terça-feira, 17 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... pornografia

Ela está por toda parte, embora pareça invisível. Falamos pouquíssimo dela, ainda que ela faça parte da vida e do cotidiano de uma significativa parcela da população. Para algumas pessoas religiosas ela é uma forma de pecado, para algumas feministas uma forma de opressão contra a mulher, para alguns cientistas ela prejudica o cérebro e vicia como uma droga, para alguns psicólogos ela influencia negativamente nas relações e nos processos de desenvolvimento, ao passo que para muitos homens e mulheres ela é vista e praticada como uma forma saudável de se estimular a fantasia e exercer a sexualidade. Sim, você já sabe do que eu estou falando. Eu estou falando da pornografia. O que me traz a esse tema complexo, delicado e pouco explorado são os fantásticos documentários Pornocracy e Rocco, atualmente disponíveis no Netflix. Comecemos pelo primeiro, uma primorosa investigação sobre a "indústria pornô", conduzida pela ex-atriz pornô, diretora de filmes adultos e escritora feminista Ovidie. Neste documentário, a diretora nos traz e tenta responder a uma questão inquietante: se o advento da internet no fim dos anos 1990 teve o impacto de uma bomba atômica na anteriormente ultralucrativa e glamourosa indústria pornô - na medida em que ninguém atualmente precisa mais pagar para ter acesso a imagens e videos pornográficos - quem está de fato lucrando com a pornografia? E sua resposta passa pela emergência de um megaconglomerado pornô, administrado pela empresa MindGeek, que atualmente controla os principais sites pornográficos. Curiosamente, esta empresa é dirigida por um empresário da área de tecnologia de informação totalmente à parte do mundo pornô. Para ele, como para muitas outras pessoas, a pornografia é um negócio como outro qualquer, isto é, um meio de se ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Pois bem, que a pornografia é um negócio lucrativo - e também um negócio que se beneficia, em grande medida, da exploração de mulheres - poucos questionarão. Mas a questão que eu gostaria de trazer neste post é se a pornografia pode ser reduzida a um mero negócio. Que algumas pessoas lucram com ela, isto é óbvio, mas existem pessoas que também lucram com o cinema e com a literatura e poucos diriam que o cinema ou a literatura se resumem a formas de se ganhar dinheiro. Em alguma medida estes artefatos são também manifestações artísticas - e o são justamente por atenderem a certas necessidades ou anseios humanos, demasiado humanos, como as necessidades por expressão, por identificação, por reflexão, por imaginação e por significado. Mas a quais necessidades ou anseios a pornografia atende ou tenta atender? Porque certamente ela responde a alguma necessidade humana profunda. De outra forma, porque, afinal de contas, as pessoas consumiriam tanta pornografia todos os dias em todas as partes do mundo, como demonstram inúmeros dados e pesquisas sobre o tema? Algum motivo deve haver - ou vários. Pois bem, esta complexa questão me traz ao fantástico e chocante documentário Rocco, que acompanha o famoso ator pornô Rocco Siffred durante o período que culminou com a gravação de sua última cena. Este filme traz tantos elementos para reflexão que eu precisaria de vários textos para analisá-lo com toda a profundidade que ele merece. Tratarei aqui apenas de alguns aspectos pertinentes à questão de quais necessidades humanas a pornografia atende ou pretende atender.

O documentário tem início com uma interessante fala de Rocco - que é dita enquanto a câmera expõe em close o seu pênis: "Eu penso em mim como alguém que foi pago para ser a pessoa que queria ser". Veja bem, ele não está dizendo que foi pago para ser aquilo que muitos homens gostariam de ser, o que também seria verdade. Ele está dizendo que foi pago para ser o que ele próprio gostaria de ser - e com isso ele sugere que os outros homens não são (e nem são pagos para ser) o que gostariam de ser. Os homens, em geral, se reprimem e são reprimidos, poderia ter dito Rocco, mas ele não. Ele sempre pôde dar vazão aos seus desejos. E de fato, ao longo de sua extensa carreira, Rocco pôde colocar em prática todas ou quase todas as suas fantasias sexuais, especialmente aquelas mais sórdidas e violentas, algo que a maioria dos homens apenas sonhou fazer. E veja bem que eu estou falando dos homens e não das pessoas em geral porque embora a pornografia seja consumida por homens e mulheres, sem dúvida alguma o maior público consumidor é masculino. Na verdade, a pornografia é, em grande medida, voltada para o homem e seu prazer. O objetivo imediato da maioria absoluta das produções pornôs é simples: fazer o homem (o ator e o espectador) gozar - e tanto isto é verdade que a maioria das cenas se encerra com a ejaculação masculina. O gozo feminino ou a encenação do gozo feminino não tem valor em si, só servindo na medida em que contribui para o gozo masculino. Muito embora as cenas pornôs em geral se foquem nos corpos das mulheres, sendo o homem apenas um pênis sem rosto, o foco primordial, o objetivo final e o elemento central é o homem e seu prazer. O pornô, em geral, não passa de uma celebração da potência masculina.

Os filmes de Rocco não fogem desta regra - pelo contrário, eles a levam a níveis extremos. Como o documentário expõe com grande crueza, eles são totalmente focados na dominação masculina e, consequentemente, na submissão feminina. As cenas de gravação, neste sentido, são incrivelmente chocantes (pelo menos para mim), na medida em que expõem a grande violência a que as atrizes são submetidas nos sets de filmagem. Certamente é possível contra-argumentar que elas o fazem por livre e espontânea vontade como parte de uma relação comercial (na qual elas vendem o próprio corpo em troca de dinheiro) e também que algumas realmente gostam da submissão durante o ato sexual - caso, por exemplo da atriz pornô feminista Kelly Stafford que afirma em certo momento do documentário: "Como eu posso estar me humilhando como mulher se é isto que eu quero? Se sou eu que estou aproveitando, sou eu que quero fazer isso, nunca é humilhante. Eu não quero ser humilhada. Quero mostrar que sou mulher. Sou uma mulher forte. Preciso de um homem forte para me foder". Esta atriz, não por acaso escolhida por Rocco como parceira de sua última cena, afirma ainda, em tom elogioso, que o sexo com Rocco ocorre "em um nível muito animalesco, é muito bruto". E isto talvez ajude a explicar o apelo que os filmes pornôs, especialmente os mais violentos, como aqueles produzidos por Rocco, tem sobre muitos homens. Talvez tais produções permitam que os homens façam, pelo menos no terreno da fantasia (na medida em que se colocam imaginariamente na pele de Rocco) aquilo que não podem ou não conseguem fazer na realidade. Afinal, transar de forma "animalesca" e "bruta" na vida real é bem mais complicado, pois depende necessariamente do consentimento da pessoa, homem ou mulher, com quem você pretende fazer sexo - de outra forma você estaria cometendo o crime de estupro.

Na análise que fiz da série Westworld, que retrata um "parque de diversão" para adultos onde tudo é permitido, escrevi que a atratividade deste parque se devia justamente ao fato dele permitir aos participantes, majoritariamente homens, um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade - em um ambiente controlado e seguro. Pois a mesma coisa pode ser dita da pornografia: ela permite aos seus usuários vivenciar situações sexuais e violentas, extremas ou não, sem, supostamente, quaisquer constrangimentos e efeitos colaterais. Como bem afirma a jornalista Pamela Paul no interessante livro Pornificados: como a pornografia está transformando a nossa vida, os nossos relacionamentos e as nossas famílias, "a pornografia dá sem exigir esforço". Em outro momento, falando especificamente sobre o consumo de pornografia por homens envolvidos em relacionamentos estáveis, a autora afirma: "a pornografia proporciona a exitação adicional de outras mulheres sem o perigo de realmente estar com elas" - e por perigo ela quer dizer, na verdade, "sem as implicações de se relacionar com uma mulher real". Afinal de contas, as mulheres reais não agem como as mulheres nos filmes pornôs: elas não estão disponíveis e com vontade para o sexo o tempo todo, não se atiram sem pudor para cima dos homens, não aceitam todas as práticas e posições sexuais e, muitas vezes, gostam de estar no controle e desejam que os homens se preocupem com o prazer delas. Enfim, na vida real, elas são pessoas completas e complexas e não simplesmente "objetos" do prazer masculino. Na pornografia, pelo contrário, o foco está majoritariamente no controle e no poder masculinos. Como afirma Pamela Paul "o enfoque é sobre uma mulher (ou, cada vez mais, várias mulheres) a serviço do prazer sexual do homem".  

