terça-feira, 25 de agosto de 2009

O segredo de Rorschach




Saiu ontem, no portal Terra, uma reportagem interessantíssima, traduzida do importante jornal americano The New York Times e reproduzida abaixo na íntegra:

Médico é investigado por publicar teste na Wikipédia
O médico que ajudou a Wikipédia a publicar os 10 borrões que compõem o teste de Rorschach [ver figura abaixo] está sob investigação de seu conselho médico regional depois que este recebeu queixas quanto à falta de profissionalismo que essa atitude supostamente revela. Em carta publicada na quarta-feira pelo grupo, o College of Physicians and Surgeons of Saskatchewan, o médico em questão, James Heilman, que trabalha em um pronto-socorro em Moose Jaw, Canadá, foi notificado de que dois psicólogos apresentaram queixas contra ele. Um dos queixosos, Andrea Kowaz, do College of Psychologists of British Columbia, se queixou de que ao divulgar as imagens na Wikipédia, Heilman havia violado o sigilo do teste e que, caso ele fosse psicólogo, o comportamento que exibiu seria "considerado como delito grave de conduta". A segunda queixa, apresentada por Laurene Wilson, psicóloga do Royal University Hospital de Saskatoon, ecoava a preocupação quanto ao sigilo do teste e acrescentava que Heilman havia "demonstrado desrespeito aos seus colegas profissionais de psicologia, e os havia exposto a desconsideração pública". Wilson diz ter lido entrevistas nas quais Heilman se "refere a psicólogos como praticantes de técnicas semelhantes às de um espetáculo de ilusionismo". Tendo em vista essas queixas, um funcionário da organização médica de Saskatchewan escreveu que "temos a responsabilidade de investigar a questão". Heilman, 29, que está trabalhando temporariamente em Penticton, Colúmbia Britânica, declarou em entrevista que via as queixas como tentativa de puni-lo por tentar desmistificar a psicologia como profissão. O teste de Rorschach, uma série de borrões de tinta criados por um psiquiatra suíço nos anos 20, têm por objetivo oferecer percepções sobre a maneira pela qual participantes pensam, a depender da forma pela qual descrevam imagens obscuras. Muitos psicólogos dizem temer que os borrões não se provem tão efetivos caso tenham sido vistos com antecedência, ou que os pacientes preparem respostas com antecedência. "Trata-se de táticas de intimidação", disse Heilman. "Eles estão tentando fechar as portas ao discurso científico. Não querem que ninguém mais a não ser psicólogos se envolva em uma discussão daquilo que fazem". Ele acrescentou que estava preparando uma resposta. "Presumo que as queixas sejam uma frivolidade", afirmou, "mas sempre que alguém apresenta uma queixa a uma organização profissional, é preciso levá-la a sério". Bryan Salte, que é diretor administrativo associado da organização médica de Saskatchewan, declarou em entrevista que tipicamente as investigações desse tipo são concluídas em menos de 60 dias. Caso a organização decida não tomar quaisquer punitivas sobre o caso, ela não se pronuncia publicamente a respeito, informou. Bruce Smith, psicólogo e presidente da Sociedade Internacional de Métodos Rorschach e Projetivos, que vem defendendo nos fóruns da Wikipédia a remoção da web das imagens do teste, escreveu: "Porque a questão foi discutida de maneira tão extensa na Wikipédia, é duvidoso que se possa atribuir responsabilidade primária por isso a uma única pessoa". "Ao mesmo tempo", ele acrescentou, "precisamos ter em mente que as ações têm consequências e que tentar se esconder por trás de um grupo e de princípios vagos como a 'liberdade de informação' não deveria permitir que uma pessoa escape a essas consequências". Esse argumento não atraiu muita atenção na Wikipédia. Desde que a questão passou a ser discutida de maneira mais ampla, as imagens ganharam destaque no verbete (antes apareciam no pé da página), e passaram a incluir ainda mais detalhes sobre as respostas que pesquisas determinaram como mais típicas para cada uma delas. "Fui eu que transferi as imagens para uma posição de mais destaque", diz Heilman. "Não pretendo recuar".



