quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Phineas Gage: entre o mito e a realidade

Talvez você ja tenha ouvido falar de Phineas Gage. Agora, se você é estudante ou profissional das áreas de psicologia, psiquiatria, neurologia ou neurociências, é praticamente impossível que em algum momento de sua vida, em alguma disciplina, livro ou palestra, você não tenha se deparado com a trágica história de Phineas. E a razão é que este sujeito é um dos "personagens" mais famosos - se não o mais famoso - da história das neurociências. Sua trajetória pode ser encontrada em praticamente todos os manuais de introdução às "ciências do cérebro" assim como em livros clássicos da área - sendo o mais famoso deles O erro de Descartes, do neurologista português Antônio Damásio, que se inicia justamente com a história de Phineas Gage. A grande questão, que gostaria de trazer e analisar neste texto, é que existem inúmeras informações equivocadas e até mesmo inventadas sobre a vida de Phineas. Em uma profunda análise concretizada no livro An odd kind of fame: stories of Phineas Gage [Um estranho tipo de fama: histórias sobre Phineas Gage], o psicólogo Malcolm Macmillan encontrou na literatura científica e popular inúmeros relatos inconsistentes e inverossímeis sobre a trajetória de Phineas. Analisarei abaixo algumas destas "histórias" de forma a separar o que de fato sabemos e o que não sabemos (e nem podemos saber) sobre o caso. O objetivo é, enfim, tentar entender o que é realidade e o que é ficção na curiosa história de Phineas Gage.

Pois bem, a história de Phineas Gage tem início no dia 9 de Julho de 1823, data de seu nascimento em New Hampshire nos Estados Unidos. No entanto, o evento que o tornou célebre e que representou praticamente um renascimento, ocorreu 25 anos após esta data, mais especificamente no dia 13 de setembro de 1848, nos arredores da cidade de Cavendish, também nos EUA.  Às 16:30h deste dia, Phineas, que trabalhava como capataz da indústria ferroviária,  fez um buraco em uma rocha, como de costume, e estava ajeitando a pólvora neste buraco com uma barra de ferro de cerca de 1 metro de comprimento, quando uma explosão fez com a barra entrasse com toda a força e velocidade em seu rosto, na altura de sua bochecha esquerda, e saísse pelo topo de sua cabeça, caindo a mais de 30 metros de distância. Em questão de segundos, seu olho esquerdo foi destruído e algumas partes do seu cérebro e crânio foram seriamente lesionadas. No entanto, surpreendentemente, Phineas ficou inconsciente por apenas alguns instantes, recobrando o movimento e a fala muito rapidamente. Esta parte da história, muito provavelmente, é verdadeira. As controvérias começam com os relatos sobre os momentos posteriores a este terrível acidente. De acordo com alguns desses relatos, após este episódio Cage mudou radicalmente sua personalidade, deixando de ser a pessoa pacata, responsável e educada que era até então e se tornando um sujeito anti-social, instável e até mesmo violento. Alguns relatos chegam a dizer que Gage se tornou um psicopata, isto é, um sujeito indiferente e hostil aos demais seres humanos. Outros relatos ainda apontam que Cage tornou-se tão perturbado e louco que chegou a molestar algumas crianças.

Todas estas narrativas são frequentemente utilizadas por neurocientistas e psicológos como provas incontestáveis de que determinadas partes do cérebro, em especial os lobos frontais (que teriam sido lesionados no acidente), são imprescindíveis para o controle de impulsos e para a execução de comportamentos pró-sociais de uma forma geral - o que significa também que qualquer lesão significativa nestas áreas poderia (na verdade, deveria) causar importantes e, até certo ponto, irreversíveis mudanças no comportamento e na personalidade do sujeito. No entanto, a incômoda realidade é que muito pouco se sabe sobre o comportamento de Gage após o acidente - assim como pouco se sabe sobre sua vida pregressa. Como aponta Malcolm Macmillian, grande parte destes relatos são inconsistentes e não fundamentados pelas evidências disponíveis. O que de fato se sabe é que cerca de uma hora após o acidente, Gage foi atendido pelo médico John Martyn Harlow, que conseguiu conter a hemorragia e, posteriormente, tratar uma grave infecção decorrente. Estes esforços, certamente, salvaram a vida de Gage. Três meses após o acidente e, tendo perdido o emprego de capataz, Gage regressou à fazenda de seus pais e passou a maior parte do ano de 1849 se recuperando. No mês de novembro deste ano, viajou até a cidade de Boston para ser examinado pelo médico Henry Jacob Bigelow, que também atuava como professor de cirurgia na Universidade de Harvard. A partir de 1950, Gage esteve envolvido em diversas atividades: atuou como atração de um "show de horrores" no Museu Americano de Barnum, em Nova Iorque; trabalhou como condutor de carruagens em Hanover; e então se mudou para o Chile com um homem que pretendia montar uma linha de carruagens em Valparaíso. Depois de muitos anos dirigindo carruagens, Phineas decidiu  retornar aos Estados Unidos, em 1859, para se reaproximar de sua família, que agora morava na cidade de São Francisco. Ainda no Chile Gage adquiriu alguma doença desconhecida e chegou nos EUA enfraquecido, o que lhe impossibilitou inicialmente de trabalhar. Pouco tempo depois, no início de 1860, Phineas começou a ter uma série de convulsões, que foram se tornando cada vez mais frequentes e graves. Até que no dia 21 de Maio de 1860 Phineas Gage faleceu, aos 37 anos, como consequência destes ataques, tendo sobrevido 11 anos e meio após o acidente. Seu crânio encontra-se, atualmente no Museu Anatômico de Warren, na Universidade de Harvard.

John Martyn Harlow (1819–1907)
Especificamente com relação às mudanças na personalidade de Gage existem poucos registros. Em 1868 - oito anos após sua morte - o médico John Martyn Harlow, descreveu em um relatório com menos de 200 palavras os motivos pelos quais os patrões de Phineas não o teriam empregado novamente. Esse resumo, além de algumas poucas palavras utilizadas por Harlow no laudo que escreveu após o acidente, nos contam praticamente tudo o que sabemos sobre a personalidade subsequente de Gage - e mesmo tais documentos não são totalmente confiáveis pois as avaliações que eles expõem foram todas subjetivas (nenhum teste ou avaliação mais objetivo foi aplicado em Gage, como seria feito hoje). Segundo Harlow, em seu relatório de 1868, o acidente destruiu "o equilíbrio entre suas faculdades intelectuais e suas propensões animais". Além disso, em função do acidente, Phineas teria se tornado: "vacilante, irreverente e grosseiramente profano, demonstrando 'pouca deferência por seus companheiros de trabalho'"; "intolerante a restrições ou conselhos que conflitam com seus desejos", "obstinadamente teimoso, caprichoso e vacilante a respeito de seus planos para o futuro"; "intelectualmente infantil com as 'paixões animais' de um homem forte". Em contraposição, Harlow apontou que anteriormente ao acidente, Phineas havia sido: "forte e ativo, com determinação de ferro e temperamento nervo-bilioso"; "de hábitos moderados e possuidor de uma considerável energia de caráter"; "o favorito dentre seus colegas de trabalho"; "o capataz mais eficiente e hábil contratado por seus patrões", "de posse de uma mente equilibrada" e "prezado como um homem de negócios esperto e inteligente muito energético na execução de seus planos". Harlow ainda aponta em seu escrito de 1868 que amigos e conhecidos de Phineas teriam dito que "Gage não era mais Gage", frase que se tornou famosa. A grande questão sobre estas supostas mudanças de personalidade é que elas estão respaldadas em apenas um documento, escrito por apenas um médico, Harlow, 8 anos após a morte de Gage. No laudo de 1848, escrito também por Harlow, não há nenhuma consideração sobre mudanças de personalidade - até porque o acidente tinha acabado de ocorrer. Da mesma forma, em registros posteriores feitos por outros médicos (Jackson em 1849 e Bigelow em 1950), não há, igualmente, nenhuma referência a tais mudanças.

De acordo com Macmillan, parte desta negligência pode ser explicada pela falta de conhecimento sobre as funções do cérebro no início do século XIX. De acordo com o autor, "além da organologia de Franz Josef Gall (frenologia) não existia, antes de 1848, uma teoria sobre o funcionamento do cérebro. O entendimento de que os nervos transmitem sensações e controlam os movimentos já era conhecido, mas ainda não era aceita a ideia de que danos em um lado do cérebro poderiam afetar os movimentos ou as sensações". Mas não só: o entendimento óbvio atualmente de que nossa linguagem e personalidade dependem, de alguma forma, do funcionamento cerebral, ainda não havia sido demonstrado até aquele momento. A situação teria começado a mudar na década de 1860, justamente na época do relatório de 1868 escrito por Harlow. Neste momento os achados feitos por Paul Broca a partir do estudo post mortem do cérebro de sujeitos afásicos sugeriu que as funções da linguagem estavam localizadas no hemisfério cerebral esquerdo. Um pouco mais tarde os experimentos feitos por David Ferrier com macacos demonstraram que danos no lobo pré-frontal poderiam provocar profundas mudanças de personalidade. No entanto, no momento do acidente de Gage - e até cerca de 20 anos após - não se sabia de nada disso. Segundo Macmillan, "Gage estava literalmente à frente de seu tempo". A consequência disso é que grande parte das análises sobre as supostas mudanças em sua personalidade foi feita retrospectivamente, de forma a se ajustar a certas teorias desenvolvidas nas décadas subsequentes. Como aponta Macmillan, "muitas interpretações sobre o comportamento de Phineas foram feitas para suportar teorias particulares". Por exemplo, as alegações sobre as mudanças na sexualidade de Gage - jamais mencionadas nos relatórios e laudos escritos por Harlow e Bigelow, os únicos que de fato examinaram Gage - serviram para dar suporte a observações feitas posteriormente com pacientes lobotomizados, que, em alguns casos, apresentavam tais mudanças. Da mesma forma, grande parte das supostas mudanças apontadas em Gage não passam de distorções ou puras invenções feitas com o propósito de confirmar certas teorias sobre o funcionamento do cérebro e, especificamente, sobre o funcionamento dos lobos frontais, que teriam sido lesionados em Gage. No entanto, como o cérebro de Gage jamais foi analisado - apenas seu crânio, retirado em uma exumação feita em 1867 - é impossível dizer com precisão quais áreas foram efetivamente lesionadas.