Bom, talvez uma palavra chave em toda esta discussão seja "controle", afinal a pornografia serve em grande medida para dar aos homens não o controle, mas a ilusão de controle sobre as mulheres e o mundo. Se na vida real, os homens tem um poder limitado - ainda que, em geral, maior do que as mulheres (não nos esqueçamos jamais: vivemos em um mundo machista!) - no pornô os homens são soberanos, são reis que tudo podem e tudo fazem. Como afirma Pamela Paul, "a pornografia, literalmente, cria um mundo sonhado, livre de exclusões, constrangimentos, competitividade estressante e rejeição", o que, certamente, é algo extremamente tentador. E não é por outra razão que muitos homens estejam exagerando no consumo de pornografia: exatamente porque ela, como as drogas e também, em alguma medida, como as artes e as religiões, permite a eles sair temporariamente da dura realidade e adentrar em um mundo onde a vida é mais fácil e manejável. O grande problema é que isto não passa de uma ilusão. Como já discuti anteriormente, não creio ser possível viver só de realidade, mas viver só de fantasia também não me parece algo desejável, nem saudável. A pornografia, certamente tem uma função no mundo contemporâneo - ao que me parece fortemente ligada aos anseios por controle, dominação, fantasia e novidade - mas, ao mesmo tempo, penso que se não soubermos separar ficção de realidade, corremos o risco de nos perder, especialmente quanto trazemos ou tentamos trazer para a realidade elementos que deveriam permanecer no terreno da ficção. Tentar agir como um ator pornô e esperar que sua parceira ou as mulheres em geral se comportem como atrizes pornográficas (ou melhor, como as personagens que elas interpretam nos filmes - sim, elas são atrizes!) só poderá resultar em mais e mais frustração. Afinal de contas, entre o sexo real e a pornografia e entre a realidade e a fantasia há uma distância significativa, impossível de ser totalmente eliminada.

domingo, 15 de outubro de 2017

Clown terapêutico: que palhaçada é essa?

O adulto (en)quadrado e a criança
Os adultos são uns chatos! Tão cheios de problemas, crises e dilemas - e tão "vazios" de tempo, dinheiro e disposição - eles só reclamam da vida e do mundo e se lamentam sobre o que passou e sobre o que virá. O desenrolar da vida, as repetidas perdas e as infinitas exigências do mundo vão fazendo com que eles, ao poucos, se distanciem da criança espontânea, curiosa e criativa que, provavelmente, um dia foram. 

Muitos acabam por se enquadrar (e se "enquadradar", tal qual o protagonista do filme Up - Altas aventuras), tornando-se pessoas amargas, duras e pragmáticas que, diante da ausência de utopias e alegrias, apenas seguem adiante pela vida tentando cumprir as inúmeras obrigações e papéis sociais estabelecidos e constantemente reforçados. 

Mas será possível resgatar essa "alma de criança" e trazer de volta a espontaneidade, a criatividade e a alegria perdidas? Pois esse é justamente o objetivo de uma abordagem desenvolvida pelo psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos, autor do livro "O clown terapêutico", lançado este ano pela editora Bartlebee através de financiamento coletivo (Crowdfunding). 

Fiquei sabendo do trabalho e do livro do Rodrigo - também conhecido como palhaço Mirabel - através da minha mãe, que participa de um dos grupos terapêuticos coordenados por ele em minha cidade natal, Juiz de Fora. Li o livro rapidamente e fiquei encantado com a proposta, que tenta conectar a abordagem da Gestalt-Terapia com a filosofia e a arte do Clown

A ideia, em essência, é buscar na icônica e milenar figura do palhaço e na arte da palhaçaria ensinamentos e técnicas que podem ser utilizados por pacientes e psicólogos durante o processo terapêutico. Como afirma Rodrigo no início de seu livro, "usaremos a sabedoria das tradições circenses na formação dos palhaços e das técnicas que lançamos mão na Psicologia Gestalt e também de outras linhas afins, para auxiliarmos a promover crescimento, perspectiva, e novas e criativas rotas de solução para problemas".

Rodrigo Bastos, isto é, Palhaço Mirabel
Mas o que, afinal de contas, os palhaços tem a nos ensinar? Pois bem, para além de uma figura que gera medo em muitas pessoas - e se você assistiu ao recente filme "It: a coisa", provavelmente você se assustou com o horripilante "palhaço" Pennywise -, o palhaço é também uma figura que escancara para o mundo sua "alma de criança". 

Um palhaço não é simplesmente um ator que pinta o nariz de vermelho, mas sim uma pessoa que expõe para o mundo, com uma lente de aumento, suas forças e suas fraquezas. Enquanto a maioria de nós se esforça cotidianamente para apresentar aos outros somente o nosso "lado bom e nobre", o palhaço aceita que não é perfeito e revela para o mundo sua fragilidade e seu lado ridículo. 

O próprio nariz vermelho seria representativo disso. Como aponta Rodrigo, "segundo reza uma das lendas, ele é vermelho devido aos tombos que a vida deu ao palhaço, aonde  este se machucava ao embebedar-se, pelas noites de frio, pela perda da mulher amada, pela falta de dinheiro, era vermelho por ser um tonto desequilibrado e por isso dava constantemente com a cara no chão. O palhaço sempre foi um grande perdedor e acabou por descobrir que a 'humanidade' adorava vê-lo cair de cara no chão, de bunda no chão, tomar tapas e tortadas na cara".

Enfim, o palhaço representa e traz à tona o que há de mais frágil e ridículo em nós - e se orgulha disso. Seu objetivo de vida, como bem aponta Rodrigo, é ser um idiota e fazer idiotices, algo que os adultos, em geral, fogem como o diabo foge da cruz. Afinal, quem quer ser (ou ser visto como) um idiota? Os palhaços querem. E são. E é por isso rimos deles: porque, no fundo, rimos de nós mesmos e de todas as nossas infinitas idiotices. 

A proposta do Clown Terapêutico, desenvolvida pelo Rodrigo, busca justamente o resgate e a aceitação deste lado idiota e da capacidade de rirmos de nós mesmos. A ideia é recorrer a estratégias lúdicas utilizadas na formação de palhaços para contribuir para o desenvolvimento das pessoas. 

Como aponta Rodrigo, "a terapia baseada em conceitos lúdicos e clownescos busca dar suporte para transformar o indivíduo, dentro de suas possibilidades, numa figura mais divertida, alegre, leve, otimista, criativa, potente e que se importe menos com 'o que os outros vão pensar de mim', até porque 'o que os outros vão pensar de mim' é problema dos outros e não meu".

O objetivo de sua proposta, em suma, é reconectar o adulto chato e quadrado que nos tornamos com a criança espontânea e criativa que um dia fomos. E sendo o palhaço um "adulto com alma de criança", nada mais adequado do que buscar na milenar arte do clown elementos para potencializar o processo psicoterapêutico. 

