domingo, 21 de agosto de 2016

Quem são as psicólogas brasileiras?

No último dia 19 de Agosto o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou o relatório final do “Levantamento de informações sobre a inserção dos psicólogos no mercado de trabalho brasileiro”, realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) a pedido do CFP. Este levantamento, realizado com base nos dados colhidos pelo IBGE para a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), permite que tenhamos uma noção a respeito de quem é, afinal, o psicólogo brasileiro - na verdade, como a maioria absoluta dos profissionais do campo são mulheres, eu utilizarei quase sempre o gênero feminino para falar deste profissional, invertendo a lógica de se falar no masculino para se referir à ambos os gêneros. A seguir eu farei um breve compilado dos resultados, mas quem quiser se aprofundar, pode acessar diretamente o relatório final do levantamento clicando aqui. Pois bem, logo no inicio, o relatório aponta para a atuação, no Brasil, de cerca de 146 mil psicólogas - este número se refere, cabe reforçar, ao número de "psicólogas ocupadas", ou seja, não leva em consideração o número de pessoas formadas em psicologia mas somente aquelas que efetivamente atuam na área. Outro dado interessante é que grande parte destes profissionais, cerca de 90 mil, vive na região Sudeste - o que talvez tenha relação com a localidade dos cursos de formação (como eu constatei, em 2009, neste artigo). Importante destacar que o relatório contrapõe as psicólogas às pessoas "ocupadas com o ensino superior", ou seja, pessoas que no momento da pesquisa: a) frequentavam curso de mestrado ou doutorado; b) não frequentavam,  mas  já  frequentaram curso  de  mestrado  ou  doutorado;  ou  c)  não frequentavam,  mas  já  frequentaram e  concluíram,  com aprovação,  curso  superior  de graduação - nesse caso, o número que consta no relatório é de 14 milhões de pessoas. Pelo que pude entender, este número inclui todas as pessoas que concluíram um curso de graduação, não somente de psicologia. Segundo o Dieese, o objetivo ao retratar estes dados foi "fornecer uma base de comparação entre a situação dos psicólogos e a dos demais profissionais com o mesmo grau de formação".

Com relação à idade das profissionais, a conclusão do relatório é que cerca de 84% possuem mais de trinta anos - somente 16% teriam menos de trinta (no caso daquelas ocupadas com o ensino superior, o percentual é parecido: 80 versus 20%). E isto aponta para a conclusão de que as psicólogas não são assim tão jovens - embora dizer que a maioria possui "mais de 30" seja um tanto quanto vago, afinal, há uma enorme diferença entre ter 31 e 80. O relatório não explora os porquês dos dados, mas proponho alguns questionamentos: será que as psicólogas são mais velhas porque as mais jovens não conseguem ou demoram para conseguir emprego na área? Ou porque muitas pessoas ingressam na faculdade de psicologia mais tarde na vida? Como a proposta do levantamento é descrever a realidade das psicólogas e não explicá-la, não há qualquer resposta para estas perguntas. Da mesma forma como não há qualquer tentativa de resposta para a pergunta: por que a maioria dos psicólogos brasileiros são mulheres? Pois de fato o levantamento aponta que mais de 90% dos profissionais são do sexo feminino. Curiosamente, no caso das pessoas ocupadas com o ensino superior, a proporção é significativamente menor: 57% de mulheres contra 43% de homens. E isto aponta para uma maior "masculização" do ensino superior em geral, que se contrapõe a uma quase absoluta "feminilização" da formação e profissão psi. De toda forma, o debate continua: por que a psicologia no Brasil sempre foi e continua sendo uma profissão majoritariamente feminina?

Outro dado interessante - e preocupante - é o baixíssimo percentual de psicólogas negras. De acordo com o levantamento, apenas 16,5% das psicólogas são negras - as não-negras compõem a absoluta maioria (83,5%). Curiosamente, dentre aquelas ocupadas com o ensino superior o percentual é maior: 30,5% de negras versus 69,5% de não-negras. Tendo em vista que a população negra representa, segundo o IBGE, cerca de 54% da população, é possível concluir que a categoria das psicólogas definitivamente não representa a população brasileira, sendo ainda majoritariamente branca. Não entrarei nos porquês disto - assim como o levantamento não entrou - mas gostaria apenas de deixar aqui o minha preocupação com este dado. Outra informação curiosa disponível no relatório é que cerca de 90% das psicólogas tem como grau mais elevado de formação a graduação. Apenas 4,4% possui mestrado ou doutorado completo - e 5,1 incompleto (nada é dito sobre o percentual de psicólogas envolvidas em pós-graduações lato sensu como especializações e residências). Curiosamente, as porcentagens permanecem semelhantes quando se analisam as pessoas ocupadas com o ensino superior: 92% possuem apenas graduação, 5,4% mestrado ou doutorado completo e 2,3% incompleto.

Outros dados interessantes dizem respeito à situação socioeconômica das psicólogas brasileiras. De acordo com o levantamento, as profissionais de psicologia possuem um rendimento mensal domiciliar médio de R$10.795,00 valor 24,4% superior ao rendimento total das pessoas ocupadas com ensino superior (R$8.680,00). Cabe reforçar que este é o valor do rendimento domiciliar, que é calculado somando-se os  rendimentos mensais de todos os moradores da unidade domiciliar. Não fica claro neste dado, portanto, qual é a renda média específica da psicóloga brasileira. Outra informação disponível no relatório é que o rendimento domiciliar per capita das psicólogas atinge, em média R$ 4.055,00, valor 28% superior ao das pessoas ocupadas com ensino superior (R$3.169,00) - mas isto ainda não diz nada sobre o salário médio das psicólogas. O cálculo do rendimento per capita é feito dividindo-se o valor do rendimento domiciliar pelo número de pessoas dependentes da renda familiar. Neste sentido, pode ser que um outro ente familiar, que não a psicóloga, contribua mais com a renda da família. Enfim, esses dados não permitem uma conclusão acerca da renda média das psicólogas brasileiras.

O mesmo não pode ser dito sobre o tipo de inserção profissional. O levantamento é bastante claro ao expor que grande parte das profissionais atua de forma autônoma/por conta própria (42%) - em contrapartida, pouco menos de um quarto trabalha na condição de assalariado com carteira de trabalho assinada (22,6%) e outros 20,8% como funcionários públicos estatutários. Os  empregados  sem  carteira  de  trabalho assinada representam 8,9% do total de psicólogos e os empregadores, 5,8%. Além disso, o levantamento aponta que 83% das psicólogas possuem apenas um único trabalho, que seria o responsável por toda sua renda mensal (no caso das ocupadas com ensino superior o número é ainda maior: 90%). Com relação à área de atuação, o relatório indica que cerca de 75% das psicólogas trabalham em atividades de "Educação, saúde e serviços sociais", o que não diz muita coisa sobre a real atuação destas profissionais. Em segundo  lugar (18%) está  a  administração  pública, mas este dado é também muito vago para que eu possa extrair qualquer conclusão.

Na parte final do levantamento, finalmente é respondida a pergunta "quanto ganha uma psicóloga no Brasil" E a resposta é que em média a psicóloga brasileira ganha cerca de R$3400,00 - o que equivale a cerca de R$29,00 por hora hora de trabalho. Você considera este valor muito ou pouco? Confesso que minhas expectativas eram menores e eu me surpreendi positivamente - mas não podemos nunca nos esquecer que se trata de uma média e médias são sempre abstrações estatísticas (basta lembrar que a média entre 1 e 99 é 50, o que aponta para a possibilidade de algumas psicólogas ganharem muito e outras muito pouco, o que na média dá um valor razoável). No caso das pessoas ocupadas com o ensino superior, a renda média mensal é consideravelmente maior, cerca de R$4000,00, sendo R$32,00 por hora. Com relação à renda por faixa etária a conclusão do relatório é que as psicólogas mais jovens, com menos de 30 anos, ganham menos (em média R$2.211,00) do que aquelas com mais com 30 anos ou mais (em média R$ 3.639,00), o que sugere uma maior valorização da experiência profissional. Outro dado muito interessante é que embora as psicólogas ganhem em média mais do que os psicólogos (R$ 3.497 versus R$ 2.676), entre aqueles ocupados com o ensino superior, o rendimento masculino corresponde a R$ 5.296,00 quase 70% maior que o feminino (R$ 3.137,00) - e bem maior também que a renda média das psicólogas. Aliás, importantíssimo apontar que embora o salário médio das psicólogas seja maior do que dos psicólogos, o valor  da hora  trabalhada pelas psicólogas é consideravelmente inferior ao dos psicólogos: a hora média das mulheres equivale a R$27,76, enquanto a dos homens a R$ 37,68, ou seja, 36% a mais. E isto indica, segundo o relatório, que "as mulheres têm um rendimento mensal superior ao dos homens por trabalharem mais horas no mês". Verifica-se, portanto, uma clara e evidente desigualdade de gênero na psicologia brasileira. 

