terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tô de férias... Yes!!!


Hoje, às 18 horas, eu entro de férias!!! Minhas primeiras férias desde que comecei a trabalhar como psicólogo, em Setembro de 2008. Pra quem não sabe, eu me formei em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora no final de 2007 e, em junho de 2008, eu passei num concurso público (federal!) para trabalhar como psicólogo no setor de saúde mental da Universidade Federal de Viçosa, também aqui em Minas. Fui nomeado somente em setembro e, desde então, tenho trabalhado 8 horas por dia como psicólogo. Aqui faço atendimentos individuais breves (com estudantes e servidores), trabalhos em grupo, coordeno um projeto de extensão intitulado Psicocine (que busca articular a Psicologia com o Cinema, por meio da exibição e discussão de filmes, reunidos em mostras temáticas - saiba mais aqui), participo de várias comissões voltadas para a melhoria da qualidade de vida no campus, dentre muitas outras coisas. Tem sido extremamente desafiador, ainda que um tanto desgastante. Ser psicólogo não é nada fácil! Lidar com pessoas e com o sofrimento delas diariamente é bastante cansativo e exige demais de mim... Isto pra não falar da complicação que é trabalhar em equipe e lidar com pontos de vista muitas vezes opostos ao meu (aqui somos 5 psicólogos, 2 assistentes sociais, 1 psiquiatra e 2 assistentes administrativos, ou seja, 10 formas de se enxergar o mundo). Por tudo isso, estou precisando muito de férias! E decidi, para fugir totalmente da rotina trabalho-casa-trabalho, ir para uma cidade longe e desconhecida: Fortaleza, capital do Ceará (ver foto acima). No início de Janeiro vou pegar um avião em Belo Horizonte rumo à cidade em que espero passar as melhores (e mais merecidas!) férias da minha vida...

Amor versus Pirâmide de Maslow


Traduzido e adaptado por mim mesmo. O original pode ser visto aqui.

Escuta diferenciada - p3

Para ver os volumes anteriores clique aqui e aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Criadores (e vendedores) de doenças


Complementando o post anterior, sobre o DSM-V, disponibilizo abaixo, na íntegra, um texto absolutamente brilhante, publicado pelo ótimo jornal Le Monde Diplomatique Brasil (link). Boas reflexões!


Os vendedores de doenças


As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa “síndrome” que exige tratamento


Ray Moynihan, Alan Cassels


Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley’s – fabricante e distribuidor de gomas de mascar –, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”. Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.





A fabricação das “síndromes”

A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndomes graves, de tal modo que a timidez torna-se um “problema de ansiedade social”, e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada “problema disfórico pré-menstrual”. O simples fato de ser um sujeito “predisposto” a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.


O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais famacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado “A arte de catalogar um estado de saúde”, Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para “favorecer a criação” dos problemas médicos. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova “disfunção”. Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.





Médicos orientados por marqueteiros


Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.


Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para “criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde”. O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, “de uma nova maneira de pensar nessas coisas”. O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de “criar mercados de novas doenças” traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser “convencidas” de que “problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição” são “dignos de uma intervenção médica”. Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: “Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa”.

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o “normal” do “anormal” são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado “hipertensão arterial”; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.




Quanto mais alienados, mais consumistas

A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo demarketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no célebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.

A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas demarketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.


O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de “pacientes”. Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.





A “medicalização” interesseira da vida

A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a “toda e qualquer pessoa do mundo”. O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.

Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão doestablishment médico estava prestes a “medicalizar” a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, “que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias”.

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou “a venda de doenças”: ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido domarketing e que se consolidas as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.

(Tradução: Wanda Caldeira Brant)

O DSM-V vem aí...

