quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dois videos sobre algumas (neuro)coisas

Compartilho abaixo, com os leitores deste blog (se é que alguém ainda lê este blog), dois videos publicados no Youtube em 2025: o primeiro deles é de uma entrevista que eu dei para um curso de formação online de professores do ensino básico sobre o tema da aproximação entre neurociências e educação, tema que eu me dediquei no mestrado - e que resultou na minha dissertação, que posteriormente foi adaptada e transformada no livro "O cérebro vai à escola: aproximações entre neurociências e educação no Brasil", lançado em 2016 pela editora Paco; o outro vídeo é de uma palestra que eu ministrei durante o III Congresso de Saúde Mental da UFV. Nesta palestra, intitulada "Tecnologias para o aprimoramento do cérebro e da mente: uma análise crítica" eu falo especialmente do tema do treinamento cognitivo ou cerebral, tema que eu me dediquei no doutorado - e que resultou na minha tese, que em breve será publicada como livro também pela editora Paco. A palestra tem início às 1h8min do video. Espero que gostem...
 

Um breve comentário sobre o filme "Vampira humanista procura suicida voluntário"

Sasha é uma jovem vampira no mínimo diferente. Seria possível dizer até que ela tem uma anomalia ou - porque não? - um transtorno mental: ela se importa com os seres humanos e não consegue matá-los para se alimentar, o que deixa sua família vampírica extremamente frustrada e preocupada. E por conta desse "transtorno" ela se alimenta apenas do sangue extraído de pessoas mortas por seus pais - em um processo de autoengano semelhante ao que nós fazemos quando comemos um bife nos "esquecendo" temporariamente que aquela carne é o resultado da morte de um animal. Pois essa é a história do incrível filme canadense "Vampira humanista procura suicida voluntário" (2023), dirigido pela cineasta Ariane Louis-Seize e recém-incluído no catálogo da Netflix. O que eu acho mais fascinante nessa história é que ela deixa bem claro como as noções de normalidade e de patologia dependem fundamentalmente do contexto em que a pessoa vive. E no contexto criado pelo filme, ser uma vampira humanista é visto, especialmente por sua família, como algo anormal, doentio, patológico e que, portanto, precisa ser tratado ou curado, de forma a enquadrar a pessoa à tal "normalidade". Sério, não deixem de assistir esse filme precioso lá na Netflix!

Entre o ceticismo e a fé: uma resenha do romance "Batida só", da Giovana Madalosso

Durante um assalto, Maria João desmaia e por conta disso é levada a um hospital, onde descobre, após despertar, que possui uma grave arritmia cardíaca - totalmente desconhecida por ela até então. A questão é que após tal descoberta, Maria passa por uma bateria de exames e seu cardiologista, além de lhe prescrever alguns remédios para atenuar a arritmia, recomenda que ela tente evitar "toda e qualquer emoção forte" - mas como fazer isso? Nós temos algum controle sobre as nossas emoções? E mais profundamente: o que é uma emoção? Pois esse é o ponto de partida do maravilhoso livro "Batida só", terceiro romance da escritora curitibana Giovana Madalosso (os anteriores são o interessante Tudo pode ser roubado e o fenomenal Suite Tóquio). Sem entrar em muitos detalhes da narrativa é possível dizer que após receber tal recomendação, Maria procura um psiquiatra na esperança de que algum psicofármaco a ajude a controlar e atenuar suas emoções - o que de fato acontece: o antidepressivo prescrito faz com que suas ansiedades e angústias (mas também suas alegrias e sua libido) se tornem fracas e distantes em sua mente, como se ela nada sentisse. Ao mesmo tempo, Maria opta por se mudar por um tempo para a cidade onde cresceu, uma pequena cidade do interior, com o objetivo de descansar e tentar acalmar, ainda mais, as suas emoções. E lá ela reencontra uma antiga amiga de infância, a Sara, que é mãe de Nico, um garoto brilhante e adorável acometido por uma doença gravíssima. Unidos pelo adoecimento, todos eles partem para uma cidade vizinha onde tratamentos espirituais (bem ao estilo de João de Deus) são realizados. Acontece que Maria é ateia e cética com relação a tudo o que é realizado lá, bem o contrário de Sara, que possui uma forte e inabalável fé. Uma das grandes riquezas do livro está justamente na forma como ele trata o embate e as aproximações entre ceticismo e fé, entre razão e emoção e entre pessimismo e esperança. Meu destaque fica para o encantador Nico, meu personagem favorito da história, que incorpora com brilhantismo todas as ambivalências e contradições dessas discussões - e de muitas outras - trabalhadas com muito talento e sensibilidade pela autora neste livro lançado em 2025 pela editora Todavia. Amei!

Trecho do livro: "Até ter aquela cardiopatia, eu era como a maioria das pessoas, achava que a medicina tinha evoluído a ponto de resolver qualquer problema. É assim que os leigos falam: hoje em dia tem tratamento pra tudo (...). Só quando a doença está no seu corpo você descobre a verdade. E a verdade é que a medicina é uma ciência de poréns. Não existe consenso absoluto entre os médicos. Mesmo no meu caso, que as opiniões convergiam e o tratamento prometia dar certo, havia discordâncias. Não há garantia de nada - cada corpo é uma folha em branco a escrever todo dia a sua própria e única história. O que parece fácil de resolver é sempre um pouco mais complexo do que se espera. E algumas vezes a solução não existe. Ou é um daqueles artigos de luxo a que só uma ínfima parte da população pode ter acesso".

A potência do encontro terapêutico: uma resenha do livro "E como você se sente em relação a isso?"

No livro "E como você se sente em relação a isso?", o psicoterapeuta inglês Joshua Fletcher intercala algumas (ótimas) histórias de psicoterapia com histórias da sua própria vida. Muito embora os relatos pessoais sejam interessantes, por demonstrarem o fato óbvio, por vezes esquecido, de que terapeutas são humanos e também sofrem e passam por problemas assim como seus pacientes, o ponto alto do livro, sem dúvida alguma, são suas ótimas histórias de terapia. Como eu cheguei a dizer na resenha que fiz do maravilhoso "Talvez você deva conversar com alguém", escrito pela terapeuta Lori Gottlieb, pouquíssimos livros, especialmente livros técnicos, conseguem transmitir a complexidade e a potência do encontro terapêutico. Os mais bem-sucedidos nessa empreitada são aqueles e aquelas com boas habilidades na escrita literária, como é o caso de Irvin Yalom mas também de Gottlieb... e de Fletcher. No caso de Fletcher, além de narrar com muito talento algumas sessões de terapia, ele escolheu os casos para o livro com muita sabedoria: são casos que exploram variadas facetas, desafios e, até mesmo, frustrações do trabalho terapêutico. O que achei mais interessante é que ele optou por narrar tanto casos que poderíamos chamar de bem-sucedidos, nos quais as pessoas apresentaram melhoras significativas, quanto casos que tiveram um desfecho ruim, seja em função de uma desistência ou por conta do interesse romântico que ele desenvolveu por uma determinada paciente. Eu preciso salientar e elogiar, nesse sentido, a enorme sinceridade com que Fletcher se expressa, seja ao expor os seus pensamentos durante as sessões, seja ao relatar episódios nada agradáveis ou lisonjeiros de sua própria vida - algo que exige muita coragem. Mas eu preciso elogiar também a forma como ele conduz as sessões, com muita empatia, ternura e sensatez. É claro que não temos como saber o quão precisas e fiéis são suas narrativas de terapia, mas o fato é que elas pareceram para mim - que já tenho, como ele, uma boa experiência clínica - extremamente verossímeis. Por tudo isso, gostaria de recomendar com muito entusiasmo a leitura deste ótimo livro, lançado em 2024 pela Editora Sextante.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tradução: Ainda faz sentido chamar a dependência química de "doença cerebral"? (AEON)

“Meu nome é Isabel e eu sou alcoolista”, disse a mulher, apresentando-se na sessão de terapia em grupo. “Estou sem beber há 22 anos.” Uma de nós, Chrysanthi, estava presente como estagiária clínica. Com curiosidade genuína, ela perguntou: “O que faz de você uma alcoolista se não bebe há quase um quarto de século?” Isabel a olhou, um pouco perplexa, e respondeu: “É uma doença. Eu a tenho no meu cérebro.”

Para Isabel (nome fictício), compreender sua dependência química como uma doença cerebral foi libertador. Sua experiência ilustra como o modelo de dependência química como doença cerebral, formulado pela primeira vez em 1997 pelo psicólogo norte-americano Alan Leshner, provavelmente ajudou algumas pessoas a enfrentarem a dependência química com menos culpa e autorrecriminação. O modelo conferiu legitimidade científica a um conceito mais antigo, popularizado pelos Alcoólicos Anônimos, que definia a dependência química como uma doença crônica que exigia apoio espiritual e comunitário, em vez de punição e vergonha. Ao retirar os elementos espirituais e morais desse conceito, o modelo da doença cerebral buscava eliminar de vez o estigma em torno da dependência química: a ciência acabaria por provar que a dependência química resulta de uma disfunção cerebral, não de falhas de caráter.

De fato, reduzir o estigma era uma das metas explícitas desse modelo. Ao mesmo tempo, ele inaugurou uma nova forma de explicar a dependência química: como uma condição crônica causada por alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro. Esse modelo emergiu de uma mudança cultural mais ampla, que começou nos anos 1960 e culminou nos anos 1990 com o advento das técnicas de neuroimagem, priorizando cada vez mais a neurociência na compreensão dos transtornos mentais. O modelo moldou prioridades de pesquisa em todo o mundo. Decifrar as causas biológicas da dependência química deveria levar a tratamentos mais eficazes, incluindo intervenções precisas voltadas para processos neurobiológicos ou neuroquímicos específicos.

Quase três décadas depois, é importante avaliar até que ponto esse modelo cumpriu o que prometia. O modelo da doença cerebral ainda é a melhor forma de pensar a dependência química? Os resultados produzidos por ele justificam ensinar gerações inteiras de pacientes, famílias e clínicos a ver a dependência química sobretudo como uma patologia cerebral individual?

A resposta curta é que o modelo da doença cerebral não cumpriu o prometido. Após inúmeros estudos encontrando diferenças neurobiológicas fracas entre pessoas com transtornos por uso de substâncias e aquelas sem tais transtornos, nenhum biomarcador confiável para diagnóstico, prognóstico ou tratamento personalizado foi identificado. Os tratamentos mais eficazes para a dependência química são psicossociais – incluindo grupos de apoio e terapia – ou foram desenvolvidos muito antes da ascensão do modelo da doença cerebral. Por exemplo, a metadona foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA, equivalente da Anvisa) nos anos 1970 para transtorno por uso de opioides, a naltrexona nos anos 1980. E a buprenorfina foi aprovada no início dos anos 2000 – justamente quando o modelo cerebral ganhava força, mas sem ligação direta com ele.

Embora relatos pessoais como o de Isabel não sejam incomuns entre pessoas com dependência química, o impacto do modelo da doença cerebral sobre o estigma é mais complexo do que se supõe. Pesquisas recentes mostram que aceitar esse modelo não reduz substancialmente o estigma na população geral, nem diminui o apoio a respostas punitivas à dependência química. A ideia de que alguém com dependência química tem uma doença cerebral pode até reforçar o estigma em alguns casos, alimentando pessimismo quanto às chances de recuperação e um menor senso de agência pessoal. Medicalizar uma condição não a destigmatiza automaticamente; rótulos de doença podem, eles mesmos, ser altamente estigmatizantes, como se viu em condições como HIV/AIDS.

Avaliar o status científico do modelo da doença cerebral revela uma fonte mais profunda de confusão: não está totalmente claro o que significa dizer que a dependência química é uma doença cerebral. Isso significa apenas que, como a dependência química é um transtorno mental, e toda atividade mental reside no cérebro, então a dependência deve ser também uma “doença cerebral”? Ou significa que ela é semelhante a condições universalmente reconhecidas como doenças cerebrais, como câncer cerebral ou doença de Parkinson?

A formulação inicial de Leshner do modelo da doença cerebral se alinhava mais a esta última visão. Nos anos 2000, a dependência química era frequentemente comparada a doenças como o Alzheimer e o AVC. Acreditava-se que resultava de uma vulnerabilidade genética aos efeitos das drogas, combinada a mudanças cerebrais induzidas pelas drogas em regiões ligadas à recompensa, ao controle de impulsos e às emoções negativas. Essas alterações duradouras eram vistas como os principais motores da recaída e se tornaram alvos centrais na busca por novos medicamentos.

Os elementos centrais do modelo se refletem bem na metáfora do “cérebro sequestrado” (hijacked brain). Popular tanto no discurso científico quanto no público, essa metáfora sugere que o uso crônico de drogas “sequestra” o sistema motivacional do cérebro, tornando o consumo irresistível, apesar das consequências negativas.

Mas até esses elementos fundamentais do modelo da doença cerebral vêm sendo questionados. A extensão da perda de controle na dependência química tem sido posta em dúvida, já que os sintomas respondem fortemente a intervenções psicossociais. Por exemplo, o manejo por contingência (contingency management), que usa reforços positivos para incentivar a abstinência, é altamente eficaz em diversos transtornos por uso de substâncias e continua sendo tratamento de primeira linha em casos sem medicamentos aprovados, como nos transtornos por uso de estimulantes. Diferentemente de doenças cerebrais paradigmáticas, como câncer cerebral, a dependência química pode ser modificada pelo desejo da pessoa de melhorar. E embora possa ser crônica e difícil de tratar, também há evidências de que muitas pessoas não só se recuperam, como o fazem sem recaídas – o que desafia a visão da dependência química como necessariamente crônica e reincidente.

Além disso, as mudanças cerebrais associadas à dependência química não se mostraram confiáveis nem específicas o suficiente para ter relevância clínica. Até o momento não encontraram nenhuma assinatura neural que permita a clínicos distinguir o cérebro de uma pessoa com dependência química do cérebro de uma pessoa sem dependência. Alguns defensores do modelo argumentam que, com mais tempo e recursos, a neurociência trará descobertas mecanísticas e tratamentos mais eficazes. No entanto, após décadas de pesquisa intensiva, esse otimismo parece irrealista.

Com seus elementos centrais cada vez mais difíceis de defender empiricamente, os defensores do modelo da doença cerebral recorrem à visão mais ampla de que a dependência química deve ser uma doença cerebral simplesmente porque envolve o cérebro. Nenhum cientista sério contesta que o cérebro está envolvido na dependência química (ou em qualquer transtorno mental), então esse argumento é logicamente trivial. Reconhecer que toda atividade mental envolve atividade cerebral, sem identificar disfunções específicas, consistentes e identificáveis, não avança a compreensão ou o tratamento da dependência química. Essa visão genérica também implicaria que qualquer processo que gere sintomas por meio de mecanismos neurobiológicos precisa ser qualificado como uma doença cerebral. No entanto, eventos de vida negativos, como separação ou perda, podem desencadear ou agravar sintomas depressivos, provavelmente através de mudanças neurobiológicas, e ninguém os consideraria doenças cerebrais.

Em essência, o modelo da doença cerebral pretendia explicar a dependência química em termos de dados objetivos do cérebro, poupando-nos da dificuldade de lidar com os aspectos subjetivos e confusos da experiência humana. Ele fracassou provavelmente porque ignorou uma realidade fundamental: não se pode retirar o “mental” dos transtornos mentais. Quaisquer alterações cerebrais observadas em transtornos mentais, incluindo aqueles relacionados ao uso de substâncias, derivam seu status de disfunção não de uma comparação com o funcionamento cerebral normal, mas da disfunção mental que supostamente produzem.

Alguns pesquisadores sugeriram que as mudanças cerebrais associadas à dependência química talvez nem indiquem uma patologia cerebral subjacente. Por exemplo, o neurocientista Marc Lewis propôs que essas mudanças poderiam, em vez disso, refletir o traço neurobiológico (neurobiological imprint) de processos normais de aprendizagem que saem do controle no nível comportamental. Esses padrões de aprendizagem podem se consolidar não por causa de um dano cerebral, mas porque o indivíduo não tem acesso a fontes alternativas de recompensa – como relações significativas, oportunidades educacionais ou emprego estável. Essa é apenas uma dentre um conjunto mais amplo de explicações complementares que não se apoiam exclusivamente em anormalidades cerebrais inerentes ou irreversíveis para explicar a dependência.

A persistência em enquadrar a dependência primariamente como um problema individual do cérebro obscurece os fatores sociais mais amplos em jogo, incluindo aqueles reconhecidos como grandes propulsores da dependência, como pobreza, racismo sistêmico e desigualdade social. Tome-se, por exemplo, a epidemia de transtorno por uso de opioides nos Estados Unidos: as principais forças que impulsionaram essa crise foram em grande medida sociais e não biológicas, sistêmicas e não individuais, e incluem o marketing agressivo de opioides por parte da indústria farmacêutica, bem como a desindustrialização e a pobreza. Isso sugere que respostas eficazes à dependência exigem enfrentar as condições estruturais que produzem e sustentam a vulnerabilidade, em vez de perseguir uma patologia cerebral ainda não identificada.

Na busca por avanços científicos para o tratamento da dependência, não devemos esquecer que já sabemos bastante sobre o que provavelmente ajuda e tem impacto na vida das pessoas. Há evidências substanciais que apoiam medidas como acesso gratuito e incondicional a tratamento médico e psicológico, acesso a moradia estável e fortalecimento do apoio comunitário para combater a solidão. No entanto, essas medidas ainda são implementadas de forma insuficiente.

Nos meses seguintes ao encontro, Chrysanthi passou a conhecer melhor Isabel, compreendendo que o modelo de doença cerebral lhe havia oferecido uma narrativa útil justamente no momento em que ela mais precisava – quando Isabel lutava com sentimentos de culpa, auto-ódio e alienação de si mesma e dos outros. Mas é possível ajudar as pessoas a aliviar esses sentimentos sem sugerir que a dependência é uma parte irreversível de quem elas são.

À medida que Isabel retornava ao grupo, tornou-se claro para ambas que o que sustentava sua recuperação não era o modelo específico utilizado para compreender sua experiência, mas sim a possibilidade de reencontrar um sentido para a vida e sentir-se vista, ouvida e compreendida pelos outros. É justamente isso que a psiquiatria corre o risco de perder de vista em sua busca incessante por identificar uma patologia cerebral: intervenções que ajudam as pessoas a se sentirem e viverem melhor nem sempre precisam recorrer à biologia.

Texto originalmente publicado no site AEON, no dia 22/09/25: https://psyche.co/ideas/does-it-still-make-sense-to-call-addiction-a-brain-disease

Sobre as autoras: 

Chrysanthi Blithikioti é pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Psicologia Geral da Universidade de Pádua, na Itália, com especialização em psicologia e neurociência. Sua pesquisa concentra-se na avaliação de intervenções psicossociais em transtornos relacionados ao uso de substâncias e em transtornos psicóticos, com o objetivo de melhorar os desfechos em saúde mental por meio de abordagens baseadas em evidências. 

Ioana Alina Cristea é professora associada de Psicologia Clínica no Departamento de Psicologia Geral da Universidade de Pádua, na Itália. Seu trabalho aplica a meta-research — conjunto de métodos que investigam como a pesquisa é planejada, conduzida e relatada — a questões clinicamente relevantes, tais como o desenvolvimento, aprimoramento e avaliação mais rigorosa de tratamentos em saúde mental.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Email sobre este blog

Já faz algum tempo que eu recebi o email abaixo de um querido leitor deste blog - e eu fiquei muito feliz por recebê-lo, especialmente porque raramente eu recebo retornos tão positivos como esse. Eu já não atualizo muito esse blog há tempos - nos últimos anos eu apenas repostei algumas resenhas que escrevo lá no Instagram (me sigam lá!) - mas eu gostaria de postar esse email aqui no blog para que ele fique registrado como uma espécie de troféu por todo o tempo que dediquei a este blog no passado - quando o blogs ainda faziam sentido e eram lidos. E eu agradeço imensamente ao querido leitor pelas palavras tão gentis e carinhosas... Muito obrigado!

Felipe, não sei se lerá meu email, mas quero registrar meu agradecimento ao seu blog "Psicologia dos Psicólogos".
Sabe quando em uma aleatoriedade de pesquisa buscando por algo simples terminamos por encontrar algo de grande valor? Foi assim com seu blog.

Para mim, foi uma fonte importante para me fazer refletir sobre conhecimentos dos quais eu estava simplesmente aceitando como verdades absolutas, principalmente em relação a neurociência.
Achei também interessante que em postagens mais antigas, você já tratava de temas que atualmente se tornaram presentes como tudo ser neuro*insira uma palavra*, o desmerecimento mais intenso do que nunca em torno da Psicanálise (e olha que nem sou psicanalista), as máquinas e a humanidade (afinal estamos adentrando na era das IA mais do que nunca, onde o que é real e não é, vai se tornando cada vez mais difícil de distinguir), etc.
Sem perceber, devorei algumas dezenas de postagens, fiz várias anotações e reflexões.
Ao fim, então passei a ver pontos dos quais achava sem nexo, com mais alívio e críticas, pois alguém trouxe escrito e embasado questões das quais eu refletia, discordava e meramente aceitava, por não ter tido até o momento um alguém que norteasse um sentido com críticas interessantes e profundas reflexões. Mas no fim do horizonte, eu então vi seu blog, eu li seus textos, suas traduções.
Há ainda muito a ler nas minhas anotações, pensar e então filtrar, no intuito de me tornar um pouquinho melhor como profissional. Entretanto esse é um começo.

Agradeço, por suas postagens, sua coragem, suas reflexões. Profissionais de tamanha competência como você estão escassos.
Um abraço e tudo de bom.

Sobre os riscos e potenciais da IA: uma resenha do livro "Ética na inteligência artificial"

No livro "Ética na inteligência artificial" (Ubu, 2023) o cientista social e professor de filosofia Mark Coeckelberg apresenta e analisa, com uma linguagem simples porém rigorosa, as principais questões éticas e sociais relacionadas ao campo da inteligência artificial - como os problemas da privacidade, da responsabilidade, do enviesamento, dentre muitos outros. E como se trata de um livro introdutório, ele também se preocupa em definir os principais conceitos desse campo, desde "inteligência artificial" até "aprendizado de máquina" e "ciência dos dados". Trata-se de um excelente livro para quem deseja se aproximar desse tema super atual e entender os principais usos, problemas e potencialidades das tecnologias de Inteligência Artificial.

Trecho do livro: "A IA está relacionada a um tipo de inteligência e pensamento humano: o mais abstrato, de caráter cognitivo. Esse tipo de pensamento se provou muito bem-sucedido, mas tem suas limitações e não é o único tipo de pensamento a que podemos ou devemos recorrer. Precisamos de pessoas perspicazes e máquinas inteligentes, mas também precisamos de intuições e know-how que não podem ser completamente explicitados, além de sabedoria prática e virtude para responder a problemas e situações concretas e decidir nossas prioridades. Tal sabedoria pode ser abastecida por processos cognitivos abstratos e análise de dados, mas também tem como base experiências corporificadas, relacionais e situacionais no mundo, na lida com outras pessoas, com a materialidade e com o nosso ambiente natural. Nosso sucesso em enfrentar os grandes problemas do nosso tempo provavelmente dependerá de combinações entre inteligência abstrata - humana e artificial - e sabedoria prática concreta, desenvolvida com base na prática e na experiência humanas, de caráter situacional e concreto - incluindo a nossa experiência com a tecnologia. Seja qual for a direção do futuro desenvolvimento da IA, o desafio de aperfeiçoar esse tipo de conhecimento e aprendizado é nosso. Os seres humanos devem fazer isso. A IA é boa em reconhecer padrões, mas não se pode delegar sabedoria às máquinas". (Último parágrafo do livro, pgs 183 e 184)

Três excelentes e impactantes documentários sobre algumas mazelas dos nossos tempos

A recém-lançada minissérie documental "Uma atualização sobre a nossa família", disponível na Max, é muito forte e impactante. Ela conta a história de um famoso casal de youtubers que criou um canal no qual mostravam, como se fosse um reality show, o dia-a-dia com os filhos. Em certo momento eles decidem adotar um garoto chinês e este garoto, que viria a ser diagnosticado com autismo, passa a fazer parte desse insano reality familiar, no qual quase tudo é filmado. Acontece que após certo tempo, o casal decide desfazer a adoção, devolvendo a criança para seu país de origem - para o absoluto choque dos fãs do canal, que se que tornam instantaneamente haters. A minissérie é perfeita na forma como retrata essa dinâmica fluida das redes, na qual o amor pode rapidamente se tornar ódio. Mas a produção também deixa claro como que por mais que as pessoas se exponham, elas nunca mostram tudo - na verdade elas só mostram aquilo que querem mostrar de acordo com certa narrativa. A realidade é, como sempre, extremamente complexa, multifacetada e difícil de ser acessada e plenamente compreendida. Como bem disse o escritor espanhol Javier Marias "a verdade é sempre um emaranhado".

O documentário "A conspiração consumista", recém-lançado pela Netflix, analisa as principais estratégias utilizadas pelas grandes empresas globais para fazer as pessoas consumirem cada vez mais - o que, por sua vez, gera uma quantidade absurdamente insana de resíduos/lixo, despejados a cada instante em nosso planeta. Muito embora tente trazer um tom esperançoso, o documentário dá uma dimensão bastante precisa - e assustadora - do buraco em que a gente se meteu. Minha única crítica é que embora condene a atuação de diversas empresas, o documentário não se aprofunda na causa primária desse problema que é o capitalismo, sistema baseado na lógica do crescimento perpétuo, absolutamente incompatível com a lógica da preservação ambiental. Ainda assim, recomendo fortemente esse documentário, que é tão assustador que poderia facilmente ser classificado como um filme de terror.

No documentário No other land (Sem chão), vencedor do Oscar de Melhor Documentário este ano, acompanhamos de dentro - isto é, sob o olhar palestino - a destruição de casas e até de uma escola pelo exército israelense na região montanhosa de Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada. O filme retrata o terror vivenciado pelas famílias ao se verem, de um instante para o outro, sem suas casas - e sem as vidas que tinham anteriormente. E as pessoas dessa comunidade ainda têm de lidar cotidianamente com as ameaças e violências do exército de Israel - que compõem um cenário de grande terror psicológico. Se este documentário não conseguir sensibilizar as pessoas para a situação dos palestinos - seja na Cisjordânia seja em outros lugares - eu não sei o que mais poderia ser feito. Simplesmente assistam!

A vida universitária na corda bamba: uma resenha do romance "De onde eles vêm", de Jeferson Tenório

O livro "De onde eles vêm", novo romance do escritor Jeferson Tenório, vem sendo divulgado como um "romance sobre a política de cotas". Acontece que nenhum romance pretende ou teria condições de dar conta de um tema como esse. Quando escrito com talento - e este é o caso de Jefferson Tenório - um romance pode "apenas" contar uma boa história através da singularidade dos seus personagens. No caso do livro "De onde eles vêm", a narrativa é centrada em Joaquim, um jovem negro, pobre, órfão de pai e mãe e morador da periferia de Porto Alegre, que ingressa, por meio de uma política de cotas raciais, no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas para além de sua vida estudantil e das demandas acadêmicas, Joaquim precisa cuidar de sua avó doente e ainda se virar para conseguir recursos financeiros suficientes para se manter na universidade. Joaquim representa aquele estudante - que eu, como psicólogo de uma universidade pública federal, conheço muito bem - que vive na corda bamba, sempre assombrado pela possibilidade de não conseguir avançar e finalizar o curso, seja por dificuldades financeiras seja pela permanente sensação de não-pertencimento ao mundo universitário - algo que Joaquim vivencia e verbaliza a todo momento. A história de Joaquim, ao mesmo tempo em que sinaliza para a importância das políticas de ações afirmativas voltadas para o ingresso do estudante, também aponta para a necessidade de políticas de assistência estudantil que contribuam para sua permanência. As dificuldades vivenciadas por Joaquim tem grande relação com a inexistência, no momento em que se passa a história (início dos anos 2000) de uma política centralizada de apoio ao estudante - o Programa Nacional de Assistência Estudantil (o PNAES) foi criado apenas em 2010. Mas mesmo tais políticas, fundamentais, ainda são insuficientes, já que não dão conta de auxiliar o estudante nas suas dificuldades educacionais, nas suas vivências de racismo e na sensação constante de não-pertencimento à universidade. A trajetória de Joaquim nos permite ao mesmo tempo exaltar os avanços que foram feitos e também constatar os limites das políticas implementadas até o momento. Ainda temos muito a avançar!

Trecho do livro: "Até os meus doze anos, eu nunca tinha lido. Eventualmente o abria em uma página qualquer, mas acontece que o livro tinha outras funções em minha vida. Servia de brinquedo, objeto que eu jogava de lá para cá, nunca para leitura. Mas penso que, de certa maneira, o livro cumpriu seu papel comigo. Foi útil para as necessidades básicas que eu tinha. Então, uma vez, ainda na infância, quando me senti entediado, abri o livro. Lembro que deitei no sofá e comecei a ler sobre maças, bananas e abacaxis. Aquela imagem de uma pessoa deitada no sofá lendo um livro me atraía. De algum modo, tornei-me leitor não por causa de uma leitura em si, mas porque eu gostava daquela imagem: alguém que lê".

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

"A hipnose" e o falso culto à espontaneidade

No interessante e bizarro filme sueco "A hipnose" (Hypnosen, 2023), longa-metragem de estreia do diretor Ernst De Geer, acompanhamos o casal Vera e Andre, que acabaram de criar uma startup voltada para o desenvolvimento de aplicativos sobre saúde feminina e estão prestes a apresentar a empresa em uma espécie de concurso de startups. Acontece que pouco antes desse evento, Vera vai a uma hipnoterapeuta com o objetivo de tratar sua dependência de cigarro mas a terapeuta acaba "tratando" outras questões bem mais profundas em sua psiquê. E com esse brevíssimo tratamento, de uma mulher calada e submissa ao namorado, Vera se transforma radicalmente, passando a agir de uma forma espontânea e extrovertida - o que assusta tanto Andre quanto os demais participantes do evento. De início eu pensei que o objetivo central do filme fosse mostrar como os homens se incomodam quando uma mulher deixa de agir de forma passiva e passa a impor os seus desejos e vontades. Mas o comportamento de Vera vai se tornando, ao longo da narrativa, cada vez mais estranho e perturbador. E daí eu me dei conta de que o filme está criticando não apenas a lógica machista das nossas relações, mas também a hipocrisia do universo empresarial que no discurso valoriza a espontaneidade e a autenticidade mas que, na prática, não suporta quando alguém age de maneira verdadeiramente espontânea - como é o caso de Vera. E ao "ligar o foda-se" para as opiniões das outras pessoas e para as convenções sociais, Vera acaba gerando uma série de situações embaraçosas que causaram em mim uma constante sensação de vergonha-alheia. E o que dizer da cena final do filme? Absurdamente embaraçosa - e genial! Como já devo ter deixado claro, gostei demais da experiência, especialmente devido à intenção explícita do diretor de incomodar e provocar os expectadores - e de fato o filme me incomodou bastante. Caso tenha interesse em assistir, "A hipnose" acabou de ser incluído no catálogo da Mubi.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Travessias: sobre "Orlando" e "Caminhos cruzados"

"Orlando: minha biografia política" e "Caminhos cruzados" são filmes muito diferentes entre si, com propostas narrativas e estéticas bem diversas. No entanto, estes dois filmes, lançados em julho nos cinemas brasileiros, têm um importante ponto em comum: suas narrativas estão povoadas de pessoas trans e não-binárias, justamente aquelas pessoas que Paul Preciado chamou de dissidentes do sistema sexo-gênero. Mas para além disso, os dois filmes compartilham de uma perspectiva se não positiva ao menos esperançosa com relação ao futuro. No maravilhoso "Orlando", escrito, dirigido e narrado pelo grande pensador e provocador Paul B. Preciado, vemos várias pessoas trans e não-binárias contando suas trajetórias de vida e, ao mesmo tempo, interpretando Orlando, personagem do romance homônimo da escritora Virginia Wolf que Preciado toma aqui como um símbolo de todas as pessoas que não se enquadram no sistema cisheteronormativo. O filme vem sendo classificado como um documentário, mas esta não é uma classificação muito precisa - problema que acomete, aliás, boa parte das classificações. E isto porque Orlando tem elementos de documentário e elementos de ficção: se por um lado os "personagens" do filme contam histórias reais sobre si mesmos, por outro, todos interpretam Orlando e recitam trechos do romance de Wolf. Por vezes, como no filme "Jogo de cena", do Eduardo Coutinho, é difícil diferenciar realidade de ficção. E isto me parece intencional já que Preciado pretende com sua obra escrita e, agora também com este filme, questionar todas as "caixinhas" que inventamos e naturalizamos, sejam aquelas concebidas pelo sistema sexo-gênero sejam aquelas utilizadas para se classificar filmes e livros. "Caminhos cruzados", por outro lado, possui uma narrativa ficcional mais convencional e os questionamentos que ele traz e faz são de outra ordem. O filme do cineasta sueco Levan Akin - que foi premiado no último Festival de Berlim com o Teddy Award, dedicado a filmes com temática LGBTQIA+ - conta a história de Lia, uma professora de história aposentada, moradora de uma pequena vila na Geórgia, que após a morte da irmã - e atendendo ao último pedido dela - decide ir até Istambul junto com o jovem Achi para procurar Tekla, sua sobrinha trans que muitos anos antes foi expulsa de casa pelos pais e que, por conta disso, acabou tendo de se prostituir na Turquia, país que faz fronteira com a Geórgia. E nesta Torre de Babel de línguas e culturas que é (ou parece ser) Istambul, Lia e Achi tem os seus caminhos cruzados com o da advogada trans Evrim e com outras tantas pessoas trans que habitam e trabalham na cidade, grande parte no submundo da prostituição. Ainda que seja protagonizado por Lia, uma mulher cis, o filme demonstra grande sensibilidade e empatia por todas essas pessoas trans que (sobre)vivem às margens da cidade e que sofrem contínuas discriminações e violências por parte da conservadora e intolerante sociedade turca. "Caminhos cruzados", assim como "Orlando", tenta dar foco e voz para estas pessoas - com sucesso, eu diria. São dois filmes lindos, sensíveis e impactantes que merecem ser vistos. "Caminhos cruzados" deve ser incluído no catálogo da Mubi no próximo dia 30 de agosto. Já "Orlando" eu não consegui descobrir quando e em que plataforma de streaming ele estará disponível futuramente - muito embora ele já esteja há tempos disponível em plataformas "alternativas".

terça-feira, 16 de julho de 2024

"No coração do suicídio há sempre um mistério": uma resenha do livro "O que não tem nome"

"Qual o tamanho da dor de quem se despede de si mesmo?". Pois esta é uma das muitas perguntas feitas pela escritora colombiana Piedad Bonnett no livro "O que não tem nome", recém-lançado pela Editora DBA. Neste livro autobiográfico brilhante e aterrador, lançado originalmente em 2013, a escritora relata e reflete sobre uma das situações mais trágicas que uma pessoa pode vivenciar: a morte de um filho. Mas no caso de Piedad a situação foi ainda mais dramática. Seu filho Daniel não morreu por acidente ou de causas naturais. Ele se suicidou - e não de qualquer maneira: ele se jogou do sexto andar do prédio em que morava em Nova York. E ele fez isso aos 28 anos de idade enquanto fazia um mestrado na Universidade de Columbia. E logo após cremarem o corpo do filho, Piedad afirma ter sido tomada por um "impulso investigativo" cuja motivação era compreender quem, afinal de contas, era Daniel e porque ele agiu como agiu. Como ela afirma em certo momento, de forma poética "no coração do suicídio, mesmo nos casos em que se deixa uma carta esclarecedora, há sempre um mistério, um buraco negro de incerteza em torno do qual perguntas se esvoaçam, feito borboletas enlouquecidas". De alguma forma, Piedad sabe que por mais que investigue jamais conseguirá juntar todas as peças do quebra-cabeça - como bem afirmou Javier Marias, citado por ela, "a verdade é sempre um emaranhado" - mas, ainda assim, ela se permite investigar. E para tanto conversa com médicos, amigos e namoradas de Daniel, além, é claro, de tentar reconstituir suas próprias memórias. E sua investigação a leva de volta às primeiras crises psicóticas vivenciadas pelo filho, que o levaram a receber o diagnóstico de Transtorno Esquizoafetivo, a ser internado e a passar por inúmeros tratamentos. Mas para além disso, ele lutava todo o tempo contra seu rigor e autocobrança excessivos, que o levaram a abandonar o sonho de ser artista. Nenhum desses fatores, contudo - juntos ou separadamente - parecem dar conta de explicar o terrível desfecho da vida de Daniel. E muito menos de responder à indagação feita por sua mãe: "como alguém que estava tão vivo poderia morrer?". Nenhuma resposta parece ser suficiente...

Trecho do livro: "Qual o tamanho da dor de quem se despede de si mesmo? Daniel amava seu corpo, cuidava dele, mimava-o, vestia-o com esmero. Será que sentiu dor ao saber que estava abandonando, que estava se abandonando para sempre? Mas Daniel também devia odiar aquele corpo que o traía, que o agredia, que o expunha ao medo, à confusão, ao delírio, e que de forma sorrateira o tornou diferente dos outros, diante de quem ele se viu obrigado a representar serenidade e lucidez. E muitas vezes deve ter odiado a vida, aquela que tanto amava, por ter escolhido justamente ele para sacrificar. Não teria mais que enfrentar responsabilidades extenuantes. Não teria mais que guardar um segredo, nem sorrir por obrigação, nem ter sucesso, apesar de se sentir distante ou com medo de tudo, cansado, confuso, abatido por saber que estava condenado para sempre. Não teria mais... Compreender a magnitude da liberdade que teria, talvez tenha lhe dado a paz momentânea e a força para se abandonar e abandonar o mundo. Dizem, assim como a dor física extrema pode nos fazer perder a consciência do espírito, a dor espiritual pode fazer com que esqueçamos o sofrimento do corpo. Quero pensar, como o médico, que Daniel não lutou conscientemente essas batalhas; quero pensar que Daniel não se jogou, mas voou em busca de sua única liberdade possível".

Cinquenta tons de apatia: uma resenha do filme "Aquela sensação que o tempo de fazer algo passou"

Ann é uma mulher novaiorquina de trinta e poucos anos, que exerce um trabalho entendiante e que tem frequentes encontros de submissão voluntária com alguns homens, que ela chama de "mestres" - ela é, em suma, masoquista e adepta da prática BDSM. Pois esta é a sinopse do interessante e estranho filme "Aquela sensação que o tempo de fazer algo passou", escrito, dirigido, editado e protagonizado pela Joanna Arnow - e que acabou de estrear em alguns cinemas. O filme é composto por uma sucessão de de cenas curtas de Ann sozinha em casa ou então com seus pais, com seus (poucos) amigos, com seus colegas de trabalho e, especialmente, com seus "mestres" - e as melhores e mais engraçadas cenas do filme, sem dúvida, são estas (não é sem sentido, portanto, que ele venha sendo definido como uma "comédia BDSM"). Algo que me chamou muita atenção na narrativa é o enorme tédio/apatia que a Ann manifesta quase todo o tempo com relação à quase tudo - o que me remeteu à brutal indiferença do protagonista do livro "O estrangeiro", do Albert Camus.  "Aquela sensação", enfim, é uma obra muito peculiar sobre uma millenial tentando encontrar o seu lugar em um mundo que Bauman definiria como líquido. Esse filme, aliás, é - todo ele - muito baumaniano! Se tiver a possibilidade - e a mente aberta a experiências cinematográficas diferentes - não deixe de assistir a esse filme, que o jornal New York Times caracterizou de forma irônica e precisa como "cinquenta tons de apatia".

E agora uma pequena crônica sobre a sessão de cinema: Logo antes do filme "Aquela sensação" começar, foi exibido o trailer do documentário "Orlando: minha biografia política", dirigido pelo Paul Preciado - que eu estou louco para assistir, já que considero Preciado um dos grandes pensadores dos nossos tempos. Mas o ponto é que após o trailer de Orlando ser exibido, uma senhora que estava sozinha em uma poltrona logo atrás de mim comentou em voz alta - ela não chegou propriamente a gritar, mas falou alto o suficiente para que os outros dois espectadores que estavam na sala pudessem ouvir, eu incluído: "Que porcaria!". O que a incomodou provavelmente foi a profusão de pessoas trans e não-binárias que aparecem no trailer de Orlando. Mas daí o filme que viemos assistir começou e eu não consegui deixar de pensar o que ela estaria achando de um filme que inclui algumas dezenas de cenas da protagonista completamente nua se submetendo a um "mestre" - em uma das cenas, por exemplo, ela coloca um biquíni e um nariz de porco e se masturba seguindo as ordem de um homem. A senhora permaneceu todo o tempo em silêncio, mas assim que o filme terminou ela não se conteve e gritou "Que porcaria! Que filme nojento!". Me veio a vontade, na hora, de gritar pra ela "Vai assistir Brasil Paralelo, p@rra!" mas eu lembrei que jamais agiria dessa maneira e me contive. E ela continuou manifestando sua indignação descendo as escadas do cinema: "Que porcaria! Que porcaria!" Eu imagino que ela não estava se referindo à cena da fantasia de porco...

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Masculinidades políticas: uma resenha do romance "O presidente pornô"

Como escrever uma sátira política em um tempo no qual se multiplicam figuras políticas grotescas como Bolsonaro e Donald Trump? Pois este foi o desafio enfrentado pela escritora Bruna Kalil Othero/BKO na escrita do seu romance de estreia, "O presidente pornô", publicado em 2023 pela Companhia das Letras. E, na minha visão, ela conseguiu atender e superar este desafio com habilidade. Neste livro satírico e sacana Bruna retrata, através de uma peça de teatro apresentada aos futuros imperadores do Plazil (sim, Plazil), a vida, a ascensão e a queda do grande político plazileiro Bráulio Bestianelli, figura burlesca inspirada obviamente em presidentes de direita caricaturais como Bolsonaro e Collor mas também em inúmeros outros políticos brasileiros. Em uma palestra da autora que eu assisti recentemente, ouvi ela dizer que Bestianelli seria uma espécie de monstro do Dr. Frankenstein, resultado da junção de muitos desses políticos que passaram pela presidência do Brasil - quase todos homens, cabe apontar, com honrosa exceção de uma. Nesta palestra, Bruna também relatou que a escrita deste livro teve relação com o seu grande interesse pelo tema das masculinidades - e ao ler "O presidente pornô" sob essa ótica, ele fica ainda mais interessante, pois percebemos como todas essas personalidades políticas, condensadas na figura de Bestianelli, compartilham dos mesmos traços e problemas da masculinidade hegemônica - que incluem a constante busca pela virilidade e a repulsa pela feminilidade (e também pela homossexualidade). Mas ao ler essas palavras não se engane: Bruna não trata dessas questões de forma didática ou acadêmica. Ela o faz com muito humor, sarcasmo e zombaria, misturando episódios bizarros da nossa história política com elementos da cultura popular (como as pornochanchadas, a banheira do Gugu e as enquetes do Porta dos Fundos). Trata-se, enfim, de um livro muito interessante, inusitado e provocativo, que certamente dividiu e continuará dividindo as opiniões. Como a própria autora afirmou em sua palestra, ninguém fica indiferente a um livro peculiar como esse: há quem ame e quem odeie. Eu amei e recomendo fortemente!

Trecho: "Coisas que todo homem deve saber, por Chupetão Bestianelli: 1. A honra de um homem reside na sua calça. 2.Um homem nunca deve dar ouvidos a uma mulher; a mulher sempre deve dar ao homem. 3.Todo homem tem duas cabeças, e a sabedoria masculina está em equilibrar dentro de sua voz de cada uma. 4.A essência da felicidade se baseia em ter o que comer. Um prato de comida, uma mulher. 5.Nunca se esqueça dos homens que vieram antes de ti".

terça-feira, 18 de junho de 2024

"20.000 espécies de abelhas" e a infância trans

No maravilhoso filme espanhol "20.000 espécies de abelhas", primeiro longa-metragem da cineasta Estibaliz Urresola Solaguren, acompanhamos o retorno de uma mãe com seus três filhos para sua cidade natal no País Basco. A história é centrada em uma das crianças, que chamarei aqui de Cocó, pois ela é assim denominada, inicialmente, pela irmã mais velha. Pois Cocó, que tem cerca de 9 anos, é entendida e vista como um menino por quase todas as pessoas, inclusive por sua família. No entanto, Cocó se identifica como uma menina e se interessa por brinquedos e roupas femininas. Cocó, entendemos logo, é uma menina trans. Mas a grande questão do filme é que esta personagem é apresentada e retratada em um momento de sua vida que poderíamos chamar, talvez equivocadamente, de pré-reflexivo: Cocó ainda não tem uma compreensão racional e profunda do que se passa consigo mesma. Ela ainda não sabe que é uma garota trans ou que existe alguma palavra que poderia definir o que se passa com ela; Cocó apenas sente uma terrível e constante sensação de desconexão e de incômodo com o mundo à sua volta, como se fosse um "peixe fora d'água". Quando é levada por sua mãe a um clube, por exemplo, Cocó, tal qual um animal encurralado, deseja fugir logo dali para não ter de ir à piscina e se mostrar para os outros (e para si mesma) de sunga, símbolo de uma masculinidade que ela sente não se encaixar- e diante da impossibilidade de vestir um biquíni ou um maiô, como gostaria, ela fica todo o tempo de roupão. Mas Cocó não expressa tal incômodo com palavras e sim com seu corpo e suas expressões faciais. É preciso exaltar, nesse sentido, a brilhante interpretação da atriz mirim Sofía Otero (que é cis e não trans), merecidamente premiada com o Urso de Prata de melhor atuação no Festival de Berlim em 2023. Mas o filme está repleto de ótimas performances - e eu destacaria ainda as atrizes que interpretam a mãe e a tia de Cocó, que imprimem grande intensidade e afeto em suas atuações. Eu teria muito mais a dizer sobre este filme, que discute com muita sensibilidade o tema das infâncias trans, mas por hora queria apenas recomendar fortemente esta linda obra, que acabou de ser incluída no catálogo da Reserva Imovision.

7 excelentes livros com narrativas de transtorno mental

Na esteira da postagem anterior, sobre o livro "Esquizofrenias reunidas", eu gostaria de indicar agora outros seis (na verdade, sete) excelentes livros, lançados no Brasil, que trazem relatos de indivíduos diagnosticados com determinados transtornos mentais. Certamente existem muitas outras obras, mas estas são aquelas que eu li e que considero muito boas. Na verdade, como algumas dessas obras eu li há muitos anos, algumas talvez há duas décadas, pode ser que se eu as relesse hoje eu não achasse mais grande coisa - ou tivesse muitas críticas à forma como foram escritas. Só o que posso dizer, portanto, é que elas deixaram impressões muito positivas na minha memória. Em primeiro lugar indico dois relatos sobre vivências psicóticas escritos de forma anônima pelo L.F. Barros: "Memórias do delírio: confissões de um esquizofrênico", lançado em 1992, e "Anjo carteiro: a correspondência da psicose", lançado em 1996. Estas duas obras, pelo que eu saiba, estão esgotadas na editora Imago, estando disponíveis apenas em sebos físicos ou virtuais. As duas obras seguintes, por sua vez, trazem relatos de indivíduos depressivos: enquanto o clássico do Andrew Solomon "O demônio do meio-dia", lançado originalmente em 2001, faz uma profunda investigação pessoal e histórica sobre a depressão, "O ar que me falta" lançado vinte anos depois, em 2021, traz uma sensível narrativa sobre a vida e os episódios depressivos vivenciados pelo Luiz Schwarcz, criador e dono da editora Companhia das Letras. Já os três últimos livros trazem relatos de pessoas que poderíamos incluir no grande espectro da ansiedade: no soberbo "Meus tempos de ansiedade", lançado em 2014, o jornalista Scott Stossel condensa um relato pessoal extremamente sincero e uma narrativa histórica bastante ampla e embasada sobre o tema da ansiedade - veja a resenha aqui; já no livro "Bem que eu queria ir", lançado em 2009, Allen Shawn expõe as suas inúmeras fobias e ainda analisa a psicologia do medo; e por fim, em "O homem que não conseguia parar", lançado em 2015, David Adam narra suas vivências com o TOC e tenta compreender os sentidos das obsessões e compulsões. Caso algum desses livros lhe interesse, boa leitura!

Psicose em primeira pessoa: uma resenha do livro "Esquizofrenias reunidas"

No livro "Esquizofrenias reunidas", recém-lançado pela editora Carambaia, a escritora Esmé Weijun Wang apresenta treze ensaios sobre questões diversas mas que tem como ponto de conexão os diagnósticos psiquiátricos que ela recebeu ao longo dos anos - em especial o de transtorno esquizoafetivo, que a colocou no espectro das "esquizofrenias", como ela se refere, quase sempre no plural. Filha de imigrantes taiwandeses e nascida nos Estados Unidos, Ermé foi inicialmente diagnosticada com o transtorno bipolar devido a alguns episódios maníacos e depressivos que manifestou ainda no ensino médio mas, após ingressar na faculdade ela passou a vivenciar também alguns delírios e alucinações, que acabaram levando uma de suas psiquiatras a "fechar" o diagnóstico de transtorno esquizoafetivo, que seria uma espécie de ponte ou de meio-termo entre os diagnósticos de bipolaridade e de esquizofrenia. Ao longo dos ensaios a autora discute tanto esse complexo e incerto processo de diagnóstico - que no seu caso levou anos para ser "fechado" - quanto os próprios sentidos das classificações psiquiátricas e do DSM, comumente chamado de "bíblia" da psiquiatria (sobre isso, aliás, ela afirma: "essa bíblia, assim como a judaico-cristã, é uma que se deforma e se transforma tão rápido quanto nossa cultura"). Mas Ermé discute ainda inúmeras outras questões como a relação entre esquizofrenia e criatividade, a decisão entre ter ou não filhos haja vista a compreensão vigente de que existiriam componentes hereditários nas psicoses, a relação entre experiências psicóticas e religiosas, etc. Mas para além disso a autora ainda narra e descreve em dolorosos detalhes as diversas internações em hospitais psiquiátricos que vivenciou ao longo dos anos - vivências estas que lhe geraram uma visão extremamente negativa especialmente das internações involuntárias, às quais ela foi submetida duas vezes. Enfim, nesta breve resenha não tenho como explorar todos os temas e questões discutidos por Ermé neste livro riquíssimo; eu queria apenas indicá-lo para todos aqueles e aquelas que, como, eu se interessam por narrativas em primeira pessoa de indivíduos diagnosticados com determinados transtornos mentais.

Trecho do livro: "É difícil descrever o horror de estar internada involuntariamente. Em primeiro lugar, há a experiência aterrorizante de ser colocada à força num lugar pequeno do qual não lhe permitem sair. Também não lhe permitem saber quanto tempo ficará ali, porque ninguém sabe quanto tempo você ficará ali. Você está sem as coisas que ama: seu diário, a pulseira que sua avó lhe deu, suas meias favoritas. Seu ursinho de pelúcia. Não há computadores. Nos hospitais em que estive, os únicos telefones permitidos eram os fixos, que podiam ser utilizados em determinados momentos do dia por um determinado período, fazendo com que os pacientes disputassem uma posição ao lado dos telefones e infernizassem os que estavam demorando demais. Vez ou outra permitem que alguém traga algo importante para você durante as horas de visita, embora isso só ocorra depois de uma enfermeira inspecionar os artigos; na maior parte das vezes as suas posses não são admitidas na enfermaria porque incluem uma ponta afiada ou uma espiral de metal ou um pedaço de tecido perigoso. Não lhe permitem escolher o que come e, dentre as escolhas limitadas que existem, você é forçado escolher apenas entre coisas nojentas. Eles lhe dizem quando dormir e quando acordar. Se passa tempo demais no quarto, isso indica que está sendo antissocial; se fica sentada nas áreas de convívio mas não interage com os outros pacientes, provavelmente é ou está depressiva ou excessivamente introvertida ou quem sabe até mesmo catatônica. As pessoas podem ser um mistério umas para as outras, mas pessoas com uma doença mental são particularmente opacas por causa do cérebro defeituoso. Não se pode confiar em nós para nada, incluindo nossa própria experiência".

"A menina silenciosa" e os sentidos do afeto

No filme irlandês "A menina silenciosa" (The quiet girl) - que em 2023 concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional (e perdeu para o alemão "Nada de novo no front") - acompanhamos Cáit, uma garota de 9 anos, que é levada para morar temporariamente com um casal mais velho e sem filhos. Cáit, que cresceu em um ambiente problemático e caótico - e provavelmente foi abusada sexualmente pelo pai (o que é sugerido mas nunca mostrado) - encontra neste lar temporário um espaço de acolhimento, afeto e cuidado que ela nunca vivenciara anteriormente. "A menina silenciosa" me lembrou, em vários sentidos, a maravilhosa série "Anne with an E", da Netflix, na medida em que ambas as produções retratam, com muita sensibilidade, a vida de uma garota rejeitada pela família biológica que é acolhida por um casal mais velho. Uma diferença significativa, contudo, é que enquanto Anne é de fato adotada pelo casal, Cáit é apenas abrigada temporariamente. Além disso, Anne é uma garota alegre e falante, ao passo que Cáit é melancólica, introspectiva e, como o título aponta, silenciosa. O que achei mais interessante no filme é como ele vai construindo lentamente a relação entre os personagens centrais - isto é, entre o casal e a menina. A narrativa não se apressa em fazer a história avançar - o que importa, de fato, é a maneira como os personagens vão interagindo, se conhecendo e se conectando, aos poucos, dia após dia. O filme retrata muito bem como um ambiente acolhedor, empático e afetuoso pode fazer uma grande diferença na vida de pessoas que sofreram variados tipos de privações, abusos e violências - as psicoterapias, quase sempre, almejam justamente criar um ambiente assim. Enfim, trata-se de um filme muito sensível e emocionante sobre uma garota encantadora. "A menina silenciosa" foi incluído hoje na plataforma de streaming Reserva Imovision.

O enigma de Alicia: uma resenha do romance "A paciente silenciosa"

A paciente silenciosa", primeiro romance do escritor Alex Michaelides, conta a história de Alicia, uma artista que levava uma vida aparentemente boa com o marido... até que certo dia ela o mata com vários tiros na cara. Ela é presa, internada em um hospital psiquiátrico e, desde o incidente, se mantém completamente calada. Passado algum tempo, um psicoterapeuta chamado Theo, que é o narrador da história, busca (e consegue) ser admitido neste hospital, tamanho o seu interesse por essa história e pelo enigma de porque ela teria matado o marido. E ele começa a atendê-la, deparando-se, desde o início, com uma dificuldade significativa, que é o fato dela não falar absolutamente nada e pouco se expressar corporalmente. Como seria possível fazer uma terapia com uma paciente silenciosa e nada disposta a cooperar? Em função disso, Theo inicia, por conta própria, uma investigação, buscando conversar com pessoas que conheceram e conviveram com Alicia - e também a analisar os quadros produzidos por ela. E pronto, não falarei mais sobre a história, já que o mais interessante é ir acompanhando passo a passo essa investigação feita pelo terapeuta-detetive. Eu gostaria apenas de pontuar que eu já sabia que teria uma reviravolta no final - que é óbvio que eu não vou revelar aqui. E à medida que eu ia lendo o livro eu fui tentando imaginar alguns cenários e desdobramentos possíveis. Mas tenho que confessar que o final me pegou de surpresa! É claro que tem um tanto de forçação de barra nesta reviravolta final mas ok, se o objetivo era surpreender o leitor eu fui surpreendido. De uma forma geral, não achei o livro uma obra-prima - é apenas um bom suspense - mas ele me prendeu como há tempos um romance não me prendia. E ainda me surpreendeu no final. Como entretenimento descompromissado "A paciente silenciosa" é uma ótima pedida! 

PS: em breve este livro dará origem a um filme ou série, já que o direito de adaptação foi adquirido por Hollywood. E muito provavelmente resultará em mais um suspense medíocre, como tantos que são lançados a cada momento. O livro até tem alguns pontos interessantes, mas acho muito difícil ele resultar em uma boa obra cinematográfica. Espero estar errado.

"O reino animal" e a animalidade humana

A superprodução francesa "O reino animal" (Le règne animal), escrita e dirigida pelo cineasta Thomas Cailley, retrata um mundo no qual inúmeras pessoas, de maneira aparentemente aleatória, começam a se transformar em animais - e eu digo "começam a se transformar" porque esta transformação, de gente em bicho, não ocorre abruptamente mas sim de forma lenta e dolorosa. E no meio desta "epidemia" acompanhamos um pai e um filho se adaptando a uma nova cidade algum tempo depois que esposa/mãe deles manifestou tal transformação e acabou sendo internada. Na minha visão, o filme é uma fantástica metáfora para a forma como lidamos ao longo da história com as pessoas entendidas como anormais - entendimento este que, cabe apontar, se alterou imensamente com o passar das décadas e séculos. Muitas vezes tais pessoas foram (e continuam sendo) aprisionadas, humilhadas, violentadas e mesmo mortas - e tudo isso em nome de um suposto risco/perigo que elas representam. No filme a principal medida adotada pelas autoridades quando a pessoa manifesta qualquer sintoma de "animalidade" é a prisão, isto é, a internação. No entanto, algumas pessoas começam a defender a necessidade de uma coexistência, isto é, de uma convivência mais próxima entre humanos e "bestas" e até mesmo a criação de um "reino animal", onde tais seres híbridos poderiam viver livremente, ainda que afastados dos seres humanos "puros". O filme explora tais discussões de uma forma muito sensível e tocante - e com excelentes efeitos especiais, que conseguem tornar as bizarras criaturas extremamente verossímeis. "O reino animal" foi lançado em 2023 na França mas ainda não tem data de lançamento no Brasil e não está disponível em nenhuma plataforma de streaming. Não me pergunte, portanto, onde eu assisti...

Uma resenha crítica do livro "Psicologia: uma brevíssima introdução"

Escrever um livro curto de introdução à psicologia é um desafio e tanto, haja vista a complexidade do campo e as inúmeras disputas e controvérsias internas. Em geral os autores falham miseravelmente nesta empreitada, seja por simplificarem ou ignorarem certas discussões, seja por não conseguirem conciliar um olhar histórico com debates e achados mais recentes do campo. Foi, portanto, com este receio, que eu iniciei a leitura do livro "Psicologia: uma brevíssima introdução", recém-lançado no Brasil pela Editora UNESP. Eu já havia lido outros livros da coleção "a very short introduction", originalmente publicados pela Oxford University Press - como "Inteligência Artificial: uma brevíssima introdução" e "Foucault: uma brevíssima introdução" - e gostei muito de todas essas edições. Mas este não foi o caso desta nova introdução sobre o campo da psicologia, escrita pelas psicólogas e professoras na Universidade de Oxford Gillian Butler e Freda McManus. Antes de falar dos problemas, contudo, acho importante salientar um ponto forte da obra: a organização dos capítulos. No total são dez capítulos sendo o primeiro uma introdução geral ao campo, o último uma conclusão e os demais dedicados a temas fundamentais da psicologia: percepção (c2), aprendizagem e memória (C3), pensamento, raciocínio e comunicação (C4), motivação e emoção (c5), psicologia do desenvolvimento (c6), diferenças individuais (c7), psicologia "anormal" (c8) e psicologia social (c9). Por outro lado, se o livro acertou em sua estruturação, ele errou feio no texto - excessivamente confuso, simplista e, eu arriscaria dizer, mal escrito. Parte desses problemas se deve, sem dúvida, à tradução, que deixou a leitura ainda mais cansativa e confusa - abaixo, nas observações, eu aponto para três erros crassos de tradução. Enfim, se a proposta era introduzir o campo da psicologia para leigos, eu até acho que o livro cumpriu seu propósito. No entanto, o estilo de escrita e a tradução não contribuíram em nada pra que obra se tornasse de fato relevante e imprescindível.

Observações: Trago aqui três exemplos de problemas de tradução - e eu consultei na internet a versão original. Na página 61 a frase do escritor Cormac MacCarthy "the past is always an argument between countersclaimants" foi traduzida de forma ininteligível para "o passado é sempre uma discussão entre reconvencionais" - o que não faz nenhum sentido para o leitor, especialmente para o leitor leigo, público-alvo do livro. Certamente há outras traduções melhores para a expressão countersclaimants. Já na página 73 o livro menciona as pesquisas sobre "preparação" sendo que, na verdade, as pesquisas mencionadas são sobre o efeito "priming", que não poderia jamais ser traduzido por "preparação" e sim por "pré-ativação". Faltou, neste caso, uma revisão técnica que apontasse para a tradução mais aceita na comunidade científica brasileira ou então que mantivesse o termo original, pelo menos entre parênteses. Finalmente, na página 188, a expressão "health anxiety (hyperchondriasis)" foi traduzida como "ansiedade (hipocondria), o que dá a entender que ansiedade seria sinônimo de hipocondria, sendo que no original é usada a ideia de uma ansiedade relacionada à saúde que, esta sim, seria sinônimo de hipocondria. Enfim, aponto aqui apenas para três erros crassos, dentre muitos outros, que atrapalham terrivelmente a leitura e confundem o leitor.

"Orion and the Dark" e os sentidos do medo

Orion é um garoto de onze anos extremamente medroso e ansioso. Ele tem medo de coisas variadas como do mar, das abelhas, dos cachorros, de palhaços assassinos, do garoto que faz bullying com ele na escola e até das ondas dos celulares. Mas acima de tudo, Orion morre de medo da escuridão da noite e sempre pede aos seus pais que deixem a porta aberta para a luz entrar. Acontece que em determinada noite seus pais apagam todas as luzes e ele entra em pânico no meio da escuridão. E é justamente nesse momento que o Escuro (Dark) aparece para ele e o leva em uma viagem pelo mundo da escuridão, onde ele é apresentado às outras entidades da noite (o sono, o sonho, o silêncio, a insônia e os barulhos aleatórios). Pois esta é a história da linda animação "Orion e o escuro", nova produção da DreamWorks que acabou de estrear na Netflix. O filme é dirigido pelo cineasta e animador Sean Charmatz, mas o que de fato me chamou a atenção - e me fez querer assistir ao filme - foi o fato de o roteiro, adaptado de um livro infantil homônimo, ter sido escrito pelo brilhante Charlie Kaufman, roteirista de "Quero ser John Malkovich", "Adaptação", "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e diretor/roteirista de "Sinédoque, Nova York", "Anomalisa" e "Estou pensando em acabar com tudo" - todos filmes maravilhosos, alguns verdadeiras obras-primas contemporâneas (caso de Quero ser John Malkovich e Brilho eterno). E de fato Orion e o Escuro me surpreendeu muito positivamente. É uma animação linda visualmente, criativa e muito sensível e empática com os medos e ansiedades das crianças - e também (porque não?) dos adultos, já que o medo nos acompanha, de diferentes formas, por toda a vida. Eu gostei especialmente da forma como o filme retrata e demonstra, através de uma bela fábula, a importância da escuridão (em um sentido físico e psicológico) e também do medo. A grande mensagem do filme, na minha visão, é que o medo faz parte da vida e que devemos compreendê-lo e aceitá-lo em alguma medida, mas também enfrentá-lo sempre que necessário. Afinal, como disse Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem - e coragem não é não ter medo mas seguir adiante mesmo com medo.