terça-feira, 14 de maio de 2013

Instituto de Saúde Mental dos EUA "abandona" o DSM-5: o que isto significa?


Algumas semanas atrás foi disseminada a notícia de que o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH), principal financiador de pesquisas na área do país, teria "abandonado" o DSM-5 (o novo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais), apenas duas semanas antes do seu lançamento. Na verdade, mais correto seria dizer que o instituto declarou independência do manual no que diz respeito ao financiamento de pesquisas. Segundo comunicado escrito por seu presidente Thomas Insel e publicado no site do Instituto, o NIMH irá "re-orientar sua pesquisa para longe de categorias do DSM. Daqui para frente iremos apoiar projetos de pesquisa que olhem além das categorias atuais - ou que subdividam as categorias atuais - para que se comece a desenvolver um sistema melhor". Inse volta sua crítica especialmente para a validade do DSM-5. Diz ele: "a força de cada uma das edições do DSM tem sido sua 'confiabilidade' - cada edição tem assegurado que os médicos se utilizem dos mesmos termos das mesmas maneiras. O ponto fraco é a falta de validade. Ao contrário de nossas definições de doença isquêmica do coração, linfoma ou AIDS, os diagnósticos do DSM são baseados em um consenso sobre grupos de sintomas clínicos, e não em qualquer medida objetiva de laboratório". Em função disto, Insel conclui: "Pacientes com transtornos mentais merecem algo melhor"


No caso, este "algo melhor" refere-se ao projeto Research Domain Criteria (RDoC), criado em 2009 pela NIMH com o objetivo de desenvolver "novas formas de classificar as psicopatologias com base nas dimensões do comportamento observável e medidas neurobiológicas". Como apontam neste link, "a intenção é traduzir o rápido progresso nas pesquisas neurobiológicas e comportamentais básicas para uma compreensão mais integradora da psicopatologia e o desenvolvimento de novos e/ou otimizados tratamentos combinados para distúrbios mentais". Em suma, pretendem ir além do DSM com seu check-list de sintomas, desenvolvendo parâmetros objetivos - leia-se: biológicos - para um diagnóstico mais preciso dos transtornos mentais - leia-se: cerebrais. Como afirmou Insel para o jornal New York Times sobre o DSM, "a biologia nunca leu este livro". Segundo ele, "enquanto a comunidade de pesquisa tomar o DSM como uma bíblia, nós nunca vamos progredir". Já o diretor do RDoC Bruce Cuthbert disse, nesta entrevista, que no futuro ele imagina que "em vez de dizer que um paciente tem depressão, ansiedade ou stress pós-traumático, diremos que o seu problema é, por exemplo, uma disfunção nos circuitos cerebrais que regulam as emoções. O mesmo para as doenças psicóticas, como esquizofrenia. Diremos, por exemplo, que o problema do paciente é um transtorno de disfunção das sinapses. E então falaremos de grupos de genes que regulam ou que afetam a estrutura das sinapses. Pode ser que a combinação desses genes, e não mais a soma dos sintomas, nos deem ideias diferentes sobre esquizofrenia ou transtorno bipolar". Neste futuro imaginado por ele, em que todos os transtornos mentais passam a ser entendidos e tratados como distúrbios cerebrais/genéticos, será que a Psicologia e a Psiquiatria ("ciências" da "mente") ainda teriam espaço? De qualquer forma, o RDoC é um projeto de longo prazo, praticamente uma missão à Marte - nas palavras do blog Mind Hacks. Por enquanto, como aponta Cuthbert, "o DSM ainda é a melhor forma de diagnosticar os transtornos psiquiátricos que conhecemos".

Neste sentido, algumas semanas depois da "potencialmente sísmica" notícia do "abandono" do DSM-5 pelo NIMH, um artigo escrito numa parceria entre o mesmo Thomas Inse do artigo anterior, e o presidente da Associação Psiquiátrica Americana (APA, responsável pelo DSM) foi publicado no site do instituto. Tal artigo - intitulado "DSM-5 e RDoc: interesses compartilhados" - é, provavelmente, uma tentativa de acalmar os ânimos daqueles que viram na posição da NIMH uma cisão com o DSM e, logicamente, com a APA. Segundo eles, o RDoC iria além do que o DSM-5 foi ou pode ir neste momento. Neste sentido, os autores deixam claro que o DSM-5, apesar de representar um avanço para a prática clínica, não é "suficiente para os pesquisadores". Assim, o o tal "abandono" do DSM-5 pelo NIMH não significa que RDoC e DSM são concorrentes, mas sim que são complementares pois, enquanto o DSM reflete o progresso científico observado desde a última edição do manual, publicado em 1994, o RDoC é um novo esforço global para redefinir a agenda de pesquisas e criar um novo paradigma no entendimento e tratamento dos transtornos mentais. Conclusão: "ao continuarem a trabalhar em conjunto, as duas organizações estão empenhadas em melhorar os resultados para as pessoas com algumas das doenças mais incapacitantes em toda a medicina". Toda esta história deixou bem claro para mim que o que está em jogo são duas visões biologizantes dos transtornos mentais e o que parecia inicialmente uma ruptura nada mais é do que uma pequena divergência. Ao que parece, pouca coisa mudou. 


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

NASTY JOE disse...

Impossível concordar com essa "obsessão" dos americanos pela mensuração biológica, para que haja disfunções precisas e compartimentadas apenas para facilitar diagnósticos. Rotulando, pode-se ter uma fórmula química para tratamento já pronta. Não sou contra a medicação, mas, cada vez mais vejo claramente que o medicamento certo proporciona um alívio dos sintomas, mas o tratamento, o que promoverá mudanças no indivíduo sempre será a psicoterapia. Sou um adepto convicto da psicanálise, mas qualquer psicoterapia, desde que conduzida por um profissional extremamente compromissado com o paciente é válida. Essa postura profissional é necessária porque qualquer psicoterapia é árdua, demorada, morosa. É o lugar do paciente falar de sí por um tempo longo onde, através de idas e vindas, recaídas, aos poucos vão sendo preenchidas lacunas, serão revisitadas zonas de conflito interno e, pouco a pouco, a postura do paciente frente a própria vida vai retomando uma nova forma. Durante o período que for necessária, a medicação pode ser mantida, mas nenhuma substância química tem o poder de corrigir a relação do indivíduo com sua história e consigo mesmo.

NINHA disse...

É a grande mania humana de SEMPRE querer, tbm, trocar seis por meia dúzia. Aliás, o que se percebe é que os estudiosos trocam nomes e termos por outros que julgam ser melhores ou mais adequados ou, ainda como ouvi, mais elegantes para dizerem a mesma coisa. Puxa!! Com tanto a ser feito e se apegam a essas coisas??? As pessoas ficam atordoadas com tantos comentários e notícias, algumas até sensacionalistas, e saem por aí dizendo bobeiras... Juro que não entendo o porquê de tanto alarde!!

Leonardo Andrade disse...

Que legal! Seria um possível avanço na (des)humanização no ideário da saúde mental?
Como o autor falou, e que também é minha opinião. Eles nadam fizeram.

Emerson disse...

Olá. Eu gostaria de dizer que eu gosto muito desse blog, mas as vezes o design dele não ajuda. Não é um design amigável.
Melhorou bastante, porque antes era preto com amarelo.

Eu estou aqui pra deixar esse site
http://btemplates.com/
Nele você pode baixar um template mais amigavel e dar uma configurada nos titulos e talz.

Att: Emerson