quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O Human Brain Project (HBP) e suas promessas

No dia 24 de Julho, a revista The Atlantic publicou um excelente artigo do jornalista científico Ed Yong denominado "The Human Brain Project Hasn’t Lived Up to Its Promise". Segue a tradução que fiz desse texto, cuja versão original pode ser lida aqui. Aliás, este é o terceiro artigo de Yong que traduzo para este blog - os demais podem ser lidos aqui e aqui.

No dia 22 de julho de 2009, o neurocientista Henry Markram entrou no palco da conferência TEDGlobal em Oxford, na Inglaterra, e disse ao público que ele iria simular o cérebro humano, com toda a sua complexidade, em um computador. Seus objetivos eram elevados: "Talvez seja para entender a percepção, compreender a realidade e talvez até entender a realidade física". Sua linha do tempo era ambiciosa: "Podemos fazê-lo dentro de 10 anos e, se conseguirmos, enviaremos para o TED, em 10 anos, um holograma para falar com você”. Se o meme do cérebro galáctico existisse naquele momento, teria sido um ótimo momento para invocá-lo.

Faz exatamente 10 anos. Ele não obteve sucesso.

Pode-se argumentar que a natureza dos pioneiros é mirar longe e falar muito, e que é grosseiro destacar qualquer previsão falha quando a ciência está tão cheia delas. (os escritores de ciência brincam que os medicamentos e as tecnologias inovadoras parecem estar sempre entre cinco e dez anos de distância) Mas vale a pena revisitar as alegações de Markram por duas razões. Em primeiro lugar, as apostas eram enormes: em 2013, a Comissão Européia concedeu à sua iniciativa - o Human Brain Project (HBP) - uma assombrosa quantia de 1 bilhão de euros (valendo cerca de 1,42 bilhão de dólares na época). Em segundo lugar, os esforços do HBP e a intensa reação negativa ao projeto expuseram importantes divisões na maneira como os neurocientistas pensam sobre o cérebro e como ele deve ser estudado.

O objetivo de Markram não era criar uma versão simplificada do cérebro, mas um fac-símile gloriosamente complexo, com os neurônios constituintes, a atividade elétrica que os percorre e até mesmo os genes ligando e desligando dentro deles. Desde o início, a crítica a essa abordagem era muito difundida e, para muitos outros neurocientistas, sua estratégia de baixo para cima [bottom-up strategy] parecia implausível no limite do absurdo. As complexidades do cérebro - como os neurônios se conectam e cooperam, como as memórias se formam, como as decisões são tomadas - são mais desconhecidas do que conhecidas, e não poderiam ser decifradas em detalhes suficientes em apenas uma década. Se já é difícil mapear e simular os 302 neurônios da lombriga C. elegans, imagine só os 86 bilhões de neurônios dentro de nossos crânios. "As pessoas pensaram que era irrealista e pouco razoável como objetivo", diz a neurocientista Grace Lindsay, que está escrevendo um livro sobre a modelagem do cérebro. 

E qual foi o objetivo? O HBP não estava tentando abordar qualquer questão de pesquisa em particular, ou testar uma hipótese específica sobre como o cérebro funciona. A simulação parecia um fim em si mesma - uma resposta da superengenharia para uma pergunta inexistente, uma ferramenta em busca de um uso. Quando o Blue Brain Project, um empreendimento relacionado que Markram fundou, lançou uma simulação de 30 mil neurônios de ratos em 2015 - apenas 0,15% do minúsculo cérebro do roedor -, os críticos apontaram para esta simulação como um enorme esforço que não revelou nada de novo. Mesmo que se pudesse fazer o mesmo com o cérebro humano, por que isso deveria ocorrer? "Agora você tem um cérebro em um computador e antes você tinha um cérebro em um crânio", diz Lindsay. "E daí?"

Markram explicou que, ao contrário do que disse no TED Talk [em 2009], ele nunca pretendeu que a simulação fizesse muita coisa. Ele não queria fazer uma inteligência artificial nem passar no teste de Turing. Em vez disso, ele concebeu seu projeto como um banco de testes experimental [experimental test bed] - uma maneira de os cientistas testarem suas hipóteses sem ter que cutucar a cabeça de um animal. “Isso seria incrivelmente valioso”, diz Lindsay, mas é baseado em lógica circular. Uma simulação pode permitir que os pesquisadores testem idéias sobre o cérebro, mas essas idéias já teriam que estar muito avançadas para se submeter à simulação. “Uma vez que a neurociência estivesse 'concluída', deveríamos ser capazes de fazer tal simulação, mas ter isso como um passo intermediário parece difícil.”

“Não é óbvio para mim o que a natureza de grande escala da simulação realizaria”, acrescenta Anne Churchland, do Cold Spring Harbor Laboratory. Sua equipe, por exemplo, simula redes de neurônios para estudar como os cérebros combinam informações visuais e auditivas. "Eu poderia implementar isso com centenas de milhares de neurônios, e não está claro o que eu obteria se tivesse 70 bilhões."

Em um artigo recente intitulado “O Caso Científico das Simulações Cerebrais”, vários cientistas do HBP argumentaram que grandes simulações “provavelmente serão indispensáveis ​​para aproximar as escalas entre o nível do neurônios e o nível dos sistemas no cérebro”. Em outras palavras: os cientistas podem olhar para o porcas e parafusos de como os neurônios funcionam, e eles podem estudar o comportamento de organismos inteiros, mas eles precisam de simulações para mostrar como o primeiro cria o segundo. Os autores do artigo fizeram uma comparação com as previsões do tempo, em que uma compreensão da física e da química na escala dos bairros nos permite prever com precisão a temperatura, as chuvas e o vento em todo o mundo.

A analogia não funciona, diz Adrienne Fairhall, neurocientista da Universidade de Washington, com formação em física. Sim, simulações em larga escala são úteis para entender o clima e as galáxias, mas “os sistemas planetários não dizem respeito a nada além de si mesmos”, diz ela. “Um cérebro é construído para ser sobre outras coisas.” Isto é: ele absorve informações do mundo e move corpos humanos e animais, que então influenciam esse mundo. Quanto nós realmente aprenderíamos com um cérebro desencorporado em um jarro virtual, que não está conectado a olhos, ouvidos ou membros? "Você poderia pegar um pedaço de tecido e analisar toda sua parte física, mas não chegaria ao que realmente importa", diz Fairhall. “Biologia é tipo de coisa que tem significado. Simular um tecido é factível, não faz nenhum sentido”.

O HBP, então, está em uma posição muito estranha, criticado por ser simultaneamente grandioso e estreito demais. Nenhum dos céticos com quem eu falei estava descartando a ideia de simular partes do cérebro, mas todos sentiam que tais esforços deveriam ser conduzidos por questões de pesquisa reais. Por exemplo, Xiao-Jing Wang, da Universidade de Nova York, construiu modelos que mostram como os neurônios, se conectados de uma certa maneira, podem manter a atividade elétrica mesmo se não estiverem sendo estimulados - a essência do que chamamos de memória de trabalho, ou a capacidade de manter pensamentos. Enquanto isso, Chris Eliasmith, da Universidade de Waterloo, construiu um modelo chamado Spaun, que usa um conjunto simplificado de 2,5 milhões de neurônios virtuais para realizar cálculos aritméticos simples e resolver problemas básicos de raciocínio.

Incontáveis projetos desse tipo poderiam ter sido financiados com o dinheiro canalizado para o HBP, o que explica muito do furor em torno do projeto. Em 2014, cerca de 800 neurocientistas escreveram uma carta aberta à Comissão Européia dizendo que “o HBP não é um projeto bem concebido ou implementado e que não é adequado para ser a peça central da neurociência européia.” Um ano depois, um comitê de mediação concordou com os críticos, pedindo ao HBP para reorientar seus esforços “para um número menor de atividades adequadamente priorizadas” e reestruturar sua estrutura administrativa pouco ortodoxa .

O HBP concordou. E efetivamente se redefiniu como um projeto de software que faz a curadoria de dados existentes sobre o cérebro, fornece ferramentas para pesquisar esses dados e desenvolve simuladores que permitirão a outros projetos construir seus próprios modelos. E com o grande bolo de financiamento previsto para expirar em 2023, o artigo recente da equipe parece um pedido por mais investimento. “O desenvolvimento de simuladores cerebrais de alta qualidade requer um comprometimento de recursos a longo prazo”, escreveram eles.

