segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Precisamos falar sobre... ansiedade

Tenho que confessar: sou uma pessoa extremamente ansiosa. Sim, eu sou psicólogo e, supostamente, eu não deveria sentir ansiedade ou tristeza ou raiva ou medo. Eu deveria ter apenas belos sentimentos como a alegria, o amor e a gratidão. Eu deveria ser uma pessoa totalmente zen e bem-resolvida. Afinal, como eu posso pretender ajudar as pessoas se eu próprio sinto muito do que os meus pacientes sentem? Como eu poderia auxiliar pessoas ansiosas se eu próprio sou ansioso? Quando comecei a atender, há cerca de 10 anos, eu ficava, como todo bom ansioso, muito preocupado com isso, mas aos poucos fui entendendo que esta era uma preocupação inútil e despropositada - como grande parte das preocupações que temos. Eu podia negar ou tentar construir uma ilusão a meu respeito e a respeito dos psicólogos em geral, mas o fato, um tanto óbvio - e o mais difícil, por vezes, é perceber o óbvio - é que eu sou um ser humano como qualquer outro e estou sujeito aos mesmos sentimentos e problemas que todo mundo. E eu posso ajudar outras pessoas não porque eu sou perfeito ou bem-resolvido, o que não é nem poderia ser verdade, mas porque eu possuo formação, experiência e legitimidade profissional, conhecimento técnico, disposição para me aproximar da realidade do paciente/cliente e vontade de contribuir com seu aperfeiçoamento enquanto ser humano. Além disso, sempre fiz e continuo fazendo terapia, de forma a estar consciente e atento às minhas falhas e limitações enquanto pessoa e enquanto terapeuta. E mais: na relação terapêutica eu observo e analiso os problemas e dilemas das pessoas com uma certa distância, pois não estou diretamente envolvido em suas questões. E isso me possibilita uma  atuação ao mesmo tempo próxima (pois se trata de uma relação com um certo grau de intimidade) e distante (pois se trata de uma relação profissional) - e por óbvio eu não consigo manter a mesma distância das minhas próprias questões. Enfim, aos poucos fui entendendo que por mais que eu quisesse, eu não teria como escapar dos meus próprios sentimentos. Feliz ou infelizmente, eu estou tão sujeito à ansiedade, ao medo e a tristeza quanto qualquer um - assim como um bombeiro está sujeito a ter um incêndio em sua casa ou um médico está sujeito a ficar doente. A grande conclusão é que, no fim das contas, somos todos humanos. E o ser humano, por sua própria natureza, é problemático e vulnerável. E também ansioso.

Existem cachorros ansiosos?
E eu diria mais: o ser humano é o único animal ansioso. Ou você já viu algum outro animal demonstrando ansiedade? Aposto que algumas pessoas diriam que sim: "Ah, mas meu cachorro é super-ansioso. Ele não para um segundo e vive roendo e destruindo os móveis lá de casa". Ok, ele de fato me parece agitado e um tanto estressado, mas será que realmente ele está ansioso? Não creio. No meu entendimento, a ansiedade diz respeito à uma relação do sujeito com o futuro. É o futuro, ou melhor, a imaginação deste futuro, que pré-ocupa o ansioso, fazendo com que ele tenha, no presente, uma série de reações corporais e comportamentais extremamente incômodas. E, pelo que se saiba, somente os seres humanos concebem e planejam o futuro com a complexidade que o fazemos. Todos (ou quase todos) os outros animais, e também as crianças pequenas, vivem essencialmente o presente e não tem a capacidade de projetar ou imaginar o que virá, para além de um futuro próximo. Certamente todos estes seres sentem medo e ficam estressados, mas não ansiosos. A diferença é que o medo e o estresse são reações ao que está acontecendo com o sujeito neste exato momento (por exemplo, ao visualizar uma cobra ou realizar uma prova), ao passo que a ansiedade é uma espécie de medo daquilo que ainda não aconteceu ou do que se imagina que irá acontecer. Como sempre digo aos meus pacientes, a ansiedade é a "síndrome do E se?". E se eu começar a namorar e a pessoa me trair? E se eu casar e me arrepender? E se eu viajar e o avião cair? E se eu engravidar e o filho morrer? E se ele sobreviver e eu não der conta de educá-lo? E se eu for demitido? E se eu não for demitido e continuar frustrado com meu trabalho? E se eu desenvolver um câncer? E se eu envelhecer e for abandonado por todos? Quem é ansioso certamente vive com vários "e se's" martelando na cabeça grande parte do tempo - mas não todos os "e se's", já que a pessoa ansiosa se foca essencialmente nas possibilidades negativas, ignorando solenemente as possibilidades positivas (de por exemplo, o avião não cair, do filho não morrer ou da demissão não ocorrer). Na cabeça do ansioso o futuro será sempre trágico e triste e nada pode ser feito para evitar.

