quarta-feira, 2 de maio de 2018

10 livros para entender o funcionamento da memória

Já  tratei do tema da memória inúmeras vezes neste blog, assim como de outros temas relacionados às áreas da psicologia cognitiva e neurociências. Gostaria agora de indicar uma série de livros, todos publicados no Brasil (alguns esgotados na editora, infelizmente, mas disponíveis em sebos virtuais), que qualquer pessoa que se interesse em compreender o funcionamento da memória humana pode buscar para ampliar seu conhecimento sobre o assunto. Certamente, todos os anos são lançados inúmeros livros sobre o tema, em especial manuais de auto-ajuda que prometem "potencializar sua memória", no entanto, a grande maioria desses livros é simplesmente lixo ou "mais do mesmo" e raramente trazem discussões aprofundadas e consistentes sobre a psicologia e a neurobiologia da memória. Já os livros abaixo certamente trazem importantes contribuições para o entendimento deste complexo e multifacetado tema.

1-  Memória (Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia) - L&PM, 2011.

Este pequeno livro lançado pela editora L&PM em 2011 é uma ótima introdução ao tema, talvez a melhor disponível no Brasil. Escrito pelo pesquisador Jonathan K. Foster, que é também professor de neuropsicologia clínica e neurociência comportamental na Universidade de Curtin, na Austrália, esta tradução do livro Memory: a very short introduction passa pelas principais questões relacionadas ao tema, como os diferentes tipos de memória, suas bases neurobiológicas, as imprecisões e os distúrbios mnemônicos, etc. Trata-se de uma pequena mas consistente obra, extremamente indicada para aqueles que pretendem iniciar neste tema.

2- Psicologia cognitiva - Artmed, 2016.

Escrito pelo psicólogo Robert Sternberg em parceria com sua esposa, a também psicóloga Karin Sternberg, este manual básico sobre a área da psicologia cognitiva é um ótimo material para quem pretende entender de uma forma um pouco mais aprofundada o funcionamento da memória humana, tema que livro dedica dois capítulos. Importante destacar que estes capítulos se focam na psicologia da memória e não tanto na neurobiologia da memória. Portanto, caso seu interesse seja entender as bases cerebrais da memória existem outros livros mais adequados, como "Em busca da memória" e "Presente permanente", que apresentarei brevemente abaixo.

3- Em busca da memória - Companhia das Letras, 2009.

Este livro clássico, infelizmente esgotado no Brasil e disponível apenas por valores altíssimos em sebos virtuais, foi escrito pelo neurocientista, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, Eric Kandel. Trata-se de uma obra fundamental para todo e qualquer estudioso da memória. Em um calhamaço de mais de 500 páginas, Kandel nos conta sua trajetória pessoal e acadêmica ao mesmo tempo em que descreve as pesquisas sobre o funcionamento cerebral realizadas ao longo dos séculos XIX e XX. Em especial ele narra em detalhes a evolução de sua pesquisa com o molusco Aplysia californica, que revolucionou os estudos cerebrais sobre a memória.

OBS: há um interessante documentário baseado neste livro, disponível legendado aqui.

4- A arte e ciência de memorizar tudo - Nova Fronteira, 2011.

Neste maravilhoso livro lançado em 2011 no Brasil - e infelizmente esgotado - o jornalista Joshua Foer traz um ensaio autobiográfico delicioso sobre o funcionamento da memória. Seu bizarro título original, Moonwalking with Einstein [Dançando Moonwalk com Einstein], acabou por ser ignorado pelos editores brasileiros, que optaram por transformar o subtítulo em título. Na resenha do livro que publiquei no ano de seu lançamento eu apontei: "o mais interessante do livro é que o relato de sua jornada é entrecortado por explicações sobre o funcionamento da memória, entrevistas com pessoas com memórias excepcionais e com amnésias severas, discussões históricas sobre o tema, além de algumas técnicas para melhorar a memória".

OBS: assista aqui uma interessante palestra, legendada, do autor deste livro.

5- Os sete pecados da memória - Rocco, 2003.

Escrito por Daniel Schacter, professor e pesquisador na Universidade de Harvard - e uma das maiores autoridades do mundo no estudo da memória - este livro trata das falhas "normais" da nossa memória, isto é, daquelas falhas não-patológicas que acometem todas as pessoas. Schacter aponta para sete falhas ou transgressões, que ele denomina ironicamente de "pecados": a transitoriedade, a distração, o bloqueio, a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a persistência - neste post é possível encontrar uma breve definição de cada um destes pecados. Enfim, neste livro excepcional, o pesquisador analisa em detalhes as principais falhas de nossa memória apontando ainda para a importância fundamental do esquecimento.

6/7- O gorila invisível - Rocco, 2011/ O Rio da consciência - Companhia das Letras, 2018.


No sensacional livro O gorila invisível, lançado em 2011 no Brasil, os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons analisam diversos "equívocos da intuição", dentre eles, no segundo capítulo, a chamada "ilusão da memória" - que não coincidentemente, é o título de um post que publiquei em 2017. De uma forma resumida é possível dizer que o segundo capítulo deste livro, denominado "O técnico que esganou", trata da questão das falsas memórias, mesmo tema, aliás, de um ótimo ensaio de Oliver Sacks, "A falibilidade da memória", publicado postumamente no livro O Rio da consciência. Estes dois ensaios tratam com brilhantismo da natureza construtiva das nossas memórias.

8- Presente permanente - Record, 2018.

Lançado no início de 2018 no Brasil, este livro - talvez o grande lançamento do campo das neurociências este ano no país - foi escrito pela renomada neurocientista Suzanne Corkin, falecida em 2016. Nesta obra de peso, Corkin faz uma narrativa completa e profunda dos mais de 50 anos de pesquisa com o paciente H.M. - que após sua morte, em 2008, descobrimos se chamar Henry Molaison. Se você já leu algum livro sobre o funcionamento da memória é muito provável que ele tenha mencionado H.M., um sujeito epilético que aos 27 anos de idade foi submetido a uma neurocirurgia que lhe retirou o hipocampo, dentre outras partes de seu cérebro, e que, desde então, nunca mais conseguiu formar novas memórias - vivendo, desde 1953, em um "presente permanente". Em seu maravilhoso livro, Corkin relata a fundamental importância das pesquisas com Henry para o avanço da compreensão científica sobre o funcionamento das nossas memórias. Afirma Corkin sobre Henry: "sua tragédia tornou-se um presente para a humanidade. Ironicamente, ele nunca será esquecido".

9/10- A mente e a memória/ O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Cada um destes dois livros traz um relato de caso de certa forma oposto ao outro. No primeiro, um clássico do neuropsicólogo russo Alexander Luria, publicado em 1968 com o título original de The mind of a mnemonist [A mente de um mnemonista], encontramos um relato incrivelmente detalhado de um sujeito, chamado por Luria simplesmente de S., que possuia uma memória infalível e ilimitada. Importante destacar que Luria possui um outro livro de relato, denominado O homem com o mundo estilhaçado, que apresenta um sujeito que, na contramão de S. teve um severo comprometimento cognitivo, inclusive mnemônico, em função de uma lesão de guerra. Já o segundo livro, um clássico do neurologista Oliver Sacks publicado originalmente em 1985, somos apresentados, no segundo capítulo, ao caso do "Marinheiro perdido", um sujeito que devido à Síndrome de Korsakov desenvolveu uma severa amnésia que, tal qual H.M., o impediu de formar novas memórias. Todos estes casos ilustram com brilhantismo o funcionamento normal e anormal da memória.

OBS: O ensaio "O marinheiro perdido" inspirou um belo curta-metragem de animação. Veja aqui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Atiradores em escolas: como explicar o inexplicável?

Cena do filme "Elefante" de Gus van Sant
Basta que um jovem entre em uma escola atirando - como ocorreu esta semana nos Estados Unidos, mais uma vez - para que apareça na mídia um monte de gente, inclusive psicólogos e psiquiatras, culpando o bullying e os games violentos pela situação. Muita calma nessa hora, pessoal! Não sejamos tão simplistas, afinal de contas, muitas pessoas sofrem ou sofreram bullying e jogam games violentos e não saem por aí atirando em pessoas. Eu mesmo sofri bullying na escola por muitos e muitos anos e joguei video games violentos por toda a infância e adolescência... e eu nunca entrei na minha escola atirando nas pessoas; nem outros colegas que também sofreram bullying; e nem a absoluta maioria das pessoas que sofre bullying e joga games violentos. Veja bem que eu não estou dizendo com isso que o bullying seja algo aceitável e nem que os jogos violentos não possam ter algum impacto negativo, mas que tais explicações são insuficientes. Em algum momento é preciso admitir que nestes e em outros casos, não há propriamente uma explicação. Podemos apontar milhares de explicações mas elas nunca serão suficientes, pois cada explicação isoladamente nunca explicará completamente (e muito menos justificará) uma atitude dessas. Eventos como esse, além de imprevisíveis, são, em grande medida, inexplicáveis.

