quarta-feira, 17 de abril de 2013

“As sessões” e o sexo terapêutico



Baseado em fatos reais, o filme “As sessões” (The sessions, EUA, 2012) retrata a surpreendente história do poeta e escritor Mark O’Brien (1949-1999), interpretado magnificamente pelo ator John Hawkes. Aos seis anos de idade, Mark contraiu poliomielite e ficou paralisado do pescoço para baixo – muito embora mantivesse a sensibilidade na maior parte do corpo. Desde então e até o fim de sua vida, passou seus dias preso a uma cama, quando não em um "pulmão de aço" (veja foto abaixo), que o permitia respirar. Apesar de todas essas limitações, conseguiu se formar em letras, atuou como jornalista, escreveu poesias e ainda foi um ardoroso militante do direito das pessoas com deficiência. Em termos profissionais, Mark conseguiu superar muitos obstáculos, o mesmo não ocorrendo em sua vida pessoal. Aos 38 anos de idade, virgem e tendo constantes ejaculações espontâneas (e mesmo “induzidas” pelo contato de suas cuidadoras), Mark chega à conclusão que não deseja passar pela vida sem ter tido ao menos uma experiência sexual. 



Mas para colocar em prática este desejo, ele precisa superar três barreiras: a primeira é sua culpa católica, inculcada por seus pais, em sentir prazer; a segunda é a dúvida se realmente conseguirá fazer sexo em função de todas suas limitações físicas e a terceira é a questão de com quem faria sexo, haja vista que as mulheres que conheceu durante a vida sentiram mais pena do que atração por ele - e mesmo aquelas que se atraíram, não seguiram adiante. Com relação à primeira barreira, Mark, procura o conselho - e mesmo a "autorização" - de um padre (interpretado pelo excelente ator Willian H. Macy). Este, mesmo em dúvida sobre o que dizer, o aconselha a seguir seu desejo, indo contra, desta forma, aos próprios preceitos de sua igreja de que o sexo só deve ser realizado após o casamento. O padre, neste caso, foi bem razoável e compreendeu a peculiar situação de Mark. Já para tentar resolver as outras duas barreiras, Mark decide procurar, a partir da indicação de sua psicoterapeuta, uma “substituta sexual" (sexual surrogate), interpretada no filme pela atriz Helen Hunt - que concorreu este ano ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel. Merecidamente, diga-se de passagem. 

Esta profissão realmente existe, tendo surgido na década de 70 nos Estados Unidos – em plena revolução sexual, portanto – a partir do trabalho dos sexólogos Willliam Master e Virginia Johnson. Posteriormente foi criada uma associação internacional (a IPSA) e até mesmo um código de ética para regular a prática profissional. Atualmente existem somente cerca de 50 "substitutos" treinados e atuantes nos Estados Unidos - no Brasil, pelo que pesquisei, nenhum. Na década de 70 haviam cerca de 2 mil mas, mesmo neste momento, a profissão nunca gozou (ops!) de grande visibilidade e sempre foi alvo de um inúmeros preconceitos. Na década de 90, a profissão tornou-se conhecida do grande público em função de um artigo escrito por Mark para a The sun Magazine intitulado “On seeing a sex surrogate” (leia aqui). O filme é baseado neste artigo assim como no livro autobiográfico An intimate life (publicado em 2012 no Brasil como "As sessões: minha vida como terapeuta do sexo" - que li e recomendo), escrito pela "parceira substituta" de Mark, Cheryl Cohen Greene, hoje com 68 anos (na foto abaixo com Helen Hunt). Em 40 anos de carreira, Cheryl atendeu até hoje mais de 900 pacientes, em sua maioria homens virgens ou que não conseguem ter uma ereção ou chegar ao orgasmo, além de indivíduos portadores de deficiência - como foi o caso de Mark. Ela atende também mulheres e casais e trabalha sempre (até hoje!) em parceria com uma terapeuta sexual convencional ou com um psicólogo ("enquanto ele trabalha a parte emocional, fico com os exercícios práticos", diz ela). Cheryl descreve da seguinte forma sua metodologia de trabalho:  

"A cada sessão há um ganho gradativo de intimidade. Começo com técnicas de relaxamento e testes de toques para saber quais as partes mais sensíveis do corpo do paciente. Em seguida, vêm as carícias, beijos e masturbação. A penetração costuma acontecer só nas últimas sessões. Durante o sexo, presto atenção a todos os detalhes e anoto cada reação do paciente. Sempre usamos preservativos. As sessões acontecem duas vezes por mês e têm duração de duas horas. Cobro US$ 300 por consulta. Há um limite de sessões, que varia de seis a dez".


