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Franz Joseph Gall apalpando o crânio de uma pessoa |
Concebida pelo médico, anatomista e fisiologista alemão Franz Joseph Gall (1758-1828), a frenologia foi uma teoria muito popular entre cientistas e leigos na primeira metade do século XIX. Sua principal intenção (da teoria e de Gall) era estabelecer ligações entre as funções ou faculdades mentais, as áreas cerebrais e a superfície do crânio. Tendo como ponto de partida sua enorme coleção de crânios, iniciada em 1792, Gall desenvolveu, ainda nesta década, uma técnica de medição sistemática das protuberâncias e reentrâncias do crânio - chamada por ele de cranioscopia - que serviu de base para o desenvolvimento da teoria frenológica. Batizada inicialmente por Gall de organologia e renomeada posteriormente de frenologia por seu assistente e mais famoso discípulo Johann Gaspar Spurzheim (1776 -1832), esta teoria possuía cinco princípios fundamentais: 1) o cérebro é o órgão da mente; 2) a mente é composta por um grande número de funções ou "faculdades" inatas, sendo algumas intelectuais e outras afetivas; 3) cada faculdade possui sua própria região específica, ou "órgão", no córtex cerebral; 4) certas pessoas são mais dotadas do que outras de certas faculdades e, com isso, apresentam mais tecido cerebral nos locais correspondentes do que as menos dotadas; 5) como o formato do crânio reproduz a superfície do córtex, podemos inferir a intensidade de diversas faculdades do indivíduo analisando a parte externa do crânio.
Ao longo de sua vida e obra, Gall identificou 27 faculdades mentais que teriam localizações precisas no córtex cerebral e, consequentemente, no crânio (veja abaixo) - posteriormente, esta lista foi aumentada por Spurzheim para 35, número comumente encontrado nos chamados mapas frenológicos (em outros é possível encontrar até 50). Tais faculdades, cabe reforçar, estariam espalhadas pelo córtex cerebral - isto é, pela "superfície" do cérebro - e transpareceriam também no crânio da pessoa. Um frenologista experiente, apalpando a cabeça do indivíduo, poderia identificar certas saliências e reentrâncias de seu crânio que revelariam sua dominância em certas faculdades mentais e sua deficiência em outras. Por mais estranho que isso possa parecer atualmente, esta curiosa técnica de investigação da personalidade se tornou extremamente popular no início dos anos 1800. Em pouco tempo se espalharam pela Europa e pelos Estados Unidos "consultórios frenológicos", que ofereciam "leituras" de crânio da mesma forma que ainda hoje quiromancistas oferecem "leituras" de mão. Como aponta Hugh Aldersey-Williams no livro Anatomias - Uma história cultural do corpo humano, no início do século XIX "sociedades frenológicas surgiram por toda parte. Virou moda fazer com que apalpassem nossas protuberâncias. Todas as farmácias vendiam bustos frenológicos. Começaram a se multiplicar periódicos científicos dedicados à frenologia, que tinham suas páginas cheias de análises detalhadas dos famosos e dos mal-afamados, com base em medições do crânio ou de moldes da cabeça". A parte mais complicada disso tudo era a crença de que o exame frenológico poderia ser usado não só para avaliar a personalidade e a inteligência da pessoa - e não coincidentemente, negros e mulheres eram considerados menos capazes do que homens brancos - mas também para definir sua profissão, a seleção em determinado trabalho e até mesmo a pessoa com quem deve ou não se casar - um uso semelhante ao que ainda ocorre, infelizmente, com a astrologia.
