sexta-feira, 21 de março de 2025

A vida universitária na corda bamba: uma resenha do romance "De onde eles vêm", de Jeferson Tenório

O livro "De onde eles vêm", novo romance do escritor Jeferson Tenório, vem sendo divulgado como um "romance sobre a política de cotas". Acontece que nenhum romance pretende ou teria condições de dar conta de um tema como esse. Quando escrito com talento - e este é o caso de Jefferson Tenório - um romance pode "apenas" contar uma boa história através da singularidade dos seus personagens. No caso do livro "De onde eles vêm", a narrativa é centrada em Joaquim, um jovem negro, pobre, órfão de pai e mãe e morador da periferia de Porto Alegre, que ingressa, por meio de uma política de cotas raciais, no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas para além de sua vida estudantil e das demandas acadêmicas, Joaquim precisa cuidar de sua avó doente e ainda se virar para conseguir recursos financeiros suficientes para se manter na universidade. Joaquim representa aquele estudante - que eu, como psicólogo de uma universidade pública federal, conheço muito bem - que vive na corda bamba, sempre assombrado pela possibilidade de não conseguir avançar e finalizar o curso, seja por dificuldades financeiras seja pela permanente sensação de não-pertencimento ao mundo universitário - algo que Joaquim vivencia e verbaliza a todo momento. A história de Joaquim, ao mesmo tempo em que sinaliza para a importância das políticas de ações afirmativas voltadas para o ingresso do estudante, também aponta para a necessidade de políticas de assistência estudantil que contribuam para sua permanência. As dificuldades vivenciadas por Joaquim tem grande relação com a inexistência, no momento em que se passa a história (início dos anos 2000) de uma política centralizada de apoio ao estudante - o Programa Nacional de Assistência Estudantil (o PNAES) foi criado apenas em 2010. Mas mesmo tais políticas, fundamentais, ainda são insuficientes, já que não dão conta de auxiliar o estudante nas suas dificuldades educacionais, nas suas vivências de racismo e na sensação constante de não-pertencimento à universidade. A trajetória de Joaquim nos permite ao mesmo tempo exaltar os avanços que foram feitos e também constatar os limites das políticas implementadas até o momento. Ainda temos muito a avançar!

Trecho do livro: "Até os meus doze anos, eu nunca tinha lido. Eventualmente o abria em uma página qualquer, mas acontece que o livro tinha outras funções em minha vida. Servia de brinquedo, objeto que eu jogava de lá para cá, nunca para leitura. Mas penso que, de certa maneira, o livro cumpriu seu papel comigo. Foi útil para as necessidades básicas que eu tinha. Então, uma vez, ainda na infância, quando me senti entediado, abri o livro. Lembro que deitei no sofá e comecei a ler sobre maças, bananas e abacaxis. Aquela imagem de uma pessoa deitada no sofá lendo um livro me atraía. De algum modo, tornei-me leitor não por causa de uma leitura em si, mas porque eu gostava daquela imagem: alguém que lê".
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário: