segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Transplante de cabeça ou de corpo?

Saiu esta semana em diversos jornais e sites (veja, por exemplo, aqui) a notícia de que o neurocirurgião italiano Sergio Canavero programou a primeira cirurgia de transplante de cabeça para o ano de 2017. Neste momento ele prevê que será possível realizar tal cirurgia com sucesso. Até lá a equipe pretende planejar detalhadamente o complexo procedimento - que estima-se que envolverá 150 médicos e enfermeiros, demorará 36 horas e custará mais de 11 milhões de dólares. O escolhido para tal feito foi o russo Valery Spiridonov, que se voluntariou para o transplante. Spiridonov sofre de uma doença muscular degenerativa chamada Síndrome Werdnig-Hoffman e, com, o transplante de sua cabeça para o corpo de uma pessoa que teve morte cerebral, estima-se que seu tempo de vida seria ampliado em 30 anos. Espera-se que após esta cirurgia pioneira outras pessoas com problemas corporais semelhantes ao de Spiridonov poderão ser beneficiadas com tal procedimento.

A ideia de um transplante de cabeça é antiga e já foi tentada, com relativo sucesso, com animais. Não acredita? Então leia o sensacional livro "Curiosidade Mórbida: a ciência e a vida secreta dos cadáveres", escrito pela jornalista Mary Roach e lançado recentemente no Brasil. Neste livro, Mary resgata uma série de experimentos esdrúxulos realizados com animais (pobres animais!) por alguns cientistas e cirurgiões durante o século XX. Na década de 1950, por exemplo, o russo Vladimir Demikhov transplantou cabeças de filhotes de cachorros - na verdade conjuntos de cabeças, ombros, pulmões e patas dianteiras - nas costas de cães adultos (veja a foto). Na maioria dos experimentos, as "cabeças transplantadas" duraram pouco devido a reações imunológicas: em média, viveram de 2 a 6 dias, mas houve um caso que durou 29 dias. Em suas efêmeras existências, algumas cabeças-filhotes agiam como cães "normais", como é possível observar nestas notas publicadas por Demikhov em seu livro "Transplantes experimentais de órgãos vitais": "9h. A cabeça do doador bebeu água e leite com avidez e mexeu-se como se tentasse separar-se do corpo do receptor; 22h30. Quando o receptor foi posto para dormir, a cabeça transplantada mordeu o dedo de um membro da equipe e o fez sangrar; 26 de fevereiro 18h. A cabeça do doador mordeu a orelha do receptor, que ganiu e sacudiu a cabeça". Não é curioso isto? Na década seguinte, o neurocirurgião norte-americano Robert White realizou cirurgias semelhantes com cachorros e macacos (algumas de cérebro e não de cabeça) e chegou a resultados semelhantes: a cabeça ou o cérebro transplantados esboçavam alguma resposta mas, devido a reações imunológicas, eram rejeitados pelo corpo receptor. O problema permanece.

Mas para além de uma cirurgia extremamente complexa do ponto de vista técnico, o transplante de cabeça traz em seu escopo, também, uma série de questões filosóficas igualmente complexas. Se o nosso eu (ou seja, a soma de nossas memórias, pensamentos e sentimentos) está localizado exclusivamente no cérebro, como defendem muitos neurocientistas contemporâneos, então um transplante de cabeça (ou de cérebro) seria, na verdade, um transplante de corpo. Se o "eu" está no cérebro, a cabeça transplantada em um novo corpo levaria junto a personalidade de seu dono (ou seja, do dono da cabeça). Caso sejam superadas as dificuldades técnicas de "fundir" os sistemas nervosos da cabeça e do novo corpo, de "despertar" a cabeça e de não haver rejeição imunológica, aí poderemos saber se esta teoria está correta ou não. Se a cabeça neste novo corpo mantiver a personalidade do "dono" do cérebro original, isto significaria que o cérebro é realmente o lócus do "eu". Mas a questão é saber se haverão também perdas. Isto significa avaliar o quanto do nosso "eu" depende do (ou está relacionado ao) nosso corpo. Adeptos da chamada teoria da cognição incorporada defendem que a nossa cognição, e a nossa mente de uma forma geral, não apenas dependem do corpo mas, de certa forma, são nosso corpo. Mente e corpo não seriam entidades distintas mas uma unidade. Isto significaria que o nosso corpo é fundamental para a constituição do que somos - e se, por acaso, nosso corpo se alterasse, já não seríamos os mesmos (se é que, de fato, há uma unidade no que somos ao longo de nossas vidas). Assim, a ideia de um transplante de cabeça - e mais radicalmente, de um transplante de cérebro - não significaria, de forma alguma, um transplante de alma ou de "eu". Com outro corpo, seríamos outros. Agora cabe-nos aguardar os próximos capítulos desta jornada rumo a um transplante de cabeça para avaliarmos como, de fato, será essa nova pessoa resultado da fusão de dois corpos.  