Cena do Massacre em Columbine, em 1999
É possível também atribuir a culpa de tais episódios a problemas familiares, transtornos mentais e ainda ao acesso facilitado a armas. Certamente, todos estes elementos podem contribuir, mas nenhum sozinho tem a capacidade de explicar. Afinal de contas, todas as pessoas possuem, em alguma medida, problemas familares e inúmeras foram diagnosticadas com transtornos mentais - e somente uma ínfima parcela delas sai por aí atirando em outras pessoas. O acesso às armas também ajuda a explicar os episódios de tiroteio em escolas, mas mesmo este elemento não é decisivo. Certamente, um acesso facilitado a armas, como ocorre na maior parte dos Estados Unidos, contribui para o problema na medida em que diminui a dificuldade do sujeito para encontrar uma arma, mas se o acesso é facilitado para ele, também é facilitado para todos os demais jovens que não entram na escola atirando nos colegas. Regulamentar e restringir o acesso a armas muito provavelmente contribui para a prevenção de inúmeras situações, mas infelizmente isto não impede que outras aconteçam de tempos em tempos. E o motivo é simples: mesmo em países com regulamentações mais severas, como é o caso do Brasil, é possível que o sujeito consiga ilegalmente uma arma. Mas o que fazer, então? Simplesmente cruzar os braços e esperar o próximo tiroteio? De forma alguma! Muitas coisas podem ser feitas: trabalhos de prevenção e combate ao bullying nas escolas, intervenções psicossociais junto aos estudantes e suas famílias, regulamentação e restrição ao porte de armas, etc. Tudo isso pode contribuir e de fato contribui para a prevenção de inúmeros episódios (que deixaram de ocorrer) mas infelizmente não há nada infalível que possa ser feito para acabar definitivamente com o problema - ainda mais porque, assim como o suicídio, um caso acaba por servir de inspiração ou modelo para o outro. A grande questão é que situações com múltiplas causas, individuais e sociais, são também, por sua própria natureza, incontroláveis e imprevisíveis.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O fim da Psicologia está próximo?

No ano passado, um antigo professor meu, que deixou o Brasil para trabalhar em uma universidade norte-americana, comentou em uma palestra que tem observado uma curiosa (e perigosa) preponderância dos estudos cerebrais nos departamentos de Psicologia dos Estados Unidos - em detrimento de estudos "mentais" e comportamentais, por exemplo. Segundo ele, dificilmente um projeto de pesquisa em psicologia consegue um financiamento significativo caso não mencione a palavra "cérebro". Na mesma direção, os autores deste artigo apontam para um curioso fenômeno no qual os departamentos de Psicologia de universidades norte-americanas vem gradualmente alterando os próprios nomes de forma a incluir o foco nas neurociências. Assim, é possível encontrar, atualmente, em prestigiosas universidades americanas não mais "departamentos de psicologia" mas sim "departamentos de psicologia e ciências cerebrais" ou "departamentos de psicologia e neurociências". De uma forma geral, os autores apontam, com preocupação, que a psicologia, nos últimos 20 anos, "adotou cada vez mais o cérebro como o mais importante nível de análise para a compreensão de fenômenos psicológicos, como as emoções, os pensamentos, os distúrbios de humor e ansiedade, os vícios e os problemas sociais". E isto, na visão deles, é muito danoso, pois reduz o foco da psicologia apenas a um nível de análise, quando há muitas outras formas e abordagens para se estudar o ser humano. No Brasil, talvez pela considerável força e presença da psicanálise e dos psicanalistas nos cursos de psicologia - e também, minoritariamente, dos humanistas e comportamentalistas - este processo vem ocorrendo de forma muito mais lenta - isto para não falar do alto custo dos estudos cerebrais associado ao baixo investimento governamental em pesquisa nos últimos anos. 

De toda forma, esta expansão das abordagens "neuro" no interior das áreas "psi" (que inclui também a psiquiatria) vem gerando preocupação em alguns pesquisadores, que especulam que em algum momento a neurociência poderá "engolir" a psicologia - se não totalmente, pelo menos hegemonicamente. E com isso, a psicologia, uma disciplina híbrida que historicamente oscila entre abordagens mais biológicas e abordagens mais psico-sociológicas, se inclinaria fortemente para a biologia. Para alguns, isto significaria o fim da psicologia como atualmente a entendemos; já para outros seria uma oportunidade para a psicologia se reinventar e se tornar de fato uma disciplina científica. Analisemos, por exemplo, o artigo  The imminent decline of psychology (as we know it today) (2017) [O iminente declínio da Psicologia (como a conhecemos hoje)], escrito pela psicóloga Jesús Retto, do departamento de Psicologia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, no Peru. De acordo com a autora, "o vertiginoso avanço tecnológico no campo da Inteligência Artificial, juntamente com a rápida expansão das Neurociências, está gradualmente tirando o lugar dos vários campos de estudo da Psicologia. Tanto que o seu desaparecimento - como a conhecemos hoje - é previsível em um futuro não muito distante, tanto como disciplina quanto como profissão". Para Retto, diante deste cenário apocalíptico para a Psicologia, a única saída é que os psicólogos se adaptem à nova realidade e busquem incorporar em seus estudos e práticas profissionais os conhecimentos advindos das ciências do cérebro. Em sua visão, a neurociência tem a capacidade de "oferecer melhores respostas" do que a Psicologia para os problemas referentes à psiquê humana, tanto em função de sua natureza multidisciplinar quando devido aos recursos tecnológicos que ela possui.

Como vocês já devem estar imaginando, eu discordo veementemente desta posição, pois acredito - como já defendi em outros momentos - que as áreas da psicologia e da neurociência podem e devem coexistir e colaborar uma com a outra. Não é necessário, nem me parece sensato acreditar, que uma área venha a substituir ou subjugar a outra, afinal cada uma tem suas especificidades, seus objetivos e seus métodos e ambas podem trazer contribuições importantes para o desenvolvimento de teorias interdisciplinares sobre a complexa relação mente-cérebro-comportamento. A neurociência cognitiva, por exemplo, sendo a sub-área da neurociência que se ocupa dos mecanismos biológicos relacionados aos processos cognitivos (memória, atenção, percepção, etc) tem muito a ganhar ao se aproximar e dialogar com a psicologia cognitiva, sub-área da psicologia que investiga os mesmos processos de um ponto de vista mental e comportamental. E vice-versa. Isoladamente, cada área ou subárea consegue investigar apenas um determinado nível da realidade, mas juntas elas podem construir conhecimentos mais profundos e relevantes sobre a cognição humana. Como defendem os autores do importante artigo The role of neuroscience within psychology: A call for inclusiveness over exclusiveness (2016) [O  papel da neurociência dentro da psicologia: um chamado para a inclusão acima da exclusividade] o conhecimento neurocientífico tem muito a contribuir e a somar com a psicologia na medida em que possibilita a análise das bases cerebrais dos pensamentos, emoções e comportamentos humanos. Como apontam os pesquisadores, "a neurociência é um componente essencial da psicologia porque ela nos permite entender o funcionamento do cérebro, os efeitos das lesões cerebrais no funcionamento psicológico e neurológico e as regiões e processos associados com atividades mentais específicas". Mas a grande questão é que este é apenas um olhar ou um nível de análise possível, dentre muitos outrosImaginar, neste sentido, que a psicologia chegará a um fim, sendo gradualmente substituída pelas neurociências, só faz sentido caso se acredite que estudar os neurônios, sinapses e circuitos cerebrais seja suficiente para se entender a mente e o comportamento humanos. Da mesma forma, imaginar que a profissão de psicólogo chegará a um fim, sendo substituída por uma espécie de neuropsiquiatria clínica, só faz sentido caso se acredite na existência, ou na possibilidade de desenvolvimento, de medicações ou intervenções puramente cerebrais capazes de dar conta das angústias, tristezas e demais questões inerentes à subjetividade humana. Eu, definitivamente, não acredito nisso. E você?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"O cérebro vai ao tribunal": reflexões a partir do caso do motorista epilético

No último dia 18 de Janeiro um motorista perdeu o controle do carro e invadiu o calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, matando um bebê de 8 meses e deixando 17 pessoas feridas. Posteriormente descobriu-se que o motorista, que sobreviveu sem ferimentos, é epilético e teria tido, segundo seu próprio relato, confirmado por uma testemunha-chave, um ataque epilético enquanto dirigia naquele dia, o que teria causado o acidente. De toda forma, o motorista está sendo processado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e também por falsidade ideológica, devido ao fato de não ter mencionado sua doença no processo de renovação da carteira de motorista. Pra piorar sua situação descobriu-se que sua habilitação estava suspensa devido ao fato de que, em cinco anos, ele acumulou 14 multas e 62 pontos na carteira - o motorista alega não ter sido informado desta suspensão. Pois bem, se realmente for comprovado que ele tinha ciência da suspensão e que intencionalmente não mencionou ser portador de epilepsia no formulário para renovação da carteira, eu não tenho dúvidas que ele tem alguma responsabilidade no acidente, ainda que não tenha responsabilidade sobre o ataque epilético, se de fato ele ocorreu. Segundo as normas de trânsito brasileiras, uma pessoa diagnosticada com epilepsia pode sim dirigir, desde que a pessoa esteja se medicando corretamente e o quadro esteja controlado. De acordo com este site, "pacientes epiléticos que apresentam crises frequentes ou com intervalos inferiores a 1 ano não devem dirigir e estão impossibilitados de tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH)". Cabe apontar que para esta avaliação ser feita é necessário, antes de tudo, que a pessoa indique no formulário específico ser portadora de epilepsia. A partir daí, uma serie de avaliações médicas serão feitas ou exigidas de forma a avaliar, caso a caso, a gravidade da situação. 

