sexta-feira, 14 de março de 2014

Uma competição fálica


Vagando pelo Netflix acabei caindo no surpeendende e absurdo documentário O membro final. Para quem acha que já viu de tudo no mundo, recomendo entusiasticamente. A sensação de estranhamento - do tipo WTF - será permanente. Em vários momentos, inclusive, me peguei pensando: "Isso é uma piada, essas pessoas são atores, não é possível uma coisa dessas!". Pois bem, o filme conta a história de Siguröur "Siggi" Hjartarson, um simpático velhinho islandês que é dono do único museu do mundo dedicado ao pênis. Sim, amigos, o sujeito possui, milhares de pênis - de todos os animais que você puder imaginar (baleias, hipopótamos e ramsters), com exceção de um: o homem. Por questões legais, Siggi não conseguiu nenhuma doação de um pênis humano e isto o deixa extremamente frustrado. Seu museu não estará completo sem um pênis humano. Mas eis que surgem Pall Arason, um velhinho de 92 anos que é uma figura lendária na Islândia em função do número de mulheres transou em sua vida, e Tom Mitchell, um norte-americano rico e um tanto excêntrico. Ambos sujeitos estão dispostos a doar os seus pênis para o museu de Siggi. Pall, por exemplo, assinou um termo doando seu pênis assim que morrer - o que, imagina, não demorará. Mas Tom não está nada feliz com a possibilidade de Pall "ser" o primeiro pênis do museu. E é por isso que ele deseja, ainda em vida, remover o seu pênis (que ele chama carinhosamente de Elmo) para torná-lo o pênis mais famoso do mundo. Esse sujeito é simplesmente fascinante em sua obsessão por fazer do seu pênis um monumento a ser olhado e admirado por toda a eternidade. Seu entendimento é quase espiritual: "enquanto meu pênis permanecer, eu permanecerei". E seu ato também tem algo de patriótico, tanto que tatuou em sua glande a bandeira dos Estados Unidos! Pode isso, Arnaldo? E é sobre essa espécie de "competição fálica" entre Pall e Tom que trata o filme. Enfim, recomendo demais esse documentário para aqueles que se interessam pela infinita complexidade da psiquê humana.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sobre a medicalização do risco no campo psi

O dicionário Aurélio define risco de duas maneiras: como “a possibilidade de perda ou responsabilidade pelo dano” e também como “perigo ou a possibilidade de perigo”. Tais definições apontam para uma visão de risco como uma probabilidade de ocorrência de algum evento negativo, seja um dano ou uma situação de perigo. Não há, portanto, a certeza de tal ocorrência, mas sim a possibilidade, que pode ser maior ou menor de acordo com o caso. 

Como apontam Castiel, Guilam e Ferreira no livro Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde, a noção de probabilidade pode ser entendida de dois modos: 1) como algo “intuitivo, subjetivo, vago, ligado a algum grau de crença, isto é, uma ‘incerteza que não se consegue medir” e 2) como algo “objetivo, racional, mensurável mediante técnicas probabilísticas – ‘incerteza capaz de ser medida”. Esta segunda concepção está relacionada, por sua vez, à abordagem dos fatores de risco que busca marcadores que possibilitem a predição e mesmo a prevenção, de determinados danos ou perigos futuros. O objetivo é, portanto, entender e atingir algum controle sobre certas questões aparentemente incontroláveis ou incertas, de forma a possibilitar intervenções no presente que evitem danos futuros.

Dois conceitos são essenciais pra se entender a noção de risco: causalidade e associação. O primeiro termo refere-se não a uma probabilidade, mas a uma certeza: x causa y, ou seja, se há x, certamente haverá y. Não se trata, portanto, de um risco ou de uma probabilidade, mas de algo dado e certo. Como apontam os autores, uma vez estabelecida uma relação causal entre x e y, torna-se imperioso, especialmente em questões relacionadas à saúde, intervir em x para que y não se manifeste. Por exemplo, uma vez estabelecido que altas temperaturas causam significativos danos à saúde humana, pode-se pensar em intervenções que impeçam agravos resultantes da exposição ao calor. No entanto, a maior parte das questões do mundo, especialmente no campo da saúde, não podem ser simplesmente explicadas por uma relação de causa e efeito. E é aí que se insere o conceito de associação, que aponta para relações probabilísticas entre x e y. Neste caso x está associado à y, ou seja, se há x há alguma probabilidade de que y se manifeste. Por exemplo, o uso de cigarro está associado ao câncer de pulmão, o que significa que a pessoa que fuma tem maiores possibilidades de desenvolver um câncer de pulmão do que não-fumantes, mas não que tal pessoa necessariamente irá desenvolvê-lo. Isto porque, como apontam os autores, “as afirmações baseadas em probabilidades são dependentes de contingências eventualmente fora do controle dos observadores em seus intentos de especificar causas e efeitos”.

Uma consequência disso na área da saúde, é que as intervenções que visam a prevenção de doenças ou mesmo a promoção de saúde, tem que lidar com certas doses (algumas vezes muito altas) de incerteza, estando a noção de risco justamente relacionada a isso. Estes autores apontam ainda para três tipos de risco: absoluto, relativo e atribuível. O primeiro se refere à incidência de determinada condição ou doença na população em determinado intervalo de tempo. Por exemplo, quando se diz que a incidência de leucemia em Recife no ano de 2003 é de 3,6 por 100.00 habitantes, isto significa que o risco de se desenvolver leucemia neste período é de 3,6/100.000. Já o risco relativo informa quantas vezes o risco é maior em um grupo, quando comparado a outro. Por exemplo, dizer que fumantes tem quatro vezes mais probabilidade de desenvolver câncer de pulmão significa dizer que o risco relativo para tal morbidade é de 4. Finalmente, o risco atribuível aponta para diferença na incidência de determinada questão quando dois grupos são comparados, diferença esta que é atribuída à exposição ou não-exposição a determinados fatores de risco. Por exemplo, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão para não fumantes pode ser calculada efetuando-se sua subtração com a taxa de câncer de pulmão na população em geral e o resultado obtido é o chamado risco atribuível ao câncer de pulmão relacionado ao ato de fumar.

No campo da saúde, a noção de risco vem tomando cada vez mais destaque. Diversos autores chamam mesmo atenção para uma tendência a reclassificar fatores de risco como doenças. Segundo Schwartz, algumas das “doenças” mais comuns atualmente, como a hipertenção arterial, a hipercolesterolemia, a obesidade e o diabetes, passaram a ser definidas a partir da noção de risco – são, por assim dizer, doenças baseadas no risco (risk-based diseases). Isto significa que questões que eram entendidas como risco para determinadas doenças ou problemas de saúde passam a ser entendidas como doenças autônomas. Reiheld chama este processo de medicalização do risco. 

E tal processo traz repercussões profundas no discurso e nas intervenções biomédicas. Castiel, Guilam e Ferreira apontam para algumas consequências, como a multiplicação de regras comportamentais voltadas para a prevenção e promoção de saúde (por exemplo: não fumar, beber moderadamente, fazer exercícios físicos regularmente, etc), a ampliação das tarefas na clínica médica relacionada ao surgimento de uma clínica da vigilância dos riscos, a criação de novos produtos, serviços e especialistas voltados à gestão do risco, etc. 

Relacionado a isso, o antropólogo Joseph Dumit, em seu livro Drugs for life, aponta para a emergência de um novo tipo de saúde, no qual ser normal é ter sintomas e fatores de risco com os quais se preocupar. Ser normal, atualmente, é estar sempre inseguro - duplamente inseguro, tanto por não saber o suficiente sobre o futuro e sobre a própria saúde como por não saber o que se pode ou se deve fazer para permanecer ou tornar-se saudável. E quando mais inseguros e medrosos ficamos, mais ações preventivas e medicamentos precisamos. E, com isso, surge todo um novo mercado de produtos e remédios voltado para a prevenção de doenças e redução dos riscos. E isto, por sua vez, gera, no linguajar de Dumit, novos "modos biomédicos de viver", ou seja, formas com que as pessoas se relacionam com as medicações e com os riscos da vida.