É notável, todavia, que as pessoas que eu entrei em contato tenham se esforçado para nomear uma grande contribuição que o HBP fez na última década. Isso não quer dizer que tais contribuições não existam. É mais que elas não viram um retorno proporcional ao orçamento empregado no projeto, ou talvez que o HBP ainda tenha que ganhar de volta a confiança de uma comunidade que foi alienada pela publicidade exagerada [no original: hype].

Markram parece irredutível. Em um artigo recente, ele e seu colega Xue Fan situaram firmemente as simulações cerebrais dentro não apenas do campo da neurociência, mas de todo o arco da filosofia ocidental e da civilização humana. E em um comunicado por e-mail, ele me disse: “A resistência política (não científica) ao projeto realmente nos desacelerou consideravelmente, mas não nos impediu nem o fará.” Ele apontou ainda para a o fato de 140 pessoas ainda trabalharem no Blue Brain Project, para um conjunto recente de publicações positivas de cinco revisores externos e também para sua "exponenciamente crescente" capacidade para "construir modelos biologicamente precisos de regiões do cérebro cada vez maiores".

Ele não aponta nenhum prazo, desta vez, mas não há escassez de outras pessoas prontas para fazer alegações extravagantes sobre o futuro da neurociência. Em 2014, participei da principal conferência do TED em Vancouver e assisti à palestra de abertura do fundador do MIT Media Lab, Nicholas Negroponte. Em suas palavras finais, ele afirmou que em 30 anos “vamos ingerir informações. Você vai engolir uma pílula e aprender inglês. Você vai engolir uma pílula e aprender Shakespeare. E isso se dará pela corrente sanguínea. E, uma vez na corrente sanguínea, basicamente ela vai para o cérebro, e quando ela souber que está no cérebro, nas diferentes partes, vai depositá-lo no lugar certo”.

Sobre o meu ombro esquerdo, uma voz abafada sussurrou: "Uau".

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Um breve guia para a obra de Antônio Damásio

Antônio Damásio é um neurologista e neurocientista português, nascido em Lisboa em 1944, que atua como professor e pesquisador na Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. É autor de cinco importantes livros - O erro de Descartes (1994), O mistério da Consciência (1999), Em busca de Espinosa (2003), E o cérebro criou o homem (2010) e A estranha ordem das coisas (2018) - além de inúmeros artigos científicos, vários em parceria com sua esposa Hanna Damásio, que também é médica e neurocientista e atua como professora do Instituto Salk, em La Jolla, Califórnia. Todos os seus livros se propõem a aproximar neurologia, neurociências e filosofia com o propósito de desenvolver teorias e hipóteses que expliquem o funcionamento geral do organismo, não apenas de seu cérebro. Em toda sua obra Damásio defende a importância de se levar em conta o funcionamento do organismo como um todo para se entender os pensamentos, sentimentos e comportamentos humanos. O autor aponta sempre para a complexa interação entre mente, cérebro, corpo e ambiente. Não é possível nem desejável, segundo Damásio, entender a mente e o cérebro separados do corpo e do ambiente. E isto  o leva, por sua vez, a sempre se colocar de forma crítica à toda forma de reducionismo, inclusive ao reducionismo neurocientífico. Em uma entrevista concedida ao jornal O Globo ele chegou a afirmar: 

 "O sucesso da neurociência faz com que muitos caiam em explicações simplistas. Tudo que tem relação com o cérebro é complexo, e por isso os neurocientistas devem se explicar mais, sempre. O reducionismo traz muitos riscos. Há quem acredite que podemos resolver a dor e a tristeza só tomando pílulas, o que é ridículo. Medicamentos não são a única solução. Estamos imersos em afetos, relações sociais, a justiça, a política, a economia. Não se pode isolar o cérebro disso tudo. Não é vantajoso neurologizar todos os problemas que temos".  

Esta fala sinaliza e demonstra que 'projeto' de Damásio é ambicioso: compreender e explicar a relação da mente com o sistema nervoso (que inclui o cérebro), do sistema nervoso com o resto do corpo e do organismo como um todo com o meio em que ele está inserido. Em especial, Damásio dedica seus escritos à investigação de três fenômenos que revelam esta complexa interação mente-corpo-ambiente: as emoções, os sentimentos e a consciência. Seus livros O erro de Descartes e Em busca de Espinosa se focam no tema das emoções e dos sentimentos; já as obras O mistério da consciência e E o cérebro criou o homem se dedicam ao tema da consciência (mas sem ignorar as emoções e sentimentos já que, para ele, tais fenômenos são uma parte fundamental da consciência); finalmente, em sua obra mais recente (e mais ambiciosa), A estranha ordem das coisas, Damásio entrelaça estes três fenômenos conectando-os ao processo mais geral da homeostase - pretendendo, com isso, compreender as bases biológicas ou naturais dos fenômenos culturais. Cabe apontar, contudo, que por mais que pretenda fugir de todos os reducionismos, o autor acaba por dar muito mais atenção ao cérebro e à relação deste com o restante do corpo (reforçando, assim, o chamado dualismo cérebro-corpo) do que à interação entre o organismo e os ambientes físico e social. 

Antes de fazer uma breve apresentação das obras de Damásio, gostaria de tecer algumas breves considerações sobre o estilo de escrita do autor. Ao contrário de escritores como Oliver Sacks (sobre quem já escrevi um breve guia) e de divulgadores científicos como David Eagleman, Sam Kean e Steven Johnson - e eu poderia citar muitos outros -, Damásio tem muito pouco talento para a popularização científica. A leitura de seus livros, em grande medida, não é nada fácil, fluida nem tampouco divertida. Embora eles sejam comumente entendidos como livros de divulgação científica eu os enxergo como livros de ciência e/ou filosofia, voltados para cientistas e filósofos ou, ao menos, para pessoas com um conhecimento mediano destas áreas. Alguém totalmente leigo provavelmente terá muita dificuldade em entender e acompanhar suas reflexões, às vezes (muitas vezes) terrivelmente abstratas. Para piorar, Damásio tem um estilo que eu não teria outra palavra para descrever a não ser... chato. É claro que existem momentos interessantes e inspirados em seus livros, mas, analisando sua obra como um todo - e eu li (ou reli) atentamente cada uma de suas linhas ao longo do último ano - penso que ele "enche linguiça" demais, é um tanto pedante e se repete mais do que seria necessário (em cada obra e ao longo de suas obras). Creio que ele poderia, de uma forma geral, ser um pouco mais conciso e mais claro na forma como expressa suas ideias. De toda forma, apesar destes "poréns" considero a obra de Damásio muito relevante especialmente devido à sua visão "holística", que pressupõe uma integração constante e dinâmica entre mente, cérebro, corpo e ambiente. Em especial, considero muito interessante e pertinente o entendimento do autor de que o corpo - e não somente o cérebro - é o alicerce da mente, o que significa dizer a mente não poderia jamais existir sem um corpo. Na contramão, portanto, de cientistas transumanistas que acreditam na possibilidade de transferência da mente para um dispositivo digital - o chamado upload mental, que analisei em detalhes no post Em busca da imortalidade da mente - para Damásio não faz sentido imaginar a mente separada do corpo. Como bem afirma em seu último livro, ao resumir um pensamento presente em todos os seus livros anteriores, "não existe mente sem corpo. Nosso organismo contém um corpo, um sistema nervoso e uma mente, que é derivada de ambos".

Tendo tudo isso em vista, segue abaixo uma breve apresentação de cada um dos livros do autor.