Mas não só: os dados apontam também para uma evidente desigualdade racial quando se comparam as rendas médias das psicólogas negras e não-negras. Segundo o relatório, uma psicóloga  negra recebe em média R$2.921,00, valor que corresponde a cerca de 83% do que recebe uma não-negra (R$3.514,00). Um evidente racismo permeia a psicologia, assim como a sociedade brasileira como um todo. Finalmente, avaliando-se a renda das psicólogas por tipo de inserção no mercado de trabalho, a conclusão do estudo é que aquelas que trabalham por “conta própria” recebem valores superiores (R$3.772,00) aqueles auferidos às que trabalham como  funcionárias  públicas  estatutárias (R$3.246,00), empregadas  com  carteira (R$3.214,00) e sem carteira (R$2.452,00). Enfim, de todo este levantamento se pode depreender que o "psicólogo brasileiro" (ou melhor, a psicóloga brasileira) é predominantemente uma mulher branca que possui apenas a graduação em psicologia e que trabalha de forma autônoma em alguma cidade da região sudeste do país, recebendo cerca de R$3400,00 por mês. Uma pergunta que fica de todo este relatório - dentre muitas outras que poderiam ser feitas - é: o quanto você, psicóloga(o), se encaixa neste perfil?

Sobre as funções psicológicas dos programas de sobrevivência do Discovery Channel

Eu simplesmente adoro aqueles programas de sobrevivência do Discovery Channel - tipo o "À prova de tudo", o "Largados e pelados" ou o "Survivorman" - mas confesso que não sei bem o porque. Afinal, dificilmente eu me perderei em alguma floresta ou deserto e mesmo que isso acontecesse, dificilmente eu me lembraria das dicas de sobrevivência fornecidas pelos programas. Mas se não é para ajudar em situações reais de sobrevivência, para que servem, então, tais programas? Refletindo sobre isso, cheguei à duas respostas: 1) ver alguém passando por situações difíceis e "comendo o pão que o diabo amassou" é maravilhoso se você está confortavelmente sentado em um sofá com bastante comida às disposição. Talvez uma das funções psicológicas de programas como esses seja gerar uma enorme gratidão pela vida civilizada que levamos - uma vida sem insetos sugando o seu sangue o tempo todo, com teto e paredes para te proteger do sol e de animais selvagens, com água limpa e comida à disposição (ou melhor, comida que não foge de você e que não quer te comer). 2) uma segunda função psicológica destes programas de sobrevivência talvez seja propiciar ao sedentário telespectador uma aventura sem riscos. A vida cotidiana da maioria das pessoas não é lá cheia de muitas aventuras e grandes emoções, mas ao assistir programas como esses é como se saíssemos do comodismo e da chatice de nossas vidas e rotinas e embarcássemos em grandes aventuras pelo mundo - com uma enorme vantagem: sem sair do sofá - e sem os malditos insetos, claro.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Como assim "neuropsicanálise"?

Em um post anterior, discuti criticamente a polêmica frase do neurocientista Ivan Izquierdo de que a neurociência teria superado a psicanálise. Meu argumento, em síntese, foi de que isto nunca poderia acontecer pois se tratam de áreas muito diferentes entre si. Em outro post analisei a relação de Freud com a neurologia, concluindo que Freud de fato nunca abandonou a biologia. O que ele fez, em função de restrições técnicas e metodológicas, foi se afastar de uma perspectiva neurológica em direção a um entendimento puramente (ou majoritariamente) psíquico da mente humana. Gostaria agora de discutir a emergência da neuropsicanálise, novo campo que pretende fazer dialogar - e quem sabe até, fundir - neurociências e psicanálise. Embora não seja fácil apontar uma "data de nascimento" precisa, é possível dizer que a neuropsicanálise emergiu entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Um marco, nesse sentido, foi a criação da revista científica Neuropsychoanalysis, cujo primeiro número foi publicado em 1999 - e que possuía em seu conselho editorial neurocientistas célebres como Antônio Damásio, Oliver Sacks e o "prêmio Nobel" Eric Kandel assim como psicanalistas conceituados como André Green, Otto Kernberg e Charles Brenner. Pouco tempo depois, em Julho de 2000, foi realizado em Londres o I Congresso Internacional de Neuropsicanálise, ocasião em que foi fundada a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, definida pelo site oficial como uma "rede internacional de organizações sem fins lucrativos" que visa criar um diálogo entre as neurociências e a psicanálise. Também de acordo com o site, a neuropsicanálise "está interessada nas bases neurobiológicas de como agimos, pensamos e sentimos. Quando começamos a conectar a atividade do cérebro com o modelo psicanalítico da mente, mesmo nos níveis mais profundos, uma compreensão verdadeiramente dinâmica pode emergir". Então esta parece ser a ideia: conectar, unir, aproximar neurociências e psicanálise.

O grande nome da neuropsicanálise, sem dúvida alguma, é o psicanalista e neuropsicólogo sul-africano Mark Solms, primeiro presidente da referida Sociedade e autor de uma considerável obra sobre o assunto - no Brasil, três livros dele já foram traduzidos e publicados: "Da neurologia à psicanálise", "O que é Neuro-psicanálise?",  e "Estudos clínicos em neuro-psicanálise" (estes dois últimos foram escritos em parceria com sua esposa Karen Kaplan-Solms). Segundo esta reportagem da revista The atlantic, Mark  começou a se interessar pela temática cerebral após seu irmão cair do telhado aos 6 anos de idade e sofrer um traumatismo craniano. Esta experiência demonstrou para ele a importância do cérebro na constituição do que somos. Após este acidente seu irmão não foi mais o mesmo, e nem sua família. "Tudo isso porque este órgão [o cérebro] não estava funcionando como antes", afirmou. Alguns anos depois, Mark iniciou e concluiu o curso de Psicologia, fez o mestrado em Psicologia Aplicada e o doutorado em Neuropsicologia. E paralelamente ao doutorado, realizado em Londres, fez a formação em Psicanálise. Seu percurso acadêmico evidencia, assim, um desejo de estudar e entender os dois campos e também de aproximá-los. Afinal, para Solms, psicanálise e neurociência são apenas dois pontos de vista sobre um mesmo objeto: o cérebro. Só que enquanto a psicanálise olha para o cérebro de dentro para fora a neurociência olha para o cérebro de fora para dentro. A ideia de uma neuropsicanálise passaria então justamente por aproximar e integrar estes dois pontos de vista.

À uma primeira vista, esta proposta de aproximar os dois campos parece interessante e mesmo pertinente - afinal, o que haveria de errado em tentar juntar dois pontos de vista antagônicos em prol de uma visão mais ampla do cérebro e da psiquê humana? Pode até ser. No entanto, alguns questionamentos se fazem necessários: será mesmo possível aproximar ou até mesmo fundir as duas visões? Conectar psicanálise e neurociências não será uma tarefa impossível como tentar unir as perspectivas políticas de esquerda e de direita ou teologias distintas como a budista e a católica? Mas para além da questão de se tal aproximação/união é possível, a grande questão na minha opinião é como isto seria possível. Na prática (e mesmo na teoria), como funcionaria a neuropsicanálise? Mark Solms não parece ter uma resposta muito convincente para esta questão. Segundo ele, as neurociências podem contribuir com a psicanálise ao fornecer os métodos científicos de investigação que esta não possui. Com isto algumas das teorias psicanalíticas poderiam ser testadas através de experimentos realizados por neurocientistas. Como afirmou em uma entrevista, "na psicanálise o problema é que ela é subjetiva demais. Não há controle científico. Não há objetividade. Não há teste de hipóteses. Não há forma de falsear hipóteses. Isso também é perigoso. Leva a especulação sem verificação. Trazendo os dois juntos corrige o que há de errado nos dois campos". Cabe apontar, que para Solms não só as neurociências poderiam hipoteticamente confirmar alguns pontos da teoria psicanalítica como já o teriam feito. Segundo ele, a existência de uma "cognição inconsciente", base da teoria psicanalítica, já teria sido comprovada pela neurociência contemporânea. Será mesmo? Não creio. Na minha visão e de outros autores, o inconsciente cerebral disseminado pelas neurociências contemporâneas não é igual ao inconsciente freudiano. Em comum, essas duas noções de inconsciente possuem apenas a ideia de que existem atividades mentais ou cerebrais que funcionam sem que tenhamos consciência. No entanto, o inconsciente disseminado por Freud é, nas palavras da historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, "um inconsciente psíquico, dinâmico e afetivo, organizado em diversas instâncias (o eu, o isso e o supereu)", ao passo que o inconsciente cerebral diz respeito, basicamente, aos mecanismos automáticos do funcionamento neural. Enfim, tratam-se de visões muito distintas - o que significa dizer que as neurociências não teriam como comprovar o inconsciente freudiano. Isto pra não falar do restante da teoria psicanalítica. Será mesmo que as neurociências teriam como comprovar ou refutar o Complexo de Édipo, os estágios de desenvolvimento psicossexuais, o funcionamento tripartite da mente ou ainda conceitos como recalque, catexia ou pulsão? Não creio. 