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Mapa frenológico com 35 faculdades mentais |
Em relativamente pouco tempo após ser concebida, esta teoria - apesar ou em função de sua popularidade e a despeito de toda a "parafernália" de ciência legítima (publicações, sociedades, conferências) - foi alvo de duras críticas por parte de muitos cientistas (e também de religiosos, em função de sua perspectiva essencialmente materialista) e acabou, ainda no século XIX, relegada ao lixo da história, passando a ser considerada uma pseudociência - e Gall, um charlatão. Muito embora as noções frenológicas de que o cérebro é a sede das faculdades mentais (materialismo) e de que as funções mentais estão, de alguma forma, relacionadas a áreas específicas do cérebro (localizacionismo) tenham prevalecido e ainda vigorem na neurociência contemporânea, a frenologia, sem dúvida alguma, foi abandonada - em especial a noção de que seria possível identificar as funções mentais dominantes do indivíduo pela análise das irregularidades de seu crânio. De toda forma, até bem recentemente a frenologia não tinha sido avaliada à luz das modernas técnicas de neuroimagem. Pois isso ocorreu somente no início do ano de 2018 com a publicação do importante artigo An empirical, 21st century evaluation of phrenology na prestigiosa revista Córtex. Neste artigo, os autores relatam os resultados de uma avaliação das principais hipóteses frenológicas realizada a partir dos dados disponibilizados pelo maior estudo de imagens corporais da atualidade, o UK Biobank Imaging Study, que pretende coletar informações detalhadas dos órgãos vitais de 100 mil pessoas - especificamente para esta análise eles levaram em conta dados e imagens cerebrais de 5724 sujeitos. Em síntese, o objetivo dos pesquisadores foi investigar, através de métodos científicos disponíveis no século XXI, as principais alegações feitas pelos frenologistas no século XIX. Como afirmam na introdução do artigo, "acreditamos que é importante que os cientistas testem idéias, mesmo que elas estejam fora de moda ou sejam ofensivas, e não se contentem em descartá-las de imediato". A primeira alegação investigada por eles é de que a "morfologia" (isto é, a forma) do crânio reflete a morfologia do cérebro da pessoa. Já a segunda alegação é de que as a superfície do crânio refletiria as faculdades mentais descritas por Gall. Cada uma destas alegações foi investigada de uma maneira.

PÓS-ESCRITO: Em sua obra mais célebre, intitulada On the functions of the brain and of each of its parts [Sobre as funções do cérebro e de cada uma de suas partes, disponível na íntregra aqui], Gall identificou 27 faculdades mentais. São elas (e entre parênteses eu acrescento um sinônimo ou uma breve explicação, fornecidos por este artigo): 1) Amorosidade (impulso à procriação); 2) Filoprogenitalidade (amor parental); 3) Adesão (amizade, fidelidade); 4) Combatividade (disposição para auto-defesa); 5) Destrutividade (tendência ao assassinato e à alimentação carnívora); 6) Destreza (esperteza); 7) Aquisitividade (desejo de possuir coisas); 8) Auto-estima (orgulho, arrogância); 9) Necessidade de aprovação (ambição, vaidade); 10) Cautela (circunspecção); 11) Educabilidade (memória de coisas, fatos); 12) Localidade (senso de localização); 13) Memória de pessoas; 14) Memória de palavras; 15) Linguagem; 16) Coloração (sentido das cores); 17) Afinação (sensação dos sons, talento musical); 18) Numerosidade (habilidade para calcular e manipular números); 19) Construtividade (habilidade para construir); 20) Comparação (habilidade para comparar); 21) Causalidade (sentido da metafísica); 22) Alegria (senso da graça); 23) Idealismo (talento poético); 24) Benevolência (senso moral, compaixão); 25) Mimetismo (talento para imitar); 26) Senso de Deus e religião; 27) Perseverança (firmeza de propósito, obstinação). Importante ressaltar que para Gall as primeiras 19 faculdades estariam presentes também, em alguma medida, nos animais; já as faculdades de 20 a 27 seriam exclusivas do ser humano.
PÓS-ESCRITO 2: Nesta fantástica cena do filme Django Livre, do diretor Quentin Tarantino, o fazendeiro escravagista Calvin Candle (Leonardo DiCaprio) explica e exemplifica os princípios da frenologia e demonstra como ela foi utilizada para justificar o racismo e a escravidão. Veja só!
Saiba mais no post Imagens da frenologia