Agora, vamos supor que o motorista em questão tenha de fato mencionado sua doença no questionário e sua avaliação tenha sido positiva, permitindo que ele tirasse a carteira de motorista e dirigisse por aí. Vamos supor ainda que o motorista estivesse tomando corretamente as medicações indicadas  e que, mesmo assim, ele tivesse tido o ataque epilético na Avenida Atlântica e atropelasse, no mesmo dia, as mesmas pessoas. Neste caso ele poderia ser considerado culpado da situação? Seu advogado de defesa certamente argumentaria - como provavelmente irá argumentar - que o acidente ocorreu devido a uma alteração elétrica no seu cérebro, sobre a qual ele não possui qualquer controle ou responsabilidade. "A culpa é do cérebro doente do meu cliente, meritíssimo, não do meu cliente", ele poderia argumentar. Se o juiz ou o júri seriam convencidos por esta alegação é uma outra história, mas é um fato estabelecido que tais argumentações focadas no funcionamento "anormal" do cérebro tem sido cada vez mais utilizadas nos tribunais, especialmente por advogados de defesa. Parodiando o título do meu primeiro livro, é possível dizer que atualmente o cérebro vai ao tribunal - cada vez mais. E por que isso tem ocorrido? Um dos motivos é que todo conhecimento ao qual é atribuído a alcunha de científico goza de mais legitimidade no mundo contemporâneo do que outras formas de conhecimento - como o filosófico e o artístico, por exemplo. Assim, a neurociência, sendo a ciência que se dedica ao estudo do sistema nervoso, tem sido cada vez mais vista por advogados e juristas como uma importante fonte de dados capaz de explicar o comportamento humano  - há algumas décadas eram a psicologia e à psicanálise que ocupavam esse lugar. Um segundo motivo, relacionado a este, é que o conhecimento neurocientífico é comumente utilizado não somente para explicar mas também para justificar determinado comportamento. Advogados de defesa frequentemente argumentam que seu cliente cometeu certo delito ou crime em decorrência de determinada "lesão", "disfunção"  ou "desequilíbrio" em seu cérebro, que "fez" com que ele se comportasse - ou não se comportasse - de determinada maneira. A ideia, neste caso, é inverter a lógica, e transformar um suposto culpado em vítima de algo que ocorreu dentro do seu cérebro - e, portanto, fora do seu controle.

Em alguns casos, certamente, isto faz sentido. Por exemplo, em um caso bastante citado na literatura neurocientífica, um homem passou de uma hora para outra a se interessar sexualmente por crianças. Posteriormente descobriu-se que o sujeito possuía um enorme tumor em seu lobo frontal, área relacionada, dentre outras coisas, ao controle de impulsos. O tumor foi retirado e o sujeito deixou de manifestar desejos e comportamentos pedófilos. Um outro caso, ficcional mas baseado em alguns casos reais, pode ser encontrado no filme Terapia de risco (que já analisei aqui), no qual uma mulher mata o marido durante um episódio de sonambulismo. Nestes dois casos, os sujeitos até podem ser punidos pelos atos ilícitos, no entanto me parece bastante claro que eles de fato não tinham total controle dos próprios comportamentos - no segundo caso menos ainda, pois a "criminosa" estava inconsciente. O mesmo parece valer para todos aqueles que cometeram crimes durante surtos psicóticos ou como consequência de transtornos psiquiátricos e neurológicos graves. Caso o advogado consiga provar que o sujeito não tinha consciência do que fez e de que tal ato era errado ele pode ser considerado inimputável, isto é, sobre ele não pode ser imputado ou atribuído nenhum crime. Como afirma este site, são inimputáveis todos aqueles "incapazes de discernir seus atos, que cometem infração penal, porém no momento do crime eram inteiramente incapazes de entender o caráter ilícito do fato" - no Brasil se encaixam nesta categoria os menores de 18 anos, os maiores de 70 anos, os "doentes mentais" e as pessoas que "cometeram crime em estado de embriaguez completa, desde que seja proveniente de caso fortuito ou força maior". A ideia de culpabilidade no Direito também está relacionada a esta questão. De acordo com este artigo, culpabilidade significa "poder atuar de outro modo". Isto quer dizer que só pode ser considerado culpado o sujeito que escolheu livremente agir de forma ilícita ou criminosa quando poderia seguir o caminho "correto". Caso o sujeito não tenha tido condições, por algum motivo, de "atuar de outro modo", ele não pode ser considerado culpado.

Isto significa que somente pessoas "livres", isto é, aquelas que poderiam agir de outra forma - embora não tenham agido - podem ser consideradas culpadas de algum crime - e curiosamente a punição para estas pessoas "livres" tem sido majoritariamente, já há alguns séculos, a perda da liberdade, isto é, a prisão. Mas uma questão importante em toda esta discussão é se nós, os imputáveis, os culpáveis, os "normais", somos de fato livres para fazer nossas escolhas? Esta questão da liberdade, que já discuti em outros momentos, é extremamente antiga e ainda não foi - e provavelmente nunca será - resolvida. Pois de fato é possível verificar uma oscilação ao longo dos séculos entre visões deterministas, que questionam e mesmo negam o livre-arbítrio humano e visões compatibilistas, que tentam compatibilizar o determinismo do mundo físico com a ideia de liberdade. Mais recentemente tem surgido no seio da neurociência um grupo de cientistas que defende a ideia de que a liberdade não passa de uma ilusão, pois todas as nossas escolhas seriam tomadas de forma inconsciente por nosso cérebro. Um dos mais célebres "neurodeterministas" é o neurocientista inglês David Eagleman, autor de diversos livros de divulgação científica, dentre eles o controverso Incógnito: as vidas secretas do cérebro e o interessante Cérebro: uma biografia, recém-lançado no Brasil. No primeiro livro o autor argumenta e defende a tese de que "em nossa atual compreensão da ciência, não podemos encontrar o hiato físico em que encaixar o livre-arbítrio - o causador sem causa - porque não parece haver nenhuma parte da maquinaria [cerebral] que não siga uma relação causal com outras partes". Isto significa que, para ele, nosso cérebro não passa de uma máquina extremamente complexa que toma as decisões de maneira automática em função tanto dos nossos genes, quanto da nossa química cerebral e da nossa educação. Afinal, como ele afirma em outro momento, "quando se trata de natureza e criação a questão que importa é que você não escolhe nem uma nem outra". Sua conclusão, neste sentido é simples: não somos livres pois somos determinados por instâncias que não temos controle. Assim, se um sujeito cometeu um crime, ele o fez necessariamente em função de alguma alteração em seu cérebro. Como afirma Eagleman, "mesmo quando não podemos medir o que há de errado no cérebro de um criminoso, podemos pressupor com boa segurança que há algo errado. Seus atos são prova suficiente de uma anormalidade cerebral mesmo que não saibamos (e talvez jamais venhamos a saber) dos detalhes".

A consequência desta visão é que todo o nosso sistema jurídico/penal, baseado na doutrina da culpabilidade, precisaria ser reformado para lidar com a ideia de que as decisões humanas não são autônomas e de que, enfim, o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. David Eagleman defende, nesse sentido, um sistema de justiça "mais compatível com o cérebro" ou, mais precisamente, uma "jurisprudência de fundamentação biológica" na qual o objetivo do sistema não seria mais punir o infrator, que não é responsável pelo crime cometido (foi seu cérebro que o fez cometer, lembre-se!), mas sim tratá-lo para que mude seu comportamento. Sua perspectiva passa pela substituição da ideia de imputabilidade pela noção de modificabilidade. Neste caso, a questão que o juiz se faria perante um criminoso é se é ou não possível modificar o seu comportamento? Se constatar que sim, ele seria mandado para a reabilitação. Se constatar que não, seria mandado para a prisão. Sua principal crítica - com a qual eu concordo - é que atualmente o único caminho para a maioria dos criminosos é a prisão, que além de não "corrigir" ou "reabilitar" o sujeito (pelo contrário, acaba fortalecendo suas ligações com o crime), não parece ter outro propósito se não vingá-lo ou puni-lo por seu erro. O grande problema da visão de Eagleman, na minha opinião, é que não me parece tão simples assim dizer que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. Dizer, por exemplo, que um sujeito se tornou pedófilo ou cometeu algum crime devido a uma lesão ou tumor no cérebro não implica que todos os comportamentos humanos sejam causados por alterações cerebrais. Certamente as alterações cerebrais "acompanham" todas as ações humanas, mas isto não quer dizer que elas causam o comportamento, significa apenas que ambos estão "correlacionados". Além do mais, dizer e aceitar que grande parte dos comportamentos humanos são automáticos ou inconscientes não implica que todos os comportamentos sejam "determinados" pelo cérebro. Alguns comportamentos, mesmo que sejam poucos, são livremente escolhidos - por exemplo, David Eagleman decidiu por livre e espontânea vontade escrever um livro sobre a ausência de liberdade, eu decidi escrever esse texto, você escolheu lê-lo. Negar a ideia de liberdade, além de algo profundamente contra-intuitivo me parece extremamente perigoso. Afinal, se não somos livres para fazer nossas escolhas qual seria o problema, então, em deixá-las nas mãos de outras pessoas?

Além do mais, abolir a ideia de livre-arbítrio teria consequências catastróficas para o nosso sistema jurídico, em uma espécie de efeito dominó. Se o criminoso não é livre para escolher entre o crime e a lei, então o juiz também não é livre para julgar e proferir a sentença e o legislador não é livre para elaborar as leis. Retirar a ideia de liberdade de escolha do nossos sistemas jurídico e político me parece algo profundamente perigoso - e vários juristas pensam da mesma forma. Tanto é assim que nos diversos estudos que li sobre a aproximação entre Neurociências e Direito Penal em todos eles os juristas acabam por criticar a ideia de que a neurociência provou de forma definitiva que o livre-arbítrio é uma ilusão. Peguemos, por exemplo, a conclusão da tese de doutorado Livre-arbítrio e culpabilidade: a responsabilização penal em face das contribuições da neurociência, segundo a qual "o estado da arte da discussão filosófica sobre o livre-arbítrio continua no mesmo nível de anteriormente ao advento da neurociência: nossa noção intuitiva de que, de alguma forma, estamos no comando de nossas próprias ações permanece em encruzilhada científica, onde, em um flanco, estão os partidários da física clássica e, de outro, ficam os defensores da física quântica de escala atômica - sendo que nenhum deles é capaz de apresentar uma resposta satisfatória acerca da liberdade da vontade". Já na dissertação de mestrado Neurociências e culpabilidade a autora conclui que "ainda que a neurociência demonstre as cadeias causais inseridas no cérebro humano e revele que tudo se inicia no plano do inconsciente, a ideia de liberdade não é construída, afirmada ou negada a partir de tais parâmetros". Finalmente, no artigo Da psicanálise à neurociência: do fim ao fim da culpabilidade na doutrina ibérica, o autor conclui, de forma brilhante, que "provar empiricamente a existência do livre-arbítrio é tão difícil quanto provar a existência do amor ou da felicidade. Não é possível provar empiricamente que alguém ama ou que alguém é feliz, mas o certo é que o homem se vê como um sujeito capaz de amar e de ser feliz, assim como o ser humano se enxerga como alguém dotado de possibilidades de escolha, e com base nestas possibilidades deve pautar sua vida como homem livre". Enfim, a tese disseminada por alguns neurocientistas de que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão é apenas mais uma hipótese sobre a liberdade, nem a única, nem a mais embasada e nem a mais verdadeira. 

Sobre a ideia de substituir a ideia de imputabilidade pela de modificabilidade, o próprio David Eagleman aponta que ainda não existem meios efetivos de se intervir no cérebro e no comportamento de um sujeito criminoso de forma a mudar sua forma de agir. Mas ele acredita que no futuro (sempre no futuro!) tais meios serão desenvolvidos. Como afirma em certo momento do livro Incógnito, "especulo que um dia poderemos basear as decisões de punições na neuroplasticidade" - isto é, na possibilidade de alterar e reabilitar o cérebro do criminoso. Tendo em vista que se trata de uma especulação baseada em uma série possibilidades e probabilidades ainda pouco concretas, seria bastante temerário modificar todo o sistema jurídico com base nisso. Além do mais, mesmo que um dia as neurociências provem de forma definitiva que o livre-arbítrio é uma ilusão (o que não creio ser possível), ainda assim a ideia de liberdade poderia ser defendida e utilizada como base do sistema jurídico. Isto porque uma coisa é o livre-arbítrio enquanto conceito científico e filosófico e outra coisa é a ideia de liberdade de um ponto de vista do Direito. Como bem aponta o autor do artigo Culpabilidade e neurociência: uma análise da crise do paradigma científico moderno, "o direito penal não se afeta pela Neurociência porque o tipo de verdade que interessa o Direito Penal e que se alcança mediante um processo não é a verdade científica (positivista), porém uma verdade formal, fruto de um procedimento regrado cujo objetivo é a resolução consensual do conflito e não a busca da verdade. O direito penal contrói seus próprios conceitos de forma independente do que consideramos hoje como conhecimento científico, de modo que a liberdade que sustenta o juízo de culpabilidade e a própria culpabilidade não é um conceito de caráter empírico, mas normativo". Resumindo: a verdade do Direito não corresponde necessariamente àquilo que a ciência e a neurociência consideram verdade. 

Na mesma linha de raciocínio, o autor do artigo Da psicanálise à neurociência afirma que "se há dúvidas razoáveis sobre a liberdade individual, no plano empírico ou filosófico, não se pode negar que há o reconhecimento de um direito fundamental de liberdade do gênero humano, direito este que é reconhecido pela ordem jurídica e compreende uma visão de ser humano construída historicamente e solidificada pela secularização e laicização do Estado de Direito. O ser humano é concebido pelo direito como um ser livre, seja coletiva, seja individualmente. E essa concepção não parece ser mera outorga do Direito positivo. Trata-se de um reflexo do modo com o qual o homem enxerga a si mesmo, e seria difícil conceber uma ordem jurídica que não reconheça, em maior ou menor grau, a liberdade como direito fundamental. Não se pode deixar de reconhecer que o moderno Estado Constitucional reflete uma visão de ser humano livre, e que a democracia moderna pressupõe o exercício individual e coletivo do direito de liberdade, sem o qual não é possível conceber a dignidade humana". De uma forma resumida o autor conclui: "A visão do homem como ser livre independe da comprovação empírica do livre-arbítrio". Tudo isto significa que ainda que a neurociência, ou melhor, alguns neurocientistas, neguem a ideia de livre-arbítrio, ainda assim podemos e devemos defender a liberdade humana. Afinal, como bem aponta o autor do artigo Culpabilidade e Neurociência "a Neurociência não é a única disciplina que demonstra dados relevantes sobre a conduta humana. O ser humano é em essência não somente um ente biológico, mas também um ser social, que se comunica, se interrelaciona, de modo que o Direito Penal não pode construir seus fundamentos e instrumentos desconsiderando outras ciências da conduta como a Sociologia, a Psicologia e as Ciências Criminais". Enfim, a neurociência por mais importante e relevante que seja, não tem como, sozinha, explicar o comportamento humano e muito menos direcionar e embasar o nosso sistema jurídico. 

PÓS-ESCRITO: em seu livro mais recente, Cérebro: uma biografia, David Eagleman parece ter recuado um pouco e adotado um tom levemente mais moderado sobre o tema do livre-arbítrio. Ele continua não acreditando na liberdade humana, mas pelo menos pondera que a neurociência não tem meios, ainda, de provar o determinismo. Como aponta em certo trecho do livro, "no momento, a neurociência não tem os experimentos perfeitos para excluir inteiramente o livre-arbítrio - este é um tema complexo e nossa ciência talvez seja jovem demais para o abordar em sua totalidade". Novamente, ele aposta no futuro para reverter esta indefinição.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Top 10 - Filmes e séries sobre Inteligência Artificial


Quem acompanha este blog sabe do meu enorme interesse pelas áreas da psicologia cognitiva, da neurociência e da inteligência artificial - e também da minha paixão por filmes e séries, especialmente de ficção científica. Já escrevi inúmeros posts sobre todos esses temas e agora pretendo apresentar uma lista com aqueles que considero os melhores filmes e séries sobre Inteligência Artificial. Certamente muitas obras ficarão de fora mas reforço que se trata de uma lista extremamente pessoal. Estes os são meus filmes e séries favoritos sobre o tema.

