terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Carta aos Conselhos de Psicologia

Prezados Conselheiros,

Somos psicólogos da Universidade Federal de Viçosa – MG, portanto, de uma instituição pública federal, e vivenciamos em nosso cotidiano, de forma explícita e revoltante, a diferença de condição de trabalho entre os profissionais de saúde da nossa equipe. Hoje, além dela ser composta por cinco psicólogos, ela também conta com um médico psiquiatra (que trabalha 20 horas semanais) e duas assistentes sociais (que atendem por 30 horas semanais). Nós, psicólogos, trabalhamos 40 horas semanais, sendo que o salário base é o mesmo para todos. Ou seja, há uma desigualdade extremamente injusta que acarreta, inevitavelmente, prejuízos na qualidade do nosso trabalho, bem como desvaloriza a nossa profissão. Além disso, é sabida a complexidade que envolve o tipo de trabalho que prestamos, bem como o reflexo disso na nossa saúde mental. Diante do exposto, gostaríamos de insistir na necessidade de uma maior mobilização e apoio por parte do Conselho Federal de Psicologia e dos Conselhos Regionais para que as leis que versam sobre a questão da nossa carga horária de trabalho sejam colocadas em pauta no Congresso Nacional. Há algumas leis que já tramitaram no Congresso, mas que foram engavetadas. Gostaríamos de solicitar, que o CFP e os CRPs defendam publicamente e com mais vigor, inclusive, que dialoguem com os deputados, a respeito da redução da carga horária dos psicólogos para 30 horas semanais. Solicitamos, também, a realização de publicações freqüentes nos jornais da nossa categoria, no sentido de conscientizar os nossos colegas de trabalho. Sabemos que esta questão foi direcionada para as entidades sindicais e particularmente para a federação sindical nacional, a FENAPSI, no sentido de que estas encabeçassem a luta por esse direito em questão. Mas precisamos do prestígio e do poder de divulgação dos Conselhos para que a nossa categoria seja consistentemente mobilizada. Mesmo porque, isso diz respeito direto à nossa condição e imagem (ou identidade) profissional e/ou prestígio diante da sociedade. Desse modo, esse direito tem repercussão até mesmo para os psicólogos que não apresentam qualquer tipo de vínculo empregatício. A nossa profissão vem sendo claramente desvalorizada diante das demais profissões de saúde. Precisamos da união de todos, inclusive dos Conselhos para com os Sindicatos. Precisamos de uma representação efetiva e mobilizadora que defenda os nos

sos interesses enquanto trabalhadores.

Convocamos vocês!!!

E aguardamos uma resposta!!!

Letícia Maria Álvares
CRP 04-23810

Rosana Pontes Cognalato
CRP 04-17726

Felipe Stephan Lisboa
CRP 04-28419

Carmen Lúcia Gomide Costa
CRP 04-10052

Grasiela Gomide de Souza
CRP 04-22326

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pastores evangélicos e... psicanalistas?

A reportagem abaixo foi publicada na revista Piauí, edição 50 de Novembro de 2010 (ver link). É grande mas vale muito a pena:


A cura pela palavra
 O que fazem, pensam e pregam os pastores evangélicos psicanalistas

Clara Becker

Toda vez que assumia a direção de seu carro, o gerente de vendas Roberto manifestava sintomas descritos pela literatura médica como os da síndrome do pânico. Suava frio, faltava-lhe ar, sentia dormência nas mãos, dores no peito e, por fim, na certeza de que teria uma síncope, entrava em desespero. Funcionário de uma grande empresa, seu trabalho exigia que ele dirigisse por longas distâncias.
 
Roberto procurou um psicanalista para tentar entender a origem da sua angústia automobilística. Em uma das sessões, lembrou-se de um trauma de infância: o dia em que pulou o muro para roubar goiabas no quintal da vizinha, se apoiou em dois canos de um circuito elétrico e levou um choque de 220 volts. Tremeu como um apoplético até que alguém desligou a eletricidade. O episódio, ao que parece, estivera longamente reprimido no inconsciente.

Enquanto contava a história, demonstrou com gestos como se agarrara aos canos. O psicanalista percebeu que a posição das mãos era a mesma usada para segurar o volante do carro. O diagnóstico era óbvio: o pânico de dirigir era uma reminiscência reprimida do episódio traumático. Com a cena vindo à consciência, os ataques cessaram.

Mas Roberto desenvolveu outra neurose, também de cenário automobilístico. Passou a achar que os outros motoristas o olhavam como se ele fosse homossexual. Numa sessão com o analista, recordou-se de uma passagem da infância que esquecera completamente: quando brincava com outras crianças num terreno baldio, o mais velho da turma estuprou o garoto caçula no banco de trás de um carro abandonado. Roberto disse ao psicanalista que assistira o estupro com inveja. Queria ter sido o escolhido. 

O analista relacionou a lembrança, encoberta em sonhos e frases de Roberto, e lhe explicou que o desejo de passividade era fruto de sua história. Roberto havia sido abandonado pela mãe aos 5 anos, o que o obrigou a assumir algumas tarefas domésticas. Desde então, era ele quem desempenhava o papel feminino na família. A interpretação psicanalítica deixou Roberto aliviado: o impulso infantil não significava, necessariamente, que fosse gay. 

“Ver um paciente sair cheio de si do consultório é uma das coisas mais gratificantes do mundo”, disse-me o analista de Roberto. Ele se chama Heitor Antonio da Silva. Recebeu-me no seu escritório em Itaperuna, no interior do Rio, decorado com fotos de netos, filhos e uma reprodução do consultório de Sigmund Freud, em Viena. Aos 63 anos, é alto, gordo e tem uma voz altissonante. Os cabelos que lhe restam são pintados de preto, e as unhas, de esmalte.

