segunda-feira, 29 de junho de 2015

Está faltando ciência à Educação?

Na semana passada li uma entrevista com a Viviane Senna para a Folha de São Paulo cuja manchete reproduzia uma fala dela: "Educação é baseada em achismos, não em ciência". Gostaria de tecer alguns comentários sobre esta entrevista - que você pode conferir, na íntegra, aqui. Mas antes, uma propaganda. Meu livro, que ainda está em processo de edição, virá em uma boa hora - ele deverá ser lançado, espero, no próximo semestre. Para quem não sabe, ele se chamará "O cérebro vai à escola": aproximações entre Neurociências e Educação no Brasil e foi baseado em minha dissertação de mestrado, defendida em 2012 na UERJ. Pois ele trata justamente - e de uma forma crítica - da questão da aproximação da educação com o campo científico, ou da busca por uma educação baseada em evidências - busca esta que tem se tornado cada vez mais ativa. Só para se ter uma ideia, há pouco tempo foi criada a Rede Nacional de Ciência para a Educação e em julho ocorrerá no Rio de Janeiro um simpósio internacional sobre o assunto, o Internacional Symposium on Science for education. Tudo isto aponta para um grande interesse sobre esta questão. Pois meu livro, que trata da aproximação entre os campos educacional e neurocientífico, busca problematizar justamente esta visão, defendida pela Viviane Senna e por outros, de que está faltando ciência à educação, como se o principal motivo para os problemas na educação atual fosse a falta de embasamento científico. Certamente acredito que a ciência pode contribuir para o desenvolvimento das práticas e políticas educacionais, o que não significa que é a ciência que salvará a educação. Como aponto na conclusão do livro: "consideramos prudente permanecer entre os extremos do neuroceticismo e do neuroentusiasmo compreendendo que o campo neurocientífico, ainda que possa gerar conhecimentos relevantes para a Educação, não é capaz, sozinho, de explicar a aprendizagem e suas dificuldades e muito menos de resolver os inúmeros problemas e desafios do campo educacional". O mesmo vale, creio, para o campo científico de uma forma geral. Ele pode contribuir? Certamente. Mas o conhecimento científico não é o único que deve ser levado em consideração. Outros conhecimentos, chamados neste caso de "achismos" - mas que poderíamos chamar de conhecimentos tácitos -, também podem contribuir para o desenvolvimento de novas políticas e práticas. Endeusar a ciência, como se ela fosse uma panacéia para todos os problemas do mundo, não é o caminho. Pelo menos, não o caminho que eu acredito.

Certamente concordo que o ensino pode e deve ganhar muito com a ciência. Só acho que outros conhecimentos, como aqueles que o professor adquire com sua prática, não podem ser desprezados. O paralelo com a medicina é interessante. A medicina baseada em evidências apregoa que o médico deve basear sua conduta e suas prescrições nos dados científicos. O problema é que muitas vezes os dados são contraditórios e mesmo que se façam meta-análises, é impossível tais dados dizerem o que o médico deve fazer em um caso específico. Quem trabalha na clínica, assim como na escola ou na universidade, lida com pessoas e não com médias. Neste sentido, os dados podem até fornecer um norte, mas a prática do médico ou do professor precisa ser levada em consideração na construção de políticas e práticas. Com tudo isto quero dizer que a ciência, que se propõe universal, tem limites claros, especialmente quando falamos de casos e culturas particulares. Acho difícil, no caso da educação, falar em práticas universalmente efetivas. O que funciona em um lugar não necessariamente funcionará em outros, o que funciona para uma pessoa não necessariamente funcionará para outra. No que diz respeito às questões humanas qualquer universalidade é perigosa pois corre-se o risco de ignorar as singularidades. É isso que quero dizer quando critico a ideia de que a ciência pode salvar a educação - especialmente porque quando se fala isso refere-se normalmente às chamadas ciências naturais e não às ciências humanas. Pois as ciências humanas já estão na base da nossa educação. A proposta que vem se disseminando é substituir as teorias e práticas baseadas nas ciências humanas por teorias e práticas baseadas nas chamadas ciências "duras". E isto eu não concordo. Acho que as duas ciências devem dialogar.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sobre as críticas à redução da maioridade penal

