terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Experimentos": a psicologia social no cinema

Experimentos do campo da psicologia social já foram retratados algumas vezes no cinema. A clássica experiência da "prisão de Stanford" - que colocou 24 voluntários em uma prisão simulada dentro da Universidade de Stanford, sendo doze caracterizados como prisioneiros e doze como guardas - inspirou pelo menos três filmes: o alemão A experiência (no original Das experiment, 2001), a fraca versão norte-americana Detenção (no original The experiment, 2010) e, mais recentemente, o também norte-americano O experimento de aprisionamento de Stanford (no original The Stanford Prison Experiment, 2015). Embora todos estes filmes sejam inspirados no experimento original realizado em Agosto de 1971 pelo psicólogo Phillip Zimbardo, somente o último pretende-se fiel aos acontecimentos. Os dois primeiros extrapolam os fatos reais tentando imaginar o que teria acontecido se o experimento de aprisionamento tivesse durado mais do que seis dias, como de fato durou (o experimento real teve de ser interrompido antes do prazo previsto de duas semanas devido à alguns episódios de violência entre presos e guardas). Existem ainda outros filmes que retratam experiências relevantes para o campo da psicologia social, ainda que não tenham sido conduzidas propriamente por psicólogos. Um deles é o documentário Olhos azuis (no original Blue eyed, 1996), que retrata a impactante intervenção sobre racismo e preconceito conduzida pela socióloga Jane Elliot. O outro é assustador filme alemão A onda (no original Des welle, 2008), que ficcionaliza um experimento real sobre o nazismo realizado pelo professor de história Ron Jones em uma escola da cidade de Palo Alto, nos EUA. 

Pois a mais recente produção a retratar uma experiência do campo da psicologia social é o filme Experimentos (no original Experimenter, 2015). Escrito e dirigido por Michael Almereyda, o filme retrata a vida e o trabalho do famoso psicólogo social Stanley Milgran, com destaque para o controverso experimento sobre obediência à autoridade conduzido por ele na década de 1960. O título original do filme, Experimenter, seria melhor traduzido por Experimentador, mas a distribuidora brasileira preferiu intitulá-lo de Experimentos, sugerindo, desta forma, que o filme não trata apenas de um experimento mas de vários - e de fato, inúmeros experimentos conduzidos por Milgran ao longo de sua carreira, assim como por colegas como Solomon Asch, são retratados. De uma forma geral, o filme é péssimo: o roteiro é muito mal construído, a estratégia de colocar Milgran falando para a câmera é terrível e não parece ter outro propósito além de mastigar o conteúdo para o público, os atores principais (que incluem Peter Sarsgaard como Milgran e Winona Ryder como sua esposa Sasha), apesar de bons em outras produções, aqui não conseguem empolgar e os cenários em geral são absolutamente toscos - isto para não falar da nada sutil propaganda da Coca-Cola presente em diversas cenas. Certamente, grande parte desses problemas se devem ao baixo orçamento do filme, mas isto de forma alguma justifica as terríveis escolhas do roteiro e direção. Ainda assim, apesar de tudo isso, o filme vale a pena ser visto - por um simples motivo: os experimentos que ele retrata, com bastante fidelidade, são fascinantes e deviam ser mais conhecidos pela população. Retratá-los em um filme certamente contribui para que isto aconteça.

