domingo, 15 de março de 2026

Ginástica cerebral funciona? - Parte 2: uma análise do SUPERA® Cognitive Stimulation Study

Mais de dez anos atrás, em dezembro de 2014, eu publiquei neste blog um post intitulado Ginástica cerebral funciona?, no qual analisei um comunicado divulgado em outubro daquele mesmo ano que colocava em xeque as promessas feitas pela chamada “indústria do treinamento cerebral”. O documento, escrito por pesquisadores da Universidade de Stanford e assinado por dezenas de importantes psicólogos cognitivos e neurocientistas de diferentes países, afirmava não existir naquele momento evidências científicas sólidas e confiáveis de que o treinamento cognitivo ou cerebral (mais conhecido no Brasil como “ginástica cerebral”) fosse capaz de promover melhorias amplas e duradouras nas funções cognitivas ou gerar benefícios significativos para a vida cotidiana. Muito menos haveria comprovação de que tais programas pudessem prevenir doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer - promessa frequentemente presente no marketing dessas empresas. Para quem quiser compreender melhor os argumentos apresentados nesse comunicado, recomendo a leitura do post de 2014 (leia aqui).

O que talvez poucos saibam é que este documento provocou forte reação. Alguns meses depois, em dezembro de 2014, foi publicada uma carta aberta, assinada por 113 cientistas, defendendo uma posição mais favorável ao treinamento cognitivo. Essa resposta foi divulgada no site Cognitive Training Data, criado e mantido por Michael Merzenich, professor da Universidade da California, reconhecido por seus estudos sobre plasticidade cerebral. Merzenich também atua como diretor científico da Posit Science, empresa de treinamento cognitivo fundada por ele em 2003 e que é responsável pelo famoso aplicativo BrainHQ. Embora a carta afirme concordar com diversos pontos do comunicado de Stanford, ela sustenta que aquele texto não refletiria o “verdadeiro consenso” da comunidade científica. Segundo os signatários da resposta, já existiria um conjunto substantivo e crescente de pesquisas demonstrando que determinadas formas de treinamento cognitivo podem, sim, produzir melhorias significativas na função cognitiva - inclusive com possíveis efeitos generalizáveis para atividades do cotidiano. Mais do que uma simples divergência pontual, o embate entre esses dois documentos revelou algo mais profundo: o campo do treinamento cognitivo estava - e ainda está - imerso em uma série de conflitos e controvérsias.

Da comparação entre duas publicações emerge uma questão central: como é possível chegar a consensos tão distintos a partir das mesmas evidências? No artigo Do 'brain-training' programs work?, publicado em 2016 e que é talvez o mais importante artigo publicado até hoje sobre o tema, Daniel Simons e colaboradores argumentaram que a divergência decorre de critérios diferentes na avaliação dos estudos. E após examinarem todas as pesquisas revisadas por pares citadas por empresas do setor e listadas no site Cognitive Training Data, os autores concluíram que há evidências de melhora apenas em tarefas específicas treinadas, resultados menos consistentes em tarefas semelhantes e pouca evidência de transferência para atividades distantes ou para a vida cotidiana. Além disso, destacaram fragilidades metodológicas importantes nos estudos analisados. Assim, sustentam que ainda não havia, naquele momento, base científica suficiente para afirmar que o treinamento cerebral produz ganhos cognitivos significativos no mundo real.

Ao longo dos anos seguintes à publicação deste importante artigo, muitas outras pesquisas foram feitas com o intuito de avaliar a eficácia do treinamento cognitivo/cerebral. E hoje, quase dez anos, depois, continuamos do mesmo jeito que em 2016, ou seja, a controvérsia permanece! E um ponto central desta controvérsia diz respeito à capacidade de transferência do treinamento específico para a cognição como um todo e, especialmente para a vida cotidiana. Jogar um determinado "jogo cognitivo" certamente fará com que, pela repetição, a pessoa se torne melhor neste jogo em particular, mas isto não significa que funções cognitivas como a atenção e a memória melhorarão ou que isto desencadeará mudanças positivas e importantes no dia-a-dia da pessoa. Alguns estudos de fato sugerem significativos "efeitos de transferência" dos jogos computadorizados de treinamento cognitivo, mas a maior parte deles - incluindo este importante estudo publicado em 2025 - apontam para efeitos minúsculos ou inexistentes de tais atividades na cognição e na vida das pessoas. 

