quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Entre o ceticismo e a fé: uma resenha do romance "Batida só", da Giovana Madalosso

Durante um assalto, Maria João desmaia e por conta disso é levada a um hospital, onde descobre, após despertar, que possui uma grave arritmia cardíaca - totalmente desconhecida por ela até então. A questão é que após tal descoberta, Maria passa por uma bateria de exames e seu cardiologista, além de lhe prescrever alguns remédios para atenuar a arritmia, recomenda que ela tente evitar "toda e qualquer emoção forte" - mas como fazer isso? Nós temos algum controle sobre as nossas emoções? E mais profundamente: o que é uma emoção? Pois esse é o ponto de partida do maravilhoso livro "Batida só", terceiro romance da escritora curitibana Giovana Madalosso (os anteriores são o interessante Tudo pode ser roubado e o fenomenal Suite Tóquio). Sem entrar em muitos detalhes da narrativa é possível dizer que após receber tal recomendação, Maria procura um psiquiatra na esperança de que algum psicofármaco a ajude a controlar e atenuar suas emoções - o que de fato acontece: o antidepressivo prescrito faz com que suas ansiedades e angústias (mas também suas alegrias e sua libido) se tornem fracas e distantes em sua mente, como se ela nada sentisse. Ao mesmo tempo, Maria opta por se mudar por um tempo para a cidade onde cresceu, uma pequena cidade do interior, com o objetivo de descansar e tentar acalmar, ainda mais, as suas emoções. E lá ela reencontra uma antiga amiga de infância, a Sara, que é mãe de Nico, um garoto brilhante e adorável acometido por uma doença gravíssima. Unidos pelo adoecimento, todos eles partem para uma cidade vizinha onde tratamentos espirituais (bem ao estilo de João de Deus) são realizados. Acontece que Maria é ateia e cética com relação a tudo o que é realizado lá, bem o contrário de Sara, que possui uma forte e inabalável fé. Uma das grandes riquezas do livro está justamente na forma como ele trata o embate e as aproximações entre ceticismo e fé, entre razão e emoção e entre pessimismo e esperança. Meu destaque fica para o encantador Nico, meu personagem favorito da história, que incorpora com brilhantismo todas as ambivalências e contradições dessas discussões - e de muitas outras - trabalhadas com muito talento e sensibilidade pela autora neste livro lançado em 2025 pela editora Todavia. Amei!

Trecho do livro: "Até ter aquela cardiopatia, eu era como a maioria das pessoas, achava que a medicina tinha evoluído a ponto de resolver qualquer problema. É assim que os leigos falam: hoje em dia tem tratamento pra tudo (...). Só quando a doença está no seu corpo você descobre a verdade. E a verdade é que a medicina é uma ciência de poréns. Não existe consenso absoluto entre os médicos. Mesmo no meu caso, que as opiniões convergiam e o tratamento prometia dar certo, havia discordâncias. Não há garantia de nada - cada corpo é uma folha em branco a escrever todo dia a sua própria e única história. O que parece fácil de resolver é sempre um pouco mais complexo do que se espera. E algumas vezes a solução não existe. Ou é um daqueles artigos de luxo a que só uma ínfima parte da população pode ter acesso".
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