Update 15/09/15: Veja abaixo uma reportagem do Domingo Espetacular sobre o tema.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

"Que horas ela volta?" e a (des)naturalização das desigualdades sociais

Existem filmes bons, existem filmes interessantes, existem até filmes importantes. E existem também filmes fundamentais. O brasileiro "Que horas ela volta?", escrito e dirigido pela Anna Muylaerte, faz parte de um restritíssimo grupo de obras que se enquadra nesta última categoria. Trata-se de um filme fundamental para entender o nosso mundo - e mais especificamente a sociedade brasileira. Mas não só. Penso que o filme, além de abrir os olhos de muitos para a absurda desigualdade social que vivemos (e que apesar dos inúmeros avanços, ainda permanece), pode ainda favorecer uma necessária mudança social. É claro que mudanças são lentas, mas os debates que tem se espalhado pelo Brasil sobre este filme, podem gerar consequências positivas. Quero acreditar nisso. No cinema onde fui - em um bairro de classe média-alta - não havia somente os espectadores típicos dos cinemas. Vi também pessoas que muito provavelmente trabalham como empregadxs, porteirxs e motoristxs destes espectadores típicos. Não eram muitos, claro, mas estavam lá. E isto tem ocorrido em vários cinemas do país. 
E estas pessoas vão lá e muito provavelmente se identificam plenamente com a personagem Val, vivida de forma soberba pela Regina Casé (tenho lá minhas críticas ao programa Esquenta e até à própria pessoa da Regina Casé mas tenho que admitir que, como atriz, ela é sensacional). Se você já leu alguma coisa sobre o filme deve saber que Val é empregada doméstica, já há muitos anos, de uma família de classe média alta de São Paulo - ela é "praticamente" da família (#sqn). O filme retrata, do ponto de vista de Val e de sua filha a complexa e verticalizada relação entre patrões e empregados - que reproduz de forma mais ou menos explícita a relação Casa Grande e Senzala. Mas o que este filme traz de interessante não é simplesmente essa constatação, mas a produção de um incômodo constante ao colocar determinadas pessoas fazendo o que elas não "deveriam" estar fazendo. Exemplifico: é "sabido" que empregadas não devem almoçar na mesa com os patrões nem desfrutar da piscina da casa. Isto é entendido, normalmente, sem qualquer questionamento nem das empregadas nem dos patrões. Como diz Val, “a pessoa já nasce sabendo". Simplesmente "é" assim - como, supostamente, sempre teria sido. Mas e se de repente, não mais que de repente, a empregada (no caso a filha da empregada) almoçasse na mesa do patrão e nadasse na piscina? O que o filme nos causa todo o tempo é este incômodo de ver pessoas não seguindo os papéis sociais que elas "deveriam" estar seguindo. 
Com isto, o filme consegue desnaturalizar determinadas regras sociais e com uma vantagem: sem demonizar os patrões. Estes não são retratados como sujeitos cruéis e sádicos que adoram submeter as empregadas a regras escrotas e sem sentido. Não. Eles são pessoas como eu ou você que simplesmente reproduzimos, muitas vezes sem pensar, determinadas regras implícitas e nos incomodamos quando elas são rompidas. Na verdade, a família retratada no filme é muito mais "progressista" do que muitas famílias de outros filmes e séries do tipo (e eu penso especialmente no filme francês Mulheres do sexto andar e na série Downton Abbey) e mesmo do que muitas das famílias classe-média-alta que se vê por aí. Em muitos momentos eles demonstram se importar com Val e parecem realmente gostar dela. A grande questão é que eles gostam e se importam com ela na medida em que ela (e por pressuposto, sua filha), segue determinadas regras. Quando estas são questionadas ou rompidas todo este aparente progressismo começa a ruir e a relação Casa Grande-Senzala fica evidente como nunca. Neste momento fica claro que Val não é "praticamente" da família: ela é empregada e eles patrões. Todo o véu de hipocrisia que cobre a relação patrão-empregado é exposto de forma nua e crua nesta obra fundamental do cinema brasileiro contemporâneo. #ficaadica

Update 10/09: Ainda refletindo sobre "Que horas ela volta?" pude perceber mais claramente que o filme retrata não somente um passado (e um presente) no qual a relação entre patrões e empregados remete à relação entre senhores e escravos, mas também a uma mudança em curso. E esta mudança é simbolizada de forma fenomenal pela personagem Jéssica, filha de Val. Jéssica não considera natural as regras implícitas e verticalizadas entre patrões e empregados e questiona essa relação assim como questiona as desigualdades do mundo. Mas não só. Jéssica almeja - porque pode almejar - outros objetivos para sua vida. Deseja fazer Arquitetura e Urbanismo na USP e de fato é aprovada - ao contrário de Fabinho, o filho mimado da patroa de Val. Jéssica pode e irá além. E isto porque uma série de políticas públicas iniciadas ou fortalecidas desde o primeiro governo Lula permitiram e incentivaram que pessoas como Jéssica pudessem chegar à universidade e almejar uma vida diferente daquela que seus pais tiveram e tem. Em meu cotidiano de trabalho (inicialmente como psicólogo e agora como assessor de assistência estudantil) em uma universidade pública tenho me deparado todos os dias e cada vez mais com pessoas como Jéssica: filhos e filhas de trabalhadores precarizados que ousam - porque podem ousar - estudar em uma universidade pública, tradicionalmente composta por filhos das classes média e alta que fizeram sua formação básica em escolas particulares. A universidade hoje é muito mais diversa e inclusiva do que a universidade de 20 anos atrás. E isto, ao contrário do que pregam os críticos (que apontam para um "rebaixamento da qualidade da educação superior"), é maravilhoso. Certamente muitos ajustes e aperfeiçoamentos ainda precisam ser feitos para que o acesso e permanência sejam fortalecidos, mas não é maravilhoso que Jéssicas e Fabinhos possam ter acesso e estudar juntos em uma universidade pública?