Pois bem, imagino que você já tenha ouvido falar do controverso experimento de Milgran sobre obediência à autoridade. Se não for o caso - e mesmo se for - gostaria de explicar brevemente como ele foi conduzido, o que no filme é retratado com maiores detalhes. Em primeiro lugar, um "experimentador", vestido com um jaleco, conduzia dois sujeitos, supostamente voluntários, para uma sala e explicava para eles como iria funcionar o experimento. Ele lhes dizia, enganosamente, que se tratava de uma investigação sobre a influência da punição sobre o aprendizado e que um deles iria atuar como "professor" e o outro como "aluno". O "aluno" (L na imagem) ficaria atrás de uma parede, incomunicável com o "professor" (T), respondendo determinadas questões de múltipla escolha através de um painel. A cada erro cometido, o professor deveria aplicar um choque no aluno, sendo uma voltagem mais alta a cada erro. A grande sacada/sacanagem do experimento é que o "aluno" era um ator contratado por Milgran que, de fato, não recebia choque algum, apenas fingia recebê-lo. Desta forma, na medida em que as punições iam sendo aplicadas, o aluno/ator dava alguns gritos,  demonstrando que não estava bem e que queria sair logo dali - o que era ouvido pelo "professor". Em alguns momentos, o aluno ficava quieto, parecendo ter desmaiado ou morrido. Comumente, o "professor" demonstrava preocupação  e desconforto para o "experimentador" (E), que ficava logo atrás. No entanto, o experimentador era instruído a falar simplesmente: "você deve continuar" ou então "você não tem escolha". E grande parte das pessoas, cerca de 65%, continuou até o fim, até a mais alta voltagem ser supostamente aplicada no aluno. Poucos, muito menos do que imaginava e mesmo desejava Milgran, resistiram à autoridade do experimentador e ao fato deste se colocar como responsável por tudo o que acontecesse com o "aluno".

Stanley Milgran (1933-1984)
Milgran, que nasceu em 1933, era filho de pai húngaro e mãe romena, ambos judeus, que imigraram da Europa para os Estados Unidos fugindo do nazismo em ascenção e se estabeleceram em Nova Iorque. Sua história familiar foi decisiva para a criação deste experimento. A grande questão que intrigava Milgran era como o ser humano foi (e é) capaz de contribuir diretamente com atos atrozes e desumanos, como foi o caso do Holocausto. Olhando para a câmera, Milgran afirma no filme: "é isso o que está por trás dos experimentos de obediência. O pressentimento de que eu estava perseguindo o que mais me incomodava. Como seres humanos civilizados participam de desumanos atos de destruição? Como o genocídio foi implementado tão sistematicamente, de forma tão eficiente? E como os autores destes assassinatos conseguiram viver com suas consciências?". Outra questão que perseguia Milgran era: é possível não obedecer à autoridade? É possível resistir? Embora grande parte das pessoas continuasse o experimento, apesar do desconforto de estarem supostamente causando dor a outro ser humano, alguns resistiram. No filme é retratada a situação de um engenheiro elétrico holandês, que já sentira a dor de um choque e, por isso, se recusa a continuar. O experimentador, como de praxe, afirma que ele não tem escolha, ao que o sujeito rebate: "Por que eu não tenho escolha? Eu vim aqui por vontade própria. Pensei que poderia ajudar em um projeto de pesquisa. Mas se tiver que ferir alguém, se eu estivesse no lugar dele... Não, não posso continuar. Provavelmente já fui longe demais. Sinto muito". Ele resistiu, em grande medida, porque sentiu empatia com o "aluno" - e ele o sentiu porque já experimentou como é levar choques, o que não é o caso de muitos. Enfim, não é nada simples resistir. É muito mais fácil ceder à autoridade, abrindo mão da própria responsabilidade, e continuar causando dor a uma outra pessoa. É muito mais "normal" e esperado, agir como Adolf Eichmann, funcionário do sistema nazista, que teria dito durante seu julgamento - em uma tentativa de justificar suas ações - que "eu nunca fiz nada grande ou pequeno sem instruções expressas de meus superiores" (tal julgamento é tema do maravilhoso filme Hannah Arendt). Esta "banalidade do mal", segundo expressão de Arendt, parece ser, infelizmente, a norma. No entanto, como conclui Milgran no filme, dirigindo-se diretamente ao público, "você poderia dizer que somos marionetes. Mas eu acredito que somos marionetes com percepção, com consciência. Às vezes, podemos ver os cordões e, talvez, a nossa consciência seja o primeiro passo para nossa libertação". Que somos profundamente influenciados pelo contexto e pelas circunstâncias, disto não há dúvida - a psicologia social já demonstrou isto de inúmeras formas ao longo dos anos. A grande questão, ainda não resolvida, é se (e como) podemos resistir e agir autonomamente.
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