O primeiro tipo definido pelo autor é o "paciente expert", que engloba pessoas sedentas por informações sobre a própria saúde. Os pacientes experts são, por assim dizer, experts em serem pacientes. Sabem todas as suas taxas de glicose e colesterol e tentam se manter sempre atualizados com relação à elas. E para atingirem a tão desejada saúde adotam uma abordagem um tanto hipocondríaca, que Dumit chama de "abordagem da poli-pílula": com o objetivo de serem saudáveis, tomam uma série de medicações. Assim, o lema dos "pacientes experts" é: "se você pode tomar remédios que te ajudam, então você deve tomá-los". 

O segundo tipo definido por Dumit são os "sujeitos assustados". Estas pessoas não tanto procuram a saúde quanto evitam doenças e riscos, mas nunca estão certos se de fato conseguiram o que pretendem. Tais sujeitos vivem permanentemente tensos e inseguros - e mesmo assustados - diante das incertezas e controvérsias da área da saúde. "Os médicos dizem que comer salmão faz bem para o coração, mas li no jornal que os salmões estão contaminados com dioxina, o que aumenta o risco de câncer. O que eu faço? Como ou não como?". É esse tipo de crise em que vive permanentemente os sujeitos medrosos. "Como chocolate porque faz bem para o coração ou não como porque aumenta o colesterol?" A alimentação, neste caso, é tratada como remédio, num processo chamado por Dumit de medicalização da comida. Segundo o autor, a oposição entre o que é prazeroso e o que é saudável é uma característica essencial dos sujeitos medrosos. 

Finalmente, o último tipo definido pelo autor são as pessoas que "vivem melhor através da química". Estas pessoas estão bem resolvidas com o fato de que a vida pode (e portanto deve) ser regulada quimicamente. Não há nessas pessoas qualquer culpa ou receio com relação às medicações. Elas simplesmente as incorporaram em suas vidas e em suas identidades. 

Todos estes modos biomédicos de viver apontam, segundo o autor, para uma definição de saúde cada vez mais relacionada à redução de riscos e à promoção de bem-estar, mais do que simplesmente o tratamento de doenças, o que abre novas e lucrativas possibilidades para a já lucrativa indústria farmacêutica.

Seguindo esta tendência mais ampla, a Psiquiatria tem cada vez mais incorporado a noção de risco em seus discursos e práticas, ainda que em menor intensidade se comparado com outras áreas da medicina. E isto tem relação com a intenção da Psiquiatria contemporânea em se legitimar enquanto uma especialidade biomédica. O DSM-III, e agora o DSM-5, sinalizaram exatamente para o movimento de uma psiquiatria dinãmica para uma psiquiatria biológica baseada em critérios e fundamentos definidos, pretensamente, de forma objetiva.



Um consequência deste movimento mais amplo foi a multiplicação, na atualidade, de estudos que visam estabelecer marcadores que indiquem o risco do desenvolvimento de transtornos mentais, assim como propostas de intervenção precoce. Um importante exemplo foi proposição e discussão do diagnóstico de Síndrome do Risco de Psicose (Psychosis Risk Syndrome) pela força-tarefa do DSM-5. Na versão final, publicada em Maio de 2013, o diagnóstico, renomeada como Síndrome da Psicose Atenuada (Attenueted Psychotic Syndrome), foi incluído na seção 3 em que constam as condições que exigem mais pesquisas antes de serem consideradas oficialmente transtornos mentais.

Como aponta Oliveira, a ideia de risco relacionada à psicose não é recente. No entanto, é somente no processo de construção do DSM-5 que surge o interesse em se construir uma categoria nosológica específica baseada na noção de risco para psicose. Ainda que a expressão “risco” tenha sido abandonada na nomenclatura que prevaleceu, a noção de risco continua presente. Segundo este mesmo autor, o interesse de pesquisadores do campo em tal diagnóstico pode ser explicado tanto pela gravidade dos quadros psicóticos quando instalados quanto pela possibilidade de realizar intervenções precoces/preventivas para estes quadros. McGlashan, acrescenta que outra razão pela qual tem se pesquisado sobre tais questões, que é o fato de os tratamentos medicamentosos atuais terem ainda significativas limitações. Dentre elas está o fato de ajudarem significativamente no controle dos sintomas positivos da psicose (alucinações, delírios, etc), mas pouco contribuírem no tratamento dos sintomas negativos, como os déficits nas capacidades mentais e emocionais.


Como aponta este autor, intervenções precoces para quadros psicóticos não eram seriamente consideradas até meados da década de 1990. Anteriormente, aponta, era considerado ética e clinicamente equivocado intervir antes do quadro já ter se instalado. Recomendava-se cautela na realização do diagnóstico, mesmo diante dos chamados pródomos, que são sinais ou grupo de sintomas que podem indicar o início de uma doença antes que sintomas específicos surjam. Posteriormente, aponta o autor, foram publicados numerosos estudos sobre o primeiro episódio de psicose demonstrando a forte correlação entre tratamentos precoces (tanto farmacológicos quanto psicossociais) e um melhor prognóstico. Tais resultados corroboravam a hipótese de que intervenções na fase prodrómica poderiam prevenir o desenvolvimento da psicose, o que abriu o campo psiquiátrico para a possibilidade de intervenções que fossem além de tratamentos curativos/paliativos. 

Neste momento, final da década de 1990, foram desenvolvidas também novas medicações que demonstraram ser mais eficazes e ter menos efeitos colaterais. McGlashan aponta ainda para um importante estudo realizado por uma equipe australiana que encontrou que entre 20 e 41% dos pacientes definidos como prodrômicos se tornariam psicóticos dentro de um ano. Tal dado, de certa forma colocava em cheque a estratégia do “esperar para ver”, dominante na Psiquiatria naquele momento. 

Diante da possibilidade de identificar sintomas prodrômicos e intervir precocemente, tal estratégia se mostrava, agora, equivocada e mesmo antiética.No entanto, um problema persistia – e ainda persiste: grande parte daqueles identificados como prodrômicos, entre 60 e 80% segundo a pesquisa relatada, não desenvolviam quadros psicóticos no decorrer do ano seguinte, ou seja, os sintomas prodrômicos identificados através de avaliações clínicas não levam, necessariamente, à psicose. Trata-se de uma associação, não de uma relação de causa e efeito. Desta forma, qualquer intervenção precoce está baseada, ainda, em uma grande incerteza. 

Além disso, como aponta Oliveira “não se comprovou ainda, empiricamente, se a intervenção precoce pode contribuir para a diminuição da gravidade do quadro psicótico quando instalado ou ainda se pode mesmo prevenir o desencadeamento do transtorno”. Desta forma, atuar com base em tantas incertezas traz alguns perigos, como a possibilidade de submeter os pacientes falsos positivos inutilmente aos riscos e efeitos colaterais inerentes a uma terapia medicamentosa. Além disso, o risco do estigma associado aos transtornos psicóticos não pode ser descartado. Por tudo isso, é importante se refletir bastante ainda sobre a noção de risco e sua aproximação com o campo psiquiátrico. Porque ainda que o interesse de prevenção dos transtornos mentais seja legítimo, ainda pairam muitas dúvidas sobre os reais benefícios e prejuízos da medicalização do risco. 