Está em processo de elaboração, por "renomados cientistas", a quinta versão do DSM, ou seja, do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Para quem não conhece, trata-se do catálogo oficial (ou podemos chamar de Menu?) das "doenças mentais", utilizado por psiquiatras e psicólogos do mundo inteiro. O DSM-IV-TR (lançado em 2000, versão revisada, text revision, do DSM-IV, de 1994), em breve deverá ser substituído pelo novo. Inicialmente o DSM-V ia ser publicado em 2011, depois passou para 2012 e agora foi adiado, finalmente, por razões "técnicas", para 2013. Maio de 2013 (ver informe da Associação Psiquiatrica Americana aqui). E, preparem-se, pois ele vêm recheado de dezenas de novas doenças!!! Certamente você e seus pacientes vão se enquadrar em alguma. Ou, se tiverem sorte, em várias!!! E vão procurar um psiquiatra que vai lhe medicar e alimentar ainda mais a já gigantesca indústria farmacêutica, sem dúvida a grande beneficiária de todo este processo (e não por acaso, muito dos psiquiatras que fazem parte da comissão de elaboração do novo DSM tem estreitas ligações com a Big Pharma - ver denúncia aqui). Quanto mais doenças descritas no manual oficial, mais remédios serão desenvolvidos (ou ligeiramente modificados a partir dos atuais - saiba mais aqui) e, consequentemente, maior o lucro destas empresas - e dos psiquiatras que prescrevem os remédios. É uma lógica cruel e atrelada à patologização do cotidiano. Juntando as "doenças" do DSM-V com as do CID-10 (cuja nova revisão, o CID-11, deverá ficar pronta em 2014, de acordo com a mesma declaração da APA) praticamente elimina-se qualquer possibilidade de que alguém seja considerado saudável. Todo mundo tem que ter alguma doença (e tomar remédios, óbvio!). E se, por uma gigantesca sorte, você não se encaixar em nenhuma doença "normal", tascam-lhe um Transtorno de Personalidade pra você não ficar sem um diagnóstico. Afinal, ninguém gosta de sair do médico sem uma receita na mão...





terça-feira, 15 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Piso Salarial dos Psicólogos Já - O blog

Um colega meu, não sei se sozinho ou com outras pessoas, criou um blog intitulado Piso Salarial dos Psicólogos Já, com o objetivo de mobilizar os psicólogos e a comunidade virtual de psicologia para esta importante e antiga reivindicação, sumariamente ignorada pelo CFP - que parece fazer questão de fechar os olhos para uma série de necessidades do trabalhador psi. Em um interessante debate realizado no blog KanzlerMelo sobre o conflito entre o (imbecil direitista) Diogo Mainardi e o (esquerdista) CFP, escrevi o seguinte:

Cadê o CFP lutando pela aprovação do piso salarial dos psicólogos? E pela fixação de uma carga horária semanal menor e mais adequada ao nosso tipo de trabalho? E fiscalizando os concursos públicos que oferecem salários miseráveis e péssimas condições de trabalho? Eles preferem fazer campanhas sobre grandes temas (maioridade penal, comunicação, sistema prisional, etc.) quando deveriam, também e principalmente – e está teoricamente é a função deles – representar os profissionais psicólogos, que trabalham muitas vezes com péssimos salários e em tenebrosas condições de trabalho. Talvez seja necessário ir do macro ao micro, sem esquecer do macro, óbvio, mas valorizando, essencialmente, o trabalhador psi… Nas próximas eleições do CFP e CRPs temos de ser bastante cuidadosos e atentos…

Por tudo isso conclamo: Psicólogos de todo o mundo (virtual), uní-vos em torno desta importante questão do Piso Salarial dos Psicólogos. Visitem o blog indicado, leiam o excelente texto introdutório e mobilizem seus colegas psi (estudantes e profissionais) no sentido de trazer esta pauta à tona. Não dá mais para fechar os olhos!



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Assim disse o psicólogo...


 
Inspirado no excelente blog MindHacks (neste post), pesquisei no Google Notícias - somente para o ano de 2009 - as seguintes expressões: "diz o psicólogo", "diz a psicóloga", "psicólogo diz" e "psicóloga diz". Abaixo algumas das análises, conclusões ou indicações de nossos colegas de profissão - ou dos jornalistas que os entrevistaram (nunca dá pra saber quem falou o quê):

"Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo"

“Os opostos nunca se atraem”

"Facebook faz as pessoas mais inteligentes"

"Harry Potter é como uma droga"

“O eleitor sabe que o presidente pode dizer besteiras de vez em quando” (sobre o Lula)

“Como em tudo na vida, o importante é buscar o equilibro”

“Quando a personalidade é psicótica, a pessoa pode ser imprevisível e destrutiva”

“Temos que ouvir, dar conselhos úteis às pessoas e não nos podemos deixar envolver”

“A baixa autoestima é um problema crescente hoje”

"Atritos nas relações familiares podem causar problemas sérios"

"Qualquer criança dá trabalho"