Mas e quanto às atividades analógicas realizadas por "academias cerebrais" brasileiras como a Supera, a Super Cérebro e a Ginástica do Cérebro? Até muito recentemente não existia qualquer avaliação científica das atividades promovidas por tais empresas, que se baseiam primariamente na prática do ábaco - um instrumento milenar de cálculo -, mas também em jogos de tabuleiro, dinâmicas de grupo e jogos cognitivos de papel como o sudoku. Mas isto mudou com a publicação, em janeiro de 2026, da importante pesquisa SUPERA® Cognitive Stimulation Study, um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores brasileiros. Publicado em inglês no periódico International Psychogeriatrics, o estudo foi liderado pela gerontóloga Thais Bento Lima da Silva, da Universidade de São Paulo, e avaliou os efeitos do programa de estimulação cognitiva promovido pela empresa Supera - e é interessante notar que os próprios autores denominam o programa de “estimulação cognitiva”, e não de “treinamento cognitivo”, já que ele inclui múltiplas atividades. Participaram da pesquisa 207 adultos com 60 anos ou mais, sem comprometimento cognitivo, que foram divididos em três grupos: um grupo que participou do programa de estimulação cognitiva durante 18 meses; um grupo de controle ativo, que participou apenas de atividades educativas sobre saúde e envelhecimento; e um grupo de controle passivo, que não recebeu intervenção. Os participantes foram avaliados ao longo de dois anos por meio de uma bateria extensa de testes cognitivos e de medidas de bem-estar psicológico. Trata-se, portanto, de uma investigação relativamente longa para esse tipo de intervenção, o que permite acompanhar de maneira mais confiável a evolução dos participantes ao longo do tempo.

Os resultados mostram alguns efeitos positivos do programa, mas também ajudam a colocar essas melhorias em perspectiva. O grupo que participou do treinamento apresentou melhora significativa em uma tarefa de fluência verbal (FAS), com manutenção do efeito após seis meses do término do programa. Além disso, análises com escores compostos indicaram ganhos modestos em memória, funções executivas e cognição global ao longo do acompanhamento. Os participantes também relataram redução de queixas cognitivas subjetivas e melhora temporária em alguns indicadores de qualidade de vida. No entanto, os próprios autores ressaltam que a magnitude desses efeitos foi pequena e que várias medidas cognitivas não apresentaram diferenças significativas entre os grupos. Além disso, parte das melhorias observadas refere-se a tarefas relativamente próximas das habilidades treinadas, algo que a literatura costuma chamar de transferência próxima. Um exemplo disso foi o desempenho no teste de cálculo com ábaco - habilidade diretamente treinada durante o programa - no qual os participantes naturalmente se tornaram melhores ao longo do tempo. 

Outro ponto importante é que o estudo não avaliou de forma direta se essas mudanças se traduziram em melhorias concretas no funcionamento cotidiano dos participantes, como maior autonomia ou melhor desempenho em atividades da vida diária. Trata-se justamente do tipo de evidência que mais interessa quando se discute a utilidade real desses programas. Além disso, o próprio artigo reconhece limitações relevantes, como o fato de os participantes terem, em média, nível educacional bastante elevado e de o estudo ter sido financiado pela própria instituição responsável pelo programa de treinamento. Em outras palavras, o novo estudo representa um avanço importante por avaliar, de forma controlada e com metodologia rigorosa, um tipo de intervenção amplamente difundido no Brasil. Ao mesmo tempo, seus resultados parecem reforçar um padrão que já aparece em muitas pesquisas anteriores: programas de treinamento ou estimulação cognitiva podem produzir alguns ganhos mensuráveis em testes específicos e na percepção subjetiva dos participantes, mas as evidências de benefícios amplos, robustos e duradouros para a cognição em geral - e especialmente para a vida cotidiana - continuam sendo modestas e objeto de debate na literatura científica.

