domingo, 22 de outubro de 2017

A ilusão da memória

No sombrio Blade Runner 2049, continuação do clássico de ficção científica Blade Runner, lançado em 1982, acompanhamos o caçador de andróides K., interpretado pelo ator Ryan Gosling, no percurso de uma complexa investigação com potencial para implodir a diferenciação e a relação entre humanos e replicantes. Não entrarei em detalhes da narrativa, me concentrarei apenas em uma questão importante, embora não central, da história, que se refere ao fato do blade runner K., um replicante (isto é, um robô humanizado), ter memórias da infância quando, de fato, ele não teve uma infância. Como todos os demais replicantes, K. foi construído "adulto" e, portanto, sempre foi exatamente da forma como se apresenta no presente. Isto significa que suas memórias de infância, embora lhe pareçam extremamente reais, não passam de invenções, de criações, de ilusões concebidas por seus criadores para lhe dar uma sensação de humanidade. A grande questão é que tais memórias lhes são tão vívidas que K. se questiona o tempo todo se ele não teve, de fato, uma infância. Na verdade, o fato de saber, racionalmente, que tais memórias foram implantadas, não impede que ele as sinta como verdadeiras. Tudo isto significa que sua investigação não é apenas objetiva, mas também subjetiva. Seu intuito não é simplesmente desvendar certo acontecimento, mas também, desvendar a si mesmo, tentando chegar, em ambos os casos, a alguma verdade sobre as coisas. Como afirma em determinado momento, "estamos todos à procura de algo real".

Saindo da ficção e voltando para a realidade, gostaria de trazer e discutir a seguinte questão: se as memórias do replicante K. são claramente inventadas, embora ele sinta que não, será que podemos concluir que as memórias humanas, isto é, as nossas memórias dos acontecimentos que vivemos, são reais? Certamente toda memória é real na medida em que é sentida como real por quem se lembra, mas a questão não é tão simples assim. A questão é saber se as nossas memórias, que sentimos como reais, de fato correspondem a acontecimentos reais que ocorreram no passado. Enfim, nossa memória funciona como um filme ou como um computador que reproduz em nossa mente exatamente o que aconteceu ou ela não é tão fiel assim aos acontecimentos? Uma significativa parcela da população tende a acreditar na primeira opção. Como apontam os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons no fantástico livro O gorila invisível e outros equívocos da intuição, uma ampla pesquisa encomendada por eles encontrou que 47% dos 1500 participantes acreditava que "se você vivencia um evento e forma uma lembrança na memória, essa lembrança não muda", ao passo que 63% concordava com a afirmação de que "a memória humana funciona como uma filmadora, gravando com precisão os eventos que vemos e ouvimos, de forma que podemos revê-los e inspecioná-los mais tarde". Como você já deve estar suspeitando, esta visão de que a memória é fixa e fiel aos acontecimentos não passa de um equívoco ou, mais precisamente, de uma ilusão - denominada pelos autores de "ilusão da memória". 

Episódio The entire history of you
Mas se a memória humana não funciona como no episódio The entire history of you da série Black Mirror - no qual os personagens possuem implantes nos olhos que registram em video tudo o que vêem - então como ela funciona? Pois bem, a nossa memória, exatamente por não funcionar como um filme, não armazena tudo o que é capturado pelos sentidos. Na verdade, a concentração funciona como um primeiro filtro: não memorizamos aquilo que não focamos nossa atenção. Se, por exemplo, não prestamos atenção em uma determinada aula porque estávamos "viajando na maionese", jamais o seu conteúdo será "armazenado" em nossa memória. E mesmo se prestarmos atenção e nos mantivermos 100% focados, a grande maioria das informações certamente se perderá. Tente se lembrar de alguma palestra que você assistiu ou de uma viagem que você fez 5 ou 10 anos atrás. Muito provavelmente você não se lembrará mais dos detalhes, exceto dos mais marcantes e emocionalmente relevantes, sendo capaz de se recordar, se muito, apenas dos fatos mais gerais. No caso da palestra, por exemplo, você pode até se lembrar do tema e da conclusão geral do palestrante, mas dificilmente se recordará de frases específicas ou de qual era a cor da camisa dele. Já no caso da viagem, você pode até se lembrar de quais cidades conheceu e dos pontos turísticos que visitou, mas dificilmente se recordará do nome do restaurante que foi no segundo dia ou de informações específicas sobre certo monumento histórico ditas pelo guia de turismo. Enfim, logo após você viver determinada experiência, as memórias estarão "frescas" e provavelmente você se lembrará de alguns detalhes - ao passo que muitos outros serão perdidos instantaneamente -, mas à medida que o tempo passa você se lembrará cada vez menos daquilo que viveu, restando, quando muito, apenas algumas impressões gerais. Mas a questão, neste caso é: o quão reais são essas "impressões gerais" e os poucos detalhes que conseguimos nos lembrar? Podemos ter a certeza de que essas lembranças que permanecem correspondem exatamente àquilo que foi vivido? 

Infelizmente, a resposta, mais uma vez, é negativa. Nossas memórias, inclusive as mais marcantes, não são exatas como um video de determinado acontecimento. Pelo contrário, elas são continuamente reconstruídas cada vez que são recuperadas e narradas. Além disso, estão sujeitas a múltiplas influências e interferências seja de nós mesmos (através de nossas expectativas e fantasias) seja de outras pessoas (através de sugestões e manipulações), podendo ser distorcidas e mesmo inventadas. Todos nós estamos sujeitos, quer queiramos ou não, à criação de falsas memórias, isto é,  de "lembranças de eventos que não ocorreram, de situações que não foram presenciadas, de lugares jamais vistos, ou então, de lembranças distorcidas de algum evento". Difícil saber se tais memórias são a regra ou a exceção; o que de fato sabemos é que elas existem, são frequentes, podem acometer todas as pessoas e causam uma série de problemas em situações diversas, como, por exemplo, nos tribunais, onde comumente as testemunhas de um crime são solicitadas a relatar em detalhes o que realmente aconteceu em determinada situação - e não simplesmente o que elas acham que aconteceu. A grande dificuldade neste e em outros casos é que é praticamente impossível determinar se a lembrança é verdadeira ou falsa, haja vista que, muitas vezes, não há como confirmar o relato por outros meios. E é justamente em função desta enorme incerteza – e da comprovação de inúmeros casos de falsas memórias que levaram à condenação de pessoas inocentes – que a utilização de provas testemunhais vem sendo, já há muitos anos, questionada e relativizada.

Pois bem, mas como será possível criar falsas memórias? De acordo com a literatura sobre o assunto, tais memórias podem se originar basicamente de duas maneiras: de forma espontânea e de forma implantada ou sugerida. No primeiro caso, as falsas memórias são criadas naturalmente no processo de recordação e esquecimento. Funciona mais ou menos assim: você vive determinada situação; o tempo passa e você se esquece dos detalhes - você continua se lembrando do que aconteceu mas não tanto de como aconteceu; ao relembrar a situação ou contá-la para outra pessoa, você preenche as lacunas de sua lembrança com elementos e detalhes que não ocorreram de fato (ou que ocorreram de forma diferente) e ao imaginar estes novos detalhes você acaba por incorporá-los na memória; e a cada vez que você relembra ou narra esta situação, sua memória vai eliminando, acrescentando ou distorcendo cada um de seus elementos. Todo este processo, cabe apontar, acontece o tempo todo com todas as pessoas em todos os lugares. Ninguém está imune. Já no caso das falsas memórias implantadas ou sugeridas, a criação ocorre em função da influência, proposital ou não, de terceiros. Um bom exemplo disso pode ser visto no filme A caça - que já analisei anteriormente - no qual um psicólogo, por meio de perguntas tentenciosas, induz uma garotinha de 5 anos a criar uma falsa lembrança de abuso sexual. Um outro exemplo, mais recente, pode ser encontrado no filme Otherlife, atualmente disponível no Netflix, que retrata uma empresa que oferece a seus clientes a possibilidade de viver, ilusoriamente, experiências intensas em lugares magníficos através da utilização de um "software biológico", que consiste de uma substância que é colocada nos olhos das pessoas. A ideia desta tecnologia é criar novas (e falsas) memórias através da vivência virtual de tais situações. Como afirma uma das sócias da empresa Otherlife no filme, "criamos experiências que são difíceis de distinguir do que é real. Para o cérebro, fantasia e realidade são, quimicamente, a mesma coisa". Nestes dois casos - no primeiro de forma realista e no segundo de forma ficcional - vemos como uma memória pode ser criada através de influências e/ou interferências externas.

