segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Doutor Estranho: a mente entre a matéria e o espírito

O filme Doutor Estranho, nova produção da Marvel, conta a história do competente e arrogante neurocirurgião Stephen Strange - ou melhor, Doutor Stephen Strange, como ele sempre afirma - que sofre um terrível acidente de carro e tem os nervos de suas mãos, essenciais para seu ofício, gravemente lesionados. Desesperado e ansioso para voltar a trabalhar, Strange recorre a todos os procedimentos possíveis na medicina ocidental: passa por diversas cirurgias, faz fisioterapia e toma medicações. Tudo em vão. Até que certo dia ele fica sabendo de um sujeito, chamado Jonathan Pangborn, que teria se recuperado completamente de uma séria e debilitante lesão medular. Strange decide procurá-lo e este lhe afirma que sua cura teria sido ocasionada por uma "intervenção" realizada em um local denominado Kamar-Taj. E como não tinha mais nada a perder, pois já havia perdido sua principal fonte de subsistência e realização pessoal, isto é, seu trabalho, Strange vende todos os seus bens e viaja até a cidade de Katmandu no Nepal em busca deste local misterioso - que acaba encontrando depois de um tempo. E descobre que trata-se de um templo sagrado onde vivem um grupo de monges dedicados a proteger o universo das forças do mal. Mas logo que adentra o templo, Strange ainda não sabe de nada disso e pensa que se trata de uma espécie de clínica onde espera receber algum tipo de tratamento experimental para seu problema. No entanto, assim que encontra a Anciã descobre que o tal "tratamento" não é nada daquilo que ele imaginou. O primeiro diálogo entre eles, que reproduzo integralmente abaixo, é bastante interessante e ilustrativo de uma discussão que farei em seguida sobre a natureza da mente.

Anciã: Você passou por muitos procedimentos. Sete, certo?
Strange: Sim.... E você curou um homem chamado Pangborn? Ele era paralítico.
- De certo modo.
- Ajudou-o a andar de novo.
- Sim.
- Como corrigiu uma fratura completa na [vértebra] C7 e C8?
- Eu não corrigi. Ele não conseguia andar. Convenci-o que conseguia.
- Você não está dizendo que era psicossomático, não é?
- Quando você reconecta um nervo cortado, quem o cura é você ou o corpo?
- As células.
- E elas são programadas para se juntarem de maneira muito específica.
- Isso mesmo.
- E se eu dissesse que seu corpo poderia ser convencido a se ligar de todas as formas possíveis.
- Você está falando de regeneração celular. Isso é tecnologia médica de ponta. Por isso trabalha aqui, sem uma junta governamental? Digo... quão experimental é seu tratamento?
- Um pouco.
- Então descobriu um modo de reprogramar as células nervosas para se curarem?
- Não, Sr. Strange. Sei como reorientar o espírito para uma melhor cura corporal. (...)
- [Irritado] Eu gastei o meu último centavo para vir aqui. Uma passagem só de ida e está falando de cura através de fé?
- [Você] é um homem que olha o mundo por uma fechadura...e passou a vida tentando expandir essa fechadura.Ver mais, saber mais. E agora, sabendo que pode fazê-lo, de maneiras que não pode imaginar... você rejeita a possibilidade?
- Estou rejeitando pois não creio em historinhas sobre chakras, energia ou poder da fé. Não existe essa coisa de espírito! Somos feitos de matéria, nada mais. Você só é uma partícula minúscula e temporária em um universo indiferente.