"Há 20 anos, os jovens queriam mudar o mundo, hoje querem ganhar dinheiro"

“Na presença das sogras ou noras, o seu pior lado floresce”

"Propaganda de cerveja na televisão estimula o alcoolismo"

"A transmissão de valores às crianças se dá, justamente, através de exemplos"

"Evitar a dor no período neonatal faz com que as crianças apresentem menos problemas de comportamento, falta de atenção, agitação”

"Ciúme é um mecanismo de defesa do corpo"

"Nós temos jovens com perspectivas de vida e esses jovens podem ser a grande esperança do nosso país"

"Selinho não deve ser hábito entre pais e filhos" (sobre o episódio em Fortaleza)

“É preciso desapegar, aprender a perder"

"Briga entre pais estressa as crianças"

"A convivência com o irmão faz parte de um aprendizado saudável"

"Pais não conhecem os filhos"

"Bullyng começa em casa"

"Adriano é doce e obediente" (sobre o jogador de futebol)

Certamente há falas interessantes e ponderadas e outras nem tanto, mas o que percebo é que fala-se demais. Sobre tudo, todos e, na maioria das vezes, sem nenhum embasamento - científico, técnico ou qualquer coisa que fuja do senso comum, do achismo ou do puro e simples moralismo. Generaliza-se demais, naturaliza-se demais ("isto é, sempre foi e sempre será assim"), prescreve-se demais ("isto é certo, isto é errado"), interpreta-se demais, simplifica-se demais! Fala-se de tudo, mas não se fala nada! Não dá pra generalizar, claro. Há ótimas exceções, mas a regra ainda parece ser falar o óbvio - ainda que eu também pense que o óbvio muitas vezes precisa ser dito e redito pra vigorar. Mas não o tempo inteiro!!!

Sei também, por experiência própria, que jornalistas muitas vezes distorcem ou reduzem substancialmente a fala dos entrevistados. Outro dia mesmo dei uma entrevista e, quando fui ler sua publicação, observei que a jornalista selecionou uma ou duas frases de efeito minhas, misturou com algumas frases buscando sintetizar o que eu falei e opiniões dela própria... isso "tudo" em menos de dois parágrafos curtos. E olha que nós conversamos por mais de uma hora... Por tudo isso recomendo cautela a nossos colegas psicólogos na hora de darem entrevistas. Se realmente se dispuserem a falar, por favor, falem somente sobre o que entendem e dominam - e com muito cuidado. O que está em jogo, para além do reconhecimento pessoal decorrente da exposição, é a credibilidade da própria Psicologia - ciência e profissão - na e pela sociedade.

Homofobia e estupidez humana

No site do Senado Federal está ocorrendo uma enquete bizarra (link): "Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?". O resultado, mais bizarro ainda, pode ser visto acima. Até o momento há um empate técnico. Em seu blog, o crítico de cinema Pablo Vilaça comentou de forma brilhante tal enquete:

Ora, para mim, esta seria uma pergunta óbvia por natureza. Como assim, se sou a favor de uma lei que pune a discriminação? Isto é pergunta que se faça? O que perguntarão a seguir... se sou contra apedrejamentos e estupros? Que pergunta idiota. Quem, em pleno 2009, seria capaz de defender o preconceito? Quem, a esta altura do campeonato, poderia justificar que a intolerância se transformasse em lei? Aparentemente, metade das quase 300 mil pessoas que votaram na enquete. Há momentos em que, confesso, as palavras me fogem. Busco articular minha descrença, minha revolta, e é como se artigos, substantivos e adjetivos olhassem para mim e dissessem: "Que se foda! Se vire sem a gente; isso tudo é absurdo demais para nós!". E é profundamente absurdo. Mais: é surreal. Que tipo de gente é esse? Quem são esses seres humanos que se julgam tão superiores aos seus colegas de espécie que são capazes de afirmar que o preconceito é algo que deveria ser permitido pelo Estado? Já não basta negar certos direitos aos homossexuais (como o casamento)? Agora é preciso tirar deles também o direito de serem respeitados? Sério: quem são essas pessoas?

Os videos abaixo respondem à pergunta de Pablo:



Afinal, como disse Einstein, "duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e eu não estou certo a respeito do universo".