Mas Rodrigo alerta que não se trata de transformar o adulto em uma criança, o que além de impossível seria indesejável, mas sim de buscar no "espírito da criança" a força para cair e levantar e rir de si mesmo e não dos outros. Como afirma o psicólogo-palhaço, "para ser criança é preciso brincar, para ser palhaço  é preciso brincar, para se tornar um adulto com a capacidade criativa de resolução dos seus problemas é necessário achar sua criança; o palhaço, então, serve de 'meio pelo qual' acessá-la".

Caso você tenha interesse em adquirir o livro "O clown terapêutico", escrito pelo psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos, envie um email para oclownterapeutico@gmail.com

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Os robôs levarão ao fim do trabalho?

Dando continuidade à discussão sobre os impactos das novas tecnologias no mundo do trabalho (que já tratei em outros dois posts, veja aqui e aqui), disponibilizo abaixo a tradução que fiz do texto "Will robots bring about the end of work?", escrito por Toby Walsh, professor de Inteligência Artificial da Universidade de Nova Gales do Sul/Austrália e autor do livro “Android Dreams: the past, present and future of Artificial Intelligence”, ainda sem tradução para o português. A versão original deste artigo, publicado no último dia 1° de Outubro pelo jornal britânico The Guardian, pode ser conferida aqui

Hal Varian, economista-chefe do Google, tem uma maneira simples de prever o futuro. O futuro é simplesmente o que as pessoas ricas têm hoje. Os ricos têm motoristas (chauffeurs). No futuro, teremos carros autônomos que nos conduzirão pelas ruas. Os ricos possuem banqueiros privados. No futuro, todos teremos robôs-banqueiros.

Uma coisa que imaginamos que os ricos possuem são vidas de pura diversão (lives of leisure). Então, nosso futuro será aquele em que também levaremos vidas divertidas enquanto as máquinas trabalharão por nós? Poderemos gastar o nosso tempo com coisas mais importantes do que a preocupação com alimento e abrigo?

Voltemos agora para outro economista-chefe. Andy Haldane é economista-chefe do Bank of England. Em novembro de 2015, ele previu que 15 milhões de empregos no Reino Unido, cerca de metade de todos os empregos, estariam sob ameaça da automação. Você esperaria que ele soubesse o que estava falando.

Mas ele não é o único que faz previsões catastróficas. Políticos. Banqueiros. Empresários. Todos estão dizendo a mesma coisa.

"Precisamos urgentemente encarar o desafio da automação e da robótica, que podem tornar o trabalho contemporâneo redundante", disse Jeremy Corbyn na Conferência do Partido Trabalhista em setembro de 2017.

"Os dados do Banco Mundial previram que a proporção de postos de trabalho ameaçados pela automação na Índia é de 69%, 77% na China e 85% na Etiópia", de acordo com o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em 2016.

Realmente soa como se estivéssemos enfrentando o fim do trabalho tal como o conhecemos.

Muitos desses medos podem ser rastreados até um estudo de 2013 da Universidade de Oxford, que estabeleceu uma previsão muito citada de que 47% dos empregos nos EUA estariam sob ameaça de automação nas próximas duas décadas. Outros estudos mais recentes e detalhados fizeram previsões igualmente dramáticas.

Por outro lado, há muito o que se criticar no estudo de Oxford. Do ponto de vista técnico, algumas das previsões do relatório estão claramente erradas. O relatório aponta para uma probabilidade de 94% de que o trabalho de mecânico de bicicleta seja automatizado nas próximas duas décadas. E como alguém que tenta construir esse futuro, eu posso garantir a qualquer profissional da área que não há nenhuma chance de que nós automatizaremos sequer pequenas partes deste trabalho num futuro próximo. A verdade sobre esta questão é que ninguém tem nenhuma ideia real do número de empregos em risco.

Mesmo que tenhamos 47% dos postos de trabalho automatizados, isso não se traduzirá em 47% de desemprego. Um dos motivos é que nós podemos encurtar a semana de trabalho. Esse foi o caso na Revolução Industrial. Antes da Revolução Industrial, muitos trabalhavam 60 horas por semana. Após a Revolução Industrial, o trabalho reduziu-se para cerca de 40 horas por semana. O mesmo pode acontecer com o desenvolvimento da Revolução da Inteligência Artificial.

Outra razão pela qual 47% de automação não se traduz em 47% de desemprego é que todas as tecnologias criam novos empregos, assim como os destroem. Esse foi o caso no passado e não temos motivos para supor que não ocorrerá da mesma forma no futuro. Não existe, entretanto, nenhuma lei fundamental da economia que exija o mesmo número de empregos a serem criados e destruídos. No passado, mais trabalhos foram criados do que destruídos, mas isto não necessariamente ocorrerá no futuro.

Na Revolução Industrial, as máquinas assumiram muitas das tarefas físicas que costumávamos fazer. Mas nós, humanos, ainda ficamos com todas as tarefas cognitivas. Na atualidade, com as máquinas começando a assumir também muitas das tarefas cognitivas, surge uma questão preocupante: o que resta a nós humanos?

Alguns dos meus colegas afirmam que surgirão inúmeros novos empregos, como o de "mecânico de robô" (robot repair person). Não estou totalmente convencido de tais afirmações. As milhares de pessoas que costumavam pintar e soldar na maioria das nossas fábricas de automóvel foram substituídas por apenas um par de "mecânicos de robôs".

Não, as novas profissões terão que gerar trabalhos tanto onde os seres humanos se sobressaem quanto onde escolhemos não ter máquinas. Mas aqui temos uma contradição. Entre cinquenta a cem anos no futuro, as máquinas serão super-humanas. Portanto, é difícil imaginar qualquer trabalho no qual os humanos permanecerão melhores do que as máquinas. Isso significa que os únicos trabalhos que restarão serão aqueles que preferimos que sejam feitos por seres humanos.

Neste contexto, a Revolução da IA envolverá redescobrir as coisas que nos tornam humanos. Tecnicamente, as máquinas se tornarão artistas incríveis. Elas poderão criar músicas que rivalizarão com Bach e pinturas que se igualarão à Picasso. Mas ainda preferiremos obras produzidas por artistas humanos.

Essas obras vão falar sobre a experiência humana. Apreciaremos um artista humano que fala sobre o amor porque temos isso em comum. Nenhuma máquina experimentará verdadeiramente o amor como nós.

Assim como na seara artística, haverá uma re-apreciação do artesanato. Na verdade, vemos isto começando já na cultura hipster. Apreciaremos mais e mais as coisas feitas pela mão humana. Produtos de massa feitos por máquinas tornar-se-ão baratos. Mas os itens feitos à mão serão raros e cada vez mais valiosos.

Finalmente, como animais sociais, também apreciaremos e valorizaremos as interações sociais com outros humanos. Assim, os traços humanos mais importantes serão a nossa inteligência social e emocional, bem como as nossas habilidades artísticas e artesanais. A ironia é que nosso futuro tecnológico não será focado na tecnologia, mas na nossa humanidade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Quando você divide o cérebro, você divide a pessoa?

No último dia 26 de Setembro o site Aeon publicou um interessante artigo escrito pelo cientista cognitivo Yaïr Pinto, da Universidade de Amsterdã. Segue a tradução que fiz desse texto, cuja versão original pode ser lida aqui.

O cérebro é provavelmente a máquina mais complexa do universo. Ele consiste em dois hemisférios cerebrais, cada um com muitos módulos diferentes. Felizmente, todas essas partes separadas não são agentes autônomos. Elas são altamente interligadas, todas trabalhando em harmonia para criar um ser único: você.
 
Mas o que aconteceria se destruíssemos essa harmonia? E se alguns módulos começassem a operar independentemente do resto? Curiosamente, isso não é apenas uma experiência de pensamento; para algumas pessoas, é a realidade.

