quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Assim disse o psicólogo...


Inspirado no excelente blog MindHacks (neste post), pesquisei no Google Notícias - somente para o ano de 2009 - as seguintes expressões: "diz o psicólogo", "diz a psicóloga", "psicólogo diz" e "psicóloga diz". Abaixo algumas das análises, conclusões ou indicações de nossos colegas de profissão - ou dos jornalistas que os entrevistaram (nunca dá pra saber quem falou o quê):

"Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo"

“Os opostos nunca se atraem”

"Facebook faz as pessoas mais inteligentes"

"Harry Potter é como uma droga"

“O eleitor sabe que o presidente pode dizer besteiras de vez em quando” (sobre o Lula)

“Como em tudo na vida, o importante é buscar o equilibro”

“Quando a personalidade é psicótica, a pessoa pode ser imprevisível e destrutiva”

“Temos que ouvir, dar conselhos úteis às pessoas e não nos podemos deixar envolver”

“A baixa autoestima é um problema crescente hoje”

"Atritos nas relações familiares podem causar problemas sérios"

"Qualquer criança dá trabalho"

"Há 20 anos, os jovens queriam mudar o mundo, hoje querem ganhar dinheiro"

“Na presença das sogras ou noras, o seu pior lado floresce”

"Propaganda de cerveja na televisão estimula o alcoolismo"

"A transmissão de valores às crianças se dá, justamente, através de exemplos"

"Evitar a dor no período neonatal faz com que as crianças apresentem menos problemas de comportamento, falta de atenção, agitação”

"Ciúme é um mecanismo de defesa do corpo"

"Nós temos jovens com perspectivas de vida e esses jovens podem ser a grande esperança do nosso país"

"Selinho não deve ser hábito entre pais e filhos" (sobre o episódio em Fortaleza)

“É preciso desapegar, aprender a perder"

"Briga entre pais estressa as crianças"

"A convivência com o irmão faz parte de um aprendizado saudável"

"Pais não conhecem os filhos"

"Bullyng começa em casa"

"Adriano é doce e obediente" (sobre o jogador de futebol)

Certamente há falas interessantes e ponderadas e outras nem tanto, mas o que percebo é que fala-se demais. Sobre tudo, todos e, na maioria das vezes, sem nenhum embasamento - científico, técnico ou qualquer coisa que fuja do senso comum, do achismo ou do puro e simples moralismo. Generaliza-se demais, naturaliza-se demais ("isto é, sempre foi e sempre será assim"), prescreve-se demais ("isto é certo, isto é errado"), interpreta-se demais, simplifica-se demais! Fala-se de tudo, mas não se fala nada! Não dá pra generalizar, claro. Há ótimas exceções, mas a regra ainda parece ser falar o óbvio - ainda que eu também pense que o óbvio muitas vezes precisa ser dito e redito pra vigorar. Mas não o tempo inteiro!!!

Sei também, por experiência própria, que jornalistas muitas vezes distorcem ou reduzem substancialmente a fala dos entrevistados. Outro dia mesmo dei uma entrevista e, quando fui ler sua publicação, observei que a jornalista selecionou uma ou duas frases de efeito minhas, misturou com algumas frases buscando sintetizar o que eu falei e opiniões dela própria... isso "tudo" em menos de dois parágrafos curtos. E olha que nós conversamos por mais de uma hora... Por tudo isso recomendo cautela a nossos colegas psicólogos na hora de darem entrevistas. Se realmente se dispuserem a falar, por favor, falem somente sobre o que entendem e dominam - e com muito cuidado. O que está em jogo, para além do reconhecimento pessoal decorrente da exposição, é a credibilidade da própria Psicologia - ciência e profissão - na e pela sociedade.

Homofobia e estupidez humana


No site do Senado Federal está ocorrendo uma enquete bizarra (link): "Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais?". O resultado, mais bizarro ainda, pode ser visto acima. Até o momento há um empate técnico. Em seu blog, o crítico de cinema Pablo Vilaça comentou de forma brilhante tal enquete:

Ora, para mim, esta seria uma pergunta óbvia por natureza. Como assim, se sou a favor de uma lei que pune a discriminação? Isto é pergunta que se faça? O que perguntarão a seguir... se sou contra apedrejamentos e estupros? Que pergunta idiota. Quem, em pleno 2009, seria capaz de defender o preconceito? Quem, a esta altura do campeonato, poderia justificar que a intolerância se transformasse em lei? Aparentemente, metade das quase 300 mil pessoas que votaram na enquete. Há momentos em que, confesso, as palavras me fogem. Busco articular minha descrença, minha revolta, e é como se artigos, substantivos e adjetivos olhassem para mim e dissessem: "Que se foda! Se vire sem a gente; isso tudo é absurdo demais para nós!". E é profundamente absurdo. Mais: é surreal. Que tipo de gente é esse? Quem são esses seres humanos que se julgam tão superiores aos seus colegas de espécie que são capazes de afirmar que o preconceito é algo que deveria ser permitido pelo Estado? Já não basta negar certos direitos aos homossexuais (como o casamento)? Agora é preciso tirar deles também o direito de serem respeitados? Sério: quem são essas pessoas?

