quinta-feira, 7 de maio de 2015

“Relatos selvagens” e a animalidade humana

O filme argentino Relatos selvagens – que concorreu ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro - é composto por seis histórias independentes que tem em comum a temática do descontrole (e pare de ler aqui caso não queira saber pormenores da trama). Na primeira história, que abre o filme, um piloto e músico frustrado reúne em uma avião todas as pessoas que em algum momento o magoaram ou o rejeitaram com o objetivo de derrubá-lo com todos dentro - e em cima da casa de seus pais!. Assim tem início o filme, que durante os créditos iniciais exibe uma série de fotos de animais, sinalizando – o que será confirmado no restante do filme – que nós também somos animais. E é sobre esta animalidade, que por vezes faz com que nos comportemos de forma exagerada ou descontrolada, de que tratam as histórias que se seguem.

A segunda história expõe o caso de uma garçonete que atende no meio da noite o homem responsável pelo declínio de sua família e pelo suicídio de seu pai. Já a terceira história, hilária, narra uma série de incidentes que acontece quando o pneu do carro de um homem fura em uma estrada deserta. A quarta, que é protagonizada pelo ator-ícone do cinema argentino Ricardo Dárin, conta a triste história de um perito em demolições que tem sua vida “demolida” após seu carro ser guinchado injustamente enquanto buscava o bolo de aniversário da filha - o que leva o personagem a uma série de situações que fogem totalmente ao seu controle. Há ainda a história de uma família cujo filho atropela e mata uma mulher grávida. Finalmente, a última história – a melhor e mais bizarra – retrata uma festa de casamento que dá absurdamente errado após a noiva descobrir que seu futuro marido a traiu com uma das convidadas. O que acontece a partir desta descoberta é surreal – e hilário.

Em todas estas histórias, as pessoas se comportam em algum momento de forma irracional, impulsiva, fazendo escolhas que não fariam racionalmente. Isto só evidencia algo óbvio para mim: nós seres humanos não somos seres racionais, ou melhor, não somos seres puramente racionais. Nossas escolhas são feitas sempre – ou quase sempre – num caldo de razão e emoção no qual não é possível distinguir onde começa uma e termina a outra. Somos seres emocionais que fazemos escolhas baseando-nos não somente em um cálculo frio de prós e contras, mas também em paixões, afetos, desejos e impulsos. Como bem apontou o economista Eduardo Giannetti da Fonseca no excelente livro “O valor do amanhã” vivemos num permanente oscilar entre aproveitarmos o momento e fazermos o que desejamos agora e planejarmos o futuro, abrindo mão, no presente, de algumas atitudes. 

Às vezes cedemos às tentações do presente e fazemos aquilo que desejamos mesmo que isto traga ou possa trazer conseqüências no futuro; e em outras vezes conseguimos nos controlar, reprimindo aquele lado animal que insiste em se manifestar. Sem este lado repressor, que Freud chamou de Supereu, a vida em sociedade não seria possível. Se déssemos vazão todo o tempo os nossos desejos sexuais e impulsos agressivos – com o fazem muitos personagens de Relatos selvagens – a vida em comum seria impossível. Por outro lado, se nunca manifestarmos ou “colocarmos para fora” – ou ainda sublimarmos, como diz Freud – a vida em comum também se torna difícil. Um “barraco”, de vez em quando, não faz mal a ninguém. O descontrole, se moderado, pode até fazer bem. 

Outra questão é se de fato controlamos a nossa vida e os nossos comportamentos. Psicanalistas provavelmente diriam que não, ou pelo menos não totalmente. Afinal, se grande parte da vida psíquica se dá abaixo do limiar da consciência, não faz sentido falar propriamente em controle. Da mesma forma, mas por motivos diferentes, behavioristas provavelmente diriam que o controle que temos de nossos comportamentos e de nossas vidas é limitado. Alguns neurocientistas contemporâneos, inclinados ao reducionismo, iriam além e negariam completamente nosso livre-arbítrio, argumentando que quem está no controle, efetivamente, é o nosso cérebro – e não nós (mas se, como alguns argumentam, “nós somos o nosso cérebro” então isso quer dizer que nós estamos no comando?). De toda forma, acho bastante pertinente a idéia de que não temos total controle de nossas ações - veja bem, eu disse total, porque algum grau de controle nós certamente temos, especialmente quando dizemos não à algo que desejamos. De toda forma, tenho certeza que todos já tomaram atitudes que se arrependeram depois. Só espero que o nível de descontrole não tenha chegado – e não chegue no futuro – ao nível de alguns dos casos expostos no filme Relatos Selvagens. 

Sobre a nostalgia

Se tem uma coisa que não suporto é nostalgia. Na verdade, não tenho nada contra aquela nostalgia "do bem" que sentimos quando nos lembramos de um momento bom que passou ou de uma pessoa que se foi. O que me incomoda é a nostalgia do tipo "no meu tempo é que era bom". Esse tipo de nostalgia, que está na base de muitos pensamentos conservadores que vejo por aí, coloca o presente sempre como algo inferior, quase como uma sombra ou um esboço malfeito de um passado idealizado. Aposto que no tal tempo em que a pessoa se refere as pessoas - e talvez ela própria - diziam a mesma coisa e colocavam a "felicidade" ou a "ordem" ou " pureza" em algum lugar, ainda mais distante no passado. Simplesmente não suporto quando ouço, ou leio, ou vejo, pessoas dizendo que no "seu tempo" as coisas eram melhores. Em alguma medida elas podem até ter razão ao afirmar que as coisas eram diferentes de hoje. Mas isto não significa que o mundo e as relações eram melhores. Não que o mundo hoje seja perfeito. Pelo contrário, vejo tanta coisa errada que nem saberia por onde começar a listar os seus problemas. Mas o mundo é o que ele é e o tempo segue para frente. Desejar um retorno a um passado idealizado onde tudo - teoricamente - funcionava e onde as relações eram mais simples e menos "líquidas" é de uma ingenuidade sem tamanho. Isto não significa, contudo, que as mudanças não são possíveis. Pelo contrário, significa que as mudanças ocorrerão de formas imprevisíveis a partir do presente e em direção a um futuro que não sabemos exatamente como será e não como um retorno a um passado. Como diria o mestre Georges Canguilhem, em sua brilhante análise dos processos de saúde e doença, "a vida não conhece reversibilidade". E é por isso, que segundo o autor, não devemos falar em cura como um retorno à uma “inocência orgânica”, mas como um rearranjo, uma nova forma de vida. Curar-se não é voltar ao que se era mas sim desenvolver uma nova forma de ser. Portanto, se desejamos "curar" o mundo devemos caminhar para frente e não para trás.