É possível prever o futuro?
O ansioso, em geral, não suporta a ideia de não ter o controle sobre o rumo dos acontecimentos. Se tem uma coisa que o tira do sério é a incerteza. Não saber o que vai acontecer ou se determinada coisa vai acontecer exatamente da forma como ele gostaria que acontecesse, tira o ansioso do eixo. Tudo o que ele quer é ter a certeza de que tomou a decisão correta, de que as coisas vão dar certo e de que, enfim, sua história terá um final feliz. O grande problema é que a vida é repleta de incertezas e fazer uma escolha, quase sempre, é mergulhar no desconhecido. Podemos pensar e ponderar com cuidado sobre todas as opções, mas nunca saberemos de fato quais serão as consequências das nossas decisões. Embora sejamos os únicos animais com capacidade para imaginar o futuro, não somos muito bons em prever o que de fato irá acontecer. Só o que nós fazemos (na verdade, só o que podemos fazer) é imaginar - e o pensamento ansioso se constitui como mais uma maneira de imaginar o que irá ocorrer. Mas a questão é que não temos como saber. Façamos um exercício: tente imaginar como estará o mundo e a sua vida daqui a 20 anos? Agora suponhamos que exista uma máquina do tempo que pudesse te levar imediatamente ao ano de 2037. Será que você encontraria as coisas exatamente como as imaginou? Difícil saber, pois se trata de um exercício de imaginação, mas eu arrisco uma resposta: duvido muito! E como eu posso fazer tal afirmação? É simples: basta observarmos as previsões que foram feitas no passado sobre o mundo atual. Embora elas tenham acertado em alguns pontos, erraram terrivelmente em muitos outros. Deem só uma olhada nas imagens abaixo, que foram feitas no final do século XIX pelos ilustradores franceses Jean-Marc Côté e Villemard (utilizei a última delas na conclusão do meu livro O cérebro vai à escola). Eles tentaram imaginar, em 1899, como seria o mundo no ano 2000. Analise as imagens atentamente e tente observar o que eles acertaram e o que erraram.






E então: nós temos atualmente barbearias mecanizadas? Passeios conduzidos por baleias no fundo do mar? Máquinas para fazer a limpeza doméstica? Bombeiros voadores? Equipamentos que transferem o conhecimento dos livros diretamente para o cérebro dos estudantes? A resposta para quase todas estas perguntas é um sonoro "Não!". A única previsão relativamente acertada dos ilustradores foi a existência de máquinas autônomas para limpeza doméstica, que já são vendidas, mas ainda estão longe de serem baratas, populares e realmente úteis. Enfim, esses ilustradores podem até ter acertado algumas de suas previsões ou parte delas, mas no geral eles erraram vertiginosamente, assim como nós muito provavelmente erraremos ao imaginar o nosso futuro e também como possivelmente nós erramos na previsão que fizemos da nossa vida no passado. Tente se lembrar de como você imaginava, quando criança, que seria a sua vida quando você tivesse a sua idade atual? Você acertou sua previsão? Como os ilustradores, você pode até ter acertado em alguns aspectos, mas muitos outros você deixou passar ou simplesmente não conseguiu imaginar. E o motivo para isso é simples e um tanto óbvio: os rumos da vida e do mundo são imprevisíveis. Podemos até especular, imaginar, conjecturar, mas não temos como saber com precisão o que irá acontecer.