Em 1996, ele foi um dos fundadores da Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil. Hoje, ela é a maior associação de psicanalistas da América Latina. Como em qualquer sociedade freudiana, os candidatos fazem terapia com analistas mais experientes e participam de seminários sobre os escritos de Freud. Um dos objetivos da Sociedade Ortodoxa, explicou Silva, é popularizar a psicanálise. Para tanto, ela produz apostilas de conteúdo simplificado, forma psicanalistas com rapidez e cobra barato. 

Além de psicanalista, Silva é pastor evangélico. “Não há contradição entre Freud e a Bíblia”, disse. “As religiões dizem como a pessoa deve se comportar em função de uma fé, mas só a psicanálise mostra a pessoa como ela é”, observou. Falando com o vigor de um profeta, explicou que, assim como a psicanálise é absoluta para a mente, a religião o é para o espírito. “Não existe incompatibilidade entre verdade e verdade”, disse. “Se uma coisa é verdadeira, tem que ser compatível com qualquer outra verdade. Se há conflito é porque uma – ou as duas – é falsa.”

Na Sociedade Ortodoxa criada por Heitor da Silva, o aspirante a analista conclui os estudos em dois anos, com duas aulas por mês. No mesmo período, ele tem que passar por oitenta sessões de análise pessoal – o que na média significa menos de uma por semana. Já na Sociedade Brasileira de Psicanálise, a primeira a ser criada na América Latina, a formação de um profissional dura quatro anos, mas para se matricular é obrigatório que já tenha feito ao menos dois anos de análise. São duas aulas semanais e 390 sessões de análise ao longo de todo o curso.

Durante quatro meses, participei do curso de formação da Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil. Por 230 reais ao mês, tive aulas nas noites de sexta-feira e no sábado durante o dia. Se continuasse o programa, em março de 2012, receberia o certificado de psicanalista, o que me credenciaria a atender meus próprios pacientes.

Na turma, éramos nove. Entre eles, duas pedagogas, uma policial militar e um professor de matemática. Os professores se mostraram condescendentes com as faltas, tolerantes com os atrasos e nunca cobraram a realização das tarefas que determinaram. Aliás, quando foi pedido que escrevêssemos uma resenha, metade da turma ignorava o significado da palavra “resenha”. 

A maioria dos alunos não era evangélica. Quando um aluno abordava as relações entre análise e religião, perguntando, por exemplo, se a cura de um distúrbio mental poderia ser obtida por meio de orações, os professores repetiam a mesma frase: “Aqui não misturamos psicanálise com religião.”

Apesar de as turmas de formação serem organizadas por pastores evangélicos, e de haver um número significativo deles nos cursos, Heitor da Silva nega qualquer orientação religiosa no conteúdo programático.

Mas a religião serve de baliza. Numa das apostilas (32 páginas de papel azul xerocadas, encadernadas em espiral e cobertas por uma capa de plástico) aparecem os “transtornos dissociativos”. O professor explica que o “transtorno de transe e possessão” não se refere ao “demônio”, mas à “histeria”. 

Silva acredita que há preconceito intelectual em relação aos evangélicos. “O Brasil é um país muito provinciano”, comentou. “Os evangélicos são tratados como se fossem todos farinha do mesmo saco. Mas um batista e um cara da Universal não se sentam no mesmo banco.” Silva integra a Convenção Batista Fluminense desde a juventude.

Na década de 80 Heitor da Silva descobriu que as ideias de Freud eram fundamentais para o aprimoramento de quem quisesse disseminar a Palavra divina. “Com a psicanálise você passa a entender quem é e como funciona o próximo, o que acontece dentro dele. Isso é imprescindível para quem vai aconselhar ou ajudar alguém”, disse. Segundo ele, na época, era impensável falar em análise dentro de uma igreja: “Parecia que Freud era o irmão gêmeo do diabo. Era tido como permissivo, imoral, que só falava em sexo, até mesmo na sexualidade das tão puras crianças. Meus colegas me viam como um pornográfico com ideias malucas.”

Diante da adversidade, Silva perseverou. Quando foi cotado para a presidência da Convenção Batista Fluminense, viu uma oportunidade para, como disse, “enfiar a psicanálise goela abaixo desse povo”. Mas foi boicotado pelos colegas e pela mídia especializada. “Na revista presbiteriana Vinde, o reverendo Caio Fábio escreveu dizendo que os meus fiéis chegavam à igreja e eu os mandava deitarem no divã”, afirmou.

Enterrou então o sonho de ter seu próprio rebanho e um programa de televisão em rede nacional. Mas não devido à derrota, e sim à autoanálise e à religião. “Era vaidade da minha parte”, disse. E completou: “Conversei com Deus e Ele tinha outros planos para mim.” Descobriu, por fim, sua verdadeira incumbência nesse vale de lágrimas: “Minha missão era mesmo essa coisa maluca de espalhar a psicanálise pelo Brasil.” 

Embora o início tenha sido difícil, Silva mais uma vez perseverou. Uma de suas iniciativas de impacto foi o Projeto 2000 2000, que consistia em formar 2 mil psicanalistas até o ano 2000. Não poderia imaginar que superaria suas próprias expectativas. E hoje, enquanto a vetusta Sociedade Brasileira de Psicanálise, do alto do seu quase meio século de vida, tem menos de 1 mil associados, a Sociedade Ortodoxa conta com 3 mil. Entre eles, a ex-candidata à Presidência pelo Partido Verde, Marina Silva, sua ex-aluna. 

“Foi um negócio fabuloso, levei a psicanálise para Palmas, Boa Vista, Rio Branco”, ele lembrou. “Havia lugares onde as pessoas falavam ‘Frêudi’ em vez de ‘Fróide’. Eu dizia: Vamos corrigir porque o cara mudou de nome.” Segundo ele, a maioria dos alunos não pretende exercer a profissão. Buscam na psicanálise um conhecimento complementar e o prestígio embutido em um título de “psicanalista”. “Eles querem ser chamados de doutor”, explicou Silva.
 