Tudo isto significa que grande parte do que é dito sobre Phineas Gage muito provavelmente não ocorreu ou ocorreu de uma outra forma. Esta contraposição quase caricatural entre o sujeito trabalhador, tranquilo e confiável de antes do acidente e o sujeito indisciplinado, imprevisível e depravado de depois do acidente não passa, muito provavelmente, de um mito, criado para respaldar certas teorias sobre o funcionamento do cérebro. Como afirma o jornalista científico Sam Kean no maravilhoso livro O duelo dos neurocirurgiões, "Gage tornou-se - e contiua sendo até hoje - uma espécie de teste de Rorschach para neurocientistas, um reflexo das paixões e obsessões de cada era que passa". Curiosamente, uma possibilidade pouco discutida na literatura neurocientífica é aquela que aponta para a recuperação, ainda que parcial, de Phineas Gage. Tendo em vista a compreensão contemporânea acerca da plasticidade cerebral, assim como os imprecisos mas fundamentais relatos sobre sua vida subsequente, não me parece incorreto afirmar que Gage, de alguma forma, se recuperou da grave lesão cerebral causada pelo acidente. Nunca saberemos de fato, mas indícios indiretos apontam nesta direção. Macmillan afirma, por exemplo, que o longo período em que Gage trabalhou como condutor de carruagens no Chile - um trabalho exigente em termos de habilidades motoras e cognitivas - é inconsistente com a ideia de que após o acidente ele teria se tornado totalmente indisciplinado, impulsivo e desleixado. De acordo com o mesmo autor, a possibilidade de que Gage tenha se recuperado, ainda que parcialmente, traz consigo importantes consequências teóricas e práticas. Segundo Macmillan tal descoberta "poderia se somar  às evidências atuais de que reabilitação pode ser efetiva mesmo em casos difíceis e graves. Mas também poderia significar que o pesquisadores do funcionamento do lobo frontal teriam de considerar que os lobos cerebrais e suas funções são muito mais plásticos do que pensamos agora". Ainda que esta possibilidade de que Gage tenha se recuperado seja em grande medida especulativa, as demais histórias sobre sua vida e sobre suas supostas mudanças  de personalidade são igualmente especulativas. A dolorosa verdade é que jamais saberemos de fato (e em detalhes) como foi a vida e a personalidade de Phineas Cage antes e após o acidente, assim como jamais saberemos com exatidão quais partes de seu cérebro foram danificadas. E este vácuo, por sua vez, abriu espaço para todo tipo de especulação. Como afirma Sam Kean "a escassez de detalhes concretos sobre Gage provavelmente assegurou sua fama, uma vez que deixou espaço infinito para interpretação e discussão". Assim, para além de um marco na história das neurociências, a curiosa história de Phineas Gage também ilustra com perfeição a facilidade com que uma pequena quantidade de fatos pode ser transformada, ao longo do tempo, em um mito popular e científico. 

Indicações de leitura:

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A mística cerebral

Compartilho abaixo a tradução que fiz do sensacional artigo The cerebral mystique, publicado pela revista eletrônica AEON no dia 8 de Maio de 2018. Seu autor é o professor de engenharia biológica, ciências cerebrais e cognitivas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Alan Jasanoff, que também é autor do livro The Biological Mind: How Brain, Body, and Environment Collaborate to Make Us Who We Are [A mente biológica: como cérebro, corpo e ambiente colaboram para nos fazer quem somos] (2018).

Mais de 2.000 anos atrás, o pai semi-mítico da medicina, Hipócrates de Kos, desafiou os espiritualistas de seu tempo com uma afirmação ousada sobre a natureza da mente humana. Em resposta às explicações sobrenaturais do fenômeno mental, Hipócrates insistiu que "de nenhum outro lugar, se não do cérebro, vem a alegria, o prazer, o riso, a recreação, a tristeza, a melancolia, o pessimismo e as lamentações". Na era moderna, as palavras de Hipócrates foram destiladas em um slogan pop-neurocientífico afinado com a lógica do Twitter: "Nós somos os nossos cérebros". Essa mensagem tem ressonância com as tendências recentes de culpar o cérebro pela criminalidade, de redefinir a doença mental como doença cerebral e, nos círculos tecnológicos futuristas, de imaginar o aprimoramento e a preservação das nossas vidas através do aprimoramento e da preservação dos nossos cérebros. Da criatividade à dependência de drogas, praticamente não existe um aspecto do comportamento humano ao qual não se tenha atribuído uma função cerebral. Para muitas pessoas atualmente, o cérebro parece ser o substituto contemporâneo da alma.

Mas deixando de lado o romance do público com o cérebro, a lição mais fundamental que a neurociência tem a nos ensinar é que o órgão de nossas mentes é uma entidade puramente física, incorporada conceitual e causalmente no mundo natural. Embora o cérebro seja necessário para quase tudo que fazemos, ele nunca trabalha sozinho. Em vez disso, sua função está inextricavelmente ligada ao corpo e ao ambiente ao seu redor. A interdependência desses fatores é mascarada, porém, por um fenômeno cultural que chamo de "mística cerebral" - uma disseminada idealização do cérebro e de sua singular importância que protege as concepções tradicionais sobre as diferenças entre mente e corpo, sobre o livre-arbítrio e sobre a natureza do próprio pensamento
 
A mística é expressa de múltiplas formas, variando desde representações onipresentes de cérebros sobrenaturais e ultra-sofisticados na ficção científica e na mídia popular até concepções mais sóbrias e cientificamente embasadas das funções cognitivas que enfatizam suas qualidades inorgânicas ou restringem os processos mentais a estruturas neurais. Essa idealização é quase que automaticamente adotada por leigos e cientistas (inclusive por mim mesmo!) e é compatível tanto com a visão de mundo materialista quanto com a espiritualista. A mística cerebral pode ajudar a aumentar o entusiasmo pela neurociência - uma consequência valiosa - mas ela limita drasticamente nossa capacidade de analisar o comportamento humano e de enfrentar problemas sociais importantes.

A difundida analogia do cérebro com um computador contribui de maneira poderosa para a mística cerebral, distanciando o cérebro do resto da biologia. O contraste entre o cérebro-máquina e a bagunça molhada e caótica [wet, chaotic mess] que temos no restante do nosso corpo estabelece uma distinção cérebro-corpo que se assemelha à histórica distinção mente-corpo estabelecida por filósofos antigos como René Descartes. Em consonância com as noções religiosas ocidentais de alma, Descartes postulou no século XVII que a mente é uma entidade etérea que interage com o corpo, mas que não se une a ele. Com seu axioma atemporal "penso, logo existo", Descartes colocou a mente em seu próprio universo, independente do mundo material. 


Na medida em que o cérebro se assemelha a uma máquina, podemos mais facilmente imaginá-lo sendo removido de nossas cabeças, preservado por toda a eternidade, clonado ou enviado para o espaço. O cérebro digital parece assim separável do corpo tanto em sua substância quanto em suas relações causais, de forma muita semelhante com o espírito desprendido de Descartes. Pode não ser por acaso que algumas das analogias inorgânicas mais influentes sobre o cérebro foram introduzidas por cientistas físicos que, em seus últimos anos de vida, abraçaram o problema da consciência da mesma forma que os idosos por vezes se aferram à religião. John von Neumann, o pioneiro da computação, foi o mais conhecido deles; ele escreveu o influente livro The computer and the brain [O Computador e o Cérebro] (1958) pouco antes de sua morte em 1957, inaugurando essa duradoura analogia no início da era digital.

Os cérebros são, sem dúvida alguma, semelhantes aos computadores - os computadores, afinal de contas, foram inventados para executar funções semelhantes às realizadas pelo cérebro -, mas os cérebros também são muito mais do que feixes de neurônios e impulsos elétricos pelos quais eles são famosos por propagar. A função de cada sinal neuroelétrico é liberar uma pequena inundação de substâncias químicas que ajudam a estimular ou inibir as células cerebrais, da mesma forma que substâncias químicas ativam ou inibem funções como a produção de glicose pelas células do fígado ou respostas imunes pelas células brancas do sangue. Mesmo os sinais elétricos do cérebro são produtos de substâncias químicas chamadas íons, que entram e saem das células, causando pequenas ondulações que podem se espalhar de forma independente dos neurônios. 

Igualmente distintas dos neurônios são as relativamente passivas células cerebrais denominadas glia (palavra que em grego significa cola), que existem em número semelhante ao de neurônios, mas não conduzem sinais elétricos da mesma maneira. Experimentos recentes com ratos demonstraram que manipular essas pouco carismáticas células pode produzir efeitos dramáticos no comportamento. Em um experimento, um grupo de pesquisa do Japão demonstrou que a estimulação direta da glia em uma região do cérebro chamada cerebelo pode causar uma resposta comportamental análoga às mudanças mais comumentes provocadas pela estimulação dos neurônios. Outro estudo notável mostrou que o transplante de células glias humanas para cérebros de camundongos aumentou o desempenho dos animais em testes de aprendizado, mais uma vez demonstrando a importância da glia na modelagem da função cerebral. As substâncias químicas e a cola são tão essenciais para o cérebro quanto a fiação e a eletricidade. Com esses elementos úmidos [moist elements] levados em conta, o cérebro começa a parecer muito mais uma parte orgânica do corpo do que a prótese idealizada que muitas pessoas imaginam. 

Estereótipos sobre a complexidade cerebral também contribuem para a mística do cérebro e sua distinção do corpo. Tornou-se um clichê se referir ao cérebro como "a coisa mais complexa no Universo conhecido". Esta ideia é inspirada pela descoberta de que os cérebros humanos contêm algo na ordem de 100.000.000.000 de neurônios, cada um dos quais com a capacidade de fazer cerca de 10.000 conexões (sinapses) com outros neurônios. A natureza assustadora de tais números oferece respaldo às pessoas que argumentam que a neurociência nunca decifrará a consciência, ou que o livre arbítrio se esconde, de alguma forma, entre as bilhões de células e conexões cerebrais.

Mas é improvável que o grande número de células no cérebro humano explique suas extraordinárias capacidades. Os fígados humanos têm aproximadamente o mesmo número de células que os cérebros, mas certamente não geram os mesmos resultados. Os próprios cérebros variam consideravelmente de tamanho - em cerca de 50% da massa e do número de células cerebrais. A remoção radical de metade do cérebro é às vezes utilizada como um tratamento para a epilepsia em crianças. Comentando sobre um coorte de mais de 50 pacientes submetidos a esse procedimento, uma equipe da Universidade Johns Hopkins, localizada em Baltimore, escreveu que eles ficaram "admirados com a evidente retenção de memória após a remoção de metade do cérebro e também com a conservação da personalidade e do senso de humor da criança". Claramente, nem todas as células cerebrais são sagradas. 


Caso se olhe para o reino animal, grandes variações no tamanho do cérebro não se correlacionam em absoluto com o  poder cognitivo aparente. Alguns dos animais mais perspicazes são os corvídeos - as gralhas e os corvos - que possuem cérebros com menos de 1% do tamanho do cérebro humano, mas que, ainda assim, realizam façanhas cognitivas comparáveis aos chimpanzés e gorilas. Estudos comportamentais demonstraram que essas aves podem criar e utilizar ferramentas e também reconhecer pessoas na rua, façanhas que até mesmo muitos primatas não são capazes de realizar. No interior de ordens específicas, animais com características semelhantes também exibem grandes diferenças no tamanho do cérebro. Dentre os roedores, por exemplo, podemos encontrar o cérebro da capivara, que possui 80 gramas e 1,6 bilhão de neurônios, e o também o cérebro do camundongo-pigmeu, que possui 0,3 gramas e, provavelmente, menos de 60 milhões de neurônios. Apesar da diferença de mais de 100 vezes no tamanho do cérebro, essas espécies vivem em habitats similares, exibem estilos de vida sociais semelhantes e não apresentam diferenças óbvias na inteligência. Embora a neurociência esteja apenas começando a estudar as funções cerebrais de animais pequenos, tais pontos de referência demonstram que é errado mistificar o cérebro em função de seu número total de componentes. 

Ao se enfatizar as qualidades maquinais do cérebro ou a sua incrível complexidade, isto acaba por distanciá-lo do restante do mundo biológico no que diz respeito aos seus componentes. Mas uma forma relacionada de distinção cérebro-corpo exagera a maneira pelo qual cérebro se destaca no que diz respeito à sua autonomia em relação ao corpo e ao meio ambiente. Este dualismo contribui para a mística cerebral ao engrandecer a reputação do cérebro identificando-o como um centro de controle, receptivo a informações corporais e ambientais, mas ainda assim no comando.


Contrariamente a essa ideia, nossos próprios cérebros são continuamente influenciados por uma grande quantidade de inputs sensoriais. O ambiente dispara muitos megabytes de dados sensoriais ao cérebro a cada segundo, informação suficiente para desativar muitos computadores. O cérebro não tem firewall contra esse tipo de "ataque". Estudos de imagem cerebrais mostram que mesmo estímulos sensoriais sutis influenciam certas regiões do cérebro, que vão desde regiões sensoriais de nível inferior [low-level], onde o input entra no cérebro, até partes do lobo frontal, área de nível superior [high-level] que é maior em humanos do que na maioria dos primatas.