Texto originalmente publicado no portal (En)Cena.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

I Can't Get No Satisfaction (ou A gente não quer só comida)

No livro A infância de Jesus, escrito pelo sul-africano JM Coetzee (ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 2003), um homem chega com um menino, que não é seu filho, em uma terra de exilados situada em um país desconhecido. Neste lugar, para estranheza do protagonista, todos estão plenamente satisfeitos com suas vidas. Ninguém reclama de comer a mesma comida todos os dias, de trabalhar de sol a sol e receber pouco ou de se sentir sozinho. Em certo momento, indignado com esta satisfação permanente das pessoas, o protagonista questiona: "Sabe o que surpreende nesse país? Que seja tão manso. Todo mundo que eu encontro é tão bom, tão gentil, tão bem-intencionado. Ninguém xinga, ninguém fica bravo. Ninguém fica bêbado. Ninguém levanta a voz. Vivem num regime de pão, água e pasta de feijão e dizem que estão satisfeitos. Como pode ser, humanamente falando? Vocês estão mentindo até para si mesmos?". O tempo vai passando mas sua indignação não cessa. Ele passa a se envolver com uma mulher, mas esta não demonstra qualquer paixão por ele. Mesmo quando fazem sexo, ela não se afeta. Um dia, então, buscando alguma reação calorosa dela, ele pergunta o que ela faria se ele começasse a sair com outra mulher. A resposta dela é simplesmente genial: "Você quer sair com essa outra mulher porque eu não ofereço o que você sente que precisa, especificamente paixão tormentosa. A amizade em si não basta para você. Sem o acompanhamento de paixão tormentosa é um tanto deficiente. Aos meus ouvidos, essa é uma maneira velha de pensar. Na maneira de pensar velha, por mais que você tenha, sempre está faltando alguma coisa. O nome que você escolhe dar a esse algo mais que está faltando é paixão. Mas eu aposto que se amanhã te oferecerem toda a paixão que você quer, carradas de paixão, você logo vai achar que está faltando alguma coisa nova. Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo mais que está faltando, é o jeito de pensar que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião. Não está faltando nada". Fiquei pensando: o desejo permanente e incessante é realmente causa de grande sofrimento no ser humano. Mas teremos como evitá-lo? Não creio. Talvez estejamos fadados a desejar sempre mais e mais e, consequentemente, ao sofrimento decorrente do desejo nunca saciado. Se um dia inventarem um remédio que faz cessar todo desejo, provavelmente sofreríamos menos. Mas a vida e o mundo seriam um tédio só, como Coetzee sugere com grande maestria!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O dia em que incomodei o cérebro de um neurocientista

A história que vou contar aconteceu no ano passado. Estava  navegando pela internet quando me deparei com uma entrevista de um grande neurocientista brasileiro, que chamarei aqui de N. Vocês já devem ter ouvido falar de N., pois ele obteve, nos últimos anos, grande visibilidade, tendo inclusive protagonizado uma propaganda de uma marca de telefonia móvel. Quando um neurocientista vira garoto-propaganda do que quer que seja e se torna uma espécie de celebridade, passamos a ter uma noção exata da dimensão e popularidade que as ciências do cérebro adquiriram nos últimos anos. No entanto, a notoriedade de N. não veio à toa, pois suas pesquisas são realmente relevantes e podem contribuir para a superação, no futuro, de problemas que afetam hoje milhões de pessoas. Não tenho dúvidas de que suas pesquisas e a de outros neurocientistas são absolutamente fundamentais. O problema, na minha opinião, começa quando o pesquisador extrapola o conhecimento disponível e começa a querer explicar tudo pela neurociência - ou por qualquer outra visão de mundo. Num passado não tão distante isso ocorreu com a psicanálise: tudo no mundo podia ser explicado pelo inconsciente, pelo Complexo de Édipo e pela pulsão de morte. No entanto, as explicações psicanalíticas já não fazem tanto sucesso como antes. A bola da vez, na área psi, são as explicações neurocientíficas.

Pois bem, na referida entrevista, N. deu algumas declarações bastante polêmicas, afirmando, dentre outras coisas, que Jesus, Moisés e Abraão eram esquizofrênicos. Segundo ele, "a humanidade é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que alguém estava falando com eles. Muito provavelmente os três precisavam de haldol". Assim que li isso, escrevi no Twitter: "Essa afirmação é completamente absurda! Reduzir a experiência religiosa a um transtorno mental é de um simplismo assustador!". Simplismo cometido outro dia mesmo por uma neurocientista inglesa que, questionada em um evento sobre o futuro das neurociências, respondeu que “uma das surpresas pode ser a de ver pessoas com certas crenças como pessoas que podem ser tratadas [clinicamente]". Disse ainda que "alguém que por exemplo, torna-se radical a uma ideologia de culto – nós podemos parar de ver isso como uma escolha pessoal resultado de puro livre-arbítrio e começar a tratá-lo como algum tipo de distúrbio mental". Segundo ela, isto "poderia ser uma coisa muito positiva, porque não há dúvida de que certas crenças em nossa sociedade trazem muitos danos". Assim que li esta notícia comentei na página deste blog no Facebook - e este comentário vale, de certa forma, para a fala de N.:



Que besteira isso! É claro que a religiosidade [ou o fanatismo religioso] poderia ser tratado(a) como doença mental, assim como qualquer outra coisa. Basta um grupo de especialistas conseguir convencer os responsáveis pelos manuais de doenças de que determinado comportamento é doentio que... tcharam... temos uma nova doença! Teoricamente qualquer questão humana pode ser encarada sob a ótica da doença: o amor, a raiva, o ciúme, o sexo, a alegria, a tristeza... e a religiosidade, por que não? Se quisermos entender o fundamentalismo religioso como uma forma de doença mental, nós podemos. Não há nada que impeça isso, afinal o que é ou não doença ou transtorno mental depende essencialmente de negociações e acordos entre especialistas e entre esses e a sociedade. Agora, imaginar que as pesquisas sobre o cérebro provarão que determinada questão é uma doença é de uma ingenuidade sem tamanho. As pesquisas sobre o cérebro não tem como provar que determinado comportamento, pensamento ou sentimento é ou não é uma doença. Isto é determinado anteriormente às pesquisas através, repito, de acordos e negociações. As imagens cerebrais não tem como mostrar que certa característica é ou não patológica, apenas que há uma correlação entre certos comportamentos, sentimentos e pensamentos e certas áreas do cérebro. De qualquer forma esta ideia da neurocientista de que "certas crenças" (quais?) podem ser consideradas patológicas e, portanto, devem ser tratadas (como?), aponta, mais uma vez, para um processo de medicalização de tudo o que incomoda. Concordo que certas formas de fundamentalismo religioso são de fato incômodas e mesmo danosas, mas será realmente o caso de considerá-las doenças? Neste sentido, como definir o ponto exato em que a religiosidade torna-se fundamentalismo? E mais: sendo doença, qual seria o tratamento? Por acaso existe algum remédio para tratar o fundamentalismo religioso? E o fundamentalismo secular (ou científico), também seria tratado? Essa neurocientista devia pensar um pouco antes de falar uma besteira como essa.

N. também. Mas a declaração de que Jesus, Moisés e Abraão eram esquizofrênicos, foi apenas uma das besteiras ditas por ele. Em outro momento da entrevista ele afirma: "acho que a religião faz parte do sistema nervoso" (percebam que ele não disse "religiosidade" ou "sentimento religioso", e sim religião - mas pelo menos ele teve uma mínima humildade de dizer "acho"). Mais a frente na entrevista, falando sobre os comportamentos humanos em geral, N. afirmou que "no frigir dos ovos, tudo se resume a uma mudança de balanço de neurotransmissor e de atividade elétrica do cérebro". Leiam bem: Tudo! Em seu livro, N. deixa bem claro o que entende por "tudo". Percebam o reducionismo de sua visão:

"... essas redes neuronais microscópicas são na verdade as únicas responsáveis pela geração de cada ato de pensamento, criação, destruição, descoberta, ocultação, comunicação, conquista, sedução, rendição, amor, ódio, felicidade, tristeza, solidariedade, egoísmo, introspecção e exultação jamais penetrado por todo e qualquer um de nós, nossos ancestrais e progênie, ao longo de toda a existência da humanidade"