Filho de lavradores analfabetos, Heitor da Silva nasceu numa fazenda em Maricá, no interior fluminense. Plantavam feijão, quiabo e maxixe para sobreviver. Lembra que tinha inveja da cama da irmã: dois caixotes com uma porta velha que servia de estrado. 

O colchão era feito de capim. Durante anos, Silva dormiu no chão de terra, num chiqueirinho feito de bambu. Entrou na escola com 9 anos. Acordava de madrugada, trabalhava na roça e assistia às aulas com as mãos pretas de nódoa de banana. “Eu era tão pobre que meu pai foi até a escola pedir para que eu não tivesse foto na minha caderneta escolar.”

Aos 14 anos, ganhou seu primeiro livro, um dicionário, presente do dono da fazenda, que escreveu uma dedicatória que ele sabe de cor: “Ao bom amiguinho Heitor, com os votos de que estude sempre e chegue a ser um grande homem. Claude, 1960.” 

Alistou-se na Aeronáutica, onde serviu por quase oito anos. Foi na Força Aérea Brasileira que se lhe abriram as portas para a espiritualidade. Era cabo mecânico quando intuiu que deveria ser pastor. Em 1973, um colega religioso o convenceu a frequentar um curso de formação em psicanálise. No ano seguinte, Silva receberia o título de psicanalista pelo Centro Acadêmico de Debates e Estudos de Psicanálise, em São Paulo. “Apesar de ter sido criado em condições de vida precárias, nasci para ser um intelectual”, disse. 

O consultório do pastor Francisco Batista Neto, formado na primeira turma da Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil, ocupa uma sala no 9º andar de um prédio comercial no centro de Niterói. Em uma manhã recente, a sala de espera estava vazia. Neto – que lembra o ator baixinho da propaganda da cerveja, mas sem o bigode e a boina – saiu do consultório e acompanhou até a porta a mulher que acabara de atender. “Você está tranquila?”, perguntou-lhe antes de se despedir. “Se precisar, pode me ligar a qualquer hora.” 

Ele cobra 60 reais por sessão de análise. Completa o orçamento como psicólogo da prefeitura de São Gonçalo e professor de psicanálise na Sociedade Ortodoxa. Também dá aconselhamento pastoral em uma igreja batista em São Gonçalo. Sentado numa cadeira de escritório em frente ao divã de veludo, coberto com uma manta verde que combinava com a cor da parede, ele falou sobre religião e psicanálise: “Não misturo as coisas. Pode procurar, não tem uma Bíblia aqui no consultório. Enquanto o pastor fala e orienta, o analista apenas ouve e ajuda a interpretar. Não tem como confundir”, afirmou. 

Ele contou que as razões pelas quais as pessoas procuram uma igreja ou uma terapia são diferentes: “A igreja dá acolhimento, ajuda no desamparo humano, mas não livra alguém das neuroses, fobias e depressões. Consigo encaminhar melhor uma ovelha doente para a cura. Acredito no poder curativo de Deus, mas os conhecimentos científicos também são obra Dele.” 

Quis saber como ele agia quando uma situação o colocava diante da dualidade entre fé e ciência. Neto rememorou um episódio que o marcou, um caso de possessão demoníaca. Ele foi chamado por um grupo de oração, no meio do qual um jovem que se debatia era segurado pelas pernas, braços e pescoço. O pastor pediu que todos se retirassem. Alguns temeram por sua segurança física. Achavam que o diabo no corpo do jovem poderia feri-lo. Neto insistiu.

“Eu vi que aquilo era uma crise histérica”, contou. “Esperei passar, encaminhei para o psiquiatra e fiz uma terapia de apoio. Nunca fiz uma oração com ele. Ele teve outros dois surtos, quebrou o consultório inteiro, mas hoje está bem.”


Dias depois, relatei a entrevista com Neto ao pastor Heitor da Silva. Não havia entendido como ele havia diferenciado o surto histérico de uma possessão demoníaca. “A questão é simples: assim como não adianta tentar expulsar o demônio do corpo de um esquizofrênico, é ineficaz analisar o diabo”, respondeu Silva. “Quando uma pessoa está possuída, quem fala é a entidade que está nela. O primeiro caso deve ser encaminhado a um psiquiatra, e o segundo a um exorcista.”

Usando um tom de voz professoral e didático, Silva discorreu sobre as características do esquizofrênico: ele tem alucinações auditivas, visuais, táteis e olfativas. Geralmente, acha que está com algum órgão podre, que algo pega fogo ou está caindo no fundo de um poço. Também tende a deixar a higiene de lado: para de tomar banho, não troca de roupa ou veste uma peça por cima da outra. 

“Agora, se uma pessoa diz que está ouvindo vozes, mas está limpinha, sorridente, sofreu uma transformação facial e na voz, isso não é próprio do esquizofrênico”, explicou. Fez um longo silêncio. “Ainda assim, se a dúvida persistir, há um teste bíblico conhecido por todos os pastores e padres”, completou, como se fizesse uma confidência.  

Em uma das cartas do apóstolo João, no Novo Testamento, está escrito que quem não confessar que Jesus Cristo veio em carne para a Terra, esse é o espírito do Anticristo. 

Heitor da Silva alterou então o tom de voz para oitavas acima de seu normal, fechou os punhos e disse bem alto: “Aí é só você perguntar: ‘Você confessa com a sua boca que Jesus Cristo veio em carne?’” Se a pessoa estiver possuída, explicou o pastor, ela vai se calar, sacudir a cabeça, grunhir, dizer que não ou se debater. Será incapaz de confirmar a premissa. Se estiver tendo um ataque histérico, dirá “Confesso”, e continuará no transe do surto. 

Voltando à voz normal, encerrou o raciocínio: “A questão é que os religiosos tendem a achar que tudo é problema religioso, e os céticos que tudo é problema para a ciência. Mas o universo é mais complexo do que isso e a ciência não desvendou um por cento dele. A psicanálise só trata a possessão demoníaca como sintoma clínico porque desconhece o teste milenar do manual de exorcismo.” 

Em O Futuro de uma Ilusão, publicado em 1927, Freud escreveu sobre religião, detendo-se sobre o cristianismo. Frente ao desamparo, as pessoas imaginariam um pai poderoso que, com perfeição invejável, dá sentido aos enigmas da vida e às crueldades do destino, defendendo-as da força esmagadora da natureza. Como o pai biológico, o deus do cristianismo seria fonte de medo e inveja, com a diferença de que compensaria os sofrimentos concretos do presente com vida eterna e feliz após a morte. Concluiu, na fórmula famosa, que “a religião é a neurose obsessiva universal da humanidade”. 

Dois anos depois, em O Mal-Estar na Civilização, Freud classificou a religião de “delírio de massa”. Ela seria uma fase infantil da humanidade, a ser superada com o triunfo da ciência e da razão sobre as superstições e misticismos. “O afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento”, escreveu.

Numa carta a um discípulo, o pastor suíço Oskar Pfister, porém, Freud manifestou tolerância com a dupla condição do colega: “Que o senhor possa ser um analista tão convicto e, ao mesmo tempo, um homem espiritual, pertence às contradições que tornam a vida interessante.” Freud se dizia um “herege incurável” e defendia que a visão de mundo científica é incompatível com a religiosa.

Outro amigo de Freud, Theodor Reik, foi acusado de charlatanismo por exercer a psicanálise sem ter diploma de medicina. Freud publicou então A Questão da Análise Leiga, no qual defende que qualquer pessoa que tenha feito uma formação psicanalítica, e tenha sido submetida a uma análise própria, poderia exercê-la, no quadro de uma sociedade de profissionais da área. Ele temia que a psicanálise fosse “medicalizada”, ou seja, se tornasse uma mera subdivisão da psiquiatria nas faculdades de medicina. Segundo ele, a teoria do inconsciente deveria ser estudada por aqueles que se interessam pela evolução da civilização humana e suas principais instituições como a arte, a religião e a ordem social. 

Na carta a Pfister, Freud acrescentou: “Não sei se o senhor adivinhou a ligação secreta entre A Questão da Análise Leiga e O Futuro de uma Ilusão. Na primeira, quero proteger a psicanálise dos médicos; na segunda, dos sacerdotes. Quero entregá-la a uma categoria de curas de alma seculares, que não necessitam ser médicos e não podem ser sacerdotes.”

Em parte, é por isso que não há lei ou norma que regulamente o exercício da psicanálise. Com certificado de um curso de formação, um biólogo, um carpinteiro e um pastor podem abrir um consultório e cobrar para ouvir as angústias de seus pacientes.

No ano 2000, o pastor Heitor da Silva redigiu um projeto de lei para regulamentar e “dar dignidade” à profissão de analista. O ex-deputado Eber Silva, companheiro de igreja do ex-governador Anthony Garotinho, o apresentou na Câmara dos Deputados. Pelo projeto, a psicanálise se tornaria um curso universitário com as regras para a formação dos profissionais estabelecidas pelo Ministério da Educação.

Silva achava que, com uma legislação séria, haveria mais analistas no Brasil. “Olha que coisa boa para a saúde mental da população!”, explicou.
 
As críticas não tardaram. Sociedades estabelecidas, que não participaram da elaboração do projeto, sustentaram que a proposta mostrava desapreço pelos valores da tradição psicanalítica, que há mais de um século funciona em instituições autônomas. Também diziam que era impossível padronizar o tempo necessário de análise pessoal do aluno. Como o projeto ameaçasse ir à votação no plenário, correntes lacanianas, kleinianas e winnicottianas, e todas as suas aguerridas subdivisões, se uniram numa aliança inédita para protestar contra a proposta do pastor Silva. Conseguiram barrá-lo.

Três anos depois, Heitor da Silva tentou reapresentar o projeto através de outro deputado, mas também não teve sucesso. “Seria um grande passo para a psicanálise, mas isso não acontece por causa de pressões burras de um pequeno grupo que se acha dono da verdade”, disse Silva. Julga que as sociedades tradicionais são demasiado intelectualizadas, elitistas e querem reter o poder a qualquer custo. “Eles se consideram semideuses, aprisionaram a psicanálise e impedem que ela chegue às massas.” 

Em sua avaliação, a psicanálise deveria deixar de ser privilégio dos ricos para ser uma ferramenta de apoio no equilíbrio emocional de massas e mais massas. “Nos últimos quarenta anos, a população brasileira dobrou e o número de psicanalistas não acompanhou a estatística”, disse.

A população não só dobrou como se urbanizou de maneira acelerada. Milhões de brasileiros que moravam em núcleos isolados no campo, onde eram submetidos ao poder dos senhores da terra e da Igreja Católica, num espaço de poucos anos foram atirados em periferias de cidades desorganizadas. Nelas, a força da desagregação dos valores tradicionais é enorme. Pobreza, desemprego, baixa escolaridade, tentações do sexo, do álcool e da propaganda, incerteza, ausência de laços sociais – foi nessa paisagem que as igrejas evangélicas vicejaram. E é nela que aumentaram as taxas de sofrimento psíquico e, consequentemente, a demanda por tratamento.

A China passou por processo semelhante, e ainda mais brutal. Avalia-se que hoje entre 200 mil e 300 mil chineses se suicidem anualmente. Com isso, a psicanálise, longamente proibida, começou a se espalhar. Sociedades freudianas de Paris e Berlim partiram em busca desse novo mercado de sofredores psíquicos e se estabeleceram em Xangai e Pequim. Obras de Freud e Lacan estão sendo publicadas em chinês. (Do ponto de vista marxista, é uma ironia da história: a psicanálise, ideologia burguesa, reaparece num país à medida que o capitalismo é restaurado.)

Os planos de popularização da psicanálise expostos pelo pastor Silva podem também reproduzir a lógica missionária protestante, mais especificamente a de sua Igreja, a Batista. No livro Os Evangélicos, a antropóloga Clara Mafra, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ressalta que, enquanto os metodistas, luteranos e presbiterianos eram conhecidos pelo rigor na seleção de seus candidatos para o batismo, os batistas apostaram no uso massivo da propaganda religiosa como ferramenta de arregimentação.