Os videos abaixo respondem à pergunta de Pablo:



Afinal, como disse Einstein, "duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; e eu não estou certo a respeito do universo".

Bullshit e o efeito placebo



Está sem legendas mas não é difícil entender o que se passa. Achei muito engraçado! E só para situá-los: este é um trecho de um brilhante e polêmico programa de TV americano: Bullshit (que poderia ser traduzido por "Bobagem"", "Besteira" ou "Lorota"), apresentado pelos famosos mágicos céticos-ateístas-liberais Penn e Teller. Este programa (exibido no Brasil pelo canal pago FX) tem o intuito básico de desmascarar charlatães e práticas ditas pseudocientíficas. Neste episódio em particular (que pode ser visto legendado e na íntegra, clicando-se aqui), o objetivo deles é jogar por terra a "medicina alternativa", mostrando que ela não passa de sugestão e que tudo se deve ao efeito placebo. O grande problema, na minha opinião, é que eles entendem o efeito placebo como algo ruim (coisa de gente sugestionável e estúpida) "gerado" por gente sacana e mal-intensionada (os charlatães), quando, na minha opinião, as coisas não são bem assim. Ou, pelo menos, não sempre assim! Não percebem também que o efeito placebo está presente inclusive nas práticas ditas "sérias" e "científicas" e que ninguém escapa à sugestão. Nem os céticos... Somos todos influenciáveis! Um bom exemplo é o jaleco dos médicos. Sua função vai muito além da higiênica. Junto com o estetoscópio no pescoço, o "efeito jaleco" gera maior confiança no profissional e, certamente, contribui para uma maior eficácia do tratamento. Talvez seja o que Lévi-Strauss chamou de "eficácia simbólica". E quanto aos psicólogos, quais serão seus "jalecos"?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"Origem das Espécies" - 150 anos



Em homenagem aos 150 anos da publicação do clássico "Origem das espécies", de Charles Darwin, fiz uma seleção (e, em alguns casos, tradução e adaptação) de alguns cartuns relacionados à obra deste revolucionário inglês, que mudou a forma como encaramos o mundo e a posição do homem diante das demais espécies. Ou melhor, tentou mudar. Muitos ainda insistem em acreditar que a seleção natural é "só mais uma teoria" e que a vida foi criada, de uma só vez, por Deus à cerca de 6 mil anos e que Adão e Eva foram os primeiros exemplares da espécie humana. Então tá!





sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Galeria Psi - Asylum



No primeiro parágrafo do clássico livro Asylums (traduzido no Brasil por Manicômios, prisões e conventos - Ed. Perspectiva, 2003), o sociólogo Erving Goffman define instituição total como "um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada".

Como o título em português aponta, são exemplos de instituições totais os manicômios (também chamados de hospitais psiquiátricos), as prisões, os conventos, os colégios internos, etc. Os manicômios, a partir da reforma psiquiátrica, que prega um tratamento mais humanizado aos chamados "doentes mentais", vêm sendo gradativamente abandonados no mundo todo. Muitos foram demolidos, outros sofreram adaptações e deram lugar a hotéis, museus, etc.

E é exatamente estes espaços abandonados que atraíram a atenção do fotógrafo Christopher Payne. Ele fotografou inúmeros hospitais psiquiátricos americanos e reuniu as fotografias no livro "Asylum - Inside the closed world of State Mental Hospitals", prefaciado pelo famoso neurologista Oliver Sacks, autor do belísismo livro (que inspirou o filme) Tempo de Despertar, que relata seu trabalho exatamente em uma instituição de saúde mental. Segundo o blog Mind Hacks, as fotos, reunidas pelo jornal New Scientist, captam "a grandiosidade desbotada de alguns destes edifícios impressionantes e tem fotos dos equipamentos e tecnologia de uma psiquiatria de uma época passada". Abaixo algumas fotos. Mais aqui e aqui.












quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Não dá para competir - Volume 11


Para ver os volumes anteriores clique aqui.

Por que os argentinos amam psicanálise?



Recentemente, foi publicado no blog Mind Hacks o seguinte post (traduzido de forma amadora por mim):

Argentinos tem uma relação de amor com a psicanálise

O Street Journal publicou um artigo revelador sobre porque a Argentina tem a maior concentração de psicólogos em todo o mundo e porque tem uma longa fascinação cultural com a psicanálise.

