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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Precisamos falar sobre... ansiedade

Tenho que confessar: sou uma pessoa bastante ansiosa. Sim, eu sou psicólogo e, supostamente, eu não deveria sentir ansiedade ou tristeza ou raiva ou medo. Eu deveria ter apenas belos sentimentos como a alegria, o amor e a gratidão. Eu deveria ser uma pessoa totalmente zen e bem-resolvida. Afinal, como eu posso pretender ajudar as pessoas se eu próprio sinto muito do que os meus pacientes sentem? Como eu poderia auxiliar pessoas ansiosas se eu próprio sou ansioso? Quando comecei a atender, há cerca de 10 anos, eu ficava, como todo bom ansioso, muito preocupado com isso, mas aos poucos fui entendendo que esta era uma preocupação inútil e despropositada - como grande parte das preocupações que temos. Eu podia negar ou tentar construir uma ilusão a meu respeito e a respeito dos psicólogos em geral, mas o fato, um tanto óbvio - e o mais difícil, por vezes, é perceber o óbvio - é que eu sou um ser humano como qualquer outro e estou sujeito aos mesmos sentimentos e problemas que todo mundo. E eu posso ajudar outras pessoas não porque eu sou perfeito ou bem-resolvido, o que não é nem poderia ser verdade, mas porque eu possuo formação, experiência e legitimidade profissional, conhecimento técnico, disposição para me aproximar da realidade do paciente/cliente e vontade de contribuir com seu aperfeiçoamento enquanto ser humano. Além disso, sempre fiz e continuo fazendo terapia, de forma a estar consciente e atento às minhas falhas e limitações enquanto pessoa e enquanto terapeuta. E mais: na relação terapêutica eu observo e analiso os problemas e dilemas das pessoas com uma certa distância, pois não estou diretamente envolvido em suas questões. E isso me possibilita uma  atuação ao mesmo tempo próxima (pois se trata de uma relação com um certo grau de intimidade) e distante (pois se trata de uma relação profissional) - e por óbvio eu não consigo manter a mesma distância das minhas próprias questões. Enfim, aos poucos fui entendendo que por mais que eu quisesse, eu não teria como escapar dos meus próprios sentimentos. Feliz ou infelizmente, eu estou tão sujeito à ansiedade, ao medo e a tristeza quanto qualquer um - assim como um bombeiro está sujeito a ter um incêndio em sua casa ou um médico está sujeito a ficar doente. A grande conclusão é que, no fim das contas, somos todos humanos. E o ser humano, por sua própria natureza, é problemático e vulnerável. E também ansioso.

Existem cachorros ansiosos?
E eu diria mais: o ser humano é o único animal ansioso. Ou você já viu algum outro animal demonstrando ansiedade? Aposto que algumas pessoas diriam que sim: "Ah, mas meu cachorro é super-ansioso. Ele não para um segundo e vive roendo e destruindo os móveis lá de casa". Ok, ele de fato me parece agitado e um tanto estressado, mas será que realmente ele está ansioso? Não creio. No meu entendimento, a ansiedade diz respeito à uma relação do sujeito com o futuro. É o futuro, ou melhor, a imaginação deste futuro, que pré-ocupa o ansioso, fazendo com que ele tenha, no presente, uma série de reações corporais e comportamentais extremamente incômodas. E, pelo que se saiba, somente os seres humanos concebem e planejam o futuro com a complexidade que o fazemos. Todos (ou quase todos) os outros animais, e também as crianças pequenas, vivem essencialmente o presente e não tem a capacidade de projetar ou imaginar o que virá, para além de um futuro próximo. Certamente todos estes seres sentem medo e ficam estressados, mas não ansiosos. A diferença é que o medo e o estresse são reações ao que está acontecendo com o sujeito neste exato momento (por exemplo, ao visualizar uma cobra ou realizar uma prova), ao passo que a ansiedade é uma espécie de medo daquilo que ainda não aconteceu ou do que se imagina que irá acontecer. Como sempre digo aos meus pacientes, a ansiedade é a "síndrome do E se?". E se eu começar a namorar e a pessoa me trair? E se eu casar e me arrepender? E se eu viajar e o avião cair? E se eu engravidar e o filho morrer? E se ele sobreviver e eu não der conta de educá-lo? E se eu for demitido? E se eu não for demitido e continuar frustrado com meu trabalho? E se eu desenvolver um câncer? E se eu envelhecer e for abandonado por todos? Quem é ansioso certamente vive com vários "e se's" martelando na cabeça grande parte do tempo - mas não todos os "e se's", já que a pessoa ansiosa se foca essencialmente nas possibilidades negativas, ignorando solenemente as possibilidades positivas (de por exemplo, o avião não cair, do filho não morrer ou da demissão não ocorrer). Na cabeça do ansioso o futuro será sempre trágico e triste e nada pode ser feito para evitar.