Como já disse em outro post, psicanálise e neurociências são áreas muito diferentes e possuem objetivos e métodos muito distintos. Acreditar que as neurociências teriam a capacidade de confirmar ou refutar a teoria freudiana, além de colocar muita expectativa nesta área do conhecimento, ainda estabelece uma hierarquia entre as duas áreas - a neurociência, no caso, estaria no topo e seria ela a dar a última palavra sobre a psicanálise. E é esta ideia que leva o psicanalista Jorge Forbes a dizer que "a neuropsicanálise é um cavalo de Tróia que porta um projeto reducionista no ventre". Segundo ele, ao sugerir uma hierarquia entre os dois campos, Solms estaria supervalorizando uma visão biológica e, portanto, reducionista da mente. Outro problema desta "junção ecumênica", nas palavras de Forbes, é que ela tenta unir "paradigmas incompatíveis". Dizer nesse sentido que a psicanálise tem o mesmo objeto de estudos que as neurociências - o cérebro - não é correto. Embora a mente certamente esteja ligada ao cérebro - nem mesmo Freud negava isso - o ponto de vista da psicanálise é puramente mental ou psíquico. Mesmo que o conhecimento neurológico tenha sido importante em um período inicial da carreira de Freud, a psicanálise acabou por trilhar um caminho distinto e distante das ciências do cérebro - segundo Forbes, este "corte epistemológico" foi concretizado com a publicação do livro Interpretação dos sonhos, em 1900. E tudo isto significa que tentar juntar as duas áreas seria um desafio fadado ao fracasso - seguindo a ideia de "junção ecumênica", seria como tentar fundir ou integrar duas religiões muito diferentes entre si. Um meio termo, diferente da pretensão de juntar os dois conhecimentos, seria "simplesmente" colocar neurociências e psicanálise para dialogar. As pesquisadoras Monah Winograd e Nathalia Sisson defendem, nesse sentido, que "para garantir a possibilidade e a integridade de uma cooperação entre as duas áreas, deve-se, antes de qualquer outro passo, definir uma relação de respeito mútuo entre a psicanálise e as neurociências". A grande questão é que para concretizar este objetivo de cooperação não seria necessário criar uma nova área de conhecimento. Se a proposta é o diálogo e não a fusão porque propor, então, algo como uma neuropsicanálise? Acho que isso nem Freud explica.

Sugestões de leitura:

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Falsas acusações de estupro: regra ou exceção?

Cena do filme A caça (2012)
Dando continuidade ao post anterior, gostaria de tocar em uma questão que acabei deixando passar batido, que são as falsas acusações de estupro. É comum ouvir de pessoas críticas à ideia de uma cultura do estupro e de homens e grupos machistas em geral que grande parte das denúncias de estupro seriam falsas. Por exemplo, de acordo com a página do Facebook Eu não mereço falsa acusação de estupro, cerca de 61% das denúncias de estupro seriam falsas. Não fica claro qual a fonte dessa informação, mas os inúmeros casos de falsas acusações expostos na página dão a impressão de que esta estatística estaria correta. A psicóloga do do Tribuna de Justiça do Rio de Janeiro Glícia Barbosa de Mattos Brazil foi além e afirmou para o jornal Extra que cerca 80% das denúncias seriam falsas - especialmente as denúncias de abuso de menores. Segundo ela, "na maioria dos casos, a mãe está recém-separada e denuncia o pai para restringir as visitas". Na resenha que fiz do filme A caça - que retrata um caso de falsa acusação de abuso sexual - cheguei a comentar sobre a existência, no Brasil, da Associação de Vítimas de Falsas denúncias de abuso sexual (AVFDAS) criada justamente para auxiliar e dar apoio a sujeitos equivocadamente tachados de abusadores. Pois bem, feita esta breve introdução, fica a questão: será verdade que a maior parte das denúncias de estupro são falsas? Ou tais casos são excepcionais? Certamente não dá para negar que tais falsas denúncias existem - e que são destruidoras para aqueles que são acusados, especialmente se a denúncia é de abuso infantil. O terrível caso da Escola Base atesta o poder destruidor de uma falsa acusação de abuso sexual. Acho que ninguém questiona isso. Mas a grande questão é saber se tais denúncias são a regra ou a exceção.

As estatísticas certamente são contraditórias porque os métodos para obtê-las são extremamente variados - além do fato de ser extramemente complexo julgar a falsidade/realidade de inúmeros casos, especialmente daqueles que estão amparados exclusivamente ou majoritariamente em provas testemunhais. Assim, podemos encontrar na literatura dados que variam entre 1,5 e 90% de falsas acusações. Provavelmente a realidade se encontra em algum ponto entre estes dois valores, com tendência para baixo. Uma importante pesquisa publicada em 2010 por David Lisak e três coautores analisou oito estudos metodologicamente rigorosos sobre o assunto e concluiu que o predomínio de falsas acusações é da ordem de 2 a 10%, o que sugere que tais casos são a exceção e não a regra. De fato nunca saberemos o valor exato, pois tal porcentagem, além oscilar de acordo com a metodologia usada, varia de país para país e de cidade para cidade. De toda forma, os principais pesquisadores no campo hoje, como David Lisak, entendem que os casos de falsas denúncias são muito mais incomuns do que os casos reais. Isto sem falar nos inúmeros casos de estupro que não são denunciados em função do medo da vítima de não ser levada a sério e de se expor perante a família e a sociedade. Na verdade, alguns estudos apontam que a absoluta maioria dos casos, cerca de 80%, não são nunca denunciados, o que significa dizer, no final das contas, que a quase totalidade dos estupradores não é julgada e muito menos punida de forma alguma. A impunidade reina quando o assunto é estupro. 

Mas deixando as estatísticas de lado, gostaria de trazer ainda uma outra questão que é como diferenciar, em cada caso, uma falsa denúncia de uma denúncia verdadeira - e como fazer isso sem desconsiderar o relato da vítima. No livro Missoula, que introduzi no post anterior, o autor Jon Krakauer fornece uma boa pista de como se lidar com as denúncias de estupro. Segundo ele, "policiais e promotores de justiça são moral e profissionalmente obrigados a fazer todos os esforços para identificar denúncias de estupro capciosas, proteger os direitos civis dos suspeitos de estupro e impedir os falsamente acusados de serem condenados. Ao mesmo tempo, porém, policiais e promotores são obrigados a fazer tudo o que podem para identificar indivíduos que cometeram estupro e garantir que os culpados sejam levados à justiça. Esses dois objetivos não são mutuamente excludentes. Uma investigação meticulosa e habilmente conduzida, que começa acreditando na vítima, é parte essencial do processo penal e, em última instância, da condenação daqueles que são culpados de estupro. Ocorre que é também a melhor forma de inocentar os que foram falsamente acusados". E Krakauer continua: "vítimas de estupro fornecem à polícia  mais informações - e informações melhores - quando os detetives as entrevistam com atitude de confiança em vez de desconfiança. O que não significa que os policiais deveriam simplesmente aceitar a veracidade das histórias das vítimas sem confirmá-las depois". Segundo o autor, os policiais devem "confiar, mas verificar", como afirmava o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan sobre sua abordagem de diplomacia internacional. Em suma, embora não seja simples diferenciar mentira e verdade em alguns casos é possível sim buscar outros elementos, para além da prova testemunhal, que comprovem ou contradigam a versão da (suposta) vítima - por exemplo, provas materiais fornecidas pela pericia. E para isso não é necessário duvidar ou desconfiar de antemão. Porque embora existam pessoas mal intencionadas que farão falsas denúncias, existem muito mais vítimas reais que necessitam de um voto de confiança inicial. O estupro, como bem aponta Krakauer, é o único crime em que se presume que a vítima esteja mentindo. Se uma pessoa é assaltada, por exemplo, dificilmente alguém questionará a veracidade do depoimento da vítima. Além disso, como questiona uma promotora de Missoula, "nós iríamos duvidar da vítima de um roubo porque ela deixou a porta de casa destrancada?". Pois é exatamente a este tipo de dúvida que as vítimas de estupro são submetidas cotidianamente. O que precisamos fazer, então, é inverter este padrão. Ao invés de começar desconfiando, devemos antes de tudo confiar. E depois verificar.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Sobre Missoula e a cultura do estupro

