Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O dia em que incomodei o cérebro de um neurocientista

A história que vou contar aconteceu no ano passado. Estava  navegando pela internet quando me deparei com uma entrevista de um grande neurocientista brasileiro, que chamarei aqui de N. Vocês já devem ter ouvido falar de N., pois ele obteve, nos últimos anos, grande visibilidade, tendo inclusive protagonizado uma propaganda de uma marca de telefonia móvel. Quando um neurocientista vira garoto-propaganda do que quer que seja e se torna uma espécie de celebridade, passamos a ter uma noção exata da dimensão e popularidade que as ciências do cérebro adquiriram nos últimos anos. No entanto, a notoriedade de N. não veio à toa, pois suas pesquisas são realmente relevantes e podem contribuir para a superação, no futuro, de problemas que afetam hoje milhões de pessoas. Não tenho dúvidas de que suas pesquisas e a de outros neurocientistas são absolutamente fundamentais. O problema, na minha opinião, começa quando o pesquisador extrapola o conhecimento disponível e começa a querer explicar tudo pela neurociência - ou por qualquer outra visão de mundo. Num passado não tão distante isso ocorreu com a psicanálise: tudo no mundo podia ser explicado pelo inconsciente, pelo Complexo de Édipo e pela pulsão de morte. No entanto, as explicações psicanalíticas já não fazem tanto sucesso como antes. A bola da vez, na área psi, são as explicações neurocientíficas.

Pois bem, na referida entrevista, N. deu algumas declarações bastante polêmicas, afirmando, dentre outras coisas, que Jesus, Moisés e Abraão eram esquizofrênicos. Segundo ele, "a humanidade é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que alguém estava falando com eles. Muito provavelmente os três precisavam de haldol". Assim que li isso, escrevi no Twitter: "Essa afirmação é completamente absurda! Reduzir a experiência religiosa a um transtorno mental é de um simplismo assustador!". Simplismo cometido outro dia mesmo por uma neurocientista inglesa que, questionada em um evento sobre o futuro das neurociências, respondeu que “uma das surpresas pode ser a de ver pessoas com certas crenças como pessoas que podem ser tratadas [clinicamente]". Disse ainda que "alguém que por exemplo, torna-se radical a uma ideologia de culto – nós podemos parar de ver isso como uma escolha pessoal resultado de puro livre-arbítrio e começar a tratá-lo como algum tipo de distúrbio mental". Segundo ela, isto "poderia ser uma coisa muito positiva, porque não há dúvida de que certas crenças em nossa sociedade trazem muitos danos". Assim que li esta notícia comentei na página deste blog no Facebook - e este comentário vale, de certa forma, para a fala de N.:



Que besteira isso! É claro que a religiosidade [ou o fanatismo religioso] poderia ser tratado(a) como doença mental, assim como qualquer outra coisa. Basta um grupo de especialistas conseguir convencer os responsáveis pelos manuais de doenças de que determinado comportamento é doentio que... tcharam... temos uma nova doença! Teoricamente qualquer questão humana pode ser encarada sob a ótica da doença: o amor, a raiva, o ciúme, o sexo, a alegria, a tristeza... e a religiosidade, por que não? Se quisermos entender o fundamentalismo religioso como uma forma de doença mental, nós podemos. Não há nada que impeça isso, afinal o que é ou não doença ou transtorno mental depende essencialmente de negociações e acordos entre especialistas e entre esses e a sociedade. Agora, imaginar que as pesquisas sobre o cérebro provarão que determinada questão é uma doença é de uma ingenuidade sem tamanho. As pesquisas sobre o cérebro não tem como provar que determinado comportamento, pensamento ou sentimento é ou não é uma doença. Isto é determinado anteriormente às pesquisas através, repito, de acordos e negociações. As imagens cerebrais não tem como mostrar que certa característica é ou não patológica, apenas que há uma correlação entre certos comportamentos, sentimentos e pensamentos e certas áreas do cérebro. De qualquer forma esta ideia da neurocientista de que "certas crenças" (quais?) podem ser consideradas patológicas e, portanto, devem ser tratadas (como?), aponta, mais uma vez, para um processo de medicalização de tudo o que incomoda. Concordo que certas formas de fundamentalismo religioso são de fato incômodas e mesmo danosas, mas será realmente o caso de considerá-las doenças? Neste sentido, como definir o ponto exato em que a religiosidade torna-se fundamentalismo? E mais: sendo doença, qual seria o tratamento? Por acaso existe algum remédio para tratar o fundamentalismo religioso? E o fundamentalismo secular (ou científico), também seria tratado? Essa neurocientista devia pensar um pouco antes de falar uma besteira como essa.

N. também. Mas a declaração de que Jesus, Moisés e Abraão eram esquizofrênicos, foi apenas uma das besteiras ditas por ele. Em outro momento da entrevista ele afirma: "acho que a religião faz parte do sistema nervoso" (percebam que ele não disse "religiosidade" ou "sentimento religioso", e sim religião - mas pelo menos ele teve uma mínima humildade de dizer "acho"). Mais a frente na entrevista, falando sobre os comportamentos humanos em geral, N. afirmou que "no frigir dos ovos, tudo se resume a uma mudança de balanço de neurotransmissor e de atividade elétrica do cérebro". Leiam bem: Tudo! Em seu livro, N. deixa bem claro o que entende por "tudo". Percebam o reducionismo de sua visão:

"... essas redes neuronais microscópicas são na verdade as únicas responsáveis pela geração de cada ato de pensamento, criação, destruição, descoberta, ocultação, comunicação, conquista, sedução, rendição, amor, ódio, felicidade, tristeza, solidariedade, egoísmo, introspecção e exultação jamais penetrado por todo e qualquer um de nós, nossos ancestrais e progênie, ao longo de toda a existência da humanidade"

Considerei na época - e ainda considero - as afirmações de N. absolutamente equivocadas e escrevi uma série de tweets criticando-as. Outros colegas do Twitter começaram, então, a opinar sobre minhas críticas e, assim, iniciamos um debate virtual sobre a polêmica entrevista. Alguns se posicionaram a favor do N. e outros contra e, em pouco tempo, finalizamos este interessante debate de idéias. No dia seguinte, abro minha conta do Twitter e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que o próprio N. se encrencou comigo, em função das críticas que fiz no dia anterior. O cara ficou super-ofendido embora minhas críticas não tenham sido nunca pessoais, mas filosóficas. A primeira mensagem dele pra mim foi a seguinte:


Vamos analisar seu tweet. Primeiro ele usa um argumento de autoridade ("tenho 30 anos de carreira"), me chama de "filho" - como se dissesse, "esse Felipe é tão novinho, não sabe das coisas" (e não sei muitas coisas mesmo!) - para, ao final, me solicitar dados. Como assim dados? Quais dados? Dados que provem que Jesus, Moisés e Abraão NÃO eram esquizofrênicos? E a qual ou quais tipos de dados ele se refere? Dados neurocientíficos? Mas eu não sou neurocientista! Então somente um neurocientista para criticar outro neurocientista? Não, não tenho dados, na maneira como ele espera. Não tenho dados "científicos", dados sobre o cérebro. Minha questão é filosófica: será que podemos reduzir tudo ao cérebro? E é exatamente esta visão que permeia seu trabalho, embora ele não se dê conta. Na verdade, esta é minha opinião, só isso, opinião construída a partir da leitura do seu único livro e de declarações dadas por ele na imprensa. Sobre a entrevista que gerou todo o debate, questiono: será que ele tem dados que provem que Jesus, Moisés e Abraão ERAM esquizofrênicos? Gostaria de saber a partir de que dados científicos ele deu esta declaração. Como seria possível provar cientificamente isso? Se ele me solicita dados, eu também solicito a ele. 