Considerei na época - e ainda considero - as afirmações de N. absolutamente equivocadas e escrevi uma série de tweets criticando-as. Outros colegas do Twitter começaram, então, a opinar sobre minhas críticas e, assim, iniciamos um debate virtual sobre a polêmica entrevista. Alguns se posicionaram a favor do N. e outros contra e, em pouco tempo, finalizamos este interessante debate de idéias. No dia seguinte, abro minha conta do Twitter e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o próprio N. se encrencou comigo, em função das críticas que fiz no dia anterior. O cara ficou super-ofendido embora minhas críticas não tenham sido nunca pessoais, mas filosóficas. A primeira mensagem dele pra mim foi a seguinte:


Vamos analisar seu tweet. Primeiro ele usa um argumento de autoridade ("tenho 30 anos de carreira"), me chama de "filho" - como se dissesse, "esse Felipe é tão novinho, não sabe das coisas" (e não sei muitas coisas mesmo!) - para, ao final, me solicitar dados. Como assim dados? Quais dados? Dados que provem que Jesus, Moisés e Abraão NÃO eram esquizofrênicos? E a qual ou quais tipos de dados ele se refere? Dados neurocientíficos? Mas eu não sou neurocientista! Então somente um neurocientista para criticar outro neurocientista? Não, não tenho dados, na maneira como ele espera. Não tenho dados "científicos", dados sobre o cérebro. Minha questão é filosófica: será que podemos reduzir tudo ao cérebro? E é exatamente esta visão que permeia seu trabalho, embora ele não se dê conta. Na verdade, esta é minha opinião, só isso, opinião construída a partir da leitura do seu único livro e de declarações dadas por ele na imprensa. Sobre a entrevista que gerou todo o debate, questiono: será que ele tem dados que provem que Jesus, Moisés e Abraão ERAM esquizofrênicos? Gostaria de saber a partir de que dados científicos ele deu esta declaração. Como seria possível provar cientificamente isso? Se ele me solicita dados, eu também solicito a ele. 


Com um colega do Twitter e participante do debate sobre a entrevista, N. foi ainda mais ríspido: "E qual é a sua formação em neurociência para falar tanto absurdo? Qual livro texto vc leu meu filho? Falar por falar é fácil d+!". A indicação de que somente alguém com formação em neurociência pode criticar suas idéias permanece. Mas peraí: ele deu esta última entrevista para uma revista "popular", não para uma revista científica. E ele vem realizando, junto com outros neurocientistas, um trabalho de popularização/divulgação das neurociências para o público leigo. Seu livro tem este objetivo claro . Não é um livro voltado somente para neurocientistas - tanto que se tornou um best-seller. Assim, se ele espera críticas somente de iniciados na área, isto significa então que ele espera somente elogios de todo o resto das pessoas? Não, não sou neurocientista. Mas venho estudando alguns autores com posturas filosóficas críticas à certos discursos neurocientíficos. É a partir daí que fiz algumas considerações. N., dirigindo-se a mim, escreveu ainda:



Minha resposta foi sucinta, pois não pretendia iniciar um confronto direto. Meu objetivo com os tweets foi somente debater ideias. Disse apenas: "Caro N., não tenho dados nem 30 anos de carreira. Só acho que se o Sr. dá uma entrevista para uma revista, fica sujeito a críticas". Até certo ponto fiquei orgulhoso pelas minhas considerações terem surtido este efeito. De certa forma, e sem ter a intenção, o incomodei. E se o incomodei é porque toquei em questões importantes. Mas talvez não tenha o incomodado, apenas a seu cérebro... 


sábado, 22 de junho de 2013

GUEST POST: O Ato Médico e a Psicologia


Reproduzo abaixo, com a devida autorização do autor, uma didática e bem fundamentada exposição sobre o impacto de uma possível aprovação do projeto do Ato Médico na categoria dos psicólogos. Para quem não sabe, na última semana, o projeto foi aprovado no plenário do Senado Federal, necessitando agora, para ser instituído, apenas da sanção da presidenta Dilma. Escrito pelo psicólogo Daniel Grandinetti (que já contribuiu com este blog anteriormente), o texto expõe e discute em detalhes os principais pontos do projeto que afetariam diretamente o campo da Psicologia no Brasil. Para quem quiser ler outros textos do Daniel, que é psicólogo e mestre em filosofia, recomendo fortemente sua página no Facebook, a Psicologia no Cotidiano. Boa leitura e boas reflexões!

Vou tentar expor de forma didática como o “ato médico” interfere no exercício da profissão de psicólogo e nas competências legais do Conselho Federal de Psicologia.

A principal polêmica em torno do ‘ato médico’ gira em torno do Art. 4º - I que diz o seguinte:

“Art. 4º - São atividades privativas do médico:

I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica".


O § 1º define o diagnóstico nosológico:


“§ 1º Diagnóstico nosológico privativo do médico, para os efeitos desta Lei, restringe-se à determinação da doença que acomete o ser humano, aqui definida como interrupção, cessação ou distúrbio da função do corpo, sistema ou órgão, caracterizada por no mínimo 2 (dois) dos seguintes critérios:

I – agente etiológico reconhecido;

II – grupo identificável de sinais ou sintomas;

III – alterações anatômicas ou psicopatológicas.”

Enfim, § 3º estabelece que “doença” é tudo que aparece listado e classificado no CID-10:

“§ 3º As doenças, para os efeitos desta Lei, encontram-se referenciadas na décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde".

Em que isso interfere no exercício da profissão de psicólogo? O diagnóstico psicopatológico, incluindo a depressão e os transtornos de ansiedade, sempre esteve incluído na prática do diagnóstico psicológico. Com a aprovação do “ato médico”, tanto o diagnóstico quanto a prescrição terapêutica das enfermidades psicopatológicas passam a ser privativas de médico. Isso retira dos psicólogos, por exemplo, a autonomia para diagnosticar a depressão e tratá-la com psicoterapia. Somente o médico está agora legalmente habilitado para diagnosticar depressão e indicar o tratamento a ela.



O que vem gerando incerteza nessa interpretação é o § 2º, que diz o seguinte:


“§ 2º Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva.”



Nesse parágrafo, o “ato médico” expressa o reconhecimento do diagnóstico psicológico e a competência do psicólogo para realizá-lo. Esse parágrafo vem sendo usado, inclusive, por alguns psicólogos na defesa do “ato médico”, argumentando que ele preserva a profissão do psicólogo e não a invade em nada. Entretanto, a regulamentação da Psicologia não define, em momento algum, o que vem a ser o diagnóstico psicológico. A inclusão do diagnóstico psicopatológico no diagnóstico psicológico sempre foi prática, jamais sendo formalizada. O CFP não tomou o cuidado de definir em lei o diagnóstico psicológico, como muito bem fizeram os proponentes do “ato médico” em relação ao diagnóstico nosológico. Assim, uma vez que o diagnóstico nosológico é agora privativo de médicos, ele passa a ser automaticamente excluído do diagnóstico psicológico, não importando se a prática do psicólogo, desde sua regulamentação, sempre tenha feito do diagnóstico psicopatológico um item do diagnóstico psicológico.

Qual a sugestão do Conselho Federal de Psicologia à redação do “ato médico”? O CFP sugeriu que a redação do Art. 4º fosse modificada de: 

“São atividades privativas do médico:
I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica;”

Para:

“São atividades privativas do médico:
I – formulação do diagnóstico médico e respectiva prescrição terapêutica;”

O que mudaria com essa reformulação?

A avaliação de personalidade, por exemplo, não é privativa de psicólogos. O que é privativo de psicólogos é a avaliação de personalidade executada via testes psicológicos. A avaliação de personalidade executada por testes psicológicos constitui ‘diagnóstico psicológico’ e é privativa de psicólogos. Qualquer avaliação de personalidade executada por instrumentos ou procedimentos que não exijam a formação plena em Psicologia não é privativa de psicólogos. O CFP entende que o que deve ser privativo de médicos não é o diagnóstico de doenças, mas o diagnóstico de doenças executado por instrumentos e procedimentos médicos que exijam a plena formação no curso de Medicina. Qualquer diagnóstico executado por instrumentos e procedimentos não-médicos não deve ser privativo de médico.