Logo após Strange dizer isso, a anciã lhe dá um forte empurrão que faz com que sua alma saia de seu corpo e o veja de cima. Em seguida a alma de Strange faz uma alucinante e psicodélica viagem para outros mundos e universos incrivelmente surreais - as imagens desta primeira "viagem" são fantásticas! E logo após ele voltar ao seu corpo, embasbacado com a experiência, a Anciã lhe explica que "na raiz da existência, mente e matéria se encontram" e que "os pensamentos moldam a realidade". A partir deste momento Strange adere sem mais questionamentos à filosofia de sua, agora, mestre. Pois bem, o que acho muito interessante neste primeiro diálogo entre a Anciã e Strange é que ele traz à tona um "conflito" ao mesmo tempo antigo e atual sobre a natureza da mente. Em um pólo deste conflito nós temos os materialistas ou fisicalistas, para quem tudo o que existe - inclusive a mente - é puramente material ou físico. A mente é o cérebro, afirmam. Para os adeptos desta corrente monista, majoritária no campo científico contemporâneo, não existe alma ou espírito assim como não existem anjos, deuses ou demônios. No outro pólo deste "conflito" nós temos os anti-materialistas ou pós-materialistas, para quem a realidade - incluindo a mente - não se reduz à matéria. A mente não é o cérebro, afirmam. Para os adeptos desta corrente dualista (que inclui os espiritualistas), embora a mente se relacione com cérebro e dependa dele de alguma maneira, "ela" não pode ser reduzida a "ele". Mente e cérebro seriam substâncias ou propriedades distintas. Certamente, entre estas duas posições extremas é possível encontrar muitas outras visões intermediárias sobre a natureza da mente, mas para os propósitos deste post tal divisão, ainda que artificial, é suficiente.

Os cientistas contemporâneos tendem a ser majoritariamente materialistas por acreditarem que esta perspectiva, entendida como fato, é o "resultado natural e inevitável do avanço das investigações científicas", como afirma o pesquisador Saulo Araújo. Creem, assim, que quem é cientista "de verdade" só pode ser materialista. No entanto, isto não passa de uma falácia. Em seu livro Psicologia e Neurociência: uma avaliação da perspectiva materialista no estudo dos fenômenos mentais, Araújo expõe de uma forma bastante clara os motivos pelos quais esta afirmação não é correta. Em primeiro lugar, porque o materialismo não é propriamente uma tese científica, mas uma tese metafísica, geral e abrangente, que, como tal, não pode ser testada empiricamente. Nenhum experimento científico teria como comprovar o materialismo ou, pelo contrário, refutar o anti-materialismo. Neste sentido, a expressão ‘materialismo científico’ não passaria de uma posição ideológica ou uma designação do status profissional de seus adeptos, os cientistas, o que leva o autor a concluir que “ciência e materialismo são coisas distintas, que só por um deslize conceitual podem ser tratadas como idênticas”. Em segundo lugar, o materialismo não é, de fato, uma tese nova, tendo aparecido sob diferentes formas no decorrer da história do pensamento ocidental - Araújo aponta, neste sentido, para um eterno retorno do materialismo

Finalmente, reforçando ainda mais o primeiro motivo, está o fato de que existe um significativo número de cientistas anti ou pós-materialistas e até mesmo espiritualistas - e isto não faz deles cientistas piores ou menores necessariamente. Um marco bastante significativo da existência de um movimento anti-materialista no âmago do mundo científico foi a publicação em 2014 do Manifesto por uma ciência pós-materialista, assinado por mais de cem cientistas de diversas áreas do conhecimento de todo o mundo. Neste importante documento (traduzido aqui), os cientistas criticam de forma veemente a forma dogmática com que a crença no "materialismo científico" tem sido defendida por muitos cientistas. Segundo eles, "este sistema de crença prega que a mente nada mais é que fruto da atividade cerebral  e que nossos pensamentos não podem ter qualquer efeito sobre nossos cérebros e corpos, nossas ações e nosso mundo físico". Em contraponto a esta visão, os cientistas pós-materialistas defendem que "a mente representa um aspecto da realidade tão primordial quanto o mundo físico"  e que "há uma profunda inter-conectividade entre a mente e mundo físico". Alertam ainda que o pós-materialismo não exclui a matéria, mas também não se limita a ela. Enfim, o que este manifesto aponta e defende é que o materialismo não é a única forma de se enxergar o mundo, de se conceber a mente ou de se fazer ciência. É apenas uma narrativa possível, dentre muitas outras. Diferentes visões, inclusive as anti-materialistas devem ter espaço e serem levadas em consideração e não simplesmente descartadas como sendo anti-científicas. E tudo isto significa que tanto a visão materialista defendida inicialmente pelo Doutor Strange quando a visão anti-materialista e espiritualista defendida pela Anciã podem coexistir, sem que uma necessariamente se sobreponha ou anule a outra. Tais visões não passariam, neste sentido, de diferentes atos de fé.