“O medo nos mantêm vivos", diz o pai Crood.
Bom, agora que já compreendemos minimamente algumas características da ansiedade, eu gostaria de trazer uma outra questão: por que, afinal de contas, somos ansiosos? Se a ansiedade é tão ruim para quem a sente, porque o processo de seleção natural não simplesmente eliminou a ansiedade da nossa mente? O desenho animado Os Croods pode nos ajudar a explicar esse aparente paradoxo. Neste filme, acompanhamos uma família pré-histórica liderada por um pai que morre de medo do mundo exterior. Eles moram todos juntos numa caverna e são constantemente advertidos por esse pai dos perigos do lado de fora. “O medo nos mantêm vivos. Nunca deixe de ter medo”, diz o pai como uma espécie de mantra. Pois bem, será que esse pai tem razão em defender a necessidade do medo? Na minha visão, esta recomendação faz todo sentido, tanto no mundo ficcional em que eles vivem quanto, em certa medida, no mundo real. Afinal de contas, o mundo deles, assim como o nosso, está repleto de perigos e riscos. Simplesmente ignorá-los não me parece uma boa estratégia de sobrevivência. Pense, por exemplo, em programas como o Largados e pelados do Discovery Channel: se os participantes forem tranquilos demais, provavelmente se darão mal. Um pouco (e até um tanto) de ansiedade num contexto de luta por sobrevivência não faz mal a ninguém; pelo contrário, pode favorecer a vida. Mas o mesmo vale, em alguma medida, para o contexto da vida de cada um de nós. Pré-ocupar-se com algumas coisas pode favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis. Por exemplo, se você fica ansioso com uma viagem de carro, isto pode fazer com que você dirija com mais cuidado; se você se preocupa com a possibilidade de ter um infarto na meia-idade isso pode fazer com que você se engaje em atividades físicas; se você vê um cachorro na rua e sente medo dele, isto provavelmente fará com que você se afaste e evite uma mordida. Em todos estes casos, a ansiedade ou o medo podem favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis que estão sob nosso controle, mas o grande problema começa quando a ansiedade e o medo ultrapassam todos os limites e ao invés de ajudar começam a atrapalhar. 

Pois bem, uma dificuldade comum na área da saúde mental é definir quando determinado sentimento ou comportamento deixa de ser "normal" e se torna "patológico". Já discuti esta questão infinitas vezes neste blog - e até já escrevi uma monografia sobre isso - e o resumo da história é o seguinte: 1) existem muitos pontos de vista e nenhum consenso sobre o que é "normal" na área de saúde mental - aliás, não há consenso nem sobre o que é "saúde" nem sobre o que é "mental";  2) o que é entendido como "normal" varia de lugar pra lugar, de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e também ao longo do tempo; 3) as classificações e definições presentes nos "manuais de doença" (CID e DSM) são modificadas de tempos em tempos e representam apenas maneiras peculiares, dentre muitas outras, de se compreender os "transtornos mentais". No caso específico da ansiedade, diferenciar a "ansiedade normal" da "ansiedade patológica" não é uma tarefa nada simples. Pessoalmente - na verdade, profissionalmente - eu tento me distanciar o quanto posso da linguagem e da lógica psiquiátricas. Quando um sujeito me procura, simplesmente não me interessa qual o seu diagnóstico - se é "transtorno de ansiedade generalizada", "transtorno do pânico" ou "transtorno obsessivo-compulsivo". O que eu quero de fato saber é como ele se sente, o que ele pensa e porque ele se comporta de tal ou qual maneira. O que é normal, nesse sentido, só pode ser definido pelo próprio sujeito e não por classificações ou critérios externos a ele. Só o sujeito pode dizer se a ansiedade que ele sente é ou não é normal. Assim, se ele me disser que sua ansiedade está exagerada eu simplesmente acreditarei em suas palavras e tentarei ajuda-lo a compreender seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e a buscar estratégias que permitam o controle da sua ansiedade.

Pois, de fato, só o controle é possível, não a cura. Aliás, vi outro dia em uma livraria da minha cidade uma obra chamada "O fim da ansiedade" e sempre me deparo na internet com cursos ou sites que prometem "acabar com a ansiedade" das pessoas. Sinto dizer que nada disto é possível. A dolorosa verdade é que a ansiedade é parte constituinte de nós, seres humanos, assim como a tristeza, o medo e a raiva - e também a alegria e o amor. Certamente nós podemos aprender a controlar algumas de suas manifestações e efeitos e até buscar tratamento psicológico e psiquiátrico quando ela extrapola nossos próprios limites e começa a trazer muitos prejuízos, mas acabar com ela simplesmente não é possível. E o motivo é simples: só acabaríamos com a ansiedade se conseguíssemos deixar de pensar no futuro e/ou se conseguíssemos pensar somente nas possibilidades positivas. Se você conseguisse eliminar de forma permanente os pensamentos negativos sobre o futuro de sua mente, substituíndo-os por pensamentos positivos, aí sim você chegaria ao "fim da ansiedade". Porém, ao contrário do que pregam os "gurus do pensamento positivo", isto não é possível e muito menos desejável. Afinal de contas, a vida não é, nem será no futuro, simplesmente positiva. A vida é quase sempre contraditória e ambígua: boa e ruim ao mesmo tempo - boa em alguns aspectos, ruim em outros, boa em alguns momentos, ruim em outros - a depender, claro, da forma, como avaliamos estes aspectos e estes momentos. Imaginar que tudo dará sempre certo, que não haverá sofrimento e que o final será necessariamente feliz, não passa de uma forma de ilusão - assim como o pensamento contrário de que tudo dará sempre errado, de que só haverá sofrimento e de que o final será necessariamente infeliz. Um pensamento muito mais maduro e realista e que pode ajudar a diminuir a ansiedade, é admitir para si mesmo: "Eu não sei como será o futuro, pois tenho apenas o controle parcial do rumo dos acontecimentos. Pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu temo, pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu gostaria, pode ser que as coisas não aconteçam da forma como eu gostaria mas pode ser que eu me adapte. Ou pode ser que as coisas aconteçam de uma forma totalmente diferente do que eu tenho capacidade de imaginar atualmente. Eu não tenho como prever o que irá acontecer".