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Vendedores de (neuro)ilusões

Existem duas coisas que nunca deixam de me surpreender: 1) como é fácil enganar as pessoas e 2) como as pessoas se deixam enganar tão facilmente. Por toda parte onde olho, vejo picaretas e charlatões vendendo todos os tipos de ilusões e fantasias que se puder imaginar. E vejo também pessoas, muitas pessoas, comprando tais ilusões - e o pior: ficando contentes e satisfeitas de estarem sendo iludidas. Não digo que estou imune a isso. De forma alguma! Todos estamos sujeitos, em alguma medida, a sermos enganados. Mas o que me impressiona de fato é a facilidade com que algumas pessoas são seduzidas por discursos atraentes porém absurdamente inconsistentes e até ridículos. Desde minha adolescência observo, sempre com muita curiosidade e espanto, o bizarro mundo dos vendedores (e compradores) de ilusão. Vários anos mais tarde, no mestrado, pude me aproximar de um tipo específico de bobagens, as neurobobagens, e pude confirmar a visão de que é realmente muito fácil enganar as pessoas - o que me faz pensar que as pessoas, em alguma medida, desejam ser enganadas.

No caso das neurobobagens, a receita para enganar é simples - e extremamente eficaz. Em primeiro lugar, coloque a expressão "neuro" em tudo o que você disser - assim, vai parecer que o que você diz é baseado em estudos científicos (mesmo que você nunca tenha lido um artigo neurocientífico sequer e no máximo algum livro de divulgação da Suzana Herculano-Houzel ou do neurocirurgião do programa da Fátima Bernardes). Assim, se for falar em liderança, diga "neuroliderança"; se o assunto for inovação, diga "neuroinovação"; ao invés de educação prefira "neuroeducação" - ou "neuropedagogia" ou "neuropsicopedagogia". Da mesma forma diga "neuromarketing", "neurobusiness" e "neurocoaching"; se for dar uma dica, dê uma "neurodica"; no intervalo sirva "neurodrinks"; na despedida dê um "neurotchau" mandando "neurobeijinhos" para a "neuroplateia". As neuropessoas que assistirem sua neuroapresentação sairão neuroencantadas - e neuroconvencidas de que o que você diz é "verdadeiramente" neurocientífico - quando, de fato, tudo não passou de uma grade neurobobagem. Enfim, o segredo é dizer as mesmas coisas que você sempre diz ou que os vendedores de ilusão sempre disseram (faça exercícios físicos, se alimente de forma equilibrada, não se estresse, cultive amizades, tenha sempre pensamentos positivos, etc.) com uma roupagem "neuro". Não importa se o que você disser não tiver qualquer embasamento científico (e esqueça o fato de que a ciência, e, no caso, as neurociências, estão recheadas de controvérsias e dissensos). O que importa, no fundo, é que as pessoas acreditem que você passou horas e horas lendo complexos artigos e livros de neurociências quando, de fato, você "aprendeu" sobre o cérebro lendo livros ou vendo videos produzidos por outros neuropicaretas como você.

Em segundo lugar, em qualquer apresentação que você fizer, use e abuse de imagens coloridas do cérebro. As pessoas vão ficar simplesmente deslumbradas! Ignore o fato de que as imagens produzidas pelas ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas não são, nem de longe, fotografias do cérebro, mas sim o resultado de complexo processo que envolve desde decisões técnicas e metodológicas, convenções visuais até cálculos matemáticos e testes estatísticos. Ignore tudo isso e aponte para as belas e pretensamente esclarecedoras "fotografias do cérebro" em seu slide do Power Point - ou, se você quiser parecer mais moderno, do Prezi. Se puder acrescente também tabelas e gráficos coloridos (que nem você nem sua neuroplateia precisam entender) e muitas, muitas muitas, imagens de cérebros e neurônios humanizados - de preferência escolha imagens animadas do tipo gif que retratem cérebros e neurônios dançando, andando de skate ou malhando. As pessoas vão rir e se divertir! (e, é claro, também vão esquecer da total falta de embasamento e coerência de sua apresentação, o que é absolutamente imprescindível). 

Não se esqueça também acrescentar as clássicas imagens do cérebro dividido em dois hemisférios (de preferência com o lado esquerdo colorido de azul e o direito de rosa). Então traga à tona a famosa teoria dos dois cérebros (ou teoria do cérebro duplo) segundo a qual o hemisfério direito corresponde ao cérebro emocional, criativo e visual, enquanto que o esquerdo ao cérebro racional, lógico e verbal. Ignore o fato de que grande parte dos neurocientistas contemporâneos considera esta teoria uma completa bobagem, e prossiga sua neuroapresentação extrapolando esta teoria para explicar o motivo de homens serem de marte e mulheres de vênus. Ignore a construção social dos papeis de gênero e a fundamental importância das expectativas na produção das masculinidades e feminilidades, e vomite para sua neuroplateia pseudoexplicações como a de que as mulheres são piores do que os homens em matemática em função de terem o lado esquerdo do cérebro menos desenvolvido ou em decorrência da atuação de hormônios "femininos". Enfim, sempre que puder, naturalize as diferenças entre homens e mulheres dizendo que possuem cérebros essencialmente diferentes. 

