segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A loucura do alpinista e a loucura de todos nós

Você já parou para pensar porque inúmeras pessoas ao redor do planeta escalam montanhas? Uma resposta simples para esta questão é que elas fazem isso com o objetivo de sair da rotina e viver algumas aventuras. Esta resposta vale, certamente, para a maioria dos montanhistas amadores que querem viver experiências leves que não impliquem em grandes riscos à vida. Mas como explicar o comportamento daquelas pessoas que decidem escalar montanhas extremamente perigosas como o Everest ou o K2? Por que diachos esses alpinistas profissionais decidem sair de casa, deixando para trás família e amigos, e passar "o pão que o diabo amassou" em escaladas extremamente longas e arriscadas nas quais inúmeras pessoas já morreram tentando alcançar o cume? Porque alguém se submeteria a tantas privações, a tanto frio e a tantos riscos "somente" para chegar no alto de uma montanha... e logo depois descer? Qual o sentido de uma atividade dessas? Aliás, há algum sentido nisso? Na minha visão, toda atividade humana tem algum sentido ou muitos sentidos, só precisamos analisar com o devido cuidado para encontrá-lo ou encontrá-los. Pois bem, o que me trouxe a todas estas questões foi, em primeiro lugar, a leitura do clássico livro-reportagem No ar rarefeito, do jornalista e alpinista profissional Jon Krakauer - que retrata uma expedição ao monte Everest feita por ele e outros alpinistas em 1996 e que resultou na morte de nove pessoas. Trata-se de uma obra fundamental e muitíssimo bem escrita sobre a atividade do alpinismo - aliás, Krakauer é autor de outras obras sobre o tema e também dos livros Na natureza selvagem, que inspirou o maravilhoso filme de Sean Penn, e Missoula: estupro e sistema judicial em uma cidade universitária, sobre o qual já escrevi anteriormente. Em segundo lugar, estes questionamentos me foram suscitados também pelos filmes Evereste e Meru - O centro do universo, ambos disponíveis no catálogo do Netflix. O primeiro é uma ficção baseada no livro de Krakauer (e rejeitada por ele) que retrata a famosa e trágica expedição de 1996, ao passo que o segundo é um belíssimo documentário que acompanha um grupo de três alpinistas de elite que alcançou, pela primeira vez, o topo do monte Meru, na Índia - e advinha quem é um dos principais entrevistados do filme? Sim, isso mesmo: Jon Krakauer.

Em determinado momento deste documentário, um dos alpinistas pergunta para si mesmo: "Por que fazemos este tipo de coisa?". E sua resposta é a mais simples possível: "Pela vista! Pela vista". É claro que observar uma bela paisagem pode ser um elemento a mais para motivar o sujeito a se engajar em uma escalada. Mas não acredito que esta seja a única e muito menos a principal motivação para o alpinista decidir abandonar momentaneamente sua vida cotidiana, viajar para um país distante e se expor a inúmeros riscos. Se houvesse algum motivo religioso para tal empreitada, que mais se assemelha, olhando friamente, a uma via crucis, eu até compreenderia mais facilmente, mas na maioria dos casos não há. O sujeito decide escalar o monte Everest não porque o sacrifício e a dor o reaproximarão de deus, mas por diversos outros motivos. Um deles pode estar relacionado ao anseio por se distanciar da vida urbana e se conectar à natureza. A grande questão é que para isso não é necessário ir até o Everest ou o K2, basta se deslocar para alguma reserva ambiental perto de casa. Um outro motivo, próximo a esse, pode estar relacionado ao desejo de se libertar, ainda que temporariamente, da rotina e das obrigações cotidianas. A ideia de ir para o Everest pode ser tentadora, neste sentido, já que se trata de uma escalada que dura vários meses - isto é, vários meses longe da "vida real". É possível pensar ainda que o desejo de escalar pode estar relacionado à busca por um senso de pertencimento a um grupo, já que o alpinismo é, em grande medida, uma atividade coletiva. Mas isto ainda não é suficiente para explicar, pois existem formas muito mais simples e menos arriscadas de se sentir parte de uma equipe - jogar futebol na quarta-feira à noite é uma possibilidade. Você não precisa escalar uma montanha perigosa para obter isso; além do mais, muitos alpinistas preferem escalar sozinhos. É possível argumentar também que o que move o alpinista é vontade de superar os próprios limites. Esse discurso de superação está presente na fala de muitos alpinistas no livro e nos filmes e aponta para um desejo de provar para si mesmo que é capaz de enfrentar todos os desafios. Krakauer, nesse sentido, propõe uma interpretação interessante. Segundo ele, os desafios de escalar uma montanha são mais claros e concretos do que os desafios regulares da vida e, portanto, mais "fáceis" de identificar, enfrentar e superar, mesmo quando são difíceis. Como aponta em certo momento, ao falar sobre a sua juventude: "O alpinismo se tornara o principal foco da minha existência, à exclusão de quase tudo o mais. Chegar ao topo de uma montanha era tangível, imutável, concreto. Os perigos subjacentes emprestavam ao ofício a seriedade de propósitos que em grande medida faltava ao restante da minha vida". 

