quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O que os filmes e séries nos ensinam sobre a memória e o esquecimento?

1ª Lição: Existem diversos tipos de memória e de esquecimento. Há muitas décadas psicólogos cognitivos e neurocientistas defendem a ideia de que os seres humanos possuem diversos tipos de memória assim como diversos tipos de esquecimento ou amnésia. Uma divisão básica é aquela que diz respeito à duração da memória. Os psicólogos falam, neste sentido, em memórias de trabalho ou sensoriais, que são aquelas que duram apenas alguns poucos segundos, em memórias de curto prazo, que permanecem por horas e dias, e também em memórias de longo prazo, que se mantém por décadas. Falam também em memória implícita ou não-declarativa, que se refere à "lembrança" de atividades automatizadas como andar de bicicleta ou escovar os dentes, e em memória explícita ou declarativa, que diz respeito à lembrança de fatos e eventos específicos (memória episódica) assim como de palavras e conceitos (memória semântica). Da mesma forma, os psicólogos postulam - e diversos casos clínicos comprovam - a existência de pelo menos três tipos de amnésia. A chamada amnésia anterógrada diz respeito à incapacidade de adquirir novas informações após um trauma ou lesão. Neste caso, são as memórias de curto prazo que são afetadas, mas não as de longo prazo. No caso da chamada amnésia retrógrada, acontece o oposto: as memórias de curto prazo permanecem intactas e o sujeito consegue adquirir novas informações, mas as memórias mais antigas, anteriores ao momento da lesão, se desfazem. Finalmente, existiria uma amnésia global, em que tanto as memórias de curto quanto as de longo prazo ficariam comprometidas - isto acontece, por exemplo, com pessoas em estágio avançado da Doença de Alzheimer. 

Título original de Apagados: Embers
Mas e quanto aos filmes? Pois bem, existem inúmeras obras cinematográficas que retratam situações de esquecimento e com isso reiteram a compreensão de que existem diversas formas de esquecer. Pense, por exemplo, no fascinante Amnésia (2000), no divertido Como se fosse a primeira vez (2004) ou então no assustador Apagados (2016) - e eu não poderia me esquecer da simpática personagem Dory de Procurando Nemo (2003) e Procurando Dory (2016). Em todos estes casos, os personagem possuem amnésia anterógrada, o que significa que não conseguem reter novas informações. No caso de Amnésia e Como se fosse a primeira vez, a patologia é desencadeada por um trauma - no primeiro devido a uma lesão decorrente de um assalto e no segundo devido a um acidente de carro. Já no caso de Apagados, que retrata um mundo pós-apocalíptico no qual uma infecção teria acabado com a capacidade de memorização dos seres humanos, trata-se efetivamente de uma amnésia global, já que os personagens não retém memórias recentes e também não se lembram de nada do seu passado - e nem de quem são, o que é ainda mais assustador. Na verdade, se observarmos com atenção, o que a infecção teria causado aos humanos seria uma perda da memória explícita, já que os personagens se lembram, por exemplo, de como andar de bicicleta ou cortar lenha. Aliás, a fala de um personagem do filme (que não possui nome, como todos os outros) ilustra bem como funciona a memória implícita ou não-declarativa: "Se você me perguntasse se eu sei cortar lenha, eu não saberia dizer. Mas você põe um machado na minha mão e eu sei cortar lenha", ele diz para um outro personagem. Pois é assim mesmo que funciona a memória implícita: depois que aprendemos alguma habilidade, passamos a executá-la de modo tão automático que comumente nos esquecemos como e em que contexto a aprendemos.

