O título em português da série turca Bir Başkadır - "8 em Istambul" - não é lá muito preciso, já que bem mais do que 8 personagens dominam a narrativa - aliás, eu nem saberia dizer exatamente quem são estes tais 8. O título original, bem mais interessante, remete a um dito popular turco que aponta para algo ou alguém único, peculiar, singular. Pois esta expressão, impossível de ser traduzida, sintetiza muito bem a proposta desta maravilhosa série da Netflix, que é retratar a vida singular de alguns moradores da multifacetada cidade de Istambul, na Turquia. Dentre estes personagens temos Meryem, que pode ser considerada a protagonista da série, já que todos os demais personagens possuem alguma relação, direta ou indireta, com ela: seu irmão Yasin, sua cunhada Ruhiye, sua terapeuta Peri, a terapeuta de sua terapeuta Gülbin, seu líder religioso Hodja, seu patrão Sinan, dentre outros. A série tem início com Meryem se consultando, pela primeira vez, com a psiquiatra e psicoterapeuta Peri em um hospital da cidade. Meryem vinha tendo alguns desmaios e, por isso, foi encaminhada à psiquiatria pelo médico que lhe atendeu inicialmente. E é a partir dessa situação que a série se desenrola - e cabe apontar que não pretendo neste breve ensaio analisar todos os núcleos e histórias da série; gostaria de me focar especificamente na relação de Meryem com sua terapeuta Peri. Como descobrimos logo nos primeiros episódios, Peri é uma mulher ocidentalizada que nutre dentro de si um grande preconceito - e mesmo uma repulsa - com relação à mulheres muçulmanas que usam véu; pois Meryem é justamente uma mulher muçulmana que usa véu, o que constitui, para Peri, um desafio terapêutico e pessoal imenso - tanto que em inúmeras ocasiões Peri relata para sua própria terapeuta e supervisora, Gülbin, dificuldades no atendimento com Meryem, que os psicanalistas poderiam chamar de dificuldades transferenciais. Pois o fato é que, embora habitem a mesma cidade, Peri e Meryem possuem vidas e subjetividades completamente diferentes, como se habitassem mundos distintos. E esta distância - que está mais para um abismo - dificulta imensamente que Peri se conecte com Meryem e sinta empatia por ela. Afinal de contas, como se conectar e empatizar com uma pessoa que representa tudo aquilo que você rejeita? Este, aliás, é um imenso desafio para todos os terapeutas. Eu próprio já atendi e atendo com frequência inúmeras pessoas com identidades e visões de mundo radicalmente diferentes das minhas e isto sem dúvida traz consigo imensos desafios subjetivos. Como me "colocar no lugar" de uma pessoa que pensa e age de forma completamente diferente de mim? Na verdade, o problema é ainda mais complexo que isso, pois diz respeito não apenas àquelas pessoas com visões de mundo muito diferentes das minhas mas, no final das contas, à todas as pessoas. Como saber, por exemplo, se aquilo que um paciente chama de ansiedade ou tristeza ou angústia é exatamente aquilo que eu próprio chamo e sinto? Como já apontei em outras ocasiões - por exemplo, na resenha que fiz do filme A chegada - não temos, de fato, como saber. Este abismo entre a minha própria subjetividade e as demais subjetividades, incluindo aquelas dos meus pacientes, não é facilmente transponível ou superável. No entanto, apesar destas dificuldades, precisamos seguir com o nosso ofício. E também, como Peri, precisamos compreender melhor nossos preconceitos e, na medida do possível, superá-los, de forma que possamos nos conectar verdadeiramente com nossos pacientes. O desafio - para a terapia e para a vida em geral - está em lidar com o outro especialmente naquilo que ele é diferente de nós. Como aponta um famoso provérbio, atribuído ao mestre Paulo Freire, "amar o igual é amar a si próprio. O desafio está em amar o diferente". No caso de uma psicoterapia eu não diria que precisamos amar nossos pacientes - embora isto seja possível e até desejável, dentro de certos limites éticos e profissionais - mas certamente precisamos fazer o que estiver ao nosso alcance para nos conectarmos às suas vidas subjetivas naquilo que elas tem de mais peculiar.
domingo, 31 de janeiro de 2021
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Aversão de si: uma resenha do livro O olho mais azul
Há algum tempo comecei a ler o livro Amada, da escritora norte-americana Toni Morrison e achei o início bem difícil e confuso, o que me levou a desistir temporariamente da leitura - que pretendo retomar em breve. Daí eu comentei sobre essa dificuldade em uma rede social e uma colega me sugeriu iniciar a obra de Morisson por seu primeiro livro, O olho mais azul, publicado originalmente em 1970. E foi o que fiz. E de fato achei a leitura deste livro bem mais tranquila e fluida, ainda que se trate de uma narrativa fragmentada e não-linear - como a própria autora explica no posfácio, ela quis "quebrar a narrativa em partes a serem reunidas pelo leitor". Pois a trama de O olho mais azul gira ao redor da família Breedlove, uma família afro-americana pobre composta pela mãe (Polly), pelo pai (Cholly) e pelos dois filhos (o garoto Sammy e a garota Pecola, que é a protagonista da história). Trata-se, sem dúvida, de uma família bastante problemática: o pai bebe demais e frequentemente bate na mãe e abusa das crianças; já a mãe dedica todo o seu amor e cuidado à família branca para quem ela trabalha há décadas; e as crianças são, assim, negligenciadas e maltratadas e sofrem com tudo isso. Pecola sofre ainda, terrivelmente, por ser considerada feia tanto por sua família quanto por seus vizinhos e colegas. Por ter o cabelo crespo e a pele mais escura que grande parte de seus colegas de escola, Pecola é frequentemente ridicularizada, humilhada e rejeitada pelas pessoas ao seu redor. E por conta disso, ela sonha e deseja ardentemente possuir os olhos azuis, como as meninas que ela (e toda a sociedade) consideram bonitas - aliás, Pecola não deseja simplesmente ter os olhos azuis; ela quer ter os olhos mais azuis dentre todos os olhos azuis. No posfácio do livro, Morisson afirma que este desejo tem relação com uma forte "aversão por si mesma", de origem racial, que acomete Pecola e grande parte das garotas negras - e das pessoas negras em geral. Na narrativa da autora, tal aversão ou desvalorização de si diz respeito a algo que, como o próprio racismo, acaba por persistir, de geração em geração, por meio da reprodução dos valores (e desvalores) dominantes. Mas este é apenas um dos inúmeros temas e questões tratados pela autora - a primeira mulher negra a receber o Prêmio Nobel - neste excelente e complexo romance. Recomendo fortemente!
Trecho do livro: "Tinha ocorrido a Pecola, havia algum tempo, que, se os seus olhos, aqueles olhos que retinham as imagens e conheciam as cenas, fossem diferentes, ou seja, bonitos, ela seria diferente. Tinha bons dentes, e o nariz, pelo menos, não era grande e chato como o de algumas garotas que eram consideradas tão bonitinhas. Se tivesse outra aparência, se fosse bonita, talvez Cholly fosse diferente, e a sra. Breedlove também. Talvez eles dissessem: “Ora, vejam que olhos bonitos os da Pecola. Não devemos fazer coisas ruins na frente desses olhos bonitos” (...) Toda noite, sem falta, ela rezava para ter olhos azuis. Fazia um ano que rezava fervorosamente. Embora um tanto desanimada, não tinha perdido a esperança. Levaria muito, muito tempo para que uma coisa maravilhosa como aquela acontecesse".