Em suma, o que deve ser privativo de médicos é o uso do saber teórico e prático constituído pela Medicina e que faz necessária a formação completa em Medicina. Mas, ao invés de tornar o saber e a prática médicas privativos de médicos, o “ato médico” torna privativo de médicos as próprias doenças enquanto objeto de estudo. Segundo o “ato médico”, ninguém mais pode se pronunciar sobre ou exercer qualquer prática ligada a doenças além dos médicos, mesmo que os procedimentos utilizados não sejam médicos. Nesse sentido, um místico que oferecesse “curas espirituais” estaria sujeito, a partir de agora, a ser processado por exercício ilegal de Medicina. A primeira questão que eu coloco é a seguinte: Como uma pessoa que não se apresenta ao paciente como médico e que não faz uso de qualquer procedimento médico pode ser acusado de praticar a Medicina ilegalmente?

Voltando à relação com a Psicologia: Segundo o CFP, instrumentos e procedimentos psicológicos habilitam o profissional psicólogo no diagnóstico psicopatológico. Assim, na medida em que os psicólogos se utilizem apenas deles, eles estariam praticando o diagnóstico psicopatológico que consta como diagnóstico psicológico, não como diagnóstico médico. Mas, o CFM discorda que instrumentos e procedimentos psicológicos sejam procedentes para o diagnóstico psicopatológico. E ele tem todo o direito de discordar! Vivemos numa democracia, e todos têm o direito de criticar o que bem entender. Entretanto, a única entidade legalmente estabelecida para decidir sobre a procedência de procedimentos psicológicos é o CFP. Se o CFP afirma que procedimentos psicológicos são procedentes no diagnóstico psicopatológico, o CFM tem que acatar. Pode criticar e debater, mas precisa acatar.


Semelhantemente, a classe médica tem todo o direito de se posicionar contrariamente às curas espirituais ou alternativas. Mas, não tem o direito de transformá-las em exercício ilegal de Medicina, uma vez que não há nada nelas que configure algum procedimento médico lecionado nas faculdades de Medicina. É preciso que as práticas alternativas sejam debatidas e combatidas por meios democráticos, não pela imposição de uma lei incoerente.

Com o “ato médico”, a classe médica se outorgou o direito de avaliar procedimentos psicológicos e decretar sua improcedência. Ela pode argumentar que em momento algum o diagnóstico psicopatológico esteve legalmente incluído na definição de diagnóstico psicológico, e ela está certa nesse ponto. E justamente nesse ponto se faz perceber toda a MÁ-FÉ deste projeto de lei como um todo. Uma vez que o CFP não teve o cuidado de definir o diagnóstico psicológico na regulamentação da Psicologia, o CFM tomou para si o direito de lhe estabelecer os limites e as definições que bem entender.


Nesse sentido, pelo uso da má-fé jurídica, o CFM invadiu as competências legais do CFP.

Além de conferir aos médicos a exclusividade no diagnóstico psicopatológico e de sua respectiva prescrição terapêutica, o “ato médico” também pode coibir a pesquisa da Psicologia nessa área. O “ato médico” confere à classe médica a “propriedade privada” das doenças enquanto objeto de estudo. Consequentemente, psicólogos que desejarem desenvolver experimentos comportamentais sobre a depressão, por exemplo, precisarão ser supervisionados por médicos.

O projeto de lei do “ato médico” foi distorcido em seus propósitos desde o início. A razão da regulamentação de uma profissão é estabelecer os limites da atuação daquele profissional. A intenção do “ato médico” nunca foi a de estabelecer limites à atuação dos médicos, já que os médicos podem fazer tudo! Desde o início, a intenção do “ato médico” foi estabelecer limites à atuação dos outros, à atuação dos demais profissionais de saúde, e aí se funda toda a sua má-fé.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um clássico na rede: Em nome da razão (1979)

"Em nome da razão", o filme símbolo da reforma psiquiátrica brasileira, finalmente está disponível na internet. Há alguns anos procurei este filme por toda parte para exibir em uma mostra de videos que promovi na instituição em que trabalho (veja o cartaz aqui do lado), mas não o encontrei de jeito nenhum. Cheguei até mesmo a enviar um email para o diretor, mas nem ele possuía uma cópia digitalizada. Em 2013, depois de 34 anos de seu lançamento (que ocorreu em 1979), finalmente uma alma bondosa disponibilizou este clássico perdido da nossa história no Youtube. Viva! Comandado pelo grande diretor mineiro Helvécio Ratton (o mesmo de Uma onda no ar, Menino Maluquinho e Batismo de sangue), o filme trouxe à tona, pela primeira vez em imagens cinematográficas, os horrores cometidos, em nome da razão e da ciência, no interior do Hospital Colônia de Barbacena - que agora voltam a ser expostos com o lançamento do livro "Holocausto brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil", escrito pela jornalista Daniela Arbex, também mineira. Importante lembrar que no mesmo ano em que o filme foi lançado, 1979, o jornalista Hiram Firmino começava a publicar, no jornal Estado de Minas, uma série de reportagens que culminou no livro "Nos porões da loucura", outro marco da reforma psiquiátrica. 
Helvécio, que é formado em Psicologia, na época em que dirigiu o filme estava do 4º período do curso e participava da Associação Mineira de Saúde Mental, através da qual entrou em contato com a realidade do Hospital Colônia. Com um histórico de militância ativa contra a ditadura militar, Helvécio se exilou no Chile por um tempo, regressando ao Brasil pouco antes de filmar "Em nome da razão". Produzido de forma independente, o filme foi gravado em menos de uma semana e contou com o aval da Secretaria Estadual de Saúde Minas Gerais - que posteriormente tentou intervir no processo de edição, sendo impedida. Com relação ao seu conteúdo, este artigo aponta que "o filme se desenvolve a partir das enfermarias e pátios internos, vasculha os corredores, as celas fortes, contrasta a miséria humana e a sofisticação do projeto arquitetônico do manicômio inaugurado, com pompas e honras, em 1904. O som que se capturou foi estritamente o produzido localmente: gritos, lamúrias e relatos impressionantes acerca do cotidiano e das histórias de vida dos que ali resistiam. O foco captura e projeta a fala e expressão dos internos, eventualmente intercaladas pelo depoimento do administrador do hospital acerca das dificuldades de gestão de corpos e subjetividades. Não se escuta a fala dos psiquiatras. Intencionalmente, o diretor ultrapassa a via da responsabilização da equipe técnica e profissional, revelando uma leitura mais desafiante: trata-se de revelar a instituição e seus amplos compromissos com a sociedade que rechaça a loucura e a condena à clausura e à mortificação". Exibido pela primeira vez no III Congresso Mineiro de Psiquiatria, em 1979, "Em nome da razão" chocou a platéia e contribuiu de forma significativa para o fortalecimento do nascente Movimento Antimanicomial brasileiro. Posteriormente, o filme foi exibido em festivais, ganhando diversos prêmios nacionais e internacionais. E desde então circulou, como uma joia rara, pelos grupos de saúde mental do país. Até, finalmente, cair no Youtube. Com vocês, "Em nome da razão"...


terça-feira, 4 de junho de 2013

Você não é o seu cérebro!