Se você é homem (e somente se você é homem) peço que imagine a seguinte situação. Você está andando sozinho à noite em uma rua deserta quando, do nada, surgem dois homens grandes e fortes que te seguram e te levam, à força, para um mata situada nos fundos de uma parque. Eles te batem e você grita, mas ninguém te ouve. Um deles então abaixa a sua calça e a dele própria em seguida e te penetra fortemente enquanto o outro segura sua boca para conter seus gritos e gemidos de dor. Depois de cerca de 5 minutos o sujeito goza, dentro de você - que neste momento já está com a consciência tão nublada que nem consegue mais distinguir o que é realidade e o que não é. Os dois homens finalmente vão embora e te deixam lá, caído no chão, todo sujo e sem forças. Na sua visão esta é a descrição de uma boa cena de sexo? Mas imaginemos outra situação. Você foi para uma festa na casa de uns amigos. O clima estava divertido e, como todos estavam bebendo, você também bebe. E bebe muito. Em determinado momento você está tão bêbado que é conduzido por um de seus melhores amigos para um quarto. Você adormece. Algum tempo depois, você não sabe quanto, você abre os olhos e seu "amigo", que é muito maior e mais forte que você, está lhe penetrando com brutalidade. Você não sabe como isto foi acontecer, nem como ele conseguiu retirar suas calças sem que você se desse conta. Você está bêbado ainda e a cada vez que tenta reagir e gritar recebe socos na cabeça e nas costas. Sua consciência desaparece em diversos momentos e reaparece em outros até que, em determinado momento, desaparece de vez. Quando você desperta finalmente, algumas horas depois, sente uma forte dor no ânus, nas costas e na cabeça e não parece entender exatamente o que aconteceu. Só o que consegue fazer é chorar. E então eu pergunto novamente pra você, homem: esta é a descrição de uma boa cena de sexo? Você gostaria que isto acontecesse com você? Tenho praticamente certeza que a resposta para ambas perguntas é um sonoro "não", pois certamente lhe agrada a possibilidade de escolher quando, com quem e de que forma quer fazer sexo. A ideia de ser forçado a fazer algo contra sua vontade, de ser agredido e humilhado não é nada agradável, não é mesmo?

Pois são justamente situações como as descritas acima que acontecem todos os dias, em todo o mundo, com milhares de mulheres. E só pra deixar bem claro: o nome deste crime é estupro e estupro não é sexo; é uma forma de violência e uma demonstração de poder. Sexo é outra coisa. Sexo envolve consentimento e prazer, não repulsa e dor. Certamente o sexo pode envolver dor - caso por exemplo dos adeptos do chamado BDSM - mas não pode prescindir do consentimento. Na verdade, um dos principios básicos da comunidade BDSM é que as práticas devem ser SSC (Sãs, Seguras e Consensuais). Caso não haja consenso e consentimento trata-se de um crime cujo nome é estupro. E ao contrário do que muitos imaginam quando pensam em estupro, não se trata de algo raro, atípico, extraordinário. Pelo contrário, trata-se de algo comum, que acontece todos os dias em todos os lugares - no Brasil, por exemplo, foram registrados em 2014 mais de 47 mil casos de violência sexual, o que equivale a uma mulher estuprada a cada 11 minutos (isto sem contar os casos não notificados). E tais crimes ocorrem, muitas vezes dentro de casa. A primeira situação descrita acima, de um estupro praticado na rua por um desconhecido, embora aconteça com relativa frequência, está longe de ser a regra. Grande parte dos estupros é cometido por pessoas próximas da vítima, geralmente parentes, namorados ou amigos. Isto significa que este estereótipo do estuprador como um "maníaco" que sai pela rua à procura de mulheres desconhecidas para estuprar em um local ermo, não reflete totalmente a realidade. Se observarmos bem - e se analisarmos as estatísticas - veremos que a segunda situação descrita, de um estupro cometido por uma pessoa próxima afetivamente da vítima, é a regra e não a exceção. E isto significa também que o estupro não é cometido geralmente por um psicopata, mas por pessoas como eu ou você (isso mesmo, você, caro leitor). E isto significa, portanto, que todo homem é um estuprador em potencial? Tendo a pensar que sim, pois, quer queiramos quer não, todos nós homens somos educados em uma "cultura do estupro". Até podemos, na verdade devemos, questioná-la e lutar contra ela, mas não podemos negá-la. Ela está aí, em toda parte. Para ver, basta saber olhar.

Mas o que é esta tão falada "cultura do estupro"? Segundo a ONU Mulheres, este termo é usado "para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro". Esta culpabilização da vítima acontece, por exemplo, quando dizemos coisas como "também, porque foi beber tanto?" ou "também, andando por aí com uma saia tão curta" ou "também, com uma vida sexual tão desvairada" - ou ainda, como questionou um juiz a uma vítima de estupro, "Por que você não juntou os joelhos?". Em todos estes casos, voltamos o nosso alvo acusador para a vítima e esquecemos de quem de fato cometeu o crime: o estuprador. Na segunda situação descrita no início deste texto é bem provável que a vítima (você!) escutasse coisas como "se não tivesse bebido tanto, não teria sido estuprado". Mas será mesmo? Existem muitos estupros que são cometidos com as vítimas sóbrias. E mesmo no caso de estarem bêbadas ou drogadas, isto dá o direito para qualquer um de abusar desta fragilidade momentânea e estuprar a pessoa? Claro que não. Se alguém é culpado pelo estupro, este alguém é o estuprador - e não a bebida, a saia ou a vida sexual pregressa da pessoa. Negar isto é contribuir para a manutenção e perpetuação desta cultura de estupro, que desvia o foco de acusação do criminoso para a vítima e desresponsabiliza o verdadeiro culpado, o estuprador. Mas a cultura do estupro se manifesta também de outras formas. Como aponta esta ótima reportagem da revista Galileu, "ao disseminar termos que denigrem as mulheres, permitir a objetificação do corpos delas e glamurizar a violência sexual, a cultura do estupro passa adiante a mensagem de que a mulher não é um ser humano, e sim uma coisa". Ou seja, toda vez que transformamos as mulheres em objetos de consumo para os homens, estamos alimentando a cultura do estupro.

Outra coisa que não podemos negar é que nós, homens, somos formados nesta cultura do estupro e muitas vezes a reproduzimos, mesmo sem querer. Em geral somos criados e estimulados cotidianamente a agir como o "macho alfa", a "chegar chegando" nas garotas e a agir de forma agressiva e dominadora com elas. Pessoalmente, devo confessar que nunca fui assim, embora por vezes, em minha adolescência, me ressenti de não ser. Eu até quis, por um momento, ser o "macho alfa", mas, de fato, sempre fui o cara tímido que não conseguia "chegar" nas garotas - e que também não gostava da forma como via outros caras "chegando". A agressividade da abordagem masculina sempre me incomodou e não só nunca consegui agir como eles, mas como (quase) nunca quis agir como eles - o que eu queria, na verdade, era ficar com garotas. Certamente eu paguei um preço por minha timidez. Grande parte das vezes eu saia das festas sozinho e por um tempo eu cultivei a ideia de que "as meninas só se interessam por machos alfa, não por machos beta como eu". Aos poucos eu fui percebendo que, embora algumas mulheres possam curtir uma "chegada" mais enérgica em uma festa, outras, muitas outras, não curtem. E algumas delas até se interessam por caras tímidos - mas entendi também que para elas se interessarem por mim eu precisaria fazer um esforço não necessariamente de "chegar" nelas, mas pelo menos de não me esconder, de me fazer visto de alguma forma. Aos poucos fui percebendo também que eu nunca seria um "pegador", mas que eu não precisava agir assim para ser feliz, para amar e ser amado. Eu também não precisava gostar - como de fato não gosto - de futebol, de luta e de carros para ser homem. Hoje sei que existem muitas masculinidades possíveis para além do estereótipo do macho-alfa-dominante - assim como existem muitas feminilidades possíveis para além da mulher "bela, recatada e do lar". Mas ainda que possamos nadar contra a corrente, não podemos negar que exista uma corrente - uma enorme pressão social em cima do homem (e também da mulher) para agir de acordo com uma certa norma, que no caso do homem se traduz em uma gigantesca pressão para dominar e nunca, jamais, em hipótese alguma, ser dominado pelas mulheres. 