Quando li a notícia de que a redução da maioridade penal foi aprovada em uma comissão na câmara dos deputados, e também quando me lembro de que quase 90% da população brasileira aprova tal mudança, fico pensando que nós, os críticos de tal medida, não estamos sendo suficientemente convincentes. Do contrário, certamente haveriam muito mais pessoas na câmara protestando contra tal aprovação e haveria um clima geral de oposição. Na realidade, quer queiramos quer não, os deputados contam com amplo apoio da população e isso dá grande legitimidade para suas ações. Mas fico pensando nos porquês, o que me leva à seguinte questão: o que eles têm? Bom, o que eles tem como argumentos são imagens e notícias. Imagens e notícias de jovens assassinos. Imagens e notícias de crianças e adolescentes que cometeram assassinatos à sangue frio. Eles tem o medo que isto desperta. E o que nós temos? Nós temos estatísticas. Nós temos estatísticas de que somente uma ínfima minoria dos jovens infratores cometeram assassinatos. Nós temos estatísticas de como os países que reduziram a maioridade penal não diminuíram seus índices de criminalidade. Nós temos estatísticas de que os índices de reincidência nas prisões são altos, etc. Nós temos estatísticas demais. Mas não temos imagens ou notícias impactantes. E tendo em vista que não somos seres simplesmente racionais, que tomam decisões e formam opiniões baseados no cálculo frio de prós e contras, talvez estejamos utilizando das táticas erradas de convencimento. Talvez precisemos mais de imagens e notícias, que atinjam as emoções da população, do que de estatísticas frias que dizem muito mas impactam pouco. Da mesma forma que alguns estudos de psicologia demonstraram ser mais fácil convencer uma pessoa a ajudar uma organização filantrópica fazendo-a acreditar que estão ajudando na verdade uma única pessoa (o Joãozinho) e não toda uma população, talvez o que estamos precisando é mais de casos convincentes do que de números frios. Talvez, apenas talvez.

Sobre a gestão da vida virtual

Uma habilidade fundamental em nossos tempos é a gestão da nossa cada vez mais atribulada vida virtual, tendo sempre em vista que a separação entre esta e tal "vida real" não é nada nítida ou exata. Publicar uma comentário absurdo, equivocado e/ou preconceituoso e, depois de receber críticas, dizer que foi "só um comentário de Facebook" só demonstra que a pessoa não entende que a separação real/virtual não é mais tão clara como há alguns anos. O que dizemos nas redes virtuais é real e tem consequências reais. Por isso, temos que pensar bastante antes de sairmos por aí dizendo tudo o que se passa por nossa cabeça - especialmente coisas desnecessárias ou que possam prejudicar e ofender outras pessoas. É claro que, teoricamente, qualquer comentário pode ofender outra pessoa, mas isto não significa que devamos ofender intencionalmente pessoas e grupos, especialmente aqueles que já são cotidianamente ofendidos. Obviamente, o ideal seria que nós seres humanos não tivéssemos pensamentos absurdos, equivocados e preconceituosos e nem precisássemos nos controlar para não expressá-los, mas aí eu estaria sendo ingênuo. Nós, seres humanos, não somos só bondade, nem só maldade. Somos anjos e demônios. Mas a vida em sociedade implica, como bem alertou Freud em seu Mal-estar na civilização, que tentemos manter nossos demônios, ou pelo menos uma parte deles, guardados. Se expressássemos tudo o que pensamos e achamos sempre - e, especialmente se fizéssemos tudo o que temos vontade -, a vida em sociedade seria impossível. A mentira, ou no mínimo a omissão, é necessária para as relações sociais - como bem demonstra o filme A invenção da mentira. Portanto, devemos tomar todo o cuidado possível em nossas expressões públicas, reais ou virtuais. Alguns chamam isso de "patrulha do politicamente correto". Eu prefiro chamar de "viver em sociedade".

quinta-feira, 7 de maio de 2015

“Relatos selvagens” e a animalidade humana

O filme argentino Relatos selvagens – que concorreu ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro - é composto por seis histórias independentes que tem em comum a temática do descontrole (e pare de ler aqui caso não queira saber pormenores da trama). Na primeira história, que abre o filme, um piloto e músico frustrado reúne em uma avião todas as pessoas que em algum momento o magoaram ou o rejeitaram com o objetivo de derrubá-lo com todos dentro - e em cima da casa de seus pais!. Assim tem início o filme, que durante os créditos iniciais exibe uma série de fotos de animais, sinalizando – o que será confirmado no restante do filme – que nós também somos animais. E é sobre esta animalidade, que por vezes faz com que nos comportemos de forma exagerada ou descontrolada, de que tratam as histórias que se seguem.