Finalmente, durante toda a sua neuroapresentação, exalte as neurociências como se elas já tivessem as respostas para todas as perguntas. Simplesmente desconsidere toda a enorme ignorância que ainda persiste sobre o funcionamento do cérebro humano, fingindo que todo o conhecimento almejado já está disponível. Além disso, faça continuamente afirmações pomposas e filosoficamente controversas como "entender o cérebro é entender a nós mesmos" ou "você é o seu cérebro". Ignore todas as reflexões do campo da filosofia da mente que problematizam sobre a relação entre a mente e o cérebro, e simplesmente reduza a mente ao cérebro. Na verdade, reduza tudo ao cérebro. Se puder, e isto aumentará consideravelmente sua credibilidade perante a neuroplateia, cite a famosa frase do Prêmio Nobel Francis Crick (aliás, é sempre bom, citar um prêmio Nobel, mesmo que você não tenha lido nada dele), segundo o qual "você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, não são mais do que o comportamento de um imenso conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas". Ignore o imenso e controverso reducionismo explícito nesta frase e siga adiante vomitando todo tipo de palavras "neuro", expressões pseudocientíficas e discurso de auto-ajuda. E pronto! Seguindo todas, ou pelo menos algumas, destas etapas você estará mais do que preparado para se tornar, oficialmente, um neuropicareta - para alegria dos neuroentusiastas ingênuos. Neuroabraços para você.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Psicologia e Tortura: uma perigosa relação

A Psicologia esteve e ainda está em grande evidência nos Estados Unidos nas últimas semanas. O motivo, infelizmente, não é nada positivo ou nobre. Tudo começou em 2014 quando o jornalista do New York Times James Risen publicou o livro "Pay Any Price: Greed, Power, and Endless War" [Pagando qualquer preço: ganância, poder e uma guerra sem fim], no qual acusava a Associação Psicológica Americana (American Psychological Association/APA), principal entidade representativa dos psicólogos norte-americanos, de contribuir com a tortura de prisioneiros políticos durante o governo Bush. Na época, a APA negou tal acusação, publicando uma nota explicativa em seu site. No entanto, a diretoria executiva da associação encomendou uma investigação independente para averiguar possíveis ligações de seus diretores e associados (cerca de 130 mil) com políticas e práticas de tortura - o que é proibido pelo código de ética da APA. Cabe ressaltar que tal proibição foi "flexibilizada" em 2005, quando a associação permitiu que psicólogos atuassem como "consultores" em interrogatórios, ou melhor, em "processos de coleta de informações relacionados com a segurança nacional".

A investigação, conduzida pelo promotor David Hoffman, foi concluída este mês com a publicação de um relatório de 542 páginas, que já vem sendo chamado de "Relatório Hoffman", cuja conclusão vai de encontro às expectativas da APA. De fato, o que o relatório expõe é que tanto dirigentes da APA (com destaque para o diretor do Departamento de Ética da entidade, Stephen Behnke) quanto diversos associados trabalharam ativamente junto a funcionários do Departamento de Defesa (DoD), do Pentágono e da CIA com o objetivo de legitimar ou facilitar a tortura de detidos políticos durante o governo Bush. Esta "facilitação" teria envolvido tanto a emissão de orientações éticas que endossaram a política de interrogatórios elaborada pelo DoD quanto a participação direta de psicólogos em "interrogatórios severos" (leia-se: tortura) na Baia de Guantânamo, em Abu-Ghrabi e em outros lugares. 

Como aponta o relatório, as agências do Governo "queriam, alegadamente, diretrizes de ética permissivas, para que os seus psicólogos pudessem continuar a participar em técnicas de interrogatório severas e abusivas, usadas por estas agências depois dos ataques de 11 de setembro". O documento aponta também que "o principal motivo da APA para agir desta maneira foi garantir favores do departamento de Defesa. Mas houve outros dois importantes motivos: criar uma boa resposta de relações públicas e manter o ilimitado crescimento da psicologia nesse âmbito". É interessante constatar, neste sentido, que, como aponta esta reportagem, cerca de 7% dos psicólogos associados à APA - ou seja, quase 10 mil profissionais - trabalham para o Departamento de Defesa dos EUA seja como clínicos, no atendimento aos veteranos de guerra, seja como investigadores - e mesmo interrogadores. 

Em resposta a este relatório, a APA afirmou que irá rever as suas políticas e proibiu seus psicológicos de participarem diretamente em interrogatórios. Além disso destituiu diversos diretores, dentre eles Stephen Behnke, considerado o “chefe” da conspiração entre a APA, o Pentágono e a CIA. Outros foram aposentados compulsoriamente, como o diretor executivo da APA, Norman Anderson, o subdiretor executivo, Michael Honaker e a chefe de comunicações, Rhea Farberman. A psicóloga e ex-presidente da APA, Nadine Kaslow, que coordenou a comissão investigadora independente, afirmou ainda: "O propósito da organização não foi permitir que fossem aplicados métodos abusivos de interrogatórios ou contribuir para violar os direitos humanos, mas estes foram os resultados". E emendou: "Lamentamos profundamente, e pedimos perdão pela conduta e as consequências que teve". Importante salientar que não é de hoje que psicólogos - teoricamente profissionais dedicados à saúde e ao bem-estar da população - se envolvem em atividades escusas e imorais.

No livro Ministério do Silêncio, o jornalista Lucas Figueiredo, aponta que muitos psicólogos brasileiros contribuíram, durante a ditadura militar brasileira, no treinamento de agentes do Sistema Brasileiro de Inteligência (SNI, hoje Abin) que espionavam e entregavam indivíduos supostamente subversivos para o DOI-CODI (órgão repressor do exército). Muitos destes corajosos rebeldes foram torturados e vários mortos. E nós demos a nossa contribuição para isso... E é triste constatar que ainda hoje, diversos psicólogos (e pior: a própria associação dos psicólogos!) estejam envolvidos em atividades escusas como essas. Espero que este escândalo envolvendo a APA contribua para o afastamento definitivo dos psicólogos de tais atividades e também para que o conhecimento psicológico seja utilizado para ajudar e nunca para prejudicar ou torturar qualquer ser humano.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A crise da psiquiatria contemporânea e o poder das psicoterapias