Muitos desses estímulos parecem assumir o controle direto de nosso comportamento. Por exemplo, quando vemos ilustrações, suas características visuais geralmente parecem atrair nossos olhos e orientar nosso olhar em torno de padrões espaciais que são amplamente reproduzíveis de pessoa para pessoa. Se observarmos um rosto, nosso foco se move reflexivamente entre os olhos, o nariz e a boca, subconscientemente se focando em suas características-chave. Quando andamos pela rua, nossas mentes são similarmente manipuladas por estímulos do ambiente circundante - o barulho da buzina de um carro, o brilho de uma luz neon, o cheiro de uma pizza - cada um destes estímulos guiam nossos pensamentos e ações mesmo que nós não nos demos conta de nada do que está acontecendo.


Ainda mais abaixo do nosso radar [istoé, da nossa percepção consciente] estão as características ambientais que agem em uma escala de tempo mais lenta influenciando nosso humor e nossas emoções. Os baixos níveis sazonais de luz são famosos por sua correlação com a depressão, um fenômeno descrito pela primeira vez pelo médico sul-africano Norman Rosenthal logo após ele se mudar da ensolarada Joanesburgo para o cinza nordeste dos Estados Unidos na década de 1970. As cores em nosso entorno também nos afetam. Embora a ideia de que as cores tenham poder psíquico evoque o misticismo da Nova Era, experimentos cuidadosos repetidamente ligaram cores frias, como o azul e o verde, a respostas emocionais positivas, e tons quentes avermelhados a respostas negativas. Em um exemplo, os pesquisadores mostraram que os participantes tiveram um desempenho pior nos testes de QI marcados com a cor vermelha do que nos testes marcados com verde ou cinza; outro estudo descobriu que os sujeitos se saíram melhor em testes computadorizados de criatividade desenvolvidos em um fundo azul do que em um fundo vermelho. 

Sinais de dentro do corpo influenciam o comportamento tão poderosamente quanto as influências do meio ambiente, novamente usurpando o comando do cérebro e desafiando concepções idealizadas de sua supremacia. Um caminho particularmente poderoso para as interações recíprocas cérebro-corpo é o chamado eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), nome dado a um conjunto de estruturas dentro e fora do cérebro que coordenam juntas a resposta de luta ou fuga. A ativação do eixo HPA é freqüentemente desencadeada por sinais cerebrais relacionados ao medo que levam à secreção de cortisol e adrenalina por uma glândula situada no topo dos rins. Esses hormônios, por sua vez, desencadeiam uma série de mudanças corporais que afetam a respiração, a frequência cardíaca, a acuidade sensorial e muitas outras variáveis, fornecendo feedback ao cérebro e fechando um circuito de interação mútua cérebro-corpo. Em alguns casos, o eixo HPA pode ser acionado de fora do cérebro, como na gravidez, quando um "surto" de cortisol tem origem na placenta. 

O eixo HPA fornece uma das rotas pelas quais nossos estados emocionais geralmente são conectados a mudanças corporais que se estendem para muito além do cérebro. O monitoramento de parâmetros fisiológicos observáveis ​​externamente, tais como a condutância da pele e a respiração, há muito apoia a ideia de que as emoções produzem respostas distintas, relacionadas às formas como elas são percebidas. Em um estudo de 2014, um grupo de pesquisadores liderado por Lauri Nummenmaa, da Universidade Aalto, na Finlândia, pediu aos participantes para descrever as sensações corporais que eles associavam a 14 emoções distintas. O resultado foi um impressionante conjunto de "mapas corporais" das emoções, revelando padrões variados de aumento e diminuição da sensibilidade associados a sentimentos como a raiva, o medo, a felicidade, a depressão, o amor e assim por diante. A habilidade dos sujeitos de relatar suas sensações enfatiza que as mudanças corporais são parte de como as emoções são experienciadas, e não apenas consequencias da atividade cerebral relacionada à emoção. 

Uma extraordinário achado feito nos últimos anos é o fato de que os micróbios que vivem nos intestinos também fazem parte da rede fisiológica que influencia nossas emoções. Alterar a população microbiana do intestino comendo alimentos ricos em bactérias [bacteria-rich foods] ou submetendo-se a um procedimento desconcertante denominado transplante fecal pode alterar características como a ansiedade e a agressividade. Um experimento-chave foi realizado com ratos, onde uma troca de micróbios intestinais entre uma linhagem de ratos normalmente tímida chamada BALB/c e uma linhagem mais extrovertida denominada NIH Swiss foi suficiente para inverter suas personalidades. Em pacientes humanos transplantados, os efeitos cognitivos e emocionais também são comuns. Alguns desses efeitos estão relacionados à correção da condição médica que levou à necessidade do transplante. Por exemplo, a insuficiência hepática ou renal provoca um acúmulo de toxinas como a amônia no sangue; isto, por sua vez, causa algumas dificuldades cognitivas que podem ser corrigidas pela substituição do órgão doente. No entanto, até mesmo procedimentos como a redução de estômago, que não curam propriamente uma doença, causam mudanças de personalidade em cerca de 50% dos pacientes.

Tais exemplos ilustram até que ponto o que acontece no cérebro é entrelaçado com o que acontece no corpo e no ambiente. Não há limite causal ou conceitual entre o cérebro e seu entorno. Alguns aspectos da mística cerebral - visões idealizadas do cérebro como algo inorgânico, hipercomplexo, autocontido e autônomo - falham quando analisamos mais de perto do que o cérebro é feito e como ele funciona. O envolvimento integrado entre cérebro, corpo e ambiente é precisamente o que faz com que ter uma mente biológica seja diferente de ter uma alma - e as implicações dessa diferença são tremendas. Mais importante ainda, a mística cerebral promove uma sensação enganosa de que o cérebro é o principal motor dos nossos pensamentos e ações. À medida que procuramos entender a conduta humana, a mística nos leva a pensar primeiro nas causas relacionadas ao cérebro e a prestar menos atenção a fatores fora de nossas cabeças. Isso nos leva a enfatizar demais o papel dos indivíduos e a subestimarmos o papel dos contextos em uma série de fenômenos culturais.

Na área da justiça criminal, por exemplo, alguns escritores sugerem que o cérebro do criminoso deveria ser culpado pelas transgressões. Este argumento frequentemente invoca o caso de Charles Whitman, que em 1966 cometeu um dos primeiros tiroteios em massa dos EUA, na Universidade do Texas. Nos meses que antecederam o crime, Whitman expôs seus problemas psicológicos [à profissionais do centro de saúde da universidade], e sua autópsia revelou que um grande tumor estava crescendo perto de uma parte do seu cérebro denominada amígdala, área relacionada ao processamento do estresse e à regulação das emoções. No entanto, ainda que os defensores da culpabilização do cérebro argumentem que o tumor cerebral de Whitman possa ter causado o crime, a realidade é que seu ato ocorreu num cenário com múltiplos fatores predisponentes: crescer com um pai violento, o recente divórcio de seus pais, reiteradas rejeições em sua carreira, abuso de substâncias, grande estatura física e acesso a armas de alta potência. Mesmo a alta temperatura no dia do crime - 37 graus Celsius - poderia ter contribuído para o comportamento agressivo de Whitman.

Culpar o cérebro pelo comportamento criminoso oferece uma possibilidade de escape dos antiquados princípios  da moralidade e da retribuição, mas certamente negligencia a extensa rede de influências que contribuem para qualquer situação. Na atual discussão sobre as causas da violência nos EUA, é mais importante do que nunca manter uma visão ampla de como múltiplos fatores trabalham juntos dentro e ao redor de cada indivíduo; problemas mentais, acesso a armas, influências da mídia e alienação social podem todos contribuir para o problema. Em outros contextos, nós ignoramos fatores semelhantes quando culpamos o cérebro pela dependência de drogas ou pelo mau comportamento do adolescente, ou ainda quando atribuimos apenas ao cérebro nossa criatividade e inteligência. Em cada caso, uma visão idealizada que simplesmente localiza boas e más qualidades pessoais no cérebro é surpreendentemente semelhante à certas perspectivas antiquadas que atribuíam a virtude e vício à alma metafísica. Uma visão contemporânea deve aceitar que qualquer ato de genialidade ou depravação surge de uma combinação de cérebro, corpo e ambiente trabalhando juntos.

A mística cerebral tem uma importância particular para a forma como nossa sociedade lida com o problema da doença mental. Isso em função do esforço generalizado de redefinir as doenças mentais como distúrbios cerebrais. Seus proponentes argumentam que tal redefinição posiciona os problemas psicológicos na mesma categoria que a gripe ou o câncer - doenças que não evocam o estigma social comumente associado aos transtornos psiquiátricos.  E de fato existem algumas evidências de que usar a linguagem dos distúrbios cerebrais contribui para a redução de barreiras para que os pacientes com problemas mentais procurem tratamento, um benefício importante. 

Em outros aspectos, no entanto, a reclassificação de doenças mentais como distúrbios cerebrais pode ser altamente problemática. Para os pacientes, atribuir problemas mentais a defeitos neurológicos intrínsecos implica em uma auto-estigmatização. Embora pessoas com "cérebros quebrados" não possam ser responsabilizadas moralmente ou instruídas a "simplesmente superar isso", a compreensão de que elas são irremediavelmente defeituosas pode ser igualmente prejudicial. Falhas biológicas podem ser mais difíceis de consertar do que lapsos morais, e pessoas com disfunção cerebral podem ser vistas como perigosas ou até mesmo como menos humanas. Essa atitude chegou a extremos com os nazistas, que assassinaram milhares de pacientes com problemas mentais como parte de seu programa de "eutanásia" durante a Segunda Guerra Mundial, mas persiste de formas mais sutis atualmente. Uma grande análise realizada em 2012 a respeito das mudanças de atitude com relação à doença mental constatou que não houve um aumento na aceitação social de pacientes com depressão ou esquizofrenia, apesar da crescente conscientização a respeito das contribuições neurobiológicas para tais condições.

Independentemente de suas implicações sociais, culpar o cérebro pelas doenças mentais pode ser cientificamente impreciso em muitos casos. Embora todos os problemas mentais envolvam o cérebro, os fatores causais subjacentes podem estar em outro lugar. No século XIX, a sífilis, doença bacteriana sexualmente transmissível, e a pelagra, doença relacionada à deficiência de vitamina B, estavam dentre as maiores causadoras de internação nos asilos para insanos na Europa e nos EUA. Um estudo mais recente estimou que cerca de 20% dos pacientes psiquiátricos têm alguma doença corporal que pode estar produzindo ou piorando sua condição mental; tais doenças incluem problemas cardíacos, pulmonares e endócrinos, que geram importantes efeitos cognitivos adversos. Pesquisas epidemiológicas descobriram correlações consideráveis ​​entre a incidência de doenças mentais e fatores como o pertencimento a uma minoria étnica, nascimento em uma determinada cidade e nascimento em certas épocas do ano. Embora estas correlações não tenham sido bem explicadas, elas enfatizam o provável papel dos fatores ambientais, para muito além do cérebro, no desenvolvimento dos problemas psiquiátricos. Nós devemos ser sensíveis a esses fatores se quisermos tratamentos e prevenções mais efetivas para os transtornos mentais. 

Em um nível ainda mais profundo, as convenções culturais circunscrevem a noção de doença mental. Há apenas 50 anos, a homossexualidade era classificada como uma patologia no manual oficial dos transtornos mentais da Associação Psiquiátrica Americana (APA). Na Rússia soviética, os dissidentes políticos algumas vezes eram internados com base em diagnósticos psiquiátricos que chocariam a maioria dos observadores atuais. No entanto, a preferência sexual ou a incapacidade de se curvar a uma autoridade na luta por uma causa virtuosa são ambos traços psicológicos para os quais eventualmente poderíamos encontrar certos correlatos biológicos. Isso não significa que a homossexualidade e a dissidência política sejam doenças cerebrais. É a sociedade, e não a neurobiologia, que define, no fim das contas, os limites da normalidade que determinam as categorias psiquiátricas [mental-health categories].