Nos chamados "pacientes com o cérebro dividido" (split-brain patients), o corpo caloso - a via de comunicação entre os hemisférios cerebrais esquerdo e direito - é cirurgicamente cortado de forma a impedir crises epiléticas intratáveis de outra maneira.

A operação é eficaz para cessar a epilepsia; se uma tempestade neural começa em um hemisfério, o isolamento garante que ela não se espalhe para a outra metade. Mas sem o corpo caloso os hemisférios praticamente não têm meios para trocar informações. 

O que acontece, então, com a pessoa? Se as partes não estão mais sincronizadas, o cérebro ainda produz uma única pessoa? Os neurocientistas Roger Sperry e Michael Gazzaniga decidiram investigar esse problema nos anos 60 e 70, e encontraram dados surpreendentes que sugerem que, quando você divide o cérebro, você também divide a pessoa. Sperry ganhou o prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho sobre o cérebro dividido em 1981.
 
Mas como os pesquisadores comprovaram que dividir o cérebro produz duas pessoas, uma por hemisfério? Através de uma metodologia inteligente que controlava o fluxo de informações visuais para o cérebro.

Eles já sabiam que ambos os olhos enviavam informações para ambos os hemisférios do cérebro - e que o relacionamento entre estes órgãos era complexo. Se você fixou seu olhar em um ponto, então tudo à esquerda desse ponto (o campo visual esquerdo) foi processado pelo hemisfério direito e tudo à direita do seu ponto de fixação (o campo visual direito) foi processado pelo hemisfério esquerdo. Além disso, o hemisfério esquerdo controlou o lado direito do corpo e a produção da linguagem (language output), enquanto que o hemisfério direito controlou o lado esquerdo do corpo.

Quando Sperry e Gazzaniga apresentaram estímulos para o campo visual direito (processados ​​pelo "falante" hemisfério esquerdo), o paciente respondeu normalmente. No entanto, quando os estímulos foram apresentados ao campo visual esquerdo (processado pelo "mudo" hemisfério direito), o paciente disse que não via nada. No entanto, sua mão esquerda desenharia a imagem mostrada. Quando perguntado por que sua mão esquerda fez isso, o paciente pareceu confuso e respondeu que não tinha idéia. 

O que estava acontecendo ali? O hemisfério esquerdo não conseguiu ver o campo visual esquerdo, então, quando um estímulo apareceu lá, ele respondeu, com razão, que não viu nada. No entanto, o hemisfério direito viu o estímulo e indicou isso da única maneira que podia, conduzindo a mão esquerda. A conclusão, formulada por Sperry e Gazzaniga, era clara: um único paciente com cérebro dividido deveria ser entendido como dois pacientes com meio cérebro - tipo gêmeos siameses. Sperry argumentou que esta descoberta superou a mera curiosidade - tendo literalmente provado o conceito de materialismo na área estudos da consciência. Se você divide a pessoa quando você divide o seu cérebro, isso deixa pouco espaço para uma alma imaterial.

Caso encerrado? Não para mim. Nós temos que admitir que os pacientes com cérebro dividido se sentem e se comportam normalmente. Se um paciente com cérebro dividido entra na sala, você não notará nada incomum. E eles mesmos afirmam estar completamente inalterados, além do fato de terem se livrado de terríveis crises epilépticas. Se a pessoa estivesse realmente dividida, isso não seria verdade.

Com o objetivo de ir fundo nesta questão, minha equipe na Universidade de Amsterdã retornou a este problema fundamental, testando dois pacientes com cérebro dividido e avaliando se eles poderiam responder com precisão a objetos no campo visual esquerdo (percebido pelo cérebro direito), enquanto respondiam verbalmente ou com a mão direita (controlada pelo cérebro esquerdo). Surpreendentemente, nestes dois pacientes, encontramos algo completamente diferente do que Sperry e Gazzaniga encontraram antes de nós. Ambos os pacientes apresentaram consciência total da presença e localização dos estímulos em todo o campo visual - direito e esquerdo. Quando os estímulos apareceram no campo visual esquerdo, eles praticamente nunca disseram (ou indicaram com a mão direita) que eles não viram nada. Em vez disso, eles indicaram com precisão que algo havia aparecido e onde. 

Mas os pacientes com cérebro dividido que estudamos não eram completamente normais. Em primeiro lugar, os estímulos não podiam ser comparados ao longo da linha média do campo visual. Além disso, quando um estímulo apareceu no campo visual esquerdo, o paciente se saiu melhor ao indicar suas propriedades visuais (mesmo quando ele respondeu com a mão direita ou verbalmente); e quando um estímulo apareceu no campo visual direito, ele se saiu melhor indentificando verbalmente (mesmo quando ele respondeu com a mão esquerda).

Com base nestes achados, propusemos um novo modelo para a síndrome do cérebro dividido. Quando você divide o cérebro, você ainda continua sendo uma única pessoa. No entanto, essa pessoa experimenta dois fluxos de informações visuais, um para cada campo visual. E essa pessoa não consegue integrar os dois fluxos. É como se ela assistisse a um filme fora de sincronia, mas não com o áudio e o vídeo dessincronizados. Em vez disso, os dois fluxos não sincronizados são ambos videos. E há mais. Enquanto o modelo anterior forneceu evidências fortes para o materialismo (divide-se o cérebro, divide-se a pessoa), o entendimento atual parece aprofundar o mistério da consciência. Você divide o cérebro em duas metades, e ainda assim tem apenas uma pessoa. Como um cérebro, composto por muitos módulos, cria apenas uma pessoa? E como os pacientes com o cérebro dividido funcionam como uma só pessoa quando essas duas partes nem sequer se comunicam uma com a outra?

domingo, 1 de outubro de 2017

Resenha do livro "Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem": como assim "tudo bem"?

Recém-lançado no Brasil pela editora Portfolio-Penguin, o livro Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem: como sobreviver ao colapso econômico e ser feliz tem início com uma interessante e pertinente discussão sobre os impactos da automatização do trabalho na sociedade; no entanto, para minha surpresa e decepção, a obra descamba para um discurso vazio e individualista de autoajuda que em nada contribui ou acrescenta à esta discussão fundamental - que já tratei em um post anterior. Uma pena, realmente. Escrito pelo jovem cientista da computação italiano Federico Pistono, apresentado na orelha do livro como sendo "escritor, empreendedor, pesquisador e palestrante", esta obra consegue demonstrar de forma clara que não só os robôs - ou, mais precisamente os processos de automação e mecanização - vão "roubar" ou substituir muitos trabalhos e aumentar o desemprego, como isto já está ocorrendo em todo o mundo. O grande problema é que o autor não consegue justificar e explicar com igual precisão a segunda parte do título de seu livro - como assim "mas tudo bem"? Enfim, Pistono consegue expor de forma bastante didática o problema, já extensamente descrito e analisado por outros autores (sociólogos, economistas, etc) muito mais gabaritados que ele, mas as soluções propostas pelo autor não passam de fugas ou saídas individuais para um problema que, em essência, é coletivo. A conclusão, contrária à pretendida, não poderia ser mais desesperadora: os robôs vão roubar e já estão roubando os nossos trabalhos e não, não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Na primeira e mais acertada parte do livro, Pistono analisa o impacto dos processos de automação nos índices de emprego e desemprego e sua conclusão não é nada boa: ainda que até o momento a substituição de mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos não tenha levado a um colapso econômico generalizado, o desemprego tem aumentado gradativamente e, no futuro, atingirá níveis astronômicos. Além disso, segundo o autor, os novos empregos criados em função das novas tecnologias não tem sido gerados na mesma proporção que os velhos empregos tem sido substituídos e isto se agravará ainda mais ao longo do tempo. Sua conclusão, pessimista, pode ser resumida pelo seguinte trecho do livro: "Os velhos empregos não vão voltar. Os novos empregos serão sofisticadíssimos, desafiadores técnica e criativamente, e apenas um punhado deles será necessário. A questão é simples: o que farão os trabalhadores não qualificados de hoje? Até agora ninguém foi capaz de responder a esta pergunta. O motivo disso, creio, é que não há resposta. Não nesse sistema, não de acordo com a maneira como é projetado para funcionar". Enfim, os trabalhos serão cada vez mais automatizados e o desemprego aumentará mas... tudo bem? Não! Nada está bem ou ficará bem.

