terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"A chegada" e a difícil comunicação com o Outro

No sensacional filme de ficção científica A chegada, recém-lançado nos cinemas, doze enormes naves espaciais invadem a Terra e "estacionam" de forma aparentemente aleatória em cima de algumas cidades. No entanto, ao contrário do que ocorre em quase todos os filmes de invasão alienígena, os ETs não destroem a Terra nem matam os seres humanos. Suas naves ficam lá paradas e eles não dão o ar da graça, pelo menos inicialmente. Mas é claro que esta "chegada" mobiliza rapidamente governos e exércitos de todo o mundo, que erguem grandes estruturas de monitoramento nas proximidades das naves. Com tais estruturas, os governos pretendem não somente agir no caso de um eventual ataque mas também buscar as respostas para algumas perguntas inquietantes: o que eles querem? Por que vieram à Terra? E por que se mantém em silêncio? Em certo momento, os militares descobrem que durante alguns instantes do dia a nave se abre e os ETs aparecem atrás de uma parede transparente. E é logo após esta descoberta que a linguista Louise Banks é convidada a integrar a equipe composta por vários cientistas. Sua função específica é tentar se comunicar com os ETs e entender porque, afinal de contas, eles vieram à Terra. No entanto, como é de se imaginar, não se trata de uma comunicação simples - da mesma forma como não foi simples a comunicação entre colonizadores e colonizados e como não é simples a comunicação entre pessoas de diferentes países e entre os seres humanos em geral. Superar toda essa Torre de Babel é um desafio de dimensões interplanetárias.

No caso dos ETs, a comunicação é dificultada pelo fato de haver poucas referências em comum entre nós e eles. No caso de uma primeira comunicação entre pessoas que falam línguas distintas é possível buscar elementos no mundo que favoreçam um entendimento mútuo. Imagine, por exemplo, que você queira se comunicar com uma pessoa chinesa mas você não fala ou entende absolutamente nada de chinês. Como você faria? Aposto que inicialmente apontaria para si mesmo(a) e diria seu nome, esperando, assim, que a outra pessoa diga o dela. Em seguida você poderia apontar, por exemplo, para um livro e dizer "livro", esperando com isso que a pessoa nomeie o mesmo objeto em sua língua. A mesma metodologia poderia ser utilizada com diversos outros objetos ou elementos do mundo, o que permitiria um diálogo inicial - um diálogo um tanto simplório, certamente, mas ainda assim um diálogo. Mas como dialogar desta maneira com um ET? Você pode apontar para si  mesmo e dizer seu nome - como a Dra. Banks faz no filme -, mas será: 1) que eles conseguem enxergar e escutar? e 2) que eles possuem nomes? Acho bem possível imaginar uma sociedade, na Terra ou em outro planeta, na qual cada um de seus integrantes não possua um nome individual mas apenas um mesmo nome coletivo, por exemplo (como "os Negan" da série The Walking Dead). Nossa noção ocidental moderna - e terráquea - de individualidade não vale necessariamente para todo o universo, não é mesmo? Da mesma forma, parecem existir poucos elementos do mundo em comum entre humanos e ETs. A linguista poderia apontar para um livro e dizer ou escrever "livro", mas se eles não possuem objetos semelhantes àqueles que chamamos de livros nada disto faria sentido - e o mesmo vale para quase todos os objetos e coisas que pensarmos. Como então dialogar com tais criaturas?