A mística cerebral exagera a contribuição do cérebro para o comportamento humano e, para alguns pesquisadores, também suscita visões notáveis ​​do papel do cérebro no futuro da própria humanidade. Nos círculos tecnofílicos, há cada vez mais falas a respeito da ideia de "hackear o cérebro" para melhorar a cognição humana. Essa noção evoca o tipo de intervenção sofisticada mas semi-subversiva que se pode fazer de um smartphone  ou de servidor do governo, mas a realidade geralmente é mais parecida com o tipo de "hacking" que se executaria com um facão [a expressão "to hack", em inglês significa, originalmente, "cortar"]
. Alguns dos mais antigos hacks cerebrais envolveram a destruição intencional de certas áreas do cérebro, atividade que se tornou famosa como parte do extinto procedimento da psicocirurgia que inspirou o romance de Ken Kesey, Um estranho no ninho (1962). O mais avançado dos atuais hacks cerebrais envolve o implante cirúrgico de eletrodos voltados para a estimulação direta ou para o registro do tecido cerebral. Essas intervenções podem restaurar certas funções básicas de pacientes com graves distúrbios de movimento ou paralisia - um feito incrivelmente impressionante, mas ainda assim muito distante dos aprimoramentos voltados para a expansão das habilidades normais. Essa distância não impediu empresários como Elon Musk ou a agência de defesa norte-americana DARPA de investir pesadamente em uma tecnologia que eles esperam um dia conecte, de forma rotineira, cérebros humanos saudáveis a computadores.

Mas este entusiasmo é em grande parte consequência de uma distinção artificial estabelecida entre o que acontece dentro e fora do cérebro. O filósofo Nick Bostrom, do Future of Humanity Institute, sediado em Oxford, afirma que "a maioria dos benefícios que você poderia se imaginar alcançando através de [implantes cerebrais] poderiam ser alcançados tendo os mesmos dispositivos instalados fora do seu corpo, por exemplo usando certas interfaces naturais como seus globos oculares, que podem projetar 100 milhões de bits por segundo diretamente no seu cérebro". Na verdade, a maioria de nós está familiarizada com o tipo de dispositivo voltado para o aprimoramento cognitivo que pode ser encontrado em nossas mesas, bolsos e bolsas, aumentando nossa capacidade de memorização e comunicação sem tocar em nenhum neurônio. É questionável se conectar dispositivos semelhantes a smartphones diretamente aos cérebros acrescentaria algo além de aborrecimento e distração. 

No campo da medicina, os esforços iniciais para restaurar a visão de pessoas cegas usando implantes cerebrais rapidamente cederam lugar a abordagens muito menos invasivas envolvendo próteses de retina, que alavancam a fisiologia natural do corpo de forma a proporcionar o processamento de informações visuais. Os implantes cocleares que restauram a audição de pacientes surdos baseiam-se na estratégia semelhante de serem conectados ao nervo auditivo no ouvido, em vez de ao próprio cérebro. Exceto nos pacientes mais debilitados, as próteses para restaurar ou melhorar o movimento também se beneficiam de interfaces com o corpo. Para dar aos amputados o controle sobre os membros artificiais mecanizados, uma técnica chamada "reinervação muscular direcionada" permite que os médicos conectem os nervos periféricos "frouxos" do membro original ausente a novos grupos musculares que, por sua vez, se comunicam com o dispositivo. Para melhorar a função motora em pessoas saudáveis, os exoesqueletos elétricos desenvolvidos por empresas como a Cyberdyne no Japão comunicam-se com o portador através de eletrodos instalados na superfície da pele, recebendo também informações do cérebro através de canais indiretos, mas progressivamente aprimorados. Em cada um desses exemplos, as interações naturais do cérebro com o corpo ajudam a pessoa a usar a prótese, potencializando, ao invés de negando, a continuidade entre o cérebro e o corpo. 

O caminho mais extremo da tecnologia futurista cerebral é a busca pela imortalidade através da preservação post-mortem dos cérebros humanos. Duas empresas atualmente se oferecem para extrair e preservar os cérebros dos "clientes" moribundos, que não desejam ir passivamente para a "outra vida". Os órgãos serão armazenados em nitrogênio líquido até que a tecnologia avance ao ponto (ainda distante) onde o cérebro possa ser restaurado para funcionar de alguma forma ou analisado em detalhes suficientes para "carregar" sua mente em um computador. Este empreendimento leva a mística cerebral ao seu desfecho lógico, abraçando totalmente a falácia de que a vida humana é redutível à função cerebral e de que o cérebro é apenas uma corporificação física da alma.

Embora a busca pela imortalidade por meio da preservação do cérebro cause pouco prejuízo para além das contas bancárias de algumas pessoas, esta busca também exemplifica por que a desmistificação do cérebro é tão importante. Quanto mais sentimos que nossos cérebros englobam nossa essência como indivíduos, e quanto mais acreditamos que os nossos pensamentos e ações emanam simplesmente do "pacote de carne" que temos em nossas cabeças, menos sensíveis seremos ao papel da sociedade e do ambiente ao nosso redor e menos nós faremos para cultivar nossa cultura compartilhada e nossos recursos - seja com relação ao comportamento criminoso, à criatividade, à doença mental ou a qualquer outro aspecto da vida humana. 


O cérebro é especial porque ele não nos remete a uma essência e também porque ele nos une ao ambiente de uma maneira que uma alma jamais faria. Se valorizamos nossas próprias experiências, nós devemos proteger e fortalecer os muitos fatores, internos e externos, que enriquecem as nossas vidas, de modo que o maior número possível de pessoas possa se beneficiar deles agora e no futuro. Nós precisamos reconhecer que somos muito mais do que nossos cérebros.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Em busca da imortalidade da mente

Desde tempos imemoriais os seres humanos acreditam - e confiam - na imortalidade dos deuses e das almas. Em especial, a ideia de que nossa alma sobrevive após a morte do nosso corpo, está presente desde os primeiros escritos feitos pela humanidade. No clássico diálogo Fédon, publicado no século 4 A.C., o filósofo Platão aponta para a morte como o momento em que nossa alma, sede da nossa razão, se liberta do nosso corpo, sede de nossas emoções e, portanto, inimigo da razão. Para Platão, a alma, ao contrário do corpo, é indestrutível e, consequentemente, imortal. "Quando o homem perece, sua parte mortal também perece, mas a imortal escapa rapidamente, salvando-se da morte", aponta o autor. Alguns séculos à frente, René Descartes, em sua clássica obra Meditações metafísicas - originalmente denominada Meditações de filosofia primeira em que a existência de Deus e a imortalidade da alma são demonstradas - defende, mais uma vez, a noção de uma alma imaterial e imortal, oposta, ainda que conectada (por meio da Glândula Pineal), ao nosso corpo material e mortal. E de uma forma ampla todas as religiões e filosofias espiritualistas defendem alguma versão desta noção, que provavelmente teve início com a própria humanidade e sobreviveu, com grande força, até os dias atuais. 

Etapas da Iniciativa 2045
A grande novidade de nossos tempos é busca científica pela imortalidade, que ocorre basicamente de três formas: 1) busca pela imortalidade do corpo; 2) busca pela imortalidade do cérebro e 3) busca pela imortalidade da mente. A primeira busca está relacionada à todos os esforços para deter ou mesmo reverter o processo de envelhecimento. Alguns cientistas contemporâneos de fato acreditam e defendem a visão de que o envelhecimento é uma doença cuja cura, se encontrada, acarretará na amortalidade (mas não na imortalidade) dos seres humanos - a diferença é que enquanto a amortalidade implica no fim da morte por causas naturais, a imortalidade pressupõe que os homens se tornem deuses, ficando imunes também à morte por causas não-naturais - um ser imortal não morreria nem mesmo se um trem passasse por cima de sua cabeça). Já a segunda busca descarta o corpo de uma forma geral e se foca no cérebro humano, entendido como a única parte que realmente importa para que sejamos nós mesmos - concepção reducionista que eu já critiquei neste blog inúmeras vezes. Propostas ficcionais de transplante de cérebro, como aquelas expostas nos filmes O cérebro que não queria morrer (1962), O homem com dois cérebros (1983) e Corra! (2017) se relacionam indiretamente a esta busca, assim como propostas reais, mas ainda longe de serem concretizadas, como a Iniciativa 2045, que pretende, até 2025, transferir o cérebro do bilionário russo Dmitry Itskov para um corpo sintético, que levará o seu "eu" para toda a eternidade. O grande problema desta busca é que o cérebro, assim como o resto do corpo, tem um prazo de validade e inevitavelmente morre. Esta segunda busca só terá algum sucesso - o que duvido muito - caso a primeira seja efetivada - o que também duvido muito (até acredito que a vida possa ser estendida para 150 ou 200 anos, por exemplo,  mas não creio que conseguirão estendê-la indefinidamente). E é exatamente por conta desta difícil limitação - que é a limitação essencial da própria vida, efêmera por sua própria natureza - que muitos cientistas e futurologistas tem se focado na terceira via, isto é, na busca pela imortalidade da mente. E é sobre essa busca que irei me focar mais detidamente abaixo.

Corpo/capa descartável na série Altered carbon
Essa terceira busca ainda permanece e provavelmente permanecerá por muitos e muitos anos (para sempre, creio eu) no terreno da ficção científica. Veja, por exemplo, os filmes Transcendence: a revolução (2014), Soldado do futuro (2013), o curta-metragem The Final Moments of Karl Brant (2013), ou ainda a série Altered carbon, lançada em 2018 pela Netflix - isto para não falar de alguns episódios das fantásticas séries Black Mirror, Humans, Arquivo X, Philip K. Dick' Eletric Dreams e Westworld. Todas estas produções exploram a ideia de mind upload, isto é, a possibilidade ainda remota de transferência da mente ou da consciência para dispositivos eletrônicos, ocasionando uma espécie de imortalidade digital. No filme Trancendence, por exemplo, acompanhamos o cientista Will Caster transferir a própria mente para um computador quântico e, com isso, se tornar incrível e exageradamente poderoso. Já na belíssima embora insossa série Altered Carbon, observamos o upload da mente como uma prática cotidiana no mundo futurista que ela retrata. A diferença é que enquanto no filme a mente é transferida para um computador, possuindo apenas uma existência digital, não-corporificada, na série as mentes são transferidas para dispositivos que são acoplados a corpos artificiais (denominados "capas") possuindo, desta forma, existências corporais. Na série, as pessoas, ou melhor, suas mentes, não morrem jamais: quando o corpo perece, um disco rígido com o conteúdo de sua mente é simplesmente realocado em uma nova capa (que pode ser de um outro gênero, idade ou etnia) e a vida continua indefinidamente - como afirma o protagonista da série, você troca de capa como uma cobra muda de pele. O corpo, na sociedade retratada pela série, é absolutamente descartável. O que há de importante no ser humano, e que permanece ao longo das gerações, não é nem o seu corpo nem o seu cérebro, mas única e exclusivamente sua mente, isto é, a coleção de suas vivências e memórias.

