domingo, 5 de junho de 2016

Sobre empatia, morcegos e Sense8

Em um clássico artigo de filosofia da mente denominado Como é ser um morcego? (no original: What is like to be a bat?), publicado em 1974, o filósofo Thomas Nagel faz uma crítica extremamente poderosa às teorias e teóricos materialistas/fisicalistas, que tentam reduzir a experiência humana ao funcionamento do cérebro. Segundo o autor, tal visão reducionista não se sustenta porque deixa de lado algo fundamental, que é o inegável caráter subjetivo da experiência - "fenômeno" denominado qualia pelos filósofos da mente. Para defender seu ponto de vista, até hoje difícil de rebater ou desconsiderar, Nagel recorre à analogia da experiência sensorial do morcego, que, até onde se sabe, é bastante diversa da nossa (caso você não seja o Demolidor, claro!). Segundo Nagel, os cientistas podem estudar à exaustão o sistema nervoso do morcego e fazer extensas análises, com variados equipamentos, de cada parte de seu corpo, no entanto, por mais fundo que consigam ir nesta análise, nunca serão capazes de entender - e muito menos sentir - como é ser um morcego, mesmo que consigam compreender como funciona o seu sistema de ecolocalização. Em suas análises objetivas do corpo ou do cérebro do morcego nunca conseguirão atingir ou minimamente entender a experiência subjetiva de tal animal. É difícil para o cientista ou para qualquer um de nós até mesmo imaginar como é ser um morcego. Sua estrutura corporal e sensorial é tão diversa da nossa que mesmo um exercício puro de imaginação se torna complicado, o que aponta para o entendimento de que não é nada simples ter empatia por um morcego.

Mas o que é empatia? Peguemos a definição do historiador Roman Krznaric, extraída de seu livro "O poder da empatia", lançado no Brasil em 2015: "empatia é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações". Analisemos detalhadamente esta definição. Em primeiro lugar, empatia seria uma arte, ou seja, uma habilidade que todos nós, humanos, teríamos (a exceção, talvez, dos psicopatas e dos autistas) e não uma ciência exata baseada em dados objetivos. Em segundo lugar, tratar-se-ia da habilidade de colocar-se no lugar "do outro", sendo que este "outro" pode ser tanto uma pessoa quando um animal (ou melhor, um outro animal, pois nós também somos animais - aliás, eu sempre fico incomodado quando vejo em um estabelecimento a placa "Proibida a entrada de animais". Eu fico sem saber se posso entrar ou não). Quando, por exemplo, você vê ou ouve um cachorro "chorando" você logo imagina que algo não está bem com ele: pode ser que esteja com fome ou com frio ou com dor. De toda forma, neste momento, você sente empatia pelo cachorro. Finalmente, e mais importante, empatia é um "exercício" de imaginação: você se imagina no lugar do outro, mas de fato não se coloca no lugar do outro. Isto porque, de fato, estamos presos ao nosso próprio corpo e à nossa própria subjetividade e, portanto, ao nosso único e peculiar ponto de vista. Certamente podemos imaginar como é ser uma outra pessoa através da literatura e do cinema (que são excelentes formas de desenvolver empatia) ou através de conversas com outras pessoas, mas de fato nunca teremos a experiência de ver e sentir o mundo sob uma outra ótica. Esta prisão subjetiva em que vivemos nos impede de experienciar a realidade sob um outro ponto de vista. O que não nos impede de imaginar, claro.

Até o momento, esta possibilidade de se colocar de fato no lugar do outro está restrita ao campo da ficção - e dificilmente isto se alterará no futuro, o que significa que estamos fadados a permanecer para sempre presos dentro de nós mesmos e de nossos únicos e exclusivos pontos de vista. De toda forma, no campo da ficção, esta possibilidade já foi explorada algumas vezes. Peguemos, por exemplo, o genial (e maluco) filme Quero ser John Malkovich (1999), no qual um portal, localizado no 7º e meio andar de um prédio, dá acesso, por alguns minutos, à mente do ator John Malkovich. Durante este período, e logo antes de ser arremessado nas margens de uma estrada, o sujeito vê e sente o mundo sob a ótica de Malkovich - e isto é considerado uma experiência tão fantástica (uma empatia "real" e não imaginada) que um comércio de "visitas empáticas" à mente do ator é iniciado. Isto até a mente de Malkovich ser de fato colonizada por um sujeito, que passa não somente a ver e sentir o mundo sob o ponto de vista do ator, mas também a controlar sua mente e seu corpo. 