A segunda história expõe o caso de uma garçonete que atende no meio da noite o homem responsável pelo declínio de sua família e pelo suicídio de seu pai. Já a terceira história, hilária, narra uma série de incidentes que acontece quando o pneu do carro de um homem fura em uma estrada deserta. A quarta, que é protagonizada pelo ator-ícone do cinema argentino Ricardo Dárin, conta a triste história de um perito em demolições que tem sua vida “demolida” após seu carro ser guinchado injustamente enquanto buscava o bolo de aniversário da filha - o que leva o personagem a uma série de situações que fogem totalmente ao seu controle. Há ainda a história de uma família cujo filho atropela e mata uma mulher grávida. Finalmente, a última história – a melhor e mais bizarra – retrata uma festa de casamento que dá absurdamente errado após a noiva descobrir que seu futuro marido a traiu com uma das convidadas. O que acontece a partir desta descoberta é surreal – e hilário.

Em todas estas histórias, as pessoas se comportam em algum momento de forma irracional, impulsiva, fazendo escolhas que não fariam racionalmente. Isto só evidencia algo óbvio para mim: nós seres humanos não somos seres racionais, ou melhor, não somos seres puramente racionais. Nossas escolhas são feitas sempre – ou quase sempre – num caldo de razão e emoção no qual não é possível distinguir onde começa uma e termina a outra. Somos seres emocionais que fazemos escolhas baseando-nos não somente em um cálculo frio de prós e contras, mas também em paixões, afetos, desejos e impulsos. Como bem apontou o economista Eduardo Giannetti da Fonseca no excelente livro “O valor do amanhã” vivemos num permanente oscilar entre aproveitarmos o momento e fazermos o que desejamos agora e planejarmos o futuro, abrindo mão, no presente, de algumas atitudes. 

Às vezes cedemos às tentações do presente e fazemos aquilo que desejamos mesmo que isto traga ou possa trazer conseqüências no futuro; e em outras vezes conseguimos nos controlar, reprimindo aquele lado animal que insiste em se manifestar. Sem este lado repressor, que Freud chamou de Supereu, a vida em sociedade não seria possível. Se déssemos vazão todo o tempo os nossos desejos sexuais e impulsos agressivos – com o fazem muitos personagens de Relatos selvagens – a vida em comum seria impossível. Por outro lado, se nunca manifestarmos ou “colocarmos para fora” – ou ainda sublimarmos, como diz Freud – a vida em comum também se torna difícil. Um “barraco”, de vez em quando, não faz mal a ninguém. O descontrole, se moderado, pode até fazer bem. 

Outra questão é se de fato controlamos a nossa vida e os nossos comportamentos. Psicanalistas provavelmente diriam que não, ou pelo menos não totalmente. Afinal, se grande parte da vida psíquica se dá abaixo do limiar da consciência, não faz sentido falar propriamente em controle. Da mesma forma, mas por motivos diferentes, behavioristas provavelmente diriam que o controle que temos de nossos comportamentos e de nossas vidas é limitado. Alguns neurocientistas contemporâneos, inclinados ao reducionismo, iriam além e negariam completamente nosso livre-arbítrio, argumentando que quem está no controle, efetivamente, é o nosso cérebro – e não nós (mas se, como alguns argumentam, “nós somos o nosso cérebro” então isso quer dizer que nós estamos no comando?). De toda forma, acho bastante pertinente a idéia de que não temos total controle de nossas ações - veja bem, eu disse total, porque algum grau de controle nós certamente temos, especialmente quando dizemos não à algo que desejamos. De toda forma, tenho certeza que todos já tomaram atitudes que se arrependeram depois. Só espero que o nível de descontrole não tenha chegado – e não chegue no futuro – ao nível de alguns dos casos expostos no filme Relatos Selvagens. 