Krakauer também enxerga a atividade de escalar montanhas como uma parte constitutiva de sua personalidade. Em certo momento do livro, ao falar sobre como a sua esposa aprendeu a lidar com suas constantes ausências para escalar, Krakauer afirma: "Linda acabou aceitando minhas escaladas: percebeu que era uma parte crucial  (ainda que incompreensível) daquilo que eu era. O alpinismo, e isso ela entendeu, era uma expressão essencial de algum aspecto estranho e imutável de minha personalidade que eu não conseguia mudar, assim como não poderia mudar a cor de meus olhos". No documentário Meru um dos alpinistas fala algo semelhante: ao perguntar para si mesmo "porque eu faço isso?" ele responde: "porque ou eu faço ou eu fico louco". É a 'loucura' do alpinismo que de certa forma "cura" ou redireciona a sua própria loucura. Uma outra interpretação possível - e que não exclui as demais - é que o alpinismo seria uma maneira não de superar a si mesmo (ou não somente de superar a si mesmo), mas de superar aos outros. Krakauer sinaliza também para esta possibilidade ao afirmar que a cultura do alpinismo/montanhismo é caracterizada "por uma competição intensa e por um machismo indisfarçável; a grande preocupação da maioria de seus integrantes era impressionar uns aos outros". Esta competição aparece, segundo ele, no esforço de muitos alpinistas para se diferenciar dos demais fazendo percursos arriscados sozinhos e com pouco ou nenhum apoio de tecnologias. Os sujeitos mais admirados pelos alpinistas costumam ser aqueles que se arriscaram mais - e que saíram vivos, claro. Mas mesmo aqueles que morreram fazendo algo ousado e tentando superar os limites estabelecidos e os próprios limites, são vistos também como heróis ou mártires, isto é, como sujeitos corajosos que  ousaram enfrentar o desconhecido e o imprevisível. Aliás, uma outra interpretação possível sobre esta atividade é justamente que ela permite ao ser humano explorar o mundo para além daquilo que é conhecido. A ideia de estar onde nenhum outro ser humano esteve é bastante tentadora para algumas pessoas, em especial para os alpinistas profissionais. Aliás, no livro A simples beleza do inesperado, o físico e divulgador científico Marcelo Geiser (sobre o qual já escrevi anteriormente) diz algo que se encaixa perfeitamente nesta interpretação: "Muito do conhecimento humano vem da nossa ânsia de querer ver o que está além do imediato. Talvez essa seja a característica mais marcante da nossa espécie. Os outros animais querem segurança. Para isso repetem uma rotina familiar, dentro de padrões de comportamento comprovados pelo tempo, que evitam o risco. Mesmo as espécies migratórias não podem ser chamadas de exploradoras: qualquer desvio da rota tradicional pode ser letal. Já os seres humanos precisam explorar o desconhecido, submetendo-se muitas vezes a condições extremamente incômodas e mesmo ameaçadoras para alcançar seu objetivo. Nós nos arriscamos como indivíduos e nos arriscamos coletivamente, tentando expandir nossas fronteiras para além do conhecido".