10- Eva: um novo começo (2011)



Comentário: esta interessante e pouco conhecida produção espanhola conta a história do engenheiro cibernético Alex, que retorna à sua cidade natal com o objetivo de desenvolver uma criança-robô e acaba se aproximando de sua sobrinha Eva, uma menina alegre e inteligente que é utilizada como modelo para sua criação. Trata-se de uma obra extremamente bem-feita tecnicamente, mas cujo roteiro, infelizmente, deixa a desejar. De toda forma, gosto especialmente de um detalhe da narrativa, que se refere ao "código" que desativa os robôs. Quando alguém pergunta "O que você vê quando fecha os olhos?" o robô simplesmente entra em pane e "morre", o que aponta para a impossibilidade de uma máquina "ver" alguma coisa sem de fato enxergá-la - o que nós humanos fazemos a todo momento através dos nossos pensamentos.

 
9- Chappie (2015)

Comentário: terceiro filme de ficção científica do diretor sul-africano Neill Blomkamp - os anteriores são o magnífico Distrito 9 e o péssimo Elysium - Chappie conta a história de um robô de segurança defeituoso que é roubado e no qual é implantado um dispositivo de consciência, que o permite pensar e sentir, inicialmente como uma criança. Apesar do filme descambar para a ação exagerada, ele expõe de uma forma interessante como consciência de si e do mundo, em Chappie e nos seres humanos, se desenvolve ao longo do tempo, gradualmente.

 
8- Eu robô (2004) / Homem bicentenário (2000) - Disponíveis no Netflix


Comentário: apesar de não serem, na minha opinião, obras maravilhosas, estes dois filmes são baseados em livros do Isaac Asimov, um dos maiores autores de ficção científica de todos os tempos - juntamente com Arthur C. Clarke e Philip Dick - e só por isso merecem ser vistos. Todo fã de ficção científica que se preze tem que se aproximar de Asimov, ainda que seja através destes filmes medianos, pois encontram-se neles os principais elementos de sua obra.

 
 
7- Soldado do futuro (2013) - Disponível no Netflix

Comentário: nesta interessante produção britânica, acompanhamos as atividades do cientista Vincent McCarthy no desenvolvimento de uma andróide inteligente e superpoderosa (Ava) que atuaria como uma máquina de guerra - não por acaso, o título original do filme é The machine. Muito bem feito tecnicamente, apesar do baixo orçamento, Soldado do futuro traz uma série de questões extremamente interessantes sobre a formação da consciência e também sobre as possíveis apropriações militares da robótica e das inteligências artificiais.

 
6- Westworld (2016)/ Westworld: onde ninguém tem alma (1973)


Comentário: tanto a série de 2016 quanto o filme de 1973, que inspirou a série, possuem uma história similar: em um "parque de diversões" voltado para adultos, androides com aparência humana atuam como anfitriões de "convidados" humanos que desejam viver romances e grandes aventuras. Já escrevi em detalhes sobre a série e o filme - acesse aqui para ler.

 
 
5- Blade Runner (1982)/ Blade Runner 2049 (2017)


Comentário: No primeiro filme, um clássico do diretor Ridley Scott, acompanhamos o blade runner Rick Deckard (Harrison Ford) em sua caçada a um grupo de replicantes fugitivos. Já no recente Blade Runner 2049, que dá continuidade à obra original, o foco está no caçador de andróides K. no percurso de uma complexa investigação com potencial para implodir a diferenciação e a relação entre humanos e replicantes. Tratam-se de obras fundamentais para todo amante de ficção científica e, mais especificamente, para todos aqueles interessam pelo tema das inteligências artificiais. Já escrevi brevemente sobre o novo Blade Runner - leia aqui.

 
4- 2001 - Uma odisséia no espaço (1969)

Comentário: Neste clássico do diretor Stanley Kubrick acompanhamos um grupo de astronautas a bordo da nave Discovery no percurso rumo ao planeta Júpiter. A grande questão do filme é que a nave é totalmente controlada pelo computador inteligente HAL 9000, que, em certo momento, decide se voltar contra a equipe humana. Trata-se de uma obra fundamental que precisa ser vista (e revista) por todos os amantes do cinema. Um clássico, simplesmente!

 
3- Ela (2013) - Disponível no Netflix

Comentário: Neste clássico contemporâneo do diretor Spike Jonze (o mesmo dos fantásticos Quero ser John Malkovich e Adaptação) acompanhamos a curiosa relação amorosa estabelecida entre Theodore (Joaquin Phoenix) e Samantha (Scarlett Johansson), que é a voz de um novo e revolucionário sistema operacional de inteligência artificial. Trata-se do mais belo e poético filme sobre inteligência artificial já feito. Já escrevi sobre ele anteriormente - leia aqui.

 
2- Ex Machina: Instinto Artificial (2014) - Disponível no Netflix

Comentário: primeira obra do diretor Alex Garland, Ex Machina é, sem dúvida alguma, um dos melhores e mais inteligentes filmes sobre inteligência artificial já feitos. Todas as principais discussões e implicações filosóficas sobre o tema estão lá, da forma profunda como o tema exige. Já escrevi em detalhes sobre ele anteriormente - acesse aqui para ler.

 
1- Humans (2015/2016)
Comentário: inspirada na série sueca Almost humans (que não vi) a produção britânica Humans é, para mim, a mais profunda reflexão sobre inteligência artificial já feita. A série, que finalizou a segunda temporada e cuja terceira já está confirmada, trata da questão sob diversos aspectos. De uma forma resumida é possível dizer que a série retrata um mundo ao mesmo tempo futurista e atual, no qual humanos e sintéticos, como são denominadas as máquinas humanizadas, convivem de forma relativamente pacífica - isto até alguns sintéticos começarem a desenvolver consciência. Já escrevi sobre ela em duas ocasiões - clique aqui e aqui para ler.

 
Pós-escrito: Caso você queira se aprofundar no tema das inteligências artificiais recomendo fortemente os livros abaixo, todos escritos pelo professor e pesquisador João de Fernandes Teixeira, o maior nome do campo da filosofia da mente no Brasil. 


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A loucura do alpinista e a loucura de todos nós

Você já parou para pensar porque inúmeras pessoas ao redor do planeta escalam montanhas? Uma resposta simples para esta questão é que elas fazem isso com o objetivo de sair da rotina e viver algumas aventuras. Esta resposta vale, certamente, para a maioria dos montanhistas amadores que querem viver experiências leves que não impliquem em grandes riscos à vida. Mas como explicar o comportamento daquelas pessoas que decidem escalar montanhas extremamente perigosas como o Everest ou o K2? Por que diachos esses alpinistas profissionais decidem sair de casa, deixando para trás família e amigos, e passar "o pão que o diabo amassou" em escaladas extremamente longas e arriscadas nas quais inúmeras pessoas já morreram tentando alcançar o cume? Porque alguém se submeteria a tantas privações, a tanto frio e a tantos riscos "somente" para chegar no alto de uma montanha... e logo depois descer? Qual o sentido de uma atividade dessas? Aliás, há algum sentido nisso? Na minha visão, toda atividade humana tem algum sentido ou muitos sentidos, só precisamos analisar com o devido cuidado para encontrá-lo ou encontrá-los. Pois bem, o que me trouxe a todas estas questões foi, em primeiro lugar, a leitura do clássico livro-reportagem No ar rarefeito, do jornalista e alpinista profissional Jon Krakauer - que retrata uma expedição ao monte Everest feita por ele e outros alpinistas em 1996 e que resultou na morte de nove pessoas. Trata-se de uma obra fundamental e muitíssimo bem escrita sobre a atividade do alpinismo - aliás, Krakauer é autor de outras obras sobre o tema e também dos livros Na natureza selvagem, que inspirou o maravilhoso filme de Sean Penn, e Missoula: estupro e sistema judicial em uma cidade universitária, sobre o qual já escrevi anteriormente. Em segundo lugar, estes questionamentos me foram suscitados também pelos filmes Evereste e Meru - O centro do universo, ambos disponíveis no catálogo do Netflix. O primeiro é uma ficção baseada no livro de Krakauer (e rejeitada por ele) que retrata a famosa e trágica expedição de 1996, ao passo que o segundo é um belíssimo documentário que acompanha um grupo de três alpinistas de elite que alcançou, pela primeira vez, o topo do monte Meru, na Índia - e advinha quem é um dos principais entrevistados do filme? Sim, isso mesmo: Jon Krakauer.