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Entre abelhas": uma metáfora da depressão


"Entre abelhas" é um filme muito interessante - e não leia o restante deste post caso não queira saber pormenores da trama. Quem olha seu cartaz, que tem o Fábio Porchat segurando uma cadeira vermelha, e vê que o diretor é o Ian SBF, um dos principais diretores do Porta dos Fundos, logo pensa que se trata de uma comédia. Assim eu pensava quando entrei na sala de cinema. Eu não podia estar mais enganado. "Entre abelhas" é um drama, um interessante drama com pitadas de suspense, escrito numa parceria entre Ian e Fábio.

Sem revelar nada muito significativo, o filme conta a história de Bruno, um editor de videos recém separado que subitamente passa a ser acometido por uma estranha "síndrome" que o faz deixar de ver algumas pessoas - que se tornam literalmente invisíveis para ele. Embora se assemelhe a "Ensaio sobre a cegueira" em alguns aspectos (uma síndrome misteriosa desencadeia uma cegueira), "Entre abelhas" segue por um outro caminho: não se trata de uma praga que se espalha, mas de um problema que acomete única e exclusivamente Bruno. Só ele deixa de ver. E somente algumas pessoas. A partir daí o protagonista, interpretado por um excelente e surpreendente Fábio Porchat, passa a investigar o que pode estar acontecendo com ele. Para tanto procura a ajuda de médicos e psicólogos que, como tantas vezes acontece na vida real, não conseguem identificar e entender o que ele tem. 

Sem entrar em pormenores, considero o filme uma interessante metáfora da depressão, condição (prefiro não chamar de doença) no qual o sofrimento por vezes torna-se tão intenso que é como se o mundo e as pessoas não mais existissem. Imerso em seu próprio sofrimento, o depressivo não consegue olhar além de si. Este é exatamente o caso de Bruno. Recém-separado de sua esposa, com quem viveu alguns anos, o personagem encontra-se num doloroso processo de luto. E é justamente no meio deste turbilhão que tem início a sua cegueira. A situação de Bruno também pode ser interpretada como uma metáfora da solidão nas (grandes ou pequenas) cidades, nas quais as pessoas são, de certa maneira, invisíveis umas para as outras - o filme argentino Medianeras também trata desta questão com muita sensibilidade. 

Posso estar viajando, mas vejo múltiplas interpretações para o enredo do filme. E quando isto acontece é ótimo. "Entre abelhas" não é um filme para as massas, exatamente por deixar abertas muitas questões (inclusive seu final) e por conduzir a história de uma forma muito mais lenta que a usual no cinema comercial brasileiro. Li relatos de que muitas pessoas saíram no meio do filme, absolutamente decepcionadas, e acho este um ótimo sinal de que se trata de um filme atípico - e que, justamente por isso, merece ser visto. Filmes nos quais as pessoas saem no meio são muitas vezes aqueles que geram algum incômodo e que trazem alguma reflexão para além do entretenimento momentâneo. "Entre abelhas", apesar de não ser propriamente uma obra-prima, faz pensar. E só por isso, merece muitos elogios.  

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma viagem pela história da saúde mental em Minas Gerais: o Hospício de Diamantina


Aproveitei a viagem à Diamantina na Semana Santa para ler e ver de perto um pedaço importante da história da saúde mental em Minas Gerais: o Hospício de Diamantina, o primeiro hospital de "alienados" do estado - no Brasil, o primeiro foi o Hospicio Pedro II, inaugurado no Rio de Janeiro em 1852. Chegando em Diamantina fui à única livraria da cidade - a charmosa Espaço B - e lá, por puro acaso, acabei me deparando com o livro "Hospicio de Diamantina: a loucura na cidade moderna", escrito pela psicanalista Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani a partir de sua dissertação de mestrado defendida na Fiocruz. Li o livro no mesmo dia (são apenas 100 páginas) e no dia seguinte fui ver de perto o Hospício - não tão de perto como gostaria pois o local está fechado para restauração e deve ser aberto para visitação em breve. 

Criado em 1889 como um anexo da Santa Casa de Diamantina (fundada em 1790), o Hospicio de Diamantina foi, como aponta a autora, uma "promessa que não se cumpriu". A promessa é de que seria um espaço "moderno" tanto de acolhimento dos "alienados" (também chamados à época nos jornais da cidade de exilados ou prejudicados da razão) como de tratamento e até cura - visão extremamente avançada para aquele momento no qual o "tratamento aos loucos" não era nem se propunha a ser laico, profissional e medicalizado. No entanto, o hospital nunca funcionou como se esperava, fechando suas portas em 1906. A partir deste momento o hospício de referência em Minas, para onde seriam levados (nos chamados "trens de doido") todos os "alienados", seria o famoso Hospital Colônia de Barbacena, criado em 1903. 

Deixo aqui como reflexão a conclusão da autora do livro, na qual ela expõe quem eram os tais alienados - e quem eram os tais "normais": "pode-se vislumbrar quem era considerado normal em Diamantina no final do século XIX e no princípio do século XX: os homens brancos, de posses, pais de família, seres racionais e as mulheres casadas, mães de família das classes médias e altas, dóceis, submissas, boas esposas e sem desejos. O que nos dá o perfil social dos nossos loucos: negros e mestiços, pobres, escravos ou trabalhadores simples, mendigos e desocupados e mulheres que, mesmo protegidas pelo casamento e pelo marido, poderiam a qualquer momento, perder a razão em função de sua fragilidade natural. Ontem, como hoje, negros, pobres e mulheres pertencem às categorias perigosas da sociedade".

Confira abaixo algumas fotos que eu tirei no local.






O Caps Renascer funciona aos fundos do antigo Hospício de Diamantina

Santa Casa de Diamantina

sexta-feira, 13 de março de 2015

Uma breve história e um panorama atual das Neurociências no Brasil

No Brasil, a história das Neurociências se confunde com a história da Fisiologia, e, mais especificamente, com a história da Neurofisiologia. Como aponta Cesar Timo-Laria (veja aqui), o estudo experimental e sistemático da Fisiologia teve início, no país, com os estudos dos irmãos Álvaro e Miguel Ozório de Almeida, no Rio de Janeiro do início do século XX. Segundo o autor, estes irmãos criaram, na década de 1910, o primeiro laboratório de fisiologia, além da primeira escola do campo no Brasil. Além disso, eles iniciaram os estudos em neurofisiologia no país. Miguel, especialmente, teria dedicado toda sua vida ao estudo da fisiologia e fisiopatologia do sistema nervoso, tendo inclusive publicado, em 1944, um livro sobre os processos de inibição e facilitação no sistema nervoso central e periférico. Segundo Dora Fix Ventura (neste artigo), especialmente a partir das décadas de 1940 e 19550 houve um grande impulso na área dos estudos em neurofisiologia, o que pode ser observado pela criação de grupos de pesquisa, como aqueles liderados por Aristides Pacheco Leão, na UFRJ, Carlos Diniz, na UFMG e Miguel Covian, na USP. Nas décadas de 1960 e 1970 outros grupos são criados nestas e em outras universidades, majoritariamente da região sudeste, e as pesquisas sobre o sistema nervoso se multiplicam. Neste momento, a expressão neurociências começa a ser utilizada pelos pesquisadores brasileiros para se referir a uma nova disciplina guarda-chuva que englobaria todos os estudos sobre o sistema nervoso. No entanto, somente mais tarde, especialmente a partir da década de 1990, é que a expressão se consolidará no universo acadêmico-científico brasileiro.