Embora a ideia de upload mental ainda esteja no plano da ficção-científica, alguns cientistas e transhumanistas tem apostado neste caminho como aquele que conduzirá a humanidade à tão sonhada imortalidade. O bilionário russo Dmitry Itskov, que já mencionei acima, estabeleceu como penúltima meta de sua Iniciativa a "transferência da personalidade" de uma pessoa para o "cérebro artificial de um Avatar". Por fim, a última etapa, programada para o ano de 2045, seria a total descorporificação da humanidade através da criação de um avatar holográfico que levaria a "personalidade" da pessoa para toda a eternidade - ou até a primeira falta de energia elétrica. Outra iniciativa ambiciosa que, de alguma forma, dialoga com as propostas da Iniciativa 2045 é o Human Brain Project (Projeto Cérebro Humano), lançado em 2013 pela União Europeia e que atualmente envolve cerca de 500 cientistas de mais de 100 universidades. Ainda que não pretenda realizar o upload da mente ou do cérebro para um computador, este megaprojeto se propõe, dentre outras coisas, a construir uma simulação do cérebro humano em um supercomputador. A diferença é que enquanto o upload pretende transferir e não apenas copiar a mente humana, a simulação pretende recriar artificialmente o funcionamento do cérebro (mas não da mente, o que não seria nem de longe possível já que ninguém ainda compreende plenamente qual a relação da mente com o cérebro e com o resto do corpo). No entanto, cabe a reflexão de se em um eventual upload, o que seria de fato transferido para um computador seria a própria mente ou apenas uma simulação dela. E esta reflexão leva, por sua vez, a indagações ainda mais complexas: caso conseguissem "baixar" todo o conteúdo de sua mente, "transferindo-o" em seguida para um computador, esse novo "arquivo" seria realmente você ou apenas uma cópia sua? E se fizessem isso com você ainda vivo seria possível dizer que após a "transferência" passariam a existir duas - ou talvez três, quatro, cinco ou mil - versões de você mesmo? Será que diante da existência de mil "eus" ainda poderíamos falar em um "Eu"? Como ficaria a noção de individualidade caso existissem infinitas versões de nós mesmos (como descobre Buzz Lightyear no desenho Toy Story)? E mais: como seria esta versão "sem corpo" de você mesmo? Ela ainda teria direitos e deveres como todos os seres humanos corporais e estaria sujeita a penalizações caso cometesse algum crime virtual, por exemplo? Como ficariam as relações pessoais em tal contexto? Sem dúvida alguma estas perguntas são, atualmente, irrespondíveis - e na minha sincera opinião, dificilmente o serão no futuro.

A comunidade científica, de uma forma geral, parece enxergar esta busca pela imortalidade digital com grande ceticismo. Cientistas proeminentes das áreas da neurociência e ciências cognitivas já vieram à público manifestar profundas críticas com relação à tais propostas. Por exemplo, questionado pelo site Gizmodo se acreditava na possibilidade de um upload mental, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis respondeu: "Não, porque nossas mentes não são digitais. Depende da informação incorporada no tecido cerebral que não pode ser extraída por meios digitais. Isso nunca vai acontecer. Este é apenas um mito de scifi urbano que não possui mérito ou apoio científico. Isso só diminui a natureza única de nossa condição humana - ao compará-la às máquinas digitais - e infunde medo às pessoas que não conhecem melhor". Em seu livro O cérebro relativístico: como ele funciona e porque ele não pode ser simulado por uma máquina de Turing, escrito em parceria com o matemático Ronald Cicurel, Nicolelis se coloca de forma absolutamente crítica com relação à possibilidade de criar uma simulação do cérebro humano - e, como já apontei anteriormente, a ideia de "transferência da mente" pressupõe a criação de uma simulação. Afirmam os autores nesta obra difícil e  pouquíssimo conhecida: "a tentativa de simular cérebros num computador digital é limitada por uma longa série de problemas, ditos não computáveis ou intratáveis matematicamente, que nem mesmo um supercomputador de última geração será capaz de solucionar. Pelo contrário, nós propomos que sistemas nervosos complexos geram, combinam e estocam informação sobre si mesmos, o corpo que habitam e o mundo exterior que os circunda, através de uma interação dinâmica e recursiva de um sistema híbrido digital e analógico". Na visão dos autores, a transferência ou mesmo a simulação do cérebro humano em um computador digital não é possível por uma série de motivos, dentre os quais: 1) o sistema nervoso humano é um sistema biológico (e, portanto, analógico) cuja "linguagem", elétrica e química, não pode simplesmente ser transformada na linguagem computável (e, portanto, digital) dos bites e bytes. Como afirmam os autores, "a rica semântica dinâmica que caracteriza as funções cerebrais não pode ser reduzida à sintaxe limitada dos algoritmos usada por computadores digitais"; 2) uma característica essencial dos sistemas nervosos (que inclui mas não se restringe ao cérebro) é que eles interagem continuamente com o resto do corpo dos organismos e com o mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Imaginar que um sistema nervoso poderia ser transferido ou simulado sem qualquer interação com o restante do corpo e com o mundo exterior, não passaria, para os autores, de ficção científica; 3) outra característica fundamental do sistema nervoso é sua plasticidade, isto é, sua capacidade de alterar suas funções e estrutura em resposta à alterações no ambiente interno e externo dos organismos. Segundo os autores, "o cérebro é como uma orquestra cujos instrumentos continuamente mudam sua configuração estrutural em função da música produzida". A consequência disso é que qualquer simulação que não consiga reproduzir a plasticidade neuronal estaria fadada ao fracasso. No entanto, como simular tal característica sem a contínua interação com o corpo e o ambiente que possibilita a própria existência da plasticidade? 4) por fim, os autores argumentam que jamais uma simulação conseguirá reproduzir toda a complexidade dinâmica do cérebro humano. Segundo eles, "a típica estratégia utilizada por modeladores computacionais, nunca conseguirá descrever ou reproduzir, na sua integridade, a complexa riqueza dinâmica que dota cérebros como o nosso com seu inigualável repertório de funções e capacidades".

Em seu último livro, A estranha ordem das coisas, lançado em 2018 no Brasil, o famoso neurocientista português Antônio Damásio também faz importantes e duras críticas à proposta do upload mental. No capítulo 11 desta excelente obra, denominado Medicina, imortalidade e algoritmos, Damásio comenta sobre a proposta transhumanista de que a mente poderá um dia ser "carregada" em um computador de forma a garantir sua vida eterna. Afirma o autor: "No momento, este cenário é implausível. Ele revela uma noção limitada do que a vida realmente é, além de deixar transparecer a falta de entendimento das condições nas quais os verdadeiros seres humanos constroem experiências mentais. O que os transumanistas iriam carregar no computador ainda é um mistério. Decerto não seriam experiências mentais, pelo menos não se estas amoldarem-se aos relatos que a maioria dos humanos faria sobre sua mente consciente. Uma das principais ideias deste livro [e de toda a obra de Damásio] é que as mentes surgem de interações de corpos e cérebros, e não de cérebros isoladamente. Por acaso os transumanistas estão planejando carregar o corpo também?". Em toda sua obra - que inclui os livros O erro de Descartes, O mistério da consciência, E o cérebro criou o homem e Em busca de Espinosa - Damásio aponta de forma enfática para a importância de todo o corpo (que inclui o cérebro mas não se limita a ele) para a formação e constituição daquilo que denominamos "mente". Em seu novo livro ele resume da seguinte forma seu entendimento sobre essa questão: "Não existe mente sem corpo. Nosso organismo contém um corpo, um sistema nervoso e uma mente, que é derivada de ambos". A consequência desta visão é que a mera ideia de uma mente sem corpo - e sem a constante interação deste corpo com o ambiente - não faz o menor sentido. Além do mais, Damásio é extremamente crítico à ideia de que os organismos naturais poderiam, de alguma forma, ser reduzidos a algoritmos, isto é, à linguagem computacional. Segundo ele, "dizer que organismos vivos são algoritmos é, no mínimo, equivocado e, rigorosamente falando, falso. Algoritmos são fórmulas, receitas, enumerações de passos na construção de determinado resultado. Os organismos vivos, inclusive o humano, são construídos segundo algoritmos e fazem uso deles para operar seu maquinário genético. Mas eles próprios NÃO são algoritmos. São consequências do emprego de algoritmos e apresentam propriedades que podem ou não ter sido especificadas nos algoritmos que guiaram sua construção [são as propriedades emergentes dos organismos]. Acima de tudo, são grupos de tecidos, órgãos e sistemas nos quais cada célula componente é uma entidade viva vulnerável feita de proteínas, lipídios e açucares. Eles não são linhas de código; são matéria palpável". Em sua obra, Damásio repetidas vezes sublinha que a metáfora da máquina, que ainda (e infelizmente) domina nosso entendimento sobre o cérebro - quem nunca escutou ou leu que "o cérebro é a máquina mais complexa existente no universo"? - por vezes nos faz esquecer que o cérebro real não é nem de longe uma máquina, mas um órgão biológico tal qual o coração, o fígado ou o pâncreas. E a "linguagem" que ele utiliza na comunicação entre suas células é essencialmente a linguagem química, o que dificulta em muito sua tradução para a linguagem algorítimica - aliás, a tradução, neste caso, é até possível, mas, como bem afirmam os tradutores, toda tradução é uma traição, o que significa dizer que sempre ocorrerão perdas neste processo de transformação de uma linguagem em outra. Por fim, Damásio questiona a pertinência desta busca pela imortalidade digital, afirmando que "não devemos negar o mérito de um projeto científico, nem impedí-lo pelo fato de ele conter uma interpretação problemática da humanidade. Meu argumento é mais simples. Apresentar interpretações da humanidade que parecem diminuir a dignidade humana - mesmo que não tenham intuito de fazê-lo - não favorece a causa humana".

Pegando carona neste comentário de Damásio, gostaria de fechar toda esta discussão - que se estendeu para muito além do que eu imaginava inicialmente - refletindo sobre uma questão mais básica: a imortalidade é desejável? Creio que algumas pessoas afirmariam que sim, argumentando que a morte é algo essencialmente ruim, mas outras - dentre as quais eu me incluo - entendem que a imortalidade seria muito pouco vantajosa. Afinal, você já parou para pensar como usaríamos o nosso tempo se tivéssemos todo o tempo do mundo? Como seriam os nossos relacionamentos, a nossa relação com o trabalho e com nossos projetos pessoais se a vida se tornasse repentinamente ilimitada? Embora não tenhamos condições de responder tais questões com base na realidade - pois ainda somos e provavelmente continuaremos sendo seres mortais -, a ficção está repleta de reflexões sobre essa questão. Pegue, por exemplo, os filmes Amantes eternos (2014) e O homem da terra (2007)  - eu poderia citar muitos outros, mas vou me ater a esses. Nestes dois filmes, os protagonistas são pessoas imortais - na verdade, amortais - que seguem pelo mundo através dos séculos. No maravilhoso filme Amantes eternos, por exemplo, acompanhamos a vida de um casal de vampiros imortais, Adam e Eve (referência óbvia ao primeiro casal bíblico), que vagam pela Terra há milhares de anos. Cansados de tudo e de todos eles permanecem algum tempo juntos, depois se cansam um do outro e "dão um tempo" de algumas centenas de anos. Ao longo dos séculos eles já fizeram um pouco de tudo, já se relacionaram com outras pessoas e viram todas morrerem, observaram o mundo mudar e os humanos (que eles chamam de "zumbis") cometerem repetidamente os mesmos erros. Enfim, eles vivem um gigantesco e permanente tédio - assim como, em menor grau, o protagonista do igualmente maravilhoso e filosófico filme O homem da terra, que, de forma semelhante à famosa música de Raul Seixas, teria nascido "há dez mil anos atrás" (na verdade, há 14 mil anos), ainda na chamada pré-história. Em ambas produções, os protagonistas são forçados a se mudarem de tempos em tempos de cidade, e até de país, de forma que ninguém descubra que são imortais. De toda forma, o que esse filmes trazem de reflexão é que a imortalidade dificilmente seria feliz; pelo contrário, muito provavelmente ela seria absurda e insuportavelmente tediosa. São as limitações impostas pela vida - de tempo, inclusive - que fazem com que demos valor às pequenas e grandes conquistas que obtemos. Se tivéssemos todo o tempo do mundo e se pudéssemos fazer tudo o que quiséssemos, muito provelmente não dariamos valor a nada. Como bem aponta o filósofo norueguês Lars Svenden no ótimo livro Filosofia do tédio, "quanto mais escolhas e possibilidades houver, menos importância cada uma delas terá. Cercado por uma seleção infinita de objetos 'interessantes' que podem ser escolhidos de modo a serem descartados, nada terá valor algum. Por essa razão, a imortalidade, que permitiria um número infinito de escolhas, teria sido imensamente entediante". Na mesma direção, como a Anciã do filme Doutor Estranho, penso que é a morte é que dá sentido à vida. Se não morrêssemos, muito provavelmente nunca nos preocuparíamos em dar significado e valor à nossa existência. Sem o limite temporal e o "senso de urgência" que a morte nos traz - e que nos move à ação - muito provavelmente deixaríamos tudo sempre para depois. É a inevitabilidade de nossa finitude que faz com que busquemos preencher os nossos dias da melhor forma possível. Como bem afirma o filósofo alemão Hans Jonas no magnífico artigo O fardo e a benção da mortalidade, "o conhecimento de que só estamos aqui por um breve período e que um limite não negociável é posto à nossa expectativa de tempo pode, inclusive, ser necessário enquanto incentivo para contarmos nossos dias e fazê-los valer".