Das igrejas protestantes históricas, a Batista é a que tem o maior número de fiéis. Foi dela que saiu a Assembleia de Deus, a primeira igreja pentecostal no Brasil, que mais tarde se ramificou para a Igreja Pentecostal de Nova Vida, frequentada por Edir Macedo até que ele criasse a Igreja Universal do Reino de Deus.

No universo dos psicanalistas laicos, o que faz um terapeuta ser considerado sério e competente é o reconhecimento de seus pares e o prestígio da sociedade na qual foi formado e é associado. É por isso que a indicação e as virtudes de um bom analista são, em geral, propaladas pelo boca a boca de pacientes e terapeutas. A Sociedade Ortodoxa de Silva busca funcionar dentro das regras das tradicionais. Mesmo assim, foi objeto de mais de vinte processos judiciais. 

O Conselho Federal de Psicologia e a Associação Brasileira de Psicanálise Clínica já a acusaram de “propaganda enganosa e abusiva” e de praticar uma “falsa psicanálise”, vinculada à Bíblia. Para eles, o grupo de Silva faz uma apropriação indevida da psicanálise, além de iludir os alunos ao pretensamente capacitá-los para o exercício da profissão. Todos os processos foram arquivados e a Sociedade Ortodoxa revidou na mesma moeda: acionou judicialmente o Conselho Federal de Psicologia por preconceito religioso.

Silva admite que a Sociedade Ortodoxa tenha formado maus psicanalistas, mas, argumentou: “Isso é culpa de quem não quis se aprofundar nos estudos, e pode acontecer em qualquer lugar.” Há pouco, dois pastores foram expulsos da Sociedade e de suas igrejas, na Bahia. Haviam desobedecido à interdição de ter relações sexuais com analisandas.

“Em qualquer lugar, basta um psicanalista pilantra num consultório, com portas fechadas e um divã”, disse Silva, aludindo ao conceito psicanalítico de “transferência”. “A paciente se apaixona, vai toda bonita para o consultório, o olhinho começa a brilhar e créu, aquela música moderna que tem por aí.” Depois das expulsões, Silva redigiu um código de ética para a instituição.

Houve outro caso difícil em Belo Horizonte. O coordenador do curso de lá procurou Silva e disse que havia acontecido uma desgraça. Um dos alunos, pastor, depois de formado, abandonou a igreja, abriu consultório, largou a mulher, começou a beber e a fumar. O coordenador, também pastor, temia que o fenômeno se repetisse. “Eu disse a ele que a psicanálise fez um ótimo trabalho na vida desse aluno: ele foi seguir seus verdadeiros desejos. Deus não perdeu um fiel porque tinha nas mãos um lobo que se passava por ovelha”, disse Silva.

Os pastores analistas não têm aceitação unânime nas comunidades evangélicas. Dois manifestos contrários a eles circulam na internet. “Pastores psicanalistas? Essa não!” e “Ovelhas que precisam de pastor” foram escritos pelo pastor Emídio de Souza Viana, da Primeira Igreja Batista Regular de Rio Branco. Ele classifica o movimento psicanalítico de “onda letal que tem invadido as igrejas”. E provoca: “A Bíblia fala em maus espíritos, como isso seria interpretado à luz da teoria freudiana?”

Claus Hinden é alto, tem cabelos brancos e olhos azuis que denotam sua ascendência alemã. Aos 62 anos, formado em engenharia elétrica, é pastor batista, teólogo e é considerado o melhor professor do curso de sexologia da Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil.

Em julho, minha turma assistiu a uma aula dele. Usando slides projetados em PowerPoint, ele primeiro nos mostrou imagens dos aparelhos reprodutores masculino e feminino. Depois, tabelas com as reações genitais e extragenitais de ambos os sexos nas fases de excitação.

Em seguida, Hinden contou o caso de uma paciente sua que estava “virando homossexual”. Ela seria tão apaixonada pelo pai que, para não traí-lo com um homem, teria optado por se relacionar sexualmente com outra mulher.
 

“Filhos de pais homossexuais não podem sair pessoas sadias”, disse. Uma das alunas, funcionária da Petrobras, incomodou-se com a afirmação. Contou conhecer um casal gay de pais exemplares. “O.k., vamos nos falar daqui a dez anos”, disse-lhe o professor. “Pode anotar aí a data de hoje. Aposto com você que essa criança vai ser problemática.” Segundo Hinden, pais homossexuais inviabilizam a resolução do complexo de Édipo.
 

Depois da aula, Hinden me disse que, “por uma questão de honestidade”, não atende homossexuais em seu consultório. “Está fora da minha alçada”, afirmou. Ele prefere lidar com pacientes evangélicos, porque eles não se desesperam, “já que confiam em Deus e têm menos dificuldade em lidar com a morte”.

Já Heitor da Silva disse não ter preconceito com a homossexualidade, “porque se trata de uma patologia”. E acrescentou que ela “não é uma coisa boa. É uma agressividade, consciente ou inconsciente. É prejudicial para a pessoa, mas eu não bato, não hostilizo, não xingo. Trato como outro problema qualquer, como a pedofilia e a necrofilia”. Com uma expressão grave, ele explicou que a religião não transforma as pessoas em seres imaculados. “Elas apenas passam a temer o castigo de Deus”, afirmou.

Depois de quatro horas de entrevista, Silva exibia um ar vitorioso. “Eu cheguei ao fim do meu projeto”, disse. “A ideia era abrir uma filial em cada estado e essa filial deveria se tornar independente e continuar fazendo trabalho de formação. Isso está ocorrendo. Os alunos passaram a presidir novas sociedades. Eles ainda estão difundindo a psicanálise.” 

