segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sem sofrimento não há crítica social - Vladimir Safatle


Reproduzo abaixo, na íntegra, um excelente artigo do Vladimir Safatle, professor no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), publicado na revista Carta Capital do dia 03 de Outubro de 2012. O artigo ainda não está disponível no site da revista. Encontrei-o aqui.

Um dos fenômenos mais relevantes da última década foi uma lenta mutação em nossa maneira de compreender a natureza do sofrimento psíquico. Tal questão não é um problema que deveria ocupar apenas psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. A maneira como compreendemos o que vem a ser o sofrimento psíquico é um setor fundamental a respeito da imagem que temos de nós mesmos e de nossos ideais de autorrealização.

A distinção entre normalidade e patologia, no que se refere à vida psíquica, não é o simples fruto de variações quantitativas, de déficits e excessos relativos a constantes orgânicas. Valores fundamentais na definição tradicional da normalidade, como harmonia e equilíbrio, nascem em campos exteriores à clínica. Não seria difícil mostrar como a genealogia da "harmonia" como valor médico encontra sua origem no campo da estética, da mesma forma que o "equilíbrio" encontra sua origem na política. Essa é apenas uma maneira de lembrar como os valores que compõem o horizonte da saúde são, em larga medida, dependente de valores que a clínica toma de empréstimo dos campos da cultura. O homem é um animal que sofre por não ser capaz de realizar valores que ele compreende, graças a uma experiência sócio-histórica de larga escala, como fundamentais para uma vida bem-sucedida.

Lembrar tais considerações aparentemente triviais é fundamental para começarmos a compreender as consequências de certa guinada organicista que submeteu as discussões sobre sofrimento psíquico, ao menos desde o aparecimento do manual de psiquiatria DSM-III no fim dos anos 1970. A partir daí, virou um lugar-comum afirmar que havíamos entrado na era do declínio das psicoterapias, graças, principalmente, ao advento de gerações de antidepressivos, psicotrópicos e neurolépticos que, enfim, dariam conta dos distúrbios e transtornos que afetam grandes camadas da população. For sua vez, a descoberta de certos paralelismos frutíferos entre estados mentais e estados cerebrais pareceu fascinar pesquisadores encantados com a possibilidade de localizar sentimentos e estados humorais em redes neuronais.



Aos poucos, vimos o estabelecimento de um senso comum que tendia a rejeitar explicações etiológicas do sofrimento psíquico que colocavam em relevo os impasses dos conflitos no interior da esfera familiar, as contradições nos processos de constituição social de identidades, em suma, as possibilidades de organização da experiência de si tal como permitidas pela natureza de nossos vínculos sociais. Tudo isso parecia como aquelas grandes meta-narrativas sobre desenvolvimento histórico que aprendêramos a recusar. Talvez não seja por acaso que a propalada crise da psicoterapia mais influente do século XX, a saber, a psicanálise tenha sido acompanhada da crise da "metanarrativa" mais influente do século XX, a saber, o marxismo. Nos dois casos, discursos profundamente críticos a respeito dos limites e das modalidades de sofrimento produzidas por nossas formas de vida eram jogados no fundo do baú da história.

Que o discurso do ocaso das psicoterapias e da ascensão da era dos antidepressivos tenha sido enunciado, de maneira mais peremptória, quando nossas sociedades liberais quiseram impor a ideia de que eles tinham vindo para ficar e que não havia muito mais a esperar, eis algo que não deve ser visto como uma mera coincidência. Quando Michel Foucault cunhou o belo termo "biopolítica", ele procurava salientar a maneira como decisões referentes à administração da vida e dos corpos, decisões eminentemente internas ao saber médico, não são exteriores à expectativa de valores políticos que queremos implementar. Por exemplo, se em certo momento do desenvolvimento da psiquiatria, a força terapêutica da relação entre médico e paciente foi levada em conta, isso não foi sem relações com noções de autonomia e subjetividade moral que apareceram como valores políticos fundamentais.



Devemos lembrar esses fatos, porque é bem provável que vejamos nos próximos anos um retorno crescente pelo interesse em psicoterapias. Freud, à sua época, não cansava de ouvir pacientes que simplesmente pediam para ser ouvidos, como se precisassem, por meio do redirecionamento lento de suas falas, construir espaços de vinculação de suas modalidades de sofrimento psíquico à singularidade de suas posições subjetivas. Que atualmente boa parte de nossos pacientes volte a reclamar do fato de não ser ouvida e de sair de consultórios com uma receita de medicamentos à base de Fluoxetina em tempo recorde, eis um sintoma social que indica exigências de novas abordagens a respeito do sofrimento psíquico. 

Vivemos em um momento de refluxo da euforia em relação à potência de cura de intervenções medicamentosas. Dizia-se que práticas psicoterápicas eram caras, longas e de resultados duvidosos. Engraçado como poucos lembravam que tratamentos com medicamentos também são caros, profundamente longos, e seus reais resultados poderiam ser mais bem avaliados se a indústria farmacêutica parasse de tentar influenciar resultados de pesquisa e retardar a divulgação de resultados desfavoráveis. 

Valeria dizer que tal refluxo talvez esteja silenciosamente ligado a uma ideia importante do psicanalista Jacques Lacan, a saber, de que os sintomas são aquilo que muitos têm de mais real. O sofrimento psíquico nunca foi simplesmente algo que deve ser eliminado, como eliminamos o vírus de uma doença orgânica. Na verdade, ele é, muitas vezes, a maneira desesperada que encontramos para dizer a nós mesmos que a estrutura de nossa vida não dá conta de experiências que, no fundo, gostaríamos de integrar. Sem sofrimento não há crítica, pois é a experiência do sofrimento que nos mostra o caráter arruinado daquilo que deve ser criticado. Nesse sentido, talvez devamos apreender como uma lição fundamental do século XX: não há crítica social possível sem compreendermos como o nosso corpo, como os impasses de nossos desejos falam aquilo que lutamos com todas as forças para não ouvir. Eis um bom caminho para o nosso futuro.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Eu sou meu cérebro? - Parte 2

Uma leitora deste blog deixou um comentário, no final deste post, dizendo o seguinte: "Desculpe- me a ignorancia, mas li e reli e nao consegui entender... se eu nao sou o meu cérebro... quem eu sou?". Não se trata de ignorância, querida leitora. Esta é realmente uma questão importante. Para respondê-la, disponibilizo abaixo o interessante video "Você não é o seu cérebro", legendado em português, no qual o filósofo norte-americano Alva Noë discorre sobre o assunto. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sobre viagens, memórias e esquecimentos