O mito da meritocracia
Na segunda parte do livro, Pistono discute a complexa relação entre trabalho e felicidade, concluindo que se, em geral, o trabalho não gera felicidade - uma estatística apresentada por ele aponta que 80% das pessoas odeiam seu trabalho - o desemprego também gera infelicidade. Resumindo: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Sua visão, igualmente pessimista, é que sendo a felicidade algo tão subjetivo e fugidio, não somos nem seremos felizes trabalhando - e muito menos desempregados. Isto porque, segundo ele, além do fato de a maioria dos trabalhos ser extremamente repetitiva e mecânica (e, portanto, facilmente substituível por máquinas ou algoritmos), mesmo nos trabalhos menos mecanizados as pessoas se habituam às suas realidades e muitas vezes, aquilo que gerava bem-estar no início passa a gerar mal-estar ao longo do tempo - como afirma Pistono, "se você melhora seu padrão de vida, rapidamente se adapta a ele, o qual se torna a norma, e suas expectativa por consequência aumentam". Já o desemprego, por óbvio, gera mal-estar, afinal, se dinheiro não traz felicidade, a falta de dinheiro certamente gera infelicidade. Ah, alguém poderia dizer, mas basta se esforçar para conseguir um bom emprego e ganhar dinheiro, não? Quem se esforça sempre consegue o que quer, não é verdade? Infelizmente nada é tão simples assim. A meritocracia, filosofia que estabelece uma ligação direta entre mérito e poder, não passa de um mito - ou, para sermos um pouco mais otimistas, de uma utopia. Como bem aponta Pistolo, a lógica do sistema capitalista não funciona desta forma e por mais que algumas pessoas se esforcem, elas dificilmente "chegarão lá" - algumas podem até conseguir (e são justamente essas que reforçam o mito) mas a grande maioria não chegará nem perto. Como aponta o autor, "os pobres continuarão pobres e os ricos continuarão ricos, independente do quanto se esforcem". Enfim, mais uma vez a conclusão não é positiva. Não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Tendo em vista todo o cenário catastrófico ou, no mínimo, desanimador descrito nos parágrafos anteriores, quais seriam, então as "soluções" apontadas por Pistono na última parte de seu livro? Quais seriam as saídas possíveis para os problemas apontados que justificariam a visão supostamente otimista demonstrada pelo autor no título do livro? Bem... veja só os conselhos dados pelo autor a seus leitores nos quatro últimos capítulos - denominados "Conselhos práticos para todos", "Construindo o futuro", "Como ser feliz" e "O futuro é lindo":

- Precise de menos, viva mais
- Eduque-se/eduque os outros
- Cultive seu próprio alimento
- Coma menos carne
- Economize energia/produza sua própria energia
- Abandone o carro
- Apoie projetos open source
- Trabalhe menos, seja autônomo
- Não seja um pentelho
- Viva de modo inteligente, isto é:
  * Medite
  * Anote o que precisa de resolução
  * Anote as coisas boas que lhe aconteceram hoje
  * Exercite-se 
  * Pratique atos aleatórios de bondade
  * Cultive novas experiências
  * Estabeleça metas pequenas e realistas
- Gaste com inteligência, isto é:
  * Compre experiências ao invés de coisas
  * Ajude os outros em vez de si mesmo
  * Compre muitos pequenos prazeres ao invés de poucos grandes
  * Faça menos seguros
  * Pague agora e consuma depois
  * Pense sobre aquilo em que não está pensando
  * Cuidado com as compras por comparação
  * Siga o rebanho em vez de sua cabeça

Você pode estar se perguntando (e eu próprio me questionei enquanto lia o livro): o que todas estas dicas e sugestões tem a ver com o problema da substituição da mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos? De que forma "comer menos carne" ou "meditar" pode contribuir para resolver o problema do "desemprego tecnológico"? A resposta é: não pode. Na verdade, a mensagem do autor nesta última parte do livro parece ser a seguinte: "tendo em vista que o problema da automatização do trabalho é insolúvel ou muito difícil de resolver - eu pensei e pensei e não cheguei a nenhuma conclusão - você, isto é, a pessoa que ainda tem um emprego que garante o seu sustento, deve tentar ser feliz. Ignore os problemas sociais amplos e sistêmicos descritos anteriormente e tente resolver a sua situação individualmente - e, se possível, sem prejudicar o mundo. Nada vai ficar bem globalmente - as máquinas vão continuar substituindo pessoas, o desemprego vai aumentar, muitas pessoas vão passar necessidade - mas você, indivíduo-privilegiado-não-descartado-pelo-sistema, pode ficar bem se seguir algumas das dicas que eu estou te dando. Agora, se você está desempregado porque sua função foi substituída por sistemas automatizados, aproveite a oportunidade para curtir a vida, para fazer tudo aquilo que sempre teve vontade de fazer mas não pôde porque estava trabalhando... Ah, mas está sem dinheiro para aproveitar a vida? Que pena... Sobre isso eu não tenho nenhum conselho para te dar". Muito embora Pisono critique os livros de autoajuda - afirmando que "alguns são úteis, mas a maioria não presta para nada" - sua obra, que começa como uma boa análise de um tema fundamental, acaba por desembocar numa autoajuda vazia e inútil. Certamente, seguir os conselhos sugeridos por ele pode fazer bem para cada um de nós individualmente e também para o mundo (por exemplo, quando ele sugere a instalação de painéis solares e a redução no consumo de carne), mas tais sugestões em nada dizem respeito à problemática da automatização. Mais honesto seria ele admitir que não existe solução ou que ele não descobriu nenhuma solução, ao invés de fingir que todas estas pseudosoluções são de fato saídas para o problema apresentado. Não, Pistono, não está tudo bem. E você sabe disso!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando os 'estranhos' batem à nossa porta: reflexões sobre a atual crise dos refugiados

A situação dos refugiados é uma das principais, senão a principal, crise humanitária do mundo atualmente. Todos os dias milhares de pessoas são forçadas a sair às pressas de seu país devido à conflitos armados e/ou perseguições e buscarem abrigo em outras nações. Inúmeros países, muitos à contragosto, tem recebido estas pessoas. O Brasil, por exemplo, acolheu até o final de 2016 cerca de 9552 refugiados de diversos países - em especial da Síria, do Congo, do Paquistão, da Palestina, da Angola e, de forma crescente, da Venezuela. No entanto, ao mesmo tempo em que diversas nações, grupos e indivíduos tem se esforçado para receber, acolher e integrar estas pessoas, tem se multiplicado pelo mundo discursos xenofóbicos de ódio que tem como principal mote a ideia de que estas pessoas são invasoras que trazem a desordem e roubam os empregos. No início deste mês, por exemplo, o refugiado sírio Mohamed Ali, que vive e trabalha no Rio de Janeiro há 3 anos, foi hostilizado na rua por um homem que gritou repetidas vezes "Sai do meu país!", afirmando ainda: "O nosso país está sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças". Não gosto de pensar que se trata simplesmente de uma atitude irracional, haja vista que existe alguma racionalidade (diferente da minha, por exemplo) por trás de um ato preconceituoso como esse - ademais, a ideia de irracionalidade é há tanto tempo utilizada como categoria acusatória por pessoas de todos os lados de todos os conflitos e controvérsias, que  acabou por perder a sua força ("Você é irracional!" acusa a pessoal supostamente racional. "Não, você é que é irracional", rebate outra pessoa supostamente racional em uma troca infinita de acusações). Enfim, ao invés de considerar atitudes xenofóbicas e ofensivas como a descrita acima simplesmente como comportamentos irracionais prefiro encará-las como comportamentos preconceituosos baseados em estereótipos, isto é, em visões preconcebidas e generalizantes sobre determinadas pessoas e grupos. De forma mais profunda é possível enxergar em tais atitudes um enorme medo daquilo e daqueles que vem de fora e daquilo que é estranho ou diferente - a ideia de xenofobia aponta justamente nesta direção.