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
Tão perto, tão longe: breves apontamentos sobre o livro "Impressões de Michel Foucault"
Taí um ótimo livro para quem quer se aproximar das ideias de Michel Foucault. Nesta obra autobiográfica, o renomado filósofo Roberto Machado conta saborosas histórias sobre sua convivência com Foucault na década de 1970, no Brasil e na França - e entrelaça tais histórias com preciosos apontamentos sobre a obra foucaultiana, da qual é um dos maiores especialistas brasileiros. Gostei especialmente das reflexões de Machado sobre sua relação ambígua com Foucault, ao mesmo tempo próxima e distante, baseada tanto na admiração como no medo. Como aperitivo trago um belíssimo trecho do capítulo Proximidade e distância: "Uma extrema doçura transbordava de seus olhos, de sua voz, de seus gestos, de seu sorriso. Sua delicadeza sempre foi grande comigo. Talvez eu até não lhe tenha correspondido direito, por timidez, medo, respeito. Nos momentos de maior intimidade, quando estava a alguns centímetros dele, não deixava de me sentir a quilômetros. Também pudera. Ele era a pessoa que mais havia contribuído para o meu pensamento, transformado minha vida. Alguém de quem eu havia lido quase tudo. Sobre quem estava escrevendo. Que havia traduzido. Como não ficar intimidado? Mas, mesmo tendo sido sempre delicado comigo, ele tinha um lado terrível. Talvez, além de generoso, fosse cruel. Alguém que metia medo. Seus olhos argutos, que, sem arrogância, pareciam perscrutar uma verdade secreta, sua boca, crispada, prestes a expressar uma visão singular desconcertante numa voz forte, metálica, suas posturas improváveis, incomuns, atípicas, seus gestos vivos, que orquestravam com exatidão pensamentos exigentes, podiam destruir alguém sem esforço. Sentia-se que era perigoso".
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
"A assistente" e a saúde mental no trabalho
No sensacional filme "A assistente", recém-lançado pela Prime Video, acompanhamos, do início ao fim, um dia de trabalho na vida de Jane, uma jovem secretária de uma grande e renomada produtora de cinema. Sua rotina, extenuante, é composta por milhares de pequenas funções ligadas à burocracia, à organização e à limpeza do escritório e, especialmente, ao gerenciamento da vida profissional (e também pessoal) do poderoso chefão da companhia. Pra piorar, Jane é invisibilizada e diminuída pela equipe e frequentemente humilhada por seu chefe e por outros colegas de trabalho - todos homens, claro. Aliás, o ambiente da empresa é totalmente impregnado de uma machismo indisfarçável, o que pode ser observado não apenas na forma humilhante como Jane é tratada mas também na maneira como o chefão assedia, inclusive sexualmente, as novas funcionárias e candidatas a atrizes. Igualmente sintomático deste ambiente machista é a conivência do setor de RH da empresa com relação ao comportamento sistematicamente assediador do chefe. E pra piorar ainda mais a situação de Jane e das demais funcionárias assediadas moral e/ou sexualmente pelos homens da empresa, há uma espécie de cobrança social para que elas sejam gratas ao emprego que conseguiram - afinal de contas, elas fazem parte da prestigiosa indústria cinematográfica norte-americana, ainda que no nível mais baixo da hierarquia. Mas para além das discussões sobre machismo e assédio no ambiente de trabalho, já amplamente analisadas em outras resenhas do filme, gostaria aqui de trazer um outra questão. Seria possível, em um ambiente tóxico como o da empresa retratada, uma funcionária como Jane ter algum nível de saúde mental? Porque se a saúde mental depende apenas ou fortemente do indivíduo, então cabe somente a ele buscar maneiras de se "blindar emocionalmente" de tal toxicidade e se sentir bem apesar de todos os abusos e opressões. A grande questão é que a saúde mental não depende apenas do esforço e da força de vontade do indivíduo, estando fortemente relacionada ao ambiente em que este se encontra. Não é por outro motivo que o sofrimento psíquico (que eu jamais equivaleria à categoria de transtorno mental) provavelmente aumentou consideravelmente neste período de pandemia: porque somos seres relacionais e contextuais e o que acontece conosco e ao nosso redor (seja no ambiente de trabalho seja no mundo como um todo) influencia nossa subjetividade e, portanto, nossa saúde mental. Isto significa que é simplesmente inconcebível imaginar Jane mentalmente saudável em um ambiente tóxico como o que ela trabalha.
sábado, 23 de janeiro de 2021
Minha participação no Mad in Brasil Conversatórios: "Em defesa de uma neurociência crítica"
Ontem à noite tive à honra de participar do "Mad in Brasil Conversatórios", que foi transmitido pelo Youtube. Para quem não conhece o Mad in Brasil, trata-se da versão brasileira do site Mad in America, criado pelo jornalista norte-americano Robert Whitaker, autor, dentre outros, dos livros Mad in America (infelizmente não traduzido para o português) e Anatomia de uma epidemia: Pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental, lançado pela editora Fiocruz em 2017. Coordenado pelo Fernando Freitas e pelo Paulo Amarante, ambos ligados à Fiocruz, o Mad in Brasil tem o propósito de trazer discussões críticas especialmente sobre o campo da psiquiatria. De acordo com o site, o MIB tem a missão de ampliar e fortalecer o diálogo entre aqueles que querem "repensar o modelo biomédico de doença e construir um novo paradigma de assistência em saúde mental". E foi com esse objetivo que eles iniciaram, no Instagram, o projeto Conversatórios, que se propõe a dialogar com pesquisadores brasileiros sobre temas ligados ao campo da saúde mental. O primeiro participante, em Outubro de 2020, foi o Fernando Freitas, seguido pelo Paulo Amarante, pela psicóloga Luciana Jamillo e pelo psicólogo Rogério Giannini. Pois agora, no quinto Conversatório, foi a minha vez. O titulo que sugeri para este bate-papo foi "Em defesa de uma neurociência crítica", que não por acaso é o mesmo título de um dos capítulos centrais do meu livro Você não é seu cérebro! E outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema, que lancei em 2020. Caso tenha interesse, assista abaixo (ou diretamente no canal do Youtube do Mad in Brasil) a conversa que tive ontem com a Camila Motta, psicóloga e editora-assistente do MIB. Aproveito para agradecer ao psicólogo Lucas Gonçalves, também da equipe do site, pelo convite.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
Meu novo livro: "Você não é seu cérebro! e outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema"
Quem me acompanha nas redes sociais (especialmente no Instagram) já sabe que em 2020 eu lancei, pela editora Appris, meu segundo livro, uma coletânea de ensaios intitulada Você não é seu cérebro! e outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema. Na verdade, devido à pandemia eu não pude lançar presencialmente o livro: tive que cancelar todos os lançamentos programados e "lançá-lo" apenas virtualmente. Eu acabei também não escrevendo sobre o livro aqui no blog, o que faço somente agora, quase um ano depois dele ser oficialmente publicado. Antes tarde do que nunca, não é mesmo? Pois bem, o livro é composto por 35 ensaios escritos ao longo dos últimos 10 anos para este blog, e tratam de temas diversos relacionados aos campos da neurociência, psicologia cognitiva e inteligência artificial. Segue abaixo, como um aperitivo, a introdução do meu novo livro:
Todos os 35 ensaios que compõem este livro foram originalmente publicados, ao longo de vários anos, no meu blog Psicologia dos Psicólogos - o que pode levar o leitor a questionar os motivos pelos quais eu decidi publicar, na forma de livro, textos que já estão disponíveis na internet. E eu respondo. Um primeiro (e mais romântico) motivo é que eu sou um apaixonado por livros. Amo ler, amo cheiro de livro, amo visitar livrarias e sebos e, desde criança, eu busco nos livros - e sempre encontro - refúgio, paz, discernimento, informação e sabedoria. Um segundo motivo é que os textos que compõem este livro estão dispersos no blog, espalhados em meio a inúmeros outros textos sobre assuntos diversos. Na seleção dos textos para este livro, escolhi apenas ensaios relacionados às temáticas da neurociência, psicologia cognitiva e inteligência artificial e busquei organizá-los de forma que os textos dialoguem entre si. Por fim, publicar estes 35 ensaios na forma de livro me daria também a oportunidade de revisá-los, corrigí-los e, eventualmente, melhorá-los. No fim das contas alterei pouco dos textos originais mas acabei por incluir inúmeras notas com as referências que utilizei para escrevê-los - o que, na linguagem simplificada e direta de um blog, não faz muito sentido.
Criado em 2008, logo após eu finalizar a graduação, o blog Psicologia dos Psicólogos - cujo nome foi inspirado em um livro homônimo do filósofo Hilton Japiassu - tem sido, desde o início, um espaço de compartilhamento de reflexões sobre meus temas de interesse, que foram se alterando ao longo do tempo. Inicialmente, utilizei o blog para compartilhar charges e cartuns relacionados ao universo da Psicologia; posteriormente comecei a escrever alguns posts curtos com indicações de livros e filmes; mais à frente, especialmente após 2012 - ano em que ingressei no mestrado - passei a escrever textos maiores e mais profundos sobre temas diversos, em especial sobre as questões que estudava na pós-graduação. Em 2014 finalizei o mestrado e decidi transformar minha dissertação em livro - meu primeiro livro, “O cérebro vai à escola”: aproximações entre neurociências e educação no Brasil, que foi publicado em 2016 pela Paco Editorial. Nesta obra, assim como em inúmeros textos do blog - alguns selecionados para o presente livro - eu analiso os discursos das (e sobre as) neurociências.