A ideia de igualdade também não costuma ser bem vista. Para algumas pessoas e grupos sociais, homens e mulheres são essencialmente diferentes e possuem caracteristicas distintas - até mesmo opostas. Por exemplo, os homens tenderiam a ser vistos como "naturalmente" mais agressivos e sexuais do que as mulheres, que seriam "naturalmente" mais frágeis e delicadas. Esta naturalização de certos traços alimenta, por sua vez, a cultura do estupro, na medida em que estes traços são entendidos como inevitáveis e até mesmo imperativos. Assim, o estupro do homem é interpretado, por vezes, como resultado de um instinto sexual inato que é "despertado" por determinado comportamento ou vestimenta da mulher, que é vista, desta forma, como a responsável pelo estupro. O homem, "coitado", foi praticamente obrigado a fazê-lo...#sqn Aliás, quer um exemplo de como o discurso científico pode contribuir com a naturalização das diferenças entre os gêneros e, com isso, justificar o estupro? Então leia este trecho do livro Papo Cabeça, escrito pelo neurocirurgião Fernando Campos Gomes Pinto (mais conhecido como "o neurocientista do Programa da Fátima Bernardes"): "O sistema límbico não dá muita bola para as convenções politicamente corretas e, quando, seu dono é um homem jovem heterossexual e saudável, a visão de uma bela mulher é equivalente à de uma presa a ser capturada. O caçador precisa esta atento e ágil para não deixá-la escapar, e é aí que a adrenalina cumpre o seu papel". Eis o discurso da neurociência, somado ao da psicologia evolucionista, justificando o estupro e as violentas abordagens masculinas. Assustador, não?

Ainda não ficou convencido da existência de uma cultura do estupro? Então você precisa ler o livro Missoula: o estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Escrito por Jon Krakauer, autor de diversos livros magníficos como No ar Rarefeito e Na natureza selvagem (que inspirou o belíssimo filme homônimo), Missoula é uma primorosa, detalhada e assustadora reportagem sobre uma série de estupros ocorridos em uma pequena cidade no interior nos Estados Unidos. A bucólica Missoula, cidade de 70 mil habitantes que abriga uma prestigiosa universidade, ficou conhecida como a "capital do estupro" norte-americana em função de uma série de denúncias de estupro realizadas há alguns anos - entre 2008 e 2012 o departamento de justiça investigou 350 acusações de violência sexual na cidade. Importante ressaltar que grande parte dos acusados eram jogadores de um importante e idolatrado time de futebol americano do circuito universitário, os Grizzlies. O que Krakauer mostra com maestria é como os jogadores acusados de estupro contaram com uma vasta rede de proteção que envolveu desde policiais, políticos e imprensa até amigos das próprias vítimas. Toda esta "rede de proteção" funcionava de forma a voltar o foco da acusação para a própria vítima e retirar a responsabilidade do estuprador. Isto ocorreu em Missoula de diversas formas. Por exemplo, em muitos dos casos citados no livro, tanto a vítima quanto o estuprador estavam bêbados no momento do estupro.  No entanto, como apontou uma repórter de um jornal local, "em Missoula caras bêbados que podem ter 'cometido erros' quase sempre recebem o benefício da dúvida. O mesmo não vale, porém, para garotas bêbadas". Isto significa que os policiais, advogados, juízes e jornalistas da cidade normalmente partiam do pressuposto que os acusados eram inocentes e as acusadoras mentirosas (ou exageradas). E todo este processo de culpabilização das vítimas teve como consequência uma série de denúncias arquivadas e de estupradores inocentados pela justiça - e, claro, inúmeras vítimas traumatizadas, culpabilizadas e destroçadas. Enfim, Krakauer expõe de uma forma nua e crua como funciona, na prática, a tal cultura do estupro. E embora retrate uma realidade local, o autor aponta para estratégias e argumentos que são utilizados por toda parte, inclusive no Brasil, para se culpar as vítimas de estupros. Tais estratégias ficaram evidentes, por exemplo, no caso do estupro coletivo ocorrido em maio deste ano no Rio de Janeiro. Uma adolescente de 16 anos foi estuprada desacordada por 33 homens, a cena foi filmada e ainda teve gente dizendo que não foi estupro porque teria sido consentido, porque a garota seria promíscua, porque ela teria envolvimento com o crime organizado, etc. Enfim, os mesmos velhos e batidos (e absurdos) argumentos que se repetem e se repetem e se repetem todos os dias e em todos os lugares. Se isto não é uma cultura do estupro, o que seria então?

Sugestões de filmes (disponíveis no Netflix):
  • The Hunting Ground (2015): este documentário assustador expõe os crimes de estupro cometidos em diversas universidades norte-americanas, seu abafamento sistemático pelas instituições e os resultados devastadores disso nas vítimas e suas famílias.
  • The mask you live in (2015): este documentário explora como nossa definição limitada de masculinidade está fazendo mal aos nossos meninos, homens e sociedade em geral e traz algumas possibilidades para lidarmos com essa questão de outra forma.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Treinamento cerebral e efeito placebo

"Melhore o desempenho de sua mente", promete a versão brasileira da plataforma de treinamentos cerebrais Lumosity. Já a Supera, maior rede de "academias cerebrais" do país afirma que a participação em seus cursos presenciais e virtuais possibilitará a "conquista [de] uma mente saudável, com mais concentração, raciocínio, memória, criatividade e autoestima". A Neuroforma, por sua vez, afirma ser uma "plataforma on-line de exercícios cientificamente projetados para estimular as principais funções cerebrais e aumentar o desempenho cognitivo". Finalmente, a BrainRx afirma ser "especializada em tornar crianças e adultos mais inteligentes". Enfim, todas estas empresas - e muitas outras - prometem melhorar a concentração, a memória e a inteligência de seus usuários e até mesmo prevenir eventuais declínios cognitivos através do engajamento em uma série de jogos e exercícios "cerebrais". Mas será que isto realmente ocorre? Se nos guiarmos exclusivamente por fatores econômicos seremos levados a acreditar que sim, afinal uma indústria tão poderosa como a do brain fitness, que movimenta, segundo revista Forbes, bilhões de dólares por ano, não poderia estar erguida em cima de areia movediça. Ou poderia? Será que realmente tais produtos e serviços possuem fundamentação científica para prometer o que prometem? E será eles que cumprem tais promessas? A questão é controversa. Se por um lado, uma importante meta-análise publicada em 2014 por pesquisadores da Universidade da Califórnia, concluiu que o treinamento cognitivo de curta duração "pode resultar em efeitos benéficos em importantes funções cognitivas", por outro lado, também em 2014 - como já apontei em outro post - dezenas de cientistas de todo o mundo assinaram um comunicado afirmando não haver nenhuma evidência científica sólida de apoio às promessas das empresas de ginástica cerebral.