O ERRO DE DESCARTES:
EMOÇÃO, RAZÃO E CÉREBRO HUMANO (1994)
Título original: Descartes' error 

Em seu primeiro e mais famoso livro, muito lido e pouco compreendido, Damásio formula e defende a hipótese de que "a emoção é um componente central da maquinaria da razão". O autor não pretende com isso dizer que as emoções tomam as decisões por nós ou que não somos seres racionais. Sua ideia é mais simples: "limito-me a sugerir que certos aspectos do processo da emoção e do sentimento são indispensáveis para a racionalidade". E para investigar tal hipótese, Damásio utiliza como método principal a análise clínica e experimental de doentes neurológicos. Outra ideia importante do livro é o entendimento de que "a essência de um sentimento (o processo de viver uma emoção) não é uma qualidade mental ilusória associada a um objeto, mas sim a percepção direta de uma paisagem específica: a paisagem do corpo". Isto significa, para o autor, que "os sentimentos não são tão intangíveis quanto se supunha" e que se relacionam diretamente com o cérebro (e, dentro deste, não somente com o sistema limbico, mas também com os córtices pré-frontais) e com o restante do corpo. Os sentimentos, para ele, são como percepções dos "estados do corpo" – e, portanto, atuam como guias internos (ou termômetros) da situação atual do organismo. Outra ideia importante defendida pelo autor é que os circuitos cerebrais envolvidos em processos racionais estão diretamente relacionados a circuitos envolvidos em processos emocionais. Segundo Damásio há uma forte ligação entre, por exemplo, o córtex frontal – relacionado, dentre outras coisas, aos processos de tomada de decisão – e o sistema límbico, envolvido no processamento das emoções e sentimentos. E isto apontaria, segundo o autor, para uma intrínseca e inescapável relação entre razão e emoção. Segundo Damásio não é possível pensar em escolhas puramente racionais; toda escolha é necessariamente racional e emocional, ao mesmo tempo. Sua hipótese do marcador somático se relaciona a este entendimento. Por fim, cabe apontar que sua crítica ao dualismo mente-cérebro defendido pelo filósofo francês René Descartes (1596-1650) está baseada em uma visão equivocada da teoria do filósofo – que defende um entendimento interacionista da relação entre mente e cérebro (sendo a glândula pineal o órgão de contato entre os dois). Além disso, por mais que tente superar todos os dualismos, Damásio não só não consegue se desvencilhar do dualismo mente-cérebro como sistematicamente reforça o dualismo cérebro-corpo. Saiba mais no texto O acerto de Descartes.

O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA: 
DO CORPO E DAS EMOÇÕES AO CONHECIMENTO DE SI (1999)
Título original: The feeling of what happens: body and emotion in making of consciousness [O sentimento do que acontece: corpo e emoção na construção da consciência]

Em seu segundo livro, publicado cinco anos após o primeiro, Damásio analisa em detalhes o chamado "problema da consciência". Partindo de uma definição simples mas interessante de consciência - "a percepção que um organismo tem de si mesmo e do que o cerca" - o autor investiga o fenômeno tendo como ponto de partida inúmeros casos clínicos de pessoas com lesões ou disfunções no funcionamento cerebral. Segundo Damásio a consciência diz respeito a um fenômeno privado, isto é, que somente a própria pessoa tem acesso, e que faz parte de outro processo privado que denominamos mente. A consciência é, assim, uma característica ou um ingrediente da mente - o que significa dizer que a mente pode, eventualmente, ocorrer sem consciência, como em algumas síndromes neurológicas. Logo no início da obra Damásio busca diferenciar dois "problemas da consciência": o primeiro consiste em entender como obtemos o que o autor chama de "filme no cérebro", isto é, as imagens mentais que temos quando estamos conscientes; já o segundo problema diz respeito à forma como o cérebro cria "um sentido de self no ato de conhecer", o que significa questionar de que forma ocorre a autoconsciência. O autor aponta, nesse sentido, para a existência de duas formas de consciência: uma forma simples, chamada de "consciência central" - que fornece ao organismo a percepção do mundo ao seu redor - e uma forma complexa, chamada de "consciência ampliada" - que fornece ao organismo a sensação de ter uma identidade própria. Damásio voltará a esta tipologia outras vezes em sua obra posterior, tentando sempre articular especulações filosóficas e hipóteses científicas com o resultado de pesquisas sobre as bases cerebrais para estas duas formas de consciência.

EM BUSCA DE ESPINOSA:
PRAZER E DOR NA CIÊNCIA DOS SENTIMENTOS (2003)
Título original: Looking for Spinoza: joy, sorrow and the feeling brain [Em busca de Espinosa: prazer, sofrimento e o cérebro que sente]  - Obra esgotada no Brasil

Em sua terceira obra, publicada quatro anos após a anterior, Damásio volta a explorar o tema dos sentimentos. Para tanto, assim como fez em seu primeiro livro, o autor toma como ponto de partida a obra de um filósofo, desta vez o filósofo holandês Baruch Espinosa (1632-1677). Só que ao contrário de O erro de Descartes, no qual Damásio questiona e tenta se afastar das ideias do filósofo francês, desta vez o autor se aproxima e se identifica com Espinosa. Na verdade, Damásio vê na obra deste filósofo um prenúncio de suas próprias ideias sobre a relação mente-cérebro-corpo. Em especial, o neurocientista se interessa pela visão monista de Espinosa que considerava mente e corpo como propriedades de uma mesma substância - e não substâncias diferentes, como propunha o dualista Descartes. Ao longo de todo o livro, Damásio resgata e refina grande parte da teoria das emoções e dos sentimentos que já havia proposto em seu primeiro livro, além de discutir o problema mente-cérebro a partir da obra de Espinosa. Na minha visão, o autor traz poucas novidades nesta obra, que considero a mais fraca de sua carreira. O único aspecto "inovador" da obra é sua interpretação do enigmático pensamento de Espinosa à luz dos conhecimentos da neurobiologia contemporânea. De resto, nada novo sob o sol.

E O CÉREBRO CRIOU O HOMEM (2010)
Título original: The self comes to mind: constructing the conscious brain [O "eu" vem à mente: construindo o cérebro consciente]

Em sua quarta obra, publicada sete anos após a anterior, Damásio retorna ao "problema da consciência", trazendo os mesmos temas, discussões e teorias já extensamente analisados em suas obras anteriores. Com um título em português que não faz jus ao objetivo geral da obra, este livro, como o anterior, traz pouca novidade para a teoria geral de Damásio, acrescentando apenas alguns resultados de pesquisa e algumas discussões específicas. De uma forma geral seu objetivo continua sendo compreender de que forma mente, cérebro e restante do corpo se articulam para "construir" a consciência - e de que maneira as emoções e os sentimentos contribuem pra isso. As principais perguntas que guiam  suas reflexões nesse livro são: 1) como o cérebro constrói a mente? e 2) como o cérebro toma essa mente consciente - o que pode ser resumido em apenas uma questão: como o cérebro "constrói" a mente consciente? Logo no primeiro capítulo ele deixa claro a natureza hipotética e especulativa de suas respostas para estas questões. Afirma Damásio: "o objetivo deste livro é refletir sobre as conjunturas e discutir um conjunto de hipóteses". E dentre todas as conjunturas e hipóteses que ele articula ao longo do livro - em geral de maneira muito abstrata e confusa - eu destacaria a visão dinâmica do funcionamento cerebral defendida por Damásio, oposta à disseminada perspectiva localizacionista (que identifica cada função mental a um local específico do cérebro). Especificamente sobre as bases cerebrais da consciência, ele afirma, em certo momento, que "nenhum mecanismo isolado explica a consciência no cérebro, nenhum dispositivo, nenhuma região, característica ou truque pode produzí-la sem ajuda, do mesmo modo que uma sinfonia não pode ser tocada por um só músico, e nem mesmo por alguns poucos. Muitos são necessários. A contribuição de cada um é importante. Mas só o conjunto produz o resultado que procuramos explicar". Além disso, Damásio traz e analisa, mais uma vez, o fenômeno da consciência (e também das emoções e sentimentos) à luz do fenômeno mais geral da homeostase. Em seu próximo livro, ele trará a homeostase para o centro da discussão.
  
A ESTRANHA ORDEM DAS COISAS: AS ORIGENS BIOLÓGICAS DOS SENTIMENTOS E DA CULTURA (2018)
Título original: The strange order of things: life, feeling and the making of cultures [A estranha ordem das coisas: vida, sentimento e a construção das culturas]

Em sua quinta obra, lançada oito anos após a anterior, Damásio se propõe a analisar a importância da homeostase para o entendimento dos fenômenos cerebrais, mentais e culturais. De acordo com o autor, a homeostase "é o conjunto fundamental de operações no cerne da vida, desde seu início mais antigo até o presente. É o imperativo poderoso, impensado, tácito, cujo cumprimento permite, a cada organismo vivo, pequeno ou grande, nada menos que perdurar e prevalecer". Trata-se do processo fundamental que permite a manutenção e perpetuação da vida. Em seu entendimento, todos os fenômenos corporais, cerebrais e/ou mentais estão relacionados a este fenômeno na medida em que favorecem (ou não) a vida. Em sua visão, as emoções, os sentimentos e a consciência só existem nos seres humanos porque, de alguma forma, tais fenômenos contribuiram para a manutenção e perpetuação da vida. Na mesma direção, todos os fenômenos sociais teriam como base (ou como condição mínima de existência) a homeostase, o que significa dizer que sem a regulação da vida não haveria vida em sociedade. A ideia de Damásio, embora sofisticada na forma, é muito simples no conteúdo: sem a biologia não haveria cultura, o que significa dizer que para que uma cultura exista é necessário que os seres que a compõem estejam vivos e se perpetuem - e isto só é possível devido à homeostase. Mas o argumento de Damásio vai um pouco além: para que uma cultura floresça são necessários não apenas seres vivos, mas seres vivos com mentes conscientes, emoções e sentimentos. Estes últimos, em especial, são vistos por Damásio como fundamentais para a existência de atividades culturais na medida em que funcionariam como um "termômetro" para o organismo - como afirma o autor, "em circunstâncias comuns, os sentimentos comunicam à mente, sem o uso de palavras, se a direção do processo da vida é boa ou má, em qualquer momento, no respectivo corpo. Ao fazerem isso, eles naturalmente qualificam o processo da vida como condizente ou não ao bem-estar e à prosperidade". A ideia, aparentemente complexa, também é relativamente simples: se nos sentimos bem, nosso organismo está bem; se nos sentimos mal, nosso organismo está mal. Assim, ao contribuírem para uma autoavaliação contínua do organismo, os sentimentos favoreceriam a manutenção e perpetuação da vida e estariam, com isso, na base de todas as atividades culturais humanas - ou, como aponta Damásio, "a atividade cultural começa e permenece profundamente alicerçada em sentimentos".

