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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

GUEST POST: A situação do psicólogo clínico brasileiro


No ano em que comemora 50 anos de sua regulamentação, a Psicologia está mais plural do que nunca. No entanto, a psicologia clínica ainda domina o imaginário da profissão - tanto entre leigos como entre os próprios profissionais. Muitos, talvez a maioria, daqueles que ingressam nas inúmeras faculdades de Psicologia espalhadas por todo o país, ainda sonham em abrir um consultório quando se formarem. Mas como é ser um psicólogo clínico no Brasil atualmente? Para tentar responder esta questão, convidei o psicólogo clínico, bacharel e mestre em filosofia Daniel Grandinetti para compartilhar, neste espaço, sua visão sobre esta problemática. Na verdade, esta é uma versão mais concisa de um post publicado por Daniel em seu blog, o No Gabinete do Psicólogo. Quando o li, há alguns meses, fiquei mexido com suas palavras. Mesmo que não concorde com tudo o que ele diz, não dá pra ficar indiferente à sua narrativa provocadora. Segue o texto do Daniel.

A Psicologia Clínica no Brasil pede ajuda; ou melhor, parece que sua situação está precária há tanto tempo, que ela se esqueceu de que nada está bom. Está conformada, quieta, comemorando os 50 anos de sua profissionalização neste país. Entretanto, dificilmente poderíamos entender a Psicologia Clínica no Brasil como uma profissão. É assim que o dicionário Aurélio define a expressão:

Profissão sf. 1. Ato ou efeito de professar (4). 2. Atividade ou ocupação especializada, da qual se podem tirar os meios de subsistência; ofício. 

O psicólogo clínico geralmente professa sua convicção nas técnicas e teorias que regem sua ocupação, que é bastante especializada. Nesse sentido, o exercício da Psicologia Clínica no Brasil é uma profissão. Mas, tirar sua própria subsistência através do exercício da clínica é uma tarefa herculínea para o psicólogo brasileiro. Poucos, em média, conseguem esse feito. Nesse sentido, a Psicologia Clínica brasileira é uma ocupação que mais se assemelha a um hobby do que a uma profissão. E, quando falo em hobby, não estou insinuando que o psicólogo exerce a clínica com pouca seriedade ou dedicação. Existem hobbies que exigem muito de tudo isso, além de profunda paixão. Aliás, é justamente nesse sentido que falo da clínica em Psicologia como um hobby: uma ocupação mantida em grande parte pela paixão, mas que não retribui com o sustento àquele que a exerce. 



O principal problema enfrentado pelo psicólogo clínico é a falta de interesse, por parte da sociedade, pelo serviço que ele deseja prestar. Ele descobre que nem sempre aquilo que as pessoas precisam (ou que nós pensamos que elas precisam) é aquilo que elas querem. A faceta mais perigosa da falta de interesse da sociedade é a sua internalização pelo psicólogo clínico. O psicólogo aprende que ele é o principal interessado naquilo que ele faz, e aprende a tratar com naturalidade o fato de viver num mundo que não deseja particularmente aquilo que ele tem a oferecer. 

No exercício da clínica, o psicólogo enfrenta a falta de interesse de seus pacientes fazendo a eles todo tipo de concessão. O paciente é tratado na conta devida de um cliente. O psicólogo toma a falta de interesse do paciente como um problema seu, e que, portanto, deve ser resolvido pela “melhora” dos serviços prestados por ele. Em meio à angustia constante da possibilidade de perder seus pacientes, o psicólogo se esquece de que o interesse na melhora é, deve ou deveria ser do paciente, não dele, psicólogo. 

No efetivo estabelecimento da Psicologia Clínica como profissão, o psicólogo aprende a tomar como natural o fato de que ele é sempre o interessado em prestar seus serviços, jamais as clínicas em que ele trabalha. Não há empregos para psicólogos clínicos. Ao contrário da maioria das demais profissões de saúde, não há demanda suficiente por serviços de Psicologia Clínica que justifique a contratação de um psicólogo clínico. A profissão de psicólogo clínico é autônoma quase por definição. 



Frente à inexistência de empregos para psicólogos clínicos, o profissional que decide por essa área tem duas possibilidades: Tentar ou o consultório particular ou as clínicas de Psicologia espalhadas por aí. Se ele não tiver uma fonte segura e constante de encaminhamentos de pacientes, a tarefa de manter um consultório particular se mostrará quase impossível. Restará a ele as clínicas de Psicologia. Nos contratos de serviço com elas, o psicólogo geralmente aluga seu espaço de trabalho e espera delas receber pacientes conveniados, em sua grande parte. Formalmente, o psicólogo não presta serviço algum à clínica; é a clínica que presta ao psicólogo seus serviços (o aluguel da sala), e por isso o psicólogo não tem direito de receber dela nada além do espaço que alugou. O encaminhamento de pacientes ao psicólogo pela clínica não faz parte do contrato. É quase uma “cortesia”. A clínica, por sua vez, recebe o pagamento fixo pelo aluguel, todo mês. Ao psicólogo não é dada qualquer garantia de que conseguirá retirar de seu trabalho pelo menos o necessário para pagar o aluguel. E uma vez que as clínicas cobram do psicólogo aluguel pelo preço de mercado, e repassam a ele entre dez e vinte reais por consulta de paciente conveniado (geralmente, muito mais próximo dos dez do que dos 20 reais), o psicólogo precisa atender uma grande quantidade de pessoas, contando que elas não faltem a nenhuma sessão, somente para pagar o aluguel. O resultado é que a conta quase nunca fecha, e o psicólogo clínico paga para trabalhar. Até o trabalho escravo, por definição, é mais vantajoso que o trabalho do psicólogo clínico. O escravo não recebe nada, mas tampouco paga para trabalhar. 

O Conselho Federal de Psicologia explicitamente relega o profissional representado por ele à sua própria sorte quando ele quer estabelecer contrato com uma clínica. Ao invés de criar normas e propor leis que evitem a exploração do psicólogo, o CFP apenas o aconselha a “tomar cuidado”, lhe desejando boa sorte! É fato que mais de 90% dos psicólogos brasileiros são mulheres. Mulheres são mais receptivas, estabelecem relações intimistas com mais facilidade, são mais acolhedoras, mais empáticas, compreensivas. Essas são qualidades que se encaixam perfeitamente no perfil ideal do psicólogo, e por essa razão a grande quantidade de mulheres psicólogas engrandece a profissão. Por outro, no entanto, o número elevado de psicólogas nos traz dificuldades. Mulheres casadas são geralmente sustentadas pelos maridos. E isso não é diferente no caso das psicólogas. Assim, as psicólogas não carregam sobre as costas o peso da necessidade de buscar sua subsistência. O pagamento da psicóloga geralmente fica todo com ela, ou então entra apenas como um complemento da renda do marido. As clínicas supracitadas atraem em grande parte psicólogas casadas, que não têm a preocupação direta com o ganho. Caso os psicólogos clínicos constituíssem uma classe de profissionais que trabalha pelo sustento próprio, e por provedores de família, o diálogo com essas clínicas e com qualquer um que explore o trabalho do psicólogo seria posto em outros termos. A exploração não aconteceria com tamanha facilidade, mesmo com a omissão do CFP a respeito. 



O psicólogo deve aprender a dizer não à exploração do seu trabalho. Não deve aceitar trabalhar em clínicas a não ser que seu saldo seja positivo no final do mês. Deve procurar fazer acordos em que a clínica ganhe proporcionalmente ao seu próprio ganho e à sua produtividade. Se o psicólogo produzir muito e ganhar muito, a clínica também ganhará. Se não produzir nada e não ganhar nada, a clínica nada ganhará. O psicólogo deve saber que a cada concessão abusiva sua a um paciente, e a cada sim dado àqueles que lhe exploram, toda a classe sai perdendo. Quem faz concessões excessivas não dá o valor devido ao seu próprio trabalho, e quem não valoriza seu próprio trabalho não pode cobrar a valorização dos outros. O psicólogo clínico está habituado a trabalhar sozinho em seu consultório. Por isso, ele se torna individualista. Acredita que o único interessado em seu trabalho é ele mesmo, e não percebe que o interesse pelo trabalho de seu colega também pode despertar o interesse dele pelo seu, e que uma classe de profissionais interessados no trabalho uns dos outros aprende a ter mais auto-estima, produz mais e desperta, naturalmente, o interesse das pessoas em geral. O psicólogo perde a consciência do valor daquilo que faz, e por isso se torna submisso e omisso.



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GUEST POST: Sobre Psicologia, Ciência e Religião



Inaugurando a seção Guest Post, publico abaixo um texto do meu xará e parceiro de ótimas discussões no Twitter, o Felipe Hautequestt, que é Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escrito inicialmente como um comentário ao meu post anterior, o texto foi ampliado para ser publicado aqui. Eu gostei tanto do que ele escreveu, inclusive quando ele discorda dos meus argumentos, que pedi sua autorização para publicá-lo. Desejo que este seja o primeiro Guest Post e que este blog deixe de ser apenas um monológo e torne-se um espaço de disseminação de múltiplas vozes sobre as grandes questões da Psicologia. Portanto, se alguém concordar ou discordar do que eu ou o Felipe escrevemos e/ou quiser acrescentar algum ponto de vista sobre esta ou outra questão, é só escrever um texto e me enviar por email. Segue o texto do Felipe Hautequestt: 