Meu interesse, tanto no primeiro livro quanto agora, continua sendo entender e refletir sobre esses neurodiscursos que possuem, atualmente, grande visibilidade e legitimidade, embora muitas vezes caiam em perigosas e equivocadas formas de reducionismo. De uma forma mais profunda o meu objetivo é refletir acerca de nossa própria humanidade. As perguntas-chave, que guiam praticamente todos os ensaios incluídos neste livro são: quem (ou o que) somos nós? Somos os nossos cérebros? Ou será que somos nossos corpos? Ou nossas mentes? O que, afinal de contas, define nossa identidade? Não pretendo, e nem seria possível, chegar a uma resposta definitiva para tais perguntas, mas eu arrisco algumas respostas, a começar por aquela que dá título ao livro: não, você não é seu cérebro! Mas então quem é você, quem sou eu e quem somos nós? Venha comigo e me acompanhe nesta jornada em busca do entendimento do que somos - e do que não somos.
Gostaria de fazer aqui também algumas considerações sobre o visual do livro. Quando a editora me questionou como eu gostaria da capa, eu respondi que minha única exigência era não ter uma imagem de cérebro. Além de óbvio isto seria equivocado, haja vista que em vários momentos do livro eu crítico a utilização de imagens e pseudoexplicações cerebrais para vender neurocoisas. Mas que imagem, então, colocar? Eu sugeri a eles uma imagem abstrata que retratasse a ideia de que ser humano e ambiente se constituem e se entrecruzam numa rede de influências mútuas onde é quase impossível determinar onde começa um e termina o outro - uma das ideias centrais que eu defendo no livro. Depois de um tempo a editora me enviou esta capa com esta bela imagem abstrata colorida e eu amei (e aprovei) de imediato. A imagem da capa passa justamente a ideia de mistura entre o biológico e o cultural que eu queria passar com o conteúdo do livro. Enfim, ficou exatamente do jeito que eu gostaria que ficasse!
Caso tenha interesse em adquirir meu livro, que está disponível em versão impressa e também ebook, basta clicar aqui. E para ter acesso a uma amostra do livro, clique aqui.
E segue abaixo um video no qual eu apresento o livro e algumas de suas discussões:
"Eu também faço parte dessa cidade!": sobre Pacarrete e o lugar da loucura
Baseado em fatos reais, "Pacarrete" - filme brasileiro dirigido por Allan Deberton - conta a história de uma mulher sexagenária, moradora da cidade de Russas, no Ceará, que sonha em apresentar para a população local um número de balé do espetáculo O lago dos cisnes. Professora e bailarina quando jovem, Pacarrete, como é chamada, mora com a irmã, também idosa, e cuida dela com muito zelo. Mas todo o tempo que pode, se dedica a sonhar com sua apresentação de balé e a se preparar para ela. A grande questão do filme, e da história real que o inspirou, é que Pacarrete é louca - ou assim é vista pela população de Russas. Sabe aquele "doidinho" que todo mundo conhece, que faz e fala um monte de coisas (aparentemente) sem sentido, e que já faz parte da vida da cidade? Pois Pacarrete é justamente a "doidinha da cidade", aquela pessoa que todo mundo conhece e que, em geral, é motivo de piada por sua forma exótica (e por vezes inconveniente) de falar e se comportar. Algumas pessoas podem enxergar a maneira como Pacarrete é tratada por parte da população como uma forma de exclusão - e eu não me oporia totalmente a esta visão. No entanto vejo que Pacarrete está, de alguma forma, incluída em sua cidade. Muito comumente pessoas como ela são (e foram) excluídas da vida social e trancadas, e dopadas, e maltratadas, em hospitais psiquiátricos. Não Pacarrete. Embora ela seja motivo de piadas e tenha sua apresentação de balé constantemente negada pela prefeitura, ela faz parte da vida social de Russas. Como ela própria afirma em certo momento para a funcionária da prefeitura: "Eu também faço parte dessa cidade!". E de fato Pacarrete pertence à cidade, assim como todos os chamados "loucos" também deveriam pertencer. Ninguém deveria ser excluído e afastado da vida social por não se encaixar nos tais "padrões de normalidade". Esta é, para mim, uma das muitas lições deste sensível e magnífico filme.
domingo, 10 de janeiro de 2021
Sem razões para viver e para morrer: uma resenha do livro "Serotonina"
"É um comprimido pequeno, branco, oval, divisível". Assim tem início "Serotonina", último romance do escritor francês Michel Houellebecq - e o primeiro dele que eu li. O que mais me chamou a atenção quando vi a capa do livro em uma livraria virtual foi o título, que remete a um neurotransmissor cujo déficit, segundo os psiquiatras biológicos, estaria relacionado com os sintomas depressivos - alguns chegam a dizer, equivocadamente, que tal déficit causaria a depressão - e cujo equilíbrio é (ou seria) o foco dos antidepressivos, justamente a categoria de remédios consumida pelo protagonista e narrador deste livro sensacional. Florent-Claude Labrouste é um agrônomo de 46 anos, solitário e melancólico, que decide em certo momento procurar um psiquiatra e recebe a prescrição de um antidepressivo chamado Captorix. A grande questão é que um dos efeitos colaterais mais comuns desta medicação - e dos antidepressivos em geral - é a baixa de libido, efeito que Flourent sente com muito pesar. Sexualmente ativo por grande parte de sua vida, Flourent se vê, repentinamente, sem qualquer desejo sexual - e também sem qualquer outro desejo. Com tal indiferença, Flourent decide vagar pela França, de hotel em hotel, à procura de um amigo da época da faculdade e de alguns antigos amores - como que se despedindo deles e do mundo. Neste percurso nostálgico e melancólico, que faz de Serotonina uma espécie de "road book" deprê, o protagonista se envolve em situações variadas - inclusive, numa cena fantástica, se vê em meio a um radical protesto de produtores de leite no interior da França - e, durante todo o tempo reflete sobre seu passado e seus "fracassos", especialmente os amorosos. Flourent também reflete sobre uma infinidade de questões políticas e econômicas europeias e ainda tece interessantes considerações sobre a psiquiatria e os antidepressivos. Em certo momento, ao refletir sobre as funções biológicas da serotonina, afirma: "a conclusão a que pouco a pouco se chega é que a ciência médica continua confusa e aproximativa nessas questões, e que os antidepressivos fazem parte do numeroso grupo de medicamentos que funcionam (ou não) sem que se saiba exatamente por quê". Mais à frente, ao refletir sobre os efeitos do Captorix, Flourent afirma que tal remédio "não oferece qualquer forma de felicidade, nem sequer um alívio real, sua ação é de outro tipo: ao transformar a vida numa sucessão de formalidades, permite ir tocando o barco. Portanto, ajuda os homens a viverem, ou pelo menos a não morrerem - por um tempo". Enfim, trata-se de um belíssimo e melancólico livro que discute com muita sensibilidade temas complexos como a felicidade, o amor e a solidão.