Não, este blog não é de turismo, mas de Psicologia. Na verdade, trata-se de um blog de um psicólogo. E este que vos fala fará uma viagem no final do ano para a Europa. Pretendo, em 15 dias, conhecer algumas cidades de Portugal e Espanha. É um sonho que alimento já há algum tempo e, por diversos motivos, não pude concretizar até este ano. E foi com o objetivo de aproveitar a viagem da melhor maneira possível que comprei o livro "A arte de viajar", do filósofo inglês Alain de Botton. E antes mesmo de finalizar a leitura, ele já se encontrava na lista de livros da minha vida. O livro é sensacional! Recomendo a todos que se interessam por conhecer lugares - seja a Europa ou o próprio quarto. E além de ótimas reflexões e dicas para aproveitar as viagens, ele ainda trata de temas caros à Psicologia. Isto só comprova aquilo que disse o filósofo Hilton Japiassu, no livro que deu nome a este blog: "A psicologia é algo extremamente sério para ficar entregue apenas nas mãos dos psicólogos". Concordo com ele. E digo mais: muitas e muitas vezes encontramos importantes reflexões sobre temas "psicológicos" em obras de não-psicólogos. Especialmente a filosofia, mãe da Psicologia, tem muito a contribuir com os "nossos" temas - se bem que, na verdade, os temas são "deles", nós que os roubamos.

Já tinha lido do filósofo pop o ótimo "Religião para Ateus" e gosto muito da forma como ele escreve e dos temas que trata. Admiro também sua proposta de uma filosofia da vida cotidiana, oposta de certa forma, à hermética filosofia acadêmica. Para De Botton, a filosofia pode e deve ser aplicada à vida. Alguns chamam suas obras, pejorativamente, de auto-ajuda. Talvez seja, mas não no sentido tradicional. De Botton não tem receita pronta pra nada, mas propõe reflexões sobre grandes questões do cotidiano, como o amor (tema explorado em seu primeiro livro "Ensaios de amor"), o sexo ("Como pensar mais em sexo", recém-lançado), o trabalho ("Prazeres e desprazeres do trabalho"), a religião ("Religião para ateus"), a arquitetura ("Arquitetura da felicidade") e, claro, viagens (tema explorado por ele também no livro "Uma semana no aeroporto", que estou lendo agora). Seu livro mais famoso, "Como Proust pode mudar sua vida" congregou diversos desses temas, explorados a partir da obra do famoso (embora pouco lido) escritor francês. Questionado se o que faz é auto-ajuda, De Botton respondeu (veja aqui): "Eu quero criar uma nova autoajuda. Não quero criar soluções fáceis. Não vou te ajudar, porque muitas coisas não tem solução. Quero repartir coisas". Boa resposta!


"Arte de viajar" está dividido em cinco partes (Partida, Motivações, Paisagem, Arte e Retorno) e oito capítulos, cada qual com um destino e um guia (por exemplo: Amsterdã/Flaubert), ou seja para cada tema, ele utiliza como pontapé para suas reflexões um lugar pelo qual viajou e a vida e obra de outros escritores e pintores, alguns conhecidos outros não. O primeiro capítulo, "Da expectativa" (disponível aqui) é um dos mais interessantes de todo o livro, na minha opinião. Neste capítulo, De Botton pretende refletir sobre a diferença entre nossas expectativas com relação à determinada viagem e o que de fato encontramos quando chegamos lá. Para ilustrar esta problemática, ele traz o caso do Duque des Esseintes, personagem do livro Às avessas, de J-k Huysmans. Segundo De Botton, Des Esseintes adorava os livros de Dickens e, impressionado com as descrições de Londres feitas por este autor, resolveu viajar até a Inglaterra. Decepcionou-se tremendamente, retornando frustrado à sua cidade natal, disposto à nunca mais viajar. Afirma Des Esseintes: 

"Qual a necessidade de se locomover quando uma pessoa pode viajar tão maravilhosamente sentada em uma cadeira? Já não estava em Londres, com seus cheiros, seus climas, seus cidadãos, sua comida e até seus talheres  dispostos ao redor dele? O que poderia encontrar lá senão novas decepções? Eu devia estar sofrendo de alguma aberração mental ao rejeitar as visões de minha obediente imaginação e pensar, como qualquer velho tolo, que seria interessante e necessário viajar ao exterior"

Esta história poderia demonstrar o quanto a realidade é sempre pior do que nossa expectativa. No entanto, para De Botton, são âmbitos simplesmente diferentes. Isto porque nossas expectativas funcionam de uma forma simplificadora. Imaginamos apenas fragmentos, nunca o todo. Desta forma, idealizamos uma bela praia deserta com um coqueiro, mas dificilmente imaginamos o caminho até esta praia. Para chegarmos a ela - que dificilmente será tão perfeita como na foto, assim como um hamburguer do Mcdonalds -, precisamos primeiro passar horas dentro de um avião ou de um ônibus, nos instalarmos em um hotel, lidarmos com o calor ou frio do lugar, etc. E quando de fato chegamos ao local almejado, temos de lidar ainda com nossas ansiedades e angústias. 


Em uma passagem genial, De Botton descreve o belo cenário da Ilha de Barbados, que escolheu para passar as férias com a esposa por representar o exato oposto da chuvosa e cinza Londres, cidade em que mora. De Botton descreve detalhadamente a praia perfeita em que esteve, com suas árvores e pássaros, e acrescenta: "Esta descrição reflete apenas de forma imperfeita o que aconteceu comigo naquela manhã, pois, na verdade, minha atenção estava mito mais dispersa e confusa do que sugerem os parágrafos anteriores. Posso ter notado alguns pássaros cortando o ar em sua excitação matinal, mas minha consciência de sua presença foi comprometida por outros fatores, despropositados e sem relação entre si, como uma dor de garganta que desenvolvi durante o voo, a preocupação de não ter informado a um colega que estaria ausente, uma pressão entre as têmporas e a necessidade cada vez mais urgente de uma ida ao banheiro". E completa, com uma afirmação curiosa: "Um fato decisivo, mas até então ignorado, surgia pela primeira vez: inadivertidamente, eu me levara comigo para a ilha". Ou seja, junto com suas malas, ele tinha levado para este paraíso na terra, esta "criatura complexa", com todas suas particularidades. 