Muitos consideram a profissão de Cheryl uma forma de prostituição, o que ela nega. No filme, a diferença apresentada pela personagem é que enquanto a prostituta pretende criar uma freguesia, ou seja, que o cliente a procure mais e mais vezes, seu esquema de trabalho se dá com um número máximo de sessões, sem possibilidade de retorno, de forma a não criar um vínculo de dependência. Outra diferença, explicitada por ela nesta entrevista, é que "ir a uma prostituta é como ir a um restaurante, escolher no cardápio e ser servido pelos funcionários, que esperam que você volte. Ter sessões com a terapeuta sexual substituta é como ir a uma escola de culinária: você descobre onde achar ingredientes, aprende receitas e sai fazendo pratos por conta própria". Ou seja, o objetivo é mais educar para o prazer do que gerar prazer por si mesmo, como seria no caso de uma prostituta. Como afirma a terapeuta de casais Louanne Cole Weston no prefácio do livro de Cheryl, "os terapeutas do sexo são como professores para seus clientes". Além disso, como disse em uma entrevista o diretor do filme Ben Lewin (que também contraiu pólio aos 6 anos de idade e se locomove com ajuda de muletas): “Certa vez, perguntei para Cheryl como foi o ato sexual entre eles [ela e Mark]. E ela me respondeu que tinha que pegar suas anotações para recordar. Duvido que prostitutas façam anotações”. Ou seja, o trabalho de parceira substituta é mais minucioso e sistemático do que é ou seria o de uma prostituta.




A ideia de uma "substituta sexual" parece ser, em suma, uma forma prática de auxiliar pessoas com alguma dificuldade ou imaturidade na área sexual a conhecer o próprio corpo para que possam fazer sexo com outras pessoas. No caso do Mark O'Brien o filme me convenceu se tratar de uma alternativa necessária diante de seu problema peculiar. Uma prostituta, mesmo atenciosa e bem-intencionada, talvez não tivesse os conhecimentos e a paciência necessários para ajudá-lo. Da mesma forma, uma terapeuta sexual que se utilizasse somente da terapia pela palavra não teria, acredito, qualquer efeito. Ele precisava descobrir na prática que conseguia sentir prazer. Precisava descobrir e despertar o próprio corpo. Como afirma Cheryl em uma entrevista"Numa terapia convencional, o paciente pode não conseguir pôr as orientações em prática, seja por vergonha do parceiro, seja pela falta de um. Conseguimos transpor essas barreiras. O paciente também aprende a conhecer melhor o corpo do outro – no caso, o meu, que serve de modelo para relações futuras. Comigo, ele pode falar abertamente sobre suas fantasias e experimentar as posições que deseja".

Questionada como encara o sexo sem envolvimento afetivo (que é diferente do envolvimento sexual necessário para o trabalho) ela respondeu: "Tudo o que é consensual entre adultos é válido. O lindo do meu trabalho é que você não precisa se apaixonar, mas tem que se tornar íntimo da pessoa e respeitá-la". E para evitar que o paciente se apaixone por ela, a técnica usada é contar detalhes de sua vida privada a eles: "digo que sou casada e feliz. Isso já diminui as expectativas". O problema é que nem sempre isso funciona, haja vista que ela própria é casada, há mais de 30 anos, com um ex-paciente. Segundo ela, "Bob me procurou depois que terminaram as sessões. Na segunda vez que saímos já fizemos sexo fora do 'consultório'". Podemos e devemos questionar essa atitude dela, mas devemos nos lembrar que o envolvimento entre terapeuta e paciente pode ocorrer (e de fato ocorre) mesmo que não haja sexo envolvido na terapia. 