Saiba mais sobre a vida e obra de Antônio Damásio na reportagem A vida dos sentimentos.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Precisamos falar sobre... coaching

A "indústria do coaching" está mais forte do que nunca. De acordo com uma reportagem da revista Exame além de movimentar, só nos Estados Unidos, mais de 2,3 bilhões de dólares por ano, o coaching tem atraído um número crescente de profissionais. Estima-se que este mercado conte, atualmente, com cerca de 53 mil profissionais em todo o mundo, 4 mil apenas na América Latina. No Brasil não se sabe ao certo o número de "coaches" inseridos no mercado, haja vista a multiplicação descontrolada de cursos de formação, mas acredita-se que tem crescido substancialmente nos últimos anos - e ainda que a quantidade de coaches esteja muito distante, por exemplo, do número de psicólogos (342 mil) e médicos (450 mil) que atuam no país, a atividade tem obtido uma visibilidade crescente, o que contribui tanto  para o aumento da demanda pelos serviços de coaching quanto para a multiplicação de críticas e questionamentos. A novela da Rede Globo O outro lado do Paraíso, por exemplo, fez um merchandising descarado da atividade, bancado pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), e que acabou por tornar a prática ainda mais conhecida no país - mas também rendeu uma nota crítica do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e uma denúncia no Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar). Posteriormente o CFP publicou uma nota orientativa sobre a prática do coaching - afirmando, dentre outras coisas que, "qualquer profissional que não esteja inscrito no CRP, e que se utilizar de métodos e técnicas privativas do psicólogo durante sessões de coaching, ou que desenvolva, de alguma forma, atribuições restritas à Psicologia, estará incorrendo em exercício ilegal da profissão" - e um cidadão sergipano encaminhou à Câmara Federal uma ideia legislativa (absurda, na minha visão) que criminaliza a atividade de coaching - de acordo com ele, “se tornada lei, [a proposta] não permitirá o charlatanismo de muitos autointitulados formados até mesmo sem diploma válido. Não permitindo propagandas enganosas como 'reprogramação do DNA' e 'cura quântica', que desrespeitam o trabalho científico e metódico de terapeutas e outros profissionais das mais variadas áreas". Por outro lado, diversas instituições de coaching e os próprios coaches tem vindo a público defender a seriedade da prática e apontar para as diferenças entre o coaching e outras atividades de apoio e orientação. Ao que tudo indica, esta controvérsia está longe de chegar ao fim.

Mas afinal de contas, o que é esse tal "coaching"? Comecemos pela palavra, coach, que em inglês, significa originalmente carruagem - e que era usada também para se referir ao condutor da carruagem. Posteriormente a palavra foi usada para designar, no contexto universitário, o professor que exercia uma função de tutoria com seus estudantes. Mais a frente, a palavra passou a caracterizar a figura do treinador ou técnico esportivo. No entanto, em sua conotação atual, a expressão "coaching" superou em muito todas essas acepções, passando a designar qualquer atividade de orientação no qual uma pessoa (o "coach") ajuda outra (o "coachee") a obter determinado desempenho ou resultado, pessoal ou profissional. Como os "coaches" repetem à exaustão, o objetivo desse processo é "ajudar a pessoa a sair do ponto A e ir até o ponto B", tal como fazia o condutor de uma carruagem. Inicialmente, o coaching esteve fortemente ligado ao contexto empresarial/corporativo, no entanto, atualmente, a atividade se expandiu para muito além deste universo - o IBC, por exemplo, aponta para 16 tipos de coaching, dos quais destacarei apenas alguns: coaching corporativo, coaching familiar, coaching de relacionamento, coaching espiritual, coaching financeiro, coaching esportivo, coaching nutricional, coaching de liderança, etc. Em comum, todos esses tipos de coaching teriam como objetivo proporcionar aos clientes benefícios amplos como o "desenvolvimento pessoal e profissional", a "elevação da felicidade e realização", a "conquista do autoconhecimento e autodesenvolvimento", a "maximização da performance e dos resultados", o "aumento da produtividade" e muito mais. É possível observar nestes e em outros supostos benefícios da atividade um foco muito grande no "desempenho", na "produtividade", na "performance" e no "sucesso" do sujeito, linguagem que se relaciona fortemente ao contexto corporativo em que a prática teve origem.

Uma grande preocupação das instituições de coaching e dos próprios coaches está em diferenciar a prática de outras atividades de apoio e orientação, como a psicoterapia. Analisemos, por exemplo, a tabela ao lado extraída do livro Coaching executivo, escrito pela coach Rosa Krausz (para ampliar a tabela clique na imagem). Nela é possível observar a diferença apresentada pela autora, e repetida por muitos outros autores, entre a atividade de coaching e outras atividades como o aconselhamento, a mentoria, a consultoria, a terapia e o treinamento - eu focarei minha análise apenas na diferença apontada entre coaching e terapia. Pois bem, na visão da autora a terapia teria como "abrangência" as questões de saúde emocional dos clientes ou pacientes, como "tempo" o passado e como "resultado" o alívio ou a eliminação das causas do mal-estar e das dificuldades sentidas; já o coaching teria como "abrangência" as questões de desempenho, desafios e mudanças específicas dos coachees, como "tempo" o presente e o futuro e como "resultado" a criação de "opções construtivas, viáveis e informadas" que auxiliem o indivíduo a obter determinados resultados - o que significa dizer que o coaching não pretende tratar problemas de saúde mental mas levar o sujeito para além de onde ele se encontrava  anteriormente. Como qualquer psicoterapeuta pode atestar, essa visão da autora está absolutamente equivocada. A atividade de psicoterapia, de uma forma geral, não tem como foco simplesmente o passado, mas também o presente e o futuro imaginado ou desejado pelo paciente. É claro que compreender o passado do sujeito é fundamental, para qualquer abordagem psicoterapêutica, mas isto não significa que o passado seja o foco ou que o presente e o futuro não sejam e não devam ser levados em consideração. Outro equívoco está em dizer que o resultado esperado de uma psicoterapia é o alívio ou a eliminação das causas do mal-estar do paciente. E o motivo é que simplesmente não é possível aliviar ou eliminar as causas de determinado problema. Se uma pessoa foi abusada na infância, por exemplo, e se sente mal com isso no presente, como poderíamos eliminar essa causa? Isso não é possível, pois causas não podem ser eliminadas, apenas "trabalhadas" terapeuticamente. O máximo que podemos fazer é ajudar nosso paciente a encarar o seu passado de uma outra maneira, ressignificando determinados acontecimentos ou vivências, e a agir, no presente, de uma forma diferente. De uma forma bem geral - sem levar em contas as especificidades das inúmeras abordagens psicoterapêuticas - é possível dizer que a psicoterapia tem como objetivo ajudar o paciente a superar ou lidar melhor com seus problemas atuais. Uma importante diferença da proposta do coaching, nesse sentido, é que, em geral, os psicoterapeutas não trabalham com a lógica e a linguagem corporativa. Isto significa que dificilmente um terapeuta atuará tendo como foco e objetivo o "desempenho", a "produtividade", a "performance" e o "sucesso" de seu paciente ou cliente. Certamente, algumas abordagens terapêuticas - como a Terapia Cognitivo-Comportamental - atuam de maneira mais focada e com metas ou objetivos terapêuticos mais claros, no entanto, mesmo em tais abordagens a intenção é proporcionar maior bem-estar (ou menor mal-estar) ao paciente - e nunca, ou muito raramente, maior "produtividade" ou "sucesso". Esse foco e essa linguagem empresarial, em geral, não estão presentes na psicoterapia.