Em geral, tanto no caso das falsas memórias espontâneas quanto no caso das falsas memórias implantadas ou sugeridas, a imaginação tem um papel fundamental. Ao imaginarmos determinada cena que não ocorreu, seja por "iniciativa" própria  ou induzidos por outra pessoa, acabamos por empalidecer ainda mais a já pálida distinção entre imaginação e memória - afinal, a memória nada mais é do que a imaginação de eventos do passado, ao passo que a imaginação nada mais é do que a criação de "imagens mentais" a partir de elementos advindos da memória (para imaginarmos um elefante rosa, por exemplo, precisamos ter memórias tanto da forma de um elefante quanto da cor rosa... jamais conseguiremos imaginar algo totalmente novo, sem que tenhamos memórias de seus elementos). Nas crianças, em especial, a distinção entre memória e imaginação é ainda mais pálida do que nos adultos - e não é por outro motivo que elas são muito mais susceptíveis à criação de falsas memórias. E este fato também explica porque muitas das falsas memórias mais vívidas e intensas dos adultos se referem a eventos alegadamente ocorridos na infância. Aliás, grande parte dos experimentos mais clássicos de "implantação de memórias" foram conduzidos de forma a criar falsas memórias de eventos infantis. Pense, por exemplo, no clássico experimento da pesquisadora Elizabeth Loftus, que conseguiu implantar em uma significativa parcela dos participantes da pesquisa (25%) a memória de que eles se perderam no shopping quando eram crianças. Neste caso, a memória foi "implantada" por meio de falsos relatos de parentes, que teriam descrito em detalhes esta situação inventada, gerando no participante uma imaginação da cena e, posteriormente, uma falsa memória. Outros experimentos igualmente criativos conseguiram implantar falsas memórias variadas, como a de que o partipante, quando criança, viajou de balão, se afogou e foi regatado por um salva-vidas ou presenciou uma posseção demoníaca. Em comum, todos estes experimentos se utilizaram de metodologias que tinham como objetivo criar nos participantes a imaginação de eventos que não ocorreram. Afinal, como bem sabem os pesquisadores, da imaginação para as falsas memórias é só um pulo.

Enfim, com esta breve discussão sobre a "ilusão da memória", gostaria de apontar para a natureza construtiva de nossas lembranças, isto é, para o fato - já amplamente comprovado por meio de experimentos na área da psicologia cognitiva - de que nossas memórias não são exatas como gostaríamos que elas fossem. Frequentemente nos esquecemos e distorcemos coisas que aconteceram e nos lembramos de coisas que não aconteceram... e não há nada que possamos fazer para evitar. Na verdade, o máximo que podemos fazer é aceitar a imperfeição de nossa memória e compreender, tal qual o protagonista do filme Ela, que "o passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos". Muito embora todos estejamos, como o Agente K., "à procura de algo real", diferenciar realidade de fantasia, no caso das nossas memórias, não é algo nada simples.

Sugestão de video: A ficção da memória - Palestra da psicóloga Elizabeth Loftus
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