Bom, para finalizar esta discussão - sem pretender esgotá-la, claro -, gostaria de trazer uma última questão: é possível dizer que a escolha de escalar montanhas perigosas como o Everest e o Meru é uma escolha racional? No entendimento de Krakauer a resposta é negativa. Como ele afirma logo na introdução do seu livro, "havia muitas e ótimas razões para não ir, mas tentar escalar o Everest é um ato intrinsecamente irracional - um triunfo do desejo sobre a sensatez. Qualquer pessoa que contemple tal possibilidade com seriedade está quase que por definição além do alcance de argumentos racionais". Eu não tenho como discordar dele, mas penso que o mesmo vale para todas ou quase todas as escolhas que fazemos. Ou você acredita que as escolhas humanas são puramente racionais? Quando decidimos nos relacionar com determinada pessoa, viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, o que está em jogo não é simplesmente a nossa razão ou um cálculo frio de prós e contras. Há muita emoção envolvida em cada escolha humana. E eu diria mais: sem nossas emoções teríamos muita dificuldade para escolher - muito provavelmente ficaríamos eternamente avaliando prós e contras sem nunca conseguirmos tomar uma decisão final. É a emoção que dá peso e valor aos prós e aos contras e nos permite, enfim, escolher qual caminho iremos seguir. E isto vale tanto para a escolha de escalar ou não o monte Everest quanto para as demais escolhas da nossa vida. Em todos estes casos, podemos pensar, pensar e pensar a respeito de todas opções disponíveis e sobre as possíveis consequências de cada uma de nossas ações, mas isto não será suficiente para tomarmos uma decisão. Pensar demais não ajuda a escolher; pelo contrário, muitas vezes acaba atrapalhando. Por outro lado, estar atento às nossas emoções - mas sem ignorar a razão - costuma ajudar. É claro que por vezes as emoções podem nos levar para caminhos que posteriormente julgamos equivocados, mas não há o que fazer. Toda escolha, seja ela guiada majoritariamente por nossa razão ou por nossas emoções ou por ambas, é sempre um ato de coragem. Isto significa que se o sujeito decidiu escalar o Monte Everest ou se relacionar com determinada pessoa ou viajar para determinado lugar ou comprar determinado produto, ele tomou uma decisão corajosa - tão racional e irracional quanto qualquer outra decisão de sua vida. Enfim, os alpinistas não são irracionais por escolherem escalar uma montanha perigosa. Na verdade, se eles são "loucos" em alguma medida, eles são tão "loucos" quanto todos nós. 

Observação 1: um exemplo interessante de como as emoções são necessárias para os processos de decisão pode ser encontrado no clássico O erro de descartes, do neurocientista português Antônio Damásio. Neste livro, o autor relata o agora famoso caso de Elliot, um homem que teve uma parte de seu córtex cerebral retirada devido a um tumor, o que resultou em uma terrível perda em sua capacidade emocional. Ao ser exposto, por exemplo, a imagens perturbadoras - que deixariam qualquer um de nós no mínimo incomodados - Elliot não se afetava de forma alguma. E esta incapacidade de sentir e expressar emoções gerou no sujeito uma debilitante incapacidade para decidir. Ao se deparar com uma escolha qualquer, Elliot não conseguia imprimir valor emocional à cada uma das opções e com isso nunca chegava a uma decisão final.

Observação 2: o jornal El País publicou no início deste ano uma interessante entrevista com o alpinista espanhol Kilian Jornet, que escalou o Everest duas vezes em seis dias sem corda nem oxigênio extra. Refletindo sobre seus feitos, ele afirmou, bem na direção da minha conclusão: “Me chamam de louco, mas todos vivem a sua loucura para sentir alguma coisa”. Exatamente!
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Lorena disse...

Ótimo texto, daqueles que ecoam reflexões mesmo depois de terminada a leitura.