Quem acompanha este blog (ver aqui e aqui) sabe que tenho inúmeras críticas (ou serão resistências?) aos testes projetivos, em especial sua utilização em processos seletivos, o que sou totalmente contra. Então não é de estranhar que eu concorde com o médico James Heilman quando ele questiona o método Rorschach e aqueles que o aplicam e necessitam do segredo dos borrões (que há muito já vazou!) para que o "resultado" seja "fidedigno". Discordo dele quando ele coloca todos os psicólogos no mesmo saco, sendo que, ainda mais nos Estados Unidos, uma minoria dos psicólogos são psicanalistas mas, infelizmente, não posso discordar dele quando afirma que os psicólogos são "praticantes de técnicas semelhantes a um espetáculo de ilusionismo". Mas como você pode concordar com isso? É um insulto à categoria em que você próprio está incluido? Pois é... O fato é que li outro dia um artigo interessantíssimo, intitulado "Efeito Placebo, efeito nocebo e psicoterapia: correlações entre seus fundamentos" (clique aqui para ter acesso), em que os autores afirmam que, "se placebo é definido como algo que age sobre os mecanismos psicológicos do organismo, ao invés de mecanismos físicos, então se pode estender o conceito de placebo para o processo psicoterápico, que também, conceitualmente, age a nível da psiquê. Assim, todas as psicoterapias seriam consideradas placebos por definição". E continuam:


"A partir dos conceitos de placebo e psicoterapia, ao comparar ambos, possivelmente infere-se que as psicoterapias são inócuas, conclusão comprovadamente equivocada (Williams, 2004). Tal afirmação sugere que o entendimento geral de eficácia de um tratamento, baseia-se no fato de se considerar inerência como mais importante que o método utilizado. Uma psicoterapia é simplesmente um procedimento psicológico que não tem um poder inerente para produzir um efeito, mas se este procedimento funciona, devido aos procedimentos utilizados, então psicoterapia pode ser considerada placebo, sendo, entretanto, um tratamento ativo. Um tratamento ativo pode ser devido tanto ao seu poder inerente quanto ao efeito placebo".


Resumindo: o trabalho psicoterapêutico, mesmo que (e exatamente por isso) equivalente ao efeito placebo, funciona. E, se efetivamente for (e provavelmente é) uma forma de ilusão, certamente é uma ilusão positiva, que contribui para a melhora de vida de milhares de pessoas. Afinal, quem consegue viver só de realidade?
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Serpsico disse...

Discordo que psicoterapia seja um placebo pq uma psicoterapia para ter eficácia comprovada seu efeito tem de ser superior a de um placebo e várias pesquisas são feitas comparando um e outro. Além disso, a psicoterapia tem efeitos não só comportamentais, mas tb físicos pq age na liberação de neurotransmissores e se vale da neuroplasticidade cerebral. Se vc utiliza automaticamente uma rota mental para resolver determinado problema pode apreender a utilizar ou criar outras rotas e ter maior flexibilidade cognitiva (isso tudo quer dizer que modifica o funcionamento cerebral de forma duradoura). Assim, não concordo que psicoterapia é ilusão e acho que iludir as pessoas é falta de ética. veja o texto: http://bit.ly/FBMQ3

Paulo Seabra disse...

Boas noites, Sou apenas estudante de psicologia e estou a seguir área educacional (Lisboa - Portugal)
Gosto tanto do Rorschach e a sua famosa cotação como acredito na sua eficácia como no Pai Natal. É uma das cadeiras em falta. Cada um vê a sua realidade objectiva, interpreta-a (quando a interpreta e passemos adiante aos esquemas mentais, as crenças e as assumpções que faz)pode fazer nas suas estratégias pessoais e interpessoais, no seu comportamento evidenciar respostas (na sua praxis) mal adaptadas. Independentemente do modelo teórico que o terapeuta usa a interpretação desse terapeuta é tão subjectivo como válido. Pode ser tão placebo (como os seus resultados)Ora esta questão é absolutamente inútil. Se eu não acreditar em nada é mesmo placebo, e com efeito o "placebo" funciona por outras vias e meios. O que apareceu primeiro o ovo ou a galinha. O que é que determina um comportamento, libertação sequencial de ácidos plasmáticos, hormonas, enzimas, o meio ambiente, uma aprendizagem por estimulo neutro e outro por reforço, memórias emocionais.