Com relação à esta polêmica profissão, gostaria de fazer alguns questionamentos. No Brasil, os tradutores do livro de Cheryl optaram por traduzir "sex surrogate" por Terapeuta do Sexo. Mas será que o que ela faz pode ser, realmente, chamado de terapia? Se entendermos terapia como sinônimo de tratamento para algum problema, certamente o que Cheryl faz é uma forma de terapia (da mesma forma que a fisioterapia, a massoterapia ou a hipnoterapia). Mas será a "substituição sexual" uma forma psicoterapia? Se definirmos psicoterapia como uma terapia utilizada para tratar problemas psicológicos, a atividade de Cheryl pode sim ser considerada uma forma de psicoterapia, haja vista que grande parte  de seus pacientes são sujeitos com dificuldades "psicológicas" em se relacionar sexualmente. Se tais dificuldades fossem devido a questões "físicas" o mais lógico seria que procurassem um médico. Agora, outra questão a se pensar é: quais são ou devem ser os limites de uma psicoterapia? Dialogar obviamente é permitido e mesmo necessário. Aliás, a maioria das psicoterapias são baseadas no diálogo entre terapeuta e paciente. Mas e tocar, pode? Até que ponto? Tem psicoterapeutas que se recusam até mesmo a encostar no paciente para cumprimentá-lo. Outros, por exemplo os terapeutas corporais, fazem massagens e outros procedimentos que envolvem o toque nos pacientes. Isso pode. Mas sexo não pode. Por que não? 

Uma resposta possível seria: o sexo é terapêutico, sem dúvida, mas não pode fazer parte de uma terapia porque extrapola os limites do que, convencionalmente, é entendido como psicoterapia. Neste sentido, uma terapia com sexo não poderia ser considerada propriamente uma psicoterapia, mas sim sexo com fins terapêuticos – a ser realizado não por um(a) psicólogo(a) mas por uma parceira substituta ou mesmo por uma prostituta. De acordo com uma reportagem sobre o filme, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) proíbe a relação sexual entre terapeuta e paciente. No entanto, pesquisei sobre esta questão no site do Conselho e não encontrei nenhuma resolução específica que regulamente a relação terapêutica ou que proíba o sexo entre terapeuta e paciente. De fato, no Código de Ética Profissional está escrito que é vedado ao psicólogo “prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão”. O problema é que não existe nenhum documento que especifique quais “procedimentos, técnicas e meios” são permitidos e quais são proibidos. Isso acaba ficando a cargo do psicólogo decidir ou do Conselho julgar, o que é um tanto complicado. O Código de Ética também impede o psicólogo de “estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado”. No entanto o texto não deixa claro quais são exatamente as relações proibidas ou não-aconselhadas. Podemos imaginar que o sexo estaria dentre estas relações, mas quem foi que disse que a relação sexual interferiria  de forma necessariamente negativa no tratamento? Segundo a psicanalista Araceli Albino, entrevistada para uma reportagem sobre o filme, "sexo entre terapeuta e paciente ocorre mais do que imaginamos. É danoso: a pessoa depositou confiança no profissional e fica à mercê dele. É quebra de contrato". Mas e se o sexo fizer parte do contrato estabelecido entre o terapeuta e o paciente? 

Não estou aqui defendendo a inclusão ou mesmo a aceitação da relação sexual na terapia realizada por psicólogos ou psicanalistas. Até porque a profissão de “parceira substituta” é autônoma à Psicologia e à Psicanálise. Trata-se de uma profissão com características, técnicas e ética próprias. Mas a existência e atuação destes profissionais faz pensar sobre o manto de hipocrisia que ainda cobre nossa relação com o sexo e a sexualidade. Fazer sexo profissionalmente ainda é visto por muitas pessoas como algo degradante e eminentemente negativo, tanto para o profissional quanto para o cliente. Em muitos comentários e resenhas que li sobre o filme, a profissão de “parceira sexual” é fortemente criticada e Cheryl frequentemente desqualificada e rotulada de prostituta, como se isso fosse algo negativo em si. Condenamos, desta forma, aqueles que “vendem” o próprio corpo, mas nos esquecemos (ou não nos damos conta) de que todos os que trabalham, em alguma medida, vendem o próprio corpo em troca de dinheiro. Mas talvez não seja o "corpo" o verdadeiro problema e sim o sexo. Sempre ele. É triste e curioso que em pleno século XXI ainda tenhamos dificuldade em tratar o sexo de forma aberta e honesta, sem tantos pudores e preconceitos.


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

Rhana Mel disse...

impressionante!!!

Marlúcio Luciano disse...

Parabéns ao Diretor e a todos que participaram diretamente ou indiretamente deste filme. Gostei.

ACM018 disse...

Parabéns!!! Pelo post.
visite meu blog http://arturcosta-acm.blogspot.com.br

Um Brasil sem Matemática? disse...

Acabei de ver o filme na TV aberta. Foi um dos melhores filmes que assisti na vida (estou com 67 anos e adoro cinema).