Trecho do livro: "Agora eu era um homem ocidental de meia-idade, a salvo de passar necessidades por alguns anos, sem parentes nem amigos, carente de projetos pessoais tanto quanto de interesses verdadeiros, profundamente decepcionado com sua vida profissional anterior, e que, no âmbito sentimental, tinha vivido experiências diversificadas cujo denominador comum era a interrupção; carente, no fundo, tanto de razões para viver como de razões para morrer. Podia aproveitar para começar de novo, para me “reinventar”, como dizem comicamente nos programas de televisão e nos artigos de psicologia humana que saem em revistas especializadas; e também podia me entregar a uma inércia letárgica".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
sexta-feira, 8 de janeiro de 2021
Em defesa da empatia: uma resenha da série "Despachos de outro lugar"
Para quem está à procura de uma série interessante para ver, gostaria de recomendar entusiasticamente a série Despachos de outro lugar (Dispaches from elsewhere), produzida pelo canal AMC e distribuída no Brasil pela Amazon Prime. Trata-se de uma das séries mais inovadoras, criativas, surpreendentes e sensíveis que eu já vi. Acho muito difícil resumir a história da série mas é possível dizer que ela é baseada em um experimento artístico-social real criado pelo artista norte-americano Jeff Hull, experimento esse retratado anteriormente pelo documentário The Institute, lançado em 2012 (que eu não vi). Criada pelo ator e roteirista Jason Siegel (o Marshall da série How I meet your mother), a série acompanha quatro dos participantes deste experimento: Peter (interpretado pelo próprio Siegel), Simone (interpretada pela atriz Eve Lindley), Fredwyyn (interpretado pelo ator e cantor Andre 3000, da banda Outkast) e Janice (interpretada pela veterana atriz Sally Field, a "mãe" de Forrest Gump). Dentre todos esses belíssimos e complexos personagens destaco Simone, uma bacharel em artes trans interpretada por uma atriz de fato trans - o que é raro mas fundamental. Trata-se da mais bela representação de uma mulher trans que eu já vi na televisão ou no cinema. Muito embora a questão trans não seja colocada de lado, a personagem é retratada, acima de tudo, como uma mulher - que é trans mas não se resume a essa identidade. É simplesmente linda e emocionante a forma como ela, e todos os demais personagens, são retratados. Sem dar nenhum spoiler (e o ideal é ver a série "às cegas", sem saber muito a respeito, como eu fiz), é possível dizer que a série faz uma sensível, bela e surpreendente defesa da empatia, da solidariedade e da colaboração entre as pessoas. Uma pérola!
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
Em trânsito: uma resenha do livro "Um apartamento em Urano: crônicas da travessia"
O livro "Um apartamento em Urano: crônicas da travessia", do filósofo Paul B. Preciado é, como diria meu pai, uma doideira - mas uma doideira boa. Trata-se de uma obra questionadora e potente, não indicada (ou, pelo contrário, fortemente indicada) para pessoas de mente estreita. Composta por uma bela introdução e mais 73 pequenos ensaios escritos entre 2010 e 2018 para o jornal francês La Libération e para outras mídias europeias, esta obra trata de variadas questões. Ao longo de suas mais de 300 páginas, Preciado discorre sobre política, viagens, literatura, cinema, educação, ciência, tecnologias, relações amorosas, dentre muitos outros temas. Mas o ponto forte do livro - e de toda a obra do autor - são suas reflexões sobre gênero e sexualidade. Eu destacaria os ensaios em que o autor narra o seu próprio processo de transição, no qual deixou para trás a identidade de Beatriz para se tornar Paul Beatriz Preciado, nome que condensa as identidades masculina e feminina e simboliza, assim, toda sua luta pela superação do binarismo de gênero - e mais profundamente, de todos os binarismos. Como afirma logo na introdução, "Não sou um homem. Não sou uma mulher. Não sou heterossexual. Não sou homossexual. Tampouco sou bissexual. Sou um dissidente do sistema sexo-gênero. Sou a multiplicidade do cosmos encerrada num regime político e epistemológico binário gritando diante de vocês". Preciado não se encaixa e não quer se encaixar em nenhum dos modelos estabelecidos pela sociedade - e convoca seus leitores a não se encaixarem também. Apesar de não apreciar rótulos, o autor se define como um "migrante de gênero", estabelecendo, assim, um interessante paralelo entre sua situação (e das pessoas trans e queer de uma forma geral) e a situação dos imigrantes e refugiados. Nos dois casos as pessoas se encontram sem lugar, em trânsito entre uma condição anterior e uma nova - são, na linguagem do autor, "cidadanias em transição". Enfim, trata-se de um livro sensacional, impactante e necessário, mas cujas ideias dificilmente serão compreendidas, aceitas e colocadas em prática em nossa sociedade - pelo menos por enquanto. Como bem afirmou a escritora Virginie Despentes, no prefácio, dirigindo à Preciado, "você escreve para um tempo que ainda não chegou". Será que um dia chegará?
Trecho do livro: "O que trans e migrantes estão solicitando ao pedir mudança de gênero ou asilo são as próteses administrativas (nomes, direitos de residência, documentos, passaportes…) e bioculturais (alimentos, medicamentos ou compostos bioquímicos, refúgio, linguagem, autorrepresentação…) necessárias para que possam se construir como ficções políticas vivas. A chamada “crise” dos refugiados ou o suposto “problema” das pessoas trans não serão resolvidos com a construção de campos de refugiados ou de clínicas de redesignação sexual. São os sistemas de produção de verdade, de cidadania política e as tecnologias de governo do Estado-nação, assim como a epistemologia do sexo-gênero binário que estão em crise. Portanto, é o espaço político como um todo que deve entrar em transição".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
Sobre a morte e o morrer: uma breve resenha do livro "A morte de Ivan Ilitch"
Nesta pequena obra-prima do escritor russo Lev Tolstói, publicada originalmente em 1886, acompanhamos os últimos momentos do protagonista, Ivan Ilitch. Juiz renomado e membro respeitado da elite russa, Ilitch tinha uma vida confortável e invejável, até desenvolver uma terrível e dolorosa doença, não diagnosticada, aos quarenta e poucos anos. O enredo do livro é incrivelmente simples e universal - "um homem desenvolve uma doença terminal" - mas a força da obra de Tolstói não se encontra no enredo em si e sim na forma como o autor narra o desespero do protagonista ao perceber que sua vida se aproxima do fim. Ilitch, como todos nós, seguia em seu dia-a-dia, imerso em questões profissionais e familiares, sem se dar conta da fragilidade de sua vida e da possibilidade da morte. É claro que ele sabia que os seres humanos são seres mortais, mas a morte, para ele, era algo abstrato, distante, teórico. Não era algo que poderia lhe acometer - e sim ao outro, sempre e somente ao outro. Até que uma doença emerge dentro do seu corpo, gerando um incômodo nos primeiros momentos e dores terríveis e insuportáveis posteriormente. Ilitch se dá conta, então, da realidade da dor e da proximidade da morte. E então começa a questionar seu passado e suas escolhas assim como o próprio sentido da vida - e também da morte. "Por quê, por que todo esse horror?", questiona Ilitch. E ele se choca e se ressente também com a forma como as pessoas ao seu redor, em especial seus familiares, lidam com sua decadência: ao invés de aceitarem sua morte iminente e o confortarem, ficam todo o tempo instilando esperança de cura, mesmo quando já não há mais esperança - Ilitch chama essa forma evasiva de lidar com a morte de "a mentira". Enfim, nesta pequena pérola da literatura russa novecentista - de apenas 70 páginas - Tolstói trata de uma questão existencial central da vida humana que é o medo da morte. Leitura fundamental!
Trecho do livro: "O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo, e que só devia ficar tranquilo e tratar-se, para que sucedesse algo muito bom. Mas ele sabia que, por mais coisas que fizessem, nada resultaria disso, além de sofrimentos ainda mais penosos e morte. E esta mentira atormentava-o, atormentava-o o fato de que não quisessem confessar aquilo que todos sabiam, ele mesmo inclusive, mas procurassem mentir perante ele sobre a sua terrível situação, e obrigassem-no a tomar também parte naquela mentira".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
segunda-feira, 4 de janeiro de 2021
Muito além da realidade: uma breve análise da série "Bom dia, Verônica"
Depois de ler Uma mulher no escuro, do Raphael Montes (que gostei muito), decidi assistir a série Bom dia, Verônica, que é baseada em um livro do autor com a criminóloga Ilana Casoy. Como comentei nas redes sociais, achei o primeiro episódio sofrível, mas segui adiante e assisti toda a primeira temporada. E de fato minha avaliação da série melhorou um pouco: foi de terrível para ruim. Primeiro vamos aos pontos positivos: a trama é instigante, a fotografia é bonita (lembra a da série CSI) e o final traz um gancho bem sólido para uma segunda temporada. Mas os pontos negativos colocam tudo isso por terra: o roteiro é muito fraco, os diálogos são sofríveis e terrivelmente didáticos, os personagens são rasos e as atuações absurdamente artificiais - assim como os cenários, americanizados demais. Os atores bem que tentam dar algum peso às atuações mas jamais conseguem sair da caricatura - eu não os culparia, contudo, e sim o roteiro (exceto no caso da inexpressiva atriz principal). E isto me traz a um outro ponto negativo: a série se vende como uma obra de denúncia dos abusos e violências contra as mulheres, mas eu me questiono até que ponto retratar uma situação tão extrema de fato contribui para a causa. Se retratasse um marido babaca, opressor e violento como tantos que existem por aí, certamente a série estaria mais próxima da realidade que pretendia representar. Mas a série decidiu retratar um sujeito que não é "apenas" um marido opressor e sim um psicopata serial killer que parece ter saído do filme Jogos mortais - e isto deixa a trama pouco crível e distante da realidade. Outro ponto terrivelmente negativo está na forma como a narrativa vincula o comportamento do assassino a certos rituais de "magia negra" que só estigmatizam ainda mais as já estigmatizadas religiões de matriz africana. E o que falar do discurso - totalmente afinado com o bolsonarismo - de que se a justiça não funciona e as instituições estão corrompidas o jeito é fazer justiça com as próprias mãos? Essa representação/defesa do justiçamento não acrescenta em nada às discussões que a série pretende trazer. Enfim, uma série ruim, narrativa e eticamente. Na minha opinião, claro...