Um passo importante, nesse sentido, foi a criação, em 1977 da Sociedade Brasileira de Psicobiologia. Segundo sua ata de fundação (disponível aqui), a entidade foi criada por um grupo de psicólogos, psicofarmacólogos, neurofisiologistas, psiquiatras e outros profissionais, com o objetivo de “congregar os interessados em Sistema Nervoso e/ou Comportamento” ou, como afirma, Ventura “promover a integração entre psicologia e neurociência”. Segundo esta autora, que consta entre seus membros-fundadores, o nome da entidade perdurou até o início dos anos 1990, quando, para evitar a criação de uma segunda entidade na mesma área, dedicada à Bioquímica, decidiram alterá-lo para Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC), nome que se mantém até hoje[1]

A SBNeC é, sem dúvida, a principal entidade relacionada ao campo neurocientífico no Brasil, possuindo atualmente cerca de 3.300 associados, dentre “pesquisadores, pós-graduandos e estudantes de todo o país que estejam envolvidos com as diferentes facetas do estudo do Sistema Nervoso” (fonte). A SBNeC, que é filiada internacionalmente, à International Brain Research Organization (IBRO) e à Federação das Associações Latinoamericanas e do Caribe de Neurociências (FALAN) e nacionalmente à Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) e à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realiza, anualmente, uma reunião que reúne milhares de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento dedicados à pesquisas em neurociências e comportamento.

Em um trabalho de 2010 intitulado Um retrato da área de Neurociência e Comportamento no Brasil (leia aqui), Ventura traz algumas importantes informações sobre o campo das neurociências no país. Segundo ela, a comunidade de neurocientistas compreendia, naquele momento, cerca de 2 mil pesquisadores, dentre professores/pesquisadores e estudantes de pós-graduação. Segundo levantamento realizado pela autora tais pesquisadores atuavam – e ainda atuam – predominantemente em grupos de pesquisas ligados a universidades públicas situadas na região sudeste – destaque para a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ)[2]. Especificamente, tal levantamento apontou que tais grupos de pesquisas estão ligados a diversos departamentos, como Bioquímica, Psicologia, Zoologia, Neurobiologia, Nutrição, Psiquiatria, Ciência da Computação, etc, o que confirma o caráter interdisciplinar do campo neurocientífico. 

Além disso, a autora destaca os principais temas estudados no país pelos neurocientistas em seus grupos de pesquisa: memória em humanos e não humanos, psicofarmacologia, comportamento animal e neuroetiologia, epilepsia, sistema visual, organização funcional do sistema nervoso, sono e cronobiologia, doença mental e doenças degenerativas, engenharia biomédica e redes neurais, nutrição e funcionamento do cérebro, regeneração do sistema nervoso e neurociência computacional. Esta multiplicidade temática se traduz, por sua vez, na multiplicidade metodológica do campo das neurociências, no Brasil e no mundo. A divisão do campo neurocientífico, proposta por Roberto Lent em cinco disciplinas (Neurociência molecular; Neurociência celular; Neurociência sistêmica, Neurociência comportamental e Neurociência Cognitiva) reflete, de certa forma, esta heterogeneidade.

Analisando especificamente a produção científica do campo no país, Ventura estima que cerca de 20% dos trabalhos produzidos na área biológica e biomédica sejam de neurociências. Segundo ela, a produção científica, especialmente em pesquisa básica, já é intensa e se expande cada vez mais. Isto pode ser observado, aponta, pela multiplicação de trabalhos sobre o sistema nervoso apresentados em alguns congressos científicos brasileiros. Por exemplo, na Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, os trabalhos ligados à temática das neurociências e comportamento compõem cerca de 30% do total. Segundo a autora, pode-se encontrar também uma considerável proporção de trabalhos em neurociências nas reuniões anuais da Sociedade Brasileira de Bioquímica, da Sociedade Brasileira de Imunologia e mesmo da Sociedade Brasileira de Psicologia. Além disso, Ventura aponta, a partir de dados fornecidos pelo Institute for Scientific Information, que o campo neurocientífico brasileiro se encontra dentre os mais bem-sucedidos academicamente, estando cerca de 20% dos neurocientistas brasileiros situados dentre os mais produtivos de todas as áreas do conhecimento no Brasil.


Tudo isto sinaliza para uma expansão do campo neurocientífico brasileiro, especialmente nas últimas duas décadas, o que pode ser constatado tanto pelo aumento no número de centros, institutos, pesquisas e pesquisadores dedicados ao estudo do sistema nervoso e sua relação com o comportamento normal ou patológico. Além disso, é possível observar a multiplicação de entidades de agremiação de pesquisadores, como a Sociedade Brasileira de Neurociências e o Instituto de Neurociências e Comportamento, e de publicações, como o periódico Psychology & Neuroscience e a Revista Neurociências. Isto se analisarmos somente o universo acadêmico-científico. No entanto, tem se proliferado pelo país iniciativas e publicações voltadas para a divulgação/difusão do conhecimento neurocientífico para o chamado público leigo. O cérebro, de fato, está cada vez mais visível, tanto no sentido de ser possível atualmente, em função das tecnologias de neuroimageamento, visualizá-lo vivo e ao vivo quanto no sentido de receber grande atenção dos meios de comunicação. Enfim, o cérebro está na moda.


[1] Segundo Ventura, a introdução da palavra ‘comportamento’ teve como objetivo integrar (ou não afastar) os psicólogos experimentais da entidade. 

[2] Fora da região sudeste, Ventura aponta para a realização de pesquisas em neurociências nas seguintes instituições: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Paraná (UFPR).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Resenha: "Almanaque das drogas"