Uma outra obra de arte, mais recente, que trata desta possibilidade de colocar-se no lugar do outro é a série do Netflix "Sense 8", escrita e dirigida pelas irmãs Wachowski (comumente se diz que anteriormente eram irmãos Wachowski, mas o mais correto a dizer é que se tratam de duas mulheres trans, irmãs, que recentemente assumiram sua identidade feminina. Quando dirigiram o filme Matrix, dentre outros, ainda não haviam assumido tal identidade). Esta ambiciosa série (até demais, eu diria), conta a história, ou melhor, as histórias de 8 pessoas que vivem em partes diversas do mundo e levam, portanto, vidas completamente diferentes e que, por algum motivo misterioso, passam a viver conectadas entre si. Os 8 sensates, como são chamados, tornam-se, por assim dizer, um só ser. Com isto eles adquirem a capacidade - ou, como diria Krznaric, a arte - de ver e sentir sob a ótica do outro - e não só: como em Quero ser John Malkovich, aos poucos eles conseguem ir além e efetivamente controlar os comportamentos uns dos outros (quando, por exemplo, um que tem a habilidade de lutar, se conecta a outro para lutar em seu lugar). Desta forma, oito pessoas completamente diferentes - uma hacker transexual norte-americana, um policial também norte-americano, um ator homossexual mexicano, uma empresária coreana, um motorista de van queniano, uma farmacêutica indiana, um ladrão alemão e uma DJ islandesa - passam a enxergar e efetivamente sentir o mundo sob a ótica uns dos outros. Trata-se de um verdadeiro manifesto à empatia, fundamental em tempos tão individualistas e autocentrados como os que vivemos. 

Disseminar a importância da empatia é extremamente necessário mesmo que, de fato, ela não seja mais do que um exercício de imaginação. Efetivamente nunca poderemos ver e sentir o mundo sob a ótica de outra pessoa, mas podemos imaginar como ela se sente em tal ou qual situação e agir de forma a respeitar suas possibilidades e limites. Como aponta o filósofo Thomas Nagel, no texto já mencionado, "o caráter subjetivo da experiência de uma pessoa surda e cega desde o nascimento, por exemplo, não me é acessível e, presumivelmente, nem a minha a ela. Isso não nos impede de acreditar que a experiência dos outros tenha tal caráter subjetivo". Eu iria além: tal barreira não nos impede não só de acreditar que tal pessoa tem uma vida subjetiva (o que não é assim tão difícil), mas também não nos impede de imaginar como se sente uma pessoa surda e cega (ou uma pessoa somente surda, ou somente cega, ou portadora de alguma outra deficiência ou ainda uma pessoa trans ou uma pessoa homossexual). Certamente podemos nos enganar - e de fato nos enganamos constantemente (por exemplo, quando imaginamos uma pessoa cega como alguém sem autonomia para gerir a própria vida), mas uma forma de diminuirmos tais enganos é de fato ouvir ou buscar uma comunicação legítima com as pessoas. O setting clínico do psicólogo, neste sentido, configura-se como espaço extremamente privilegiado no qual a escuta do paciente torna-se uma oportunidade ímpar para o psicólogo desenvolver sua empatia (mas não tanto para desenvolver a empatia do paciente já que a terapia apresenta-se, grande parte das vezes, como uma atividade autocentrada). E eu iria além: a empatia, no caso da atividade clínica, é o principal, ou um dos principais, instrumentos de trabalho do psicólogo. Um profissional que não tenha a capacidade de imaginar como o outro se sente e vê o mundo, não pode ser um bom profissional. Mas não é preciso ser psicólogo para desenvolver a empatia. Basta estar aberto e ouvir mais do que falar. Com tais atitudes podemos compreender que não é preciso efetivamente se colocar no lugar do outro. Basta imaginar.
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