Antes de viajar, olhando algumas fotos da ilha, ele podia ignorar este fato, isto é, ignorar-se. No entanto, durante sua estadia em Barbados, seu corpo e sua mente "se revelariam cúmplices temperamentais na missão de apreciar o meu destino turístico. O corpo encontrava dificuldade para dormir e se queixava do calor, dos mosquitos e dos problemas para digerir a comida do hotel. A mente mostrava-se apegada à ansiedade, ao tédio, a uma tristeza descontrolada e ao alarme financeiro". Segundo ele, "Parece que, ao contrário da satisfação contínua e duradoura que esperamos, a felicidade com e em determinado lugar deve ser um fenômeno breve e, pelo menos à mente consciente, aparentemente fortuito: um intervalo em que conseguimos ficar receptivos ao mundo ao nosso redor, em que pensamentos positivos sobre passado e futuro se solidificam e as ansiedades são amainadas. Mas essa condição raras vezes se prolonga por mais de dez minutos"

Não é assim que funciona? Pelo menos comigo sempre foi assim. Mas algo alentador de pensar é que, da mesma forma que nossa imaginação, nossa memória é altamente simplificadora, retendo, com o tempo, apenas fragmentos de toda a experiência da viagem. Momentos de tristeza, medo e ansiedade, felizmente, costumam ser esquecidos, da mesma forma que grande parte dos detalhes da viagem. Este processo funciona de forma similar com os livros que lemos no decorrer da nossa vida. No interessante (e irônico) livro "Como falar dos livros que não lemos", o escritor Pierre Bayard afirma, na mesma direção de De Botton, que "a leitura não é somente conhecimento de um texto ou aquisição de um saber. Ela está também, e a partir do momento em que se inicia, engajada em um irreprimível movimento de esquecimento. No momento em que estou lendo, eu já começo a esquecer o que li, e este processo é inelutável, prolongando-se até o momento em que tudo se passa como se eu não tivesse lido o livro". 


Da mesma forma, ao iniciarmos uma viagem, já começamos a esquecê-la. Triste, mas é assim. À exceção de pessoas com memórias extraordinárias, nos lembramos pouco e cada vez menos das experiências pelas quais passamos. Isto tem um lado bom: se fossemos lembrar em detalhes de todas as nossas dores e ansiedades, não conseguiríamos seguir nossas vidas, como que assombrados por "fantasmas" do passado. Ao mesmo tempo, este processo nos faz esquecer detalhes e, muitas vezes, períodos inteiros de nossas vidas. E mesmo aquelas parcas memórias que "permanecem" não representam a "realidade" do que foi vivido. Como aponta Bayard sobre os livros: "Não guardamos em nossa memória, livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais, frequentemente misturados uns com os outros, e ainda por cima remanejados por nossas fantasias pessoais". Segundo ele, nossa memória "conserva não mais do que alguns elementos esparsos que sobrenadam, como ilhotas, dentro de um oceano de esquecimento". Com as viagens, o mesmo processo parece agir. Um exercício interessante é tentar se lembrar de alguma viagem que você fez na infância e depois confrontar suas lembranças com as de outras pessoas que estiveram presentes na mesma viagem. Provavelmente, as lembranças serão tão diversas que darão a impressão de terem sido viagens diferentes.

De qualquer forma, são estas memórias fragmentadas, parciais e fantasiosas que formam o que somos. Esta é a lição daquele filme fabuloso "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". E mesmo que esqueçamos grande parte de nossas experiências, algo delas permanece no que somos. Um professor meu disse certa vez que o que chamamos de cultura ou conhecimento é tudo aquilo que permanece depois que a gente esquece onde aprendeu (não deve ter sido exatamente isso que ele disse, mas foi o que minha memória reteve). Concordo com ele. Tudo o que vivemos, mesmo aquilo que hoje esquecemos - ou achamos que esquecemos -, contribui com pequenos fragmentos para o que nos tornamos. Baylard chama de "livro interior" este conjunto de fragmentos do que lemos ao longo da nossa vida e que compõem uma parte do que somos. Talvez possamos falar, parafraseando Bayard, em uma "viagem interior", designando o conjunto de lembranças, sentimentos e pensamentos que permanecem, mesmo fragmentados em nossa memória, em função das viagens, reais ou imaginárias, que fizemos. Tendo em vista que a linha que separa real de imaginário é um tanto quanto imprecisa, não importa se a viagem é interior ou exterior. O que importa é viajar.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Eu sou meu cérebro? Reflexões sobre liberdade e determinismo


As neurociências tem se apresentado, na atualidade, como um conjunto de conhecimentos capaz de explicar praticamente tudo: o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, o prazer e a dor, o preconceito e a tolerância, a saúde e a doença, os transtornos "mentais" (ou serão cerebrais?) e até mesmo o sucesso e o fracasso - vide o recém-lançado livro "O efeito vencedor: como a neurociência explica o sucesso (e o fracasso)". Outra questão importante sobre a qual os neurocientistas tem se debruçado há décadas é: como realizamos nossas escolhas? Mas eis que alguns pesquisadores chegaram à inesperada conclusão de que nós não escolhemos. Quem escolhe é nosso cérebro! (Saiba mais aqui) Diante desta "descoberta" intrigante, algumas reflexões se fazem necessárias: se é o cérebro que toma as decisões, qual o nosso papel no processo de escolha? Existe um “eu” que escolhe? Ou será o livre-arbítrio apenas uma ilusão? Somos agentes de nossas ações? Ou somos simplesmente manipulados por nosso cérebro, que é "aquele" que, em última instância, toma todas as decisões? Afinal, quem está no comando, ele ou nós? Ou ele e nós, juntos?



O confronto liberdade versus determinismo é antigo e já se manifestou de diferentes formas no decorrer do tempo. O que há de novo - aliás, nem tão novo assim - é a afirmação de alguns neurocientistas de terem provado experimentalmente a perspectiva determinista. Em um experimento clássico conduzido na década de 80, Benjamin Libet demonstrou que regiões do cérebro responsáveis pela ação motora eram ativadas uma fração de segundos antes da decisão consciente ser tomada e de a ação ser realizada. Este achado foi utilizado para demonstrar o quanto o processo volitivo é, pelo menos, iniciado de forma inconsciente, tornando-se consciente posteriormente. Outras interpretações apontaram para a total determinação cerebral das nossas escolhas, sendo o livre-arbítrio e a noção de um “eu” que toma decisões considerados apenas ilusões. Estudos posteriores apontaram, na mesma direção, que a atividade cerebral precede e determina nossas escolhas conscientes. No entanto, tais experimentos suscitaram inúmeras críticas, desde relativas à metodologia utilizada, até críticas epistemológicas. Klemm, por exemplo (neste artigo), afirma que “não é porque escolhas subconscientes são feitas antes da consciência em uma tarefa, que temos a prova de que toda a vida mental é governada desta maneira". Já para o filósofo João Fernandes Teixeira, no recém-lançado "Filosofia do cérebro", o experimento de Libet contribui muito pouco com o debate liberdade-determinismo. Para ele, “as conclusões que ele quer extrair de seu experimento extrapolam o que ele efetivamente pode comprovar. Na verdade, seu experimento só nos permite concluir, no máximo, que podemos reconstruir uma história causal entre uma ação, o evento que a precede no cérebro e seu relato posterior”. No entanto, tal história causal não permite uma associação determinista entre evento cerebral, intenção, ação.




Esta noção de que é o cérebro que está no comando tem se disseminado. Não é incomum, atualmente, encontrar em sites, revistas e livros voltados para o público leigo, expressões que antropomorfizam o cérebro como “o cérebro escolhe”, “o cérebro faz”, “o cérebro pensa”, “o cérebro aprende”, etc, como se o cérebro tivesse vida própria e tomasse as próprias decisões, a despeito de seu “dono”. Um sujeito postou estes dias no Twitter uma frase que expressa bem essa idéia: "Vocês sabiam que o cérebro é o único órgão do corpo que escolheu seu próprio nome?". Nota-se uma completa identificação do que somos com o nosso cérebro: é o cérebro que escolheu seu próprio nome, não nós (critico desta visão, o neurocientista Steven Rose afirma que falar que o "cérebro pensa" é equivalente a dizer "a perna anda". Para ele, "nós" pensamos através do cérebro, assim como andamos "com" nossa perna). Conforme aponta o filósofo Francisco Ortega, o cérebro vem se tornando, mais do que um simples pedaço de carne, um verdadeiro ator social configurando-se, na cultura ocidental contemporânea, como o órgão central na definição de nossa identidade pessoal, fenômeno chamado pelo antropólogo Rogério Azize de “cerebralismo”, face específica de um mais amplo “fisicalismo”. Este processo culmina no entendimento reducionista de que “eu sou o meu cérebro”. Segundo Ortega, tal afirmação tornou-se auto-evidente em função de um contexto em que emerge uma verdadeira neurocultura, na qual explicações cerebrais tem privilégio sobre outras formas de compreensão da realidade. Para Ortega, neste contexto, há a surgimento do que ele e outros autores denominam de sujeito cerebral, “figura antropológica que incorpora a crença de que o ser humano é essencialmente reduzível a seu cérebro”. Neste sentido, sendo o cérebro considerado o órgão central de nossa identidade e, além disso, o responsável por todas as nossas decisões e comportamentos, caberia ainda a noção de um “eu” livre e que toma decisões?




Segundo outro filósofo, o Slavoj Zizek, no livro "Visão em Paralaxe", toda decisão tem causas, sejam motivações internas ou causas naturais, mas o que indica a liberdade de uma ação não é a lacuna entre estas causas e minha escolha consciente, mas a capacidade de escolher retroativamente quais causas irão me determinar. E mais, para o autor, liberdade não significa liberdade de se fazer o que quiser irrestritamente, mas fazer o que não se quer, frustrando a “realização ‘espontânea’ de um ímpeto". Um ato é livre quando não é espontâneo, “natural”, intuitivo. Para ele, fazer o que se pede é obediência, fazer o que não se pede ou o que não se quer fazer é liberdade. A verdadeira liberdade, para Zizek, consiste em um ato negativo de dizer não, interrompendo a execução de uma decisão, bloqueando “nossa tendência direta". 




De uma forma ampla, e a partir da perspectiva hegeliana, o autor entende liberdade como autolimitação ativa (autodeterminação), oposta à uma limitação externa (ser-determinado-pelo-outro). Em seu aspecto mais radical, aponta Zizek, a questão da liberdade é a questão de como se pode escapar do “círculo fechado do destino”. Uma possibilidade é entender que tal círculo não está completamente fechado e buscar brechas. Mas a saída, para o autor, é aceitar o destino como inevitável, renunciando a qualquer tentativa de escapar de seus designos. Paradoxalmente, aceitar o destino faz com que possamos escapar dele. Da mesma forma, para escaparmos da programação genética/cerebral devemos não nos opor à ela ou violá-la, mas aceitá-la. Só aceitando que a liberdade é “programada” podemos nos tornar livres. De certa forma, para sermos livres temos que estar conscientes de que não somos totalmente livres e que somos em grande parte determinados por questões que não controlamos e nem podemos controlar. Na contramão da máxima behaviorista de que “sou livre na medida em que controlo as condições que me controlam”, é como se Zizek dissesse: “Sou livre na medida em que NÃO controlo as condições que me controlam” ou “Sou livre na medida em que me abstenho de controlar as condições que me controlam”. Gosto desta perspectiva: ao aceitarmos que somos determinados nos tornamos livres. 


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Psicofobia ou psiquiatriafobia?


Segundo matéria publicada anteontem na Folha de S. Paulo, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) está se mobilizando com o objetivo de criminalizar a Psicofobia. Mas o que é Psicofobia? Primeiro, vamos à explicação oficial, da ABP. Para eles, Psicofobia designa o preconceito contra portadores de doenças ou transtornos mentais. Trata-se de um neologismo, provavelmente criado pela associação. De acordo com a proposta de alteração do Código Penal, encampada pelo Senador Paulo Davim a partir da mobilização da ABP, será considerado crime, com pena de 2 a 4 anos, qualquer ação que dificulte ou impossibilite o acesso ao trabalho e à educação aos portadores de transtornos ou deficiências mentais. De uma forma mais ampla, a proposta criminaliza qualquer atitude preconceituosa e discriminatória com relação aos "doentes mentais". 

Colocando as coisas desta maneira, quem se colocaria contra tal proposta? Acredito que ninguém, pois acho difícil alguém, com um mínimo de bom senso, se colocar a favor do preconceito aos portadores de transtornos mentais. No entanto, a coisa é mais complexa. Analisando a definição de Psicofobia da ABP surgem, de cara, duas questões essenciais: o que é um transtorno mental? Quem são os portadores de transtornos mentais? Aqueles que já leram um pouco sobre a história das classificações psiquiátricas, sabem que o que é definido oficialmente como transtorno mental já mudou diversas vezes. Vários comportamentos que eram encarados e tratados como transtornos o deixaram de ser enquanto outras questões passaram a ser consideradas patologias. O DSM-5 vem aí em 2013 pra modificar ainda mais o que hoje é considerado transtorno mental. Tendo em vista esta característica metamórfica das categorias psiquiátricas, um questionamento se faz necessário: o que os defensores da criminalização da Psicofobia entendem por transtorno mental? 

Em um artigo denominado “O código penal e a psicofobia”, o presidente da ABP Antônio Geraldo da Silva aponta que cerca de 20% da população brasileira (mais de 40 milhões de pessoas) é portadora de algum transtorno mental, como a “esquizofrenia, bipolaridade, dislexia, autismo, ansiedade, transtornos alimentares e síndrome de Down”. Percebe-se que o que é entendido por “transtorno mental” engloba um amplo espectro de “problemas”, que vão desde a ansiedade e a dislexia até o autismo e a Síndrome de Down. Mesmo um leigo é capaz de compreender que são problemas muito diferentes, em vários sentidos. Uma Síndrome de Down é completamente diferente de uma Síndrome do Pânico, muito embora os psiquiatras biológicos modernos tendam a considerar ambas como distúrbios genéticos e cerebrais. Mas convenhamos: existem diferenças significativas entre os dois problemas. Chamar ambos de "transtorno mental" implica ignorar significativas distinções entre estas categorias. Mas isto é assunto para outro post.

Em outro artigo (“Psicofobia é crime”), publicado no jornal O Globo, Antônio Geraldo da Silva aponta para um crescimento tanto da incidência dos transtornos mentais quanto do preconceito com relação à seus portadores Segundo ele, combater o preconceito contra doentes mentais é tão necessário hoje, afirma, quanto o enfrentamento do preconceito contra negros, homossexuais e mulheres. Para ele, “se não se deve debochar ou subestimar de doenças como o câncer (...) também não há razão para as doenças mentais não serem encaradas com a seriedade que elas pedem e seus portadores exigem". Aponta ainda para a existência de "várias formas de preconceito, entre elas a própria negação da doença como algo menor ou passageiro”.

É este aspecto da criminalização da Psicofobia que realmente me preocupa. A indefinição do que é transtorno mental é "café pequeno" diante da possibilidade de se criminalizar o questionamento à Psiquiatria. Este aspecto da questão fica evidente no final da 
"Carta de Esclarecimento à Sociedade sobre o TDAH, seu diagnóstico e tratamento" (analisada aqui), quando a ABP, referindo-se àqueles que questionam a existência e legitimidade do diagnóstico de TDAH, afirma  que "fornecer informações equivocadas e ocultar dados científicos bem documentados é dificultar. ou retardar o acesso da população ao diagnóstico ou a tratamento, é a expressão de uma das mais perversas formas de discriminação social: a Psicofobia". A expressão "informações equivocadas", no caso, parece se referir à informações discordantes ou alternativas à Psiquiatria oficial.


A utilização da expressão Psicofobia no contexto desta Carta aponta, na minha opinião, para um outro objetivo, mais oculto e não tão nobre, da cruzada em prol da criminalização da Psicofobia. Podemos entendê-la como uma estratégia da ABP de enquadrar todos aqueles que questionam certas categorias e as classificações psiquiátricas de uma forma geral, como preconceituosos com relação aos portadores. Neste  sentido, a Psicofobia se converteria numa Psiquiatriafobia e o que estaria em jogo não seria propriamente o preconceito com relação aos portadores, mas o "preconceito" com relação à Psiquiatria oficial. Talvez, com todo esse movimento, a associação pretenda eliminar, se não através do debate, mas via legislação penal, qualquer questionamento ou controvérsia com relação às classificações psiquiátricas. 


Enfim, se esta proposta de criminalizar a Psicofobia servir estritamente para punir aqueles que impedem ou dificultam o acesso ao trabalho ou à educação aos portadores de transtornos mentais, podem contar com o meu apoio. Ainda que questione a utilização vaga da expressão "transtornos mentais", não teria grandes motivos para me colocar contra. No entanto, se tal proposta implicar na blindagem da Psiquiatria oficial contra qualquer crítica, como se criticá-la significasse desmerecer o sofrimento das pessoas, aí não tenho como ser a favor. Afinal, a Psiquiatria, como a Psicologia, é um campo repleto de incertezas, desconfianças, controvérsias e disputas. Colocar os "pacientes" como se fossem coletes à prova de balas, indica talvez mais um medo de ser atingido do que um desejo de proteger aqueles que precisam. É claro que eu posso estar enganado, mas se estiver não me critiquem, ou estarão cometendo uma das formas mais cruéis de Psicofobia, que é o preconceito contra psicólogos...



quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Reducionismo cerebral


Esta imagem me lembrou a famosa frase ultra-reducionista do biólogo inglês Frances Crick (1916-2004), em seu livro A hipótese espantosa: "Você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, não são mais do que o comportamento de um imenso conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas. Como diria a Alice de Lewis Carroll, 'você não passa de um baralho de neurônios'". Será que somos somente isso?

Reducionismo genético


Encontrei este cartum neste artigo.

sábado, 18 de agosto de 2012

Psicólogos em Cartum


Um dos objetivos deste blog sempre foi, além de discutir questões relevantes para a Psicologia brasileira, reunir cartuns, charges e quadrinhos relacionados ao universo psi. Sempre fui apaixonado por desenhos, já tendo inclusive me arriscado como desenhista muitos anos atrás. Em 2008, quando comecei a reunir desenhos para este blog, traduzindo alguns inclusive, não havia nenhum site no Brasil que fizesse tal coisa. Atualmente, existem inúmeros blogs e grupos no Facebook dedicados ao humor sobre Psicologia. Da minha parte, insisto em manter esta atividade colecionista neste espaço em função da minha grande admiração (com um pouquinho de inveja, confesso) pelos artistas que conseguem condensar idéias e reflexões em imagens ao mesmo tempo simples e complexas, que, ao nos fazerem rir, permitem que enxerguemos a realidade de outra forma. Um bom cartum, assim como uma boa obra de arte, leva à reflexão sobre o mundo e sobre nós mesmos. 


Neste sentido, os cartuns protagonizados por psicólogos permitem-nos analisar de que forma os profissionais psi são retratados, e isto provavelmente reflete a representação social dos psicólogos, ou seja, a forma ou as formas como estes são vistos na/pela sociedade. Da análise de alguns desenhos com psicólogos, uma coisa que salta aos olhos é o predomínio quase absoluto da atividade clínica. Dificilmente um psicólogo é representado em outra função. E esta representação certamente é compartilhada por grande parte da sociedade, que compreende psicólogo como sinônimo de psicoterapeuta - e mesmo como equivalente a psicanalista ou psiquiatra (a diferença entre tais profissionais nunca é nítida). Mesmo que grande parte dos profissionais ainda se dedique ao atendimento individual em consultório e que clinicar ainda seja o sonho de grande parte dos que iniciam uma graduação, a psicologia está se tornando, cada vez mais, uma prática institucionalizada. Muitos dos que se formam atualmente, iniciam suas carreiras como psicólogos em empresas, escolas, presídios, instituições de saúde mental ou assistência social, dentre outras. Não que a atividade clínica esteja em baixa - pelo contrário - mas a Psicologia no Brasil, que completa este mês 50 anos de sua regulamentação, está mais multifacetada do que nunca. No entanto, a visão tradicional do psicólogo permanece. 


Outra característica evidente dos cartuns com psicólogos é a absoluta vinculação com a psicanálise. O divã é onipresente e não são raras referências diretas à Freud e à teoria psicanalítica. E mais: a despeito de grande parte dos profissionais, pelo menos no Brasil, serem mulheres, os homens dominam os cartuns, sendo normalmente caracterizados com barba e óculos, à imagem e semelhança do "Pai" Freud. Comumente retratados como seres frios e distantes, quando não sonolentos ou displicentes, os psicólogos se limitam a escutar o sofrimento dos pacientes, permanecendo sentados, de pernas cruzadas, estáticos e impassíveis, com suas canetas e blocos de anotação na mão - ou então com placas do teste Rorschach. Quando falam, limitam-se a fazer perguntas óbvias, dar diagnósticos ("Você é bipolar") ou, então, algum conselho ou prescrição do tipo "faça isso, faça aquilo" para os pacientes. Sua autoridade é evidenciada pelos onipresentes diplomas, sempre pendurados na parede do consultório. No entanto, apesar de posarem de sabe-tudo são, algumas vezes, representados como inseguros, mal-resolvidos e até mesmo "loucos", tal qual seus próprios pacientes. 