Uma outra diferença entre as duas práticas é que a psicoterapia, ao menos quando praticada por um psicólogo (e cabe salientar que não se trata de uma prática exclusiva deste profissional), está sujeita a fiscalização pelo Conselho Federal de Psicologia e os profissionais podem receber sanções por comportamento equivocado ou anti-ético. Já o coaching não é uma profissão regulamentada, como a psicologia e a medicina, e não possui, portanto, órgãos ou conselhos de fiscalização profissional, e isso certamente favorece atuações equivocadas e pouco embasadas. Isto para não falar dos cursos de formação de coaches, comumente de curta duração, que se multiplicam pelo país sem qualquer controle. Também devido à falta de regulamentação, não há qualquer fiscalização relativa à qualidade de tais cursos, o que igualmente favorece a inserção no mercado de profisionais pouco e mal capacitados e com atuações no mínimo questionáveis. É claro que a formação na área da psicologia, por exemplo, está longe, muito longe, de ser perfeita - eu cheguei a escrever um artigo científico inteiramente dedicado a essa questão - e a atuação profissional de inúmeros psicólogos também deixa muito a desejar, mas a existência de um conselho profissional dedicado a orientar, disciplinar e fiscalizar nossa prática profissional, além de um código de ética unificado, minimiza muito tais problemas - sem o CFP a psicologia estaria ao "deus-dará", como ocorre atualmente com o coaching. Uma saída para esta situação, contrária à absurda proposta de criminalização encaminhada pelo cidadão sergipano, passa pela regulamentação da profissão de coaching. Criminalizar a atividade só fará com que as pessoas que atuam como coaches se tornem, de uma hora para outra, criminosas - e encham ainda mais nossas já cheias e desumanas prisões. Não consigo ver vantagem alguma nisso. Muito mais sensato seria regulamentar o coaching, criando regras bem claras de atuação e também mecanismos de fiscalização da formação e da prática. Como no caso das drogas, penso que não faz sentido lutar para acabar com o coaching. Mesmo que existam incontáveis "abusos" a melhor coisa a fazer é permitir a atuação e regulá-la. Criminalizar - o coaching e o uso de drogas - só piora qualquer situação.

Na minha visão, um grande problema do coaching - mas não só do coaching - é a colcha-de-retalho téorico-prática que embasa a atuação dos profissionais. Como aponta o site do IBC, "Coaching é um processo de desenvolvimento humano, pautado em diversas ciências como: Psicologia, Sociologia, Neurociências, Programação Neurolinguística, e que usa de técnicas da Administração de Empresas, Gestão de Pessoas e do universo dos esportes para apoiar pessoas e empresas no alcance de metas, no desenvolvimento acelerado e, em sua evolução contínua". A ideia parece ser buscar em cada uma dessas abordagens, teorias ou práticas alguns conhecimentos e atividades que possam ser úteis, bater tudo isso no liquidificador e servir ao cliente. O coaching, nesse sentido, se parece muito com a chamada Programação Neurolinguística (PNL), que o IBC afirma "pautar" a atividade. Se você nunca ouviu falar dessa abordagem - ou já ouviu falar mas não entende bem do que se trata - eu explico. A PNL foi desenvolvida na década de 1970, nos Estados Unidos, pelo analista de sistemas Richard Bandler juntamente com  o linguista John Grinder como  uma abordagem  pragmática, composta por um conjunto de técnicas advindas  de  campos diversos,  voltada para a melhoria da comunicação e da aprendizagem e, logo, para o desenvolvimento pessoal. A expressão  Programação Neuroliguistica se refere a supostas ligações entre a experiência interna de  uma pessoa (neuro), a sua linguagem (linguística) e seus padrões de comportamento (programação) e não teria conexão direta com as neurociências e com a computação, embora estas  disciplinas interessassem aos  seus  desenvolvedores. A criação  da PNL  foi influenciada por inúmeras teorias ou abordagens, como a epistemologia  cibernética de Gregory Bateson, a gramática transformacional de Noam  Chomsky, a gestalt-terapia de Fritz Pearls, a abordagem centrada na pessoa de Carl Rogers,  a hipnoterapia Ericksoniana, a psicologia comportamental, dentre outras. No  entanto, apesar (ou  em  decorrência  do  fato) de ter sido influenciada por uma miríade de teorias, a PNL não se constituiu enquanto uma teoria coesa sobre o comportamento humano, mas sim como um conjunto de estratégias (denominado “modelagem”) voltadas para o desenvolvimento pessoal. Como afirmam seus  criadores, “nós não temos nenhuma ideia sobre a natureza‘real’ das coisas e nós não estamos particularmente interessados no que é ‘verdadeiro’. A função da modelagem é chegar a descrições que são úteis”. A PNL, assim, é guiada mais por um interesse pragmático do que por uma teoria geradora coesa, situação idêntica à do coaching, que se constitui como uma espécie de bagunça teórico-prática - ou "mix de recursos e técnicas", como preferem chamar os coaches. A lógica parece ser juntar tudo o que for ou parecer útil para ajudar os clientes a atingir seus objetivos. Se para isto for necessário simplificar ou distorcer determinados conhecimentos - juntando uma xícara de psicologia de botequim, com uma colher de neurobobagem e de blá-blá-blá quântico e uma pitada de "reprogramação de DNA" - tudo bem. O que importa é o resultado, não o embasamento ou a coerência.

Esta falta de embasamento e coerência fica absolutamente clara ao analisarmos a proposta do "neurocoaching", que seria uma espécie de sub-abordagem de coaching baseada na neurociência.  De acordo com os autores do artigo As contribuições da neurociência no processo de coaching, "com a evolução dos estudos a respeito da neurociência veio à tona algumas revelações a respeito do funcionamento do cérebro e os processos que definem os diferentes comportamentos humanos, abrindo assim novos caminhos para o coaching, que quando em conjunto com a neurociência passa a ser chamado de neurocoaching". Segundo os autores, aproximar as técnicas do coaching dos conhecimentos advindos da neurociência tornaria o processo do coaching ainda mais eficaz - de que forma? Em nenhum momento do texto ou de todos os textos que li sobre o tema isso fica claro, assim como não fica claro de que forma os conhecimentos (quais conhecimentos?) da neurociência poderiam ser úteis de alguma forma na prática do coaching. O máximo que encontrei foram afirmações vagas e imprecisas sobre o funcionamento cerebral. Veja por exemplo essa passagem do referido artigo: "a neurociência é capaz de identificar quais os bloqueios e quais dificuldades atrapalham o desenvolvimento de cada indivíduo e, quando trabalhado junto com o coaching pode tornar o processo ainda mais eficiente. Através do neurocoaching adquire-se um novo olhar sobre as dificuldades, onde o foco deixa de ser o problema e sim a solução". Adoraria saber de que forma "a neurociência" seria capaz de identificar os bloqueios e dificuldades do indivíduo. Não há nas referências do artigo uma menção sequer a qualquer artigo ou livro de neurociência que embase qualquer uma destas afirmações vagas sobre o funcionamento cerebral. Mas esta omissão tem um sentido claro. As neurociências e os conhecimentos que elas fornecem não importam; o que importa é que as neurociências aumentam a legitimidade do coaching. Em uma passagem reveladora e extremamente sincera deste artigo os autores apontam: "o fato de incorporar uma ciência ao coaching trouxe mais credibilidade, aumentando assim a aceitação das pessoas com relação a eficácia do processo". Pois é disto que se trata: de usar das ciências - isto é, de um conhecimento extremamente limitado e distorcido das ciências - para aumentar a aceitação das pessoas da prática do coaching. Não digo que esta seja a regra no universo do coaching, mas me parece, pelo que pude observar em inúmeros sites e videos de coaches, que se trata de uma prática bastante comum. Ao se misturar indiscriminadamente discursos, teorias e práticas provenientes das mais diversas áreas do conhecimento (administração, psicologia, neurociências, física quântica, PNL, etc) o resultado pode até ser útil e relevante para algumas pessoas, mas não deixa de ser confuso.