Para além desta controvérsia sobre a eficácia ou não dos jogos e exercícios cerebrais, um estudo recém-publicado no último dia 20 de Junho no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences sugere uma explicação alternativa para a suposta eficácia de tais treinamentos, evidenciada em alguns estudos. Segundo os pesquisadores da Universidade George Mason, os "efeitos benéficos" seriam consequência não de uma eficácia intrínseca mas do efeito placebo gerado pela expectativa de eficácia. Mas como os pesquisadores chegaram a esta conclusão? Eles elaboraram um experimento simples, porém engenhoso. Para recrutar participantes para o estudo eles distribuiram dois cartazes (veja abaixo). No primeiro deles, à esquerda, eles escreveram: "Treinamento cerebral e aprimoramento cognitivo - Numerosos estudos tem mostrado que treinamentos de memória de trabalho podem aumentar a inteligência fluida. Participe de um estudo hoje. Email para mais informações: GMUBrainTraining@gmail.com" [um detalhe importante é que abaixo abaixo da frase em verde eles colocaram três referências bibliográficas que comprovariam a veracidade da afirmação]. Cabe apontar que a grande maioria dos estudos sobre eficácia de treinamentos cognitivos recrutou as pessoas de maneira similar. Já no segundo cartaz, à direita, eles escreveram: "Mande um email hoje e participe de um estudo - Precisa de créditos estudantis? Inscreva-se em um estudo hoje e ganhe 5 créditos. Participe de um estudo hoje. Email para maiores informações: cforough@masonlive.gmu.edu". Como já deve estar claro, neste segundo cartaz os pesquisadores não fizeram qualquer menção ao fato da pesquisa estar relacionada à temática do "treinamento cerebral", enquanto que no primeiro deram bastante destaque a esta informação.

BrainTrainIntext

Cinquenta participantes foram recrutados e divididos em dois grupos - em um deles (grupo placebo) estavam as pessoas que foram atraídas à pesquisa pelo primeiro cartaz, enquanto que no outro (grupo controle) aquelas que foram atraídas pelo segundo cartaz. Todos os participantes inicialmente responderam a uma teste voltado para a avaliação da inteligência fluida e em seguida se envolveram, por uma hora, em jogos de treinamento cognitivo. Finalmente, no dia seguinte, refizeram o teste de inteligência para que os pesquisadores pudessem averiguar se alguma mudança seria detectada. E o que eles encontraram? Que os participantes do grupo placebo se saíram melhor neste segundo teste do que no primeiro, marcando de 5 a 10 pontos a mais. Já o grupo controle não teve qualquer aumento, permanecendo no mesmo nível de antes. Tendo em vista que é extrememente improvável que um treinamento tão curto traga um efeito significativo e permanente na inteligência e que a única diferença entre os dois grupos estava na forma como foram recrutados, este resultado aponta, assim, que teriam sido as expectativas geradas pelos cartazes as responsáveis pelo "aumento no QI" dos participantes e não o treinamento cognitivo. Os pesquisadores não entendem ainda como o efeito placebo poderia melhorar a pontuação de QI de uma pessoa, ainda que momentaneamente, mas suspeitam que isto poderia estar relacionado a um aumento na motivação e na confiança dos participantes. 

Importante salientar que este novo estudo não sugere que o treinamento cognitivo/cerebral seja ineficaz, mas que sua eficácia se deveria mais às expectativas de eficácia, ou seja, ao efeito placebo, do que à uma eficácia intrínseca. Em suma, o que os pesquisadores indicam é que o marketing de empresas de treinamento cerebral é mais do que um chamariz, é a principal razão de sua "eficácia". E isto significa também que a publicidade de tais empresas é essencialmente mentirosa, pois dissemina a ideia de que são os jogos e treinamentos cognitivos em si que geram certos "efeitos benéficos". Aliás, a empresa Lumos Labs, que é responsável pelo popular aplicativo de treinamento cerebral  Lumosity,  recentemente foi condenada pela Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês) a uma multa milionária - e ainda foi obrigada a notificar seus assinantes sobre este processo e permitir que eles cancelassem imediatamente a assinatura. Segundo a FTC, a companhia dissemina uma propaganda enganosa ao garantir que praticar 10 a 15 minutos algumas vezes na semana de seus jogos ajudaria seus usuários a melhorar o desempenho na escola e no trabalho e até mesmo a prevenir o declínio cognitivo. De acordo com a porta-voz da FTC Michelle Rusk“a Lumosity se apega aos medos que seus consumidores têm sobre o declínio de capacidades relacionado a idade, sugerindo que seus games podem ajudar a evitar a perda de memória, demência e até mesmo a Doença de Alzheimer. Mas a Lumosity simplesmente não tem a ciência para suportar seu anúncio”. Na mesma direção, um dos pesquisadores responsáveis pela pesquisa descrita acima, Cyrus Foroughi, afirmou para a revista Cosmos que a descoberta de uma maneira de aumentar rápida e permanentemente a inteligência seria algo fantástico, mas ponderou: "eu só acho que a ciência ainda não chegou lá". Será que um dia chegará?

PS: Não consegui ter acesso ao artigo "Placebo effects in cognitive training" na íntegra, apenas a seu resumo e a informações disponíveis na imprensa. Infelizmente o artigo completo está disponível apenas para entidades conveniadas ao site ou mediante pagamento. Isto significa que eu posso ter cometido algum(ns) erro(s) na descrição e intepretação do experimento.

PS2: inteligência fluida (Gf) se refere, segundo este artigo, "à capacidade de raciocinar e de resolver novos problemas, independentemente do conhecimento previamente adquirido". O artigo diz ainda que a inteligência fluida é "fundamental para uma ampla variedade de tarefas cognitivas, e é considerada um dos fatores mais importantes na aprendizagem. Além disso, a Gf está intimamente relacionada com o sucesso profissional e educacional, especialmente em ambientes complexos e exigentes". Esta forma de inteligência se contrapõe à chamada inteligência cristalizada (Gc), que, segundo este outro artigo, é a inteligência envolvida "na solução da maioria dos complexos problemas cotidianos, sendo conhecida como 'inteligência social' ou 'senso comum'. Esta inteligência seria desenvolvida a partir de experiências culturais e educacionais, estando presente na maioria das atividades escolares".

Sugestões de leitura:

Artigos que demontram a eficácia de treinamentos "cerebrais":
Artigos que questionam a eficácia de treinamentos "cerebrais":
 

sábado, 25 de junho de 2016

Freud rompeu com a neurologia?

Em um post recente, ao comentar criticamente uma entrevista do neurocientista Ivan Izquierdo em que ele dizia que a neurociência havia superado a psicanálise, eu afirmei que Freud, embora tenha iniciado sua carreira e suas pesquisas como neurologista, aos poucos foi se distanciando desta perspectiva em prol de uma visão mais psicológica da mente humana. Em certo momento eu sugeri até mesmo um rompimento, uma ruptura, de Freud com a neurologia e com a biologia em geral. Mas isto de fato aconteceu? Decidi ir mais a fundo nesta questão e busquei livros e pesquisas que analisaram detalhadamente esta pergunta (abaixo indicarei exatamente quais foram as minhas fontes). E as informações que encontrei apontam para duas respostas possíveis: sim e não, com forte tendência para o não. Para alguns autores, a obra neurológica de Freud tem um interesse meramente histórico, não sendo vista como algo relevante para se entender a "metapsicologia" desenvolvida por ele posteriormente - as manifestações organicistas em seus textos tardios são entendidas, deste ponto de vista, apenas como uma excentricidade ou um apego sentimental a certos princípios adquiridos no início de seu processo de formação. Para estes autores seria óbvia a "constatação" de que Freud teria rompido radicalmente com a neurologia. No entanto, análises mais atentas apontam que Freud, por mais que se queira negar, nunca rompeu totalmente com a biologia e com um entendimento neurológico da psiquê. Como afirmam os pesquisadores Richard Simanke e Fátima Caropreso, "a ideia de que o "psicólogo Freud" teria, a partir de certo momento, substituído inteiramente o "neurólogo Freud" não parece poder ser facilmente sustentada".  Segundo estes autores é possível observar, de fato, uma "perfeita unidade e continuidade" entre estas duas dimensões do pensamento de Freud. Neste sentido, o que parece um rompimento não passaria de um recuo estratégico levado à cabo em função da percepção de que não haviam condições técnicas e metodológicas adequadas para se estudar fisiologicamente o cérebro e a relação mente-cérebro naquele momento. Ainda assim Freud sempre defendeu de diferentes formas a visão de que a mente e, logicamente, o inconsciente, não poderiam existir "suspensos no ar", estando necessariamente fundados em estruturas orgânicas/neurais. E tudo isto significa que muito provavelmente, se Freud estivesse vivo, ele olharia com bastante interesse para as atuais pesquisas neurocientíficas, ainda que dificilmente "comprasse" o discurso fisicalista/materialista disseminado por muitos neurocientistas contemporâneos - que insistem em nos fazer acreditar que "somos o nosso cérebro". Sua visão possivelmente incorporaria alguns elementos "neuro" em uma teoria mais ampla da mente humana. Ok, de fato nunca saberemos, mas podemos imaginar, não?