Eu não mencionei acima, mas existem inúmeros filmes que retratam pessoas com a Doença de Alzheimer e outros tipos de demência, cujos primeiros sintomas normalmente incluem falhas na aquisição de novas informações, ou seja, na memória de curto prazo. Veja, por exemplo, os filmes Para sempre Alice (2014), Longe dela (2006), Diário de uma paixão (2004), Família Savage (2007), Iris (2001), O filho da noiva (2001), Poesia (2010) ou Alive Inside (2014). Em todos esses casos é possível observar que os sujeitos afetados por uma demência vão perdendo gradualmente a memória: em um primeiro momento apresentam dificuldades na memória de curto prazo e posteriormente perdem até mesmo as de longo prazo. Em alguns casos, chegam até mesmo a se esquecer quem são - como é o caso dos personagens do filme Apagados.

Existem ainda outros filmes que retratam casos de amnésia retrógrada. Veja por exemplo Identidade Bourne (2002), Cine Majestic (2001), Cidade dos sonhos (2001), Na noite do passado (1942), Busca mortal (1991) ou O homem sem passado (2001). Em todas essas obras os personagens, após sofrerem algum tipo de acidente, perdem as memórias do passado e comumente se esquecem de quem são - mas continuam retendo novas informações. Eu não poderia deixar de citar também os filmes Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) e O pagamento (2003). No primeiro filme, um clássico contemporâneo, o protagonista procura uma empresa chamada Lacuna para que esta apague de seu cérebro todas as memórias de sua ex-namorada (que já havia passado anteriormente pelo mesmo procedimento) - ou seja, ele espera que a empresa lhe cause uma amnésia retrógrada específica, apagando as memórias associadas a seu antigo amor. Já no filme O pagamento, o protagonista é um engenheiro da computação que é constantemente contratado por grandes empresas para trabalhar em projetos secretos. E sempre que finaliza tais projetos,  ele passa por um processo onde parte de sua memória de curto prazo é apagada para evitar que informações sigilosas vazem. Neste caso, da mesma forma que no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, o protagonista é  submetido a uma amnésia retrógrada específica, referente a certas memórias ou a certo período de tempo.

Cena do episódio 01x03 da série Black Mirror
2ª Lição: Nossas lembranças não são exatas e não funcionam como as memórias de um computador. No livro Os sete pecados da memória, o psicólogo Daniel Schacter aponta para sete características da memória humana - ou "sete pecados", como ele designa: 1) Transitoriedade: a memória tende a se deteriorar e enfraquecer ao longo do tempo, o que significa que lembramos melhor de eventos recentes do que de eventos antigos; 2) Distração: se não prestamos atenção ou somos distraídos por algo diminuímos nossa capacidade de memorizar determinada informação; 3) Bloqueio: por vezes bloqueamos determinadas memórias - um exemplo é o chamado fenômeno da ponta da língua; 4) Atribuição equivocada: ocorre quando atribuímos determinada lembrança a uma fonte ou contexto errado, ou seja, quando misturamos memórias; 5) Sugestionabilidade: capacidade que temos de ter nossas memórias influenciadas e manipuladas pela ação de outras pessoas (não exatamente como no filme Cidade das sombras, mas de maneiras mais sutis); 6) Distorção: ocorre quando modificamos nossas memórias, transformando-as em algo diferente das situações vividas originalmente; 7) Persistência: capacidade que nossa mente tem de recordar repetitivamente informações ou eventos perturbadores que preferiríamos esquecer. Tais "pecados", especialmente a transitoriedade, a atribuição equivocada, a sugestionabilidade e a distorção nos lembram que nossa memória não funciona como a memória de um computador. Pense bem: se você salvar um arquivo em seu notebook e abri-lo novamente daqui a 10 anos, muito provavelmente você encontrará as mesmas informações contidas no arquivo original. Nada se alterará. Aliás, como questiona um personagem crítico das supostas inteligências artificiais na fantástica série Humans (2015) "como se ensina um computador a esquecer?". A resposta: não se ensina. Computadores não esquecem e esta é uma significativa diferença "deles" para nós. Nossa memória não funciona desta forma. Após você viver determinada experiência, suas memórias serão continuamente enfraquecidas e modificadas ao longo dos anos, o que significa que lembrar-se de algo vivido há uma década dificilmente corresponderá com exatidão à experiência real vivida. Isto ocorre porque a cada vez que recordamos ou falamos de determinada situação, eliminamos ou modificamos alguns elementos e acrescentamos outros. "Quem conta um conto aumenta um ponto", afirma o dito popular. E a nossa memória funciona exatamente desta forma - com um acréscimo: não só aumentamos um ponto, mas também eliminamos pontos e modificamos outros.