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"Origem das Espécies" - 150 anos


Em homenagem aos 150 anos da publicação do clássico "Origem das espécies", de Charles Darwin, fiz uma seleção (e, em alguns casos, tradução e adaptação) de alguns cartuns relacionados à obra deste revolucionário inglês, que mudou a forma como encaramos o mundo e a posição do homem diante das demais espécies. Ou melhor, tentou mudar. Muitos ainda insistem em acreditar que a seleção natural é "só mais uma teoria" e que a vida foi criada, de uma só vez, por Deus à cerca de 6 mil anos e que Adão e Eva foram os primeiros exemplares da espécie humana. Então tá!





sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Galeria Psi - Asylum




No primeiro parágrafo do clássico livro Asylums (traduzido no Brasil por Manicômios, prisões e conventos - Ed. Perspectiva, 2003), o sociólogo Erving Goffman define instituição total como "um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada".

Como o título em português aponta, são exemplos de instituições totais os manicômios (também chamados de hospitais psiquiátricos), as prisões, os conventos, os colégios internos, etc. Os manicômios, a partir da reforma psiquiátrica, que prega um tratamento mais humanizado aos chamados "doentes mentais", vêm sendo gradativamente abandonados no mundo todo. Muitos foram demolidos, outros sofreram adaptações e deram lugar a hotéis, museus, etc.

E é exatamente estes espaços abandonados que atraíram a atenção do fotógrafo Christopher Payne. Ele fotografou inúmeros hospitais psiquiátricos americanos e reuniu as fotografias no livro "Asylum - Inside the closed world of State Mental Hospitals", prefaciado pelo famoso neurologista Oliver Sacks, autor do belísismo livro (que inspirou o filme) Tempo de Despertar, que relata seu trabalho exatamente em uma instituição de saúde mental. Segundo o blog Mind Hacks, as fotos, reunidas pelo jornal New Scientist, captam "a grandiosidade desbotada de alguns destes edifícios impressionantes e tem fotos dos equipamentos e tecnologia de uma psiquiatria de uma época passada". Abaixo algumas fotos. Mais aqui e aqui.


 

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Não dá para competir - Volume 11


Para ver os volumes anteriores clique aqui.

Por que os argentinos amam psicanálise?



Recentemente, foi publicado no blog Mind Hacks o seguinte post (traduzido de forma amadora por mim):

Argentinos tem uma relação de amor com a psicanálise

O Street Journal publicou um artigo revelador sobre porque a Argentina tem a maior concentração de psicólogos em todo o mundo e porque tem uma longa fascinação cultural com a psicanálise.

A psicanálise é um conjunto de teorias psicológicas e uma forma de psicoterapia fortemente baseados nas idéias de Freud. Buenos Aires é um dos centros mundiais da psicanálise e o tem sido desde os primórdios da obra de Freud.

Ao contrário de muitos países, onde a psicanálise foi e continua a ser uma psicologia para os ricos, a prática decolou na Argentina durante os anos 1960 até o ponto onde hoje é comum para as camadas populares encontrar um analista. O WSJ cita um estudo recente que sugere que 32% dos argentinos fizeram análise em algum momento de suas vidas.

A argentina também é conhecida como um centro de psicanálise lacaniana, baseada no trabalho do psiquiatra francês Jacques Lacan. Se você puder, imagine um francês pós-moderno apropriando-se de Freud. Se não puder, ler Lacan é improvável que ajude, porque é uma reinterpretação quase impenetrável do que já era um conjunto de teorias razoavelmente arraigadas (loopy) em diversos lugares.

Mas a psicanálise é mais do que uma prática psicológica na Argentina, é uma parte central da cultura e o artigo do WSJ explora um pouco de sua popularidade:

A psicanálise está incorporada na geografia de Buenos Aires, onde muitos analistas estão agrupados em um bairro conhecido popularmente como Villa Freud.

O pensamento freudiano permeia o noticiário político. O semanário Noticias recentemente convidou para um painel 10 psicanalistas para explicar o comportamento do ex-presidente Néstor Kirchner, que está roubando os holofotes políticos de sua esposa, Cristina, a atual presidente.

Uma revista pergunta: O que fazer com a afirmação da Sra. Kirchner de que o marido dorme em posição fetal?

Enquanto isso, na TV, uma série dramática chamada "Tratame Bien" ( "Trate-me bem"), centra-se nas agruras de José e Sofia, marido e mulher, cada um com um analista. Diante de uma crise de meia-idade, os dois tomam uma decisão importante: manter um terceiro analista para que possam fazer juntos uma terapia de casal.