Aceitar a falta de controle, mais do que tentar imaginariamente controlar o incontrolável, pode ser um importante passo para diminuir o nível de ansiedade. É claro que isto não é algo simples de se obter e muito menos de se manter, mas certamente uma terapia pode ajudar muito nesse processo de aceitação. Existem também outras atitudes que podem (repito: podem) ajudar no controle da ansiedade. Tudo aquilo que eu recomendei no post sobre concentração, vale igualmente para a ansiedade: ioga, meditação, tai chi chuan, atividades físicas em geral, etc. E o motivo é simples: estar concentrado em algo significa estar focado no presente - e não no passado ou no futuro. E tudo o que te traz ao presente ajuda a melhorar a concentração e também a diminuir a ansiedade. Se você está focado no aqui-e-agora, o futuro, neste exato instante, não existe, e, logo, não há ansiedade. É claro que é impossível permanecer focado no presente todo o tempo. Muitas vezes pensaremos no que passou - e ficaremos tristes ou alegres a depender se o pensamento foi relativo a um momento bom ou ruim do passado. Muitas outras vezes pensaremos no que virá - e ficaremos alegres ou ansiosos ou a depender se o pensamento é relativo a uma expectativa boa ou ruim do futuro. Esta oscilação passado-presente-futuro faz parte da vida, não há o que fazer, assim como não há como evitar que a ansiedade lhe visite de vez em quando. Alguns remédios de fato podem ajudar a acalmar um pouco aquelas pessoas que se encontram em níveis elevados de ansiedade e que provavelmente já possuem consequências físicas relacionadas ao problema (enxaqueca, bruxismo, problemas de estômago ou intestino, alterações no sono, etc), mas nenhuma medicação tem a capacidade de eliminar permanentemente a ansiedade. De fato, alguns remédios e atividades como meditação e o ioga, auxiliam a acalmar o corpo e, por conseguinte, a mente - já que mente e corpo estão intrinsecamente conectados - mas nenhum remédio ou atividade de relaxamento tem a capacidade de desligar por completo os nossos pensamentos - e se pensamos, podemos pensar no futuro e ficar ansiosos. Só o que podemos fazer é tentar relaxar o corpo e a mente, buscar nos conectar sempre que possível com o aqui-e-agora e nos esforçar para aceitar que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Pessoalmente, tenho que confessar que ainda não atingi este nível de aceitação, mas espero um dia poder dizer com convicção e sinceridade as belas palavras de Paulo Leminski: "Não discuto com o destino. O que pintar eu assino". 

Sugestão de leitura: O livro definitivo da ansiedade
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Guilherme Lemes Magalhães Rocha disse...

Você está fazendo uma síntese confusa!
Em um momento você diz que normal e patológico variam de local para local.
Em outro momento você universaliza o processo de ansiedade como inerente ao processo natural da vida.
Isso é incompatível!
Ou existe processos universais aos sistemas psicológicos humano ou não há ciência, porque ciência é um estudo laborartorial de processos que se repetem, sejam físicos ou psíquicos.
Abraço.

Felipe Stephan Lisboa disse...

Prezado Guilherme, não vejo incompatibilidade com relação a estas duas questões, afinal, uma coisa é a ansiedade em si - e de fato acredito que se trata de algo universal, embora suas manifestações específicas possam variar de acordo com o lugar e o momento - e outra ooisa é como cada sociedade entende o que é uma ansiedade "normal" e o que é uma ansiedade "patológica". Isto não tem como ser universal, pois as definições e entendimentos variam de lugar para lugar e ao longo do tempo. No primeiro caso, se trata de algo que pode ser estudado pela biologia e pela psicologia, por exemplo, mas no segundo caso se trata de algo que pode ser melhor estudado pelas ciências sociais, que podem ajudar a entender as diferenças naquilo que cada sociedade considera normal ou patológico - e isto de fato varia de um lugar para outro e de um momento para outro. Aliás, para além de uma ciência do universal existe também uma ciência do particular que se propõe a estudar não sóomente aquilo que temos em comum, mas também aquilo no que nos diferencia. Um abraço