Segundo o psiquiatra Richard Friedman, no excelente artigo "Psychiatry’s Identity Crisis", publicado pelo New York Times no último dia 17 de Julho, a psiquiatria contemporânea se encontra em uma crise - mais uma, dentre tantas pelas quais passou desde sua criação no século XIX. Segundo Friedman, ao mesmo tempo que as pesquisas em neurociência não trouxeram qualquer retorno significativo para a prática clínica em psiquiatria, como muitos esperavam, os medicamentos (base do tratamento psiquiátrico moderno) evoluíram muito pouco desde as décadas de 50 e 60, quando os primeiros remédios psiquiátricos foram lançados, e continuam tendo como alvo os mesmos receptores e neurotransmissores no cérebro que seus precursores (certamente os medicamentos modernos geram menos efeitos colaterais que os mais antigos, no entanto, seus efeitos "positivos" continuam basicamente os mesmos, a despeito do que diz a indústria farmacêutica). Ou seja, a esperança de que as pesquisas iniciadas na "década do cérebro" resultassem em consideráveis avanços para a clínica não se concretizou. Mesmo terapias biológicas modernas como a Estimulação Magnética Transcraniana tem mostrado efetividade limitada - além disso, trata-se de um método invasivo sobre o qual pouco se sabe a respeito de sua segurança a longo prazo.

Uma possível saída para este impasse passaria, surpreendentemente, por um retorno às psicoterapias. Segundo Friedman, inúmeros estudos tem apontado para o tratamento psicoterápico como sendo tão eficaz quanto as medicações psicotrópicas para os transtornos psiquiátricos comuns, como depressão e ansiedade. Além disso, segundo o autor, a maioria dos norte-americanos prefere, claramente, psicoterapia do que medicação - de acordo uma meta-análise realizada pelo pesquisador R. Kathryn McHugh e seus colaboradores, os pacientes pesquisados eram três vezes mais propensos a preferir psicoterapia do que drogas psicotrópicas. Friedman aponta, no entanto, que apesar de uma maior preferência geral, as pessoas tem se dedicado cada vez menos aos tratamentos psicoterápicos em função de seus elevados custos e da baixa disponibilidade de profissionais nos ambulatórios (pelo menos nos Estados Unidos). Ao mesmo tempo, o uso de medicações psiquiátricas tem aumentado consideravelmente ao longo dos anos, o que aponta para um abismo entre o tratamento que as pessoas desejam ter e aquele que, de fato, possuem condições de arcar. 

Finalmente, aponta Friedman, muitos dos pacientes que chegam os consultórios psiquiátricos possuem um histórico de trauma, abuso sexual, pobreza ou privação, problemas para os quais não há qualquer solução biológica possível. Da mesma forma, questiona o psiquiatra, seria equivocado conceber problemas como a depressão e a ansiedade meramente como problemas cerebrais passíveis de intervenção medicamentosa. Segundo ele. "o fato de todos os sentimentos, pensamentos e comportamentos necessitarem da atividade do cérebro para acontecer não significa que a única ou a melhor forma de mudá-los - ou entendê-los - é com a medicina". Isto significa que nem sempre os transtornos psiquiátricos podem ser adequadamente tratados com terapia biológica. Os transtornos de personalidade, por exemplo, seriam geralmente pouco responsivos a medicações psicotrópicas, mas muito tratáveis com vários tipos de psicoterapia. Segundo Friedman, "muitas vezes não existe nenhum substituto para a auto-compreensão que vem com a terapia". Um psiquiatra, certamente, pode melhorar consideravelmente o humor e diminuir a frequência e a intensidade de quadros psicóticos de seus pacientes prescrevendo determinadas medicações. No entanto, como aponta Friedman, "não existe uma pílula - e provavelmente nunca existirá - para quaisquer dos problemas emocionais dolorosos e perturbadores a que estamos sujeitos, como raiva narcisista e ambivalência paralisante, para citar apenas dois". E é neste sentido que o autor finaliza seu texto dizendo que ainda que ele próprio seja extremamente favorável à pesquisa neurocientífica e acredite que entender o cérebro possa contribuir para o entendimento dos transtornos mentais, "nós somos mais do que um cérebro em um frasco. Basta perguntar a qualquer um que tenha se beneficiado de uma psicoterapia". 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

"Desemprego de colarinho-branco" e o declínio do sonho americano

Simplesmente sensacional o livro "Desemprego de colarinho-branco: a inútil busca do sucesso profissional", escrito pela ensaísta/ jornalista/ feminista/ socialista Barbara Ehrenreich. Trata-se de uma crítica mordaz e avassaladora tanto da ilusão do sonho americano de que o sucesso é consequência inevitável do trabalho árduo, quanto da cultura individualista do "pensamento positivo" disseminada por terapeutas, gurus e coaches de todo tipo, segundo a qual para conseguir o que se quer basta acreditar e pensar positivo (e caso não consiga, lembre-se: a culpa é exclusivamente sua). Ehrenreich, autora de inúmeros outros livros de critica social, já havia tratado do tema do pensamento positivo na sua memorável e demolidora obra "Sorria: como a promoção incansável do pensamento positivo enfraqueceu a América", publicada há pouco tempo no Brasil, só que desta vez seu foco é outro. 