Update 21/11/2016: uma outra discussão bastante interessante apresentada pelo filme é aquela que contrapõe duas visões sobre a morte. De um lado temos o "vilão" Kaecilius, um defensor ardoroso da imortalidade, que seria obtida ao entregamos o domínio do nosso mundo para o líder da Dimensão Negra Dormammu. No primeiro diálogo com Strange, Kaecilius deixa bastante claro sua visão sobre a morte. Leia a seguir, na íntegra:

Kaecilius: Diga-me, Mestre...
Strange: Olhe, meu nome é Doutor Stephen Strange.
- É um doutor? Um médico, um cientista. Você entende as leis do Universo. Tudo envelhece. Tudo morre. No final, nosso Sol se extingue. Nosso Universo esfria e perece. Mas a Dimensão Negra é um lugar além do tempo... Este mundo não tem de morrer, Doutor. Ele pode tomar seu lugar junto a tantos outros. Como parte de um todo. Um todo grandioso e belo. Podemos todos viver para sempre
- Sério? O que você ganha com essa utopia de Nova Era?
- O mesmo que você e todo mundo. Vida. Vida eterna. As pessoas pensam em termos de bem e mal, mas na verdade o tempo que é nosso inimigo real. O tempo mata tudo.
- E as pessoas que você matou?
- Não são nada. Ciscos momentâneos em um Universo indiferente. Sim, você entende. Você entende o que estamos fazendo. O mundo não é o que deveria ser. A humanidade anseia pela vida eterna. Um mundo além do tempo, pois o tempo nos escraviza. O tempo é um insulto. A morte é um insulto. Doutor, Não queremos governar este mundo. Queremos salvá-lo e entregá-lo a Dormammu que é o ápice de toda evolução. A razão principal por existirmos. A Maga Suprema defende a existência. O que levou você a Kamar-Taj, Doutor? Esclarecimento? Poder? Você foi para ser curado, assim como todos nós. Kamar-Taj é um lugar que acolhe os problemáticos. Todos fomos com a promessa de cura, mas, ao invés disso, a Anciã nos deu truques baratos. A magia de verdade ela guarda para si mesma. Já se perguntou como ela pôde viver tanto?
- Não. Vi os rituais no Livro de Cagliostro.
- Então você sabe. O ritual me deu o poder para derrubar a Anciã e destruir os Sanctums dela. Para que venha a Dimensão Negra. Pois o que a Anciã esconde, Dormammu compartilha. A vida eterna. Ele não é o destruidor de mundos, Doutor. Ele é o salvador. 

 
Do outro lado, temos a "mocinha" da história, a Anciã, que é uma forte defensora da mortalidade, embora ela própria seja imortal. Segundo ela é "a morte é que dá sentido à vida". Se não morrêssemos, jamais nos preocuparíamos em dar significado e valor à nossa existência. É a inevitabilidade de nossa finitude que faz com que busquemos preencher os nossos dias da melhor forma possível. O que acho bastante interessante no filme é que ele inverte a lógica tradicional ao colocar como vilão um sujeito que defende a imortalidade e como "mocinha" uma mulher que embora seja tão espiritualista como o vilão, defende a importância da morte para a vida.
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