Em sua última obra publicada em vida, Estranhos à nossa porta, o eminente sociólogo polonês Zygmunt Bauman trata justamente desta questão. Segundo o autor,  os refugiados incomodam muitas pessoas exatamente porque trazem as marcas da diferença, seja na língua que falam, na roupa que vestem, na religião que professam e na forma como se comportam. Eles são os tais "estranhos" que batem à nossa porta. Como afirma Bauman, "refugiados da bestialidade das guerras, dos despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectivas têm batido à porta de outras pessoas desde o início dos tempos modernos. Para quem está por trás dessas portas, eles sempre foram – como o são agora – estranhos. Estranhos tendem a causar ansiedade por serem 'diferentes' – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar". Segundo o sociólogo, os refugiados são um "lembrete" permanente para as pessoas que estão detrás das portas, especialmente para aquelas das classes médias e altas, de  que todos estamos à mercê de forças que não controlamos e de que a vida confortável que levam pode ser perdida num piscar de olhos. Como afirma Bauman, "estes nômades - não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel - nos lembram de modo irritante, exasperante e aterrador, a (incurável?) vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado". O medo, enfim, é que estes estranhos, vindos de lugares exóticos e caóticos, tragam consigo o "vírus do caos e da desordem" que poderá eliminar ou desfigurar o confortável modo de vida que muitas pessoas vivem, especialmente nos países desenvolvidos.  

Diante destes 'estranhos', todos nós, enquanto pessoas e enquanto nações, temos basicamente duas alternativas iniciais: ou mantemos a porta fechada ou a abrimos e permitimos que entrem. A primeira alternativa, chamada por Bauman de "política da separação" é aquela na qual decidimos manter distância destes estranhos, seja através da negação de vistos ou da construção de muros - o presidente Trump é, talvez, o maior representante desta forma de política, que se manifesta não somente no impedimento de entrada mas também, e especialmente, na segregação e marginalização daqueles que já entraram. Para Bauman, a construção de muros ao invés de pontes, é a pior escolha possível, especialmente porque tal política acaba por gerar aquilo que ela pretende evitar. Como afirma o sociólogo, "enganosamente reconfortantes a curto prazo (por colocarem o desafio fora de vista), essas políticas suicidas armazenam explosivos para uma detonação futura". Isto porque ao segregarem os refugiados - e os imigrantes de uma forma geral - tais políticas acabam por reforçar uma já disseminada distinção entre "nós" e "eles" e, com isso, gerar um sentimento de ódio "deles" contra "nós" que certamente contribui para que alguns se aproximem de determinados grupos extremistas. Mas qual a solução, então? Para Bauman, a única alternativa viável é a solidariedade. Parece algo banal de se dizer, mas eu não teria como discordar de Bauman: a única saída possível para a situação dos refugiados e dos imigrantes  é estendermos os braços para eles e dizermos "Sejam bem vindos. Fiquem à vontade. Mi casa, su casa". Somente se (e quando) compreendermos que não existem "nós" e "eles" mas sim um gigantesco e planetário "nós", e também quando aprendermos a substituir hostilidade por hospitalidade, é que a situação começará a melhorar. Como bem afirma Bauman, "a humanidade está em crise - e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos".

Certamente não se trata de uma saída fácil, mas um primeiro passo, como eu tenho insistido neste blog, é ter ou desenvolver empatia por estas pessoas. Isto pode ser construído de diversas maneiras e eu destacaria especialmente a conversa e a convivência com refugiados como formas ímpares de se aproximar e entender suas histórias e pontos de vista. Pessoas que atuam como voluntárias em organizações de apoio e recepção aos refugiados certamente desenvolvem grande empatia pelos indivíduos que ajudam a acolher. No entanto, esta é uma possibilidade distante para muitas pessoas. Uma saída, neste caso, é assistir a documentários como o impactante Fogo no mar, reportagens como esta do magnífico programa Que mundo é esse?, ou então ler livros como Eu venho de Alepo: itinerário de um refugiado, recém-lançado no Brasil pela editora Vestígio. Nesta obra, o refugiado sírio Joude Jassouma conta sua história, desde sua infância e juventude na histórica cidade síria de Alepo, onde chegou a se graduar em Literatura Francesa e trabalhar como professor; o início da guerra que destruiu sua cidade e seu país e o obrigou a se mudar às pressas diversas vezes com a família, deixando tudo para trás; a perigosa fuga feita em um bote para a Grécia e, finalmente, sua instalação na pequena e acolhedora cidade de Martigné-Ferchaud na França. Nesta dolorosa e, curiosamente, esperançosa narrativa, Joude nos permite compreender os motivos e circunstâncias que o forçaram a fugir de seu país, a dor e a angústia que sentiu ao ter de abandonar sua casa e todas as suas coisas em meio a tiroteios e bombas caindo, o medo que sentiu ao atravessar o mar Egeu à bordo de um bote junto de sua mulher e filha de 3 meses e, finalmente, a felicidade que sentiu ao ser acolhido pela França e pelos franceses. Especialmente nesta última etapa da narrativa de Joude, pude perceber claramente que a solidariedade defendida por Bauman é de fato concretizada em muitos lugares e por muitas pessoas. Assim que chegou na França, Joude e sua família foram carinhosamente acolhidos por voluntários de instituições filantrópicas, sendo posteriormente conduzidos a uma pequena cidade na região da Bretanha, onde foram calorosamente recebidos e integrados pelos moradores. Como afirma em certo momento, "desde que estamos aqui, nunca nos sentimos rejeitados nem julgados. Ninguém olha para nós desconfiado ou faz comentário inoportunos. E os moradores de Martigné sempre nos cumprimentam quando passamos". Enfim, a situação dos refugiados é ainda muito grave, a adesão a políticas e políticos contrários ao acolhimento destas pessoas tem crescido, mas bons exemplos tem se multiplicado pelo mundo, o que nos permite vislumbrar ao menos uma centelha de esperança. 

Update 16/08/2017: um outro exemplo bastante interessante de solidariedade foi a reação de muitos cariocas à agressão sofrida pelo refugiado sírio Mohamed Ali narrada no início deste post. Após o video da agressão ser amplamente divulgado nas redes sociais, um empresário carioca organizou pelo Facebook um "Esfirraço" com o objetivo de reunir pessoas para comprar as esfirras vendidas pelo sírio em sua barraquinha em Copacabana. No dia marcado, mais de 3 mil esfirras foram vendidas e muitas pessoas passaram pelo local para dar um abraço e demonstrar solidariedade com ele. Mohamed ficou extremamente contente com toda esta repercussão e afirmou ser "a pessoa mais feliz do mundo". Sobre este episódio, a professora Vanessa Souza afirmou para o jornal O Globo: "estamos vivendo um movimento mundial de muita intolerância. E essa iniciativa mostra que a força das pessoas que não concordam com isso é muito grande". Impossível discordar dela! Aliás, quer uma prova bastante concreta deste "movimento de intolerância" citado por ela? A poucos quilômetros da barraquinha do Mohamed, no Arpoador, um pequeno protesto contra os muçulmanos foi organizado por um grupo de cerca de 20 evangélicos ligados à Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, que seguravam cartazes com dizeres como "Alcorão: guia de estupros e assassinatos" e "Muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores". Felizmente, o apoio a este protesto foi muito menor que aquele demonstrado à Mohamed. A tolerância e o respeito, pelo menos neste caso, venceram!