Sobre a nostalgia

Se tem uma coisa que não suporto é nostalgia. Na verdade, não tenho nada contra aquela nostalgia "do bem" que sentimos quando nos lembramos de um momento bom que passou ou de uma pessoa que se foi. O que me incomoda é a nostalgia do tipo "no meu tempo é que era bom". Esse tipo de nostalgia, que está na base de muitos pensamentos conservadores que vejo por aí, coloca o presente sempre como algo inferior, quase como uma sombra ou um esboço malfeito de um passado idealizado. Aposto que no tal tempo em que a pessoa se refere as pessoas - e talvez ela própria - diziam a mesma coisa e colocavam a "felicidade" ou a "ordem" ou " pureza" em algum lugar, ainda mais distante no passado. Simplesmente não suporto quando ouço, ou leio, ou vejo, pessoas dizendo que no "seu tempo" as coisas eram melhores. Em alguma medida elas podem até ter razão ao afirmar que as coisas eram diferentes de hoje. Mas isto não significa que o mundo e as relações eram melhores. Não que o mundo hoje seja perfeito. Pelo contrário, vejo tanta coisa errada que nem saberia por onde começar a listar os seus problemas. Mas o mundo é o que ele é e o tempo segue para frente. Desejar um retorno a um passado idealizado onde tudo - teoricamente - funcionava e onde as relações eram mais simples e menos "líquidas" é de uma ingenuidade sem tamanho. Isto não significa, contudo, que as mudanças não são possíveis. Pelo contrário, significa que as mudanças ocorrerão de formas imprevisíveis a partir do presente e em direção a um futuro que não sabemos exatamente como será e não como um retorno a um passado. Como diria o mestre Georges Canguilhem, em sua brilhante análise dos processos de saúde e doença, "a vida não conhece reversibilidade". E é por isso, que segundo o autor, não devemos falar em cura como um retorno à uma “inocência orgânica”, mas como um rearranjo, uma nova forma de vida. Curar-se não é voltar ao que se era mas sim desenvolver uma nova forma de ser. Portanto, se desejamos "curar" o mundo devemos caminhar para frente e não para trás.

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Entre abelhas": uma metáfora da depressão


"Entre abelhas" é um filme muito interessante - e não leia o restante deste post caso não queira saber pormenores da trama. Quem olha seu cartaz, que tem o Fábio Porchat segurando uma cadeira vermelha, e vê que o diretor é o Ian SBF, um dos principais diretores do Porta dos Fundos, logo pensa que se trata de uma comédia. Assim eu pensava quando entrei na sala de cinema. Eu não podia estar mais enganado. "Entre abelhas" é um drama, um interessante drama com pitadas de suspense, escrito numa parceria entre Ian e Fábio.

Sem revelar nada muito significativo, o filme conta a história de Bruno, um editor de videos recém separado que subitamente passa a ser acometido por uma estranha "síndrome" que o faz deixar de ver algumas pessoas - que se tornam literalmente invisíveis para ele. Embora se assemelhe a "Ensaio sobre a cegueira" em alguns aspectos (uma síndrome misteriosa desencadeia uma cegueira), "Entre abelhas" segue por um outro caminho: não se trata de uma praga que se espalha, mas de um problema que acomete única e exclusivamente Bruno. Só ele deixa de ver. E somente algumas pessoas. A partir daí o protagonista, interpretado por um excelente e surpreendente Fábio Porchat, passa a investigar o que pode estar acontecendo com ele. Para tanto procura a ajuda de médicos e psicólogos que, como tantas vezes acontece na vida real, não conseguem identificar e entender o que ele tem. 

Sem entrar em pormenores, considero o filme uma interessante metáfora da depressão, condição (prefiro não chamar de doença) no qual o sofrimento por vezes torna-se tão intenso que é como se o mundo e as pessoas não mais existissem. Imerso em seu próprio sofrimento, o depressivo não consegue olhar além de si. Este é exatamente o caso de Bruno. Recém-separado de sua esposa, com quem viveu alguns anos, o personagem encontra-se num doloroso processo de luto. E é justamente no meio deste turbilhão que tem início a sua cegueira. A situação de Bruno também pode ser interpretada como uma metáfora da solidão nas (grandes ou pequenas) cidades, nas quais as pessoas são, de certa maneira, invisíveis umas para as outras - o filme argentino Medianeras também trata desta questão com muita sensibilidade. 

Posso estar viajando, mas vejo múltiplas interpretações para o enredo do filme. E quando isto acontece é ótimo. "Entre abelhas" não é um filme para as massas, exatamente por deixar abertas muitas questões (inclusive seu final) e por conduzir a história de uma forma muito mais lenta que a usual no cinema comercial brasileiro. Li relatos de que muitas pessoas saíram no meio do filme, absolutamente decepcionadas, e acho este um ótimo sinal de que se trata de um filme atípico - e que, justamente por isso, merece ser visto. Filmes nos quais as pessoas saem no meio são muitas vezes aqueles que geram algum incômodo e que trazem alguma reflexão para além do entretenimento momentâneo. "Entre abelhas", apesar de não ser propriamente uma obra-prima, faz pensar. E só por isso, merece muitos elogios.  