Por fim, gostaria de tratar do aspecto mais problemático do discurso (e da prática) dos coaches, que é a forte conexão entre as ideologias da meritocracia e do pensamento positivo. Com relação à lógica meritocrática, que estabelece que o  "sucesso" do indivíduo depende exclusivamente seu próprio esforço e força de vontade, trata-se de uma ideologia extremamente danosa na medida em que desconsidera inúmeros outros fatores (econômicos, sociais, etc) que afetam o desempenho e  possibilidade de ascensão social do sujeito. Junte a essa lógica a ideia de que "basta pensar positivamente para conseguir o que se quer" e temos um discurso que, em última instância, culpabiliza apenas os indivíduos pelo próprio "fracasso": se eles não "chegaram lá" - e estão desempregados, por exemplo - isto ocorreu exclusivamente porque não se esforçaram o suficiente e/ou se deixaram levar por pensamentos negativos. Sem dúvida alguma, este pensamento individualista também está presente na teoria e na prática psicológicas, especialmente na área clínica, mas na área do coaching, assim como em toda literatura de auto-ajuda, tais ideologias são hegemônicas. Basta acessar os sites das principais instituições, associações ou sociedades de coaching para encontrar artigos embebidos de tais ideologias como Ser lider é meritocracia, Como implantar o conceito de meritocracia nas empresas?, Pensamentos positivos e sucesso, Como a força do pensamento positivo pode ajudar sua carreira?, etc. Em todos estes materiais, e em muitos outros, é possível observar um discurso que isola o indivíduo da sociedade, tratando-o como uma ilha, e o responsabiliza totalmente pelo próprio "sucesso" ou "fracasso". Mas - você pode estar se perguntando - qual a alternativa a este discurso? A saída seria, então, abandonar a crença no esforço pessoal e apenas desistir de atingir determinados objetivos pessoais e profissionais? É claro que não! Cada indivíduo pode estabelecer os objetivos que quiser para a própria vida e correr atrás para atingi-los - e pode até mesmo procurar um coach ou um psicólogo para ajudá-lo nesse processo. O que não podemos fazer, enquanto sociedade, é deixar os indivíduos por sua própria conta, culpabilizando e abandonando aqueles que não "chegaram lá" - e também aqueles que partem de condições desvantajosas de existência. Enquanto sociedade, precisamos compreender que existem inúmeros fatores econômicos e sociais que interferem fortemente no acesso, na permanência e na ascensão dos indivíduos no mercado de trabalho (e também na educação formal) e, ao mesmo tempo, criar e manter mecanismos e políticas que auxiliem as partes mais vulneráveis da população. Mas e quanto ao pensamento positivo? A alternativa seria adotar a "ideologia do pensamento negativo" e passar a crer que tudo vai dar errado? Também é claro que não! Sem dúvida alguma uma certa dose de otimismo é importante, mas na maioria das situações um pensamento mais realista, que leve em conta riscos, limites e problemas reais, é fundamental para enfrentarmos os desafios concretos da existência humana. Ignorar os aspectos negativos da vida e do mundo, além de ser uma forma de ilusão, em nada contribui para o bem-estar das pessoas. O que se faz cada vez mais necessário, numa sociedade individualista como a que vivemos, é justamente que as pessoas olhem um pouco menos para dentro de si e mais para fora, para o outro, para os problemas do mundo. Manter o foco em si mesmo - no próprio desempenho, na própria performance, no próprio sucesso - impele as pessoas a se distanciarem umas das outras e a competirem entre si, o que só contribui para o aumento do mal-estar individual e coletivo. O que se faz cada vez mais necessário é que as pessoas se aproximem e atuem de forma colaborativa na busca por soluções para os principais problemas que afetam os indivíduos, a sociedade e o mundo. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Em choque: uma breve história da Eletroconvulsoterapia

Aplicação de ECT no Hospital de Virginia, nos EUA, em 1949
Em uma polêmica Nota Técnica publicada em fevereiro de 2019, o Ministério da Saúde estabeleceu novas diretrizes para a política de saúde mental no Brasil. Dentre outras medidas questionáveis, o Ministério estabeleceu a ampliação da rede de hospitais psiquiátricos, a possibilidade de internação de crianças e adolescentes e também a aquisição e disponibilização pelo SUS de equipamentos de Eletroconvulsoterapia (ECT) para o "tratamento de pacientes que apresentam determinados transtornos mentais graves e refratários a outras abordagens terapêuticas". Popularmente conhecido como "eletrochoque" este tratamento tornou-se, juntamente com a lobotomia, um símbolo dos equívocos e crueldades cometidos - em nome da razão - pela psiquiatria e pela medicina de uma forma geral. No entanto, também como a lobotomia, a ECT foi vista na época de sua criação como um tratamento inovador, seguro, eficaz e - acredite se quiser - muito menos agressivo e desumano que as outras opções terapêuticas disponíveis naquele momento, como a Terapia por Choque de Insulina (que induzia os pacientes ao coma), a Malarioterapia ou Piroterapia por infecção de malária (que causava terríveis febres) e a Terapia convulsiva (que induzia a violentas convulsões). Posteriormente a ECT passou a ser mal vista e foi deixada de lado; no entanto, ela nunca deixou de ser aplicada. Até os dias atuais ela é utilizada, de uma maneira bastante diferente de quando foi criada, em pessoas com graves transtornos mentais refratárias a outros tratamentos. Especificamente com relação à referida Nota Técnica a preocupação de muitos profissionais e pesquisadores da área da saúde mental é que a aquisição e disponibilização de equipamentos de ECT pelo SUS possa favorecer um uso equivocado e banalizado da técnica, como ocorreu logo após sua criação, na década de 1930. Esta é, sem dúvida alguma, uma preocupação legítima, haja vista a falta de fiscalização adequada em inúmeros serviços públicos; além disso há o questionamento, igualmente pertinente, sobre se realmente vale a pena investir os escassos recursos da área da saúde em dispendiosos aparelhos de ECT - e também no provisionamento das clínicas e na capacitação dos aplicadores e equipe de apoio - ao invés de empregar tais recursos na melhoria dos serviços e dispositivos de saúde mental já incorporados ao SUS. Por fim, há que se questionar também se esta politica não estaria atendendo e beneficiando prioritariamente o lobby da indústria dos dispositivos médicos, mais do que os próprios pacientes. Por outro lado, se as diretrizes para o uso da técnica forem rigorosamente seguidas e sua utilização ocorrer apenas como último recurso terapêutico, e jamais como método punitivo e disciplinar, creio que as resistências à sua utilização diminuiriam consideravelmente - a questão é que eu duvido muito que a fiscalização desta atividade consiga ser realizada a contento, de forma a evitar excessos e usos equivocados. De toda forma, para além de toda esta polêmica, gostaria no presente texto de apresentar brevemente a história da ECT desde seu desenvolvimento até a atualidade. 

Violenta convusão induzida por Metrazol
A eletroconvulsoterapia, como o próprio nome indica, é um procedimento terapêutico que pretende gerar convulsões nos pacientes por meio da aplicação de correntes elétricas na região da cabeça - entende-se, neste caso, que as convulsões possuem um valor terapêutico na medida em que teriam a capacidade de aliviar certos sintomas psiquiátricos. No entanto, a ECT não foi o primeiro procedimento médico que visou a geração de "convulsões terapêuticas" nos pacientes. No início do século XX alguns psiquiatras notaram uma certa incompatibilidade entre a psicose e a epilepsia, o que significava que pacientes psicóticos muito raramente eram epiléticos ou apresentavam crises convulsivas. Com esta observação em mente - posteriormente refutada pela comunidade científica - o psiquiatra húngaro Ladisla Joseph von Meduna (1896-1964) começou, em 1933, a experimentar diferentes substâncias para induzir convulsões em animais e, posteriormente, em pacientes psicóticos. Inicialmente tentou a injeção de cânfora e de outras substâncias de forma intramuscular, mas os resultados não foram significativos; finalmente testou a injeção intravenosa de uma preparação de cânfora sintética menos tóxica denominada pentilenotetrazol, também conhecida como metrazol ou cardiazol. E acabou por descobrir que os sintomas psicóticos diminuiam consideravelmente após um ataque convulsivo induzido por esta substância - tratamento que acabou por ser chamado de terapia convulsiva. O grande problema é que o metrazol induzia nos pacientes um terrível sentimento de morte iminente e também levava a convulsões extremamente violentas. Como aponta o psiquiatra Jeffrey Lieberman no livro Psiquiatria - Uma história não contada, um estudo realizado em 1939 revelou que 43% dos pacientes submetidos à terapia convulsiva tiveram vértebras fraturadas durante as terríveis convulsões causadas pelo metrazol. Em função destes e outros problemas, os médicos começaram, então, a buscar outras maneiras, mais seguras e menos agressivas, de induzir convulsões nos pacientes.