A tolerância - Mohamed e apoiadores durante o Esfirraço
A intolerância - Protesto contra muçulmanos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

3 best-sellers para exercitar a empatia


Preâmbulo - Eric Arthur Blair queria se tornar escritor, mas não sabia bem por onde começar. Nascido na Índia em 1903,  Eric se mudou para uma pequena cidade na Inglaterra quanto tinha pouco mais de um ano. Sua família era, segundo sua própria descrição, de "classe média-alta inferior". Quando tinha cerca de 20 e poucos anos, após uma temporada em Burma (atual Myanmar), onde trabalhou em um posto na Polícia Imperial Indiana, decidiu retornar à Inglaterra e colocar em prática o seu desejo de escrever. Mas sobre o que escrever? Inspirado em Jack London, um autor que gostava muito, e também em certas ideias socialistas que lhe instigavam, Eric resolveu explorar a periferia de Londres. Mas ele não queria simplesmente observar, mas efetivamente se colocar no lugar de alguém que não possuia quaisquer bens materiais. Eric queria sentir na pele como era ser pobre em Londres na década de 1920. E para tanto viveu, por algum tempo, como um mendigo, perambulando pelas ruas miseráveis da cidade. O relato deste período se transformou em seu primeiro ensaio, intitulado "The strike". Em seguida, Eric se mudou para Paris, onde se hospedou em um alojamento vagabundo e chegou a trabalhar, por um tempo, como lavador de pratos em um hotel. Neste período, em que chegou a passar fome em diversas ocasiões, pôde vivenciar e efetivamente sentir como é ser pobre. Eric escreveu, então, um relato pormenorizado destas duas experiências, que resultaram na obra Na pior em Paris e Londres - seu primeiro livro, publicado em 1933. E foi para a publicação desta obra que decidiu adotar o pseudônimo que o tornaria célebre: George Orwell. Posteriormente à publicação desta obra, Blair lançou muitas outras, dentre as quais duas que lhe conduziram ao panteão dos grandes escritores: 1984 e Revolução dos bichos. Mas não seria equivocado dizer que a "imersão empática" empreendida pelo jovem Eric na vida dos pobres cimentou a visão social crítica que o maduro Orwell consagraria em sua obra vindoura. 

Posteriormente, outros escritores recorreram a esta estratégia de "imersão" para tentar compreender como se sentem e vivem determinados indivíduos e grupos sociais. Quase setenta anos após a experiência de Orwell, a jornalista Barbara Ehrenreich (que já apresentei em outro post) decidiu sentir na pele como é ser pobre nos Estados Unidos. Para tanto, trabalhou por um longo período em uma série de subempregos (como garçonete, faxineira e atendente em um asilo) e tentou se "virar nos 30" com os baixíssimos salários. O resultado é o maravilhoso livro Miséria à americana, lançado em 2001 e já publicado no Brasil Outro exemplo interessante de jornalismo de imersão é o livro Cabeça de Turco, escrito pelo jornalista alemão Günter Wallraff. Nesta obra, o autor relata a dolorosa experiência de viver e trabalhar por dois anos em empregos precários como se fosse um imigrante turco na Alemanha. O livro, lançado em 1985, foi um escândalo na época por escancarar o preconceito e a marginalização a que estavam sujeitos os imigrantes no país. Muitos outros exemplos poderiam ser citados de experiências de imersão, no entanto gostaria de trazer uma reflexão sobre esta maneira de se "exercitar" a empatia. Ainda que se constitua como uma forma profunda de "sentir na pele", trata-se de um método extremamente complicado de se colocar em prática - tanto por exigir um grande investimento pessoal de tempo e energia quanto por demandar grande coragem. No entanto, existem outras formas mais simples de se exercitar a empatia: ler livros, ver filmes, viajar, conversar, etc. E é tendo isto em vista que gostaria de indicar 3 livros, dentre os mais vendidos atualmente no Brasil, que podem contribuir para uma ampliação da capacidade de empatia de seus leitores. Certamente, como já disse anteriormente, não é possível se colocar de fato na pele e na perpectiva de outra pessoa, mas é possível imaginar como ela se sente. E este processo de imaginação pode ser decisivo para a construção de uma compreensão profunda a respeito de como vivem e quais dificuldades enfrentam determinadas pessoas e grupos diferentes de nós. Os três livros indicados e brevemente analisados abaixo podem contribuir fortemente para isso. #ficaadica

1- Na minha pele - Editora Objetiva, 2017.

Neste livro de ensaios autobiográfico, o ator, diretor e produtor Lázaro Ramos reflete sobre os inúmeros desafios de ser negro - e de ser um ator negro - no Brasil. Sua história começa na pequena Ilha do Paty, na Bahia, onde Lázaro nasceu e viveu até a adolescência e segue até o presente. Neste percurso, o ator consagrado e agora escritor iniciante, faz um esforço narrativo - extremamente bem-sucedido, na minha visão - para que nos coloquemos momentaneamente "em sua pele". A ideia é que possamos compreender, especialmente aqueles que não são negros, o persistente, inegável e lastimável racismo existente no Brasil. Para tanto, Lázaro nos conta inúmeras histórias de sua própria vida e também da vida de companheiros e companheiras de luta que expõem a ilusão do mito da democracia racial no país - ainda defendido por algumas pessoas. Mas para além de histórias, Lázaro traz uma série de importantes reflexões sobre a contrução da identidade e da militância negra, sobre a inserção dos negros no mercado de trabalho (e também na publicidade, nas novelas e filmes), sobre os desafios da ascensão social e da criação de filhos negros, dentre muitas outras questões. Mas não se engane pensando que se trata de um livro voltado somente para pessoas negras. De forma alguma, afinal, a luta contra o racismo e a favor do respeito e da inclusão é (ou deveria ser) uma luta de todos. Como bem afirma o rapper Emicida, em uma frase escolhida por Lázaro como epígrafe de seu livro, "todos nós somos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obras e ir corrigindo isso".

Trecho do livro: "Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é a blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão do ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é 'menor' e de quem é 'criança' nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?"

2 - Outras formas de usar a boca - Editora Planeta, 2017. 

Neste interessante livro de poesias, que atualmente é a obra de "ficção" mais vendida no Brasil (embora não seja propriamente ficção), a poetiza, escritora  e ilustradora indiana radicada no Canadá Rupi Kaur traz uma série de pequenas poesias que retratam situações vivenciadas cotidianamente por mulheres de todo o mundo - o sucesso estonteante do livro, talvez o maior sucesso da poesia nesta década, certamente se deveu à grande idenficação que ele gerou em mulheres dos mais diversos países. Originalmente denominado Milk and honey (Leite e mel), Outras formas de usar a boca é, como está dito na contracapa, "um livro de poemas sobre a sobrevivência, sobre o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e a feminilidade". Ao longo de suas 200 páginas, Kaur, que também é responsável por todas as ilustrações do livro, fala sobre as dificuldades vivenciadas pelo fato de ser mulher, sobre a complexa relação com a família, sobre as dores e delícias das relações amorosas, sobre términos e recomeços. Dividido em quatro partes (a dor, o amor, a ruptura e a cura), Outras formas traz à tona, especialmente na primeira parte, muitos dos abusos, violências e opressões que as mulheres sofrem todos os dias em praticamente todos os lugares. E com isto a autora permite não só a identificação das mulheres com as situações e pensamentos retratados, mas também a possibilidade de que os homens pensem, repensem e desconstruam o próprio machismo.