domingo, 3 de janeiro de 2021
Mundos irreconciliáveis: uma resenha do livro "Solução de dois Estados"
O livro "Solução de dois Estados", do escritor brasileiro Michel Laub, é descrito na contracapa como "um romance sobre ódio, perdão e os modos como nossa intimidade é definida pela política e pela barbárie do nosso tempo". No entanto, penso que esta descrição não dá totalmente conta da complexidade desta obra. Pra começo de conversa, "Solução de dois Estados" não possui a estrutura convencional de um romance, com uma história sendo contada por um narrador. O que temos são depoimentos contraditórios de dois irmãos (Raquel e Alexandre Tommazzi) concedidos a uma documentarista alemã (Brenda) sobre um episódio de violência envolvendo Raquel. Cabe esclarecer que Raquel é uma artista performática obesa que usa de sua arte para questionar padrões estéticos e violências sofridas por pessoas pessoas como ela própria e Alexandre é um empresário sócio-fundador de uma grande rede de academias de ginástica chamada Império - que possui associações com pastores pentecostais e é acusada por Raquel de ser uma forma de milícia. O livro é estruturado como uma combinação de transcrições (de materiais pré-editados, materiais brutos e materiais extras) que seriam utilizados na realização de um documentário sobre ódio e violência intitulado "Solução de dois Estados?". Grande parte do que lemos são, portanto, trechos de entrevistas com Raquel e Alexandre feitas por Brenda sobre o passado da família Tommazzi, sobre o Império, e sobre a performance de Raquel que culminou em um ato de violência contra ela própria. O que achei mais interessante no livro é que ele traz pontos de vistas radicalmente diferentes sobre os mesmos acontecimentos, apontando, com isso, para a impossibilidade de chegarmos a um entendimento único sobre o presente e o passado. Raquel e Alexandre possuem visões de mundo tão diferentes - como bolsonaristas e antibolsonaristas - que é como se habitassem mundos diferentes. O título do livro dialoga, no meu entender, com a ideia de que a única solução para a coexistência destes dois mundos seria a constituição de dois Estados diferentes. Mas para além desses temas, vejo o livro como uma importante e pertinente análise sobre o valor e o sentido da arte. Recomendo demais!
Trecho do livro: "Sabe qual o problema da ironia? É que ela serve pra ganhar dinheiro, prestígio, o que você quiser, mas nunca vai servir para falar de ódio. O ódio é sempre literal".
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Melhor filme de 2020: "O som do silêncio"
E o prêmio Felipe Lisboa de melhor filme de 2020 vai para... "O som do silêncio". Dentre os inúmeros filmes que assisti esse ano - e eu assisti muitos - penso que este filme, além de todo o primor técnico e artístico, condensa e simboliza muito bem o momento em que vivemos. Lançado em agosto pela Prime Video, este filme conta a história de um baterista de uma banda de heavy metal que perde a audição e busca apoio em uma comunidade de surdos nos Estados Unidos. Um dos aspectos técnicos mais notáveis do filme é que ele leva o espectador a vivenciar a experiência do sujeito com os sons - e também com o silêncio (de forma semelhante ao que foi feito, com o sentido da visão, no filme O escafandro e a borboleta). Eu destacaria ainda a atuação brilhante - ao mesmo tempo intensa e delicada - do ator anglo-paquistanês Riz Ahmed, que merece todos os prêmios possíveis. Acho bastante interessante também a discussão trazida pelo filme sobre como a comunidade surda (ou parte dela) enxerga os tratamentos ou curas para a surdez. Mas o motivo que considero este o filme símbolo deste momento é que ele traz uma narrativa sobre um sujeito que vive uma transformação radical e avassaladora em sua vida (um músico que deixa de escutar, imaginem só!) e que passa a ter, então, duas escolhas para lidar com esta nova situação: tentar (em vão) retornar à sua vida anterior - o que ele faz inicialmente - ou aceitar que a vida nunca mais será a mesma. De certa forma, este é o dilema que cada um de nós teve de lidar em 2020: sonhar com o "velho normal" e fingir que as coisas continuam iguais (como fizeram os "negacionistas") ou então aceitar o tal "novo normal" e tocar a vida tendo em vista que o mundo se alterou provavelmente de forma irreversível. "O som do silêncio" coloca o protagonista em situação análoga à que vivemos neste ano maluco, enquanto indivíduos e enquanto sociedade - e por isso, e também pelo conjunto da obra, considero este o melhor filme de 2020.
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
Melhor livro de não-ficção de 2020: "Talvez você deva conversar com alguém"
E o prêmio Felipe Lisboa de melhor livro de não-ficção de 2020 vai para... "Talvez você deva conversar com alguém", da psicoterapeuta norte-americana Lori Gottlieb. Fiquei curioso para ler esse livro quando vi, na contracapa, uma recomendação do psiquiatra e psicoterapeuta Irvin Yalom, autor que admiro muito e que consegue, como poucos, descrever a complexidade do encontro terapêutico (algo que os livros técnicos raramente conseguem). Pois Lori também é muitíssimo bem-sucedida nesta empreitada. Ouso dizer que ela supera Yalom, pois além de descrever com enorme verossimilhança e sensibilidade alguns atendimentos que realizou ao longo dos anos, Lori ainda conta a sua própria história, com uma sinceridade admirável, por vezes rasgante. Nunca antes tinha lido um livro no qual o/a terapeuta expõe suas dores, seus medos, suas inseguranças - e também suas alegrias e forças - com tanta verdade e sensibilidade como neste livro, cuja narrativa mescla tocantes histórias de pacientes atendidos por Lori com histórias dela própria, muitas passadas ou relatadas no consultório de seu terapeuta. Vemos, assim, os dois lados da moeda: a Lori terapeuta e a Lori paciente. Mas curiosamente, ao expor estas duas facetas, ela consegue um feito admirável: ao mesmo tempo em que mostra a realidade e os bastidores de uma terapia ela consegue demonstrar também o sentido e o valor do processo terapêutico. Ao retirá-lo da torre de marfim, mostrando que terapeutas também são pessoas, ela acaba por mostrar que está justamente aí - no fato de todos serem pessoas - a força do processo, que continua fazendo sentido, apesar de todos os tratamentos farmacológicos disponíveis. Acho bastante difícil resumir esse livro, que traz tantos ensinamentos, tanta verdade e tanta esperança (sem ser piegas e sem flertar com a autoajuda) que eu não tenho como não recomendá-lo para todo mundo, especialmente para psicólogos. Sem dúvida o melhor livro que li esse ano e um dos melhores sobre psicoterapia que já li na vida - muito embora rotulá-lo como um "livro de psicoterapia" seja extremamente equivocado e reducionista: trata-se de um livro sobre a vida e seus enormes e eternos desafios.