Em "Desemprego de colarinho-branco", Ehrenreich finge, por cerca de um ano, ser uma profissional de Relações Públicas desempregada - ou melhor, "em transição" - e, portanto, em busca de algum emprego razoável em uma empresa razoável. Para conseguir tal objetivo, a autora se infiltra no mundo dos desempregados de colarinho-branco, ou seja, daqueles profissionais que possuíam bons salários, se dedicaram por anos a fio a uma empresa e, de uma hora para outra se viram desempregados (como afirma a autora, a lealdade cobrada dos funcionários, muitas vezes não é retribuída pela empresa). Para conhecer esse mundo, a autora se aventura pelo bizarro universo dos coaches, dos orientadores de carreira, dos gurus do pensamento positivo, dos pregadores da teologia da prosperidade e, no meio do caminho, conversa com dezenas de pessoas desempregadas que, a despeito de todo o sofrimento e dificuldade que passam por estarem sem emprego e endividadas, eram forçadas ou, pelo menos sugestionadas, a se manterem em contínuo estado de pensamento positivo, de "pró-atividade", "de atitude vitoriosa" e de "paixão" - caso queiram ser contratadas por alguma empresa, obviamente. 

A conclusão da autora, após uma complexa jornada pelo mundo corporativo, é desanimadora: o sonho americano não passa de um sonho. Como afirma na conclusão do livro, "se alguém pode dar um testemunho confiável do declínio do sonho americano, esse alguém é o colarinho-branco desempregado - as pessoas que 'seguiram as regras', fizeram 'tudo certinho' e, mesmo assim, terminaram arruinadas". Mas sua conclusão não é simplesmente pessimista. Segundo Ehrenreich, é imperativa a união dos desempregados norte-americanos em prol de lutas comuns como o aumento do seguro-desemprego, e a cobertura universal do seguro saúde. Segundo a autora, no genial último parágrafo do livro, é necessária 

"uma mudança psicológica, para dar o salto da solidão desesperada para a ação coletiva. Mas este não é o tipo de transformação imaginada pelos orientadores de carreira. Os desempregados e empregados intranquilos precisam não de 'simpatia', mas da capacidade real de estender a mão para os outros e envolvê-los em um projeto comum, que inclua,idealmente, outros muito diferentes, como os trabalhadores de baixa renda cronicamente estressados. Eles não precisam de uma 'atitude vitoriosa', mas de uma qualidade mais profunda e mais antiga, uma que nunca ouvi ser mencionada em minha procura por emprego, que é coragem: a coragem de se unir e lutar pela mudança, mesmo diante de uma avassaladora desvantagem".

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sobre o novo livro do Dr. Yalom: Criaturas de um dia

Maravilhoso o livro novo do escritor e psicoterapeuta Irvin Yalom, "Criaturas de um dia", recém-lançado pela editora Agir. Se você não leu nada do escritor até hoje, está é uma ótima oportunidade para adentrar em sua obra. Agora, se você, como eu, já ama os livros (e a pessoa) do Yalom, então eu aposto que você não vai se decepcionar. Na mesma linhagem de outros livros sensacionais como Mamãe e o sentido da vida, O carrasco do amor e De frente para o sol - e dialogando também com Desafios da terapia - "Criaturas de um dia" traz dez maravilhosas histórias de terapia. São histórias simples porém profundas, contadas com sua honestidade e sensibilidade particulares - que transparecem mesmo em seus romances (para constatar basta ler Quando Nietzsche chorou, A cura de Shoppenhauer ou Mentiras no divã). Sério, ainda está para nascer um escritor com o talento de Yalom para retratar a profundidade que é o processo psicoterapêutico. Ninguém faz isso como ele. Alguns tentam, como faz o argentino Gabriel Rolón com relativo sucesso (recomendo, neste sentido, seus livros Palavras cruzadas e Histórias de divã), mas poucos possuem a sensibilidade, e mesmo a humanidade, de Yalom. 

Em seu novo livro, o autor, atualmente com 86 anos, traz à tona, como já havia feito no maravilhoso De frente para o sol, o tema da morte. Contemplando a própria morte e a de seus pacientes - vários portadores de doenças terminais - o autor faz uma profunda e necessária reflexão sobre a vida. O próprio título do livro trata desta questão e se refere a um trecho das Meditações de Marco Aurélio que afirma o seguinte: 

"Somos criaturas de um dia, tanto os que lembram quanto os que são lembrados. 
Tudo é efêmero, tanto a lembrança quanto o objeto da lembrança.
Em breve você terá esquecido o mundo e o mundo o terá esquecido. 
Nunca esqueça que logo você não será ninguém nem estará em lugar nenhum". 

As histórias retratadas no livro são protagonizadas, em grande parte, por indivíduos que se encontram em profundos dilemas na vida, alguns relacionados à proximidade com a morte. É difícil não se identificar. Mas o autor não se limita a reproduzir o diálogo entre paciente e terapeuta, oferecendo ainda preciosas dicas e reflexões para terapeutas. Em certo momento, refletindo sobre a impossibilidade de se descobrir como uma terapia funciona, Yalom afirma: 

"Nós, terapeutas, lutamos intensamente pela precisão em nosso trabalho e aspiramos a ser empiristas bem-afinados, tentando oferecer soluções precisas para elementos rompidos no histórico afetivo de nossos pacientes ou em sequências de DNA. No entanto, as realidades de nosso trabalho não se enquadram nesse modelo e com frequência, vemo-nos improvisando à medida em que nós e nossos pacientes tropeçamos juntos na jornada rumo à recuperação. Eu costumava me abater com isso, mas agora, nos meus anos dourados, assobio baixinho para mim enquanto me maravilho com as complexidades e a imprevisibilidade do pensamento e da conduta humana". 