Não tardou para que ele se valesse da Revolução Francesa para demonstrar o triunfo de sua missão: “Morreram os revolucionários, mas suas ideias continuam vivas. Quando eu não estiver mais aqui, os resultados ainda vão ser sentidos. Quero crer que esse fenômeno será estudado profundamente. Mas não como um fato religioso, porque nunca foi religioso.”

Jacques Lacan fez outra previsão. Numa célebre entrevista em Roma, em 1974, declarou: “A religião triunfará. A psicanálise sobreviverá, ou não.” Para Lacan, nada mais natural que o fracasso da psicanálise. “Afinal, aquilo ao qual ela se consagra é muito, muito mais difícil.” E resumiu sua tese: “Se a religião triunfar é sinal de que a psicanálise fracassou. Em suma, é uma ou outra.”

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Psicólogos picaretas

O texto abaixo foi publicado em junho no blog CloacaNews. Infelizmente não posso discordar...

Zero hora usa alguns psicólogos picaretas para linchar dunga

O tablóide gaúcho Zero Hora, braço impresso da corporação mafio-midiática RBS, fez jus, em sua edição de ontem, 23, ao epíteto de jornalixo, carinhosamente cunhado por este blog. Em texto assinado por um certo Itamar Melo, a gazetinha alinhou-se incondicionalmente à sórdida campanha difamatória movida pelas Organizações Globo contra o técnico Dunga, da seleção brasileira de futebol. Sob o título “Psicanalistas analisam destemperos do técnico Dunga”, Zero Hora vale-se dos pareceres de “especialistas” para pespegar no treinador as pechas de “neurótico” e “paranóico”, entre outras patologias. Na verdade, foram ouvidos dois picaretas que, no afã de conseguir seus minutinhos de glória, não hesitaram em mandar às favas o Código de Ética Profissional do Psicólogo. O documento, exarado em 2005, no XIII Plenário do Conselho Federal de Psicologia, em Brasília, diz o seguinte em seu Artigo 2 , alínea “q”: “Ao psicólogo é vedado: realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar resultados de serviços psicológicos em meios de comunicação, de forma a expor pessoas, grupos ou organizações". Esperar o que de um veículo que costuma basear suas reportagens em fontes cultivadas nos latões de lixo?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Lançamento: O trabalho do Psicólogo no Brasil



Este livro, recém-lançado pela editora Artmed, é o resultado de um abrangente estudo sobre a formação e o exercício profissional da Psicologia no Brasil. A última grande pesquisa sobre os psicólogos brasileiros foi realizada há mais de 20 anos e resultou no clássico livro Quem é o psicólogo brasileiro? (lançado em 1988 pela Edicon, atualmente esgotado na editora, mas disponível na íntegra aqui). A nova pesquisa - e o livro - foram coordenados pelos psicólogos-pesquisadores Antonio Virgílio Bittencourt Bastos e Sônia Maria Guedes Gondim, ambos da Universidade Federal da Bahia (UFBA). De acordo com o site TramaWeb (link): "O livro apresenta reflexões teóricas que apontam a realidade e os principais desafios da profissão de psicólogo. Entre eles destacam-se o crescimento acentuado em todas as regiões associado a uma interiorização (presença cada vez maior fora das capitais dos Estados), as condições ainda adversas de inserção no mercado de trabalho, com indicadores de precarização muito evidentes, especialmente para o jovem recém-formado e a existência de pouca inovação em termos de atividades desenvolvidas, mesmo com a diversificação de contextos de trabalhos. A autora [Gondim] revela mais: 'uma formação com muitas deficiências, especialmente em competências que rompam a atuação em nível dos indivíduos e atuem em nível de grupos, organizações e outras unidades sociais mais complexas é outra revelada pela pesquisa detalhada no livro'. 'Trata-se de uma obra que envolveu o empenho e esforço de um grande número de pesquisadores, espalhados por programas de pós-graduação de diversas instituições de diversos estados brasileiros. A pesquisa conduzida foi bastante complexa e abrangente, ampliando de forma significativa a compreensão dos problemas que ainda permanecem no exercício da profissão', resume Bastos". Saiba mais sobre este novo e importante livro clicando aqui. Para comprá-lo clique aqui. Eu acabei de encomendar o meu...

A gente não quer só comida

Rótulos


Fonte: Remédios

Lançamento: Cinema e Loucura

Saiba mais aqui.

O imperativo da felicidade


Fonte: Remédios

Procrastinação - Parte 2


Para ver a primeira parte clique aqui.

Catarse


Fonte: Remédios

Relacionamentos modernos - Parte 14


Fonte: Dosis Diarias (adaptado e traduzido pelo Chongas)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os psicólogos e o Caso Bruno

A mídia já tem um novo Caso Nardoni para focar todas as suas atenções. É o "Caso Bruno". Os jornalistas, ávidos por notícias e imagens exclusivas, cercam o Caso como urubus ao redor de uma carniça. Repórteres ficam de plantão 24 horas na porta das delegacias, helicópteros acompanham a transferência dos acusados, reportagens investigativas tentam ir além do trabalho que a polícia vem fazendo (não por altruísmo, óbvio, mas para lucrar em cima do caso), etc. E junto com os jornalistas carniceiros vêm os "especialistas de plantão". Psicólogos e psiquiatras são chamados a dar suas opiniões "cientificamente embasadas" sobre o caso e os acusados. Fazem, então, análises psicológicas “profundas” a partir de notícias vinculadas nos jornais ou na TV. Não têm, em nenhum momento, qualquer contato com os analisados. Analisam de fora, de longe, superficialmente... Entendo que a mídia também possa deturpar a fala destes profissionais, mas considero-os equivocados a partir do momento que aceitam ceder entrevistas desta natureza. Penso o seguinte: uma coisa é você falar o que acha, dar sua opinião pessoal sobre o Caso com parentes e amigos em uma situação informal; outra, muito diferente, é você dar sua opinião "profissional", publicamente em um órgão de imprensa, sobre alguém que você não conhece a partir da posição de especialista, de expert em determinado assunto. Leiam abaixo algumas opiniões dos nossos colegas psicólogos sobre Bruno:

Jornal do Brasil - Manchete "Psicóloga diz que Bruno é psicopata" - Bruno Fernandes das Dores de Souza, o goleiro Bruno, é um psicopata, na opinião da psicóloga jurídica e perita V. [Não quero confusão, por isso retirei o nome] – Ele tem noção de tudo o que fez, não demonstrou em nenhum momento culpa ou remorso. Essas pessoas sabem o que é certo e errado. V. explica, que, para a Justiça, é mais difícil julgar esse tipo de caso. – O doente mental mata quando surta, e o Bruno, em todos os momentos, foi dissimulado, o que caracteriza o transtorno de conduta – observa psicóloga. – Em uma das entrevistas, ele disse que torcia para que Elisa aparecesse. V. frisou que é importante fazer um estudo da vida do jogador. – Ele tem um histórico de abandono aos 3 anos de idade. A relação mãe e bebê nos primeiros anos de vida é imprescindível para uma boa formação de caráter. Ídolo do clube mais popular do Brasil, Bruno colecionava títulos e era referência para muitas crianças e adolescentes. Na opinião da psicóloga clínica M., a infância e a adolescência são propensas a confusões sobre o que é certo e o que não é. – Algumas crianças têm clareza do que está acontecendo, outras não – pondera – A adolescência, principalmente, é uma fase difícil, de questionamentos, em que a pessoa quer quebrar todas as regras. E, então, pode ocorrer uma deturpação. De acordo com o advogado criminalista A., é comum personagens do futebol se envolverem em transgressões. – Eles ganham dinheiro muito rápido e muitos não têm suporte familiar para saber como se portar. Esse jogador não tem nenhum respeito pela vida humana, nem por mulheres.
SRZD - Manchete "Frieza de Bruno pode ser característica de imaturidade ou psicopatia, diz psicólogo"Capitão de um dos maiores clubes de futebol do Brasil, ídolo de milhões de torcedores, teve uma infância pobre, cresceu na vida com o talento e ganhou notoriedade e dinheiro repentinamente. No auge da carreira, Bruno Souza tem o nome envolvido em um crime bárbaro que chocou o país e repercutiu internacionalmente. Essa poderia perfeitamente ser a história de um filme de suspense, mas não é. O agora ex-goleiro do Flamengo é um dos suspeitos da morte da ex-namorada e mãe de um possível filho seu, Eliza Samudio. Para o psicólogo M., dificilmente o jogador vai conseguir recuperar uma imagem de confiança junto ao público, independentemente do desfecho do crime. "Indepen- dentemente de ser uma pessoa famosa ou não, qualquer pessoa fica estigmatizada e dificilmente vai conseguir reconquistar uma imagem de confiança junto ao público, mesmo que ele não seja condenado. Vai ficar com a imagem arranhada, não tem jeito", disse M. O crime vai sendo desvendado e alguns detalhes chocam. Apesar de não ser acusado de executar o crime, Bruno é suspeito de ser o mandante de um sequestro à moça. Analisando de longe o caso, M. diz que aparentemente, o jogador tem a personalidade fria, o que pode caracterizar duas possibilidades: imaturidade ou psicopatia. "Um psicopata se caracteriza pela frieza, falta de solidariedade. Ele deu uma entrevista dizendo que queria que ela aparecesse logo, que torcia para que ela estivesse viva, mas com certeza sabia o que tinham feito com a mulher, sabia que ela estava morta. Na delegacia, preso, ele conseguiu pensar na convocação para a Copa de 2014, quer dizer, demonstrou muita frieza. Em relação a imaturidade, ele pode ter se deixado levar pelo que os outros diziam. A menina tava enchendo o saco dele, e falaram para ele acabar com ela", analisou. As boas atuações defendendo o gol do clube com a maior torcida do país rendeu ao Bruno além da idolatria de crianças e adolescentes, uma linha personalizada de produtos, fabricados pela marca esportiva Olympikus. O psicólogo explica que é importante os pais orientarem e desconstruírem a imagem de ídolo em uma situação como essa. "É preciso transformar a idolatria positiva em uma idolatria negativa. Os pais devem trabalhar no modelo a não ser seguido, mostrar as coisas que ele perdeu fazendo isso, como o fim da carreira", contou, lembrando que Bruno foi afastado do Flamengo e teve o contrato de patrocínio com a Olympikus suspendido.

Dá pra ver uma pequena diferença entre os psicólogos entrevistados. A primeira psicóloga me parece  mais direta e acusatória: “Ele tem noção de tudo o que fez”. Ou seja, ele fez o que falam que ele fez e o fez consciente. Ele é culpado, portanto. Já o psicólogo da segunda reportagem é um pouco mais comedido, mas ainda sim acusatório. Em certos momento fala que o Bruno PODE ter se deixado levar pelo que os outros diziam, mas em outros é taxativo: ele “com certeza sabia o que tinham feito com a mulher”. O mais perigoso da fala deste psicólogo, na minha opinião, é quando ele (supostamente) diz que Bruno vai “ficar com a imagem arranhada, não tem jeito”, sugerindo que não há como se mudar um estigma, mesmo que ele venha a se mostrar falso. Ou seja, Bruno está condenado para sempre, mesmo que venha a ser provada sua inocência. Culpado ou não, Bruno já foi condenado. Pela mídia e por especialistas como estes que deviam, ao invés de acusar e diagnosticar (estigmatizando ainda mais os acusados), questionar estas análises superficiais e distantes, recusando-se a opinar sobre a vida alheia gratuita e indiscriminadamente. Às vezes o silêncio é a atitude mais sensata...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Overanalizing


Fresquinho, direto do sensacional Stuff No One Told Me (Coisas que ninguém me disse). Traduzido e adaptado por mim mesmo.

Profecia auto-realizadora - parte 2

A tirinha é do genial Ricardo Tokumoto da Ryotiras, mas descobri no interessante blog Penso, logo sinto.