Se você se interessa pelo tema das drogas e gostaria de se inteirar um pouco mais das discussões sobre proibição, legalização e descriminalização, recomendo imensamente um livro que acabei de ler: "Almanaque das drogas: um guia informal para o debate racional", escrito pelo jornalista Tarso Araújo e publicado em 2012 pela editora Leya. O livro - um calhamaço de quase 400 páginas, repleto de fotografias, ilustrações e gráficos - é um grande catálogo de informações sobre as drogas. Dividido em 5 partes - História, Economia, Saúde, Política, e Drogas de A a Z - o livro passa por praticamente todas as discussões relevantes sobre o tema, escritas de uma forma extremamente clara e didática. Na primeira parte, o autor narra a história da relação do homem com as drogas desde a pré-história até a atualidade. Na segunda, Araújo explora as questões do mercado legal versus ilegal, da violência relacionada à ilegalidade, da produção e distribuição das drogas e ainda os temas da corrupção e lavagem de dinheiro. Na terceira parte o autor se debruça nas questões de saúde, discutindo como as drogas são usadas, a ação delas no cérebro, os prazes e riscos envolvidos e ainda possibilidades de prevenção e tratamento. Na seção seguinte, Araújo se dedica ao importante e atualíssimo debate sobre as políticas sobre drogas, apresentando uma discussão bastante pertinente sobre as alternativas ao proibicionismo. Para tanto, o autor apresenta algumas práticas inovadoras desenvolvidas em países como a Holanda, a Espanha, Portugal e também no estado da Califórnia nos Estados Unidos. Finalmente, na ultima seção, o autor apresenta algumas informações básicas sobre cada uma das drogas. Trata-se, enfim, de uma obra excelente, tanto na forma quanto no conteúdo, que permite aos leitores se inteirarem de forma bastante profunda sobre este universo, podendo, a partir de então, participarem, como aponta seu subtítulo, de um debate racional sobre o tema - extremamente necessário em nossos dias. ‪#‎ficaadica

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Ginástica cerebral funciona? Não há evidências, dizem cientistas.

Tem se multiplicado pelo Brasil e pelo mundo programas e serviços de "ginástica cerebral" que prometem não somente o "aprimoramento" do cérebro mas também a prevenção (e mesmo o abrandamento) de problemas cognitivos na terceira idade. No Brasil, podemos encontrar diversos programas presenciais e virtuais, como o Supera, o Cérebro Melhor (que recentemente foi comprado pelo Supera), além de inúmeras outras "academias cerebrais". Na verdade, uma indústria multimilionária voltada para o aprimoramento cerebral tem crescido absurdamente em todo o mundo - e nos últimos anos tal indústria tem se espalhado, como um vírus, também pelo Brasil (somente a rede Supera possui mais de 100 unidades/franquias em todo o país). E todas estas empresas alegam, supostamente embasadas em dados científicos - afinal, nada mais convincente hoje em dia que dizer que "estudos apontam" ou "pesquisas indicam" -, que o treinamento do cérebro, seja através de jogos de computador ou atividades como a utilização do ábaco (caso do Método Supera), fortalecem as estruturas cerebrais e previnem o declínio cognitivo. Esta é a promessa - chancelada muitas vezes por neurocientistas de renome -, mas será verdade que exercícios de "ginástica cerebral" potencializam o cérebro e evitam o "declínio" cognitivo?

Não é o que sugere uma série de estudos, além de um consenso assinado por inúmeros especialistas. Em um comunicado divulgado em Outubro deste ano pelo Centro de Longevidade da Universidade de Stanford juntamente com o Instituto para o Desenvolvimento Humano do Instituto Max Planck de Berlim e assinado por dezenas de importantes psicólogos cognitivos e neurocientistas de todo o mundo, os pesquisadores afirmaram que não há nenhuma evidência científica sólida de apoio a essa promessa. De acordo com o comunicado, a literatura científica disponível não corrobora a ideia de que jogos e atividades voltados para o treinamento cerebral de fato melhoram o desempenho cognitivo geral ou impedem o declínio cognitivo. Jogar determinado jogo ou fazer determinada atividade certamente podem torná-lo, com o tempo, melhor na execução de tal jogo ou atividade específica. Isto não significa, contudo, que tais jogos ou atividades contribuem para a melhoria geral da inteligência, da memória ou da atenção - e muito menos que têm a capacidade de prevenir agravos cognitivos decorrentes do processo de envelhecimento. Em suma: pessoas que praticam determinada tarefa, ficam melhores nessa tarefa, e talvez em tarefas muito semelhantes, mas não em outras tarefas. Como ilustrou esta reportagem da revista Salon, se você jogar repetidamente um determinado jogo de videogame, você, com o tempo, se tornará expert neste jogo específico e talvez tenha mais facilidade em jogos semelhantes, mas dificilmente se tornará melhor em tarefas "do mundo real" como fazer o seu trabalho, dirigir o carro ou memorizar determinado conteúdo. Tudo isto significa que um aprendizado específico grande parte das vezes não se generaliza para a cognição como um todo.

Os pesquisadores concluem o documento afirmando: "Opomo-nos à alegação de que jogos cerebrais oferecem aos consumidores um caminho cientificamente fundamentado para reduzir ou reverter o declínio cognitivo quando não há evidência científica convincente até agora de que eles o fazem. A promessa de uma solução mágica vai na contramão da melhor evidência até o momento, que é de a que saúde cognitiva na velhice reflete os efeitos a longo prazo de estilos de vida saudáveis. No julgamento dos signatários [deste consenso], alegações exageradas e enganosas exploram as ansiedades de adultos mais velhos sobre o declínio cognitivo iminente. Encorajamos a contínua e cautelosa investigação e validação nesse campo". 

Isto significa então que devemos deixar de lado todos estes exercícios cerebrais e simplesmente esperar o "inevitável" declínio cognitivo? De forma alguma. Em primeiro lugar, dizer que não existem evidências científicas de que jogos cerebrais funcionam, não significa que eles não podem ou não devem ser utilizados. Não! Significa que devemos depositar menos expectativas neles e olhá-los de forma mais crítica, tentando enxergar para além das estratégias de marketing e buscando considerá-los mais como atividades de lazer (que podem ser ótimas fontes de interação e diversão) do que propriamente atividades preventivas ou de aprimoramento cognitivo. Além disso, mesmo sem comprovação científica, tais atividades podem fazer muito bem (para o individuo como um todo, não somente para seu cérebro) e trazer resultados reais para algumas pessoas - a ciência, afinal, lida com dados populacionais e não com casos particulares. É importante ter em vista também que todas as experiências que passamos na vida são, de certa forma, "exercícios" para o cérebro, na medida em que modificam as conexões neurais - a noção de neuroplasticidade, tão em voga atualmente, aponta justamente nessa direção. Finalmente, os cientistas signatários do comunicado apontam para uma estratégia muito mais efetiva e embasada em dados científicos para "exercitar" o seu cérebro: a atividade física. Como aponta o comunicado, inúmeros estudos evidenciam que o exercício aeróbico aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, e ajuda na formação de novas conexões neurais e vasculares, podendo promover, desta forma, significativas melhoras na atenção, no raciocínio e também na memória. Portando, entre gastar seu tempo (e dinheiro) fazendo palavras cruzadas, jogos de memória ou ábaco e fazer exercício físicos, o caminho mais sensato (e mais embasado cientificamente) é o segundo. Ao exercitar o seu corpo, seu cérebro, que é parte integrante do seu corpo, também estará sendo "exercitado". 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O livro definitivo sobre a ansiedade

