Mais de dez anos atrás, em dezembro de 2014, eu publiquei neste blog um post intitulado Ginástica cerebral funciona?, no qual analisei um comunicado divulgado em outubro daquele mesmo ano que colocava em xeque as promessas feitas pela chamada “indústria do treinamento cerebral”. O documento, escrito por pesquisadores da Universidade de Stanford e assinado por dezenas de importantes psicólogos cognitivos e neurocientistas de diferentes países, afirmava não existir naquele momento evidências científicas sólidas e confiáveis de que o treinamento cognitivo ou cerebral (mais conhecido no Brasil como “ginástica cerebral”) fosse capaz de promover melhorias amplas e duradouras nas funções cognitivas ou gerar benefícios significativos para a vida cotidiana. Muito menos haveria comprovação de que tais programas pudessem prevenir doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer - promessa frequentemente presente no marketing dessas empresas. Para quem quiser compreender melhor os argumentos apresentados nesse comunicado, recomendo a leitura do post de 2014 (leia aqui).
O que talvez poucos saibam é que este documento provocou forte reação. Alguns meses depois, em dezembro de 2014, foi publicada uma carta aberta, assinada por 113 cientistas, defendendo uma posição mais favorável ao treinamento cognitivo. Essa resposta foi divulgada no site Cognitive Training Data, criado e mantido por Michael Merzenich, professor da Universidade da California, reconhecido por seus estudos sobre plasticidade cerebral. Merzenich também atua como diretor científico da Posit Science, empresa de treinamento cognitivo fundada por ele em 2003 e que é responsável pelo famoso aplicativo BrainHQ. Embora a carta afirme concordar com diversos pontos do comunicado de Stanford, ela sustenta que aquele texto não refletiria o “verdadeiro consenso” da comunidade científica. Segundo os signatários da resposta, já existiria um conjunto substantivo e crescente de pesquisas demonstrando que determinadas formas de treinamento cognitivo podem, sim, produzir melhorias significativas na função cognitiva - inclusive com possíveis efeitos generalizáveis para atividades do cotidiano. Mais do que uma simples divergência pontual, o embate entre esses dois documentos revelou algo mais profundo: o campo do treinamento cognitivo estava - e ainda está - imerso em uma série de conflitos e controvérsias.
Da comparação entre duas publicações emerge uma questão central: como é possível chegar a consensos tão distintos a partir das mesmas evidências? No artigo Do 'brain-training' programs work?, publicado em 2016 e que é talvez o mais importante artigo publicado até hoje sobre o tema, Daniel Simons e colaboradores argumentaram que a divergência decorre de critérios diferentes na avaliação dos estudos. E após examinarem todas as pesquisas revisadas por pares citadas por empresas do setor e listadas no site Cognitive Training Data, os autores concluíram que há evidências de melhora apenas em tarefas específicas treinadas, resultados menos consistentes em tarefas semelhantes e pouca evidência de transferência para atividades distantes ou para a vida cotidiana. Além disso, destacaram fragilidades metodológicas importantes nos estudos analisados. Assim, sustentam que ainda não havia, naquele momento, base científica suficiente para afirmar que o treinamento cerebral produz ganhos cognitivos significativos no mundo real.
Ao longo dos anos seguintes à publicação deste importante artigo, muitas outras pesquisas foram feitas com o intuito de avaliar a eficácia do treinamento cognitivo/cerebral. E hoje, quase dez anos, depois, continuamos do mesmo jeito que em 2016, ou seja, a controvérsia permanece! E um ponto central desta controvérsia diz respeito à capacidade de transferência do treinamento específico para a cognição como um todo e, especialmente para a vida cotidiana. Jogar um determinado "jogo cognitivo" certamente fará com que, pela repetição, a pessoa se torne melhor neste jogo em particular, mas isto não significa que funções cognitivas como a atenção e a memória melhorarão ou que isto desencadeará mudanças positivas e importantes no dia-a-dia da pessoa. Alguns estudos de fato sugerem significativos "efeitos de transferência" dos jogos computadorizados de treinamento cognitivo, mas a maior parte deles - incluindo este importante estudo publicado em 2025 - apontam para efeitos minúsculos ou inexistentes de tais atividades na cognição e na vida das pessoas.
