontos de vista. Pessoas que atuam como voluntárias em organizações de apoio e recepção aos refugiados certamente desenvolvem grande empatia pelos indivíduos que ajudam a acolher. No entanto, esta é uma possibilidade distante para muitas pessoas. Uma saída, neste caso, é assistir a documentários como o impactante Fogo no mar, reportagens como esta do magnífico programa Que mundo é esse?, ou então ler livros como Eu venho de Alepo: itinerário de um refugiado, recém-lançado no Brasil pela editora Vestígio. Nesta obra, o refugiado sírio Joude Jassouma conta sua história, desde sua infância e juventude na histórica cidade síria de Alepo, onde chegou a se graduar em Literatura Francesa e trabalhar como professor; o início da guerra que destruiu sua cidade e seu país e o obrigou a se mudar às pressas diversas vezes com a família, deixando tudo para trás; a perigosa fuga feita em um bote para a Grécia e, finalmente, sua instalação na pequena e acolhedora cidade de Martigné-Ferchaud na França. Nesta dolorosa e, curiosamente, esperançosa narrativa, Joude nos permite compreender os motivos e circunstâncias que o forçaram a fugir de seu país, a dor e a angústia que sentiu ao ter de abandonar sua casa e todas as suas coisas em meio a tiroteios e bombas caindo, o medo que sentiu ao atravessar o mar Egeu à bordo de um bote junto de sua mulher e filha de 3 meses e, finalmente, a felicidade que sentiu ao ser acolhido pela França e pelos franceses. Especialmente nesta última etapa da narrativa de Joude, pude perceber claramente que a solidariedade defendida por Bauman é de fato concretizada em muitos lugares e por muitas pessoas. Assim que chegou na França, Joude e sua família foram carinhosamente acolhidos por voluntários de instituições filantrópicas, sendo posteriormente conduzidos a uma pequena cidade na região da Bretanha, onde foram calorosamente recebidos e integrados pelos moradores. Como afirma em certo momento, "desde que estamos aqui, nunca nos sentimos rejeitados nem julgados. Ninguém olha para nós desconfiado ou faz comentário inoportunos. E os moradores de Martigné sempre nos cumprimentam quando passamos". Enfim, a situação dos refugiados é ainda muito grave, a adesão a políticas e políticos contrários ao acolhimento destas pessoas tem crescido, mas bons exemplos tem se multiplicado pelo mundo, o que nos permite vislumbrar ao menos uma centelha de esperança. 

Update 16/08/2017: um outro exemplo bastante interessante de solidariedade foi a reação de muitos cariocas à agressão sofrida pelo refugiado sírio Mohamed Ali narrada no início deste post. Após o video da agressão ser amplamente divulgado nas redes sociais, um empresário carioca organizou pelo Facebook um "Esfirraço" com o objetivo de reunir pessoas para comprar as esfirras vendidas pelo sírio em sua barraquinha em Copacabana. No dia marcado, mais de 3 mil esfirras foram vendidas e muitas pessoas passaram pelo local para dar um abraço e demonstrar solidariedade com ele. Mohamed ficou extremamente contente com toda esta repercussão e afirmou ser "a pessoa mais feliz do mundo". Sobre este episódio, a professora Vanessa Souza afirmou para o jornal O Globo: "estamos vivendo um movimento mundial de muita intolerância. E essa iniciativa mostra que a força das pessoas que não concordam com isso é muito grande". Impossível discordar dela! Aliás, quer uma prova bastante concreta deste "movimento de intolerância" citado por ela? A poucos quilômetros da barraquinha do Mohamed, no Arpoador, um pequeno protesto contra os muçulmanos foi organizado por um grupo de cerca de 20 evangélicos ligados à Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, que seguravam cartazes com dizeres como "Alcorão: guia de estupros e assassinatos" e "Muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores". Felizmente, o apoio a este protesto foi muito menor que aquele demonstrado à Mohamed. A tolerância e o respeito, pelo menos neste caso, venceram!