Acabei de ler o livro Meus tempos de ansiedade: medo, esperança, terror e a busca da paz de espírito, escrito pelo jornalista Scott Stossel e recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Que livro fantástico! Não gosto muito da ideia de "filme definitivo" ou "livro definitivo" porque nada nesse mundo é definitivo e também porque nenhum livro ou filme jamais poderia dar conta, totalmente, de determinado tema, mas não poderia pensar em algo melhor para dizer sobre essa obra magnífica. Concordo, nesse sentido, com Andrew Solomon, que afirmou: "Scott Stossel escreveu o relato definitivo sobre a ansiedade, unindo ciência, história e autobiografia" (Solomon, por sua vez, escreveu o "livro definitivo" sobre a depressão, o belo, erudito e já clássico Demônio do meio-dia). Realmente: o livro de Stossel condensa de forma soberba, em um calhamaço de mais de 500 páginas, um relato pessoal extremamente - e às vezes constrangedoramente - sincero (terminamos o livro nos sentindo amigos íntimos de Scott), uma investigação cuidadosa e crítica do estado da arte da "ciência da ansiedade" (Stossel, no entanto, não cai na tentação de achar que a ciência sozinha daria conta de explicar esta questão) e ainda uma narrativa histórica bastante ampla e embasada sobre o tema (só de bibliografia o livro tem quase 30 páginas!). E tudo isso sem cair em nenhuma forma de reducionismo, seja biológico, psicológico ou sociológico. Para o autor nenhum olhar isoladamente é capaz de dar conta sozinho deste complexo fenômeno. Pelo contrário, todos os olhares podem contribuir para o entendimento (e mesmo para o "enfrentamento") da ansiedade, que é compreendida por Stossel como reflexo ao mesmo tempo de uma biologia, herdada de nossos ancestrais e entranhada em nosso sistema nervoso, de uma psicologia, construida em nossa relação com os outros e com nós mesmos e de uma cultura, na qual estamos impreterivelmente imersos. 

O livro tem início com o relato de um terrível ataque de ansiedade/ pânico que Stossel teve durante seu casamento e daí em diante o autor tenta entender tanto a própria ansiedade quanto o "fenômeno" da ansiedade de uma forma geral. Na primeira parte do livro, denominada "O enigma da ansiedade", Stossel tenta responder a pergunta "do que falamos quando falamos de ansiedade?". Para tanto, o autor busca e apresenta diversas definições feitas no decorrer da história, entremeando-as com relatos de suas próprias experiências de ansiedade. E haja ansiedade! Eu atendo cotidianamente muitas pessoas ansiosas - não seria equivocado dizer que trata-se da principal queixa que chega em meu consultório - mas poucas vezes, talvez nunca, atendi casos tão graves como o de Stossel. O jornalista é um sujeito sem dúvida alguma, patologicamente ansioso e em vários aspectos. Tem uma fobia de viajar de avião extremamente elevada e persistente (as descrições do pânico que ele experiencia quando voa são angustiantes), fica extremamente nervoso em exposições públicas ou em quaisquer situações em que ele seja o centro das atenções, tem ataques de pânico frequentes e incapacitantes e ainda possui uma fobia que eu nunca tinha ouvido falar, a "emetofobia", que é o o medo excessivo ou irracional de vomitar. Esta fobia, de certa forma, moldou a vida de Scott e se relaciona com grande parte de suas demais ansiedades - por exemplo, ele tem medo de se apresentar em público especialmente porque tem medo de vomitar diante das pessoas (embora tenha vomitado, efetivamente, pouquissimas vezes). Em suma, Stossel tem total "autoridade" para falar sobre ansiedade, haja vista sua longa e dolorosa vivência. Mas não se trata simplesmente, volto a repetir, de um relato de um sujeito ansioso, mas de uma profunda análise do que é a ansiedade.


E é neste sentido que, ainda na primeira parte do livro, Stossel tenta definir este fenômeno, recorrendo para isso a textos de filósofos, psicólogos, psiquiatras e neurocientistas. Obviamente, como em qualquer outro tema, não há consenso. Exatamente por isso o autor se propõe a apresentar e debater diversas controvérsias relacionadas ao tema da ansiedade. Eis algumas delas: seria a ansiedade algo "natural", que acompanha o ser humano desde sempre, ou algo "produzido" pela civilização moderna? Neste sentido, poderíamos dizer que a ansiedade é tipicamente humana ou também os animais podem ser ansiosos? Outra controvérsia bastante debatida pela autor, é se a ansiedade é (ou em que medida é) algo patológico. Com relação à esta questão o autor traça um percurso de como a ansiedade (ou o seu "excesso") passou, a partir de determinado momento, a ser considerada uma patologia. Segundo Stossel, a partir do DSM-III, publicado em 1980, surge a categoria diagnóstica "transtorno de ansiedade", que não constava nas edições anteriores da "Bíblia da psiquiatria". Anteriormente, o que hoje chamamos de ansiedade ou de transtorno de ansiedade foi chamado por muitos outros nomes. Na verdade isto é de certa forma equivocado de afirmar, pois não dá para dizer que o que no final do século XIX os médicos chamavam de "neurastenia" é o mesmo que o que hoje chamamos de "transtorno de ansiedade". Muito embora alguns dos sintomas descritos sejam comuns, trata-se de categorias diagnósticas muito distintas (e é exatamente por esse motivo que sempre acho equivocado diagnosticar pessoas do passado com categorias do presente, como por exemplo, ao afirmarmos que Platão ou Darwin eram bipolares).

Outra controvérsia debatida por Stossel - que muito me interessa - diz respeito à afirmação de alguns neurocientistas de que as modernas tecnologias de neuroimagem, como a ressonância magnética e a tomografia magnética, poderiam ajudar na diferenciação entre ansiedade normal e ansiedade patológica (da mesma forma que uma radiografia ajuda na distinção entre uma fratura de tornozelo e uma torção). Segundo o autor, tal afirmação não se sustenta. E o motivo é relativamente simples. Como aponta Stossel, algumas pessoas, diante de estímulos indutores de estresse, exibem sinais fisiológicos indicadores de ansiedade (por exemplo, as amigdalas ficam mais ativadas) mas afirmam que não estão se sentindo ansiosas. E é neste sentido que o autor afirma: "Quando uma radiografia mostra um fêmur fraturado e o paciente não relata dor, o diagnóstico médico ainda é de fratura de fêmur. Quando uma tomografia mostra intensa atividade nas amigdalas e nos gânglios basais, mas o paciente não relata ansiedade, o diagnóstico é... nenhum". Isto só confirma o que eu já disse em outro momento: que a Psiquiatria (e, evidentemente, a Psicologia) nunca poderá prescindir ou abrir mão da subjetividade. Posso estar enganado, mas acredito que nenhum exame objetivo (seja de cérebro ou de sangue) jamais substituirá uma avaliação clínica bem feita. Isto significa também que a ansiedade (ou a tristeza ou a raiva) não é simplesmente um "problema" cerebral, mas algo que afeta e é afetado pela pessoa como um todo em sua relação com o mundo.