Neste estudo clássico, da década de 80, os autores apontam para a descrição mais frequente e recorrente, que é a do "psicólogo louco, pirado, encücado, anormal, desequilibrado, diferente: 'Sinceramente, o psicólogo é visto como um maluco problemático que, além de seus problemas, ainda quer resolver os dos outros'; 'O psicólogo é visto como um indivíduo cheio de problemas que não tem capacidade de resolver o problema de ninguém'; 'Geralmente como um 'ser' estranho e muitas vezes ouve-se dizer 'todo psicólogo é louco'". Nos cartuns, as representações tendem a oscilar entre o psicólogo onipotente e são e o psicólogo impotente e louco, com prevalência da primeiro. Se tais representações refletem ou não a realidade, cabe uma discussão. Mas considero essencial, especialmente neste momento em que comemoramos 50 anos da Psicologia no Brasil, refletirmos o quanto estamos presos a estas representações da nossa profissão. Porque se não o fizermos, corremos o risco de permanecermos engessados pelo poderoso Efeito Pigmaleão.




Um sentido para a vida


Rato de laboratório


Psicólogos no bar

História da Psicologia no Brasil

Em homenagem aos 50 anos da regulamentação da Psicologia no Brasil, disponibilizo abaixo um material que fiz em 2008 sobre a História na Psicologia no Brasil.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um estranho ato de comunhão: normal ou patológico?


Ontem assisti à premiada peça "Ato de comunhão", baseada no famoso e bizarro caso do canibal alemão. Para quem não conhece ou não se lembra da história, segue um resumo (saiba mais aqui e aqui): desde pequeno, o alemão Armin Meiwes tinha o sonho se alimentar de carne humana. Adorava, inclusive a historia do João e Maria, em que a bruxa come o garoto. Por motivos óbvios, reprimiu este sonho... até a morte de sua mãe, quando resolveu, finalmente colocá-lo em prática. Com o nickname de "antropófago", procurou na internet, por dois anos, alguém que aceitasse lhe servir de alimento. E eis que, em 2001, o engenheiro de computação Bernd Brandes, à época com 42 anos, aceitou a oferta, afirmando: "Espero que me ache saboroso". Brandes vai, então à casa de Meiwes e, diante de uma câmera, declara ser o seu desejo ser comido por ele. Inicialmente, Meiwes corta o pênis de Brandes, frita-o, temperando-o com pimenta e alho, e ambos degustam o órgão. Meiwes, então, dá alguns medicamentos para Brandes e, após este apagar, retira-lhe as vísceras e os ossos e guarda sua carne picada no freezer, consumindo-a no decorrer de alguns meses. 

Em uma famosa entrevista (que virou o livro "Entrevista com um canibal") Melves afirma: "Eu salguei o filé de Bernd com sal, pimenta, alho e noz-moscada. Comi ele com croquetes 'princesa', couve de Bruxelas e molho de pimentão verde". Segundo ele, ao comer sua carne, sempre acompanhada de um bom vinho, sentia Bernd incorporando-se ao seu corpo, num verdadeiro ato de comunhão: "A primeira mordida foi com certeza única, indefinível, já que eu tinha sonhado com isto durante trinta anos, com esta conexão íntima que se faria perfeita através desta carne".

Nesta mesma entrevista, Meiwes  afirma ser uma pessoa normal. E, pelo que pesquisei, avaliações psiquiátricas e psicológicas chegaram a esta mesma conclusão. Segundo reportagem do jornal alemão Der Spiegel (traduzida aqui) "Um exame psiquiátrico feito antes do seu julgamento concluiu que ele não é louco, mas tem uma 'alma muito perturbada''. Assim, sendo considerado imputável, ou seja, responsável por seus atos, foi condenado à prisão perpétua. O caso gerou, entretanto, uma polêmica jurídica na Alemanha, já que defensores de Meiwes afirmaram que Bernd queria ser morto, o que não configuraria homicidio, mas sim uma espécie bizarra de suicídio. De acordo com este site,  no segundo julgamento, Meiwes "disse ao juiz que sua fome de carne humana já estava saciada e que estava arrependido de seus atos". Tal argumento não convenceu o júri.

Apesar de se dizer normal, contraditoriamente, o próprio Meiwes afirmou que "se eu tivesse ido a um psiquiatra há alguns anos, provavelmente não teria feito o que fiz.”. Disse ainda: "Eu quero ir para a terapia, sei que preciso, e espero que isto aconteça em algum momento". A despeito de suas crenças sobre si mesmo, uma coisa é certa: o que ele fez não é normal, sob nenhum ponto de vista. O filósofo Georges Canguilhem dizia que a palavra normal traz implícitos dois significados: o primeiro aponta para aquilo que é comum. Sob esta perspectiva, a atitude de Meiwes, assim como a de Brandes, não tem nada de normal, afinal não é comum comer e ser comido - literalmente - por aí. Mas também é óbvio que os dois não são os únicos no mundo a partilharem deste mórbido fetiche. Segundo a reportagem do Der Spiegel, "a polícia estima que em torno de 10 mil pessoas, na Alemanha somente, partilham o fascínio de Meiwes pelo canibalismo". Tendo a Alemanha uma população de mais de 80 milhões de pessoas, nenhum malabarismo estatístico seria capaz de demostrar ser este um "fascínio" comum. 



O segundo sentido atribuído por Canguilhem à palavra normal, é o de ideal, aquilo que deve ser. Sob este aspecto então, Meiwes não é, em absoluto, normal. Afinal, matar e comer pessoas (ou ser comido) não é algo bem visto, sequer tolerado, na nossa e em quase todas as sociedades. Mesmo em sociedades indígenas antropófagas, pelo que sei, comer um outro ser humano era muito mais parte de um ritual coletivo de incorporação do poder do inimigo do que uma atitude visando saciar um desejo individual, como fez Meiwes. Neste segundo sentido da palavra normal, portanto, não podemos considerar a atitude do canibal alemão, algo normal.

Alguns poderiam argumentar que pessoas normais fazem coisas anormais e este seria o caso de Meiwes. Ele seria uma pessoa normal, "em geral", mas que, "neste caso", tomou uma atitude anormal, mas isto não faria dele todo anormal. Ok, até aceito este argumento, desde que se defina o que é uma "pessoa normal" (e se puder, dê algum exemplo). Eu não sei o que é. Certamente é muito mais fácil dizer o que é anormal do que o que é normal. Assim como é mais fácil dizer o que é uma doença do que o que é saúde. É claro que se pode sempre definir uma coisa pela negação do seu contrário (saúde é ausência de doença e normalidade é ausência de anormalidade), só que essa conceituação circular não resolve o problema.