Em determinado momento deste documentário, um dos alpinistas pergunta para si mesmo: "Por que fazemos este tipo de coisa?". E sua resposta é a mais simples possível: "Pela vista! Pela vista". É claro que observar uma bela paisagem pode ser um elemento a mais para motivar o sujeito a se engajar em uma escalada. Mas não acredito que esta seja a única e muito menos a principal motivação para o alpinista decidir abandonar momentaneamente sua vida cotidiana, viajar para um país distante e se expor a inúmeros riscos. Se houvesse algum motivo religioso para tal empreitada, que mais se assemelha, olhando friamente, a uma via crucis, eu até compreenderia mais facilmente, mas na maioria dos casos não há. O sujeito decide escalar o monte Everest não porque o sacrifício e a dor o reaproximarão de deus, mas por diversos outros motivos. Um deles pode estar relacionado ao anseio por se distanciar da vida urbana e se conectar à natureza. A grande questão é que para isso não é necessário ir até o Everest ou o K2, basta se deslocar para alguma reserva ambiental perto de casa. Um outro motivo, próximo a esse, pode estar relacionado ao desejo de se libertar, ainda que temporariamente, da rotina e das obrigações cotidianas. A ideia de ir para o Everest pode ser tentadora, neste sentido, já que se trata de uma escalada que dura vários meses - isto é, vários meses longe da "vida real". É possível pensar ainda que o desejo de escalar pode estar relacionado à busca por um senso de pertencimento a um grupo, já que o alpinismo é, em grande medida, uma atividade coletiva. Mas isto ainda não é suficiente para explicar, pois existem formas muito mais simples e menos arriscadas de se sentir parte de uma equipe - jogar futebol na quarta-feira à noite é uma possibilidade. Você não precisa escalar uma montanha perigosa para obter isso; além do mais, muitos alpinistas preferem escalar sozinhos. É possível argumentar também que o que move o alpinista é vontade de superar os próprios limites. Esse discurso de superação está presente na fala de muitos alpinistas no livro e nos filmes e aponta para um desejo de provar para si mesmo que é capaz de enfrentar todos os desafios. Krakauer, nesse sentido, propõe uma interpretação interessante. Segundo ele, os desafios de escalar uma montanha são mais claros e concretos do que os desafios regulares da vida e, portanto, mais "fáceis" de identificar, enfrentar e superar, mesmo quando são difíceis. Como aponta em certo momento, ao falar sobre a sua juventude: "O alpinismo se tornara o principal foco da minha existência, à exclusão de quase tudo o mais. Chegar ao topo de uma montanha era tangível, imutável, concreto. Os perigos subjacentes emprestavam ao ofício a seriedade de propósitos que em grande medida faltava ao restante da minha vida". 

Krakauer também enxerga a atividade de escalar montanhas como uma parte constitutiva de sua personalidade. Em certo momento do livro, ao falar sobre como a sua esposa aprendeu a lidar com suas constantes ausências para escalar, Krakauer afirma: "Linda acabou aceitando minhas escaladas: percebeu que era uma parte crucial  (ainda que incompreensível) daquilo que eu era. O alpinismo, e isso ela entendeu, era uma expressão essencial de algum aspecto estranho e imutável de minha personalidade que eu não conseguia mudar, assim como não poderia mudar a cor de meus olhos". No documentário Meru um dos alpinistas fala algo semelhante: ao perguntar para si mesmo "porque eu faço isso?" ele responde: "porque ou eu faço ou eu fico louco". É a 'loucura' do alpinismo que de certa forma "cura" ou redireciona a sua própria loucura. Uma outra interpretação possível - e que não exclui as demais - é que o alpinismo seria uma maneira não de superar a si mesmo (ou não somente de superar a si mesmo), mas de superar aos outros. Krakauer sinaliza também para esta possibilidade ao afirmar que a cultura do alpinismo/montanhismo é caracterizada "por uma competição intensa e por um machismo indisfarçável; a grande preocupação da maioria de seus integrantes era impressionar uns aos outros". Esta competição aparece, segundo ele, no esforço de muitos alpinistas para se diferenciar dos demais fazendo percursos arriscados sozinhos e com pouco ou nenhum apoio de tecnologias. Os sujeitos mais admirados pelos alpinistas costumam ser aqueles que se arriscaram mais - e que saíram vivos, claro. Mas mesmo aqueles que morreram fazendo algo ousado e tentando superar os limites estabelecidos e os próprios limites, são vistos também como heróis ou mártires, isto é, como sujeitos corajosos que  ousaram enfrentar o desconhecido e o imprevisível. Aliás, uma outra interpretação possível sobre esta atividade é justamente que ela permite ao ser humano explorar o mundo para além daquilo que é conhecido. A ideia de estar onde nenhum outro ser humano esteve é bastante tentadora para algumas pessoas, em especial para os alpinistas profissionais. Aliás, no livro A simples beleza do inesperado, o físico e divulgador científico Marcelo Geiser (sobre o qual já escrevi anteriormente) diz algo que se encaixa perfeitamente nesta interpretação: "Muito do conhecimento humano vem da nossa ânsia de querer ver o que está além do imediato. Talvez essa seja a característica mais marcante da nossa espécie. Os outros animais querem segurança. Para isso repetem uma rotina familiar, dentro de padrões de comportamento comprovados pelo tempo, que evitam o risco. Mesmo as espécies migratórias não podem ser chamadas de exploradoras: qualquer desvio da rota tradicional pode ser letal. Já os seres humanos precisam explorar o desconhecido, submetendo-se muitas vezes a condições extremamente incômodas e mesmo ameaçadoras para alcançar seu objetivo. Nós nos arriscamos como indivíduos e nos arriscamos coletivamente, tentando expandir nossas fronteiras para além do conhecido".

Bom, para finalizar esta discussão - sem pretender esgotá-la, claro -, gostaria de trazer uma última questão: é possível dizer que a escolha de escalar montanhas perigosas como o Everest e o Meru é uma escolha racional? No entendimento de Krakauer a resposta é negativa. Como ele afirma logo na introdução do seu livro, "havia muitas e ótimas razões para não ir, mas tentar escalar o Everest é um ato intrinsecamente irracional - um triunfo do desejo sobre a sensatez. Qualquer pessoa que contemple tal possibilidade com seriedade está quase que por definição além do alcance de argumentos racionais". Eu não tenho como discordar dele, mas penso que o mesmo vale para todas ou quase todas as escolhas que fazemos. Ou você acredita que as escolhas humanas são puramente racionais? Quando decidimos nos relacionar com determinada pessoa, viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, o que está em jogo não é simplesmente a nossa razão ou um cálculo frio de prós e contras. Há muita emoção envolvida em cada escolha humana. E eu diria mais: sem nossas emoções teríamos muita dificuldade para escolher - muito provavelmente ficaríamos eternamente avaliando prós e contras sem nunca conseguirmos tomar uma decisão final. É a emoção que dá peso e valor aos prós e aos contras e nos permite, enfim, escolher qual caminho iremos seguir. E isto vale tanto para a escolha de escalar ou não o monte Everest quanto para as demais escolhas da nossa vida. Em todos estes casos, podemos pensar, pensar e pensar a respeito de todas opções disponíveis e sobre as possíveis consequências de cada uma de nossas ações, mas isto não será suficiente para tomarmos uma decisão. Pensar demais não ajuda a escolher; pelo contrário, muitas vezes acaba atrapalhando. Por outro lado, estar atento às nossas emoções - mas sem ignorar a razão - costuma ajudar. É claro que por vezes as emoções podem nos levar para caminhos que posteriormente julgamos equivocados, mas não há o que fazer. Toda escolha, seja ela guiada majoritariamente por nossa razão ou por nossas emoções ou por ambas, é sempre um ato de coragem. Isto significa que se o sujeito decidiu escalar o Monte Everest ou se relacionar com determinada pessoa ou viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, ele tomou uma decisão corajosa - tão racional e irracional quanto qualquer outra decisão de sua vida. Enfim, os alpinistas não são irracionais por escolherem escalar uma montanha perigosa. Na verdade, se eles são "loucos" em alguma medida, eles são tão "loucos" quanto todos nós. 

Observação 1: um exemplo interessante de como as emoções são necessárias para os processos de decisão pode ser encontrado no clássico O erro de descartes, do neurocientista português Antônio Damásio. Neste livro, o autor relata o agora famoso caso de Elliot, um homem que teve uma parte de seu córtex cerebral retirada devido a um tumor, o que resultou em uma terrível perda em sua capacidade emocional. Ao ser exposto, por exemplo, a imagens perturbadoras - que deixariam qualquer um de nós no mínimo incomodados - Elliot não se afetava de forma alguma. E esta incapacidade de sentir e expressar emoções gerou no sujeito uma debilitante incapacidade para decidir. Ao se deparar com uma escolha qualquer, Elliot não conseguia imprimir valor emocional à cada uma das opções e com isso nunca chegava a uma decisão final.