Em outro momento, faz outra declaração com a qual eu concordo 100%: 

"Durante minha formação como analista, muitas vezes achei as categorias oficiais de diagnóstico problemáticas. Em estudos de casos, muitos dos consultores discordavam do diagnóstico apropriado do paciente e acabei percebendo que as discordâncias geralmente advinham não de erros médicos, mas de problemas intrínsecos à atividade do diagnóstico. Durante minha gestão como chefe da enfermaria do Hospital de Stanford, eu dependia do diagnóstico para tomar decisões sobre o tratamento farmacológico mais eficaz. mas em meu consultório de psicoterapia, nos últimos 40 anos, com pacientes com transtornos menos graves, passei a julgar o processo diagnóstico irrelevante e a acreditar que as condições por que nós precisamos passar para atender às exigências de diagnósticos precisos dos planos de saúde são prejudiciais ao terapeuta e ao paciente. No procedimento diagnóstico, não somos fiéis a realidade. As categorias de diagnóstico são inventadas e arbitrárias, são produto do voto de comissões e passam por profundas revisões a cada década"

No epílogo, Yalom complementa esta declaração fazendo uma pertinente crítica às formações atuais em psicoterapia nos EUA, que privilegiam abordagens empiristas (como a Terapia Cognitivo-Comportamental) em detrimento de abordagens humanísticas. Apesar de ter como norte na minha prática clínica a TCC, não tenho como discordar de suas críticas. Diz Yalom: 

"A maioria dos cursos de treinamento atuais - geralmente sob pressão de conselhos ou planos de saúde - oferece instrução apenas para terapias breves 'de base empírica' que consistem de técnicas específicas abordando categorias de diagnósticos distintas, como depressão, transtornos alimentares, ataques de pânico, transtorno bipolar, vícios ou fobias específicas. Temo que o foco atual na educação acabe resultando em perder de vista a pessoa integral e que a abordagem humanística que usei com esses dez pacientes logo venha a se extinguir. Embora os estudos sobre a psicoterapia eficaz constantemente mostrem que o fator mais importante determinando o resultado é o relacionamento terapêutico, a textura, a criação e a evolução desse relacionamento, raramente são o foco de treinamento em cursos de graduação". 

Uma pena realmente, mas não se preocupe Dr. Yalom. O senhor pode não ter lá muitos anos pela frente (vai saber, né?) mas suas palavras ficarão e ainda inspirarão muitas pessoas - dentre as quais muitos psicólogos e psicoterapeutas. Embora a "abordagem humanística" a que o senhor se refere - ou seja, aquela que leva em conta o sujeito como um todo e não somente o seus (supostos) transtornos - venha perdendo cada vez mais terreno, sempre haverão, acredito, psicoterapeutas rebeldes que não aceitarão o papel de meros técnicos aplicadores de manuais de tratamento. Creio que o entendimento da terapia como um espaço de criação de uma relação autêntica entre terapeuta e paciente ainda terá lugar, mesmo em um mundo dominado por abordagens empiristas e farmacológicas. O motivo é simples: as pessoas precisam, assim como sempre precisaram e precisarão, de relações e trocas humanas autênticas. É por isso que mesmo diante de todas as possibilidades farmacológicas disponíveis atualmente, as pessoas ainda procuram psicólogos e psicanalistas para lidarem com seus problemas e dilemas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Está faltando ciência à Educação?

Na semana passada li uma entrevista com a Viviane Senna para a Folha de São Paulo cuja manchete reproduzia uma fala dela: "Educação é baseada em achismos, não em ciência". Gostaria de tecer alguns comentários sobre esta entrevista - que você pode conferir, na íntegra, aqui. Mas antes, uma propaganda. Meu livro, que ainda está em processo de edição, virá em uma boa hora - ele deverá ser lançado, espero, no próximo semestre. Para quem não sabe, ele se chamará "O cérebro vai à escola": aproximações entre Neurociências e Educação no Brasil e foi baseado em minha dissertação de mestrado, defendida em 2012 na UERJ. Pois ele trata justamente - e de uma forma crítica - da questão da aproximação da educação com o campo científico, ou da busca por uma educação baseada em evidências - busca esta que tem se tornado cada vez mais ativa. Só para se ter uma ideia, há pouco tempo foi criada a Rede Nacional de Ciência para a Educação e em julho ocorrerá no Rio de Janeiro um simpósio internacional sobre o assunto, o Internacional Symposium on Science for education. Tudo isto aponta para um grande interesse sobre esta questão. Pois meu livro, que trata da aproximação entre os campos educacional e neurocientífico, busca problematizar justamente esta visão, defendida pela Viviane Senna e por outros, de que está faltando ciência à educação, como se o principal motivo para os problemas na educação atual fosse a falta de embasamento científico. Certamente acredito que a ciência pode contribuir para o desenvolvimento das práticas e políticas educacionais, o que não significa que é a ciência que salvará a educação. Como aponto na conclusão do livro: "consideramos prudente permanecer entre os extremos do neuroceticismo e do neuroentusiasmo compreendendo que o campo neurocientífico, ainda que possa gerar conhecimentos relevantes para a Educação, não é capaz, sozinho, de explicar a aprendizagem e suas dificuldades e muito menos de resolver os inúmeros problemas e desafios do campo educacional". O mesmo vale, creio, para o campo científico de uma forma geral. Ele pode contribuir? Certamente. Mas o conhecimento científico não é o único que deve ser levado em consideração. Outros conhecimentos, chamados neste caso de "achismos" - mas que poderíamos chamar de conhecimentos tácitos -, também podem contribuir para o desenvolvimento de novas políticas e práticas. Endeusar a ciência, como se ela fosse uma panacéia para todos os problemas do mundo, não é o caminho. Pelo menos, não o caminho que eu acredito.