A questão central sobre este caso, na minha opinião, não é se Meiwes é normal ou não, mas se ele tem uma doença mental ou não. Porque dizer que ele é um doente significa desresponsabilizá-lo pelo que fez. É por este motivo que algumas pessoas e grupos defendem a retirada da pedofilia do DSM. Pois se o pedófilo é um doente, não deve ser punido, mas tratado. Na contramão, afirmam estes grupos, pedofilia é crime, não doença. Afinal, poderiam dizer, nem tudo que é anormal é necessariamente patológico. Mas o que é algo patológico? Para Canguilhem "patológico implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida contrariada”. Segundo ele, não existirem fatos que sejam patológicos ou normais em si. O que é normal em uma situação pode ser patológico em outra. Sendo assim, é o próprio sujeito que define o que é ou não doença e se está ou não doente. A norma, para Canguilhem, é sempre individual. A doença não pode, portanto, ser definida por uma média estatística ou um por julgamento social, mas por um julgamento de valor realizado pelo próprio sujeito diante da polaridade dinâmica da vida. Segundo este critério, o ato canibalista de Meiwes não pode ser considerado patológico, afinal não lhe trouxe qualquer sofrimento. Pelo contrário, gerou-lhe prazer - e não seria incorreto dizer que gerou prazer inclusive em Brandes, que desejava ser comido (e este caso é exemplar ao expor a enorme variabilidade humana no que diz respeito ao que gera sofrimento e prazer). 

Há, no entanto, um outro critério para definir o que é doença, que Canguilhem aponta mais tarde em sua obra, após ler Foucault, que é a normatividade social, ou seja, as normas estabelecidas pela sociedade. Afinal, são as sociedades que definem o que é normal e o que é patológico. Não há uma essência para o que é saudável e para o que á patológico. Um comportamento que hoje é entendido como patológico, amanhã pode deixar de ser, da mesma forma que coisas que hoje são vistas como doenças, no passado não o eram. Por exemplo, fumar era algo normal, corriqueiro e valorizado, enquanto hoje trata-se de um comportamento altamente indesejável e até mesmo estigmatizado; ser homossexual era uma doença, hoje não é mais, embora existam grupos que lutem por sua re-patologização. Tudo isto demostra que nenhum comportamento é, em si mesmo, normal ou patológico. Complicado, não? 

E pra você, Meiwes (acima) tem ou não uma doença mental?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O DSM-5 vem aí...


Reproduzo abaixo um excelente artigo, publicado no dia 21 de Março deste ano no site da Agência Fiocruz de Notícias (veja aqui). O artigo foi escrito pelo histórico Paulo Amarante em parceria com o Fernando Freitas, ambos ligados ao Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps/Ensp/Fiocruz) e à Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme). Alguns de vocês já devem ter lido pois circulou por algumas redes sociais, mas eu só li hoje e o reproduzo neste blog em função de sua atualidade e pertinência. Pra quem não sabe, a quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM, em inglês) será publicado no ano que vem. Aproveito o espaço para divulgar o seminário "Psiquiatria e DSM-5", que será realizado dia 30 de Novembro no Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ). Mais informações em breve.

Psiquiatrização da vida e o DSM V: 
desafios para o início do século XXI

Crianças que fazem muita birra sofrem de um distúrbio psiquiátrico recentemente descoberto, a chamada “desregulação do temperamento com disforia”. Adolescentes que apresentam, de forma particular, comportamentos extravagantes podem sofrer da “síndrome de risco psicótico”. Homens e mulheres que demonstram muito interesse por sexo, quer dizer, aqueles que têm fantasias, impulsos e comportamentos sexuais acima da temperança recomendada, muito provavelmente padecem do distúrbio psiquiátrico chamado “desordem hipersexual”.

Essas são algumas das várias novidades que estão sendo propostas pela Associação Americana de Psiquiatria (conhecida internacionalmente como APA), para suceder o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), em vigor desde 1994. Há outras novidades que vem chamando a atenção de todos. Por exemplo, a “dependência à internet” e a “dependência a shopping”.

O que o DSM representa? Não apenas para a saúde pública propriamente dita, mas para a própria construção da subjetividade e intersubjetividade do homem contemporâneo? A medicalização crescente do nosso cotidiano. Apenas para se ter uma ideia da chamada “inflação” dos distúrbios considerados objeto da psiquiatria: há cinquenta anos eram seis as categorias de diagnóstico psiquiátrico, e hoje são mais de 300.



Nas últimas décadas o DSM tem servido como a bíblia para a chamada psiquiatria moderna e para os saberes e práticas subordinados a sua hegemonia. Os autores de suas sucessivas edições argumentam que suas pretensões são: (1) Fornecer uma “linguagem comum” para os clínicos; (2) servir de “ferramenta” para os pesquisadores; (3) ser uma “ponte” para a interface clínica/pesquisa; (4) ser o “livro de referência” em saúde mental para professores e estudantes; (5) disponibilizar o “código estatístico” para propósitos de pagamento dos serviços prestados e para fins administrativos do sistema de saúde; e, finalmente, (6) orientar “procedimentos forenses”.

Os impactos provocados por cada edição do DSM são inúmeros. Bem próximo de nós está o exemplo da pesquisa da OMS sobre a saúde mental dos moradores da metrópole de São Paulo. Segundo os resultados dessa pesquisa, cerca de 1/3 da sua população sofre de algum distúrbio psiquiátrico. A grande imprensa nacional tomou tal pesquisa para chamar a atenção da população para a situação do sistema de assistência em saúde mental do país, que estaria muito aquém das demandas dos cidadãos, muito em particular o SUS. E que, sendo São Paulo uma megalópole de um país com tendências à urbanização acelerada, o seu exemplo deve ser considerado como alarmante.

O que escapa à maioria das pessoas que receberam essa notícia pela grande mídia são detalhes de grande importância para a credibilidade da própria pesquisa. Quem financiou essa pesquisa (além da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo), entre outros órgãos públicos, como a própria OMS e a Opas) foram grandes conglomerados da indústria farmacêutica: Ortho-McNeil Pharmaceutical, a GlaxoSmithKline, Bristol-Meyers Squibb e Shire. Curiosamente, os autores declaram não haver conflito de interesses. Se isso não é conflito de interesses, então é necessário revisar esse conceito!