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma viagem pela história da saúde mental em Minas Gerais: o Hospício de Diamantina


Aproveitei a viagem à Diamantina na Semana Santa para ler e ver de perto um pedaço importante da história da saúde mental em Minas Gerais: o Hospício de Diamantina, o primeiro hospital de "alienados" do estado - no Brasil, o primeiro foi o Hospicio Pedro II, inaugurado no Rio de Janeiro em 1852. Chegando em Diamantina fui à única livraria da cidade - a charmosa Espaço B - e lá, por puro acaso, acabei me deparando com o livro "Hospicio de Diamantina: a loucura na cidade moderna", escrito pela psicanalista Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani a partir de sua dissertação de mestrado defendida na Fiocruz. Li o livro no mesmo dia (são apenas 100 páginas) e no dia seguinte fui ver de perto o Hospício - não tão de perto como gostaria pois o local está fechado para restauração e deve ser aberto para visitação em breve. 

Criado em 1889 como um anexo da Santa Casa de Diamantina (fundada em 1790), o Hospicio de Diamantina foi, como aponta a autora, uma "promessa que não se cumpriu". A promessa é de que seria um espaço "moderno" tanto de acolhimento dos "alienados" (também chamados à época nos jornais da cidade de exilados ou prejudicados da razão) como de tratamento e até cura - visão extremamente avançada para aquele momento no qual o "tratamento aos loucos" não era nem se propunha a ser laico, profissional e medicalizado. No entanto, o hospital nunca funcionou como se esperava, fechando suas portas em 1906. A partir deste momento o hospício de referência em Minas, para onde seriam levados (nos chamados "trens de doido") todos os "alienados", seria o famoso Hospital Colônia de Barbacena, criado em 1903. 

Deixo aqui como reflexão a conclusão da autora do livro, na qual ela expõe quem eram os tais alienados - e quem eram os tais "normais": "pode-se vislumbrar quem era considerado normal em Diamantina no final do século XIX e no princípio do século XX: os homens brancos, de posses, pais de família, seres racionais e as mulheres casadas, mães de família das classes médias e altas, dóceis, submissas, boas esposas e sem desejos. O que nos dá o perfil social dos nossos loucos: negros e mestiços, pobres, escravos ou trabalhadores simples, mendigos e desocupados e mulheres que, mesmo protegidas pelo casamento e pelo marido, poderiam a qualquer momento, perder a razão em função de sua fragilidade natural. Ontem, como hoje, negros, pobres e mulheres pertencem às categorias perigosas da sociedade".

Confira abaixo algumas fotos que eu tirei no local.






O Caps Renascer funciona aos fundos do antigo Hospício de Diamantina

Santa Casa de Diamantina

sexta-feira, 13 de março de 2015

Uma breve história e um panorama atual das Neurociências no Brasil

No Brasil, a história das Neurociências se confunde com a história da Fisiologia, e, mais especificamente, com a história da Neurofisiologia. Como aponta Cesar Timo-Laria (veja aqui), o estudo experimental e sistemático da Fisiologia teve início, no país, com os estudos dos irmãos Álvaro e Miguel Ozório de Almeida, no Rio de Janeiro do início do século XX. Segundo o autor, estes irmãos criaram, na década de 1910, o primeiro laboratório de fisiologia, além da primeira escola do campo no Brasil. Além disso, eles iniciaram os estudos em neurofisiologia no país. Miguel, especialmente, teria dedicado toda sua vida ao estudo da fisiologia e fisiopatologia do sistema nervoso, tendo inclusive publicado, em 1944, um livro sobre os processos de inibição e facilitação no sistema nervoso central e periférico. Segundo Dora Fix Ventura (neste artigo), especialmente a partir das décadas de 1940 e 19550 houve um grande impulso na área dos estudos em neurofisiologia, o que pode ser observado pela criação de grupos de pesquisa, como aqueles liderados por Aristides Pacheco Leão, na UFRJ, Carlos Diniz, na UFMG e Miguel Covian, na USP. Nas décadas de 1960 e 1970 outros grupos são criados nestas e em outras universidades, majoritariamente da região sudeste, e as pesquisas sobre o sistema nervoso se multiplicam. Neste momento, a expressão neurociências começa a ser utilizada pelos pesquisadores brasileiros para se referir a uma nova disciplina guarda-chuva que englobaria todos os estudos sobre o sistema nervoso. No entanto, somente mais tarde, especialmente a partir da década de 1990, é que a expressão se consolidará no universo acadêmico-científico brasileiro.