Comecemos esta reflexão com duas singelas histórias, uma real outra fictícia. Primeiro a real: circulou outro dia pela internet a bizarra notícia de que um empresário russo deseja transferir seu cérebro para um robô, tornando-se, desta forma, imortal. Para tanto, Dmitry Itskov idealizou e patrocina a Iniciativa 2045, projeto que tem como objetivo o desenvolvimento de tecnologias de interface cérebro-máquina que possibilitem "a transferência da personalidade de um indivíduo para um portador mais avançado não-biológico, e a extensão da vida, incluindo a questão da imortalidade”. Como resume o portal G1, "a ideia do empresário é transferir seu cérebro para um androide e, através dele, viver para sempre". Narcisicamente, Dmitry criou um robô à sua imagem e semelhança e pretende, até 2020, "fazer com que uma pessoa conecte seu cérebro a uma máquina e possa controlar o robô remotamente", tal como nos filmes Avatar e Substitutos. Posteriormente a ideia parece ser não somente o controle à distância mas a completa fusão com a máquina, através do "transplante" de seu cérebro em um robô, que levaria consigo o "eu" de Dmitry por toda a eternidade.

Agora passemos à história ficcional: no filme "O homem com dois cérebros" (The man with two brains, EUA, 1983, dir: Carl Renner) o neurocirurgião Michael Hfuhruhurr (Steve Martin) se apaixona pelo cérebro sem corpo de uma mulher, com "quem" se comunica telepaticamente. Esse cérebro em uma cuba - mantido vivo graças a uma tecnologia desenvolvida pelo cientista Dr. Alfred Necessiter - pertence à mulher dos seus sonhos. O problema é que ela (ou melhor, seu cérebro) não tem um corpo. Hfuhuruhurr, que é incapaz de matar uma pessoa, pensa inicialmente em transplantá-lo em um gorila (mas rapidamente desiste da ideia ao se imaginar fazendo sexo com tal animal). Depois pensa em matar uma prostituta, mas também desiste porque sua amada teria uma voz irritante. Finalmente, Hfuhuruhurr  acaba realizando o transplante no belo corpo de sua esposa Dolores Benedict (Kathleen Turner), que acabara de ser assassinada. A piada do filme é que, sem que o neurocirurgião saiba, o "eu" cujo cérebro ele se apaixonou tem uma espécie de transtorno de compulsão alimentar. Com isso, após o processo de transplante do cérebro de sua amada no corpo de Dolores, esta torna-se, em pouco tempo, extremamente obesa, tal como seu "corpo" anterior. 


O que estas duas histórias tem em comum é a ideia de que nós somos os nossos cérebros, ou seja, tudo o que somos, pensamos e sentimos não somente ESTÁ no nosso cérebro mas como, de certa forma, É o nosso cérebro. Como afirmou o geneticista Francis Crick, no livro A hipótese espantosa, "você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, não são mais do que o comportamento de um imenso conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas". Assim, na hipótese de um transplante de cérebro, na verdade o que estaria sendo realizado seria um transplante de corpo, haja vista que o "eu", com todas as suas peculiaridades e singularidades, estaria contido no cérebro - ou melhor, seria o cérebro. Como disse o neurocientista alemão Manfred Spitzer (nesta entrevista), "ninguém quer um outro cérebro, mesmo se ele estivesse cheio de conhecimento. O seu cérebro é sua identidade. Você é o seu cérebro. Se alguém te desse outro cérebro, você não seria mais você". Isto não é tão óbvio? O que pretendo argumentar abaixo é que não: isto não é óbvio e não, não somos o nosso cérebro!

Obviamente - e eu seria louco se negasse isso - não há vida humana possível sem um cérebro. Basta constatar que crianças anencéfalas não vivem mais do que poucos dias. Além disso, lesões significativas no sistema nervoso central comprometem e até mesmo impedem, em alguns casos, a vida. O clássico caso do operário Phineas Cage deixa claro a importância do cérebro na constituição do que somos, da nossa personalidade: após um acidente que lesionou seu lobo frontal, Phineas teve uma significativa e abrupta mudança de personalidade, deixando de ser o sujeito pacato que vinha sendo até então. Isto aponta para o fato de que o cérebro é necessário para estarmos vivos e sermos o que somos. Não há como negar isso. Nenhuma pessoa minimamente sensata se oporia à ideia de que o cérebro é absolutamente imprescindível para sermos o que somos. A existência de doenças graves como o Alzheimer, que atrofiam os tecidos cerebrais e alteram (e mesmo impedem) nossa consciência do mundo e de nós mesmos, e o fato de certos medicamentos influenciarem nossas emoções e nossos comportamentos só comprova esta ideia.

Ao mesmo tempo, apesar de absolutamente necessário, ter um cérebro não é suficiente para sermos o que somos. Antes de tudo, precisamos de um corpo. Um cérebro em uma cuba, ao contrário daquele que o neurocirurgião do filme se apaixona, não é nada mais nada menos do que um pedaço de carne. Não há vida possível sem um corpo. Mas e aqueles sujeitos com corpo paralisado ou extremamente comprometido (como o protagonista do filme O escafandro e a borboleta ou o físico Steven Hawking) que, mesmo com o corpo inativo mantém a mente e a criatividade ativas? Isto não comprovaria que o corpo é desnecessário? Absolutamente não! Nos dois exemplos citados, os sujeitos, apesar de todo comprometimento, mantinham (e no caso de Hawking, mantém) uma relação corporal com o mundo e com as outras pessoas. No caso do personagem do filme, seu contato com o mundo se dava através da audição, do olhar e do piscar. Já Hawking se utiliza de uma moderna tecnologia que transforma as vibrações de sua garganta em fala. Além disso ele se relaciona com o mundo através do olhar, da audição e do tato. No caso de pessoas com o corpo completamente paralisado, a relação com o mundo é impedida. Mesmo que se desenvolvam formas de se comunicar com estas pessoas (e isto já está sendo testado), alguém dúvida da importância do nosso corpo na nossa relação com o mundo, com as pessoas e com nós mesmos? Obviamente, além de um corpo é necessário um mundo para este corpo atuar e se relacionar. Neste sentido, como aponta o filósofo Alva Noe, no livro Out of our heads, "você não é o seu cérebro. Você tem um cérebro, sim. Mas você é um ser vivo que está ligado a um ambiente, você tem um corpo e interage de forma dinâmica com o mundo. Nós não podemos explicar a consciência somente em termos cerebrais porque a consciência não acontece no cérebro sozinho". Ou seja, nosso cérebro está num corpo que, por sua vez, está num mundo e com ele interage. Não somos um cérebro em uma cuba.


Para Noe, a atividade neural é necessária, mas não suficiente para explicar nossa consciência de nós mesmos e do mundo. Segundo ele, "não há nada dentro de nós que pensa e sente e é consciente. A consciência não é algo que acontece dentro de nós. É algo que nós fazemos". Para Noe, o cérebro é necessário para a consciência assim como um motor é necessário para um carro. Mas o motor não "dá origem" à condução; dirigir não é algo que acontece dentro do motor. Da mesma forma, a consciência não é algo que ocorre dentro do cérebro. Outra  metáfora utilizada por Noe é o dinheiro. Será possível dizer que o valor do dinheiro está na nota? Obviamente não. Se pegássemos um microscópio e observássemos a nota, não encontraríamos nela qualquer valor, porque este não se encontra em suas propriedades químicas. O que faz uma nota de 10 reais valer efetivamente 10 reais são práticas, convenções e instituições e não qualquer materialidade da nota. Da mesma forma, para Noe, a consciência não está no cérebro, mas sim - como o título de seu livro aponta - "fora de nossas cabeças". Mas isto não significa que Noe defenda a noção antiga de um espírito ou alma imaterial. Não! Noe defende que a consciência é relacional, não material. Isto pode parecer estranho num mundo cada vez mais materialista e cerebrocêntrico, mas faz todo o sentido. Se pararmos para pensar, o amor, por exemplo, não tem como estar no cérebro. Certamente existem regiões do cérebro que se ativam quando pensamos ou encontramos a pessoa amada (ou quando fazemos, pensamos ou sentimos qualquer coisa) - mas isto não significa que o amor seja esta atividade cerebral. Seguindo o pensamento de Noe, o amor não está no nosso cérebro, mas na relação das pessoas umas com as outras e com o mundo. O amor, assim como qualquer outro sentimento, valor ou ideia, não está em qualquer lugar específico, mas na dinâmica das relações. Neste sentido, a verdadeira hipótese espantosa é que nós NÃO somos o nosso cérebro. Nós somos muito, mas muito mais: somos o todo e não uma parte, somos nossas relações com os outros e com o mundo - como disse o sociólogo Norbert Elias, "somos partes uns dos outros". Não podemos ser reduzidos ou nos reduzir a um pedaço de carne, por mais nobre que seja esta carne.