Já na terceira parte, que considero a mais interessante, Stossel analisa a relação entre medicações e ansiedade. Embora ele próprio tenha tomado e ainda tome uma grande quantidade de remédios psiquiátricos na tentativa de controlar sua ansiedade, Stossel critica a visão de que a ansiedade é um "problema" neurológico que deve ser tratado exclusivamente com medicações. Como questiona em determinado momento, 

"Por acaso minha ansiedade pode mesmo resumir-se à eficácia com que meus canais de íons cloretos funcionam ou à velocidade dos disparos neuronais em minha amigdala? Bem, sim, num certo nível, pode. Os índices de disparo na amigdala correlacionam-se de forma bastante direta com a sensação de ansiedade. Entretando, dizer que minha ansiedade seja redutível aos íons em minha amigdala é tão limitador quanto dizer que minha personalidade ou minha alma é redutível às moléculas que constituem meu cérebro ou aos genes que levaram a elas".

Da mesma forma, o autor tece fortes e contundentes críticas à atuação da indústria farmacêutica na construção da teoria do desequilibrio quimico, que apregoa que os transtornos mentais seriam causados por um "desequilibrio quimico" no cérebro das pessoas - especialmente no nível de seus neurotransmissores. Nesse sentido, Stossel analisa em detalhes a construção do diagnóstico de Transtorno do Pânico, que, segundo o autor, "foi a primeira doença psiquiátrica cuja criação teve como fator determinante a reação a um fármaco: a imipramina cura o pânico; por conseguinte o transtorno do pânico tem que existir". Outros transtornos psiquiátricos, como o Transtorno de Ansiedade Social e o ainda controverso Transtorno de Ansiedade generalizada, teriam sido criados da mesma forma. 

Ao mesmo tempo, Stossel não condena ou descarta totalmente o uso de medicações. Sua posição, nesta e em outras polêmicas, é bastante moderada e conciliadora. Como aponta em determinado momento,

"Os medicamentos, como muitos estudos indicam, podem funcionar - em parte do tempo, com algumas pessoas, às vezes com horríveis efeitos colaterais, sintomas de abstinência terríveis e problemas de dependência. E na verdade não sabemos que danos a longo prazo estão causando em nosso cérebro. E, de fato, as empresas farmacêuticas e as seguradoras ampliaram ou distorceram de maneira artificial as categorias de diagnóstico. Mas posso garantir, com minha autoridade pessoal, conquistada a duras penas, que há aqui um sofrimento emocional legítimo, que pode ser muito incapacitante, suscetível de alívio proporcionado por esses fármacos, às vezes só um pouco, às vezes de maneira profunda"

Em outro momento, de forma ainda mais contundente, afirma (e eu concordo 100% com ele): 

"Os fármacos psiquiátricos funcionam - para algumas pessoas, em certas situações, às vezes. Seria cruel negar aos esquizofrênicos a remissão química de delírios psicóticos, ou ao paciente bipolar o alívio farmacológico de suas manias perigosas ou de suas depressões avassaladoras - ou impedir que a pessoa destruída pelo pânico e aprisionada em sua casa busque alguma proteção médica contra a ansiedade. Creio que se pode ser cético com relação às alegações da indústria farmacêutica, preocupado com as implicações sociológicas de uma população tão medicamentada e sintonizado com os custos existenciais envolvidos no uso de fármacos psiquiátricos, mas não se opor ao uso judicioso dessas substâncias".

No restante do livro, o autor apresenta e analisa uma miríade de questões relacionadas ao tema da ansiedade. Não gostaria de cansá-lo apresentando o livro capítulo por capítulo. Gostaria simplesmente de salientar que, caso se interesse por esse tema - e se você é psicólogo clínico acredito que irá se interessar, pois tenho certeza que queixas de ansiedade são frequentes em seu consultório - esqueça aquela besteira que é o best-seller "Ansiedade: como enfrentar o mal do século", escrito pelo Augusto Cury (que segundo esse texto, ele próprio, é o mal do século) e aventure-se neste livro fantástico de Stossel. O caminho é mais longo, afinal são mais de 500 páginas, mas tenho certeza que você não irá se arrepender.

Update 09/12/14: O psiquiatra Daniel Martins de Barros, em seu blog, fez uma analise igualmente entusiasmada do livro Meus tempos de ansiedade. Disse ele: "Misturando relato pessoal, pesquisa científica e história cultural, o livro lançado no Brasil pela Cia. das Letras é talvez o mais completo e abrangente trabalho leigo sobre os transtornos ansiosos".

terça-feira, 16 de setembro de 2014

DSM-5, o musical

Descobri o video abaixo no sempre interessante blog Mindhacks. Trata-se de uma versão do sucesso Night Fever do grupo Bee Gees produzida (e protagonizada!) pelo professor Stephen Stahl, autor de diversos livros sobre psicofarmacologia como Prescriber's Guide: Stahl's Essential Psychopharmacology. A versão do professor Stahl, chamada DSM-5 fever ("A febre do DSM-5"), critica, ainda que de uma forma leve e divertida, a nova versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicada no ano passado. Infelizmente o video só tem legendas em inglês. De toda forma espero que você consiga entender e se divertir com este curioso video do professor Stahl - que, diga-se de passagem, possui um swing invejável. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O materialismo das neurociências contemporâneas: nova roupagem para velhas esperanças

Reproduzo abaixo alguns trechos do magnífico artigo "O eterno retorno do materialismo: padrões recorrentes de explicações materialistas dos fenômenos mentais", escrito pelo professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (e meu grande mentor intelectual) Saulo de Freitas Araújo. Para quem se interessa pelo campo da filosofia da mente ou quer adentrar um pouco mais nas discussões sobre a relação mente-cérebro recomendo imensamente a leitura de seu livro "Psicologia e Neurociências: uma avaliação da perspectiva materialista no estudo dos fenômenos mentais", editado pela editora da UFJF. Foi esse livro, junto com as maravilhosas aulas do professor Saulo, que me despertaram, já na época da graduação, para o tema das Neurociências - que estudei mais aprofundadamente no mestrado. O texto é um pouco grande para os padrões de um blog mas certamente recompensará quem o ler com uma reflexão absolutamente necessária para todos os profissionais e estudantes do campo psi. Apesar de ser um artigo publicado em uma revista científica, Saulo escreve de uma forma muito clara e até mesmo divertida em alguns momentos. Portanto, espero que vocês se deleitem com esse artigo como eu próprio me deleitei. 