Curiosamente, grande parte da America Latina ainda é fortemente influenciada pela psicanálise, provavelmente devido às influências históricas dos E.U.A. no Norte e da Argentina no Oeste. [link]

Entretanto, desde que trabalho aqui, eu percebi que fazer uma psicologia e psiquiatria baseadas em evidências é muito mais difícil em países com recursos limitados.

Acesso às evidências é caro (graças ao uso restritivo dos direitos autorais e dos excessivos preços dos jornais/ revistas científicos) e a pesquisa é difícil quando há pouco tempo livre e poucas oportunidades de financiamento.

No entanto, isso não se configura como um problema para os psicanalistas, porque suas maiores fontes de informação são a sua própria experiência, insights e o trabalho com o paciente, além de discussões em um conjunto limitado de revistas.

Em outras palavras, é muito mais fácil cumprir os requisitos do que se espera de um bem informado e competente psicanalista do que o que se espera de um psicólogo orientado cientificamente e baseado em evidencias (scientifically-oriented evidence-based psychologist). [link]

Isso, eu suspeito, é uma das muitas razões pela quais a psicanálise continua a ser popular na América Latina.

Psicanalistas e psicólogos latino-americanos, durmam com essa...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rozângela Justino joga a toalha...


Li hoje no blog do jornalista Paulo Roberto Lopes (link):

Psicóloga desiste de atender quem quer deixar de ser gay

A psicóloga evangélica Rozangela Justino comunicou à “sociedade brasileira” em seu blog que não mais atenderá as pessoas que desejam deixar de ser gays. Ela disse que, além de pressão do CFP (Conselho Federal de Psicologia), tem sido ameaçada de morte por militantes gays. “Já comuniquei as autoridades a respeito de tais ameaças.” Em julho deste ano, o CFP anunciou uma censura pública a Rozangela com base na resolução 01/99 da entidade segundo a qual a homossexualidade não é doença, nem distúrbio e perversão. Na época ela já dizia estar sendo recebendo ameaças anônimas, tanto que, para não ser reconhecida, deu entrevista com uma máscara hospitalar. Mesmo assim reafirmou que ia continuar tratando de pessoas descontentes com a sua homossexualidade. Agora, Rozangela mudou de ideia para não perder o registro profissional. “Estou gradativamente encerrando as minhas atividades no consultório e desde a minha punição pelo CFP não recebo pacientes novos”, escreveu. Disse estar inconformada em ter de abandonar um trabalho o qual desenvolve desde 1988. E, reafirmando o seu ponto de vista, que tanto tem desagrado o movimento gay, disse que ninguém nasce homossexual, e quem deseja deixar de sê-lo deveria ter o direito de contar com a ajuda de profissionais da psicologia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sexta-Feira 13, a lua e as superstições

Em homenagem a este supersticioso dia, sugiro a todos a leitura de um artigo fabuloso, intitulado Sob o encanto da lua, publicado na revista Mente & Cérebro de Setembro. Os autores mostram como a idéia de influência lunar tem sido utilizada no decorrer da história e nas mais diversas culturas para explicar comportamentos humanos e sobre como estas concepções, à luz da ciência moderna, não passam de "fóssil cultural". Um trecho:

"Por pelo menos três motivos, essa teoria [da influência lunar] pode “ir por água abaixo”. Primeiro, os efeitos gravitacionais da Lua são muito pequenos para causar qualquer alteração significativa na atividade cerebral, que dirá, então, no comportamento. Como notou o astrônomo George Abell, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, um mosquito pousado em nosso braço exerce uma força gravitacional mais potente do que o satélite. Em segundo lugar, a força gravitacional da Lua afeta apenas corpos de água abertos, como oceanos e lagos, mas não fontes contidas, como o cérebro humano. E, por último, o efeito gravitacional é tão forte durante a lua nova – quando ela é invisível para nós – quanto durante a fase cheia (quando se acredita que seu poder místico esteja mais intenso).