Certamente concordo que o ensino pode e deve ganhar muito com a ciência. Só acho que outros conhecimentos, como aqueles que o professor adquire com sua prática, não podem ser desprezados. O paralelo com a medicina é interessante. A medicina baseada em evidências apregoa que o médico deve basear sua conduta e suas prescrições nos dados científicos. O problema é que muitas vezes os dados são contraditórios e mesmo que se façam meta-análises, é impossível tais dados dizerem o que o médico deve fazer em um caso específico. Quem trabalha na clínica, assim como na escola ou na universidade, lida com pessoas e não com médias. Neste sentido, os dados podem até fornecer um norte, mas a prática do médico ou do professor precisa ser levada em consideração na construção de políticas e práticas. Com tudo isto quero dizer que a ciência, que se propõe universal, tem limites claros, especialmente quando falamos de casos e culturas particulares. Acho difícil, no caso da educação, falar em práticas universalmente efetivas. O que funciona em um lugar não necessariamente funcionará em outros, o que funciona para uma pessoa não necessariamente funcionará para outra. No que diz respeito às questões humanas qualquer universalidade é perigosa pois corre-se o risco de ignorar as singularidades. É isso que quero dizer quando critico a ideia de que a ciência pode salvar a educação - especialmente porque quando se fala isso refere-se normalmente às chamadas ciências naturais e não às ciências humanas. Pois as ciências humanas já estão na base da nossa educação. A proposta que vem se disseminando é substituir as teorias e práticas baseadas nas ciências humanas por teorias e práticas baseadas nas chamadas ciências "duras". E isto eu não concordo. Acho que as duas ciências devem dialogar.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sobre as críticas à redução da maioridade penal

Quando li a notícia de que a redução da maioridade penal foi aprovada em uma comissão na câmara dos deputados, e também quando me lembro de que quase 90% da população brasileira aprova tal mudança, fico pensando que nós, os críticos de tal medida, não estamos sendo suficientemente convincentes. Do contrário, certamente haveriam muito mais pessoas na câmara protestando contra tal aprovação e haveria um clima geral de oposição. Na realidade, quer queiramos quer não, os deputados contam com amplo apoio da população e isso dá grande legitimidade para suas ações. Mas fico pensando nos porquês, o que me leva à seguinte questão: o que eles têm? Bom, o que eles tem como argumentos são imagens e notícias. Imagens e notícias de jovens assassinos. Imagens e notícias de crianças e adolescentes que cometeram assassinatos à sangue frio. Eles tem o medo que isto desperta. E o que nós temos? Nós temos estatísticas. Nós temos estatísticas de que somente uma ínfima minoria dos jovens infratores cometeram assassinatos. Nós temos estatísticas de como os países que reduziram a maioridade penal não diminuíram seus índices de criminalidade. Nós temos estatísticas de que os índices de reincidência nas prisões são altos, etc. Nós temos estatísticas demais. Mas não temos imagens ou notícias impactantes. E tendo em vista que não somos seres simplesmente racionais, que tomam decisões e formam opiniões baseados no cálculo frio de prós e contras, talvez estejamos utilizando das táticas erradas de convencimento. Talvez precisemos mais de imagens e notícias, que atinjam as emoções da população, do que de estatísticas frias que dizem muito mas impactam pouco. Da mesma forma que alguns estudos de psicologia demonstraram ser mais fácil convencer uma pessoa a ajudar uma organização filantrópica fazendo-a acreditar que estão ajudando na verdade uma única pessoa (o Joãozinho) e não toda uma população, talvez o que estamos precisando é mais de casos convincentes do que de números frios. Talvez, apenas talvez.

Sobre a gestão da vida virtual

Uma habilidade fundamental em nossos tempos é a gestão da nossa cada vez mais atribulada vida virtual, tendo sempre em vista que a separação entre esta e tal "vida real" não é nada nítida ou exata. Publicar uma comentário absurdo, equivocado e/ou preconceituoso e, depois de receber críticas, dizer que foi "só um comentário de Facebook" só demonstra que a pessoa não entende que a separação real/virtual não é mais tão clara como há alguns anos. O que dizemos nas redes virtuais é real e tem consequências reais. Por isso, temos que pensar bastante antes de sairmos por aí dizendo tudo o que se passa por nossa cabeça - especialmente coisas desnecessárias ou que possam prejudicar e ofender outras pessoas. É claro que, teoricamente, qualquer comentário pode ofender outra pessoa, mas isto não significa que devamos ofender intencionalmente pessoas e grupos, especialmente aqueles que já são cotidianamente ofendidos. Obviamente, o ideal seria que nós seres humanos não tivéssemos pensamentos absurdos, equivocados e preconceituosos e nem precisássemos nos controlar para não expressá-los, mas aí eu estaria sendo ingênuo. Nós, seres humanos, não somos só bondade, nem só maldade. Somos anjos e demônios. Mas a vida em sociedade implica, como bem alertou Freud em seu Mal-estar na civilização, que tentemos manter nossos demônios, ou pelo menos uma parte deles, guardados. Se expressássemos tudo o que pensamos e achamos sempre - e, especialmente se fizéssemos tudo o que temos vontade -, a vida em sociedade seria impossível. A mentira, ou no mínimo a omissão, é necessária para as relações sociais - como bem demonstra o filme A invenção da mentira. Portanto, devemos tomar todo o cuidado possível em nossas expressões públicas, reais ou virtuais. Alguns chamam isso de "patrulha do politicamente correto". Eu prefiro chamar de "viver em sociedade".