Um passo importante, nesse sentido, foi a criação, em 1977 da Sociedade Brasileira de Psicobiologia. Segundo sua ata de fundação (disponível aqui), a entidade foi criada por um grupo de psicólogos, psicofarmacólogos, neurofisiologistas, psiquiatras e outros profissionais, com o objetivo de “congregar os interessados em Sistema Nervoso e/ou Comportamento” ou, como afirma, Ventura “promover a integração entre psicologia e neurociência”. Segundo esta autora, que consta entre seus membros-fundadores, o nome da entidade perdurou até o início dos anos 1990, quando, para evitar a criação de uma segunda entidade na mesma área, dedicada à Bioquímica, decidiram alterá-lo para Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC), nome que se mantém até hoje[1]

A SBNeC é, sem dúvida, a principal entidade relacionada ao campo neurocientífico no Brasil, possuindo atualmente cerca de 3.300 associados, dentre “pesquisadores, pós-graduandos e estudantes de todo o país que estejam envolvidos com as diferentes facetas do estudo do Sistema Nervoso” (fonte). A SBNeC, que é filiada internacionalmente, à International Brain Research Organization (IBRO) e à Federação das Associações Latinoamericanas e do Caribe de Neurociências (FALAN) e nacionalmente à Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) e à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realiza, anualmente, uma reunião que reúne milhares de pesquisadores de diversas áreas do conhecimento dedicados à pesquisas em neurociências e comportamento.

Em um trabalho de 2010 intitulado Um retrato da área de Neurociência e Comportamento no Brasil (leia aqui), Ventura traz algumas importantes informações sobre o campo das neurociências no país. Segundo ela, a comunidade de neurocientistas compreendia, naquele momento, cerca de 2 mil pesquisadores, dentre professores/pesquisadores e estudantes de pós-graduação. Segundo levantamento realizado pela autora tais pesquisadores atuavam – e ainda atuam – predominantemente em grupos de pesquisas ligados a universidades públicas situadas na região sudeste – destaque para a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ)[2]. Especificamente, tal levantamento apontou que tais grupos de pesquisas estão ligados a diversos departamentos, como Bioquímica, Psicologia, Zoologia, Neurobiologia, Nutrição, Psiquiatria, Ciência da Computação, etc, o que confirma o caráter interdisciplinar do campo neurocientífico. 

Além disso, a autora destaca os principais temas estudados no país pelos neurocientistas em seus grupos de pesquisa: memória em humanos e não humanos, psicofarmacologia, comportamento animal e neuroetiologia, epilepsia, sistema visual, organização funcional do sistema nervoso, sono e cronobiologia, doença mental e doenças degenerativas, engenharia biomédica e redes neurais, nutrição e funcionamento do cérebro, regeneração do sistema nervoso e neurociência computacional. Esta multiplicidade temática se traduz, por sua vez, na multiplicidade metodológica do campo das neurociências, no Brasil e no mundo. A divisão do campo neurocientífico, proposta por Roberto Lent em cinco disciplinas (Neurociência molecular; Neurociência celular; Neurociência sistêmica, Neurociência comportamental e Neurociência Cognitiva) reflete, de certa forma, esta heterogeneidade.

Analisando especificamente a produção científica do campo no país, Ventura estima que cerca de 20% dos trabalhos produzidos na área biológica e biomédica sejam de neurociências. Segundo ela, a produção científica, especialmente em pesquisa básica, já é intensa e se expande cada vez mais. Isto pode ser observado, aponta, pela multiplicação de trabalhos sobre o sistema nervoso apresentados em alguns congressos científicos brasileiros. Por exemplo, na Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, os trabalhos ligados à temática das neurociências e comportamento compõem cerca de 30% do total. Segundo a autora, pode-se encontrar também uma considerável proporção de trabalhos em neurociências nas reuniões anuais da Sociedade Brasileira de Bioquímica, da Sociedade Brasileira de Imunologia e mesmo da Sociedade Brasileira de Psicologia. Além disso, Ventura aponta, a partir de dados fornecidos pelo Institute for Scientific Information, que o campo neurocientífico brasileiro se encontra dentre os mais bem-sucedidos academicamente, estando cerca de 20% dos neurocientistas brasileiros situados dentre os mais produtivos de todas as áreas do conhecimento no Brasil.