E, ainda, o problema mais grave para os crentes fervorosos no efeito lunar: não há nenhuma evidência de que ele exista. O psicólogo James Rotton, da Universidade Internacional da Flórida, o psicólogo Ivan W. Kelly, da Universidade de Saskatchewan, e o astrônomo Roger Culver pesquisaram ampla e profundamente a existência de efeitos comportamentais consistentes causados pela lua cheia. Em todos os casos, eles saíram de mãos vazias. Esses pesquisadores combinaram resultados de múltiplas investigações, tratando-os como um único grande estudo – procedimento estatístico chamado meta-análise – e descobriram que a lua cheia não tem correlação alguma com eventos hostis, incluindo crimes, suicídios, problemas psiquiátricos e aumento das chamadas dos serviços de emergência. No artigo “Muito tumulto por causa da lua cheia”, publicado no periódico Boletim de Psicologia, Rotton e Kelly, com bom humor, deram adeus às pesquisas sobre o efeito da lua cheia e concluíram que não eram necessários estudos mais profundos.

Outra sugestão é a mini-série Inimigos da razão (cujo primeiro episódio, disponível abaixo, intitula-se Escravos da Superstição), do biólogo, polemista e ateu militante Richard Dawkins. Tenho muitas críticas a ele e ao video, mas vale a pena assistir, nem que seja somente para criticá-lo. Abaixo a primeira parte (de um total de cinco):




Para assistir as demais partes clique aqui, aqui, aqui e aqui.

OBS: Dawkins também escreveu um texto brilhante (extraído de seu livro Desvendando o Arco-Íris), intitulado "A caixa de Skinner", em que ele explica, a partir da perspectiva behaviorista, a formação do comportamento supersticioso. Para ler este texto, clique aqui ou aqui.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"Fuck you" e o paradoxo do preconceito


Ouvindo o CD novo da cantora Lily Allen (It's not me, it's you), me encantei com uma música que ao mesmo tempo que é tão meiga tem um título bem agressivo: Fuck You. Fui ver a tradução e descobri que tem uma letra bem interessante. Posteriormente descobri que esta música tem sido usada em campanhas contra a homofobia e o preconceito de uma forma geral. Poderia, perfeitamente, servir de recado para nossa "amiga" Rozângela Justino, a "psicóloga missionária" que diz converter gays e que foi punida pelo CFP em Agosto deste ano (saiba mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Mas a música também retrata um paradoxo: aqueles que lutam contra o preconceito, em última instância, nutrem preconceito contra o preconceituoso e muitos acabam, inclusive, sendo extremamente intolerantes com o intolerante. A letra é brilhante ao expressar este paradoxo. Ao mesmo tempo que a "narradora" da música questiona aqueles de "mente pequena", "racistas", "cabeças-duras", "malvados" e com um pontos de vistas "medievais" (que não acham "normal ser gay" e cujas "palavras não querem dizer nada") e se sente desanimada, enjoada e cansada com todo o ódio que estas pessoas guardam, no refrão ela manda, carinhosamente, todos estes preconceituosos se fuder e complementa: "Vá se fuder, muito, muito mesmo / Porque odiamos o que você faz / Odiamos a sua turma / Por favor não se aproxime (...) Ninguém quer sua opinião". Enfim, ela odeia os que tem ódio... Complexo, não?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uni(tali)ban

Oh, preguiça...

Queridos leitores deste blog, tenho publicado basicamente posts com imagens ou videos em função: primeiro, do excesso de trabalho e segundo, da imensa preguiça que tem tomado conta de mim. Final de ano é foda! Além do calor, é claro... Estou com uma série de posts inacabados e sem tempo nem saco para terminá-los... Estou, essencialmente, como meu xará (Felipe), personagem das tirinhas Mafalda!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Auto-ajuda... funciona?


Saiba mais sobre "O segredo" aqui.

Blogadição - O vício do blog


OBS: traduzido e adaptado por mim mesmo. o original pode ser visto aqui.
Acho que eu reagiria da mesma forma...

Humor Negro

Em meu blog anterior (o Magnólia) eu havia postado uma série de charges - que re-publico abaixo - criadas pelo cartunista Maurício Pestana em parceria com o escritor Arnaldo Xavier (falecido em 2004). Segundo o site onde encontrei as charges (hoje fora do ar), Maurício e Arnaldo "são artistas negros que resolveram usar toda sua criatividade para retratar, de forma bem humorada, uma realidade brasileira: a discriminação racial". Eles também publicaram o livro Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil, com outras ilustrações e textos sobre esta importante (e nada ultrapassada) questão.










OBS: achei mais três ótimas charges do Pestana...