OBS: Sobre a ideia de que a depressão é uma doença cerebral, Alva Noe escreveu o seguinte em seu livro: "Em um sentido, isto é obviamente correto. Existem assinaturas neurais da depressão. Além disso, a ação direta sobre o cérebro - na forma de uma terapia medicamentosa - pode influenciar a depressão. Mas em outro sentido, isto é obviamente incorreto. É simplesmente impossível entender porque as pessoas ficam deprimidas - ou porque o indivíduo está deprimido aqui e agora - somente em termos neurais. A depressão ocorre em pessoas reais com histórias de vida reais face a eventos da vida real. O dogma de que a depressão é uma doença do cérebro serve aos interesses da indústria farmacêutica, sem dúvida; também serve para desistigmatizar a luta contra a depressão, o que é uma coisa boa. Mas é falso" (tradução minha)

terça-feira, 28 de maio de 2013

"Vivendo melhor através da química": sobre "Terapia de risco" e a Big Pharma

Confesso que esperava mais do filme "Terapia de risco" (Side effects, EUA, 2013), o que não significa dizer que se trata de um filme ruim. Pelo contrário: ele é instigante do começo ao fim, trata de questões fundamentais para o campo da saúde mental na atualidade, além de retratar de forma sagaz os bastidores da lucrativa e influente indústria farmacêutica. Quem assistiu ao filme - e recomendo que só leia este texto caso tenha assistido (ATENÇÃO: SPOILERS!!!) - sabe que ele tem dois momentos bem definidos, divididos em função de uma assustadora e inesperada ação da personagem Emily Taylor (interpretada pela atriz Rooney Mara, a Lisbeth Salander da série Millenium). Após este momento, o estilo do filme, o ritmo e mesmo o protagonista mudam. O que era inicialmente um drama torna-se um thriller e uma parte da complexidade do primeiro ato se perde em um final que, ainda que seja surpreendente, é, na minha opinião, demasiado simplista. Explicarei o porque adiante. Mas comecemos pelo princípio.

Dirigido pelo talentoso e versátil Steven Soderbergh (o mesmo dos ótimos Traffic, Erin Brockovich, Che e Sexo, mentiras e videotape), "Terapia de risco" conta a história da designer gráfica Emily, que aguarda a libertação de seu marido, preso há quatro anos. Assim que Martin (Channing Tatum) volta pra casa, Emily passa a apresentar um comportamento deprimido semelhante ao que apresentara logo que ele foi preso - o que a levou, à época, a realizar um tratamento com a psiquiatra Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). Em certo momento, logo no início do filme, Emily tenta se suicidar batendo seu carro na parede de um estacionamento. Em função disso, ela é encaminhada para tratamento com o psiquiatra Jonathan Banks (interpretado pelo ótimo Jude Law) e é logo diagnosticada como tendo depressão. Este prescreve, então, após algumas tentativas mal sucedidas com outras medicações, o recém-lançado antidepressivo Ablixa. Para quem se interessar, recomendo uma visita ao site falso deste remédio, criado pelos produtores do filme nos moldes dos sites reais elaborados pelos laboratórios farmacêuticos. Até mesmo uma falsa propaganda foi criada. 


Neste momento, o filme começa a expor algumas estratégias reais da indústria farmacêutica para influenciar os médicos a prescreverem seus produtos. São mostrados os almoços pagos pelos representantes da Big Pharma (que motivaram, nos Estados Unidos, a campanha No free lunch - "Não existe almoço grátis"), a distribuição de viagens, brindes e amostras grátis (que geraram no Brasil a campanha "Alerta: Amostra nunca é grátis"), os eventos e artigos "científicos" patrocinados pela indústria, o recrutamento de psiquiatras como "consultores" (muito bem pagos, obviamente) em pesquisas cujo principal objetivo é, na verdade, habituar o paciente e o psiquiatra com determinada medicação (normalmente uma "nova" medicação, mas que costuma ser apenas "mais do mesmo", ou seja, praticamente a mesma fórmula de um medicamento antigo com outro nome, de forma a parecer algo "inovador"), etc. Além disso o filme aponta para o impacto das propagandas de medicações psicotrópicas diretamente  para o consumidor - o que é proibido na maior parte do mundo (inclusive no Brasil), com exceção somente dos Estados Unidos e da Nova Zelândia. Em uma cena ilustrativa, a psiquiatra Victoria comenta sobre Emily para Jonathan: "Talvez ela seja candidata a um desses remédios novos. Às vezes o recurso mais novo dá confiança. Eles veem os comerciais na televisão e acreditam".

Esta relação entre a medicina e indústria farmacêutica é mais próxima do que muitos imaginam. Segundo pesquisa realizada em 2010 pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) com 600 médicos de diversas especialidades, 93% deles afirmaram já ter recebido produtos, benefícios ou pagamentos considerados de pequeno valor (até R$500,00) da indústria farmacêutica ou de equipamentos, 80% já receberam visitas de representantes da indústria (e isto ocorre desde a graduação), 34% já ganharam almoços ou jantares, 74% amostras grátis de medicamentos, isto para não falar dos materiais informativos (88%), revistas "científicas" patrocinadas pela indústria (61%), objetos de pequeno valor para o consultório (58%) e ingressos para eventos culturais ou de lazer (15%). E mais: 77% dos pesquisados disseram conhecer médicos que já receberam produtos, benefícios e pagamentos de maior valor (mais de R$500,00). No entanto, somente 37% deles admitiram ter recebido. É aquela velha história: "vendidos (ou racistas ou homofóbicos ou bairristas) são os outros, não eu!" De qualquer forma, esta proximidade da medicina com a indústria farmacêutica é avaliada pelos médicos predominantemente (62%) como algo positivo. Neste sentido, 73% acreditam que sem o patrocínio da indústria, a organização de congressos se inviabilizaria e 19% são favoráveis até mesmo a que a indústria opine sobre a programação de congressos e simpósios médicos. Mas felizmente existe uma minoria significativa que não vê com bons olhos tal aproximação. De acordo com a pesquisa, 32% acreditam que o relacionamento dos médicos com a indústria está totalmente fora de controle e 35% fazem críticas à indústria, principalmente por causa da relação comercial, dos interesses financeiros e influências na prescrição. Nos últimos anos algumas tentativas de disciplinar a relação dos médicos com a indústria tem sido implantadas pelo Conselho Federal de Medicina , mas o problema permanece. E é realmente um problema pois, por mais que alguns médicos afirmem não ser influenciados pela indústria, eles o são sem se darem conta - assim como nós somos influenciados pela publicidade de uma forma geral. Se pensarmos bem, a publicidade é para a indústria farmacêutica uma enorme fonte de gastos - maior até do que os gastos com pesquisa. Desta forma, se o marketing direto ou indireto não trouxesse nenhum retorno financeiro, será que eles continuariam investindo? Certamente não. Se continuam se aproximando dos médicos é porque a tática funciona. E como! A Big Pharma está cada vez mais big!