Não acredita? Então assista ao episódio The entire history of you (2011) da série Black Mirror. Neste episódio, todos os personagens possuem um implante nos olhos que registra de modo absolutamente fiel, em um grande filme, "toda a sua história". Tudo o que eles vivem - na verdade tudo o que veem e ouvem - fica registrado em um "grão" (um potente HD) inserido atrás de suas orelhas. E tudo isto permite que as memórias de cada um sejam fielmente reproduzidas em telas, inclusive naquelas instaladas em seus olhos - um processo chamado no episódio de "re-fazer" (re-do). Enfim, o que esta distopia nos permite perceber - ou relembrar - é que nossas memórias definitivamente não funcionam desta forma. Nossas lembranças não são filmes que ficam armazenados dentro dos nossos cérebros mas sim reconstruções imperfeitas e criativas de situações que vivemos no passado. Quando recordamos determinado evento não trazemos de volta em nossa mente as cenas originais mas as refazemos a partir do que pensamos e sentimos no presente. Isto aparece também no fantástico desenho animado Divertidamente (2015), que retrata de uma forma bastante fiel, ainda que com significativos erros, o funcionamento de nossa mente. No filme, cada memória criada pela personagem central gera uma bolinha que é conduzida para um enorme arquivo central - ou então descartada para o lixão das memórias (como de fato acontece com a maioria do que vivemos). Mas o que é mais interessante é que cada memória é colorida por uma determinada emoção primária (alegria, tristeza, raiva ou nojo), podendo ser também recolorida posteriormente por outra emoção. E isto sugere - e é assim que de fato acontece - que podemos nos lembrar de maneiras completamente diferentes da mesma situação dependendo de nosso humor no presente. Se você está feliz com seu namorado ou namorada no momento, muito provavelmente você se lembrará de situações positivas com ele ou ela. Mas se vocês brigaram por algum motivo, há uma grande chance desta raiva que você sente agora contaminar lembranças suas com esta pessoa e até mesmo "recolorir negativamente" episódios anteriormente vistos como positivos. Enfim, como bem afirma o protagonista do belíssimo filme Ela (2013), "o passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos". Na verdade o mais correto seria dizer que o passado é "apenas" o conjunto de histórias que contamos e recontamos e que construimos e reconstruimos continuamente a nós mesmos ao longo de nossas vidas. Nossas memórias, feliz ou infelizmente, não passam de ficções inspiradas na vida real.