Leia também Treinamento cerebral e efeito placebo

O estudo do autismo é o trabalho da minha vida. O espectro perdeu todo o sentido (Tradução)

Compartilho abaixo a tradução que fiz da reportagem "Autism study is my life’s work. The spectrum has lost all meaning: A professor who helped to shape our framing of the condition fears so many characteristics are linked to it that it’s ‘no longer a useful diagnosis’" (Estudo do autismo é o trabalho da minha vida. O espectro perdeu todo o sentido - Uma professora que ajudou a moldar a forma como entendemos a condição teme que tantas características estejam sendo associadas ao autismo que ele "deixou de ser um diagnóstico útil"), escrita pela jornalista Madeleine Spence e publicada no jornal The Sunday Times no dia 7 de Março de 2026.

Quando Dame Uta Frith começou a pesquisar o autismo, seis décadas atrás, tratava-se de uma condição extremamente rara e pouco compreendida, que os psicólogos chamavam de “psicose infantil”. Isso foi em 1966, e nas décadas seguintes a pesquisadora desempenharia um papel central na mudança da forma como o mundo enxerga o transtorno.

Ela expandiu nossa compreensão do autismo, sendo pioneira na abordagem da "teoria da mente", que propunha que pessoas com autismo têm dificuldade em atribuir crenças e estados mentais a outras pessoas, e ainda se contrapôs à ortodoxia da época que culpava a falta de amor parental pelo desenvolvimento atípico de crianças autistas. Ao longo de sua trajetória, ela defendeu que o autismo existe em um espectro de apresentações típicas e "não tão típicas" do transtorno. E este conceito de espectro tem sido aceito e pouco questionado há quatro décadas. Até agora. E é a própria Frith quem está questionando.

Hoje professora emérita de desenvolvimento cognitivo no Institute of Cognitive Neuroscience da University College London, Frith, aos 84 anos, está repensando esse enquadramento. “Acho que o espectro chegou ao seu colapso”, diz ela, em uma conversa pelo Zoom. Seu modo cordial e gentil parece contrastar com a gravidade do que afirma: para Frith, o espectro do autismo está quebrado. Nossa abordagem, segundo ela, no melhor dos casos deixou de ser relevante e, no pior, pode ser prejudicial. Mais do que isso, ela também questiona uma doutrina científica contemporânea que valoriza a inclusão como um fim em si mesmo.

Segundo Frith, foi essa busca por inclusão que fez com que “já não exista mais um denominador comum entre todos os indivíduos diagnosticados com TEA [transtorno do espectro autista]”.

“O espectro tornou-se tão abrangente que temo que tenha sido esticado a tal ponto que perdeu o sentido e deixou de ser útil como diagnóstico médico.”

Nas últimas décadas, as taxas de diagnóstico de autismo aumentaram drasticamente. Em 1998, apenas 0,1% da população da Inglaterra tinha o diagnóstico de autismo. Em 2024, esse número subiu para 1,33% (cerca de 750 mil pessoas), segundo dados do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido). Os números podem parecer pequenos, mas representam um aumento significativo e afetam aqueles que estão nas listas de espera do NHS aguardando diagnóstico e apoio.

O aumento recente de casos “não se distribuiu igualmente ao longo do espectro”, afirma Frith. “O grupo de crianças diagnosticadas na primeira infância, segundo os critérios diagnósticos iniciais mais rigorosos, permaneceu relativamente estável.” Esses critérios identificam o autismo como um transtorno do neurodesenvolvimento ao longo da vida, que começa no nascimento (ou talvez até antes, diz Frith) e envolve prejuízos na fala, na linguagem e na comunicação não verbal, afetando as habilidades sociais, os relacionamentos e a aprendizagem. Também pode afetar o QI e frequentemente envolve uma “necessidade extrema de rotina” e comportamentos repetitivos.

Mas existe um segundo grupo, no outro extremo do espectro, composto por pessoas com dificuldades mais leves, argumenta Frith: “Esses indivíduos não apresentam deficiência intelectual e são verbalmente fluentes, mas tendem a sentir intensa ansiedade em situações sociais e são hipersensíveis”.