Observação 2: o jornal El País publicou no início deste ano uma interessante entrevista com o alpinista espanhol Kilian Jornet, que escalou o Everest duas vezes em seis dias sem corda nem oxigênio extra. Refletindo sobre seus feitos, ele afirmou, bem na direção da minha conclusão: “Me chamam de louco, mas todos vivem a sua loucura para sentir alguma coisa”. Exatamente!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Precisamos falar sobre... ansiedade

Tenho que confessar: sou uma pessoa extremamente ansiosa. Sim, eu sou psicólogo e, supostamente, eu não deveria sentir ansiedade ou tristeza ou raiva ou medo. Eu deveria ter apenas belos sentimentos como a alegria, o amor e a gratidão. Eu deveria ser uma pessoa totalmente zen e bem-resolvida. Afinal, como eu posso pretender ajudar as pessoas se eu próprio sinto muito do que os meus pacientes sentem? Como eu poderia auxiliar pessoas ansiosas se eu próprio sou ansioso? Quando comecei a atender, há cerca de 10 anos, eu ficava, como todo bom ansioso, muito preocupado com isso, mas aos poucos fui entendendo que esta era uma preocupação inútil e despropositada - como grande parte das preocupações que temos. Eu podia negar ou tentar construir uma ilusão a meu respeito e a respeito dos psicólogos em geral, mas o fato, um tanto óbvio - e o mais difícil, por vezes, é perceber o óbvio - é que eu sou um ser humano como qualquer outro e estou sujeito aos mesmos sentimentos e problemas que todo mundo. E eu posso ajudar outras pessoas não porque eu sou perfeito ou bem-resolvido, o que não é nem poderia ser verdade, mas porque eu possuo formação, experiência e legitimidade profissional, conhecimento técnico, disposição para me aproximar da realidade do paciente/cliente e vontade de contribuir com seu aperfeiçoamento enquanto ser humano. Além disso, sempre fiz e continuo fazendo terapia, de forma a estar consciente e atento às minhas falhas e limitações enquanto pessoa e enquanto terapeuta. E mais: na relação terapêutica eu observo e analiso os problemas e dilemas das pessoas com uma certa distância, pois não estou diretamente envolvido em suas questões. E isso me possibilita uma  atuação ao mesmo tempo próxima (pois se trata de uma relação com um certo grau de intimidade) e distante (pois se trata de uma relação profissional) - e por óbvio eu não consigo manter a mesma distância das minhas próprias questões. Enfim, aos poucos fui entendendo que por mais que eu quisesse, eu não teria como escapar dos meus próprios sentimentos. Feliz ou infelizmente, eu estou tão sujeito à ansiedade, ao medo e a tristeza quanto qualquer um - assim como um bombeiro está sujeito a ter um incêndio em sua casa ou um médico está sujeito a ficar doente. A grande conclusão é que, no fim das contas, somos todos humanos. E o ser humano, por sua própria natureza, é problemático e vulnerável. E também ansioso.

Existem cachorros ansiosos?
E eu diria mais: o ser humano é o único animal ansioso. Ou você já viu algum outro animal demonstrando ansiedade? Aposto que algumas pessoas diriam que sim: "Ah, mas meu cachorro é super-ansioso. Ele não para um segundo e vive roendo e destruindo os móveis lá de casa". Ok, ele de fato me parece agitado e um tanto estressado, mas será que realmente ele está ansioso? Não creio. No meu entendimento, a ansiedade diz respeito à uma relação do sujeito com o futuro. É o futuro, ou melhor, a imaginação deste futuro, que pré-ocupa o ansioso, fazendo com que ele tenha, no presente, uma série de reações corporais e comportamentais extremamente incômodas. E, pelo que se saiba, somente os seres humanos concebem e planejam o futuro com a complexidade que o fazemos. Todos (ou quase todos) os outros animais, e também as crianças pequenas, vivem essencialmente o presente e não tem a capacidade de projetar ou imaginar o que virá, para além de um futuro próximo. Certamente todos estes seres sentem medo e ficam estressados, mas não ansiosos. A diferença é que o medo e o estresse são reações ao que está acontecendo com o sujeito neste exato momento (por exemplo, ao visualizar uma cobra ou realizar uma prova), ao passo que a ansiedade é uma espécie de medo daquilo que ainda não aconteceu ou do que se imagina que irá acontecer. Como sempre digo aos meus pacientes, a ansiedade é a "síndrome do E se?". E se eu começar a namorar e a pessoa me trair? E se eu casar e me arrepender? E se eu viajar e o avião cair? E se eu engravidar e o filho morrer? E se ele sobreviver e eu não der conta de educá-lo? E se eu for demitido? E se eu não for demitido e continuar frustrado com meu trabalho? E se eu desenvolver um câncer? E se eu envelhecer e for abandonado por todos? Quem é ansioso certamente vive com vários "e se's" martelando na cabeça grande parte do tempo - mas não todos os "e se's", já que a pessoa ansiosa se foca essencialmente nas possibilidades negativas, ignorando solenemente as possibilidades positivas (de por exemplo, o avião não cair, do filho não morrer ou da demissão não ocorrer). Na cabeça do ansioso o futuro será sempre trágico e triste e nada pode ser feito para evitar.

É possível prever o futuro?
O ansioso, em geral, não suporta a ideia de não ter o controle sobre o rumo dos acontecimentos. Se tem uma coisa que o tira do sério é a incerteza. Não saber o que vai acontecer ou se determinada coisa vai acontecer exatamente da forma como ele gostaria que acontecesse, tira o ansioso do eixo. Tudo o que ele quer é ter a certeza de que tomou a decisão correta, de que as coisas vão dar certo e de que, enfim, sua história terá um final feliz. O grande problema é que a vida é repleta de incertezas e fazer uma escolha, quase sempre, é mergulhar no desconhecido. Podemos pensar e ponderar com cuidado sobre todas as opções, mas nunca saberemos de fato quais serão as consequências das nossas decisões. Embora sejamos os únicos animais com capacidade para imaginar o futuro, não somos muito bons em prever o que de fato irá acontecer. Só o que nós fazemos (na verdade, só o que podemos fazer) é imaginar - e o pensamento ansioso se constitui como mais uma maneira de imaginar o que irá ocorrer. Mas a questão é que não temos como saber. Façamos um exercício: tente imaginar como estará o mundo e a sua vida daqui a 20 anos? Agora suponhamos que exista uma máquina do tempo que pudesse te levar imediatamente ao ano de 2037. Será que você encontraria as coisas exatamente como as imaginou? Difícil saber, pois se trata de um exercício de imaginação, mas eu arrisco uma resposta: duvido muito! E como eu posso fazer tal afirmação? É simples: basta observarmos as previsões que foram feitas no passado sobre o mundo atual. Embora elas tenham acertado em alguns pontos, erraram terrivelmente em muitos outros. Deem só uma olhada nas imagens abaixo, que foram feitas no final do século XIX pelos ilustradores franceses Jean-Marc Côté e Villemard (utilizei a última delas na conclusão do meu livro O cérebro vai à escola). Eles tentaram imaginar, em 1899, como seria o mundo no ano 2000. Analise as imagens atentamente e tente observar o que eles acertaram e o que erraram.






E então: nós temos atualmente barbearias mecanizadas? Passeios conduzidos por baleias no fundo do mar? Máquinas para fazer a limpeza doméstica? Bombeiros voadores? Equipamentos que transferem o conhecimento dos livros diretamente para o cérebro dos estudantes? A resposta para quase todas estas perguntas é um sonoro "Não!". A única previsão relativamente acertada dos ilustradores foi a existência de máquinas autônomas para limpeza doméstica, que já são vendidas, mas ainda estão longe de serem baratas, populares e realmente úteis. Enfim, esses ilustradores podem até ter acertado algumas de suas previsões ou parte delas, mas no geral eles erraram vertiginosamente, assim como nós muito provavelmente erraremos ao imaginar o nosso futuro e também como possivelmente nós erramos na previsão que fizemos da nossa vida no passado. Tente se lembrar de como você imaginava, quando criança, que seria a sua vida quando você tivesse a sua idade atual? Você acertou sua previsão? Como os ilustradores, você pode até ter acertado em alguns aspectos, mas muitos outros você deixou passar ou simplesmente não conseguiu imaginar. E o motivo para isso é simples e um tanto óbvio: os rumos da vida e do mundo são imprevisíveis. Podemos até especular, imaginar, conjecturar, mas não temos como saber com precisão o que irá acontecer.