Cena de Apagados: mentes e mundo destroçados
3ª Lição: A memória é fundamental para condução de nossas vidas e para a construção de uma vida em comum. Nenhum filme deixa isso mais claro do que Apagados. Em determinada cena, uma garota não contaminada com o "virus do esquecimento" que mora com seu pai em um Bunker subterrâneo, diz para ele que quer ir embora dali, que não aguenta mais viver trancada, que quer encontrar sua mãe. E então seu pai lhe fala: "Se você for, não estará só abandonando o lugar, mas estará deixando para trás tudo o que você é, as lembranças dos seus amigos, da sua mãe e de mim. Tudo o que lhe faz ser quem é desaparecerá". De fato basta observar os demais  personagens do filme para constatar que o pai tem razão. Ao sair do bunker muito provavelmente ela se contaminará e passará a vagar sem rumo pelo mundo como todos os demais seres humanos - que sem memória não passam de zumbis que simplesmente caminham e se alimentam quando encontram comida. Sem memória não é possível ir muito além disso. Se o mundo retratado pelo filme se tornasse realidade, com toda certeza imediatamente deixariam de existir a religião, a arte, a educação, a justiça e tudo o mais que compõe a vida em sociedade. Sem memória nada disso existiria. Pense bem. Como ensinar e aprender algo sem memória? Como produzir arte sem lembranças, sem referências, sem passado e sem outras pessoas que possam usufruir e se lembrar do que você produz? Como pensar em justiça e moral sem que as pessoas se lembrem das leis, do que é certo e do que é errado? Como se relacionar com as outras pessoas se no momento seguinte você não se lembrará quem elas são e qual sua relação com elas? Uma solução paliativa adotada por um personagem do filme é anotar o que acabou de fazer e o que pretende fazer - solução também adotada pelo protagonista do filme Amnésia, que tatua em seu próprio corpo as descobertas que vai fazendo no processo de investigação de quem matou sua esposa. O problema em ambos os casos é que a cada momento o sujeito terá de reaprender tudo do zero até o próximo esquecimento - isto caso se lembre de fazer as anotações, claro. Por outro lado, creio que em um mundo como esse não haveria sofrimento. Continuaria havendo dor física, claro, mas não sofrimento - da mesma forma que provavelmente uma pessoa com Alzheimer em estágio avançado não sofre. Nos dois casos, como o passado já não existe e o futuro não passa de uma abstração, os sujeitos vivem um contínuo presente. Sem memórias provavelmente viveríamos - como de fato algumas pessoas vivem - continuamente apagados, perdidos e isolados. Por tudo isso devemos ser gratos às nossas memórias pois embora elas não sejam exatas, elas são tudo que temos para sermos quem somos.

Update 19/11/16: A importância da memória social (que poderíamos chamar simplesmente de história) para a vida coletiva é tema também de dois outros filmes, ambos distopias, que acabei esquecendo de mencionar: Fahrenheit 451 (1966) e O doador de memórias (2014). O primeiro, um clássico do diretor François Truffaut inspirado na obra de Ray Bradbury, retrata um sociedade do futuro no qual os livros são proibidos e os bombeiros não tem mais a função de controlar incêndios mas, justamente o contrário, de atear fogo nos livros apreendidos -  o título do filme se refere, neste sentido, à temperatura de combustão do papel. A ideia por trás da proibição é que os livros trariam infelicidade e gerariam discórdia entre as pessoas e entre estas e o Estado. No entanto, como reação a esta política, surgem diversos grupos rebeldes em que cada um de seus membros possui em sua mente um livro integralmente decorado. São as pessoas-livro, que pretendem manter a memória social viva, a despeito do desejo do Estado de anulá-la. Já o segundo filme retrata uma sociedade onde não há mais doenças, guerras ou sofrimentos. Todos vivem numa completa e artificial felicidade - propiciada por um medicamento muito semelhante ao Soma do livro/filme Admirável Mundo Novo. Nesta sociedade as pessoas também não possuem memórias e nem tem acesso a livros - por motivos muito semelhantes aos de Fahrenheit 451: lembrar-se (e ler) gera reflexão, eventualmente sofrimento e potencialmente rebelião. No entanto, com o objetivo de manter as memórias sociais e, ao mesmo tempo preservar a população dos efeitos deletérios destas memórias, a uma única pessoa é delegado o conhecimento da história e cabe a esta pessoa não só manter viva a memória coletiva mas também guiar os demais com sua sabedoria. E de tempos em tempos esta tarefa muda de mãos, sendo este processo de transferência denominado doação de memórias. Pois bem, o que estes filmes trazem de reflexão é que as memórias sociais são fundamentais para a vida coletiva e não podemos de maneira alguma abrir mão delas entregando-as para o controle de um Estado soberano - afinal, como bem afirma o cartaz do filme O doador de memórias, "Quando não há memórias, a liberdade é apenas uma ilusão".
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Beatriz Maia disse...

Adorei o post!
Foi muito esclarecedor, essa espécie de analogia sobre o tema citando alguns filmes ficou genial!

OBS: vou arquivar esse texto na memória e ver se lembro algum tempo depois. kkk...

www.sramaia.blogspot.com