Pois bem, no filme, a primeira tentativa de diálogo adotada pela Dra. Banks é justamente escrever o próprio nome em uma lousa e apontar para si mesma. Curiosamente, isto gera o efeito desejado e as bizarras criaturas, que se assemelham a polvos gigantes, esguicham jatos de tinta preta na parede transparente, formando símbolos arredondados que passam a ser vistos e entendidos como palavras. Mas se são palavras, o que significam? E de que forma tais símbolos se relacionam com os sons emitidos pelas criaturas? A intuição de Banks sobre os primeiros símbolos esguichados pelos Heptapods, como eles passam a ser chamados, é que se refeririam aos nomes dos dois seres que "dialogam" com a equipe - mas poderia ser também que significassem outra coisa. Aos poucos, isto é, a cada contato frente a frente e a cada tentativa de diálogo com os ETs - que parecem realmente dispostos a "conversar" -, a linguista e sua equipe, com a ajuda de alguns programas de computador, acabam por descobrir determinados padrões na linguagem escrita alienígena e isto faz com que o diálogo avance. Banks passa em certo momento a se utilizar da própria linguagem deles para dialogar. Não creio ela tenha se tornado fluente na língua alienígena, mas é possível constatar que a linguista aprendeu o suficiente para que um diálogo de verdade pudesse ocorrer. E com isso ela pôde finalmente compreender os motivos deles. Não entrarei aqui nesta questão e nem explorarei o surpreendente ato final. Gostaria apenas de discutir este complexo processo de comunicação entre a linguista e os ETs que, de certa forma, reproduz as dificuldades de comunicação entre os próprios seres humanos.

Como já comentei em outro post, empatia é a capacidade de nos imaginar no lugar do Outro. Não podemos, de fato, nos colocar no lugar deste Outro; o máximo que podemos fazer é utilizar nossa imaginação para induzir em nossa mente aquilo que acreditamos que outras pessoas (ou seres) sentem. E isto, embora seja algo positivo, aponta para um enorme abismo entre todos nós, pois de fato nunca saberemos exatamente como as outras pessoas se sentem - e nem, efetivamente, se sentem. Só o que fazemos e o que podemos fazer é pressupor, acreditar, imaginar. E nada mais. Isto significa que a angústia ou a alegria que eu sinto não necessariamente são iguais às que você sente, embora nós dois chamemos determinadas sensações mentais e corporais de angústia e alegria. Jamais saberemos de fato. Essa visão de que vivemos uma solidão essencial, caracterizada por este "abismo subjetivo", é chamada pelos filósofos de solipsismo (do latim solus ipse, que significa "um ser sozinho"). Os solipsistas acreditam que não é possível saber se outras pessoas possuem consciência - talvez elas sejam simplesmente robôs ou zumbis que simulam estados conscientes. Só o que podemos saber é que nós próprios somos conscientes e possuímos mentes. A ideia básica dos solipsistas, como sintetiza Eric Matthews no livro Mente: conceitos-chave em filosofia, é que "eu poderia ser o único ser consciente, o único ser com uma mente em todo o universo". Este pensamento, ainda que logicamente faça algum sentido, é efetivamente uma loucura - afinal, quem realmente acredita que nenhuma outra pessoa no mundo seja consciente? De toda forma, o solipsismo aponta para uma certa distância subjetiva entre as pessoas, que seria responsável por muitos dos problemas de comunicação que enfrentamos em nossas vidas. A ideia é que somos, de alguma forma, ETs uns para os outros: nossa forma peculiar de agir, pensar e sentir, ainda que seja construída coletivamente no mundo social, possui uma configuração individual única que dificulta sua apreensão pelas outras pessoas e consequentemente nosso processo de comunicação. E isto significa que embora compartilhemos o mesmo mundo físico, possuimos mundos subjetivos diferentes, o que faz com que passemos grande parte do tempo aprendendo e reaprendendo a nos comunicar uns com os outros. Algumas vezes a distância entre estes mundos diminui e a comunicação ocorre de forma plena; outras vezes - muitas vezes - a distância aumenta e a comunicação deixa de fluir. Como bem afirma Eric Matthews - e como comprova o maravilhoso filme A chegada -  "a comunicação humana, por mais difícil que seja, é ao menos possível de vez em quando".
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Sem dúvida um filme bem criativo para nós fazer pensar sobre nós mesmos. Pena que ultimamente o cinema já não tenha tanta audiência quanto nas décadas passadas. Mas valeria assistir essa produção.