Psicólogo Xicovate - Terça Insana



Criado pelo ator Guilherme Uzeda, Xicovate (nome provavelmente inspirado no psiquiatra e terapeuta Flávio Gikovate) é um psicólogo, digamos, hippie - espécie rara hoje em dia, infelizmente (os psicólogos estão cada vez mais "caretas", conservadores e parecidos com médicos!). Acho esta esquete, como a maioria das esquetes da Terça Insana, muito engraçada. E fica ainda mais engraçada ao descobrirmos que o próprio ator é formado em psicologia, tem especialização em Psicodrama (fonte), atuou por um tempo como psicólogo clínico (fonte) e que, além disso, é filho de uma psicóloga e de um psiquiatra (provavelmente, pela minha pesquisa, Pedro Paulo Uzeda, um dos precursores do psicodrama no Brasil). Ou seja, o cara conhece o mundo psi e pode fazer graça dele! Hoje Uzeda não atua mais como terapeuta, tendo optado pela carreira de ator de um dos mais bem-sucedidos grupos de humor do país. Para quem se interessar em conhecer melhor o trabalho da trupe criada pela talentosa atriz Grace Gianoukas (já vista neste blog aqui), recomendo os DVDs "Terça Insana" (2004) e "Terça Insana - Ventilador de Alegria" (2008), cujas esquetes também estão disponíveis no Youtube (link).

segunda-feira, 28 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Relacionamentos modernos - Parte 11

I.A. = Internautas Anônimos

Adolescência



Contardo Caligaris

ABBY SUNDERLAND nasceu na Califórnia, em outubro 1993. A família vivia num barco, ao longo da costa do Pacífico. O irmão mais velho de Abby, Zac, aos 17 anos, tornou-se o mais jovem velejador a circum-navegar a Terra sozinho. O recorde de Zac não resistiu muito tempo: logo, Michael Perham, um adolescente inglês um ano mais jovem que Zac, completou sua volta solitária ao mundo. Note-se que Perham, aos 14 anos, já tinha atravessado o Atlântico sozinho. Abby também, desde seus 13 anos, sonhava em circum-navegar a Terra. No começo deste ano, aos 16, sozinha, ela largou as amarras de seu veleiro de 12 metros e desceu o Pacífico Sul. Passou o Cabo Horn, atravessou o Atlântico e passou o Cabo de Boa Esperança, lançando-se no Oceano Índico. Entre a África e a Austrália, Abby encontrou uma tempestade à qual o mastro de seu barco não resistiu. No sábado passado, depois de dois dias à deriva num mar infernal, ela foi resgatada. Pela internet afora e na imprensa dos EUA, os pais de Abby estão sendo criticados por um coro indignado: como vocês puderam deixar uma menina de 16 anos errar sozinha pelo mar e pelos portos? Fora tsunamis e tempestades, o que dizer dos meses insones espreitando o mar e o vento a cada meia hora, da solidão, do trabalho incessante, do frio, do desconforto de uma navegação solitária ao redor do mundo? E os piratas ao sul da Malásia? Por qual permissividade maluca vocês aceitaram que Abby se lançasse numa aventura que seria arriscada para gente grande? Já a bordo do barco que a resgatou, Abby escreveu no seu blog: "Há uma quantidade de coisas que as pessoas podem estar a fim de culpar pela minha situação: minha idade, a época do ano e muito mais. A verdade é que passei por uma tempestade, e você não navega pelo Oceano Índico sem entrar em, no mínimo, uma tempestade. Não foi a época do ano, foi apenas uma tempestade do Oceano Sul. As tempestades fazem parte do pacote quando você veleja ao redor do mundo. No que concerne à idade, desde quando a mocidade do velejador cria ondas gigantescas?". Se você duvida que Abby tivesse a maturidade necessária para sua empreitada, leia o diário da viagem (www.soloround.blogspot.com) -sobretudo as notas de Abby durante a interminável navegação no Atlântico Sul. Os que censuram os pais de Abby afirmam que nunca autorizariam seus rebentos a velejar sozinhos ao redor do mundo porque, aos tais rebentos, falta seriedade e falta experiência. Eles devem ter razão -afinal, eles conhecem seus filhos. Mas cabe perguntar: essa falta de seriedade e experiência é efeito de quê? Da simples juventude? Duvido: La Pérouse, o navegador francês, aos 17 anos, em 1758, já estava combatendo os ingleses ao largo de Terra Nova. Então, efeito de quê? Pois é, provavelmente, os mesmos pais que se indignam com a "irresponsabilidade" dos genitores de Abby permitem a seus filhos, mais jovens que Abby, de sair em baladas nas quais os únicos adultos são os que vendem drogas e bebidas. Será que a volta para casa de madrugada, num carro dirigido por amigos exaustos, exaltados ou sonolentos, é menos perigosa do que a circum-navegação do mundo num veleiro pilotado por Abby, animada há anos por um desejo intenso e focado? E, de qualquer forma, qual das duas experiências você prefere para seus filhos? O fato é que muitos pais preferem que os filhos errem como baratas tontas, de festinha em festinha. Por quê? Simples: assim, os filhos ficam infinitamente mais dependentes. E os pais modernos, em regra, querem os filhos por perto; eles adoram que os filhos demonstrem que eles não são suficientemente maduros para sair pelo mundo e para correr os riscos que o desejo acarreta. Não deveríamos nos perguntar qual é a loucura dos pais que empurraram Zac, Abby e Michael mar adentro, mas qual é a loucura dos pais que preferem largar seus filhos nas noites, em que vodca, cerveja, maconha, ecstasy e papo furado servem para convencer os próprios adolescentes de que ainda não começaram a viver e, portanto, vão precisar dos adultos por muito tempo. Comentando a aventura de Abby, um pai me disse: "Nunca deixaria minha filha navegar sozinha, eu não quero perdê-la". Pois é, "não quero perdê-la" em que sentido?