Trecho do livro: "Obviamente, os terapeutas lidam com os desafios diários existenciais, como qualquer pessoa. Essa familiaridade, de fato, está na raiz da conexão forjada por nós com estranhos que nos confiam suas mais delicadas histórias e segredos. Nossa formação nos ensinou teorias, ferramentas e técnicas, mas pulsando sob nossa competência adquirida a duras penas está o fato de sabermos o quanto é difícil ser um indivíduo. O que equivale a dizer: continuamos indo trabalhar diariamente sendo nós mesmos, com nosso próprio conjunto de vulnerabilidades, nossos próprios anseios e inseguranças, bem como nossas próprias histórias. De todas as minhas credenciais como terapeuta, a mais significativa é eu ser membro de carteirinha da raça humana".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
quarta-feira, 30 de dezembro de 2020
Racismo sem fim: uma resenha do livro "Eu, Tibuba: bruxa negra de Salem"
Acabei de ler "Eu, Tituba: bruxa negra de Salem", da escritora francesa Maryse Condé (ed. Rosa dos tempos, 2020). E gostei muitíssimo. A obra reconstitui ficcionalmente a trajetória de Tituba, mulher negra escravizada, nascida na Ilha de Barbados e transportada posteriormente aos Estados Unidos, e que foi uma das mulheres julgadas como bruxas nos famosos julgamentos de Salem, ocorridos em 1692 - e que inspiraram o famoso filme Bruxas de Salem, que traz Tituba como uma das personagens secundárias. A ideia da autora foi dar voz à esta personagem marginalizada e esquecida pela história, narrando em primeira pessoa não apenas os acontecimentos de Salem mas também sua vida pregressa e subsequente, desde sua concepção (consequência de um estupro) até sua morte. O que achei mais interessante (e triste) no livro é a forma como a autora, negra, retrata o absurdo que foi a escravidão. Aliás, eu acho sempre chocante lembrar como até bem pouco tempo atrás alguns seres humanos se julgaram superiores ao ponto de se considerarem donos de outros seres humanos. "Eu, Tituba" narra em detalhes toda a humilhação e violência sofridas pela personagem e por outras pessoas escravizadas, expondo de forma terrivelmente dolorosa o racismo dominante naquele momento - e que infelizmente persiste na atualidade. Eu destacaria também a forma como a autora retrata as relações de Tituba com os mortos e com as plantas e os animais, relações estas que eram frequentemente encaradas pelos brancos como provas de sua atividade como bruxa. O livro trata ainda de muitos outros temas e questões, sempre de uma forma sensível e poética. Recomendo demais!
Trecho do livro: "Eu urrava, e, quanto mais eu urrava, mais eu tinha o desejo de urrar. De urrar meu sofrimento, minha revolta, minha raiva impotente. Que mundo era aquele que tinha feito de mim uma escravizada, uma órfã, uma pária? Que mundo era aquele que me separava dos meus? Que me obrigava a viver entre pessoas que não falavam a minha língua, que não compartilhavam minha religião, num país feio, nada agradável?"
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
O cérebro cria a a realidade? Uma resenha crítica do livro O verdadeiro criador de tudo
Li há alguns meses "O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos", novo livro do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor e pesquisador na Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Minha avaliação da obra é que ela começa muito bem e se perde completamente da metade em diante. Quando discorre sobre a abordagem distribuída do cérebro - oposta à localizacionista, prevalente na neurociência contemporânea - e também sobre a interessante Teoria do Cérebro Relativístico, Nicolelis se sai muitíssimo bem e traz contribuições relevantes para o entendimento do cérebro humano - muito embora ele já tenha apresentado tais visões em duas obras anteriores: "Muito além do nosso eu" e "O cérebro relativístico", escrito em parceria com o matemático Ronald Cicurel. Gosto especialmente de sua visão do cérebro como um sistema integrado, dinâmico e complexo que não pode e jamais poderá ser simulado ou reproduzido digitalmente - questão que já discuti anteriormente no post Em busca da imortalidade da mente, no qual cito, inclusive, os argumentos de Nicolelis para a impossibilidade de um upload mental. Na visão do neurocientista o cérebro, sendo um "computador orgânico", funciona de forma completamente distinta de um "computador digital", possuindo propriedades (como a plasticidade) que nunca poderiam ser simuladas por algoritmos digitais, concepção que simplesmente coloca por terra alguns dos estranhos sonhos dos chamados transhumanistas. Por outro lado, quando resolve apresentar sua visão cerebrocêntrica - também chamada de "cosmologia centrada no cérebro" - Nicolelis acaba por se perder. Na visão do neurocientista o cérebro humano está no centro do universo na medida em que ele próprio cria o universo. Sem dúvida, para existirem reflexões e estudos sobre o universo é necessário que existam humanos (com seus cérebros), mas daí dizer que o universo existe apenas na medida em que é concebido pelo cérebro humano - e pior: que o cérebro é o "verdadeiro criador de TUDO" - trata-se, sem dúvida, uma extrapolação desmedida. Com tais afirmações, ainda que não pretenda, Nicolelis acaba por se vincular a uma perspectiva idealista, segundo a qual o mundo só existe enquanto construção mental - ou, no caso de Nicolelis, cerebral. Da metade do livro em diante o neurocientista, utilizando seu equivocado e frágil conceito de brainet - que seria uma espécie de sincronia entre os cérebros humanos - fala um pouco de tudo e se perde ainda mais. Em sua ânsia de explicar o universo, o mundo e até mesmo as sociedades através de sua teoria neurocientifica, Nicolelis acaba por se tornar vítima da própria ambição. Nos últimos capítulos Nicolelis chega ao cúmulo de pretender explicar as guerras e os genocídios pelo conceito de brainet - que, na verdade, poderia ser chamado de humanet, na medida em que aponta para relações e sincronias entre humanos e não entre cérebros isolados. Como Antonio Damásio em seu último livro A estranha ordem das coisas, Nicolelis pretende explicar o social pelo biológico, proposta extremamente equivocada - e, em última instância, reducionista. Enfim, um livro que começa muito bem e termina muito mal.
Quando o cérebro falha: uma resenha do livro No labirinto do cérebro
Li esta semana o livro No labirinto do cérebro, recém-lançado pela editora Companhia das Letras. Achei bom, não excelente. Escrito pelo neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho (filho do também neurocirurgião Paulo Niemeyer e sobrinho do famoso arquiteto Oscar Niemeyer) este livro tem um duplo objetivo: divulgar para um público amplo o conhecimento atual do sistema nervoso humano e, ao mesmo tempo, relatar situações vividas pelo autor em seus muitos anos como neurocirurgião. Quando se foca na divulgação científica o livro não empolga (ou melhor, não me empolgou), pois traz informações já exaustivamente tratadas em inúmeros outros livros de neurociência - pense, por exemplo, nas clássicas histórias dos pacientes HM, Phineas Gage, etc. Por outro lado, o filé mignon do livro são seus relatos de doença e cirurgia que, infelizmente, ocupam, se muito, 10% das páginas. Uma pena, já que o que eu esperava de um livro escrito por um neurocirurgião seriam histórias de sua prática - tal qual fez com brilhantismo o neurocirurgião inglês Henry Marsh na já clássica obra "Sem causar mal: histórias de vida, morte e neurocirurgia", lançada no Brasil em 2016 (e sobre a qual já escrevi anteriormente). Em comparação com o livro de Marsh, falta também à Paulo Niemeyer profundidade emocional em seus relatos. Em geral as histórias clínicas são contadas de forma muito rápida e objetiva, sem que o autor relate sua própria vivência. Ainda assim - o que considero um ponto positivo - Niemeyer relata não apenas casos "bem sucedidos" mas também "fracassos", isto é, casos que não resultaram em melhora ou, pelo contrário, que resultaram em piora ou morte. De uma forma geral considero uma boa obra, que ao mesmo tempo informa sobre a estrutura e o funcionamento cerebral e ainda traz relatos do autor, um experiente neurocirurgião.
