quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Botox para tratar depressão?

Foi nesta reportagem que descobri que médicos norte-americanos vem testando o uso de botox para tratar pacientes depressivos - sim aquela mesma substância utilizada para amenizar rugas e linhas de expressão! A "terapia do botox" funciona da seguinte forma: a toxina butolímica é aplicada no rosto da pessoa de forma a paralisar alguns músculos. O resultado é que a pessoa fica incapaz de realizar algumas expressões faciais relacionadas à tristeza e à preocupação. Com isto, segundo a reportagem, "os depressivos não veriam outra saída senão a da alegria". Como explica o psiquiatra Daniel Martins de Barros, em seu blog, o objetivo de tal "terapia" é "relaxar a carregada expressão facial que os deprimidos geralmente apresentam, paralisando a musculatura da testa e, consequentemente, bloqueando a influência negativa da face no humor". Traduzindo em miúdos: espera-se que ao não parecerem e não se verem tristes, os pacientes não se sintam mais tristes. 

Em reportagem da Folha de S. Paulo, o dermatologista Eric Finzi, um dos pioneiros dessa "terapia", afirmou o seguinte: "quis testar uma idéia que estudo há muito tempo: não se enruga a testa por conta da depressão; o que acontece é exatamente o contrário. São as rugas que induzem a uma série de reações que fazem surgir a depressão", afirma. Ah, entendi, a depressão "surge" em função das rugas na testa! Claro! Como eu não pensei nisso antes? Como eu era bobo de acreditar que as pessoas ficam deprimidas em resposta a acontecimentos ruins ou a formas negativas de lidar com a vida. Na verdade, a pessoa torna-se deprimida em função de suas rugas...

Ironias à parte, o que gostaria de refletir sobre essa "terapia" é que, de fato, nossa postura corporal e nossas expressões faciais influenciam nossos sentimentos - como bem aponta o cartum do Charlie Brown no inicio deste post. Em um experimento hoje clássico o psicólogo social Fritz Strack, da Universidade de Würzburg, solicitou a diversos voluntários que lessem algumas histórias em quadrinhos cômicas, dividindo-os em dois grupos. O primeiro leu as histórias segurando um lápis entre lábios, o que faz com que a expressão facial fique séria. Já o segundo grupo segurou o lápis entre os dentes, o que gera uma expressão facial artificialmente alegre. Segundo reportagem da revista Scientific American, "essa pequena manipulação fez com que os sujeitos sorridentes achassem as histórias em quadrinhos bem mais cômicas do que aqueles cujos cantos da boca tendiam para baixo" [da próxima vez que for assistir a um filme de comédia, coloque um lápis entre os dentes e perceba como você provavelmente achará mais graça do que normalmente acharia]. 


Certamente um sorriso artificial não é suficiente para tornar uma pessoa feliz - basta lembrar do Coringa, arqui-inimigo do Batman - mas talvez este experimento aponte para a possibilidade de não somente afetos produzirem expressões mas também de expressões faciais e corporais produzirem (ou reforçarem) afetos. Afinal, como lembrou o psicanalista Contardo Calligaris neste artigo, "nossa própria imagem influencia nosso humor". Pense naquele dia em que você se olhou no espelho pela manhã e não gostou do que viu. Isto não mexeu com suas emoções? Aposto que sim. E é nesse sentido que embora veja com muitas ressalvas a tal "terapia do botox" entendo que o pressuposto no qual ela se embasa (de que expressões influenciam afetos) pode gerar abordagens clínicas interessantes para pacientes depressivos, que levem em consideração não somente suas palavras, mas também suas expressões corporais e faciais. 
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Beatriz Maia disse...

não sei que acho muito inovador ou um absurdo completo a terapia!
gostei do post.

www.sramaia.blogspot.com