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Um breve guia para a obra de Oliver Sacks

Oliver Sacks nasceu no dia 9 de Julho de 1933 em Londres, na Inglaterra, e faleceu, em decorrência de um câncer, no dia 30 de Agosto de 2015 - há exatos 3 anos - aos 82 anos de idade, em Nova York, nos Estados Unidos. Entre estas duas datas, o neurologista e escritor  britânico - que adotou os Estados Unidos como lar - produziu uma obra rica, variada e extremamente sensível que ajudou a desvendar o funcionamento e os mistérios da mente e do cérebro humanos. Chamado pelo jornal New York Times de "poeta da medicina moderna", Sacks escreveu muito, escreveu sempre muito bem e com uma  erudição invejável e escreveu até o fim, deixando um legado importante que ainda será fonte de leitura e pesquisa por muitos e muitos anos. Fortemente influenciado por pensadores como Darwin, Freud, William James, Kurt Goldstein, Gerald Ederman, Stephen Jay Gould e, especialmente, pelo grande neuropsicólogo russo Alexander Luria, Sacks dedicou grande parte de sua obra à descrição minuciosa de sujeitos com distúrbios neurológicos e transtornos mentais graves. Seguindo diretamente os passos iniciados por Luria com seus clássicos A mente de um mnemonista (lançado no Brasil como A mente e a memória) e O homem com o mundo estilhaçado - livros nos quais Luria relata com um incrível nível de detalhamento a trajetória de dois sujeitos excepcionais -, Sacks descreveu seus pacientes neurológicos com uma precisão, uma profundidade e uma delicadeza impressionantes. 

E foi justamente esta delicadeza que fez toda a diferença, pois Sacks não se limitou a descrever objetivamente as áreas afetadas do cérebro e os comportamentos disfuncionais de seus pacientes, como fazem e já fizeram inúmeros neurologistas. Sacks foi muito além e tentou descrever também a subjetividade (e, portanto, a mente) de seus pacientes. Além disso ele não se focou apenas em seus sintomas e déficits mas também em suas forças e potências para enfrentar condições por vezes extremamente debilitantes. Finalmente, apesar de ser um neurologista, Sacks nunca reduziu o ser humano a seu cérebro e sempre defendeu uma visão e uma atuação holísticas, que levassem em conta a pessoa de uma forma integral - ou, como diria Goldstein, o organismo em sua totalidade. No final das contas, Sacks não produziu nenhuma descoberta significativa para o campo da neurologia nem concebeu uma teoria coesa sobre o funcionamento cerebral e a relação mente-cérebro, mas o que ele fez foi extremamente significativo e impactante: ele contou histórias, muitas histórias, belas e trágicas como a vida e, com isso, trouxe "romantismo" à medicina e à neurologia. Seguindo a famosa distinção estabelecida por Luria entre ciência tradicional e ciência romântica, é possível dizer que Sacks foi um cientista romântico - ou, mais precisamente, um neurologista romântico. Como apontou Luria em sua autobiografia intelectual A construção da mente, "os cientistas românticos não querem fragmentar a realidade viva em seus componentes elementares e tampouco representar a riqueza dos eventos concretos através de modelos abstratos que perdem as propriedades dos fenômenos em si mesmos [como os cientistas clássicos]. É de maior importância, para os românticos, a preservação da riqueza da realidade viva, e eles aspiram a uma ciência que retenha esta riqueza". Oliver Sacks, com seu "projeto" de uma neurologia da identidade, aspirou transmitir esta riqueza e, sem dúvida alguma, foi muito bem-sucedido em sua empreitada.

Ao longo de sua vida, Sacks publicou um total de treze livros, todos traduzidos e lançados no Brasil pela editora Companhia das Letras - alguns, infelizmente, estão esgotados. Após sua morte, em 2015, outros dois livros já foram lançados e futuramente outros serão, pois Sacks publicou inúmeros artigos e ensaios em jornais e revistas, que muito provavelmente serão compilados e transformados em livros. Sacks publicou seu primeiro livro em 1970 (Enxaqueca), quando tinha 37 anos de idade, e seu último em Abril de 2015 (sua autobiografia Sempre em movimento), aos 81 anos, quatro meses antes de falecer. Entre estas duas obras, Sacks escreveu extensamente sobre neurologia e neurociências, mas também discorreu sobre química, sobre botânica, sobre filosofia, sobre viagens, sobre a vida e sobre a morte. Numa tentativa de sistematizar a obra de Sacks é possível dizer que ele escreveu: 1) livros autobiográficos (Com uma perna só, Tio Tungstênio e Sempre em movimento); 2) livros com relatos de casos variados (O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um antropólogo em marte e O olhar da mente) - os melhores livros do autor, na minha opinião; 3) livros temáticos (Enxaqueca, Tempo de despertar, Vendo vozes, Alucinações musicais e A mente assombrada); 4) livros com relatos de viagens (A ilha dos daltônicos e Diário de Oaxaca) e, finalmente, 5) livros com ensaios livres, publicados postumamente (Gratidão e O rio da consciência), totalizando quinze livros, que serão apresentados abaixo, seguindo a ordem de lançamento.

Enxaqueca
Título original: Migrane
Ano de lançamento: 1970

Sinopse oficial da editora: "Para a maioria de nós, a enxaqueca é apenas uma forte dor de cabeça que acomete periodicamente certas pessoas. Para Oliver Sacks, ela é muito mais do que isso. É, antes de tudo, um conjunto extremamente complexo e diversificado de síndromes entre as quais a dor de cabeça nem sempre está presente. Além disso, a enxaqueca pode nos fornecer pistas sobre algumas das questões mais fundamentais do ser humano. As diversas teorias sobre a origem e a natureza da enxaqueca são expostas no livro com clareza e profundidade. Para Sacks, os sintomas e as circunstâncias da enxaqueca devem ser não apenas minuciosamente descritos como também interrogados: o fundamental é o tipo de pergunta que um médico faz aos fenômenos que tem diante de si. Segundo Sacks, a pergunta crucial não diz respeito à doença que tal pessoa tem, mas à pessoa que tem tal doença. Primeiro livro de Sacks, Enxaqueca já contém todos os elementos que fizeram o sucesso de suas obras posteriores: conhecimento científico posto a serviço de um estilo único de narração capaz de transformar relatos clínicos em episódios de uma maravilhosa narrativa de suspense". Em sua autobiografia Sempre em movimento Sacks afirma o seguinte sobre a publicação desta obra: "Eu nunca vivera um sentimento tão forte, um sentimento de ter feito algo real e de algum valor, como senti com aquele primeiro livro".

Trecho do livro"Nossa visão da natureza mudou nos últimos vinte anos — passamos a reconhecer processos dinâmicos não lineares, processos caóticos e autoorganizadores em um vasto conjunto de sistemas naturais, e a perceber que esses processos têm um papel essencial da evolução do universo. Mas não precisamos ir muito longe na busca de exemplos - da agregação dos fungos do mofo aos movimentos de Plutão -, pois temos um laboratório natural, um microcosmo em nossa cabeça. É nesse sentido, finalmente, que a enxaqueca é fascinante, pois ela nos mostra, na forma de uma vitrine alucinatória, não só uma atividade elementar do córtex cerebral, mas todo um sistem auto-organizador, um comportamento universal em funcionamento. Revela-nos não apenas os segredos da organização neuronial, mas o coração criativo da própria natureza".

Tempo de despertar
Título original: Awekenings
Ano de Lançamento: 1973

Sinopse oficial da editora: "Usando uma nova droga, o neurologista Oliver Sacks conseguiu, entre 1969 e 1972, despertar vários pacientes de encefalite letárgica do estado em que viviam desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando ocorreu um surto da chamada "doença do sono".Tempo de despertar traz um minucioso relato das vivências desses pós-encefálicos - os labirintos interiores em que viviam, o mundo onírico a que estavam presos, a aflição que sentiam nos raros momentos de vigília -, formando um conjunto único de pequenos dramas. A destreza narrativa do autor já foi comparada com a que transparece nos casos clínicos contados por Freud (celebrizados por sua qualidade literária)". Este livro inspirou um maravilhoso filme de mesmo nome protagonizado pelos atores Robin Williams (que intepreta Sacks) e Robert De Niro e foi eleito pela revista The Guardian um dos 50 melhores livros de não-ficção de todos os tempos.

Trecho do livro: "A força do hábito e a resistência à mudança - como são em todas as esferas de pensamento - chegam ao auge na medicina, no estudo de nossos mais complexos sofrimentos e distúrbios do ser; pois somos aqui compelidos a investigar minuciosamente as partes que todos se empenham por negar ou não ver. Os pensamentos mais difíceis de compreender ou expressar são aqueles que tocam nossa zona proibida e reacendem em nós as mais intensas negações e as mais profundas intuições".

Com uma perna só
Título original: A leg stand on
Ano de lançamento: 1984
  
Sinopse oficial da editora: "Durante uma escalada solitária na Noruega, em 1974, o jovem neurologista Oliver Sacks depara-se com um enorme touro branco. Em pânico, dá meia volta, dispara pelo caminho inverso e um tombo faz com que sua perna esquerda fique seriamente avariada. Depois de uma cirurgia, a sensação é de que a perna se tornara "inexistente". O médico se transforma em paciente e é obrigado a aprender lições de passividade num leito de hospital. Sem poder andar, apartado da vida normal e isolado pela insensibilidade de colegas médicos, Sacks inicia um processo de autodiagnóstico. Decide então elaborar um relato provocativo sobre os padrões de atendimento do sistema de saúde, mas também um testemunho vivo e fluente sobre os mecanismos neuro-sensoriais responsáveis pela formação da "imagem corporal" - graças à qual sentimos que os membros fazem parte do corpo, formando um todo integrado. Para o leitor é a oportunidade de conviver com a intimidade de um homem de cultura, inteligência e sensibilidade únicas durante um dos momentos mais críticos - e férteis - de sua vida pessoal e profissional". 

Trecho do livro: "A neuropsicologia, como a neurologia clássica, visa ser totalmente objetiva, e sua grande força, seus avanços, provém justamente disso. Mas uma criatura viva, e especialmente um ser humano, é em seu todo ativa - um sujeito e não um objeto. É precisamente o sujeito, o 'eu' vivo, que está sendo excluído. A neuropsicologia é admirável, mas exclui a psiquê - exclui o 'eu'".