Houve um aumento dramático no número de jovens e adultos diagnosticados nesse grupo, especialmente mulheres, afirma Frith. Estudos nos Estados Unidos e na Suécia mostram que as taxas de mulheres com autismo estão aumentando mais rapidamente do que em outros grupos e que elas estão sendo diagnosticadas mais tarde na vida. Ao mesmo tempo, o autismo “tornou-se glamorizado, e o diagnóstico passou a ser, em certa medida, desejável”, à medida que a cultura popular exalta personagens fictícios com traços autistas. “Não vemos a esquizofrenia sendo glamorizada da mesma forma”, afirma Frith.

Frith, que iniciou sua carreira acadêmica na Universidade do Sarre, na Alemanha, preocupa-se com as consequências disso: “a taxa assustadora de aumento entre os grupos diagnosticados mais tardiamente acaba ofuscando as necessidades daqueles com deficiência intelectual, que precisam de apoio muito mais intensivo”.

Então, como chegamos a esse ponto?

“Ao longo dos anos, nossa definição básica de autismo permaneceu a mesma, mas foi nossa interpretação que mudou”, explica Frith. Quando começou a pesquisar o autismo, o diagnóstico era restrito e aplicado a crianças não verbais com comprometimentos graves. Na década de 1980, Frith começou a encontrar crianças que, em sua avaliação, não se encaixavam perfeitamente no diagnóstico de autismo, mas apresentavam algumas de suas características - os casos “não tão típicos”. Eram crianças que tinham traços autistas, mas também linguagem fluente e alta inteligência. Elas eram muito semelhantes às crianças descritas na década de 1940 pelo médico austríaco Hans Asperger, outro pioneiro da área, cujo nome foi associado à síndrome de Asperger. Frith defendeu que elas também deveriam ser incluídas no estudo do autismo.

Esta foi a força motriz por trás da ideia de que o autismo seria um transtorno existente ao longo de um espectro - conceito atribuído à psiquiatra britânica Lorna Wing que vem sendo utilizado desde a década de 1980.

Foi uma forma de incluir aquelas crianças que anteriormente não apareciam nas pesquisas e, naquele momento, ampliar a inclusão foi algo positivo, diz Frith.

Hoje, porém, a extremidade mais leve do espectro foi ampliada ainda mais, passando a incluir sintomas que antes poderiam ser considerados traços de personalidade ou sensibilidades individuais, como aversão a ruídos ou dificuldades sociais.

Parte do problema é que o autismo não possui um “biomarcador”: não existe exame de sangue, teste genético ou exame de imagem que mostre que alguém é autista. “Se tivéssemos biomarcadores, o diagnóstico não seria controverso”, afirma Frith.

Ela não está tentando depreciar aqueles que apresentam esses sintomas mais leves, nem sugerir que não exista nada clinicamente relevante nos casos que ela rotula de forma ampla como “hipersensibilidade”. Mas, como costuma brincar, ela é uma cientista fria e calculista [cold hard scientist]. E simplesmente não há evidências clínicas suficientes para incluir essas pessoas no espectro do autismo.

Para Frith, a ampliação do espectro também representa um afastamento preocupante do rigor clínico esperado em um campo científico. Ela cita o exemplo de jovens adultos que se autodiagnosticam com autismo após lerem sobre o tema na internet ou nas redes sociais e associam o transtorno à sua intensa ansiedade social, embora possuam excelentes habilidades de comunicação.

“Ter uma conversa com alguém com autismo geralmente não é algo fluido; a conversa tende a ser truncada ou confusa. Portanto, essa fluência  na comunicação é um indicativo contrário ao diagnóstico de autismo”, afirma Frith.

As implicações clínicas disso são particularmente preocupantes, diz ela. O sobrediagnóstico dilui a pesquisa, argumenta Frith, porque mistura grupos que podem ter causas biológicas diferentes e disfunções cognitivas distintas. “Isso torna os dados que obtemos de grandes grupos muito confusos.”

