quarta-feira, 24 de maio de 2017

A neuroeducação e o efeito de sedução das explicações neurocientíficas

Na última semana o periódico British Journal of Educational Psychology publicou um excelente artigo escrito pelos pesquisadores Soo-hyun Im, Keisha Varma e Sanshank Varma, da Universidade de Minessota nos EUA, intitulado Extending the seductive allure of neuroscience explanations effect to popular articles about educational topics [Estendendo o efeito de sedução das explicações neurocientíficas para artigos populares sobre tópicos educacionais]. Neste artigo os autores tentam responder a uma interessante questão: será que os textos de neuroeducação, campo recente e controverso que pretende aproximar os campos da neurociência e da educação, se beneficiam do chamado "efeito de sedução das explicações neurocientíficas"? Desde 2008, quando a pesquisadora Deena Weisberg e sua equipe publicaram o clássico artigo The seductive allure of neuroscience explanations [O fascínio sedutor das explicações neurocientíficas] - sobre qual já comentei em outro post - um significativo conjunto de evidências vem apoiando a ideia de que a mera menção a uma explicação neurocientífica ou a exposição de uma imagem do cérebro tem o poder de aumentar a confiança de muitas pessoas em determinado texto ou notícia. Por exemplo, dizer (ou mostrar) que o hipocampo se ativa quando a pessoa se lembra de alguma informação, acrescenta muito pouco para o entendimento de como funciona o processo de memória nos seres humanos. Tal informação (ou imagem) apenas cria uma localização ficticia para este complexo fenômeno e confirma o entendimento, óbvio, de que o cérebro está envolvido nos processos de memorização, mas nada diz sobre como nossa memória funciona. No entanto basta colocar uma informação como essa no texto - ou então uma imagem colorida do cérebro - para que cresça a confiança das pessoas nas informações disseminadas. O cérebro é sexy, poderíamos concluir.

Mas será que tal efeito ocorre também com os textos educacionais? Será que a mera presença de uma pseudoexplicação neurocientífica e/ou de uma imagem cerebral teria o poder de influenciar na credibilidade dada a determinado texto? Os já referidos pesquisadores decidiram colocar tais questões à prova e para isso utilizaram-se de uma metodologia semelhante e aperfeiçoada àquela utilizada por Deena Weisberg em 2008. Em primeiro lugar, eles recrutaram 245 participantes através da plataforma Amazon Mechanical Turk, um site que permite a remuneração de participantes voluntários em pesquisas. Em segundo lugar estes participantes responderam a uma série de questionários e avaliaram, ao fim, a confiança que concediam a um breve artigo sobre educação. O grupo foi dividido em 4 subgrupos. Para 1\4 dos participantes foi exibido um artigo contendo apenas uma explicação psicológica de determinado processo educacional; para 1/4, além da explicação psicológica foi acrescida uma pseudoexplicação neurocientífica (que em nada acrescentava à explicação psicológica); para 1/4, além das explicações psicológica e neurocientífica, foi acrescido um gráfico; e, finalmente, para 1/4, além das explicações psicológica e neurocientífica, foi acrescida uma imagem cerebral de ressonância magnética. A informação essencial de todos estes artigos era basicamente a mesma; aquilo que os diferenciava eram os elementos extras (pseudoexplicações neurocientíficas, gráficos e/ou imagens cerebrais) presentes em 3 dos 4 textos. O que você acha que os pesquisadores encontraram?

Como já era de se esperar, o "efeito de sedução das explicações neurocientíficas" foi de fato observado, mas somente quando pseudoexplicação neurocientífica e imagem cerebral foram colocadas juntas. O artigo que incluía estes dois elementos foi sistematicamente mais bem avaliado em escalas de credibilidade do que os demais artigos. Tal efeito não foi observado no caso do texto com explicações psicológicas e neurocientíficas (como Weisberg encontrou em 2008) e naquele com um gráfico. Um primeira constatação interessante sobre este achado é que não é qualquer imagem que teria o poder de aumentar a credibilidade de um texto: um gráfico, por mais convincente que seja, não gera o mesmo efeito que uma imagem cerebral. Mas mesmo a imagem cerebral sozinha, sem uma explicação neurocientífica, não teria a capacidade de gerar este efeito. É somente quanto texto e imagem se encontram que a mágica acontece. Mas o que será que explica este efeito? Os pesquisadores arriscam duas respostas. A primeira é que as explicações neurocientíficas, a depender da forma como são usadas, simplificam complexos fenômenos cognitivos e emocionais. Dizer, por exemplo, que determinado comportamento ou pensamento "ativa" determinada área do cérebro oferece uma "explicação" simplificada (ou simplista) de complexos processos psicológicos. No entanto, esta "explicação de natureza reducionista", como apontam os pesquisadores, nada mais é do que uma descrição de determinado fenômeno no nível biológico/cerebral - e não propriamente uma explicação. Uma segunda resposta é que as imagens em geral - e as imagens cerebrais em particular - teriam o poder de cativar a atenção das pessoas de forma mais intensa do que apenas um texto (não é por outro motivo que as revistas e jornais são repletos de imagens). Ao mostrarem a "ativação" de determinadas partes do cérebro, tais imagens deixariam clara e evidente a realidade de determinado fenômeno, ainda que, de fato, muito pouco ou nada provem. 

Enfim, independente das explicações possíveis para este efeito, torna-se cada vez mais difícil negá-lo. Este estudo contribui para isto ao estendê-lo para textos e informações do campo da educação. O que os pesquisadores sugerem, neste caso, é que uma considerável parcela do poder de convencimento dos textos e livros do campo da neuroeducação, que tem se disseminado com incrível velocidade no mundo educacional, se devem - ou podem se dever - ao efeito de sedução das explicações e imagens neurocientíficas. Isto significa que devemos permanecer atentos e céticos com relação às informações que são cotidianamente "vendidas" a nós. Antes de "comprá-las" devemos tentar compreender o que elas realmente querem dizem, fazendo um esforço constante de separar o "joio do trigo", ou seja, aquilo que tem embasamento daquilo que não o tem. Do contrário estaremos comprando "gato por lebre". Todo cuidado é pouco.

Update 25/05/17: especificamente sobre o tema da neuroeducação eu já escrevi alguns posts além de um livro, baseado em minha dissertação de mestrado. Caso tenha interesse em adquirir meu livro, intitulado "O cérebro vai à escola": aproximações entre neurociências e educação no Brasil (2016) clique aqui. Para maiores informações sobre o livro acesse este post.
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