Com um colega do Twitter e participante do debate sobre a entrevista, N. foi ainda mais ríspido: "E qual é a sua formação em neurociência para falar tanto absurdo? Qual livro texto vc leu meu filho? Falar por falar é fácil d+!". A indicação de que somente alguém com formação em neurociência pode criticar suas idéias permanece. Mas peraí: ele deu esta última entrevista para uma revista "popular", não para uma revista científica. E ele vem realizando, junto com outros neurocientistas, um trabalho de popularização/divulgação das neurociências para o público leigo. Seu livro tem este objetivo claro . Não é um livro voltado somente para neurocientistas - tanto que se tornou um best-seller. Assim, se ele espera críticas somente de iniciados na área, isto significa então que ele espera somente elogios de todo o resto das pessoas? Não, não sou neurocientista. Mas venho estudando alguns autores com posturas filosóficas críticas à certos discursos neurocientíficos. É a partir daí que fiz algumas considerações. N., dirigindo-se a mim, escreveu ainda:



Minha resposta foi sucinta, pois não pretendia iniciar um confronto direto. Meu objetivo com os tweets foi somente debater ideias. Disse apenas: "Caro N., não tenho dados nem 30 anos de carreira. Só acho que se o Sr. dá uma entrevista para uma revista, fica sujeito a críticas". Até certo ponto fiquei orgulhoso pelas minhas considerações terem surtido este efeito. De certa forma, e sem ter a intenção, o incomodei. E se o incomodei é porque toquei em questões importantes. Mas talvez não tenha o incomodado, apenas a seu cérebro... 


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Reducionismo cerebral


Esta imagem me lembrou a famosa frase ultra-reducionista do biólogo inglês Frances Crick (1916-2004), em seu livro A hipótese espantosa: "Você, suas alegrias e tristezas, suas lembranças e ambições, seu senso de identidade pessoal e livre-arbítrio, não são mais do que o comportamento de um imenso conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas. Como diria a Alice de Lewis Carroll, 'você não passa de um baralho de neurônios'". Será que somos somente isso?

Reducionismo genético


Encontrei este cartum neste artigo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GUEST POST: Sobre Psicologia, Ciência e Religião



Inaugurando a seção Guest Post, publico abaixo um texto do meu xará e parceiro de ótimas discussões no Twitter, o Felipe Hautequestt, que é Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escrito inicialmente como um comentário ao meu post anterior, o texto foi ampliado para ser publicado aqui. Eu gostei tanto do que ele escreveu, inclusive quando ele discorda dos meus argumentos, que pedi sua autorização para publicá-lo. Desejo que este seja o primeiro Guest Post e que este blog deixe de ser apenas um monológo e torne-se um espaço de disseminação de múltiplas vozes sobre as grandes questões da Psicologia. Portanto, se alguém concordar ou discordar do que eu ou o Felipe escrevemos e/ou quiser acrescentar algum ponto de vista sobre esta ou outra questão, é só escrever um texto e me enviar por email. Segue o texto do Felipe Hautequestt: 

No meu entendimento, a questão da cientificidade da Psicologia pode ser perfeitamente colocada entre parênteses quando se trata de afastar a Psicologia do domínio da fé e da doutrina religiosas. Não é necessário ir tão longe, pouco importa aqui se a Psicologia sucedeu ou não como ciência. E, aliás, essa questão só pode ser adequadamente respondida se entrarmos em acordo quanto ao que é uma ciência e quais são seus caracteres distintivos, para começar. O que importa é que a Psicologia se pretende uma ciência empírica, tendo nascido de um projeto de cientificidade do qual não pode abdicar (por mais que o sentido de ‘cientificidade’ esteja em aberto e não precise ser necessariamente aquele dado pelos positivistas do século XIX). Dois critérios certos podem ser extraídos dessa pretensão fundadora sem cair em discussões árduas de filosofia da ciência: (1) ela deve necessariamente fazer algum tipo de recurso à experiência, submeter-se, portanto ao seu crivo; e (2) ela deve apresentar hipóteses e teorias argumentadas, raciocinadas. Ou seja, ela não pode ser nem uma ciência puramente especulativa (metafísica), nem um corpo doutrinal que exija uma adesão pela fé, pela aceitação integral duma verdade revelada (religião), sem razões que a sustentem. 