Certamente, não há como negar a origem "neurocientífica" da psicanálise. Freud, no inicio de sua carreira, especificamente a partir de 1883, esteve profundamente envolvido em pesquisas neuroanatômicas e neurofisiológicas em laboratórios de Viena e Paris - anteriormente participou de pesquisas em zoologia, tendo estudado, dentre outras coisas, o sistema reprodutivo de enguias em um laboratório em Trieste, onde produziu, em 1877 seu primeiro artigo científico (sobre este acontecimento, o psicanalista Mark Solms comenta: "não é notável o fato de que o futuro descobridor do processo de castração iniciou sua carreira científica procurando, sem sucesso, os testículos perdidos da enguia?"). Alguns anos mais tarde, em 1891, quando já se interessava pelo campo da psicopatologia, publicou seu primeiro livro, Sobre a concepção das afasias, que não faz parte de suas "obras completas" justamente porque foi escrito e publicado em um período pré-psicanalítico, momento em que o "Freud neurologista" ainda tinha primazia sobre o "Freud psicanalista" - no Brasil este livro foi publicado somente em 2013 pela editora Autêntica. Nesta obra, Freud analisa as diversas concepções de afasia reinantes naquele momento e tece importantes, e ainda atuais, críticas à teoria localizacionista, segundo a qual cada função mental teria uma localização precisa no cérebro, que seria afetada no caso de uma lesão. Esta teoria, cabe ressaltar, voltou, ou melhor, se impôs com grande força após o advento das novas tecnologias de neuroimagem (PET, fMRI, etc), que apontam para áreas mais ou menos "ativas" no cérebro e sugerem, assim, que, determinadas áreas são responsáveis por determinadas funções. Esta visão localizacionista, defendida ardorosamente pelos frenologistas no século XIX e criticada por Freud já em 1891, tem sido alvo de importantes críticas empreendidas por diversos neurocientistas, como o brasileiro Miguel Nicolelis, para quem o cérebro funciona com um todo integrado e de maneira distribuída - daí a utilização do termo distribuicionista para designar o adepto desta corrente, oposta à localizacionista. Em seu livro Muito além do nosso eu, Nicolelis defende justamente a visão do cérebro como uma rede na qual células localizadas em diferentes regiões do cérebro contribuiriam, “cada uma de uma maneira diminuta e peculiar, para a geração de um produto cerebral final”. Segundo o pesquisador, assim como para Freud, não faz sentido atribuir a uma área específica a responsabilidade sobre determinada função.

Em 1895, Freud escreveu, mas nunca o publicou em vida, o texto "Psicologia para neurologistas". Tal publicação ocorreu em sua língua materna somente em 1950, onze anos após a sua morte, e teve seu título alterado pelos editores da versão inglesa, em 1954, para "Projeto para uma psicologia científica". Acredita-se que Freud sempre rejeitou tal manuscrito e nunca quis que fosse publicado, talvez por se tratar de um texto que vai na contramão de sua obra posterior (será mesmo?). Neste texto inacabado, caracterizado por Octave Mannoni como um "manual de neurologia fantástica", Freud se propõs, em suas próprias palavras, a "estruturar uma psicologia que fosse uma ciência natural" e para tanto elaborou uma teoria  acerca do pensamento e comportamento humanos em termos da estrutura e função do sistema nervoso. Freud pretendeu, em suma, construir uma "fisiologia da mente", segundo expressão de Clark Glymour. Não pretendo aqui entrar nos pormenores deste complexo texto - para tanto indico o livro Projeto para uma Psicologia Científica: Freud e as neurociências, escrito pelo psicanalista Benilton Bezerra Jr. -, gostaria apenas de destacar que se trata de uma obra ímpar, na medida em que Freud propõe uma explicação neurológica para a mente - totalmente especulativa, diga-se de passagem, já que não existiam instrumentos disponíveis naquela época para verificar suas hipóteses. Cabe ressaltar ainda que neste texto Freud reforça sua crítica ao localizacionismo, corrente hegemônica naquele momento. E isto sinaliza para o entendimento que Freud já "nadava contra a corrente" antes mesmo de desenvolver a teoria e o método psicanalíticos.

Em sua vasta obra posterior, escrita até o fim de sua vida, em 1939, Freud se refere inúmeras vezes ao funcionamento cerebral e à relação entre este e a mente. Selecionamos abaixo algumas destas frases - que certamente não devem ser entendidas isoladas do texto maior em que estão inseridas, mas que sinalizam para um certo entendimento. Para quem quiser lê-las no contexto em que foram escritas, recomendo a leitura do texto/livro-base.

  • "Mesmo quando a investigação mostra que a causa excitante primária de um fenômeno é psíquica, uma pesquisa mais profunda irá um dia mais adiante nesse caminho e descobrirá a base orgânica do acontecimento mental" (Interpretação dos sonhos, 1900)
  • "A mecânica desses processos me é totalmente desconhecida; qualquer um que quisesse levar essas ideias a sério teria que procurar por seus análogos físicos e encontrar um meio de figurar os movimentos que acompanham a excitação dos neurônios" (Interpretação dos sonhos, 1900) 
  • "É fácil descrever o inconsciente e seguir seus desenvolvimentos, se ele é abordado pelo lado de suas relações com o consciente, com o qual tem tanta coisa em comum. Por outro lado, não parece ainda haver nenhuma possibilidade de abordá-lo pelo lado dos acontecimentos físicos, de modo que ele deve permanecer como um tema de investigação psicológica" (O interesse pela psicanálise, 1913)
  • "Devemos lembrar que todas as nossas ideias provisórias em psicologia estarão, presumivelmente, algum dia, baseadas numa subestrutura orgânica" (Sobre o narcisismo, 1914)
  • "A estrutura teórica que criamos para a psicanálise é, na verdade, uma superestrutura, que, um dia, terá que ser assentada sobre seus fundamentos orgânicos. Mas nós ainda os ignoramos" (Conferências de introdução à psicanálise, 1916/1917)
  • "As deficiências em nossa descrição provavelmente se desvaneceriam, se já estivéssemos em condições de substituir os termos psicológicos pelos termos fisiológicos ou químicos" (Além do princípio do prazer, 1920)
  • "A biologia é, verdadeiramente, uma terra de possibilidades ilimitadas. Podemos esperar que ela nos forneça as informações mais surpreendentes, e não podemos imaginar que respostas nos dará, dentro de poucas dezenas de anos, às questões que lhe formulamos. Poderão ser de um tipo que ponha por terra toda a nossa estrutura artificial de hipóteses" (Além do princípio do prazer, 1920)

Em todos os trechos destacados acima é possível observar diferentes variações em cima da ideia de que no presente, ou seja, no momento em que Freud escrevia, não haviam condições técnicas e científicas para se fazer determinados estudos e, consequentemente, para se chegar a certas conclusões sobre o funcionamento cerebral, mas que no futuro tais restrições deixariam de existir. É possível perceber nos textos de Freud uma grande fé no futuro e, especificamente, no futuro da ciência, que, acredita ele, seria um dia capaz de dar algumas respostas sobre o sistema nervoso e o cérebro que naquele momento não eram possíveis e que poderiam complementar o conhecimento psi e até mesmo, quem sabe, substituí-lo. Cabe apontar que esta fé na ciência está presente de uma forma ainda mais evidente em seu livro O futuro de uma ilusão, no qual a fé na ciência, de certa forma, substitui a fé em deus ou em uma religião. Na verdade, a grande crítica de Freud à ciência cerebral de sua época é que ela se restringia à busca pela localização de determinadas funções mentais na estrutura do cérebro e isto, para ele, era insuficiente para seus propósitos e interesses. O que ele almejava era uma análise funcional do cérebro, ou seja, uma análise de sua dinâmica e não somente de sua estrutura. No entanto, naquele momento não existiam instrumentos pra tal investigação. Até a primeira metade do século XX, estudos sobre o cérebro humano eram realizados majoritariamente de forma indireta, através do exame minucioso de indivíduos lesionados – como no famoso caso do operário Phineas Cage – mas também, diretamente, por meio de análises post mortem e de tecnologias de exame mais simples como a eletroencefalografia, disponíveis a partir da década de 1920. Foi somente no final do século XX, com o desenvolvimento e disseminação das novas tecnologias de visualização do cérebro, que tornou-se possível ir além e estudar o cérebro in vivo, ou seja, o cérebro de indivíduos vivos, e ao vivo, isto é, praticamente no momento em que o sujeito realiza determinada ação ou tarefa. Nada disso existia durante o período de vida de Freud o que reforça a hipótese de que, diante da impossibilidade de levar à cabo uma investigação funcional do cérebro, que fosse além da análise de lesões na estrutura (inexistentes no caso de transtornos neuróticos), Freud teve que dar uma guinada em direção a uma investigação psicológica da mental. Isto significa que Freud não propriamente optou por seguir esta trilha, mas foi como que conduzido a ela em função de uma série de limites técnicos e metodológicos. Ainda sim sempre nutriu a expectativa de que tais empecilhos seriam eliminados no futuro - como de fato foram, pelo menos parcialmente. No entanto, Freud jamais poderia imaginar que o localizacionismo ressurgiria com força total no século XXI em função do desenvolvimento e disseminação das novas tecnologias de neuroimagem. Nesta nova onda localizacionista, chamada por alguns de neofrenologia, a busca pela localização de áreas funcionais tem sido majoritariamente preferida à busca por um entendimento dinâmico, funcional e/ou distribuído do cérebro. Freud certamente olharia com bastante criticidade para tudo isto e provavelmente continuaria nadando contra a corrente.