Protótipo do primeiro aparelho de "eletrochoque"
Esta busca levou, no final da década de 1930, na Itália, ao desenvolvimento da Eletroconvulsoterapia pelo neurologista e neurocirurgião italiano Ugo Cerletti (1877-1963) em parceria com seu colega Lucio Bini (1908-1964). Inicialmente, Cerletti induziu experimentalmente convulsões em cachorros por meio de choques elétricos aplicados na cabeça. O pesquisador chegou a conceber a aplicação do mesmo método em seres humanos mas foi dissuadido por colegas. Posteriormente, enquanto comprava carne em um açougue local descobriu que os porcos eram abatidos depois de serem entorpecidos pela aplicação de correntes elétricas em suas cabeças, o que o fez questionar se o mesmo efeito "anestésico" ocorreria em humanos. Com esta ideia em mente, Cerletti recorreu a Bini para construir, em 1938, o primeiro aparelho voltado para aplicação de "choques terapêuticos" em seres humanos. No dia 15 de Abril deste ano, os pesquisadores utilizaram o aparelho, pela primeira vez, em um paciente esquizofrênico e o resultado ocorreu exatamente como esperado: após despertar da anestesia causada pelo choque os pesquisadores observaram significativas melhoras no quadro sintomático do paciente. De acordo com Franz Alexander e Sheldon Selesnick no livro História da psiquiatria, a partir desta primeira aplicação "tornou-se logo evidente que o eletrochoque era superior ao Metrazol, pois era menos perigoso, menos dispendioso e causava convulsão mais branda. Devido à simplicidade de seu processo e aos resultados favoráveis, o eletrochoque, na década de 1940, já substituia os tratamentos de choque de insulina na esquizofrenia". Na mesma direção, Jeffrey Lieberman, no já mencionado livro Psiquiatria - Uma história não contada, afirma que "a ECT significou um substituto bem vindo à terapia do metrazol porque era mais barata, menos aterrozizante para os pacientes (não havia mais a sensação de morte iminente), menos perigosa (nada de costelas quebradas), mais conveninente (bastava ligar e desligar a máquina) e mais eficaz. Pacientes deprimidos, em particular, frequentemente apresentavam melhoras surpreendentes de humor após apenas algumas sessões; e embora a ECT tivesse alguns efeitos colaterais, eles não eram nada comparados aos riscos alarmantes da terapia do coma, da terapia da malária ou da lobotomia. Era, de fato, um tratamento milagroso".

Cena do filme Um estranho no ninho (1975)
A partir da década de 1940 a técnica desenvolvida por Celetti e Bini foi amplamente aplicada em hospitais psiquiátricos de todo o mundo, inclusive no Brasil. Posteriormente, em função tanto do desenvolvimento das primeiras medicações psiquiátricas ou psicofármacos, no início da década de 1950, quanto dos crescentes questionamentos relativos aos efeitos colaterais e aos usos equivocados da técnica, a ECT acabou por perder muito de sua popularidade inicial. Especificamente com relação aos efeitos colaterais, um dos mais conhecidos e documentados é a perda de memória - que na maioria dos casos é temporária, e o paciente em pouco tempo retoma as lembranças, mas que em alguns casos torna-se definitiva, e o paciente passa a ter grandes dificuldades de memorização. Curiosamente, no início da aplicação da ECT este efeito colateral de esquecimento temporário foi considerado vantajoso na medida em que fazia o paciente se esquecer do desagradável procedimento de ser eletrocutado. Outros efeitos colaterais que ocorreram nos primeiros anos de aplicação da ECT - como fraturas ósseas e distensões musculares - se deviam ao fato de os aplicadores não utilizarem qualquer forma de anestesia ou relaxamento muscular. Posteriormente, com a introdução do suxametônio, um relaxante muscular, associado com um anestésico de curta duração, muitos desses outros efeitos colaterais foram minimizados, ainda que não totalmente eliminados. Já com relação aos usos equivocados da ECT são notórias as utilizações da técnica como forma de punição - e mesmo tortura - nas instituições psiquiátricas de todo o mundo - basta assistir ao clássico filme Um estranho no ninho (1975) e também ao brasileiro Bicho de sete cabeças (2001) para entender como isto ocorria. Em função de tudo isso, a técnica acabou por ser colocada de lado na área de saúde mental. No entanto, como já apontei acima, a ECT nunca deixou de ser utilizada. Após sua criação, no final da década de 1930, a técnica foi amplamente usada até a década de 1960, quando começou a ser preterida e marginalizada; na década de 1980 a ECT teve uma espécie de ressurgimento, ainda que impregnado por uma visão extremamente negativa, que permanece. Atualmente, a técnica é empregada de uma maneira completamente diferente de quando foi criada. Como aponta Jeffrey Lieberman, "hoje, o avanço tecnológico permite ajustar a ECT para cada paciente, de modo que seja usada a quantidade mínima de corrente elétrica para induzir ao surto [ou convulsão]. Além disso, a colocação estratégica dos eletrodos em lugares específicos da cabeça pode minimizar os efeitos colaterais. Agentes anestésicos modernos combinados com relaxantes musculares e oxigenação abundante tornam a ECT um procedimento extremamente seguro". Certamente há pesquisadores que questionam essa suposta segurança da ECT - indico, nesse sentido os artigos sobre o tema do blog Mad in Brasil; no entanto, ainda que não se trate de um procedimento 100% seguro - e nenhum procedimento ou intervenção é isento de riscos e efeitos colaterais - ainda assim a eletroconvulterapia continuará a existir e a ser aplicada. O que precisamos fazer, enquanto profissionais e pesquisadores da área de saúde mental, é continuar avaliando os efeitos positivos e negativos das intervenções biológicas em psiquiatria - que incluem desde a ECT até os psicofármacos - e paralelamente buscar alternativas psicossociais que nos ajudem a lidar com os sofrimentos e desequilíbrios humanos.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Os (outros) animais tem consciência?

O que será que Nina esta pensando?
Às vezes me pego olhando para a minha cachorrinha, Nina, e pensando: o que será que se passa na mente dela? O interessante deste questionamento é que eu - e provavelmente todos os donos de cachorro - temos a mais absoluta convicção de que os cachorros tem uma mente - e portanto, uma consciência de si e do mundo; provavelmente uma consciência diferente daquela de um ser humano adulto mas ainda sim uma consciência; alguma consciência. Mas será que temos razão? Será que de fato os cachorros e os outros animais não-humanos possuem uma consciência ou algum grau de consciência? Para responder a esta questão precisamos, em primeiro lugar, definir o que afinal de contas é essa tal consciência. Pois no livro O mistério da consciência, o famoso neurocientista português Antônio Damásio apresenta uma definição simples mas interessante: consciência é "a percepção que um organismo tem de si mesmo e do que o cerca". Segundo o autor trata-se de um fenômeno privado, isto é, que somente a própria pessoa tem acesso, e que faz parte de outro processo privado que denominamos mente. A consciência é, assim, uma característica ou um ingrediente da mente - o que significa dizer que a mente pode, eventualmente, ocorrer sem consciência. Na maior parte do tempo, a mente está (ou estaria) consciente. Se não fosse assim, a vida cotidiana se tornaria impossível: seríamos apenas zumbis que vagam pelo mundo. No entanto existem situações em que mente e consciência não se "encontram". Isto acontece, por exemplo, quando estamos dormindo e sonhando: nestes momentos certamente há uma mente que sonha mas não há propriamente uma consciência. O mesmo ocorre nos casos de sonambulismo e em algumas estranhas síndromes causadas por lesões cerebrais - várias descritas por Damásio em seu livro. Em todos esses casos, as pessoas continuam com uma mente mas perdem ou diminuem a consciência de si e/ou do mundo.