Trecho do livro: 

"Sexo exige o consentimento dos dois
se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada
porque não está pronta
ou não está no clima
ou simplesmente não quer
e mesmo assim a outra está fazendo sexo
com seu corpo isso não é amor
isso é estupro"

3- Prisioneiras - Companhia das Letras, 2017

Escrito pelo famoso médico Dráuzio Varella, este é o último volume de uma fantástica trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro, que teve início com os livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012) - ambos foram adaptados para a televisão e o primeiro também para o cinema. Nesta nova empreitada, Dráuzio traz uma série de histórias e reflexões sobre o período de mais de uma década em que trabalhou como médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, onde vivem (ou sobrevivem) mais de duas mil mulheres. A ideia do autor, neste e nos livros anteriores da trilogia, é dar voz àqueles e àquelas a quem lhes é negada a voz. No caso de Prisioneiras, Dráuzio traz à tona, com sua sensibilidade habitual, as dolorosas histórias de vida das mulheres invisíveis que vivem na penitenciária. São mulheres em geral pobres e negras, muitas vezes vítimas de violência doméstica e abusos de todo tipo e que, após serem presas, majoritariamente por tráfico de drogas, são abandonadas e esquecidas por todos - o que não acontece com os homens, prova mais do que concreta de que o machismo está de fato presente em todos os lugares. Entregues à própria sorte, acabam por buscar algum conforto e alicerce nas relações com as outras prisioneiras. Assim como a maravilhosa série Orange is the new black (que embora se passe em um outro contexto apresenta muitos pontos em comum com a realidade brasileira), Prisioneiras cumpre plenamente a missão de humanizar essas tão desumanizadas mulheres, nos permitindo adentrar em suas perspectivas e, com isso compreender que suas vidas não se resumem a um artigo do Código Penal. Se a maioria das pessoas conseguisse sentir empatia por estas mulheres, ao invés de simplesmente taxá-las de bandidas e ignorá-las, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver.

Trecho do livro: "De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira. Enquanto estiver preso, o homem contará com a visita de uma mulher, seja a mãe, esposa, namorada, prima ou a vizinha, esteja ele num presídio de São Paulo ou a centenas de quilômetros. A mulher é esquecida".

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Trans-formações: uma resenha do livro "Vidas trans"

A temática da transexualidade ou da transgeneridade tem recebido grande destaque nos meios de comunicação e também no mundo acadêmico. Só na rede Globo, por exemplo, o tema está sendo tratado na novela A força do querer, que possui um personagem transhomem, e foi retratado no início deste ano na série documental Quem sou eu? do programa Fantástico - o canal GNT, ligado à Globosat, também possui um programa especialmente dedicado ao tema, o Liberdade de gênero. Já no meio acadêmico, é possível observar que nunca tantas pesquisas, artigos, dissertações e teses foram feitas sobre o tema. Certamente isto tem um lado positivo: trazer à tona esta temática pode fazer com que gradualmente as pessoas trans, ainda fortemente invisibilizadas, marginalizadas e alvo de grande violência, sejam reconhecidas e respeitadas pela sociedade. No entanto, esta visibilidade possui um lado negativo: em grande parte das vezes as pessoas trans são meros "objetos" e não "sujeitos" da própria narrativa. Tais pessoas em geral são "personagens" e não "protagonistas" dos programas de TV e das pesquisas acadêmicas. Quase sempre os/as diretores/as e roteiristas de tais programas, os atores/atrizes que interpretam personagens trans e ainda os/as pesquisadores/as que estudam o "fenômeno trans" são pessoas cis, isto é, pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. No caso da novela, por exemplo, quem interpreta o personagem trans é uma atriz cis, o mesmo ocorrendo em quase todas as novelas, filmes e séries que retratam pessoas trans - duas honrosas exceções ficam por conta das séries Orange is the new black, que possui uma personagem trans interpretada pela atriz Laverne Cox, e Sense8, dirigida pelas irmãs trans Lilly e Lana Wachowski e que possui em seu elenco a talentosa atriz Jamie Clayton, também trans. 

Tendo isto em vista, é com grande satisfação que me deparei com o livro "Vidas trans: a coragem de existir", recém-lançado pela editora Astral Cultural e escrito 100% por pessoas trans. Prefaciado pela famosa cartunista Laerte Coutinho (que foi recentemente retratada no documentário Laerte-se, disponível no Netflix) e também pela psicóloga, pesquisadora e blogueira Jaqueline Gomes de Jesus, autora dos livros Transfeminismo: teorias e práticas (2014) e Homofobia: identificar e prevenir (2015), "Vidas trans" traz quatro narrativas em primeira pessoa escritas por célebres pessoas trans brasileiras: 1) a travesti Amara Moira, que é doutoranda em teoria literária pela Unicamp, autora do livro E se eu fosse puta (2016) e colunista da Mídia Ninja em assuntos que envolvem gênero e direitos dos LGBTs e das profissionais do sexo; 2) o transhomem João W. Nery, que é psicólogo, autor da magnífica autobiografia Viagem solitária: memórias de um transexual 30 anos depois (2011) e o primeiro homem trans a ser operado no Brasil - em 1977, em plena ditadura militar (além disso João Nery dá nome ao Projeto de Lei de Identidade de Gênero, proposto pelos deputados federais Jean Wyllys e Érica Kokay e ainda em tramitação no Congresso Nacional); 3) a travesti Márcia Rocha, que é empresária, advogada integrante da Comissão de Diversidade Sexual da OAB, representante do Brasil no Comitê de Direitos Sexuais da World Association for Sexual Health (WAS) e uma das idealizadoras da Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat) e do projeto Transempregos (além disso Márcia Rocha foi a primeira advogada travesti a ter registrado o nome social na carteira da OAB) e 4) o transhomem T. Brant (antes Tereza Brant e agora Tarso Brant), que é ator e modelo, serviu de inspiração para o personagem trans de A força do querer e agora compõe o elenco da novela (além disso, Tarso Brant é também youtuber, sendo responsável pelo canal/blog Ela ou ele)  

Amara Moira, João W. Nery e T. Brant
No livro, cada uma destas pessoas conta a sua própria história. São narrativas de dor, mas também de crescimento e superação e que expõem muitas das dificuldades vivenciadas pelas pessoas trans no Brasil. Estas histórias, embora tenham elementos bastante peculiares, trazem alguns pontos em comum: a  falta de identificação, desde criança, com o gênero atribuído ao nascimento e, pelo contrário, uma grande identificação com as vestimentas, características e pessoas do outro gênero; grande dificuldade para "sair do armário" e agir publicamente conforme o gênero que se identifica (no livro, há vários relatos de "vida dupla", na qual em público a pessoa atuava, literalmente atuava, de acordo com o gênero "estabelecido" e somente na vida privada agia livremente segundo o gênero "sentido"); dificuldades relacionadas à rejeição da família, dos amigos e da sociedade em geral; a importância da internet e das redes sociais para a descoberta e interação com outras pessoas trans; a insatisfação com o próprio corpo, o processo de hormonização, as cirurgias, etc. Os relatos também tocam em uma série de entraves bastante comuns à população trans, como a dificuldade em alterar legalmente o nome civil, que gera inúmeros constrangimentos e violências cotidianas, a dificuldade em conseguir emprego, que leva muitas pessoas trans, especialmente as mulheres, à prostituição (o projeto Transempregos atua justamente nesta questão), e, finalmente, dificuldades relacionadas ao processo de transformação corporal. Enfim, as tocantes narrativas presentes neste livro nos permitem adentrar momentaneamente na vida destes indivíduos e compreender os seus pontos de vista, suas dores e suas alegrias. E com isso podemos exercitar nossa empatia e entender ou relembrar que existem inúmeras formas de viver o gênero (e a sexualidade) para além daquelas que a sociedade julga "normal".