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu 
Título original: The man who mistooke his wife for a hat
Ano de lançamento: 1985

Sinopse oficial da editora: "O cientista e neurologista Oliver Sacks é também um excelente narrador, dono do raro poder de compartilhar com o leitor leigo certos mundos que de outro modo permaneceriam desconhecidos ou restritos aos especialistas. Em O homem que confundiu sua mulher com um chapéu estamos diante de pacientes que, imersos num mundo de sonhos e deficiências cerebrais, preservam sua imaginação e constroem uma identidade moral própria. Aqui, relatos clínicos são intencionalmente transformados em artefatos literários, mostrando que somente a forma narrativa restitui à abstração da doença uma feição humana, desvelando novas realidades para a investigação científica e problematizando os limites entre o físico e o psíquico". Em sua autobiografia Sempre em movimento, Sacks afirma o seguinte sobre a publicação desta obra: "com a súbita popularidade do Chapéu eu ingressara na esfera pública, quisesse ou não. Sem dúvida houve vantagens. De repente eu estava em contato com uma infinidade de gente. Tinha condições de ajudar, mas também de prejudicar. Não podia escrever mais como anônimo". 

Trecho do livro: "Uma doença nunca é uma simples perda ou excesso; existe sempre uma reação, por parte do organismo ou indivíduo afetado, para restaurar, substituir, compensar e preservar sua identidade, por mais estranhos que possam ser os meios; e estudar ou influenciar esses meios, tanto quanto o dano primário ao sistema nervoso, é uma parte essencial de nosso papel como médicos"; "A neurologia tradicional, por seu caráter mecânico, sua ênfase nos déficits, oculta a nós a verdadeira vida que impregna todas as funções cerebrais - pelo menos as funções superiores como imaginação, memória e percepção. Ela oculta de nós a própria vida da mente".

Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos
Título original: Seeing voices
Ano de lançamento: 1989

Sinopse oficial da editora: "'O que é necessário para nos tornarmos seres humanos completos? O que denominamos nossa humanidade dependerá parcialmente da linguagem? O que acontece conosco se não aprendermos língua alguma? A linguagem desenvolve-se de um modo espontâneo e natural ou requer contato com outros seres humanos?' Numa fascinante incursão pelo universo dos surdos, Oliver Sacks procura responder a questões como essas. Sua preocupação não é simplesmente apresentar ao leitor a condição daqueles que não conseguem ouvir. Acompanhando a história, os dramas e as lutas dessas pessoas, o leitor será levado a olhar para o seu próprio cotidiano de um modo inteiramente novo. Será capaz de ouvir, nos sons da linguagem, um pequeno milagre que se repete cada vez que uma nova sentença é proferida".

Trecho do livro: "O mundo surdo, como todas as subculturas, é formado em parte pela exclusão (do mundo ouvinte) e em parte pela constituição de uma comunidade e um mundo em torno de um centro diferente – seu próprio centro. No mesmo grau em que os surdos se sentem excluídos, podem sentir-se isolados, afastados, discriminados. Quando formam um mundo surdo, voluntariamente, espontaneamente, sentem-se a vontade nele, apreciam-no, veem-no com refúgio e um anteparo. Neste aspecto, o mundo surdo sente-se autossuficiente, não isolado – não anseia por assimilar ou ser assimilado; ao contrário, estima sua própria língua e imagens e deseja protegê-las".

Um antropólogo em marte
Título original: An Anthropologist on Mars
Ano de lançamento: 1995

Sinopse oficial da editora: "O que têm em comum o pintor que, em decorrência de um acidente, passa a enxergar o mundo em preto e branco, o rapaz cujas únicas lembranças se restringem ao final dos anos 60 e o exímio cirurgião tomado por todo tipo de tiques (verbais e físicos) na vida cotidiana? Para o neurologista Oliver Sacks, esses não são apenas casos clínicos extraordinários. Antes de mais nada, eles dizem respeito a indivíduos cujas vidas, pressionadas por situações-limites (por vezes trágicas, em geral dramáticas), podem nos ajudar a compreender melhor o que somos. Em Um antropólogo em Marte, Sacks confirma a originalidade de sua prosa, já consagrada em Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Uma prosa que dá ao relato clínico a dramaticidade de um verdadeiro gênero literário". Os casos descritos neste livro inspiraram dois filmes: À primeira vista (At first sight, 1999), baseado no capítulo Ver e não ver, e A música nunca parou (The music never stopped, 2011), baseado no capítulo O último hippie.  

Trecho do livro: "Esse sentido da notável maleabilidade do cérebro, sua capacidade para as mais impressionantes adaptações, para não falar nas circunstâncias especiais (e freqüentemente desesperadas) de acidentes neurológicos ou sensórios, acabou dominando minha percepção dos pacientes e de suas vidas. De tal forma, na realidade, que por vezes sou levado a pensar se não seria necessário redefinir os conceitos de "saúde" e "doença", para vê-los em termos da capacidade do organismo de criar uma nova organização e ordem, adequada a sua disposição especial e modificada e a suas necessidades, mais do que em termos de uma "norma" rigidamente definida. A enfermidade implica uma contração da vida, mas tais contrações não precisam ocorrer. Ao que me parece, quase todos os meus pacientes, quaisquer que sejam os seus problemas, buscam a vida - e não apenas a despeito de suas condições, mas por causa delas e até mesmo com sua ajuda".

A ilha dos daltônicos
Título original: The Island of the Colorblind
Ano de lançamento: 1997 

Sinopse ofocial da editora: "Em A ilha dos daltônicos, o cientista e neurologista Oliver Sacks comprova que é um homem que se apaixona, que possui uma inteligência intensamente refinada pelo trabalho e que é um excelente narrador. As narrativas deste livro nascem nos arquipélagos do Pacífico. De lá vêm reflexões sobre a natureza do tempo geológico profundo, a disseminação das espécies, a gênese das doenças. Vêm também histórias sobre as cicadáceas, teimosas plantas do período paleozóico, histórias de ilhéus que não conhecem o azul ou o verde do mar à sua volta, porque nascidos com uma incapacidade absoluta de ver as cores, histórias de uma paralisia neurodegenerativa que vitima apenas os membros de certo grupo social, os chamorros, nas ilhas Marianas". Em sua autobiografia, Sacks afirma o seguinte sobre esse livro: "A ilha dos daltônicos era diferente de qualquer livro anterior meu: mais lírico, mais pessoal. Em certos aspectos, continua a ser meu livro favorito". 

Trecho do livro: "Fui à Micronésia como neurologista ou neuroantropólogo com a intenção de ver de que maneira indivíduos e comunidades reagiam à condições endêmicas incomuns - uma cegueira total e hereditária para cores em Pingelap e Pohnpei, um distúrbio neurodegeneneativo progressivo e fatal em Guam e Rota. Mas também me prenderam a atenção a vida cultural e a história dessas ilhas, sua flora e fauna únicas, suas origens geológicas singulares. Se a princípio examinar pacientes, visitar sítios arqueológicos, perambular por florestas tropicais e mergulhar de snorkel nos recifes pareciam atividades sem relação umas com as outras, depois fundiram-se todas em uma experiência única e indivisível, uma imersão total na vida da ilha".

Tio Tungstênio: memórias de uma infância química
Título original:Uncle Tungstein
Ano de lançamento: 2001 

Sinopse oficial da editora: "A vida de Oliver Sacks é marcada por uma curiosidade fora do comum. Em Tio Tungstênio, ele relembra sua infância, impregnada de recordações sobre o comportamento misterioso dos materiais. Desconfiando de que existiam leis e fenômenos escondidos por trás do mundo visível, o jovem Oliver se perguntava: "Como o carvão podia ser feito da mesma matéria que o diamante? Do que eram feitos o Sol e as estrelas?".Cada etapa de suas descobertas sobre a luz, o calor, a eletricidade, a fotografia, o átomo, os raios X e a radioatividade é relembrada para conduzir o leitor pela história da química, apresentando as pesquisas e inovações de nomes como Lavoisier, Mendeleiev, Marie Curie, Robert Boyle e Niels Bohr, entre outros. A escrita envolvente de Sacks aproxima poesia e ciência por meio de recordações que são, a um só tempo, investigações intelectuais e episódios de amadurecimento afetivo.As invenções da infância - por exemplo, um experimento com rabanetes para tentar provar a existência de Deus - e os anos traumáticos de colégio interno contribuíram para que ele buscasse refúgio na prática científica. Nascido numa família de cientistas, Sacks encontrou incentivo para sua vocação. Tio Dave fabricava lâmpadas de tungstênio e, na cabeça fantasiosa do menino Oliver, tinha as mãos, os pulmões e os ossos encharcados do metal escuro e pesado. Para as crianças da família, tio Dave era dotado de força e resistência sobre-humanas - era o tio Tungstênio".

Trecho do livro: "A exploração química, a descoberta química era ainda mais emocionante por seus perigos. Eu sentia certo prazer pueril em brincar com aquelas substâncias perigosas, e me espantei, em minhas leituras, com a série de acidentes que haviam sofrido os pioneiros. Poucos naturalistas tinham sido devorados por animais selvagens ou morrido envenenados por plantas ou animais peçonhentos; poucos físicos haviam ficado cegos por olharem para o céu ou quebrado a perna num plano inclinado; mas muitos químicos haviam perdido olhos, membros e até mesmo a vida, geralmente ao produzirem inadvertidamente explosões ou toxinas".

Diário de Oaxaca
Título original: Oaxaca journal
Ano de lançamento: 2002

Sinopse oficial da editora: "Conhecido por seus relatos clínicos que desvendam grandes mistérios do cérebro humano, Oliver Sacks revela uma nova faceta em seu diário de viagem para o estado de Oaxaca, no México. Durante dez dias, acompanhou um grupo de botânicos e cientistas amadores interessados em conhecer o hábitat das samambaias mais raras do mundo.Entre descrições minuciosas da morfologia das plantas e uma ou outra digressão acerca de pássaros e tipos de solo, o texto concentra toda a sua força em desvendar um grande mistério da mente humana: a curiosidade científica. Ao observar de perto o comportamento de seus colegas de excursão, Oliver Sacks revela que a ciência, longe de ser uma seara de cálculos e experimentos, nasce do interesse genuíno e apaixonado de amadores, cuja erudição nem sempre supera a vontade de aprender e descobrir fatos novos.Os personagens que compõem a expedição são sui generis. O grupo é composto de tipos humanos diversos: homens e mulheres, americanos e ingleses, cientistas e curiosos circulam com desenvoltura por selvas e grutas, mas protagonizam cenas de verdadeira comédia ao tentar, sem sucesso, se imiscuir no cotidiano das cidades mexicanas por onde passam. É o caso da visita coletiva feita a um alambique onde se processa o mescal, bebida alcoólica extraída do agave, uma planta nativa que também dá origem à tequila. Levemente alterados pela degustação a que se submetem no maior “interesse científico”, os expedicionários terminam sentados em uma pequena planície das redondezas, uivando para a lua e se “perguntando como será que os lobos e os outros animais se sentiram quando a lua, a sua lua, lhes foi roubada”.Composto de uma gama variada de assuntos, Diário de Oaxaca versa ainda sobre a intimidade de Oliver Sacks, cujo mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea fica evidente nas diversas passagens em que o autor externaliza sua admiração pelos amadores - classe de cientistas à qual, aliás, o livro é dedicado".

Trecho do livro: "Afastei-me um pouco do grupo e estou sentado a alguns metros de distcia deles, escrevendo em meu caderno. Quase sempre há essa duplicidade participante-observador, como se eu fosse uma espécie de antropólogo da vida, da vida terrestre, da espécie Homo sapiens (Talvez por isso eu tenha usado a expressão de Temple Grandin no título de Um antropólogo em Marte, pois tanto quanto ela sou uma espécie de antropólogo, um 'forasteiro'.) Mas, afinal, não é assim com todo escritor?"

Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro
Título original: Musicophilia
Ano de lançamento: 2007 

Sinopse oficial da editora: "A música é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis, e este livro do neurologista e escritor Oliver Sacks nos faz entender por quê. A exemplo de seus livros anteriores, entre os quais se destacam Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Sacks nos oferece aqui histórias musicais cheias de drama e compaixão humana envolvendo pessoas comuns ou portadoras de distúrbios neuroperceptivos.O que se passa com o cérebro humano ao fazer ou ouvir música? Onde exatamente reside o enorme poder, muitas vezes indomável, que a música exerce sobre nós? Essas são algumas das questões que Oliver Sacks explora, em seu estilo cativante, nesta admirável coletânea de casos, mostrando, por exemplo, como a música pode nos induzir a estados emocionais que de outra maneira seriam ignorados por nossa mente ou ainda evocar memórias supostamente perdidas nos meandros do cérebro.É impossível não se impressionar com a história do médico que experimenta, depois de atingido por um raio, uma irresistível compulsão por música de piano, a ponto de se tornar ele mesmo um pianista. Ou com os casos de "amusia", uma condição clínica que faz Mozart soar como uma trombada automobilística aos ouvidos da pessoa afetada. Sem contar as histórias de gente afetada dia e noite por alucinações musicais incessantes. O estudo de casos surpreendentes de pessoas com distúrbios neurológicos ou perceptivos ligados à música reitera a crença de Sacks em uma medicina que humaniza o paciente e tenta, junto com a abordagem clínica, integrar as dimensões psicológica, moral e espiritual tanto das afecções quanto de seu tratamento".

Trecho do livro: "A percepção da música e as emoções que ela pode despertar não dependem exclusivamente da memória, e a música não tem de ser conhecida para exercer poder emocional. Já vi pacientes com demência profunda chorar ou estremecer ao ouvir música que nunca tinham ouvido. Acho que eles podem vivenciar toda a gama de sentimentos ao alcance do resto de nós e que a demência, pelo menos nessas ocasiões, não é obstáculo para a profundidade das  emoções. Quem presencia tais respostas percebe que ainda  existe  um self que pode ser convocado, mesmo que só a música possa ser capaz de fazê-lo"

O olhar da mente
Título original: The mind's eye
Ano de lançamento: 2010

Sinopse oficial da editora: "Um escritor que perde a capacidade de ler. Uma pianista que confunde um guarda-chuva com uma cobra. Indivíduos que só enxergam imagens bidimensionais ou não reconhecem rostos. Nos casos relatados em O olhar da mente, do neurologista inglês Oliver Sacks, a ciência é sempre vista a partir da experiência humana. Nesse percurso se mesclam, de forma ao mesmo tempo rigorosa e afetiva, informações técnicas sobre distúrbios da memória, da fala e de outras funções cerebrais e a narrativa de suas consequências no dia a dia de pacientes e familiares.O que torna essas histórias tão saborosas, a despeito de sua inevitável dramaticidade - ou comicidade, em alguns momentos -, é o talento do autor para tratar de assuntos complexos em prosa lógica e cristalina. Também a erudição discreta de seus argumentos, capazes de incorporar em discussões sobre fisiologia cerebral um poema de John Milton, um quarteto de Haydn, considerações sobre a fotografia estereoscópica, a teoria da linguagem de Noam Chomsky. “Aprendi a olhar para o sofrimento em termos humanos mais amplos”, disse Sacks numa entrevista, referindo-se ao resultado de seu convívio, ainda estudante de medicina, com poetas como W. H. Auden. “A olhar para dilemas, situações - não apenas para doenças.”Aos poucos, os casos de O olhar da mente - quase todos concentrados em problemas de visão - ganham certa familiaridade e convergem para aquele que parece ser o seu grande mote: o câncer que o próprio Sacks teve num dos olhos, e que o faz sair da condição de médico para enfrentar a angústia, a insegurança e os medos comuns de um paciente. “Este é o Natal mais desolador que já passei”, escreve. “O New York Times de hoje traz fotos e histórias de várias personalidades que morreram em 2005. Estarei nessa lista em 2006?”Nesse mergulho pessoal corajoso, que não abre mão da crueza e da autoironia, análise e experiência se fundem para traçar contornos originais do antigo - e ainda hoje complexo - dilema entre mente e cérebro. “Até que ponto somos os autores, os criadores das nossas sensações? Quanto elas são predeterminadas pelo cérebro ou pelos sentidos com que nascemos, e em que medida moldamos nosso cérebro através do que vivenciamos?”

Trecho do livro: "Em décadas recentes a neurociência confimou que o cérebro possui mais capacidades de restauração e regeneração do que antes se acreditava. Há também muito mais 'plasticidade', uma maior capacidade de áreas intactas para assumir algumas das funções das áreas lesadas se o dano não for demasiado extenso. E cada indivíduo possui suas capacidades de adaptação, de encontrar modos novos ou diferentes de fazer coisas quando o modo original deixa de estar disponível" (do ensaio Chamada de volta à vida)

A mente assombrada
Título original: Hallucinations
Ano de lançamento: 2012

Sinopse oficial da editora:  Você já viu algo que não estava realmente lá? Ouviu alguém chamar seu nome em uma casa vazia? Sentiu que havia alguém atrás de você e se virou para encontrar nada?As alucinações não pertencem inteiramente ao campo da loucura. Frequentemente, estão ligadas a privações sensoriais, intoxicações, doenças ou lesões. Pessoas que sofrem de enxaqueca podem ver arcos brilhantes ou pequenas figuras humanas e de animais. Ao mesmo tempo, deficientes visuais podem viver imersos em um mundo visual alucinatório. As alucinações podem ser provocadas por uma simples febre ou até mesmo pelos prosaicos atos de despertar e adormecer, em imagens que vão de manchas coloridas a belos rostos ou monstros terríveis. Pessoas de luto podem receber reconfortantes “visitas” de entes queridos. Em alguns casos, as alucinações levam a epifanias religiosas ou até mesmo à sensação de se deixar o próprio corpo.Por milhares de anos essas visões intrigaram e seduziram a humanidade, e não foram poucos os que usaram compostos alucinógenos para alcançá-las. Como um jovem médico na Califórnia da década de 1960, o interesse de Oliver Sacks por psicodélicos era tão profissional quanto pessoal. Foi essa inquietação, ao lado de suas experiências iniciais com a enxaqueca, que o lançou em uma investigação de vida inteira sobre as variações e os desdobramentos da experiência com as drogas.Em A mente assombrada, Sacks - com a elegância, curiosidade e compaixão que marcam sua obra - entrelaça histórias de seus pacientes com as próprias experiências para mostrar o que as alucinações nos dizem sobre a organização e a estrutura de nosso cérebro, como elas influenciaram a cultura, o folclore e a arte. Em suma, como o potencial para a alucinação que reside em todos nós é parte vitalda condição humana.

Trecho do livro: "muitas alucinações parecem ter a criatividade da imaginação, dos sonhos ou da fantasia – ou os vívidos detalhes e a externalidade da percepção. Mas uma alucinação não é nenhuma dessas coisas, embora possa ter alguns mecanismos neurofisiológicos em comum com cada uma delas. Alucinação é uma categoria única e especial da consciência e da vida mental".

Sempre em movimento - Uma vida
Título original: On the move
Ano de lançamento: 2015

Sinopse oficial da editora: "Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu num relatório: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas deste comovente livro de memórias, em que relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 - primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde começa a despontar como pesquisador -, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida.A ideia de estar sempre em movimento alimentou não apenas suas pesquisas, mas também sua vida. Quando revelou à família que era homossexual, ouviu de volta da mãe que ele era “uma abominação”. A mãe foi eventualmente perdoada, mas a sentença o fez abandonar a Inglaterra e o colocou na estrada. Nessas viagens, cruzando de ponta a ponta um país tão familiar quanto estrangeiro, surge o médico que viemos a conhecer: apaixonado, obstinado e perpetuamente curioso com o mundo.Com a honestidade e o humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” - levantamento de peso e natação - alimenta suas paixões cerebrais. Ele escreve a respeito de seus casos de amor, tanto os românticos quanto os intelectuais, sobre a culpa de abandonar a família para ir aos Estados Unidos, sua ligação com o irmão esquizofrênico e os escritores e cientistas que o influenciaram - Thom Gunn, A. R. Lúria, W. H. Auden, Gerald M. Edelman, Francis Crick. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos". 

Trecho do livro: "Sou um narrador, um contador de histórias. Desconfio que o gosto pela narrativa é uma disposição humana universal, que acompanha as nossas capacidades de linguagem, de consciência de si e de memória autobiográfica.  O ato de escrever, quando dá certo, me dá um prazer, uma alegria como nada mais na vida. Leva-me para outro lugar - seja qual for o assunto -, onde fico totalmente absorvido, alheio a distrações, preocupações, inquietações ou mesmo passar do tempo. Nesses estados de espírito raros, celestiais, posso escrever ininterruptamente até não conseguir mais enxergar o papel. Só então percebo que anoiteceu e que escrevi o dia inteiro. Ao longo da vida, escrevi milhões de palavras, mas o ato de escrever continua tão fresco e tão divertido como na época em que comecei, há quase setenta anos".

Gratidão
Título original: Gratitude
Ano de lançamento: 2015

Este pequeno livro, publicado postumamente, consiste de quatro ensaios escritos nos dois últimos anos de vida de Sacks - denominados Mercúrio, My own life, Minha tabela periódica e Shabat - e que versam, dentre outros, sobre os temas do envelhecimento e da morte. O destaque fica para o comovente ensaio My own life, publicado originalmente pelo jornal New York Times no dia 19 de Fevereiro de 2015, no qual Sacks tornou pública a proximidade de sua morte e se despediu do mundo, com gratidão por tudo o que viveu. Uma bela despedida!

Trecho do livro: "Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. Tive meu intercurso com o mundo, o intercurso especial dos escritores e leitores. Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura" (do ensaio My own life)

O rio da consciência
Título original: The River of Consciousness
Ano de lançamento: 2017

Nesta coletânea de dez ensaios lançada dois anos após sua morte, Sacks discorre sobre temas variados que vão desde o interesse de Darwin pelas flores, a aproximação inicial de Freud com a neurologia e a teoria da consciência de William James (em uma ensaio que dá título ao livro) até temas inusitados como sua fascinação pela velocidade, a vida mental de plantas e minhocas, a falibilidade da memória, enganos auditivos,  criatividade, a sensação de desordem, etc. De acordo com o prefácio do livro, duas semanas antes de sua morte, "Sacks esboçou os conteúdos de O rio da consciência, o último livro sob sua supervisão". 

Trecho do livro: "Ao que parece, a mente ou o cérebro não possui um mecanismo para assegurar a verdade, ou pelo menos o caráter verídico das nossas recordações. Não temos acesso direto à verdade histórica, e o que sentimos ou afirmamos ser verdade depende tanto da nossa imaginação como dos nossos sentidos. Não existe nenhum modo pelo qual acontecimentos do mundo possam ser transmitidos ou registrados diretamente no cérebro: eles são experimentados e construídos de um modo acentuadamente subjetivo que, para começar, é diferente em cada indivíduo, e além disso são reinterpretados ou novamente experimentados de forma diferente toda vez que a pessoa as recorda. Nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos - as histórias que recategorizamos e refinamos continuamente. Essa subjetividade é embutida na própria natureza da memória e decorre de sua base e dos mecanismos que possuímos no cérebro" (do ensaio A falibilidade da memória).