A tolerância - Mohamed e apoiadores durante o Esfirraço
A intolerância - Protesto contra muçulmanos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

3 best-sellers para exercitar a empatia


Preâmbulo - Eric Arthur Blair queria se tornar escritor, mas não sabia bem por onde começar. Nascido na Índia em 1903,  Eric se mudou para uma pequena cidade na Inglaterra quanto tinha pouco mais de um ano. Sua família era, segundo sua própria descrição, de "classe média-alta inferior". Quando tinha cerca de 20 e poucos anos, após uma temporada em Burma (atual Myanmar), onde trabalhou em um posto na Polícia Imperial Indiana, decidiu retornar à Inglaterra e colocar em prática o seu desejo de escrever. Mas sobre o que escrever? Inspirado em Jack London, um autor que gostava muito, e também em certas ideias socialistas que lhe instigavam, Eric resolveu explorar a periferia de Londres. Mas ele não queria simplesmente observar, mas efetivamente se colocar no lugar de alguém que não possuia quaisquer bens materiais. Eric queria sentir na pele como era ser pobre em Londres na década de 1920. E para tanto viveu, por algum tempo, como um mendigo, perambulando pelas ruas miseráveis da cidade. O relato deste período se transformou em seu primeiro ensaio, intitulado "The strike". Em seguida, Eric se mudou para Paris, onde se hospedou em um alojamento vagabundo e chegou a trabalhar, por um tempo, como lavador de pratos em um hotel. Neste período, em que chegou a passar fome em diversas ocasiões, pôde vivenciar e efetivamente sentir como é ser pobre. Eric escreveu, então, um relato pormenorizado destas duas experiências, que resultaram na obra Na pior em Paris e Londres - seu primeiro livro, publicado em 1933. E foi para a publicação desta obra que decidiu adotar o pseudônimo que o tornaria célebre: George Orwell. Posteriormente à publicação desta obra, Blair lançou muitas outras, dentre as quais duas que lhe conduziram ao panteão dos grandes escritores: 1984 e Revolução dos bichos. Mas não seria equivocado dizer que a "imersão empática" empreendida pelo jovem Eric na vida dos pobres cimentou a visão social crítica que o maduro Orwell consagraria em sua obra vindoura. 

Posteriormente, outros escritores recorreram a esta estratégia de "imersão" para tentar compreender como se sentem e vivem determinados indivíduos e grupos sociais. Quase setenta anos após a experiência de Orwell, a jornalista Barbara Ehrenreich (que já apresentei em outro post) decidiu sentir na pele como é ser pobre nos Estados Unidos. Para tanto, trabalhou por um longo período em uma série de subempregos (como garçonete, faxineira e atendente em um asilo) e tentou se "virar nos 30" com os baixíssimos salários. O resultado é o maravilhoso livro Miséria à americana, lançado em 2001 e já publicado no Brasil Outro exemplo interessante de jornalismo de imersão é o livro Cabeça de Turco, escrito pelo jornalista alemão Günter Wallraff. Nesta obra, o autor relata a dolorosa experiência de viver e trabalhar por dois anos em empregos precários como se fosse um imigrante turco na Alemanha. O livro, lançado em 1985, foi um escândalo na época por escancarar o preconceito e a marginalização a que estavam sujeitos os imigrantes no país. Muitos outros exemplos poderiam ser citados de experiências de imersão, no entanto gostaria de trazer uma reflexão sobre esta maneira de se "exercitar" a empatia. Ainda que se constitua como uma forma profunda de "sentir na pele", trata-se de um método extremamente complicado de se colocar em prática - tanto por exigir um grande investimento pessoal de tempo e energia quanto por demandar grande coragem. No entanto, existem outras formas mais simples de se exercitar a empatia: ler livros, ver filmes, viajar, conversar, etc. E é tendo isto em vista que gostaria de indicar 3 livros, dentre os mais vendidos atualmente no Brasil, que podem contribuir para uma ampliação da capacidade de empatia de seus leitores. Certamente, como já disse anteriormente, não é possível se colocar de fato na pele e na perpectiva de outra pessoa, mas é possível imaginar como ela se sente. E este processo de imaginação pode ser decisivo para a construção de uma compreensão profunda a respeito de como vivem e quais dificuldades enfrentam determinadas pessoas e grupos diferentes de nós. Os três livros indicados e brevemente analisados abaixo podem contribuir fortemente para isso. #ficaadica

1- Na minha pele - Editora Objetiva, 2017.