Sugestões de leitura:

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Como assim a culpa é do cérebro?

No dia 21 de Junho a revista Galileu publicou a seguinte notícia em seu site: "Comportamento antissocial é culpa do cérebro". Gostaria de fazer algumas considerações sobre esta matéria e também sobre a pesquisa lhe que serviu de base. Pois bem, um grupo de pesquisadores de diversos países, encabeçados pelo psicólogo inglês Graeme Fairchild, colocou 58 adolescentes diagnosticados com "transtorno de conduta" (grupo experimental) em uma máquina de ressonância magnética e mediu a espessura de 68 partes do córtex de seus cérebros, comparando-as com a de 25 adolescentes da mesma faixa etária não diagnosticados com o "transtorno" (grupo controle). E o que encontraram? De forma bem resumida, os pesquisadores apontaram para importantes diferenças entre os dois grupos no que diz respeito à estrutura cerebral. Mais especificamente, afirmaram ter encontrado significativas "diferenças quantitativas na organização estrutural" do cérebro tanto entre o grupo experimental e o grupo controle quanto dentro do próprio grupo experimental - que foi dividido em dois grupos: transtorno de conduta (1) com início na infância e (2) com início na adolescencia. Segundo os pesquisadores, o grupo experimental (1) apresentou mais semelhanças na espessura de diversas partes do córtex do que o grupo experimental (2) e do que o grupo controle, o que aponta para o entendimento de que adolescentes que desenvolveram transtorno de conduta quando crianças possuiriam um cérebro menos especializado ou diverso do que aqueles que desenvolveram o transtorno mais tarde e, especialmente, do que aqueles que não desenvolveram o transtorno. Os pesquisadores, entretanto, não compreendem ainda qual a relação entre menor especialização cortical e comportamento antissocial. E o que a revista Galileu, e até certo ponto o próprio Fairchild neste texto, concluem dos resultados deste estudo? Que o "desvio de conduta" é um trantorno psiquiátrico real (e não uma uma "forma exagerada de rebelião adolescente") porque é causado pelo cérebro - que seria, então, o verdadeiro "culpado" pelo problema. Especialmente a revista, em sua ânsia de criar uma manchete bombástica, mas também o pesquisador ao tentar "traduzir" os resultados de sua pesquisa, cometem uma série de erros, que analisarei abaixo.

Em primeiro lugar, a revista e o pesquisador atribuem realidade somente àquilo que possuiria uma "realidade cerebral" - e com isso cometem um equívoco que o pesquisador Eric Racine chama de "neurorealismo", que é a crença de que encontrar alterações cerebrais provaria a existência ou a realidade de determinados sentimentos ou transtornos. Na verdade, descobrir que existem diferenças entre pessoas diagnosticadas e não-diagnosticadas não prova que este ou aquele transtorno é real. Aliás, o que isto significa? O que seria uma transtorno irreal? A partir do momento em que a Associação Psiquiátrica Americana (APA) escolhe classificar determinados comportamentos como "transtornos" e os insere no DSM, o diagnóstico passa a ser real. Não é a pesquisa neurocientífica que confere realidade ao transtorno, mas o consenso entre as "autoridades" de que se trata "realmente" de um transtorno. Esta ideia de que é o consenso que cria a realidade vale não só para transtornos psiquiátricos, mas para muitas outras coisas. Por exemplo: o amor é real? E o dinheiro? E as leis? A resposta para todas estas perguntas é sim, são reais, pois acreditamos que sejam. O amor, por exemplo, não tem qualquer realidade física, mas ninguém duvida de sua existência. Da mesma forma  o dinheiro: uma nota de 10 reais não tem qualquer valor em si; seu valor é consequência de um consenso social de que aquilo possui de fato algum valor. O mesmo vale para as leis: elas existem porque acreditamos e agimos como se elas existissem. Tudo isto aponta para o fato de que a referida pesquisa não teria como conferir realidade ao transtorno de conduta, sendo possível apenas concluir que as pessoas previamente diagnosticadas com tal transtorno e que participaram do experimento, possuem determinadas caracteristicas cerebrais semelhantes - embora não exatamente iguais. Mas mesmo tal conclusão não pode ser generalizada para todas as pessoas com tal diagnóstico (e muito menos para todas as pessoas antissociais, tímidas ou problemáticas do mundo), em função do pequeno número de pessoas pesquisadas, apenas 58.

De toda forma - e este é o segundo e mais importante erro (da revista Galileu e não do artigo original) - isto não significa que são estas características cerebrais que causam determinado comportamento, por exemplo, o comportamento antissocial. É bem possível aliás, que ocorra o contrário: que o comportamento antissocial cause ou contribua para a constituição de determinadas características cerebrais. Peguemos uma outra situação: imaginemos que cientistas coloquem pessoas anoréxicas em um equipamente de ressonância magnética e encontrem, comparativamente com um grupo não-anoréxico, uma maior "ativação" de determinadas áreas do cérebro. Isto significa que são estas áreas que causam a anorexia ou que, por exemplo, a falta de uma alimentação adequada afeta a "ativação" de tais áreas? Ou então imaginemos que cientistas coloquem pessoas apaixonadas em um moderno equipamento de tomografia e constatem, após exibir para elas uma série de imagens da pessoa amada, que determinadas áreas são "ativadas". Isto significa que são estas áreas que causam a paixão? Ou quer dizer, pelo contrário, que a ativação destas áreas é consequência desta paixão? Dizer que o cérebro causa tal ou qual comportamento ou, pior, que "a culpa é do cérebro", é um erro primário, que cientistas costumam evitar (no artigo original, por exemplo, não há qualquer argumentação neste sentido), mas que jornalistas e divulgadores científicos cometem todos os dias. Este argumento simplista de que a "culpa é do cérebro" também tem sido constantemente usado nos tribunais por advogados de defesa na criação de justificativas para determinados crimes (este video do Porta dos Fundos, embora trate da utilização da astrologia no tribunal, ironiza justamente estas explicações que tentam anular a responsabilidade do indivíduo por suas ações). Em comum entre advogados e divulgadores científicos está, neste caso, o entendimento de que é o cérebro que causa a mente e o comportamento. O grande problema destas explicações supostamente neurocientíficas é que elas ignoram a própria neurociência e os neurocientistas contemporâneos, que tem disseminado um entendimento muito menos determinista e mais dinâmico do cérebro e da mente. A ideia de plasticidade cerebral aponta justamente para o entendimento de que não só o cérebro "causa" a mente e o comportamento, mas também que estes "causam" mudanças no cérebro. Isto significa que, exceto em casos muito graves e raros, não é o cérebro o único responsável por nossas ações. Como afirmam Sally Satel e Scott Lilienfeld, no sensacional livro Brainwhashed: the seductive appeal of mindless neuroscience, "nossas decisões são inevitavelmente produto de uma vasta gama de influências - nossos genes (e a história evolucionária que eles representam), os mecanismos dos nossos cérebros, nossa criação, assim como o ambiente  físico e social em que vivemos". Todas estas forças convergem para a produção de nossos pensamentos e ações. O cérebro é "apenas" mais um elemento em cena.