Trecho do livro: "Os cirurgiões parecem ter chegado ao limite do que é possível, com uma técnica baseada no conhecimento anatômico e na habilidade manual. Hoje, já não existem áreas do cérebro que sejam inalcançáveis. Podemos atingir qualquer ponto, o que não significa que possamos remover ou corrigir todas as lesões. Os limites agora são características biológicas das doenças. Como curar um tumor maligno que infiltra o cérebro? Certamente, não será pela cirurgia".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
Com o cérebro em mente: uma resenha do livro Mentes, cérebros, almas e deuses
Muito embora eu não seja uma pessoa religiosa - considero-me agnóstico - decidi dar uma chance para este livro, publicado em 2016 pela editora cristã Ultimato e escrito por um cientista católico, o psicólogo britânico Malcolm Jeeves. O livro traz um longo diálogo (imaginário, creio eu) entre Jeeves e um estudante de psicologia cristão em crise com seu curso - na verdade em conflito entre suas crenças religiosas e algumas visões pretensamente científicas que ele se deparou no curso. Os temas discutidos são variados mas passam por muitas questões de interface entre o campo científico e o religioso - os títulos de alguns capítulos, em geral sob a forma de perguntas, ilustram muito bem os tópicos discutidos: "Qual a relação entre mente e cérebro?", "Até que ponto sou livre?", "Mas será que tudo está no cérebro?", "Será que meu cérebro tem um 'módulo de Deus?", "A ciência seria capaz de invalidar a religião?". E qual não foi minha surpresa ao descobrir um excelente livro, que discute com muita ponderação e clareza temas espinhosos ligados tanto à ciência quanto à religião - e ele faz isso sem exaltar ou desmerecer desmedidamente nem uma nem outra. Gostei especialmente da visão critica do autor aos reducionismos e determinismos de toda ordem - em especial aos reducionismos e determinismos biológicos e neurocientificos. Durante todo o livro o autor critica as "simplificações grosseiras" cometidas tanto por cientistas quanto por jornalistas científicos na interpretação de certos resultados científicos e ainda defende uma visão integral do ser humano, entendido por ele como uma "unidade psicobiológica". O autor, que se define como um "monista de aspecto dual" no que diz respeito à relação mente-cérebro defende que "não podemos reduzir o mental ao físico no mesmo grau em que não podemos reduzir o físico ao mental". Por esta e por outras visões considero este um livro precioso, que precisa ser lido não apenas por cristãos mas por todos aqueles que se interessam pelos grandes temas e dilemas filosóficos e científicos dos nossos tempos - e de todos os tempos.
Trecho do livro: "Ao falar sobre a relação mente-cérebro, é preciso ser muito cauteloso com aqueles que usam analogia - por exemplo, o cérebro como computador com seu hardware e software -, como se assim de fato resolvessem o problema mente-cérebro, quando na realidade não fizeram nada além de descrevê-lo de outra maneira".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram- me segue lá: @felipestephan
Remediando a vida: uma resenha do livro Meu ano de descanso e relaxamento
Em meu esforço de ler mais ficção acabei de finalizar mais um livro: "Meu ano de descanso e relaxamento", da escritora norte-americana Ottessa Moshfegh. A obra, que gostei muito, tem como protagonista e narradora uma mulher de quase 30 anos que, após a morte dos pais e o fim de um relacionamento, decide tirar um ano de "descanso e relaxamento", ou melhor, um ano de luto, depressão e intoxicação medicamentosa. Neste ano "sabático" ela planeja basicamente se isolar de tudo e de todos, se entupir de remédios psiquiátricos - receitados por uma psiquiatra terrivelmente antiética e picareta - e simplesmente dormir, isolando-se em si e também de si mesma. Seu plano original era dormir o tempo todo durante um ano, o que, em sua visão distorcida, a faria acordar deste processo renovada e pronta para encarar os desafios da vida. A questão é que seu plano não sai exatamente como planejado, ao menos inicialmente. A narrativa não é, em grande parte, focada na ação da personagem, já que ela se encontra constantemente num estado de quase completa inação e letargia. O foco está nas lembranças, pensamentos e devaneios desta jovem que não consegue ver nada muito claramente - especialmente devido aos efeitos dos inúmeros remédios que ela toma dia e noite, muitas vezes misturados com álcool. O que acho mais interessante no livro é como ele retrata a forma como muitas pessoas lidam com o sofrimento em nossa sociedade - e, em especial, na sociedade norte-americana. Como a personagem, muitas e muitas pessoas têm recorrido a medicações psiquiátricas e outras drogas com o intuito (ilusório) de eliminar sofrimentos que não conseguem ou não querem lidar - e comumente ignoram ou não prestam a devida atenção nos significativos efeitos colaterais, que muitas vezes acrescentam sofrimentos e problemas às suas já complicadas vidas. Enfim, a obra capta muitíssimo bem esse zeitgeist da relação dos sujeitos contemporâneos com o sofrimento e as medicações psiquiátricas. Recomendo fortemente!
Trecho do livro: "E foi durante essa calmaria no drama do sono que entrei numa realidade desconhecida e menos certa. Os dias se arrastavam, havia pouco a ser lembrado, a não ser o entalhe familiar das almofadas do sofá e uma espuma na pia do banheiro que parecia uma paisagem lunar, suas crateras borbulhando sobre a porcelana quando eu lavava o rosto ou escovava os dentes. Mas era apenas isso que acontecia. E talvez eu tivesse sonhado com espuma. Nada parecia real de verdade. Dormindo, acordada, tudo colidia numa viagem cinzenta e monótona de avião por entre as nuvens. Eu não conversava mentalmente comigo mesma. Não tinha muito o que dizer. Foi assim que soube que o sono estava fazendo efeito: estava ficando cada vez menos apegada à vida. Se continuasse, pensei, desapareceria por completo, depois reapareceria sob alguma outra forma. Essa era a minha esperança. Esse era o sonho".
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
O preço da "inteligência": uma resenha do livro Flores para Algernon
Há tempos não me empolgava tanto com um livro de ficção como ocorreu com Flores para Algernon, clássico de ficção científica do escritor norte-americano Daniel Keyes, lançado originalmente em 1966. O livro conta a história de Charlie Gordon um jovem com deficiência intelectual severa que é submetido a uma cirurgia cerebral experimental que faz com que sua inteligência cresça exponencialmente - aliás, acho mais correto afirmar que ocorre um aumento de sua compreensão do mundo e de si mesmo, já que "inteligência" é um termo bastante impreciso e controverso. O mais interessante do livro é que acompanhamos este crescimento intelectual através de um diário escrito pelo próprio Charlie. Inicialmente redigido de uma forma simples e com inúmeros erros linguísticos, tal relato se torna, aos poucos, super bem-escrito e até mesmo sofisticado, à medida em que Charlie vai adquirindo compreensão sobre o mundo e sobre si mesmo. Ao mesmo tempo, à medida em que se torna mais e mais esclarecido, Charlie se torna mais e mais confuso, inseguro e solitário. O livro aponta, nesse sentido, para os efeitos colaterais da "inteligência" - que inclui, no caso específico de Charlie, o questionamento de sua função como cobaia de um experimento científico. Após se identificar com Algernon - um ratinho de laboratório superinteligente utilizado no experimento que serviu de base para a cirurgia que ele foi submetido - Charlie busca se libertar da condição de objeto experimental, tornando-se sujeito de sua vida e de seu destino. "Flores para Algernon" trata de todos estes temas e questões - e muitos outros - com brilhantismo e delicadeza. Recomendo demais!
Trecho do livro: "Sou um gênio? Acho que não. Ainda não, de qualquer forma. Como Burt diria, rindo dos eufemismos do jargão educacional, sou excepcional – um termo democrático usado para evitar os malditos rótulos de talentoso e incapaz (que costumavam dizer brilhante e retardado), e, assim que excepcional começar a significar algo para alguém, vão mudá-lo. A ideia parece ser: use uma expressão enquanto ela não significar nada para ninguém. Excepcional se refere aos dois finais do espectro, então eu fui excepcional a vida inteira. (...) Estranho sobre aprender; quanto mais longe eu vou, mais vejo o que nunca soube que sequer existia. Algum tempo atrás, tolamente imaginei que poderia aprender tudo, todo o conhecimento existente. Agora espero apenas ser capaz de saber de sua existência e entender um mínimo disso”.
Texto escrito originalmente para meu perfil pessoal no Instagram - me segue lá: @felipestephan
domingo, 20 de setembro de 2020
O seu smartphone é uma extensão da sua mente?
Dando continuidade à discussão introduzida no post anterior, compartilho abaixo a tradução que fiz do ensaio Are ‘you’ just inside your skin or is your smartphone part of you? publicado no dia 26 de Fevereiro de 2018 no site AEON pela Karina Vold, pesquisadora do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence da Universidade de Cambridge.