Mas e quanto às atividades analógicas realizadas por "academias cerebrais" brasileiras como a Supera, a Super Cérebro e a Ginástica do Cérebro? Até muito recentemente não existia qualquer avaliação científica das atividades promovidas por tais empresas, que se baseiam primariamente na prática do ábaco - um instrumento milenar de cálculo -, mas também em jogos de tabuleiro, dinâmicas de grupo e jogos cognitivos de papel como o sudoku. Mas isto mudou com a publicação, em janeiro de 2026, da importante pesquisa SUPERA® Cognitive Stimulation Study, um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores brasileiros. Publicado em inglês no periódico International Psychogeriatrics, o estudo foi liderado pela gerontóloga Thais Bento Lima da Silva, da Universidade de São Paulo, e avaliou os efeitos do programa de estimulação cognitiva promovido pela empresa Supera - e é interessante notar que os próprios autores denominam o programa de “estimulação cognitiva”, e não de “treinamento cognitivo”, já que ele inclui múltiplas atividades. Participaram da pesquisa 207 adultos com 60 anos ou mais, sem comprometimento cognitivo, que foram divididos em três grupos: um grupo que participou do programa de estimulação cognitiva durante 18 meses; um grupo de controle ativo, que participou apenas de atividades educativas sobre saúde e envelhecimento; e um grupo de controle passivo, que não recebeu intervenção. Os participantes foram avaliados ao longo de dois anos por meio de uma bateria extensa de testes cognitivos e de medidas de bem-estar psicológico. Trata-se, portanto, de uma investigação relativamente longa para esse tipo de intervenção, o que permite acompanhar de maneira mais confiável a evolução dos participantes ao longo do tempo.
Os resultados mostram alguns efeitos positivos do programa, mas também ajudam a colocar essas melhorias em perspectiva. O grupo que participou do treinamento apresentou melhora significativa em uma tarefa de fluência verbal (FAS), com manutenção do efeito após seis meses do término do programa. Além disso, análises com escores compostos indicaram ganhos modestos em memória, funções executivas e cognição global ao longo do acompanhamento. Os participantes também relataram redução de queixas cognitivas subjetivas e melhora temporária em alguns indicadores de qualidade de vida. No entanto, os próprios autores ressaltam que a magnitude desses efeitos foi pequena e que várias medidas cognitivas não apresentaram diferenças significativas entre os grupos. Além disso, parte das melhorias observadas refere-se a tarefas relativamente próximas das habilidades treinadas, algo que a literatura costuma chamar de transferência próxima. Um exemplo disso foi o desempenho no teste de cálculo com ábaco - habilidade diretamente treinada durante o programa - no qual os participantes naturalmente se tornaram melhores ao longo do tempo.
Outro ponto importante é que o estudo não avaliou de forma direta se essas mudanças se traduziram em melhorias concretas no funcionamento cotidiano dos participantes, como maior autonomia ou melhor desempenho em atividades da vida diária. Trata-se justamente do tipo de evidência que mais interessa quando se discute a utilidade real desses programas. Além disso, o próprio artigo reconhece limitações relevantes, como o fato de os participantes terem, em média, nível educacional bastante elevado e de o estudo ter sido financiado pela própria instituição responsável pelo programa de treinamento. Em outras palavras, o novo estudo representa um avanço importante por avaliar, de forma controlada e com metodologia rigorosa, um tipo de intervenção amplamente difundido no Brasil. Ao mesmo tempo, seus resultados parecem reforçar um padrão que já aparece em muitas pesquisas anteriores: programas de treinamento ou estimulação cognitiva podem produzir alguns ganhos mensuráveis em testes específicos e na percepção subjetiva dos participantes, mas as evidências de benefícios amplos, robustos e duradouros para a cognição em geral - e especialmente para a vida cotidiana - continuam sendo modestas e objeto de debate na literatura científica.
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