Esse é o ponto central, no meu entendimento. As religiões não lidam com problemas de fato (isto é, de como as coisas são) – por exemplo, como funciona o mundo subatômico –, mas sim com problemas de valor (como as coisas devem ser) – por exemplo, como devo conduzir minha vida. Por isso, os enunciados religiosos se fecham de saída, e por definição, a ambas os critérios: oferecem narrativas que não são passíveis de nenhum tipo de controle pela experiência (como quer que o caracterizemos) e, além disso, são calçadas na fé, e não na argumentação racional. É importante dizer que isso não constitui nenhum demérito para as religiões, apenas define sua especificidade em relação a outros tipos de discurso. E porque seus traços essenciais são estes, é por essência que a religião está automaticamente excluída de qualquer discurso que se pretenda científico – independentemente dele ser efetivamente científico ou não. 




Esse é o critério que embasa (e com toda razão, a meu ver) a Resolução 016/95 citada no texto: aquelas práticas faziam referência aberta a proposições de caráter nitidamente religioso, místico e/ou esotérico. Poderiam dizer alguns: "Ah, mas funcionam! Essas práticas reúnem muitos indícios de que são eficazes, isso não basta?!". Ora, mas a medida da Psicologia como ciência aplicada nunca pode se limitar ao resultado puro e simples – trata-se de saber por que e como as técnicas funcionam, e isso requer uma teoria, um conjunto coerente de proposições que dê algum sustento àquela prática. Era para isso que Canguilhem nos alertava, em seu famoso artigo ‘Que é a Psicologia?’, ao escrever: “Quando se diz que a eficácia do psicólogo é discutível, não se pretende dizer que ela seja ilusória, mas simplesmente assinalar que essa eficácia está sem dúvida mal fundamentada enquanto não se provar que ela resulta realmente da aplicação de uma ciência.” Na medida em que certas práticas vetadas pelo CFP comecem a apresentar um esforço de embasamento teórico, e os profissionais se organizem para vir em sua defesa e argumentar em seu favor, então cabe ao Conselho admiti-las no campo de atuações possíveis do psicólogo. Pois, a partir de agora, tais práticas estão aptas a terem seus alicerces e fundamentos criticados por outros psicólogos e, como se sabe, a crítica cumpre um papel central e decisivo no desenvolvimento científico. (Popper dizia que uma teoria imune a críticas deveria, por isso mesmo, ser descartada de antemão como digna de consideração pelos cientistas.) 


Isso tudo, é claro, não dá tanto uma determinação positiva à Psicologia, não diz tanto o que ela é, mas busca apenas demarcar seus limites negativos, estipulando aquilo que ela não é e não pode ser a partir de certas condições básicas a serem atendidas. Acho eu que é nesse sentido específico que se pode falar de uma identidade ou especificidade da profissão a ser defendida: no sentido de uma identidade às avessas, por contraste com o que ela definitivamente não pode ser. Sendo assim, a demarcação ideal dos campos precisa ser mantida e resguardada, por mais que enfrentemos algumas dificuldades na hora de decidir o que se deve incluir ou rejeitar (se programação neuro-linguística e acupuntura contam ou não contam, por exemplo), e por mais que a inclusão ou rejeição de certa prática possa ser futuramente revogada em vista de novos desdobramentos do campo psi. O importante é perceber que esse problema de demarcação não é só uma tentativa dos órgãos fiscalizadores de preservar a credibilidade do psicólogo contra os excessos de charlatães, místicos etc., mas antes e sobretudo uma tentativa de reconhecer os limites de cada tipo de discurso.

"Cada um no seu quadrado"