domingo, 15 de março de 2026

Ginástica cerebral funciona? - Parte 2: uma análise do SUPERA® Cognitive Stimulation Study

Mais de dez anos atrás, em dezembro de 2014, eu publiquei neste blog um post intitulado Ginástica cerebral funciona?, no qual analisei um comunicado divulgado em outubro daquele mesmo ano que colocava em xeque as promessas feitas pela chamada “indústria do treinamento cerebral”. O documento, escrito por pesquisadores da Universidade de Stanford e assinado por dezenas de importantes psicólogos cognitivos e neurocientistas de diferentes países, afirmava não existir naquele momento evidências científicas sólidas e confiáveis de que o treinamento cognitivo ou cerebral (mais conhecido no Brasil como “ginástica cerebral”) fosse capaz de promover melhorias amplas e duradouras nas funções cognitivas ou gerar benefícios significativos para a vida cotidiana. Muito menos haveria comprovação de que tais programas pudessem prevenir doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer - promessa frequentemente presente no marketing dessas empresas. Para quem quiser compreender melhor os argumentos apresentados nesse comunicado, recomendo a leitura do post de 2014 (leia aqui).

O que talvez poucos saibam é que este documento provocou forte reação. Alguns meses depois, em dezembro de 2014, foi publicada uma carta aberta, assinada por 113 cientistas, defendendo uma posição mais favorável ao treinamento cognitivo. Essa resposta foi divulgada no site Cognitive Training Data, criado e mantido por Michael Merzenich, professor da Universidade da California, reconhecido por seus estudos sobre plasticidade cerebral. Merzenich também atua como diretor científico da Posit Science, empresa de treinamento cognitivo fundada por ele em 2003 e que é responsável pelo famoso aplicativo BrainHQ. Embora a carta afirme concordar com diversos pontos do comunicado de Stanford, ela sustenta que aquele texto não refletiria o “verdadeiro consenso” da comunidade científica. Segundo os signatários da resposta, já existiria um conjunto substantivo e crescente de pesquisas demonstrando que determinadas formas de treinamento cognitivo podem, sim, produzir melhorias significativas na função cognitiva - inclusive com possíveis efeitos generalizáveis para atividades do cotidiano. Mais do que uma simples divergência pontual, o embate entre esses dois documentos revelou algo mais profundo: o campo do treinamento cognitivo estava - e ainda está - imerso em uma série de conflitos e controvérsias.

Da comparação entre duas publicações emerge uma questão central: como é possível chegar a consensos tão distintos a partir das mesmas evidências? No artigo Do 'brain-training' programs work?, publicado em 2016 e que é talvez o mais importante artigo publicado até hoje sobre o tema, Daniel Simons e colaboradores argumentaram que a divergência decorre de critérios diferentes na avaliação dos estudos. E após examinarem todas as pesquisas revisadas por pares citadas por empresas do setor e listadas no site Cognitive Training Data, os autores concluíram que há evidências de melhora apenas em tarefas específicas treinadas, resultados menos consistentes em tarefas semelhantes e pouca evidência de transferência para atividades distantes ou para a vida cotidiana. Além disso, destacaram fragilidades metodológicas importantes nos estudos analisados. Assim, sustentam que ainda não havia, naquele momento, base científica suficiente para afirmar que o treinamento cerebral produz ganhos cognitivos significativos no mundo real.

Ao longo dos anos seguintes à publicação deste importante artigo, muitas outras pesquisas foram feitas com o intuito de avaliar a eficácia do treinamento cognitivo/cerebral. E hoje, quase dez anos, depois, continuamos do mesmo jeito que em 2016, ou seja, a controvérsia permanece! E um ponto central desta controvérsia diz respeito à capacidade de transferência do treinamento específico para a cognição como um todo e, especialmente para a vida cotidiana. Jogar um determinado "jogo cognitivo" certamente fará com que, pela repetição, a pessoa se torne melhor neste jogo em particular, mas isto não significa que funções cognitivas como a atenção e a memória melhorarão ou que isto desencadeará mudanças positivas e importantes no dia-a-dia da pessoa. Alguns estudos de fato sugerem significativos "efeitos de transferência" dos jogos computadorizados de treinamento cognitivo, mas a maior parte deles - incluindo este importante estudo publicado em 2025 - apontam para efeitos minúsculos ou inexistentes de tais atividades na cognição e na vida das pessoas. 

Mas e quanto às atividades analógicas realizadas por "academias cerebrais" brasileiras como a Supera, a Super Cérebro e a Ginástica do Cérebro? Até muito recentemente não existia qualquer avaliação científica das atividades promovidas por tais empresas, que se baseiam primariamente na prática do ábaco - um instrumento milenar de cálculo -, mas também em jogos de tabuleiro, dinâmicas de grupo e jogos cognitivos de papel como o sudoku. Mas isto mudou com a publicação, em janeiro de 2026, da importante pesquisa SUPERA® Cognitive Stimulation Study, um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores brasileiros. Publicado em inglês no periódico International Psychogeriatrics, o estudo foi liderado pela gerontóloga Thais Bento Lima da Silva, da Universidade de São Paulo, e avaliou os efeitos do programa de estimulação cognitiva promovido pela empresa Supera - e é interessante notar que os próprios autores denominam o programa de “estimulação cognitiva”, e não de “treinamento cognitivo”, já que ele inclui múltiplas atividades. Participaram da pesquisa 207 adultos com 60 anos ou mais, sem comprometimento cognitivo, que foram divididos em três grupos: um grupo que participou do programa de estimulação cognitiva durante 18 meses; um grupo de controle ativo, que participou apenas de atividades educativas sobre saúde e envelhecimento; e um grupo de controle passivo, que não recebeu intervenção. Os participantes foram avaliados ao longo de dois anos por meio de uma bateria extensa de testes cognitivos e de medidas de bem-estar psicológico. Trata-se, portanto, de uma investigação relativamente longa para esse tipo de intervenção, o que permite acompanhar de maneira mais confiável a evolução dos participantes ao longo do tempo.

Os resultados mostram alguns efeitos positivos do programa, mas também ajudam a colocar essas melhorias em perspectiva. O grupo que participou do treinamento apresentou melhora significativa em uma tarefa de fluência verbal (FAS), com manutenção do efeito após seis meses do término do programa. Além disso, análises com escores compostos indicaram ganhos modestos em memória, funções executivas e cognição global ao longo do acompanhamento. Os participantes também relataram redução de queixas cognitivas subjetivas e melhora temporária em alguns indicadores de qualidade de vida. No entanto, os próprios autores ressaltam que a magnitude desses efeitos foi pequena e que várias medidas cognitivas não apresentaram diferenças significativas entre os grupos. Além disso, parte das melhorias observadas refere-se a tarefas relativamente próximas das habilidades treinadas, algo que a literatura costuma chamar de transferência próxima. Um exemplo disso foi o desempenho no teste de cálculo com ábaco - habilidade diretamente treinada durante o programa - no qual os participantes naturalmente se tornaram melhores ao longo do tempo. 

Outro ponto importante é que o estudo não avaliou de forma direta se essas mudanças se traduziram em melhorias concretas no funcionamento cotidiano dos participantes, como maior autonomia ou melhor desempenho em atividades da vida diária. Trata-se justamente do tipo de evidência que mais interessa quando se discute a utilidade real desses programas. Além disso, o próprio artigo reconhece limitações relevantes, como o fato de os participantes terem, em média, nível educacional bastante elevado e de o estudo ter sido financiado pela própria instituição responsável pelo programa de treinamento. Em outras palavras, o novo estudo representa um avanço importante por avaliar, de forma controlada e com metodologia rigorosa, um tipo de intervenção amplamente difundido no Brasil. Ao mesmo tempo, seus resultados parecem reforçar um padrão que já aparece em muitas pesquisas anteriores: programas de treinamento ou estimulação cognitiva podem produzir alguns ganhos mensuráveis em testes específicos e na percepção subjetiva dos participantes, mas as evidências de benefícios amplos, robustos e duradouros para a cognição em geral - e especialmente para a vida cotidiana - continuam sendo modestas e objeto de debate na literatura científica.

Leia também Treinamento cerebral e efeito placebo

O estudo do autismo é o trabalho da minha vida. O espectro perdeu todo o sentido (Tradução)

Compartilho abaixo a tradução que fiz da reportagem "Autism study is my life’s work. The spectrum has lost all meaning: A professor who helped to shape our framing of the condition fears so many characteristics are linked to it that it’s ‘no longer a useful diagnosis’" (Estudo do autismo é o trabalho da minha vida. O espectro perdeu todo o sentido - Uma professora que ajudou a moldar a forma como entendemos a condição teme que tantas características estejam sendo associadas ao autismo que ele "deixou de ser um diagnóstico útil"), escrita pela jornalista Madeleine Spence e publicada no jornal The Sunday Times no dia 7 de Março de 2026.

Quando Dame Uta Frith começou a pesquisar o autismo, seis décadas atrás, tratava-se de uma condição extremamente rara e pouco compreendida, que os psicólogos chamavam de “psicose infantil”. Isso foi em 1966, e nas décadas seguintes a pesquisadora desempenharia um papel central na mudança da forma como o mundo enxerga o transtorno.

Ela expandiu nossa compreensão do autismo, sendo pioneira na abordagem da "teoria da mente", que propunha que pessoas com autismo têm dificuldade em atribuir crenças e estados mentais a outras pessoas, e ainda se contrapôs à ortodoxia da época que culpava a falta de amor parental pelo desenvolvimento atípico de crianças autistas. Ao longo de sua trajetória, ela defendeu que o autismo existe em um espectro de apresentações típicas e "não tão típicas" do transtorno. E este conceito de espectro tem sido aceito e pouco questionado há quatro décadas. Até agora. E é a própria Frith quem está questionando.

Hoje professora emérita de desenvolvimento cognitivo no Institute of Cognitive Neuroscience da University College London, Frith, aos 84 anos, está repensando esse enquadramento. “Acho que o espectro chegou ao seu colapso”, diz ela, em uma conversa pelo Zoom. Seu modo cordial e gentil parece contrastar com a gravidade do que afirma: para Frith, o espectro do autismo está quebrado. Nossa abordagem, segundo ela, no melhor dos casos deixou de ser relevante e, no pior, pode ser prejudicial. Mais do que isso, ela também questiona uma doutrina científica contemporânea que valoriza a inclusão como um fim em si mesmo.

Segundo Frith, foi essa busca por inclusão que fez com que “já não exista mais um denominador comum entre todos os indivíduos diagnosticados com TEA [transtorno do espectro autista]”.

“O espectro tornou-se tão abrangente que temo que tenha sido esticado a tal ponto que perdeu o sentido e deixou de ser útil como diagnóstico médico.”

Nas últimas décadas, as taxas de diagnóstico de autismo aumentaram drasticamente. Em 1998, apenas 0,1% da população da Inglaterra tinha o diagnóstico de autismo. Em 2024, esse número subiu para 1,33% (cerca de 750 mil pessoas), segundo dados do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido). Os números podem parecer pequenos, mas representam um aumento significativo e afetam aqueles que estão nas listas de espera do NHS aguardando diagnóstico e apoio.

O aumento recente de casos “não se distribuiu igualmente ao longo do espectro”, afirma Frith. “O grupo de crianças diagnosticadas na primeira infância, segundo os critérios diagnósticos iniciais mais rigorosos, permaneceu relativamente estável.” Esses critérios identificam o autismo como um transtorno do neurodesenvolvimento ao longo da vida, que começa no nascimento (ou talvez até antes, diz Frith) e envolve prejuízos na fala, na linguagem e na comunicação não verbal, afetando as habilidades sociais, os relacionamentos e a aprendizagem. Também pode afetar o QI e frequentemente envolve uma “necessidade extrema de rotina” e comportamentos repetitivos.

Mas existe um segundo grupo, no outro extremo do espectro, composto por pessoas com dificuldades mais leves, argumenta Frith: “Esses indivíduos não apresentam deficiência intelectual e são verbalmente fluentes, mas tendem a sentir intensa ansiedade em situações sociais e são hipersensíveis”.

Houve um aumento dramático no número de jovens e adultos diagnosticados nesse grupo, especialmente mulheres, afirma Frith. Estudos nos Estados Unidos e na Suécia mostram que as taxas de mulheres com autismo estão aumentando mais rapidamente do que em outros grupos e que elas estão sendo diagnosticadas mais tarde na vida. Ao mesmo tempo, o autismo “tornou-se glamorizado, e o diagnóstico passou a ser, em certa medida, desejável”, à medida que a cultura popular exalta personagens fictícios com traços autistas. “Não vemos a esquizofrenia sendo glamorizada da mesma forma”, afirma Frith.

Frith, que iniciou sua carreira acadêmica na Universidade do Sarre, na Alemanha, preocupa-se com as consequências disso: “a taxa assustadora de aumento entre os grupos diagnosticados mais tardiamente acaba ofuscando as necessidades daqueles com deficiência intelectual, que precisam de apoio muito mais intensivo”.

Então, como chegamos a esse ponto?

“Ao longo dos anos, nossa definição básica de autismo permaneceu a mesma, mas foi nossa interpretação que mudou”, explica Frith. Quando começou a pesquisar o autismo, o diagnóstico era restrito e aplicado a crianças não verbais com comprometimentos graves. Na década de 1980, Frith começou a encontrar crianças que, em sua avaliação, não se encaixavam perfeitamente no diagnóstico de autismo, mas apresentavam algumas de suas características - os casos “não tão típicos”. Eram crianças que tinham traços autistas, mas também linguagem fluente e alta inteligência. Elas eram muito semelhantes às crianças descritas na década de 1940 pelo médico austríaco Hans Asperger, outro pioneiro da área, cujo nome foi associado à síndrome de Asperger. Frith defendeu que elas também deveriam ser incluídas no estudo do autismo.

Esta foi a força motriz por trás da ideia de que o autismo seria um transtorno existente ao longo de um espectro - conceito atribuído à psiquiatra britânica Lorna Wing que vem sendo utilizado desde a década de 1980.

Foi uma forma de incluir aquelas crianças que anteriormente não apareciam nas pesquisas e, naquele momento, ampliar a inclusão foi algo positivo, diz Frith.

Hoje, porém, a extremidade mais leve do espectro foi ampliada ainda mais, passando a incluir sintomas que antes poderiam ser considerados traços de personalidade ou sensibilidades individuais, como aversão a ruídos ou dificuldades sociais.

Parte do problema é que o autismo não possui um “biomarcador”: não existe exame de sangue, teste genético ou exame de imagem que mostre que alguém é autista. “Se tivéssemos biomarcadores, o diagnóstico não seria controverso”, afirma Frith.

Ela não está tentando depreciar aqueles que apresentam esses sintomas mais leves, nem sugerir que não exista nada clinicamente relevante nos casos que ela rotula de forma ampla como “hipersensibilidade”. Mas, como costuma brincar, ela é uma cientista fria e calculista [cold hard scientist]. E simplesmente não há evidências clínicas suficientes para incluir essas pessoas no espectro do autismo.

Para Frith, a ampliação do espectro também representa um afastamento preocupante do rigor clínico esperado em um campo científico. Ela cita o exemplo de jovens adultos que se autodiagnosticam com autismo após lerem sobre o tema na internet ou nas redes sociais e associam o transtorno à sua intensa ansiedade social, embora possuam excelentes habilidades de comunicação.

“Ter uma conversa com alguém com autismo geralmente não é algo fluido; a conversa tende a ser truncada ou confusa. Portanto, essa fluência  na comunicação é um indicativo contrário ao diagnóstico de autismo”, afirma Frith.

As implicações clínicas disso são particularmente preocupantes, diz ela. O sobrediagnóstico dilui a pesquisa, argumenta Frith, porque mistura grupos que podem ter causas biológicas diferentes e disfunções cognitivas distintas. “Isso torna os dados que obtemos de grandes grupos muito confusos.”

Ela acredita que deveríamos abandonar completamente a ideia de espectro. Em seu lugar, gostaria de ver subcategorias que separassem aqueles com autismo infantil no sentido clínico estrito, aqueles com síndrome de Asperger e aqueles com hipersensibilidade.

“Espero que possamos encontrar subgrupos significativos, cada um com seu próprio diagnóstico”, afirma.

domingo, 1 de março de 2026

O que torna a 'positividade tóxica' diferente de uma atitude saudável (Tradução)

Compartilho abaixo a tradução que fiz do artigo What makes ‘toxic positivity’ different from a healthy attitude, publicado no site Psyche no dia 27 de maio de 2024 por Lucas Dixon, que é pesquisador e professor na University of Queensland Business School, na Austrália. 

Quando você teve um dia ruim, ou até mesmo um ano ruim, já procurou seus amigos ou familiares apenas para ser recebido com um mar de afirmações açucaradas como ‘levante a cabeça’ ou ‘tudo acontece por uma razão’? Ou talvez você tenha procurado seu chefe com algum queixa, apenas para dar de cara uma nova placa na porta dizendo 'Apenas vibrações positivas!' (Positive vibes only) Ou você pode ter visto algum dos infinitos ​​​​livros de autoajuda, cursos e gurus do TikTok prometendo que uma vida feliz está a apenas uma afirmação positiva de distância.

É fácil ver o apelo da ideia de que você pode se tornar feliz e bem-sucedido apenas com a mentalidade e a atitude certas. Mesmo que as afirmações feitas pelos gurus de autoajuda lhe pareçam ridículas e exageradas, você pode pensar "qual é o problema"? Mas a pressão para ser inabalavelmente otimista diante de todos os obstáculos representa uma ameaça ao nosso bem-estar pessoal e coletivo. É por isso que alguns especialistas começaram a se referir à insistência cultural moderna na conformidade alegre em todas as situações como positividade tóxica.

Eu experimentei um exemplo marcante de positividade tóxica quando era estagiário em aconselhamento. Eu tinha uma supervisora que acreditava que o pensamento negativo ‘manifesta’ doenças. Ela insistia que as pessoas deveriam ‘limpar’ a si mesmas de crenças e memórias negativas, e manter uma perspectiva positiva para permanecer saudáveis. Em uma sessão de mentoria em grupo, quando outra estagiária compartilhou a triste notícia da recidiva de seu câncer, nossa supervisora bradou de forma desdenhosa: ‘Ah, você simplesmente continua produzindo essas coisas, não é!’ A estagiária saiu, profundamente magoada, para nunca mais voltar.

A positividade tóxica não surgiu do nada. Há mais do que um fundo de verdade na ideia de que uma atitude mental positiva pode ser benéfica. De fato, existe um campo dedicado a estudar esses benefícios – a psicologia positiva. Pesquisas nessa área mostraram que pessoas que adotam uma atitude mais positiva e otimista em relação à vida tendem a apresentar menos estresse, menos depressão e, em geral, melhores indicadores de saúde e bem-estar. Além disso, Além disso, ser uma pessoa positiva é algo atraente para os outros, e os benefícios sociais que advêm disso também são fundamentais para o bem-estar.

No entanto, estudiosos criticaram as descobertas da psicologia positiva por serem exageradas ou simplistas demais. É importante entender que as intervenções da psicologia positiva tendem a beneficiar mais aqueles que já são, em geral, psicologicamente saudáveis. Em outras palavras, pessoas que enfrentam problemas psicológicos intensos ou circunstâncias de vida difíceis provavelmente não obterão os mesmos benefícios da psicologia positiva, em comparação com a busca por tratamentos mais estabelecidos, como a terapia cognitivo-comportamental. O que é especialmente pouco útil ou até prejudicial é quando as pessoas levam o pensamento positivo a um extremo e acreditam que ele é a resposta para qualquer problema. Infelizmente, é essa mensagem de positividade - excessivamente simplista - que está sendo transmitida a milhões.

Com atitudes do tipo lucky girl [a ideia, popular nas redes sociais, de que basta acreditar que tudo vai dar certo para que o universo traga sorte] e narrativas heroicas segundo as quais qualquer adversidade pode ser superada com uma determinação inabalável, influenciadores das redes sociais costumam divulgar essa versão superficial da psicologia positiva. Para seus inúmeros seguidores, esse tipo de mensagem acaba se tornando um modelo do que todos deveriam alcançar na vida.

Ao absorver essas normas idealizadas de positividade, as pessoas podem passar a acreditar que suas reações naturais às inevitáveis experiências difíceis da vida (seja de luto, perda de emprego, pandemias ou fracassos nos relacionamentos) são de alguma forma erradas. Há o risco delas desenvolverem hábitos de esquiva experiencial negando, suprimindo ou evitando de forma consistente pensamentos e emoções difíceis. É claro que não há problema em fingir estar bem para superar uma reunião difícil ou reinterpretar positivamente uma situação para lidar com contratempos momentâneos, mas, em algum momento, todos precisamos parar e abordar nossos problemas e questões pendentes.

A evitação pode reforçar a ideia de que existem experiências internas ‘ruins’ que precisam ser evitadas. Mas não é tão fácil evitar nossas experiências internas. Você já tentou não pensar em um elefante roxo? Experimentos descobriram que, quando as pessoas tentam fazer isso, acabam pensando neles mais, não menos. Isso dá peso ao antigo ditado do psiquiatra suíço Carl Jung de que ‘aquilo a que você resiste… persiste’ (‘what you resist…persists')

Rotular certos pensamentos ou emoções como ‘bons’ ou ‘maus’ também pode criar um ciclo desnecessário de autojulgamento e expiação por pecados inexistentes. Digamos que você passe a acreditar que um pensamento que teve sobre alguém é ‘mau’. Isso pode fazer com que você se sinta culpado porque seu comportamento não corresponde às suas rígidas regras morais. Seguindo os gurus da positividade, para escapar dessa dissonância cognitiva, você pode tentar encobrir esse pensamento com afirmações positivas, tentando reduzir o desconforto e se convencer de que você é, na verdade, uma ‘boa’ pessoa. No entanto, todo esse esforço acaba dando aos pensamentos ‘ruins’ mais poder do que eles precisam ter.

Em última análise, o esforço e a energia extras gastos em evitar problemas através do pensamento positivo provavelmente causarão estresse. Paradoxalmente, esse estresse coloca você na linha de frente para os mesmos problemas de saúde mental e física que você estava tentando evitar com o pensamento positivo! Um estudo longitudinal  descobriu que pessoas cujo estilo de enfrentamento envolvia evitar problemas relataram situações de vida mais estressantes quatro anos depois e mais sintomas de depressão 10 anos depois. Tentar suprimir emoções negativas também tem sido associado  a problemas de saúde física e potencialmente até mesmo à morte prematura.

Nem todas as situações da vida exigem uma perspectiva positiva. Há momentos em que uma visão sóbria da realidade, ainda que desconfortável,  é útil. Por exemplo, alguns sentimentos ou experiências negativas podem motivar alguém a buscar um diagnóstico e tratamento para uma doença, a enfrentar as dívidas que estão se acumulando ou a terminar um relacionamento ruim. Às vezes precisamos encarar aspectos incômodos de nós mesmos. Jung sugeria que a busca por perfeição moral nega as partes mais complexas e menos socialmente aceitáveis da nossa personalidade; e isso pode dificultar a verdadeira autoaceitação e o crescimento.

Problemas semelhantes surgem quando impomos padrões rígidos de positividade aos outros. A mentalidade de ‘apenas vibrações positivas’ pode dificultar a comunicação aberta e empática em contextos sociais e profissionais. Por exemplo, insistir em vibrações positivas no trabalho pode desencorajar colegas a expressar preocupações, deixando problemas reais sem solução. O mesmo ocorre em nossos relacionamentos íntimos. Minha própria experiência com minha supervisora me fez reconsiderar se reavaliações aparentemente bem-intencionadas e banais das situações dos outros, como dizer “olhe pelo lado bom”, são realmente úteis. Às vezes as pessoas só precisam ser ouvidas com atenção. Abraçar todo o espectro das emoções humanas, incluindo as desconfortáveis ou dolorosas, é fundamental para uma conexão e compreensão genuínas.

Então, como navegar na linha tênue entre uma positividade saudável e uma positividade excessiva ou tóxica? Diferentemente das frases rápidas do TikTok, a resposta é cheia de nuances. Pense nas afirmações positivas e nas técnicas de visualização, tão populares entre influenciadores e gurus das redes sociais. Pesquisas sugerem que afirmações positivas (como repetir para si mesmo aquilo em que você é bom ou o que gosta em si) podem de fato ajudar as pessoas a se sentirem melhor, mas os benefícios aparecem principalmente em quem já tem uma autoimagem mais positiva. Para quem enfrenta autoestima muito baixa, as afirmações podem sair pela culatra, fazendo a pessoa se sentir pior. Esse efeito adverso pode surgir da dissonância cognitiva que ocorre quando essas declarações positivas entram em conflito com a forma como a pessoa se vê. Se uma afirmação como “eu amo tudo em mim” soa obviamente falsa, ela não só faz você lembrar de tudo o que não gosta em si, como também faz você se sentir um impostor.

Da mesma forma, o valor da visualização positiva também é mais complexo do que parece. Pesquisas da psicóloga alemã Gabriele Oettingen mostraram que apenas ter uma visão inspiradora do futuro não é suficiente para nos motivar a alcançar nossos objetivos. Precisamos de um equilíbrio entre nos entregarmos a fantasias positivas inspiradoras e confrontarmos a realidade das nossas circunstâncias, aceitando-nos como somos.

Em vez de buscar uma positividade constante, muitas abordagens psicológicas contemporâneas - como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Comportamental Dialética (DBT) - enfatizam a importância de aceitar e compreender as coisas como elas são. Elas se concentram em ajudar a construir uma relação mais compassiva e acolhedora com nossas experiências internas. Isso pode funcionar porque, quando diminuímos o julgamento negativo, pensamentos e sentimentos “ruins” acabam, paradoxalmente, tendo menos poder sobre nós, permitindo que nos desvinculemos deles mais rapidamente, sem gastar tanta energia tentando eliminá-los completamente.

Assim, a chave para o bem-estar pode estar na capacidade de equilibrar uma visão positiva com a aceitação e o engajamento com a realidade. Isso me lembra que a oração da serenidade dos Alcoólicos Anônimos continua tão atual hoje quanto era na primeira metade do século passado: “Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”. Como encontrar essa sabedoria? Acho que cada pessoa tem seu próprio caminho, e é sempre um processo em construção. Ainda assim, aqui vão algumas sugestões baseadas em minhas pesquisas e experiências no campo do autoajuda:

- É útil perceber quando você sente pressão dos outros para ser positivo, sejam seus amigos, familiares, colegas ou celebridades das redes sociais. Você pode notar isso ao rolar o feed e se comparar com as outras pessoas, por exemplo. Nessas situações, é importante lembrar que o que você vê é uma versão editada e selecionada da vida delas, não a história completa.

- Quando pessoas ou grupos exaltam a positividade e tratam a expressão de pensamentos ou emoções “negativas” como algo errado, isso é um sinal de alerta. Às vezes regras morais rígidas são usadas para calar críticas e discordâncias. Isso não é saudável a longo prazo, pois sufoca a expressão genuína e impede mudanças. Vale lembrar que há momentos em que pensamentos e experiências negativas podem ser úteis.

- A positividade pode surgir espontaneamente de maneiras diferentes para cada um de nós. Pode ser quando você está fazendo trabalho voluntário, tocando música, passeando com o cachorro, fazendo uma aula de improvisação, conversando com um amigo ou abraçando seu filho. Descubra o que faz você se sentir bem e dê a si mesmo permissão para fazer isso com mais frequência. Para muitas pessoas, essa abordagem mais suave para ser mais feliz a cada dia é mais eficaz do que ter que adotar uma mentalidade específica ou pensar os ‘pensamentos corretos’ para ser feliz.

Diante de uma cultura que insiste na positividade,
 precisamos lembrar que a vida não é apenas o recorte bonito das redes sociais. Ela envolve o filme inteiro, incluindo as partes que deixamos de fora. O excesso de positividade, embora bem-intencionado, pode silenciar as lutas genuínas que todos enfrentamos e criar um ambiente onde apenas certos aspectos de nós mesmos são valorizados, forçando-nos a usar máscaras que nem sempre nos servem. Para melhorar nosso bem-estar individual e coletivo, vamos abraçar todo o espectro da nossa humanidade e cultivar espaços dentro de nós e ao nosso redor onde seja normal estar bem, e também normal não estar bem.


Impressões sobre o documentário alemão "Irvin Yalom - De Frente para o Sol"

O documentário "Irvin Yalom - De Frente para o Sol" (Irvin Yalom - In die Sonne schauen), produção alemã lançada em 2023, está longe de ser um grande filme - eu diria mais: ele chega a soar como um desperdício de tempo e dinheiro. A equipe teve acesso privilegiado a Irvin Yalom e à sua família, pôde filmá-lo em momentos íntimos, acompanhar sua rotina, registrar conversas pessoais e ainda assim entregou um trabalho superficial, curto demais (com apenas 50 minutos) e sem o aprofundamento que um personagem dessa estatura claramente merecia. Falta ao documentário um fio narrativo mais consistente, maior contextualização da trajetória profissional e intelectual de Yalom e, sobretudo, mais tempo para desenvolver temas que aparecem apenas de passagem, como sua relação com a morte, o envelhecimento, a escrita e a própria prática clínica. Ainda assim, apesar dessas limitações, o filme tem qualidades que o tornam interessante para quem admira a obra de Yalom. O tom é bastante intimista, com belas imagens de arquivo, cenas familiares e depoimentos sinceros do próprio Irvin, de seus filhos, de um neto e também de sua atual esposa, Sakino Sternberg - e pelo filme ficamos sabendo que eles estavam, naquele momento, escrevendo um livro juntos (que ainda não foi publicado). Há também pequenas passagens que mostram Yalom com 91 anos refletindo sobre a vida e o envelhecer com a consciência cada vez mais concreta da finitude - reflexões que atravessam toda a sua obra, mas que aqui aparecem mais sugeridas do que exploradas.

Entre todas as falas, duas me chamaram particularmente a atenção. A primeira é quando Yalom afirma considerar Os desafios da terapia o seu melhor livro - avaliação com a qual concordo totalmente. A segunda, mais surpreendente, é um desabafo de sua filha Eve, que afirma que o pai “nunca fez nada por sua família”. Ela explica que, enquanto Irvin se dedicava ao trabalho clínico e à escrita dos seus livros, praticamente todas as responsabilidades com relação à casa e à criação dos filhos ficaram a cargo de sua primeira esposa, Marilyn Yalom, que ainda precisava conciliar essas tarefas com sua própria carreira acadêmica - e segundo Eve, isso foi fonte de tensão entre eles durante anos. Esse depoimento é talvez o momento mais forte do documentário, justamente porque rompe com a imagem idealizada do casal que aparece no livro Uma questão de vida e morte, escrito por ambos. Ali, a relação entre Irvin e Marilyn é retratada de forma extremamente harmoniosa e exemplar, quase idílica; no filme, surge uma dimensão mais humana, com conflitos e desigualdades muito comuns às antigas (e atuais) gerações. O resultado é interessante porque mostra que o sujeito pode ser um grande terapeuta e escritor e, ao mesmo tempo, um marido e pai bastante tradicional, no pior sentido da palavra. No fim das contas, "Irvin Yalom: De Frente para o Sol" não é um filme memorável, nem faz jus à importância de seu protagonista. Ainda assim, vale a pena ser visto por quem se interessa pela obra de Yalom, justamente por causa desses fragmentos mais pessoais, desses pequenos deslizes de sinceridade e das cenas que expõem, mesmo que rapidamente, a pessoa por trás do autor. E é por conta desses momentos - e não pela qualidade do documentário como um todo - que eu recomendo o filme, atualmente disponível no canal Aquarius da Prime Video.

Pós-escrito: há também um documentário mais antigo, de 2014, que trata da vida e obra de Yalom. O filme, dirigido por Sabine Gisiger, chama-se "Yalom's cure" e está disponível no Youtube gratuitamente - mas infelizmente sem legendas em português. Se tiver interesse assista abaixo.

 
 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

“Neurocoisas”: por que o prefixo “neuro” não converte qualquer ideia em ciência

Republico abaixo um  texto  muito interessante escrito pelos pesquisadores espanhóis Ingrid Mosquera Gende e José Morales García publicado no site The conversation - inicialmente em espanhol e mais recentemente - no dia 24 de fevereiro - em português. Quem acompanha este blog sabe do meu interesse pela discussão sobre os usos e abusos do discurso "neuro", tema que eu já tratei inúmeras vezes por aqui e também em dois livros: "O cérebro vai à escola": aproximações entre neurociências e educação no Brasil e Você não é seu cérebro! e outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema. Especialmente no primeiro livro, fruto da minha dissertação de mestrado, eu tratei com profundidade de uma das mais populares neurodisciplinas, a neuroeducação, que exemplifica muito bem o fenômeno analisado no presente ensaio. Cabe destacar que este artigo está licenciado sob Creative Commons, podendo ser reproduzido e republicado livremente. O artigo original pode ser lido aqui.

Nas últimas décadas, o prefixo “neuro-” virou uma espécie de selo de qualidade intelectual e científica. Basta dar uma olhada nas redes sociais, canais de divulgação e, pior ainda, em artigos acadêmicos, para encontrar termos como neuromarketing, neurodireito, neuroliderança ou neurocoaching. Basta adicionar cinco letras a uma palavra para que ela pareça mais profunda, inovadora e, acima de tudo, mais científica.

O prefixo “neuro-” vem do grego neûron (νεῦρον) e significa “nervo” ou, por extensão, “sistema nervoso”. Começou a ser usado para formar termos científicos e médicos relacionados a esse sistema, mas se estendeu a outros campos, nem sempre corretamente. Nem tudo que reluz é neuro.

Uso legítimo versus abuso terminológico

O prefixo neuro- deve ser reservado para aquilo que tem uma relação comprovada com o sistema nervoso; não basta mencionar o cérebro. Falar corretamente de neurociência implica apoiar-se em dados obtidos por meio de técnicas próprias dessa disciplina, como neuroimagem, eletrofisiologia ou estudo molecular, celular e tecidual do tecido nervoso.

Nos últimos anos, no entanto, o termo se popularizou em áreas como marketing, gestão empresarial ou coaching, muitas vezes sem que exista uma conexão real com mecanismos cerebrais mensuráveis. Essa ampliação do termo não é irrelevante do ponto de vista cognitivo: vários estudos mostram que explicações que incluem referências ao cérebro são mais persuasivas, mesmo quando essas informações são irrelevantes ou superficiais.

Esse fenômeno, conhecido como neurohype ou “neuroessencialismo”, tem sido amplamente criticado por exagerar o valor explicativo do “neural” e por contribuir para uma compreensão simplificada — e às vezes errônea — de como o sistema nervoso realmente funciona.

Nessa perspectiva, o problema não é que outras disciplinas estudem o comportamento humano — algo perfeitamente legítimo —, mas que adotem o prefixo “neuro-” sem aportar evidências neurobiológicas diretas.

Isso não significa que o diálogo entre a neurociência e outras áreas do conhecimento seja ilegítimo. Pelo contrário: é desejável e necessário. Mas não se consegue uma conversa interdisciplinar apenas adicionando um prefixo, sem integrar dados, teorias e métodos de forma rigorosa. Quando termos como neuromarketing, neurocoaching ou neuroliderazgo, entre muitos outros, são aplicados a intervenções que não geram nem utilizam dados neurobiológicos, o prefixo neuro- funciona principalmente como um golpe publicitário.

Como alertam Sally Satel e Scott Lilienfeld, esse uso indevido da linguagem neurocientífica pode desviar a atenção de questões realmente importantes — o que funciona, para quem e em que contexto — para uma explicação reducionista centrada no cérebro. Nem todo estudo sobre a mente precisa ser neuro para ser rigoroso, e forçar essa linguagem pode criar mais confusão do que conhecimento.

“Neuro-sintomas” que nos fazem desconfiar

Nas redes sociais, tanto influenciadores quanto empresas se apoiam nesse prefixo para chamar a atenção e conferir um aparente rigor científico a um produto, curso ou ideia.

Ações como acessar o perfil da rede social da pessoa que publica, verificar sua formação, observar se ela tem contribuições sobre o tema ou se comenta assuntos muito diversos e sem relação aparente podem nos ajudar a descobrir seu nível de especialização.

Nesse mesmo sentido, mesmo que a pessoa coloque “especialista” em seu perfil ou tenha uma foto com um jaleco branco, investiguemos um pouco mais. Se necessário, pode ser conveniente sair da rede social e procurar em outras fontes.

Por outro lado, a maioria dos perfis científicos e acadêmicos que se dedicam à divulgação tentam fazê-lo de forma acessível e com uma linguagem que possa ser minimamente compreensível para o público não especializado. Portanto, se encontrarmos um reel ou uma publicação com uma linguagem excessivamente técnica, não devemos presumir que estamos diante de um especialista.

E, se não tivermos certeza, não devemos compartilhar, comentar ou citar. Não devemos dar destaque a esse tipo de conta porque, sem perceber, estamos contribuindo para sua viralização, que é exatamente o que elas buscam.

Estar ciente dessas técnicas pode nos tornar usuários de redes sociais mais neurocríticos e menos neuroinfluenciáveis, sem cair na armadilha do clickbait, que busca que cliquemos em determinadas publicações com títulos e palavras sem sentido, como as que usamos neste parágrafo.

Propostas para melhorar comunicação científica

Do ponto de vista da prática investigativa, diferentes trabalhos em comunicação científica e neuroética sugerem que uma forma eficaz de melhorar o rigor — e evitar o abuso do termo “neuro” — é aplicar critérios mais restritos de precisão conceitual. O prefixo deve ser usado apenas quando o estudo incorpora dados, métodos ou medidas diretamente relacionados à atividade do sistema nervoso, e não como um recurso retórico destinado a reforçar explicações psicológicas ou comportamentais já bem estabelecidas por outros meios.

No âmbito editorial, várias análises recomendam avaliar criticamente se a referência ao sistema nervoso traz um valor explicativo real ou se, pelo contrário, introduz ambiguidade conceitual (o citado neuroessencialismo) sem melhorar a inferência científica.

Por fim, estudos experimentais em psicologia cognitiva mostram que o uso da linguagem neurocientífica pode aumentar a percepção de credibilidade de uma explicação sem melhorar sua qualidade ou compreensão. Esse efeito reforça a necessidade de divulgadores e comunicadores científicos priorizarem a clareza, o contexto e os limites interpretativos acima do apelo do discurso “neuro”.

Em conjunto, essas práticas reduzem o risco de neurohype e favorecem uma comunicação científica mais precisa e honesta. Como lembrava Santiago Ramón y Cajal, “todo homem pode ser, se assim o desejar, escultor de seu próprio cérebro”; mas nenhuma palavra, por mais neuro que soe, pode esculpir por si só conhecimento onde não há rigor.

Ingrid Mosquera Gende, Professora Titular da Universidade na Faculdade de Ciências da Educação e Humanidades da UNIR – Universidade Internacional de La Rioja, e José A. Morales García, Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sobre a potência do vínculo: uma resenha do livro "Uma hora de conexão" de Irvin e Benjamin Yalom

O psiquiatra e psicoterapeuta Irvin Yalom, atualmente com 94 anos, possui uma vasta e relevante obra, iniciada em 1970 com a publicação do livro didático The Theory and Practice of Group Psychotherapy (lançado no Brasil pela Artmed em 2006 com o título "Psicoterapia de grupo: teoria e prática"). Desde então, Yalom publicou inúmeros e excelentes livros, incluindo quatro romances filosóficos: When Nietzsche Wept (Quando Nietzsche chorou, 1992), Lying on the Couch (Mentiras no divã, 1996), The Schopenhauer Cure (A cura de Schopenhauer, 2005) e The Spinoza Problem (O enigma de Espinosa, 2012); cinco livros com histórias de terapia, meus preferidos: Every Day Gets a Little Closer (Cada dia mais perto, 1974, escrito em parceria com Genny Elkin), Love's Executioner (O carrasco do amor, 1989), Momma and the Meaning of Life (Mamãe e o sentido da vida, 1999), Creatures of a Day (Criaturas de um dia, 2015) e Hour of the Heart (Uma hora de conexão, 2024, escrito em parceria com seu filho, Benjamin Yalom); dois livros autobiográficos: Becoming Myself (2017) e A Matter of Death and Life (Uma questão de vida e morte, 2021, escrito com sua esposa, Marilyn Yalom); um livro não teórico sobre psicoterapia: o fantástico The Gift of Therapy (Os desafios da terapia, 2001); um livro filosófico sobre a morte: Staring at the Sun (De frente para o sol, 2008); três livros teóricos: The Theory and Practice of Group Psychotherapy (1970), Existential Psychotherapy (1980) e Inpatient Group Psychotherapy (1983), além de duas coletâneas de ensaios: The Yalom Reader (1996) e I'm Calling the Police (Vou chamar a polícia, 2005). Temos, portanto, 18 obras lançadas até o momento. No Brasil, a maior parte desses livros já foi publicada, com exceção de quatro: Existential Psychotherapy, Inpatient Group Psychotherapy, The Yalom Reader e Becoming Myself. E ao longo dessa variada e admirável obra, Yalom tratou como poucos das complexidades da mente humana e, especialmente, das possibilidades e potências do vínculo terapêutico. Certamente outros autores fizeram isso com muita competência, como Lori Gottlieb em Talvez você deva conversar com alguém e Joshua Fletcher em E como você se sente em relação a isso?. No entanto, esses são escritores iniciantes e estão longe de terem uma obra ampla e sólida como Yalom (espero muito que cheguem lá).

Em seu livro mais recente, lançado em novembro de 2024 nos Estados Unidos e em janeiro de 2026 no Brasil, Yalom dá continuidade ao seu antigo "projeto" de retratar a relação entre terapeuta e paciente, que está no centro e na base da sua abordagem terapêutica. Mas, desta vez, ele decidiu inovar e compartilhar os resultados de uma espécie de experimento que ele se propôs a fazer aos 80 e tantos anos. Originalmente intitulado Hour of the heart: connecting in the here and now (Hora do coração: conectando no aqui e agora) o livro, que foi escrito em parceria com seu filho Benjamin Yalom, recebeu no Brasil um título bem mais interessante (e menos piegas): "Uma hora de conexão: sessões sobre memória e vulnerabilidade". Mas do que trata o tal experimento que ele se propôs a fazer? Bem, pouco antes de completar 90 anos, ainda enlutado pela morte recente de sua esposa, com quem ele foi casado por 65 anos, Yalom começou a perceber sua memória piorando dia após dia. E ele passou a sentir também os impactos destes problemas de memória em seus atendimentos, que ele ainda realizava presencialmente no seu consultório em Palo Alto na Califórnia, e também online, especialmente após o início da pandemia de Covid-19. E foi por conta de tais problemas que ele decidiu alterar total e definitivamente a sua forma de atendimento: ao invés de atender as pessoas no decorrer de longos períodos, como fez até então, ele faria apenas atendimentos únicos com uma hora de duração. Esta forma peculiar de atendimento, no seu entender, demandaria menos da memória e mais da sua habilidade, exercitada ao longo de décadas, de se conectar com seus pacientes. 

E assim, no decorrer dos anos seguintes, Yalom atendeu dezenas, talvez centenas, de pessoas - e no livro ele compartilhou algumas de suas histórias. Mas além de inovar na duração dos atendimentos ele se propôs a explorar ainda mais o aqui-e-agora na relação entre ele e seus pacientes durante a sessão e também a experimentar a autorevelação por meio da inversão de papéis entre terapeuta e paciente. Nesta técnica, o terapeuta deixa momentaneamente a função de "escutador" e se propõe a responder, da forma mais sincera possível, a qualquer pergunta ou questionamento do paciente. É um recurso que exige coragem e abertura e que pode ser útil em determinados momentos. No entanto, da forma como é retratado no livro, eu fiquei com a impressão de que, em alguns casos, a inversão de papéis se estende além do necessário, fazendo com que a sessão pareça girar mais em torno dele do que do paciente. De toda forma, mesmo com exageros pontuais, Yalom continua conduzindo e retratando o atendimento terapêutico com uma admirável sensibilidade e humanidade. E é com a mesma atitude que ele relata também o seu próprio declínio. Aos 93 anos, após alguns anos atendendo neste formato, Yalom tem um assustador apagão de memória, esquecendo-se completamente de um atendimento que acabara de fazer. E por conta desta situação, retratada no último capítulo do livro, ele decidiu pôr fim à sua longa carreira como terapeuta. No entanto, como aponta seu filho Benjamin, no posfácio, embora não atenda mais, Yalom não deixou de escrever e tem se dedicado intensamente àquele que pode ser seu último livro. Essa informação, contudo, não funciona apenas como nota biográfica; ela prolonga, para além das páginas de Uma hora de conexão, o mesmo movimento que o livro encena: o de transformar os limites humanos - inclusive o declínio e a finitude - em matéria de reflexão e partilha. Se o consultório se fecha, a escrita permanece como outra forma de encontro. Assim, este livro se afirma como uma obra de passagem: ao mesmo tempo em que marca o encerramento de uma prática clínica de décadas, reafirma a fidelidade de Yalom àquilo que sempre sustentou em sua trajetória: a aposta na relação, na vulnerabilidade compartilhada e na coragem de olhar de frente a própria finitude. Ao final da leitura, permanece menos a sensação de despedida e mais a de continuidade: enquanto houver leitores e terapeutas dispostos a sustentar o aqui e agora do encontro, a obra de Yalom seguirá viva.

Trechos do livro: "Fui lembrado mais uma vez de uma realidade humilhante. Raramente é o brilhantismo de um terapeuta que faz a diferença. Nossas intepretações engenhosas? As intervenções ousadas que nos provocam descargas de adrenalina e satisfação pessoal? Isso em geral passa despercebido pelos pacientes. Por outro lado, o que quase sempre faz a diferença são as qualidades do vínculo (a empatia, o desejo e a capacidade de realmente enxergar o outro) e a disposição de oferecer um feedback honesto, algo que raramente se obtém na vida cotidiana. É aí que residem os tesouros, uma verdade confirmada em minhas décadas de experiência, bem como em pesquisas científicas revisadas por pares. Compreendi que a melhor forma de tirar proveito das sessões únicas era focando o relacionamento"; "Meu mantra profissional: é o relacionamento que cura. Ou seja, o que faz um paciente crescer e se transformar é, antes de tudo, a experiência de um vínculo de proximidade e segurança com o terapeuta, mais do que qualquer intervenção, diagnóstico ou medicamento específico. Em várias dessas histórias, mencionei a necessidade de construir essa conexão de confiança como essencial para o trabalho no aqui e agora. Mas iria além e diria que qualquer que seja a abordagem terapêutica, desde a terapia focada em soluções de curto prazo até a terapia cognitivo-comportamental e a análise psicodinâmica de longa duração, é fundamental criar um relacionamento forte, positivo e de confiança com os pacientes. É claro que a construção desse relacionamento em uma única sessão é uma tarefa particularmente desafiadora. Mas se levar a sério meu próprio mantra e acreditar que a relação é, de fato, mecanismo de cura, então, nessas sessões únicas, devo me dedicar por inteiro a criar esse vínculo o quanto antes. Falar de mim mesmo - mostrar vulnerabilidade, compaixão, humanidade - e incentivar o paciente a fazer igual pode não ser o único recurso, mas decerto é o que funciona melhor pra mim".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dois videos sobre algumas (neuro)coisas

Compartilho abaixo, com os leitores deste blog (se é que alguém ainda lê este blog), dois videos publicados no Youtube em 2025: o primeiro deles é de uma entrevista que eu dei para um curso de formação online de professores do ensino básico sobre o tema da aproximação entre neurociências e educação, tema que eu me dediquei no mestrado - e que resultou na minha dissertação, que posteriormente foi adaptada e transformada no livro "O cérebro vai à escola: aproximações entre neurociências e educação no Brasil", lançado em 2016 pela editora Paco; o outro vídeo é de uma palestra que eu ministrei durante o III Congresso de Saúde Mental da UFV. Nesta palestra, intitulada "Tecnologias para o aprimoramento do cérebro e da mente: uma análise crítica" eu falo especialmente do tema do treinamento cognitivo ou cerebral, tema que eu me dediquei no doutorado - e que resultou na minha tese, que em breve será publicada como livro também pela editora Paco. A palestra tem início às 1h8min do video. Espero que gostem...
 

Um breve comentário sobre o filme "Vampira humanista procura suicida voluntário"

Sasha é uma jovem vampira no mínimo diferente. Seria possível dizer até que ela tem uma anomalia ou - porque não? - um transtorno mental: ela se importa com os seres humanos e não consegue matá-los para se alimentar, o que deixa sua família vampírica extremamente frustrada e preocupada. E por conta desse "transtorno" ela se alimenta apenas do sangue extraído de pessoas mortas por seus pais - em um processo de autoengano semelhante ao que nós fazemos quando comemos um bife nos "esquecendo" temporariamente que aquela carne é o resultado da morte de um animal. Pois essa é a história do incrível filme canadense "Vampira humanista procura suicida voluntário" (2023), dirigido pela cineasta Ariane Louis-Seize e recém-incluído no catálogo da Netflix. O que eu acho mais fascinante nessa história é que ela deixa bem claro como as noções de normalidade e de patologia dependem fundamentalmente do contexto em que a pessoa vive. E no contexto criado pelo filme, ser uma vampira humanista é visto, especialmente por sua família, como algo anormal, doentio, patológico e que, portanto, precisa ser tratado ou curado, de forma a enquadrar a pessoa à tal "normalidade". Sério, não deixem de assistir esse filme precioso lá na Netflix!

Entre o ceticismo e a fé: uma resenha do romance "Batida só", da Giovana Madalosso

Durante um assalto, Maria João desmaia e por conta disso é levada a um hospital, onde descobre, após despertar, que possui uma grave arritmia cardíaca - totalmente desconhecida por ela até então. A questão é que após tal descoberta, Maria passa por uma bateria de exames e seu cardiologista, além de lhe prescrever alguns remédios para atenuar a arritmia, recomenda que ela tente evitar "toda e qualquer emoção forte" - mas como fazer isso? Nós temos algum controle sobre as nossas emoções? E mais profundamente: o que é uma emoção? Pois esse é o ponto de partida do maravilhoso livro "Batida só", terceiro romance da escritora curitibana Giovana Madalosso (os anteriores são o interessante Tudo pode ser roubado e o fenomenal Suite Tóquio). Sem entrar em muitos detalhes da narrativa é possível dizer que após receber tal recomendação, Maria procura um psiquiatra na esperança de que algum psicofármaco a ajude a controlar e atenuar suas emoções - o que de fato acontece: o antidepressivo prescrito faz com que suas ansiedades e angústias (mas também suas alegrias e sua libido) se tornem fracas e distantes em sua mente, como se ela nada sentisse. Ao mesmo tempo, Maria opta por se mudar por um tempo para a cidade onde cresceu, uma pequena cidade do interior, com o objetivo de descansar e tentar acalmar, ainda mais, as suas emoções. E lá ela reencontra uma antiga amiga de infância, a Sara, que é mãe de Nico, um garoto brilhante e adorável acometido por uma doença gravíssima. Unidos pelo adoecimento, todos eles partem para uma cidade vizinha onde tratamentos espirituais (bem ao estilo de João de Deus) são realizados. Acontece que Maria é ateia e cética com relação a tudo o que é realizado lá, bem o contrário de Sara, que possui uma forte e inabalável fé. Uma das grandes riquezas do livro está justamente na forma como ele trata o embate e as aproximações entre ceticismo e fé, entre razão e emoção e entre pessimismo e esperança. Meu destaque fica para o encantador Nico, meu personagem favorito da história, que incorpora com brilhantismo todas as ambivalências e contradições dessas discussões - e de muitas outras - trabalhadas com muito talento e sensibilidade pela autora neste livro lançado em 2025 pela editora Todavia. Amei!

Trecho do livro: "Até ter aquela cardiopatia, eu era como a maioria das pessoas, achava que a medicina tinha evoluído a ponto de resolver qualquer problema. É assim que os leigos falam: hoje em dia tem tratamento pra tudo (...). Só quando a doença está no seu corpo você descobre a verdade. E a verdade é que a medicina é uma ciência de poréns. Não existe consenso absoluto entre os médicos. Mesmo no meu caso, que as opiniões convergiam e o tratamento prometia dar certo, havia discordâncias. Não há garantia de nada - cada corpo é uma folha em branco a escrever todo dia a sua própria e única história. O que parece fácil de resolver é sempre um pouco mais complexo do que se espera. E algumas vezes a solução não existe. Ou é um daqueles artigos de luxo a que só uma ínfima parte da população pode ter acesso".

A potência do encontro terapêutico: uma resenha do livro "E como você se sente em relação a isso?"

No livro "E como você se sente em relação a isso?", o psicoterapeuta inglês Joshua Fletcher intercala algumas (ótimas) histórias de psicoterapia com histórias da sua própria vida. Muito embora os relatos pessoais sejam interessantes, por demonstrarem o fato óbvio, por vezes esquecido, de que terapeutas são humanos e também sofrem e passam por problemas assim como seus pacientes, o ponto alto do livro, sem dúvida alguma, são suas ótimas histórias de terapia. Como eu cheguei a dizer na resenha que fiz do maravilhoso "Talvez você deva conversar com alguém", escrito pela terapeuta Lori Gottlieb, pouquíssimos livros, especialmente livros técnicos, conseguem transmitir a complexidade e a potência do encontro terapêutico. Os mais bem-sucedidos nessa empreitada são aqueles e aquelas com boas habilidades na escrita literária, como é o caso de Irvin Yalom mas também de Gottlieb... e de Fletcher. No caso de Fletcher, além de narrar com muito talento algumas sessões de terapia, ele escolheu os casos para o livro com muita sabedoria: são casos que exploram variadas facetas, desafios e, até mesmo, frustrações do trabalho terapêutico. O que achei mais interessante é que ele optou por narrar tanto casos que poderíamos chamar de bem-sucedidos, nos quais as pessoas apresentaram melhoras significativas, quanto casos que tiveram um desfecho ruim, seja em função de uma desistência ou por conta do interesse romântico que ele desenvolveu por uma determinada paciente. Eu preciso salientar e elogiar, nesse sentido, a enorme sinceridade com que Fletcher se expressa, seja ao expor os seus pensamentos durante as sessões, seja ao relatar episódios nada agradáveis ou lisonjeiros de sua própria vida - algo que exige muita coragem. Mas eu preciso elogiar também a forma como ele conduz as sessões, com muita empatia, ternura e sensatez. É claro que não temos como saber o quão precisas e fiéis são suas narrativas de terapia, mas o fato é que elas pareceram para mim - que já tenho, como ele, uma boa experiência clínica - extremamente verossímeis. Por tudo isso, gostaria de recomendar com muito entusiasmo a leitura deste ótimo livro, lançado em 2024 pela Editora Sextante.