Relacionado à isto, é interessante perceber que no universo do filme - que talvez não seja assim tão diferente do nosso - medicar-se é algo comum, cotidiano, banal. Praticamente todos que aparecem na tela se utilizam de alguma medicação ou substância psicoativa, desde Emily até a mulher do psiquiatra. A cena em que esta recebe uma medicação do marido é bastante ilustrativa: logo antes de participar de uma entrevista de emprego, Jonathas lhe dá um tranquilizante e ela, então, questiona: "é errado eu estar fazendo isso?". A resposta do psiquiatra é esclarecedora: "Todo mundo toma. Advogados, músicos, pessoas que vão para entrevistas de emprego importantes. [A medicação] não a torna nada que você não é, apenas facilita que você seja quem você é". O próprio psiquiatra, em determinado momento, aparece tomando uma bebida energética, que o ajuda a suportar os extenuantes plantões - e é quando ele diz a frase que escolhi para o título deste texto: "Vivendo melhor através da química!". Neste sentido, eu não teria como discordar das idéias do antropólogo da ciência Joseph Dumit em seu último livro Drugs for life: How Pharmaceutical companies define our health (Drogas para a vida: como as companhias farmacêuticas definem nossa saúde). Segundo ele, atualmente, "as medicações se tornaram parte integrante da vida cotidiana na América. Elas ajudam aqueles que estão de dieta a terem um jantar de Natal [através de medicações que controlam as taxas de colesterol]; elas ajudam a suprir as escolas com crianças atentas; elas são parte de nossa identidade assim como de nossas vidas". 

Neste livro, Dumit estabelece uma interessante classificação dos "modos biomédicos de viver", ou seja, das formas com que as pessoas se relacionam com as medicações e com os riscos da vida. O primeiro tipo é o "paciente expert", que engloba pessoas sedentas por informações sobre a própria saúde. Os pacientes experts são, por assim dizer, experts em serem pacientes. Sabem todas as suas taxas de glicose e colesterol e tentam se manter sempre atualizados com relação à elas. E para atingirem a tão desejada saúde adotam uma abordagem um tanto hipocondríaca, que Dumit chama de "abordagem da poli-pílula": com o objetivo de serem saudáveis, tomam uma série de medicações. Assim, o lema dos "pacientes experts" é: "se você pode tomar remédios que te ajudam, então você deve tomá-los". O segundo tipo definido por Dumit são os "sujeitos assustados". Estas pessoas não tanto procuram a saúde quanto evitam doenças e riscos, mas nunca estão certos se de fato conseguiram o que pretendem. Tais sujeitos vivem permanentemente tensos e inseguros - e mesmo assustados - diante das incertezas e controvérsias da área da saúde. "Os médicos dizem que comer salmão faz bem para o coração, mas li no jornal que os salmões estão contaminados com dioxina, o que aumenta o risco de câncer. O que eu faço? Como ou não como?". É esse tipo de crise em que vive permanentemente os sujeitos medrosos. "Como chocolate porque faz bem para o coração ou não como porque aumenta o colesterol?" A alimentação, neste caso, é tratada como remédio, num processo chamado por Dumit de medicalização da comida. Segundo o autor, a oposição entre o que é prazeroso e o que é saudável é uma característica essencial dos sujeitos medrosos. Finalmente, o último tipo definido por Dumit são as pessoas que "vivem melhor através da química" (expressão exata à utilizada pelo psiquiatra do filme). Estas pessoas estão bem resolvidas com o fato de que a vida pode (e portanto deve) ser regulada quimicamente. É preciso tomar um remédio para dormir e outro para acordar? Tudo bem! É preciso tomar um remédio para acalmar e outro para agitar? Tudo bem! Posso tomar um remédio que diminui o colesterol de forma a poder comer aquela feijoada no sábado? Que ótimo! Não há nessas pessoas qualquer culpa ou receio com relação às medicações. Elas simplesmente as incorporaram em suas vidas e em suas identidades. É exatamente este universo de pessoas que é retratado pelo filme.

Mas voltando à história, Emily passa então a tomar o antidepressivo Ablixa. Inicialmente parece que o remédio faz efeito e ela se sente muito melhor consigo mesma e com seu casamento. Ao mesmo tempo, ela começa a sentir os tais efeitos colaterais indicados pelo título original do filme, com destaque para um: Emily torna-se sonâmbula. E é em um desses episódios de sonambulismo que Emily mata seu marido à facadas - em uma cena assustadora. A partir de então, o foco do filme muda para o psiquiatra de Emily em sua investigação do que de fato aconteceu. Inicialmente o filme traz, indiretamente, uma discussão que considero interessantíssima: quem cometeu o crime? Ou melhor: quem é o culpado? Se Emily estava dormindo, poder-se-ia argumentar que não havia propriamente um "eu consciente" que pegou uma faca e enfiou em Martin - em termos legais ela poderia, neste caso, ser considerada inimputável, afinal, como disse o psiquiatra no filme "para haver intenção é necessário consciência". Então quem matou? Em determinado momento a culpa  recai, de certa forma, no cérebro de Emily, numa justificativa do tipo "não fui eu, foi meu cérebro" - que vem sendo cada vez mais aceita pela justiça. A ideia passa a ser, então, que o cérebro de Emily, sob o efeito do antidepressivo, fez com que ela cometesse o crime. E como cérebros não podem ser condenados e presos (sem levarem juntos seus "donos" - ou será que somos os nossos cérebros?), a responsabilidade recai, finalmente (e para alivio do laboratório farmacêutico), no psiquiatra que receitou o Ablixa para Emily. Esta, por sua vez, passa a ser vista como uma vítima do tratamento médico empreendido por Jonathas. Com esta acusação, a vida do psiquiatra vira de cabeça para baixo e ele passa a tentar provar sua inocência buscando entender o que de fato houve naquela fatídica noite. 

O que acontece em seguida é tão cheio de revelações e reviravoltas que eu cheguei a me perder. Mas o essencial de tudo isso - e espero que se você chegou até aqui, tenha de fato assistido ao filme - é que, na verdade, Emily fingiu o tempo todo estar deprimida (até chegou a tomar o Ablixa, mas ele não fez efeito algum) e matou seu marido conscientemente. Os motivos ficaram um pouco confusos para mim, mas se relacionam com um caso que Emily teve com sua ex-psiquiatra Victoria e à um esquema de fraude do seguro de Martin que ambas se envolveram. Ou seja, toda a interessante discussão sobre o uso e os efeitos colaterais das medicações se perde num final inesperado porém simplista, que revela que a protagonista não era nada mais nada menos do que uma psicopata, que fez tudo o que fez racionalmente em função de interesses escusos. Como forma de puní-la, Jonathas a diagnostica falsa e intencionalmente como sendo portadora de Transtorno esquizoafetivo e ela termina o filme internada em uma instituição psiquiátrica. Uma reflexão que podemos tirar das revelações deste último ato de "Terapia de risco" é o quanto é fácil a um psiquiatra  (ou a qualquer outro profissional de saúde mental) ser enganado por algum paciente mal intencionado - como Jonathas o foi por Emily. Por lidarmos com questões altamente subjetivas, estamos sempre sujeitos ao erro, ao engano, à mentira - como comprovou experimento clássico do psicólogo David Rosenham na década de 70. Não temos (e será que um dia teremos ou queremos ter?) um exame de sangue que ateste que a pessoa está deprimida ou ansiosa ou angustiada. Como afirma a psiquiatra Victoria em determinada passagem do filme, "os cardiologistas podem ver um ataque cardíaco que está a caminho através de exames. Está no sangue. Mas quem pode ver a mentira, ou o passado, ou a tristeza?". Encontrar marcadores biológicos e desenvolver exames objetivos para problemas subjetivos é, atualmente, o sonho dourado da psiquiatria moderna. E não é por outro motivo que o Instituto de Saúde Mental dos EUA (NIMH) declarou independência do  recém-lançado DSM-5, elaborado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA): exatamente por faltar a este a objetividade esperada para um manual de transtornos mentais do século XXI. Objetividade esta, diga-se de passagem, desejada com o mesmo ardor pela indústria farmacêutica. Num mundo em que os transtornos mentais forem entendidos, diagnosticados e tratados como doenças do cérebro, as pessoas consumirão mais e mais medicações. Talvez não estejamos muito longe disso. Ou, quem sabe, este já seja o nosso mundo...


Texto originalmente escrito para o portal (En)Cena