Cachorro-robô atual
Mas voltemos aos animais não-humanos. Eles possuem - seguindo a definição de Damásio - alguma percepção de si mesmos e do mundo? Com relação aos cachorros eu tenho convicção de que a resposta é afirmativa, mas como eu posso ter certeza disso? E a resposta é que eu não posso e nunca terei esta certeza. Como apontei na análise que fiz do filme A chegada, não temos como saber nem mesmo se os outros seres humanos possuem uma mente e são conscientes. Como estes processos dizem respeito a experiências privadas e subjetivas, que só eu tenho acesso, eu só posso dizer com certeza que eu próprio possuo uma mente consciente. É claro que acreditamos e precisamos acreditar que as outras pessoas também possuem mentes e consciências - de outra forma, nenhuma relação humana seria possível - mas de fato nunca saberemos. Só o que podemos fazer é pressupor que há uma mente consciente com base no comportamento da pessoa - e também dos outros animais. Quando observo minha cachorrinha, por exemplo, percebo que ela reage à forma como eu me comporto e também ao meu tom de voz: quando eu chego em casa ela se excita e corre pela sala; quando eu saio de casa ela se retrai e, por vezes, chora;  quando eu faço carinho ela se contorce e vira as patas para cima; quando eu falo com um tom de voz agudo ela balança o rabo; se eu passo a falar com um tom de voz grave ela para de balançar o rabo e se afasta. E todas estas reações me fazem pensar - e acreditar - que ela de fato possui uma mente consciente, que a permite perceber o mundo ao seu redor (que me inclui), se diferenciar deste mundo (e de mim) e reagir a ele. Mas vamos supor que no futuro inventem um cachorro-robô com aparência, movimentos e reações totalmente indistinguíveis de um cachorro real. Neste caso, baseado apenas em seu comportamento, eu poderia muito facilmente me deixar convencer de que este "animal" também possui uma mente consciente. No entanto, as reações do cachorro-robô foram totalmente programadas por seus criadores, não restando qualquer espaço para a subjetividade. Se eu estaria enganado neste caso, o que me faz crer que eu não estou enganado quando pressuponho mente e consciência em um cachorro real?

Como é ser um cachorro-morcego?
Em um clássico artigo de filosofia da mente, denominado Como é ser um morcego? (que já apresentei e analisei em outro post), o filósofo Thomas Nagel aponta para a impossibilidade de compreendermos como é ser um morcego. Seu argumento é que podemos estudar o corpo e o sistema nervoso deste animal com grande profundidade mas jamais entenderemos sua experiência subjetiva - e também a de todos os outros animais, incluídos aí todos os demais seres humanos que não nós próprios. O máximo que podemos fazer é 1) pressupor que todos os animais, dos mais simples aos mais complexos, possuem algum grau de consciência; 2) tentar imaginar como esses outros seres percebem e sentem o mundo e 3) agir com base nessas pressuposições e imaginações. De fato nunca teremos completa certeza de que tais entendimentos são verdadeiros, mas a ação humana com base na hipótese da existência de subjetividade em todos animais será, sem dúvida alguma, muito mais ética e responsável do que se imaginarmos que somente nós próprios possuímos mentes e consciências. Como afirma Eric Matthews no livro Mente: conceitos-chave em filosofia, "os animais, sejam eles capazes de raciocinar ou não, certamente possuem mentes no sentido de possuir sensações de dor e prazer e não parece existir nenhuma razão para acreditar que causar dor aos animais, ou seja, infligir-lhes crueldade, seja moralmente mais justificável do que infligi-la aos seres humanos". Na contramão de certas visões antigas - como aquela disseminada pelo filósofo renascentista René Descartes, que entendia que apenas os seres humanos possuíam alma, sendo os demais animais apenas máquinas desalmadas - esta compreensão enfatiza que todos os animais, inclusive os seres humanos, possuem determinadas características em comum - como a mente e a consciência. O que nos diferencia é apenas uma questão de grau e não de qualidade ou natureza - afinal de contas, somos todos animais.

PÓS-ESCRITO (23/05/19): Em 2012, um grupo de cientistas de diferentes áreas reunidos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, lançou uma espécie de manifesto que ficou conhecido como Declaração de Cambridge sobre a Consciência. Este documento - cuja tradução pode ser lida aqui - defende que apesar das dificuldades fundamentais na pesquisa sobre a consciência (com destaque para a "inabilidade dos animais não humanos, e até mesmo dos humanos, em comunicar clara e prontamente os seus estados internos") já seria possível dizer, naquele momento, que os animais não humanos de fato possuem uma consciência. Para embasair esta ideia os pesquisadores apresentam, em quatro tópicos, uma série de evidências, e concluem: "A ausência de um neocórtex não parece impedir que um organismo experimente estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência juntamente como a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos".

PÓS-ESCRITO (17/06/19): No recém-lançado livro A vida secreta dos animais, o engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben - mesmo autor do best-seller A vida secreta das árvores - faz algumas considerações bem afinadas com as que eu fiz acima. Logo na introdução, por exemplo, ele afirma: "Talvez soe descabido dizer que um porco sente as mesmas coisas que o ser humano, mas é pouco provável que ele sinta menos dor do que nós ao se ferir. 'Opa, isso nunca foi comprovado!", talvez exclamem os cientistas. É verdade, e o fato é que nunca haverá provas cabais. Para ser mais preciso, não consigo provar nem sequer que você tem sensações iguais às minhas. Ninguém é capaz de olhar para dentro de outra pessoa e provar, por exemplo, que uma picada de agulha provoca a mesma sensação em todos os 7 bilhões de seres humanos no planeta, mas todos sabemos expressar o que sentimos, e, considerando, as informações compartilhadas, são grandes as chances de termos sensações iguais". Em outro momento o autor questiona: "A ciência já afirmou tantas vezes que os animais não tem sentimentos que essa visão acabou se tornando a mais difundida, mas não seria melhor acreditar que eles tem sentimentos e passar a evitar que sofram sem necessidade?". Na visão do autor, jamais teremos completa certeza de que os animais possuem emoções e sentimentos mas porque não dar a eles o benefício da dúvida e simplesmente acreditarmos nisso? Agir com base nesta pressuposição certamente favorecerá um tratamento mais digno a todos os animais não-humanos. Por fim, no pósfacio, ao comentar sobre as evidências científicas indiretas que apontam para processos cognitivos nos outros animais, Wohlleben afirma: "As descobertas atuais da ciência na verdade não tem surpreendido os verdadeiros amantes dos animais; apenas tem dado mais segurança para confiar em nossos próprios sentimentos em relação a eles". E acrescenta: "quando vejo pessoas negando com veemência que os animais tem sentimentos, fico com a sensação de que isto acontece um pouco por medo de que o homem possa perder sua posição especial. Ou, pior ainda, por medo de que fique mais difícil explorar os animais. Toda vez que alguém fosse comer carne ou usar qualquer produto de couro teria uma crise moral que o impediria de ir adiante. Quando pensamos que os porcos são animais sensíveis, que transmitem conhecimento a seus descendentes e depois os ajudam a parir, que atendem pelo nome e se reconhecem no espelho, trememos só de lembrar que, apenas na União Europeia, cerca de 250 milhões de suínos são abatidos todos os ano".

PÓS-ESCRITO (09/07/2019):  No livro Alex e eu: como a relação de amor entre uma cientista e um papagaio revelou os segredos da inteligência animal, a pesquisadora norte-americana Irene Pepperberg narra a sua longa relação com o famoso papagaio-cinzento Alex, falecido em 2007 aos 31 anos de idade. Na conclusão do livro a autora apresenta uma série de descobertas sobre a inteligência de aves que ela e seu grupo fizeram a partir dos inúmeros experimentos realizados com o falante Alex e tece também algumas considerações sobre a consciência dos animais não-humanos. Afirma Pepperberg: "O que essas e outras coisas que Alex fez me ensinaram? Ensinaram que ele tinha um grau de consciência que nem mesmo os behavioristas radicais poderiam negar. Será que eu posso provar isso tal como provei que Alex era capaz de marcar objetos e aprender conceitos? Não, não posso. Embora a linguagem já não seja amplamente tida como requisito para o pensamento (...) é necessária para provar que outro indivíduo é consciente. A linguagem nos permite explorar o funcionamento da mente de outro indivíduo como nenhum outro instrumento permite. Se eu tivesse perguntado a Alex 'Por que você mastigou o projeto de financiamento quando estávamos na Purdue?" ou "O que estava pensando quando mastigou os slides que deixei sobre minha mesa lá na Northwestern?", e ele tivesse respondido "Ora, eu só estava me divertindo" ou "Eu sabia que você ficaria irritadíssima com aquilo", então eu teria vislumbrado a consciência dele. Mas Alex não usava a linguagem da maneira como eu e você usamos. Sendo assim, não posso provar que ele tinha um grau de consciência. Mas a forma como se comportava era certamente sugestiva". E ela conclui, de forma brilhante: "Alex me ensinou a acreditar que seu pequeno cérebro de pássaro era de alguma maneira consciente, ou seja, capaz de intencionalidade. Extrapolando, posso dizer que Alex me ensinou que o mundo em que vivemos é povoado de criaturas pensantes e conscientes. Não humanamente pensantes. Não humanamente conscientes. Mas nem por isso são autônomos sem mente que vagam como zumbis".