Tudo isto sinaliza para uma expansão do campo neurocientífico brasileiro, especialmente nas últimas duas décadas, o que pode ser constatado tanto pelo aumento no número de centros, institutos, pesquisas e pesquisadores dedicados ao estudo do sistema nervoso e sua relação com o comportamento normal ou patológico. Além disso, é possível observar a multiplicação de entidades de agremiação de pesquisadores, como a Sociedade Brasileira de Neurociências e o Instituto de Neurociências e Comportamento, e de publicações, como o periódico Psychology & Neuroscience e a Revista Neurociências. Isto se analisarmos somente o universo acadêmico-científico. No entanto, tem se proliferado pelo país iniciativas e publicações voltadas para a divulgação/difusão do conhecimento neurocientífico para o chamado público leigo. O cérebro, de fato, está cada vez mais visível, tanto no sentido de ser possível atualmente, em função das tecnologias de neuroimageamento, visualizá-lo vivo e ao vivo quanto no sentido de receber grande atenção dos meios de comunicação. Enfim, o cérebro está na moda.


[1] Segundo Ventura, a introdução da palavra ‘comportamento’ teve como objetivo integrar (ou não afastar) os psicólogos experimentais da entidade. 

[2] Fora da região sudeste, Ventura aponta para a realização de pesquisas em neurociências nas seguintes instituições: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Paraná (UFPR).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Resenha: "Almanaque das drogas"


Se você se interessa pelo tema das drogas e gostaria de se inteirar um pouco mais das discussões sobre proibição, legalização e descriminalização, recomendo imensamente um livro que acabei de ler: "Almanaque das drogas: um guia informal para o debate racional", escrito pelo jornalista Tarso Araújo e publicado em 2012 pela editora Leya. O livro - um calhamaço de quase 400 páginas, repleto de fotografias, ilustrações e gráficos - é um grande catálogo de informações sobre as drogas. Dividido em 5 partes - História, Economia, Saúde, Política, e Drogas de A a Z - o livro passa por praticamente todas as discussões relevantes sobre o tema, escritas de uma forma extremamente clara e didática. Na primeira parte, o autor narra a história da relação do homem com as drogas desde a pré-história até a atualidade. Na segunda, Araújo explora as questões do mercado legal versus ilegal, da violência relacionada à ilegalidade, da produção e distribuição das drogas e ainda os temas da corrupção e lavagem de dinheiro. Na terceira parte o autor se debruça nas questões de saúde, discutindo como as drogas são usadas, a ação delas no cérebro, os prazes e riscos envolvidos e ainda possibilidades de prevenção e tratamento. Na seção seguinte, Araújo se dedica ao importante e atualíssimo debate sobre as políticas sobre drogas, apresentando uma discussão bastante pertinente sobre as alternativas ao proibicionismo. Para tanto, o autor apresenta algumas práticas inovadoras desenvolvidas em países como a Holanda, a Espanha, Portugal e também no estado da Califórnia nos Estados Unidos. Finalmente, na ultima seção, o autor apresenta algumas informações básicas sobre cada uma das drogas. Trata-se, enfim, de uma obra excelente, tanto na forma quanto no conteúdo, que permite aos leitores se inteirarem de forma bastante profunda sobre este universo, podendo, a partir de então, participarem, como aponta seu subtítulo, de um debate racional sobre o tema - extremamente necessário em nossos dias. ‪#‎ficaadica

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Ginástica cerebral funciona? Não há evidências, dizem cientistas.

Tem se multiplicado pelo Brasil e pelo mundo programas e serviços de "ginástica cerebral" que prometem não somente o "aprimoramento" do cérebro mas também a prevenção (e mesmo o abrandamento) de problemas cognitivos na terceira idade. No Brasil, podemos encontrar diversos programas presenciais e virtuais, como o Supera, o Cérebro Melhor (que recentemente foi comprado pelo Supera), além de inúmeras outras "academias cerebrais". Na verdade, uma indústria multimilionária voltada para o aprimoramento cerebral tem crescido absurdamente em todo o mundo - e nos últimos anos tal indústria tem se espalhado, como um vírus, também pelo Brasil (somente a rede Supera possui mais de 100 unidades/franquias em todo o país). E todas estas empresas alegam, supostamente embasadas em dados científicos - afinal, nada mais convincente hoje em dia que dizer que "estudos apontam" ou "pesquisas indicam" -, que o treinamento do cérebro, seja através de jogos de computador ou atividades como a utilização do ábaco (caso do Método Supera), fortalecem as estruturas cerebrais e previnem o declínio cognitivo. Esta é a promessa - chancelada muitas vezes por neurocientistas de renome -, mas será verdade que exercícios de "ginástica cerebral" potencializam o cérebro e evitam o "declínio" cognitivo?