Ela acredita que deveríamos abandonar completamente a ideia de espectro. Em seu lugar, gostaria de ver subcategorias que separassem aqueles com autismo infantil no sentido clínico estrito, aqueles com síndrome de Asperger e aqueles com hipersensibilidade.

“Espero que possamos encontrar subgrupos significativos, cada um com seu próprio diagnóstico”, afirma.

domingo, 1 de março de 2026

Impressões sobre o documentário alemão "Irvin Yalom - De Frente para o Sol"

O documentário "Irvin Yalom - De Frente para o Sol" (Irvin Yalom - In die Sonne schauen), produção alemã lançada em 2023, está longe de ser um grande filme - eu diria mais: ele chega a soar como um desperdício de tempo e dinheiro. A equipe teve acesso privilegiado a Irvin Yalom e à sua família, pôde filmá-lo em momentos íntimos, acompanhar sua rotina, registrar conversas pessoais e ainda assim entregou um trabalho superficial, curto demais (com apenas 50 minutos) e sem o aprofundamento que um personagem dessa estatura claramente merecia. Falta ao documentário um fio narrativo mais consistente, maior contextualização da trajetória profissional e intelectual de Yalom e, sobretudo, mais tempo para desenvolver temas que aparecem apenas de passagem, como sua relação com a morte, o envelhecimento, a escrita e a própria prática clínica. Ainda assim, apesar dessas limitações, o filme tem qualidades que o tornam interessante para quem admira a obra de Yalom. O tom é bastante intimista, com belas imagens de arquivo, cenas familiares e depoimentos sinceros do próprio Irvin, de seus filhos, de um neto e também de sua atual esposa, Sakino Sternberg - e pelo filme ficamos sabendo que eles estavam, naquele momento, escrevendo um livro juntos (que ainda não foi publicado). Há também pequenas passagens que mostram Yalom com 91 anos refletindo sobre a vida e o envelhecer com a consciência cada vez mais concreta da finitude - reflexões que atravessam toda a sua obra, mas que aqui aparecem mais sugeridas do que exploradas.

Entre todas as falas, duas me chamaram particularmente a atenção. A primeira é quando Yalom afirma considerar Os desafios da terapia o seu melhor livro - avaliação com a qual concordo totalmente. A segunda, mais surpreendente, é um desabafo de sua filha Eve, que afirma que o pai “nunca fez nada por sua família”. Ela explica que, enquanto Irvin se dedicava ao trabalho clínico e à escrita dos seus livros, praticamente todas as responsabilidades com relação à casa e à criação dos filhos ficaram a cargo de sua primeira esposa, Marilyn Yalom, que ainda precisava conciliar essas tarefas com sua própria carreira acadêmica - e segundo Eve, isso foi fonte de tensão entre eles durante anos. Esse depoimento é talvez o momento mais forte do documentário, justamente porque rompe com a imagem idealizada do casal que aparece no livro Uma questão de vida e morte, escrito por ambos. Ali, a relação entre Irvin e Marilyn é retratada de forma extremamente harmoniosa e exemplar, quase idílica; no filme, surge uma dimensão mais humana, com conflitos e desigualdades muito comuns às antigas (e atuais) gerações. O resultado é interessante porque mostra que o sujeito pode ser um grande terapeuta e escritor e, ao mesmo tempo, um marido e pai bastante tradicional, no pior sentido da palavra. No fim das contas, "Irvin Yalom: De Frente para o Sol" não é um filme memorável, nem faz jus à importância de seu protagonista. Ainda assim, vale a pena ser visto por quem se interessa pela obra de Yalom, justamente por causa desses fragmentos mais pessoais, desses pequenos deslizes de sinceridade e das cenas que expõem, mesmo que rapidamente, a pessoa por trás do autor. E é por conta desses momentos - e não pela qualidade do documentário como um todo - que eu recomendo o filme, atualmente disponível no canal Aquarius da Prime Video.

Pós-escrito: há também um documentário mais antigo, de 2014, que trata da vida e obra de Yalom. O filme, dirigido por Sabine Gisiger, chama-se "Yalom's cure" e está disponível no Youtube gratuitamente - mas infelizmente sem legendas em português. Se tiver interesse assista abaixo.