Em novembro de 2017, um homem armado entrou em uma igreja em Sutherland Springs, no Texas, e matou 26 pessoas, ferindo outras 20. Ele fugiu em seu carro, com policiais e moradores no seu encalço, antes de perder o controle do veículo e cair em uma vala. Quando a polícia chegou ao carro, ele já estava morto. Esse episódio já seria terrível o suficiente sem sua conclusão perturbadora: no decorrer de suas investigações, o FBI supostamente pressionou o dedo do atirador no recurso de reconhecimento de impressão digital de seu iPhone para tentar desbloqueá-lo. Independentemente de quem foi afetado, é inquietante pensar na polícia usando um cadáver para invadir a vida digital de uma pessoa após sua morte.
A maioria das constituições democráticas nos protege de violações indesejadas em nosso cérebro e corpo. Elas também consagram nosso direito à liberdade de pensamento e privacidade mental. É por isso que drogas neuroquímicas que interferem no funcionamento cognitivo não podem ser administradas contra a vontade de uma pessoa, a menos que haja uma justificativa médica clara. Da mesma forma, de acordo com o entendimento acadêmico, os responsáveis pela aplicação das leis não podem obrigar alguém a fazer um teste de detector de mentiras, porque isso seria uma invasão de privacidade e uma violação do direito de permanecer em silêncio.
Mas na atual era de tecnologia onipresente, os filósofos estão começando a se perguntar se a anatomia biológica realmente captura a totalidade de quem somos. Dado o papel que desempenham em nossas vidas, nossos dispositivos merecem as mesmas proteções que nossos cérebros e corpos?
Afinal de contas, seu smartphone é muito mais do que um telefone. Ele pode contar uma história mais íntima sobre você do que seu melhor amigo. Nenhum outro dispositivo na história, nem mesmo o seu cérebro, contém a qualidade ou a quantidade de informações contidas no seu smartphone: ele 'sabe' com quem você fala, quando fala, o que você disse, onde você esteve, suas compras, fotos, dados biométricos, até mesmo suas anotações para você mesmo - e ele faz tudo isso já há alguns anos.
Em 2014, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos usou essa observação para justificar a decisão de que a polícia deve obter um mandado antes de vasculhar nossos smartphones. Esses dispositivos "são agora uma parte tão arraigada da vida cotidiana que um visitante de Marte poderia concluir que eles são uma característica fundamental da anatomia humana", observou o presidente do tribunal John Roberts em sua decisão.
O presidente do tribunal provavelmente não estava se utilizando de um argumento metafísico - mas os filósofos Andy Clark e David Chalmers o fizeram quando argumentaram em 'The Extended Mind' (1998) que a tecnologia é, na verdade, parte de nós. De acordo com a ciência cognitiva tradicional, 'pensar' é um processo de manipulação de símbolos ou computação neural, que é executado pelo cérebro. Clark e Chalmers aceitam amplamente essa teoria computacional da mente, mas afirmam que certos dispositivos podem se integrar perfeitamente à maneira como pensamos. Objetos como smartphones ou blocos de notas são muitas vezes tão funcionalmente essenciais para nossa cognição quanto as sinapses disparando em nossas cabeças. Eles aumentam e estendem nossas mentes ao ampliar nosso poder cognitivo e libertar nossos recursos internos.
Se aceita, a tese da mente estendida [extended mind] ameaça algumas suposições culturais arraigadas sobre a natureza inviolável dos nossos pensamentos, que estão no cerne da maioria das normas legais e sociais. Como a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou em 1942: "a liberdade de pensamento é absoluta por sua própria natureza; mesmo o governo mais tirânico não tem o poder de controlar o funcionamento interno da mente". Essa visão tem sua origem em pensadores como John Locke e René Descartes, que argumentaram que a alma humana está presa em um corpo físico, mas que nossos pensamentos existem em um mundo imaterial, inacessível a outras pessoas. A vida interior de uma pessoa, portanto, precisa ser protegida apenas quando é externalizada, por exemplo, por meio da fala. Muitos pesquisadores da ciência cognitiva ainda estão apegados a essa concepção cartesiana - com a diferença de que, atualmente, entendem o domínio privado do pensamento como algo relacionado à atividade cerebral.
As instituições jurídicas atuais, contudo, estão lutando contra esse conceito estreito da mente. Estão tentando entender como a tecnologia está mudando o que significa ser humano e criar novos limites normativos para lidar com esta realidade. O juiz Roberts pode não conhecer a ideia da mente extendida, mas ela corrobora sua irônica observação de que os smartphones se tornaram parte de nosso corpo. Se nossas mentes agora incluem nossos telefones, então somos essencialmente ciborgues: parte-biologia e parte-tecnologia. Levando-se em conta como nossos smartphones assumiram o que antes eram funções de nossos cérebros - lembrar datas, números de telefone, endereços - talvez os dados que eles contêm devam ser tratados da mesma forma que as informações que temos em nossas cabeças. Portanto, se a lei visa proteger a privacidade mental, seus limites precisariam ser estendidos para garantir à nossa anatomia ciborgue as mesmas proteções que nossos cérebros.
Essa linha de raciocínio leva a algumas conclusões potencialmente radicais. Alguns filósofos argumentaram que, quando morremos, nossos dispositivos digitais devem ser tratados como restos mortais: se seu smartphone faz parte de quem você é, então talvez ele deva ser tratado mais como um cadáver do que como um objeto qualquer. Da mesma forma, pode-se argumentar que danificar o smartphone de alguém deveria ser entendido como uma forma "estendida" de agressão, isto é, como algo equivalente a um golpe na cabeça ao invés de simplesmente um dano à uma propriedade. Se suas memórias são apagadas porque alguém o atacou com um porrete, o tribunal não teria problemas em caracterizar o episódio como um incidente violento. Da mesma forma, se alguém quebrar seu smartphone e limpar seu conteúdo, talvez o agressor deva ser punido como ele seria se tivesse causado um traumatismo craniano.
A tese da mente estendida também desafia o papel da lei na proteção tanto dos conteúdos quanto das formas de pensamento - isto é, no resguardo do que e como pensamos a partir de influências indevidas. A legislação impede a interferência não consensual em nossa neuroquímica (por exemplo, por meio de drogas), porque isso interfere no conteúdo de nossa mente. Mas se a cognição engloba dispositivos, então, sem dúvida, eles deveriam estar sujeitos às mesmas proibições. Talvez algumas das técnicas que os anunciantes se utilizam para capturar nossa atenção online, de modo a influenciar nossa tomada de decisão ou manipular resultados de pesquisa, devam contar como intrusões em nosso processo cognitivo. De maneira semelhante, em locais onde a lei protege as formas de pensamento, pode ser necessário garantir o acesso a ferramentas como smartphones - da mesma forma como a liberdade de expressão protege o direito das pessoas não somente para escrever ou falar, mas também para utilizar computadores e disseminar discursos pela internet.
Os tribunais ainda estão longe de chegar a essas decisões. Além dos casos de atiradores em massa que estão nas manchetes, há milhares de casos a cada ano no qual as autoridades policiais tentam obter acesso a dispositivos criptografados. Embora a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos proteja o direito dos indivíduos de permanecerem calados (e, portanto, de não fornecerem suas senhas), juízes em diversos estados decidiram que a polícia pode forçar o indivíduo a fornecer suas impressões digitais para desbloquear o telefone (Com o novo recurso de reconhecimento facial do iPhone X, a polícia pode fazer a pessoa simplesmente olhar para o telefone). Essas decisões refletem o conceito tradicional de que os direitos e liberdades de um indivíduo vão até o limite de sua pele.
No entanto, o conceito de direitos e liberdades pessoais que norteia nossas instituições jurídicas está desatualizado. Ele foi construído com base no modelo de um indivíduo livre que desfruta de uma vida interior intocável. Agora, porém, nossos pensamentos podem ser invadidos antes mesmo de serem desenvolvidos - e de certa forma, talvez isso não seja nada novo. O físico, vencedor do Prêmio Nobel, Richard Feynman costumava dizer que pensava com seu caderno. Sem uma caneta e um lápis, muitas reflexões e análises complexas nunca teriam sido possíveis. Se a visão da mente estendida estiver certa, então mesmo tecnologias simples como essas mereceriam reconhecimento e proteção como partes do kit de ferramentas essencial da mente.
Assinar:
Postagens (Atom)





