Não é o que sugere uma série de estudos, além de um consenso assinado por inúmeros especialistas. Em um comunicado divulgado em Outubro deste ano pelo Centro de Longevidade da Universidade de Stanford juntamente com o Instituto para o Desenvolvimento Humano do Instituto Max Planck de Berlim e assinado por dezenas de importantes psicólogos cognitivos e neurocientistas de todo o mundo, os pesquisadores afirmaram que não há nenhuma evidência científica sólida de apoio a essa promessa. De acordo com o comunicado, a literatura científica disponível não corrobora a ideia de que jogos e atividades voltados para o treinamento cerebral de fato melhoram o desempenho cognitivo geral ou impedem o declínio cognitivo. Jogar determinado jogo ou fazer determinada atividade certamente podem torná-lo, com o tempo, melhor na execução de tal jogo ou atividade específica. Isto não significa, contudo, que tais jogos ou atividades contribuem para a melhoria geral da inteligência, da memória ou da atenção - e muito menos que têm a capacidade de prevenir agravos cognitivos decorrentes do processo de envelhecimento. Em suma: pessoas que praticam determinada tarefa, ficam melhores nessa tarefa, e talvez em tarefas muito semelhantes, mas não em outras tarefas. Como ilustrou esta reportagem da revista Salon, se você jogar repetidamente um determinado jogo de videogame, você, com o tempo, se tornará expert neste jogo específico e talvez tenha mais facilidade em jogos semelhantes, mas dificilmente se tornará melhor em tarefas "do mundo real" como fazer o seu trabalho, dirigir o carro ou memorizar determinado conteúdo. Tudo isto significa que um aprendizado específico grande parte das vezes não se generaliza para a cognição como um todo.

Os pesquisadores concluem o documento afirmando: "Opomo-nos à alegação de que jogos cerebrais oferecem aos consumidores um caminho cientificamente fundamentado para reduzir ou reverter o declínio cognitivo quando não há evidência científica convincente até agora de que eles o fazem. A promessa de uma solução mágica vai na contramão da melhor evidência até o momento, que é de a que saúde cognitiva na velhice reflete os efeitos a longo prazo de estilos de vida saudáveis. No julgamento dos signatários [deste consenso], alegações exageradas e enganosas exploram as ansiedades de adultos mais velhos sobre o declínio cognitivo iminente. Encorajamos a contínua e cautelosa investigação e validação nesse campo". 

Isto significa então que devemos deixar de lado todos estes exercícios cerebrais e simplesmente esperar o "inevitável" declínio cognitivo? De forma alguma. Em primeiro lugar, dizer que não existem evidências científicas de que jogos cerebrais funcionam, não significa que eles não podem ou não devem ser utilizados. Não! Significa que devemos depositar menos expectativas neles e olhá-los de forma mais crítica, tentando enxergar para além das estratégias de marketing e buscando considerá-los mais como atividades de lazer (que podem ser ótimas fontes de interação e diversão) do que propriamente atividades preventivas ou de aprimoramento cognitivo. Além disso, mesmo sem comprovação científica, tais atividades podem fazer muito bem (para o individuo como um todo, não somente para seu cérebro) e trazer resultados reais para algumas pessoas - a ciência, afinal, lida com dados populacionais e não com casos particulares. É importante ter em vista também que todas as experiências que passamos na vida são, de certa forma, "exercícios" para o cérebro, na medida em que modificam as conexões neurais - a noção de neuroplasticidade, tão em voga atualmente, aponta justamente nessa direção. Finalmente, os cientistas signatários do comunicado apontam para uma estratégia muito mais efetiva e embasada em dados científicos para "exercitar" o seu cérebro: a atividade física. Como aponta o comunicado, inúmeros estudos evidenciam que o exercício aeróbico aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, e ajuda na formação de novas conexões neurais e vasculares, podendo promover, desta forma, significativas melhoras na atenção, no raciocínio e também na memória. Portando, entre gastar seu tempo (e dinheiro) fazendo palavras cruzadas, jogos de memória ou ábaco e fazer exercício físicos, o caminho mais sensato (e mais embasado cientificamente) é o segundo. Ao exercitar o seu corpo, seu cérebro, que é parte integrante do seu corpo, também estará sendo "exercitado".