O DSM-V chega sendo objeto de grandes controvérsias. Basta uma consulta na internet para se tomar conhecimento das contundentes críticas feitas por alguns dos principais autores do DSM-III e DSM-IV. O que o DSM-V vem reforçar ao DSM-IV? Parece ser a tendência à medicalização dos comportamentos humanos de nossa época, ao transformá-los em patológicos em seus mínimos detalhes. Nos termos que vêm se tornando públicos, o DSM-V reforça a tendência de assegurar e ampliar o mercado da saúde mental: 1) o consumo arbitrário de medicamentos de natureza psicotrópica, sem qualquer cuidado com os seus efeitos sobre a própria saúde de seus consumidores; (2) a expansão de serviços de diagnóstico e de consultas; (3) a medicalização da vida.

Na medida em que o modelo “a-teórico” (como ele mesmo se define) do DSM nos possibilita constatar, principalmente a partir dessa sua quinta versão, que seu objetivo real não é lançar luz sobre o conhecimento dos sofrimentos mentais, e, sim, produzir mais mercado para as intervenções psiquiátricas, cumpre à sociedade recusar esse projeto medicalizante e patologizante. As entidades de saúde, particularmente as médicas, os Conselhos de Saúde e de Direitos Humanos, os órgãos públicos de normalização, regulação, fiscalização (Ministério da Saúde, Ministério Público, conselhos profissionais, dentre outros) precisam se posicionar e cobrar a responsabilidade dos autores e multiplicadores de tais iniciativas.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GUEST POST: Sobre Psicologia, Ciência e Religião



Inaugurando a seção Guest Post, publico abaixo um texto do meu xará e parceiro de ótimas discussões no Twitter, o Felipe Hautequestt, que é Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escrito inicialmente como um comentário ao meu post anterior, o texto foi ampliado para ser publicado aqui. Eu gostei tanto do que ele escreveu, inclusive quando ele discorda dos meus argumentos, que pedi sua autorização para publicá-lo. Desejo que este seja o primeiro Guest Post e que este blog deixe de ser apenas um monológo e torne-se um espaço de disseminação de múltiplas vozes sobre as grandes questões da Psicologia. Portanto, se alguém concordar ou discordar do que eu ou o Felipe escrevemos e/ou quiser acrescentar algum ponto de vista sobre esta ou outra questão, é só escrever um texto e me enviar por email. Segue o texto do Felipe Hautequestt: 

No meu entendimento, a questão da cientificidade da Psicologia pode ser perfeitamente colocada entre parênteses quando se trata de afastar a Psicologia do domínio da fé e da doutrina religiosas. Não é necessário ir tão longe, pouco importa aqui se a Psicologia sucedeu ou não como ciência. E, aliás, essa questão só pode ser adequadamente respondida se entrarmos em acordo quanto ao que é uma ciência e quais são seus caracteres distintivos, para começar. O que importa é que a Psicologia se pretende uma ciência empírica, tendo nascido de um projeto de cientificidade do qual não pode abdicar (por mais que o sentido de ‘cientificidade’ esteja em aberto e não precise ser necessariamente aquele dado pelos positivistas do século XIX). Dois critérios certos podem ser extraídos dessa pretensão fundadora sem cair em discussões árduas de filosofia da ciência: (1) ela deve necessariamente fazer algum tipo de recurso à experiência, submeter-se, portanto ao seu crivo; e (2) ela deve apresentar hipóteses e teorias argumentadas, raciocinadas. Ou seja, ela não pode ser nem uma ciência puramente especulativa (metafísica), nem um corpo doutrinal que exija uma adesão pela fé, pela aceitação integral duma verdade revelada (religião), sem razões que a sustentem. 





Esse é o ponto central, no meu entendimento. As religiões não lidam com problemas de fato (isto é, de como as coisas são) – por exemplo, como funciona o mundo subatômico –, mas sim com problemas de valor (como as coisas devem ser) – por exemplo, como devo conduzir minha vida. Por isso, os enunciados religiosos se fecham de saída, e por definição, a ambas os critérios: oferecem narrativas que não são passíveis de nenhum tipo de controle pela experiência (como quer que o caracterizemos) e, além disso, são calçadas na fé, e não na argumentação racional. É importante dizer que isso não constitui nenhum demérito para as religiões, apenas define sua especificidade em relação a outros tipos de discurso. E porque seus traços essenciais são estes, é por essência que a religião está automaticamente excluída de qualquer discurso que se pretenda científico – independentemente dele ser efetivamente científico ou não. 




Esse é o critério que embasa (e com toda razão, a meu ver) a Resolução 016/95 citada no texto: aquelas práticas faziam referência aberta a proposições de caráter nitidamente religioso, místico e/ou esotérico. Poderiam dizer alguns: "Ah, mas funcionam! Essas práticas reúnem muitos indícios de que são eficazes, isso não basta?!". Ora, mas a medida da Psicologia como ciência aplicada nunca pode se limitar ao resultado puro e simples – trata-se de saber por que e como as técnicas funcionam, e isso requer uma teoria, um conjunto coerente de proposições que dê algum sustento àquela prática. Era para isso que Canguilhem nos alertava, em seu famoso artigo ‘Que é a Psicologia?’, ao escrever: “Quando se diz que a eficácia do psicólogo é discutível, não se pretende dizer que ela seja ilusória, mas simplesmente assinalar que essa eficácia está sem dúvida mal fundamentada enquanto não se provar que ela resulta realmente da aplicação de uma ciência.” Na medida em que certas práticas vetadas pelo CFP comecem a apresentar um esforço de embasamento teórico, e os profissionais se organizem para vir em sua defesa e argumentar em seu favor, então cabe ao Conselho admiti-las no campo de atuações possíveis do psicólogo. Pois, a partir de agora, tais práticas estão aptas a terem seus alicerces e fundamentos criticados por outros psicólogos e, como se sabe, a crítica cumpre um papel central e decisivo no desenvolvimento científico. (Popper dizia que uma teoria imune a críticas deveria, por isso mesmo, ser descartada de antemão como digna de consideração pelos cientistas.) 


Isso tudo, é claro, não dá tanto uma determinação positiva à Psicologia, não diz tanto o que ela é, mas busca apenas demarcar seus limites negativos, estipulando aquilo que ela não é e não pode ser a partir de certas condições básicas a serem atendidas. Acho eu que é nesse sentido específico que se pode falar de uma identidade ou especificidade da profissão a ser defendida: no sentido de uma identidade às avessas, por contraste com o que ela definitivamente não pode ser. Sendo assim, a demarcação ideal dos campos precisa ser mantida e resguardada, por mais que enfrentemos algumas dificuldades na hora de decidir o que se deve incluir ou rejeitar (se programação neuro-linguística e acupuntura contam ou não contam, por exemplo), e por mais que a inclusão ou rejeição de certa prática possa ser futuramente revogada em vista de novos desdobramentos do campo psi. O importante é perceber que esse problema de demarcação não é só uma tentativa dos órgãos fiscalizadores de preservar a credibilidade do psicólogo contra os excessos de charlatães, místicos etc., mas antes e sobretudo uma tentativa de reconhecer os limites de cada tipo de discurso.

"Cada um no seu quadrado"