A psicanálise é um conjunto de teorias psicológicas e uma forma de psicoterapia fortemente baseados nas idéias de Freud. Buenos Aires é um dos centros mundiais da psicanálise e o tem sido desde os primórdios da obra de Freud.

Ao contrário de muitos países, onde a psicanálise foi e continua a ser uma psicologia para os ricos, a prática decolou na Argentina durante os anos 1960 até o ponto onde hoje é comum para as camadas populares encontrar um analista. O WSJ cita um estudo recente que sugere que 32% dos argentinos fizeram análise em algum momento de suas vidas.

A argentina também é conhecida como um centro de psicanálise lacaniana, baseada no trabalho do psiquiatra francês Jacques Lacan. Se você puder, imagine um francês pós-moderno apropriando-se de Freud. Se não puder, ler Lacan é improvável que ajude, porque é uma reinterpretação quase impenetrável do que já era um conjunto de teorias razoavelmente arraigadas (loopy) em diversos lugares.

Mas a psicanálise é mais do que uma prática psicológica na Argentina, é uma parte central da cultura e o artigo do WSJ explora um pouco de sua popularidade:

A psicanálise está incorporada na geografia de Buenos Aires, onde muitos analistas estão agrupados em um bairro conhecido popularmente como Villa Freud.

O pensamento freudiano permeia o noticiário político. O semanário Noticias recentemente convidou para um painel 10 psicanalistas para explicar o comportamento do ex-presidente Néstor Kirchner, que está roubando os holofotes políticos de sua esposa, Cristina, a atual presidente.

Uma revista pergunta: O que fazer com a afirmação da Sra. Kirchner de que o marido dorme em posição fetal?

Enquanto isso, na TV, uma série dramática chamada "Tratame Bien" ( "Trate-me bem"), centra-se nas agruras de José e Sofia, marido e mulher, cada um com um analista. Diante de uma crise de meia-idade, os dois tomam uma decisão importante: manter um terceiro analista para que possam fazer juntos uma terapia de casal.

Curiosamente, grande parte da America Latina ainda é fortemente influenciada pela psicanálise, provavelmente devido às influências históricas dos E.U.A. no Norte e da Argentina no Oeste. [link]

Entretanto, desde que trabalho aqui, eu percebi que fazer uma psicologia e psiquiatria baseadas em evidências é muito mais difícil em países com recursos limitados.

Acesso às evidências é caro (graças ao uso restritivo dos direitos autorais e dos excessivos preços dos jornais/ revistas científicos) e a pesquisa é difícil quando há pouco tempo livre e poucas oportunidades de financiamento.

No entanto, isso não se configura como um problema para os psicanalistas, porque suas maiores fontes de informação são a sua própria experiência, insights e o trabalho com o paciente, além de discussões em um conjunto limitado de revistas.

Em outras palavras, é muito mais fácil cumprir os requisitos do que se espera de um bem informado e competente psicanalista do que o que se espera de um psicólogo orientado cientificamente e baseado em evidencias (scientifically-oriented evidence-based psychologist). [link]

Isso, eu suspeito, é uma das muitas razões pela quais a psicanálise continua a ser popular na América Latina.
Psicanalistas e psicólogos latino-americanos, durmam c
om essa...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dependentes de Redes Sociais Anônimos

Rozângela Justino joga a toalha...



Li hoje no blog do jornalista Paulo Roberto Lopes (link):

Psicóloga desiste de atender quem quer deixar de ser gay

A psicóloga evangélica Rozangela Justino comunicou à “sociedade brasileira” em seu blog que não mais atenderá as pessoas que desejam deixar de ser gays. Ela disse que, além de pressão do CFP (Conselho Federal de Psicologia), tem sido ameaçada de morte por militantes gays. “Já comuniquei as autoridades a respeito de tais ameaças.” Em julho deste ano, o CFP anunciou uma censura pública a Rozangela com base na resolução 01/99 da entidade segundo a qual a homossexualidade não é doença, nem distúrbio e perversão. Na época ela já dizia estar sendo recebendo ameaças anônimas, tanto que, para não ser reconhecida, deu entrevista com uma máscara hospitalar. Mesmo assim reafirmou que ia continuar tratando de pessoas descontentes com a sua homossexualidade. Agora, Rozangela mudou de ideia para não perder o registro profissional. “Estou gradativamente encerrando as minhas atividades no consultório e desde a minha punição pelo CFP não recebo pacientes novos”, escreveu. Disse estar inconformada em ter de abandonar um trabalho o qual desenvolve desde 1988. E, reafirmando o seu ponto de vista, que tanto tem desagrado o movimento gay, disse que ninguém nasce homossexual, e quem deseja deixar de sê-lo deveria ter o direito de contar com a ajuda de profissionais da psicologia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ofensa




Fonte: Bruno Drummond (Revista O Globo - 15/11/2009)