Neste livro de ensaios autobiográfico, o ator, diretor e produtor Lázaro Ramos reflete sobre os inúmeros desafios de ser negro - e de ser um ator negro - no Brasil. Sua história começa na pequena Ilha do Paty, na Bahia, onde Lázaro nasceu e viveu até a adolescência e segue até o presente. Neste percurso, o ator consagrado e agora escritor iniciante, faz um esforço narrativo - extremamente bem-sucedido, na minha visão - para que nos coloquemos momentaneamente "em sua pele". A ideia é que possamos compreender, especialmente aqueles que não são negros, o persistente, inegável e lastimável racismo existente no Brasil. Para tanto, Lázaro nos conta inúmeras histórias de sua própria vida e também da vida de companheiros e companheiras de luta que expõem a ilusão do mito da democracia racial no país - ainda defendido por algumas pessoas. Mas para além de histórias, Lázaro traz uma série de importantes reflexões sobre a contrução da identidade e da militância negra, sobre a inserção dos negros no mercado de trabalho (e também na publicidade, nas novelas e filmes), sobre os desafios da ascensão social e da criação de filhos negros, dentre muitas outras questões. Mas não se engane pensando que se trata de um livro voltado somente para pessoas negras. De forma alguma, afinal, a luta contra o racismo e a favor do respeito e da inclusão é (ou deveria ser) uma luta de todos. Como bem afirma o rapper Emicida, em uma frase escolhida por Lázaro como epígrafe de seu livro, "todos nós somos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obras e ir corrigindo isso".

Trecho do livro: "Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é a blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão do ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é 'menor' e de quem é 'criança' nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?"

2 - Outras formas de usar a boca - Editora Planeta, 2017. 

Neste interessante livro de poesias, que atualmente é a obra de "ficção" mais vendida no Brasil (embora não seja propriamente ficção), a poetiza, escritora  e ilustradora indiana radicada no Canadá Rupi Kaur traz uma série de pequenas poesias que retratam situações vivenciadas cotidianamente por mulheres de todo o mundo - o sucesso estonteante do livro, talvez o maior sucesso da poesia nesta década, certamente se deveu à grande idenficação que ele gerou em mulheres dos mais diversos países. Originalmente denominado Milk and honey (Leite e mel), Outras formas de usar a boca é, como está dito na contracapa, "um livro de poemas sobre a sobrevivência, sobre o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e a feminilidade". Ao longo de suas 200 páginas, Kaur, que também é responsável por todas as ilustrações do livro, fala sobre as dificuldades vivenciadas pelo fato de ser mulher, sobre a complexa relação com a família, sobre as dores e delícias das relações amorosas, sobre términos e recomeços. Dividido em quatro partes (a dor, o amor, a ruptura e a cura), Outras formas traz à tona, especialmente na primeira parte, muitos dos abusos, violências e opressões que as mulheres sofrem todos os dias em praticamente todos os lugares. E com isto a autora permite não só a identificação das mulheres com as situações e pensamentos retratados, mas também a possibilidade de que os homens pensem, repensem e desconstruam o próprio machismo.

Trecho do livro: 

"Sexo exige o consentimento dos dois
se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada
porque não está pronta
ou não está no clima
ou simplesmente não quer
e mesmo assim a outra está fazendo sexo
com seu corpo isso não é amor
isso é estupro"

3- Prisioneiras - Companhia das Letras, 2017

Escrito pelo famoso médico Dráuzio Varella, este é o último volume de uma fantástica trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro, que teve início com os livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012) - ambos foram adaptados para a televisão e o primeiro também para o cinema. Nesta nova empreitada, Dráuzio traz uma série de histórias e reflexões sobre o período de mais de uma década em que trabalhou como médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, onde vivem (ou sobrevivem) mais de duas mil mulheres. A ideia do autor, neste e nos livros anteriores da trilogia, é dar voz àqueles e àquelas a quem lhes é negada a voz. No caso de Prisioneiras, Dráuzio traz à tona, com sua sensibilidade habitual, as dolorosas histórias de vida das mulheres invisíveis que vivem na penitenciária. São mulheres em geral pobres e negras, muitas vezes vítimas de violência doméstica e abusos de todo tipo e que, após serem presas, majoritariamente por tráfico de drogas, são abandonadas e esquecidas por todos - o que não acontece com os homens, prova mais do que concreta de que o machismo está de fato presente em todos os lugares. Entregues à própria sorte, acabam por buscar algum conforto e alicerce nas relações com as outras prisioneiras. Assim como a maravilhosa série Orange is the new black (que embora se passe em um outro contexto apresenta muitos pontos em comum com a realidade brasileira), Prisioneiras cumpre plenamente a missão de humanizar essas tão desumanizadas mulheres, nos permitindo adentrar em suas perspectivas e, com isso compreender que suas vidas não se resumem a um artigo do Código Penal. Se a maioria das pessoas conseguisse sentir empatia por estas mulheres, ao invés de simplesmente taxá-las de bandidas e ignorá-las, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver.

Trecho do livro: "De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira. Enquanto estiver preso, o homem contará com a visita de uma mulher, seja a mãe, esposa, namorada, prima ou a vizinha, esteja ele num presídio de São Paulo ou a centenas de quilômetros. A mulher é esquecida".