Para uma parte significativa de nossa sociedade moderna, o materialismo parece ser o resultado natural e inevitável do avanço das investigações científicas. De fato, essa imagem normalmente propagada e aparentemente irretocável de uma identidade entre ciência e cosmovisão materialista não deixa de ter certa legitimidade, na medida em que um número significativo de cientistas faz questão de afirmar sua adesão ao materialismo, além de dedicar parte de seu tempo à popularização dessa ideia. Entretanto, essa imagem não corresponde exatamente à realidade. Quando analisada mais de perto, ela se revela bastante limitada, além de problemática, na medida em que há também muitos cientistas que se posicionam claramente contra a visão de mundo materialista, demonstrando, assim, a independência entre ciência e materialismo. O objetivo do presente trabalho é desmascarar essa falsa identidade e mostrar como ela tem gerado visões míticas sobre a natureza humana, tomando como exemplo as tentativas mais radicais na neurociência contemporânea de eliminar a autonomia da experiência subjetiva humana. Isso geralmente acontece em três estágios: inicialmente, algumas capacidades, previamente atribuídas aos seres humanos, são agora atribuídas ao cérebro ou a uma parte dele; em seguida, proclama-se uma completa fisicalização da natureza humana em geral, que é assim reduzida a um mero produto da atividade cerebral; finalmente, essa visão materialista é propagada como o resultado inevitável da ciência contemporânea. (...)

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer por que o materialismo não é uma materialismo não é uma teoria propriamente científica. Embora esteja hoje intimamente associado à imagem contemporânea de ciência, ele é, em seu sentido mais geral, uma tese metafísica acerca da natureza última da realidade, que unifica todo o campo da experiência humana, reduzindo-o, em última instância, a algum princípio explicativo derivado (válida ou invalidamente) do conceito de matéria, fornecendo ao final uma visão de mundo. Em outras palavras, o que identifica todo e qualquer defensor do materialismo é sua adesão à tese de que tudo o que existe no mundo é material. No entanto, uma afirmação desse tipo é tão geral e abrangente que jamais pode ser submetida a qualquer teste empírico particular, ultrapassando, portanto, a esfera do conhecimento científico possível. Ora, pelo menos desde a Crítica da Razão Pura, não é mais possível ignorar que a totalidade do mundo é apenas uma ideia racional, mas não um objeto que possa ser dado na experiência. Da mesma forma que a matéria, pensada como condição última da experiência, também não pode ser confundida com nenhum fenômeno empírico particular, pois, nesse caso, ela teria que ser explicada por outra coisa diferente dela. Ou seja, se a matéria é pensada como o fundamento absoluto de toda experiência humana, ela mesma nunca pode aparecer como objeto de nossa experiência, permanecendo, pois, além do alcance do nosso conhecimento científico.


Assim, uma vez que a ciência deve sempre estar solidamente amparada em evidências empíricas, nenhuma teoria científica, por mais bem estabelecida que esteja, pode implicar o materialismo. E é exatamente por isso que não podemos confundi-lo com uma teoria científica nem tratá-lo como se fosse uma. Logo, a expressão 'materialismo científico' pode servir no máximo para designar a posição ideológica ou o status profissional de seus adeptos (cientistas), mas de forma alguma ela significa que o que eles estão propondo seja uma teoria científica. Desfeita essa confusão, deve ficar claro que a legitimidade da ciência não depende da adesão do cientista à visão de mundo materialista, mas somente de seu compromisso com a lógica e a metodologia científica. Assim, tudo o que a ciência pode fazer é descobrir a existência de fenômenos e de suas relações, mas jamais a essência e a natureza última da realidade, já que estas últimas não podem ser dadas no nível empírico, requerendo, portanto, um conhecimento de outro tipo. Além disso, embora a prática científica possa estar atrelada a uma visão de mundo – como demonstram os estudos de Flecke Kuhn, a ciência é uma atividade epistêmica em constante desenvolvimento, de forma que sua cristalização em uma visão de mundo seria contrária à sua própria natureza. Em suma, ciência e materialismo são coisas distintas, que só por um deslize conceitual podem ser tratadas como idênticas. (...)


Nas últimas décadas, temos presenciado um renovado interesse pelo materialismo. Um bom indicador disso é o número crescente de publicações acadêmicas recentes sobre o tema, que têm procurado mostrar tanto suas origens quanto sua atualidade. Além disso, no próprio campo da filosofia da mente – disciplina que lida mais especificamente com o problema mente-cérebro – há várias tentativas recentes de explicar a mente humana em termos materialistas. Isso para não falar nos recentes "manifestos" em defesa do materialismo, que cumprem um papel cultural mais amplo, ao apelarem para a completa conversão do leitor ao ateísmo. Isso torna, a meu ver, extremamente problemática a tese de um enfraquecimento do materialismo. Mais especificamente, o que temos assistido é uma verdadeira onda de entusiasmo epistêmico motivado pelo contínuo e notável avanço das neurociências, em particular das novas tecnologias de neuroimagem. Por toda a parte, dentro e fora das universidades, surgem novos núcleos de estudo e/ou pesquisa dos processos cerebrais. A essa aposta na investigação do cérebro subjaz um otimismo explícito, que vê em um futuro não muito distante a solução de vários problemas concernentes à natureza humana. Basta aqui relembrarmos o entusiasmo com que foram anunciados e celebrados nos Estados Unidos, com recepção favorável em grande parte da comunidade científica internacional, o início da chamada "década do cérebro" (1990-1999) e suas promessas para as áreas da filosofia, da psicologia e da psiquiatria (...).

Ao investigarmos, contudo, o fundamento de todo esse otimismo, constatamos que ele se baseia primeiramente em uma insatisfação generalizada com toda forma de linguagem psicológica tradicional (mente, crença, vontade, intenção etc.), que esses autores atribuem à ingenuidade da nossa tradição dualista e religiosa ocidental. Eles argumentam que o senso comum já criou ilusões que foram posteriormente corrigidas pelo progresso científico (por exemplo, o caso das bruxas), e que isso vai igualmente acontecer em relação ao conhecimento da natureza humana com o avanço da neurociência, que se mostrará uma teoria superior (...).

A falta de uma fundamentação sólida para a proposta materialista se torna mais evidente quando passamos a analisar sua relação com o avanço das investigações empíricas. De fato, passadas algumas décadas desde o início desse entusiasmo geral, podemos perguntar então se já temos pelo menos um esboço do que seria essa nova teoria neurocientífica da natureza humana. Apenas a título de ilustração, em uma recente coletânea de entrevistas com alguns dos mais destacados nomes nesta área – incluindo os principais expoentes do materialismo contemporâneo (por exemplo, Crick, Dennett e os Churchlands) –, descobrimos que, depois de 40 anos de pesquisas neurofisiológicas, não temos sequer um vislumbre de como resolver os problemas mais básicos acerca da consciência humana. No entanto, não faltam apostas e opiniões gerais muito vagas, na maior parte das vezes incompatíveis entre si. E quando eles são questionados se ainda vai demorar muito para que a promessa se realize, a resposta mais precisa que recebemos vem da própria Patricia Churchland: "Nós realmente não sabemos quanto tempo teremos que esperar".