No meu entendimento, a questão da cientificidade da Psicologia pode ser perfeitamente colocada entre parênteses quando se trata de afastar a Psicologia do domínio da fé e da doutrina religiosas. Não é necessário ir tão longe, pouco importa aqui se a Psicologia sucedeu ou não como ciência. E, aliás, essa questão só pode ser adequadamente respondida se entrarmos em acordo quanto ao que é uma ciência e quais são seus caracteres distintivos, para começar. O que importa é que a Psicologia se pretende uma ciência empírica, tendo nascido de um projeto de cientificidade do qual não pode abdicar (por mais que o sentido de ‘cientificidade’ esteja em aberto e não precise ser necessariamente aquele dado pelos positivistas do século XIX). Dois critérios certos podem ser extraídos dessa pretensão fundadora sem cair em discussões árduas de filosofia da ciência: (1) ela deve necessariamente fazer algum tipo de recurso à experiência, submeter-se, portanto ao seu crivo; e (2) ela deve apresentar hipóteses e teorias argumentadas, raciocinadas. Ou seja, ela não pode ser nem uma ciência puramente especulativa (metafísica), nem um corpo doutrinal que exija uma adesão pela fé, pela aceitação integral duma verdade revelada (religião), sem razões que a sustentem. 





Esse é o ponto central, no meu entendimento. As religiões não lidam com problemas de fato (isto é, de como as coisas são) – por exemplo, como funciona o mundo subatômico –, mas sim com problemas de valor (como as coisas devem ser) – por exemplo, como devo conduzir minha vida. Por isso, os enunciados religiosos se fecham de saída, e por definição, a ambas os critérios: oferecem narrativas que não são passíveis de nenhum tipo de controle pela experiência (como quer que o caracterizemos) e, além disso, são calçadas na fé, e não na argumentação racional. É importante dizer que isso não constitui nenhum demérito para as religiões, apenas define sua especificidade em relação a outros tipos de discurso. E porque seus traços essenciais são estes, é por essência que a religião está automaticamente excluída de qualquer discurso que se pretenda científico – independentemente dele ser efetivamente científico ou não. 




Esse é o critério que embasa (e com toda razão, a meu ver) a Resolução 016/95 citada no texto: aquelas práticas faziam referência aberta a proposições de caráter nitidamente religioso, místico e/ou esotérico. Poderiam dizer alguns: "Ah, mas funcionam! Essas práticas reúnem muitos indícios de que são eficazes, isso não basta?!". Ora, mas a medida da Psicologia como ciência aplicada nunca pode se limitar ao resultado puro e simples – trata-se de saber por que e como as técnicas funcionam, e isso requer uma teoria, um conjunto coerente de proposições que dê algum sustento àquela prática. Era para isso que Canguilhem nos alertava, em seu famoso artigo ‘Que é a Psicologia?’, ao escrever: “Quando se diz que a eficácia do psicólogo é discutível, não se pretende dizer que ela seja ilusória, mas simplesmente assinalar que essa eficácia está sem dúvida mal fundamentada enquanto não se provar que ela resulta realmente da aplicação de uma ciência.” Na medida em que certas práticas vetadas pelo CFP comecem a apresentar um esforço de embasamento teórico, e os profissionais se organizem para vir em sua defesa e argumentar em seu favor, então cabe ao Conselho admiti-las no campo de atuações possíveis do psicólogo. Pois, a partir de agora, tais práticas estão aptas a terem seus alicerces e fundamentos criticados por outros psicólogos e, como se sabe, a crítica cumpre um papel central e decisivo no desenvolvimento científico. (Popper dizia que uma teoria imune a críticas deveria, por isso mesmo, ser descartada de antemão como digna de consideração pelos cientistas.) 


Isso tudo, é claro, não dá tanto uma determinação positiva à Psicologia, não diz tanto o que ela é, mas busca apenas demarcar seus limites negativos, estipulando aquilo que ela não é e não pode ser a partir de certas condições básicas a serem atendidas. Acho eu que é nesse sentido específico que se pode falar de uma identidade ou especificidade da profissão a ser defendida: no sentido de uma identidade às avessas, por contraste com o que ela definitivamente não pode ser. Sendo assim, a demarcação ideal dos campos precisa ser mantida e resguardada, por mais que enfrentemos algumas dificuldades na hora de decidir o que se deve incluir ou rejeitar (se programação neuro-linguística e acupuntura contam ou não contam, por exemplo), e por mais que a inclusão ou rejeição de certa prática possa ser futuramente revogada em vista de novos desdobramentos do campo psi. O importante é perceber que esse problema de demarcação não é só uma tentativa dos órgãos fiscalizadores de preservar a credibilidade do psicólogo contra os excessos de charlatães, místicos etc., mas antes e sobretudo uma tentativa de reconhecer os limites de cada tipo de discurso.

"Cada um no seu quadrado"