“O medo nos mantêm vivos", diz o pai Crood.
Bom, agora que já compreendemos minimamente algumas características da ansiedade, eu gostaria de trazer uma outra questão: por que, afinal de contas, somos ansiosos? Se a ansiedade é tão ruim para quem a sente, porque o processo de seleção natural não simplesmente eliminou a ansiedade da nossa mente? O desenho animado Os Croods pode nos ajudar a explicar esse aparente paradoxo. Neste filme, acompanhamos uma família pré-histórica liderada por um pai que morre de medo do mundo exterior. Eles moram todos juntos numa caverna e são constantemente advertidos por esse pai dos perigos do lado de fora. “O medo nos mantêm vivos. Nunca deixe de ter medo”, diz o pai como uma espécie de mantra. Pois bem, será que esse pai tem razão em defender a necessidade do medo? Na minha visão, esta recomendação faz todo sentido, tanto no mundo ficcional em que eles vivem quanto, em certa medida, no mundo real. Afinal de contas, o mundo deles, assim como o nosso, está repleto de perigos e riscos. Simplesmente ignorá-los não me parece uma boa estratégia de sobrevivência. Pense, por exemplo, em programas como o Largados e pelados do Discovery Channel: se os participantes forem tranquilos demais, provavelmente se darão mal. Um pouco (e até um tanto) de ansiedade num contexto de luta por sobrevivência não faz mal a ninguém; pelo contrário, pode favorecer a vida. Mas o mesmo vale, em alguma medida, para o contexto da vida de cada um de nós. Pré-ocupar-se com algumas coisas pode favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis. Por exemplo, se você fica ansioso com uma viagem de carro, isto pode fazer com que você dirija com mais cuidado; se você se preocupa com a possibilidade de ter um infarto na meia-idade isso pode fazer com que você se engaje em atividades físicas; se você vê um cachorro na rua e sente medo dele, isto provavelmente fará com que você se afaste e evite uma mordida. Em todos estes casos, a ansiedade ou o medo podem favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis que estão sob nosso controle, mas o grande problema começa quando a ansiedade e o medo ultrapassam todos os limites e ao invés de ajudar começam a atrapalhar. 

Pois bem, uma dificuldade comum na área da saúde mental é definir quando determinado sentimento ou comportamento deixa de ser "normal" e se torna "patológico". Já discuti esta questão infinitas vezes neste blog - e até já escrevi uma monografia sobre isso - e o resumo da história é o seguinte: 1) existem muitos pontos de vista e nenhum consenso sobre o que é "normal" na área de saúde mental - aliás, não há consenso nem sobre o que é "saúde" nem sobre o que é "mental";  2) o que é entendido como "normal" varia de lugar pra lugar, de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e também ao longo do tempo; 3) as classificações e definições presentes nos "manuais de doença" (CID e DSM) são modificadas de tempos em tempos e representam apenas maneiras peculiares, dentre muitas outras, de se compreender os "transtornos mentais". No caso específico da ansiedade, diferenciar a "ansiedade normal" da "ansiedade patológica" não é uma tarefa nada simples. Pessoalmente - na verdade, profissionalmente - eu tento me distanciar o quanto posso da linguagem e da lógica psiquiátricas. Quando um sujeito me procura, simplesmente não me interessa qual o seu diagnóstico - se é "transtorno de ansiedade generalizada", "transtorno do pânico" ou "transtorno obsessivo-compulsivo". O que eu quero de fato saber é como ele se sente, o que ele pensa e porque ele se comporta de tal ou qual maneira. O que é normal, nesse sentido, só pode ser definido pelo próprio sujeito e não por classificações ou critérios externos a ele. Só o sujeito pode dizer se a ansiedade que ele sente é ou não é normal. Assim, se ele me disser que sua ansiedade está exagerada eu simplesmente acreditarei em suas palavras e tentarei ajuda-lo a compreender seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e a buscar estratégias que permitam o controle da sua ansiedade.

Pois, de fato, só o controle é possível, não a cura. Aliás, vi outro dia em uma livraria da minha cidade uma obra chamada "O fim da ansiedade" e sempre me deparo na internet com cursos ou sites que prometem "acabar com a ansiedade" das pessoas. Sinto dizer que nada disto é possível. A dolorosa verdade é que a ansiedade é parte constituinte de nós, seres humanos, assim como a tristeza, o medo e a raiva - e também a alegria e o amor. Certamente nós podemos aprender a controlar algumas de suas manifestações e efeitos e até buscar tratamento psicológico e psiquiátrico quando ela extrapola nossos próprios limites e começa a trazer muitos prejuízos, mas acabar com ela simplesmente não é possível. E o motivo é simples: só acabaríamos com a ansiedade se conseguíssemos deixar de pensar no futuro e/ou se conseguíssemos pensar somente nas possibilidades positivas. Se você conseguisse eliminar de forma permanente os pensamentos negativos sobre o futuro de sua mente, substituíndo-os por pensamentos positivos, aí sim você chegaria ao "fim da ansiedade". Porém, ao contrário do que pregam os "gurus do pensamento positivo", isto não é possível e muito menos desejável. Afinal de contas, a vida não é, nem será no futuro, simplesmente positiva. A vida é quase sempre contraditória e ambígua: boa e ruim ao mesmo tempo - boa em alguns aspectos, ruim em outros, boa em alguns momentos, ruim em outros - a depender, claro, da forma, como avaliamos estes aspectos e estes momentos. Imaginar que tudo dará sempre certo, que não haverá sofrimento e que o final será necessariamente feliz, não passa de uma forma de ilusão - assim como o pensamento contrário de que tudo dará sempre errado, de que só haverá sofrimento e de que o final será necessariamente infeliz. Um pensamento muito mais maduro e realista e que pode ajudar a diminuir a ansiedade, é admitir para si mesmo: "Eu não sei como será o futuro, pois tenho apenas o controle parcial do rumo dos acontecimentos. Pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu temo, pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu gostaria, pode ser que as coisas não aconteçam da forma como eu gostaria mas pode ser que eu me adapte. Ou pode ser que as coisas aconteçam de uma forma totalmente diferente do que eu tenho capacidade de imaginar atualmente. Eu não tenho como prever o que irá acontecer".

Aceitar a falta de controle, mais do que tentar imaginariamente controlar o incontrolável, pode ser um importante passo para diminuir o nível de ansiedade. É claro que isto não é algo simples de se obter e muito menos de se manter, mas certamente uma terapia pode ajudar muito nesse processo de aceitação. Existem também outras atitudes que podem (repito: podem) ajudar no controle da ansiedade. Tudo aquilo que eu recomendei no post sobre concentração, vale igualmente para a ansiedade: ioga, meditação, tai chi chuan, atividades físicas em geral, etc. E o motivo é simples: estar concentrado em algo significa estar focado no presente - e não no passado ou no futuro. E tudo o que te traz ao presente ajuda a melhorar a concentração e também a diminuir a ansiedade. Se você está focado no aqui-e-agora, o futuro, neste exato instante, não existe, e, logo, não há ansiedade. É claro que é impossível permanecer focado no presente todo o tempo. Muitas vezes pensaremos no que passou - e ficaremos tristes ou alegres a depender se o pensamento foi relativo a um momento bom ou ruim do passado. Muitas outras vezes pensaremos no que virá - e ficaremos alegres ou ansiosos ou a depender se o pensamento é relativo a uma expectativa boa ou ruim do futuro. Esta oscilação passado-presente-futuro faz parte da vida, não há o que fazer, assim como não há como evitar que a ansiedade lhe visite de vez em quando. Alguns remédios de fato podem ajudar a acalmar um pouco aquelas pessoas que se encontram em níveis elevados de ansiedade e que provavelmente já possuem consequências físicas relacionadas ao problema (enxaqueca, bruxismo, problemas de estômago ou intestino, alterações no sono, etc), mas nenhuma medicação tem a capacidade de eliminar permanentemente a ansiedade. De fato, alguns remédios e atividades como meditação e o ioga, auxiliam a acalmar o corpo e, por conseguinte, a mente - já que mente e corpo estão intrinsecamente conectados - mas nenhum remédio ou atividade de relaxamento tem a capacidade de desligar por completo os nossos pensamentos - e se pensamos, podemos pensar no futuro e ficar ansiosos. Só o que podemos fazer é tentar relaxar o corpo e a mente, buscar nos conectar sempre que possível com o aqui-e-agora e nos esforçar para aceitar que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Pessoalmente, tenho que confessar que ainda não atingi este nível de aceitação, mas espero um dia poder dizer com convicção e sinceridade as belas palavras de Paulo Leminski: "Não discuto com o destino. O que pintar eu assino". 

Sugestão de leitura: O livro definitivo da ansiedade