Gostaria de explorar esse ponto mais a fundo. Enquanto o futuro sonhado de uma superteoria não chega, o que os materialistas têm a nos oferecer é uma linguagem metafórica, quase ficcional, mediante a qual atribuem ao cérebro ou a partes dele uma série de capacidades e realizações que antes eram atributos da pessoa humana como um todo. Surge, assim, a "surpreendente hipótese" (the astonishing hypothesis) de que somos apenas um pacote de neurônios ou o somatório do comportamento de neurônios e suas moléculas. Surgem, também, ideias como "o cérebro emocional", "o cérebro volitivo", "o cérebro executivo", "o cérebro crente", "o cérebro que modifica a si mesmo", etc. (...) Descobrimos então, não sem um certo espanto, que o auge do nosso progresso científico consiste na substituição da noção de sujeito pela de hemisfério ou área cerebral. Quem agora "conhece", "faz avaliações", "interpreta", "cria", "procura explicações" etc. não é mais uma pessoa, mas sim um pedaço de matéria (parte do cérebro). Acontece que a utilização dessas metáforas encantadas, tomadas como explicações reais dos fenômenos, produz o resultado oposto do que era prometido, a saber, uma explicação científica. Afinal, não devemos esquecer que analogias e metáforas só são válidas quando, ao lado das semelhanças detectadas, também as diferenças são ressaltadas. Caso essas últimas desapareçam, então a relação passa a ser de identidade e não mais de analogia. Como procurei argumentar anteriormente, a atribuição real de propriedades e capacidades psicológicas a objetos físicos é característica de um estágio bem primitivo da inteligência humana, a saber, o animismo, que todo materialista diz querer combater. E o que é pior, isso representa um retorno a uma metafísica muito menos crítica e ainda mais ingênua do que a que eles pretendem superar. Trata-se aqui, portanto, de pseudoexplicações, que de modo algum respondem às questões fundamentais, e cuja função é, mais uma vez, meramente retórica. (...)

Os materialistas contemporâneos, ao anunciarem suas ideias como uma grande novidade, repetem estratégias discursivas e formas de raciocínio muito semelhantes às de seus correligionários do passado, sem que tenham consciência disso. E mesmo que não haja uniformidade ou consenso entre eles sobre o que seja precisamente o cérebro, como nos mostra a historiografia recente da neurociência, é essa atitude geral em relação a ele – assim como a fragilidade dos argumentos e a falta de dados empíricos para apoiá-la – que tem sido repetida, e que eu quero aqui enfatizar. É como se todo o período de nossa história intelectual que vai da segunda metade do século XVIII até o fim do século XIX fosse colocado entre parêntesis, para que essa nova aurora materialista possa soar como algo realmente novo. Na verdade, porém, trata-se apenas de uma nova roupagem para velhas esperanças, que acabaram se convertendo em um artigo de fé. É este fenômeno cíclico, que aparece em nossa cultura nos últimos 300 anos, que estou chamando de "o eterno retorno do materialismo". 

Cabe, contudo, perguntar: haveria um sentido nesse eterno retorno? Num primeiro momento, podemos entendê-lo apenas como uma ingenuidade teórico-conceitual, oriunda do desprezo ou desconhecimento em relação à própria história da ciência e da filosofia. Mas nossa tese é a de que ele revela uma significação mais profunda, que diz respeito a uma falta de atenção para os limites epistêmicos do ser humano. Ou seja, o que todos os materialistas estão tentando, pelo menos desde o século XVIII, é eliminar a autonomia da dimensão subjetiva da experiência humana, reduzindo-a ou reformulando-a em termos da dimensão objetiva das ciências naturais. Na linguagem da filosofia da mente contemporânea, trata-se de explicar a experiência de 1ª pessoa através do relato de 3ª pessoa, fato este que tem se revelado sistematicamente fracassado. Ora, a abstração do sujeito nas ciências naturais é apenas um recurso metodológico, útil para a elaboração de teorias físicas precisas, mas de forma alguma uma prova de sua não existência ou de sua irrelevância para a compreensão da natureza humana. É como se dois zoólogos, nadando em um lago infestado de crocodilos famintos, acreditassem que ao parar de falar de crocodilos estariam eliminando o perigo iminente de serem devorados por estes. E é exatamente essa tentativa dos materialistas de eliminar a autonomia da esfera subjetiva que tem se mostrado fracassada ao longo do tempo. Nesse sentido, o eterno retorno do materialismo representa um eterno esquecimento, por parte de cientistas e filósofos, dos limites do conhecimento humano, não exatamente de seu conteúdo empírico, mas sim de suas condições universais. Ora, a perspectiva do sujeito da experiência parece não poder ser eliminada ou traduzida em uma linguagem puramente objetiva, embora possa ser correlacionada a esta última. Nesse caso, de nada adiantaria o acúmulo de novos dados empíricos para resolver os impasses e os paradoxos do materialismo contemporâneo. Isso nos permite suspeitar que a nova visão da natureza humana que os materialistas querem alcançar talvez seja utópica e ilusória, já que os limites das condições de nosso conhecimento científico permanecem inalterados.

Para finalizar minha reflexão, gostaria de explorar a relação entre ciência contemporânea e a criação de ideologias. Em primeiro lugar, é importante reafirmar que o materialismo não é uma consequência lógica e inevitável das pesquisas científicas. Se assim fosse, não poderia haver cientistas antimaterialistas. De fato, porém, muitos cientistas, desde o século XIX, vêm apontando os impasses da perspectiva materialista e sua impossibilidade de solução. Além disso, muitos neurocientistas contemporâneos de grande prestígio são antimaterialistas. Em segundo lugar, a exaltação e/ou reprodução ingênua e irrefletida de um falso ideal de ciência acaba levando à criação de mitos, que obstruem a compreensão do que seja realmente a atividade científica e de como ela se desenvolveu historicamente. E é nesse contexto de uma assimilação acrítica da ciência contemporânea que corremos o risco de aceitar uma ideologia (cientificismo, materialismo científico) como se fosse um produto científico genuíno, e de participar de uma cruzada ideológica sem saber que se trata de uma. Ora, se a ciência tem uma função primordial, ela consiste na promoção do exame crítico da realidade, mas não na criação de histórias fantásticas e mitos alienantes. E se não podemos encontrar respostas definitivas para certas perguntas que temos levantado sistematicamente ao longo dos tempos, isso talvez aponte para certos limites de nosso conhecimento, o que nos obriga a recordar permanentemente os obstáculos que persistem, para não corrermos o risco de cair em novas formas de dogmatismo. Sendo assim, se a metafísica dualista é um resquício de nossa ingenuidade teórica e de nossa ignorância epistêmica, por que deveríamos considerar menos ingênua uma corrente de pensamento que atribui propriedades mágicas ao cérebro, transformando-o assim em um novo fetiche? No discurso neurocientífico contemporâneo, parece realmente haver menos ciência do que normalmente se imagina.

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