É possível prever o futuro?
O ansioso, em geral, não suporta a ideia de não ter o controle sobre o rumo dos acontecimentos. Se tem uma coisa que o tira do sério é a incerteza. Não saber o que vai acontecer ou se determinada coisa vai acontecer exatamente da forma como ele gostaria que acontecesse, tira o ansioso do eixo. Tudo o que ele quer é ter a certeza de que tomou a decisão correta, de que as coisas vão dar certo e de que, enfim, sua história terá um final feliz. O grande problema é que a vida é repleta de incertezas e fazer uma escolha, quase sempre, é mergulhar no desconhecido. Podemos pensar e ponderar com cuidado sobre todas as opções, mas nunca saberemos de fato quais serão as consequências das nossas decisões. Embora sejamos os únicos animais com capacidade para imaginar o futuro, não somos muito bons em prever o que de fato irá acontecer. Só o que nós fazemos (na verdade, só o que podemos fazer) é imaginar - e o pensamento ansioso se constitui como mais uma maneira de imaginar o que irá ocorrer. Mas a questão é que não temos como saber. Façamos um exercício: tente imaginar como estará o mundo e a sua vida daqui a 20 anos? Agora suponhamos que exista uma máquina do tempo que pudesse te levar imediatamente ao ano de 2037. Será que você encontraria as coisas exatamente como as imaginou? Difícil saber, pois se trata de um exercício de imaginação, mas eu arrisco uma resposta: duvido muito! E como eu posso fazer tal afirmação? É simples: basta observarmos as previsões que foram feitas no passado sobre o mundo atual. Embora elas tenham acertado em alguns pontos, erraram terrivelmente em muitos outros. Deem só uma olhada nas imagens abaixo, que foram feitas no final do século XIX pelos ilustradores franceses Jean-Marc Côté e Villemard (utilizei a última delas na conclusão do meu livro O cérebro vai à escola). Eles tentaram imaginar, em 1899, como seria o mundo no ano 2000. Analise as imagens atentamente e tente observar o que eles acertaram e o que erraram.






E então: nós temos atualmente barbearias mecanizadas? Passeios conduzidos por baleias no fundo do mar? Máquinas para fazer a limpeza doméstica? Bombeiros voadores? Equipamentos que transferem o conhecimento dos livros diretamente para o cérebro dos estudantes? A resposta para quase todas estas perguntas é um sonoro "Não!". A única previsão relativamente acertada dos ilustradores foi a existência de máquinas autônomas para limpeza doméstica, que já são vendidas, mas ainda estão longe de serem baratas, populares e realmente úteis. Enfim, esses ilustradores podem até ter acertado algumas de suas previsões ou parte delas, mas no geral eles erraram vertiginosamente, assim como nós muito provavelmente erraremos ao imaginar o nosso futuro e também como possivelmente nós erramos na previsão que fizemos da nossa vida no passado. Tente se lembrar de como você imaginava, quando criança, que seria a sua vida quando você tivesse a sua idade atual? Você acertou sua previsão? Como os ilustradores, você pode até ter acertado em alguns aspectos, mas muitos outros você deixou passar ou simplesmente não conseguiu imaginar. E o motivo para isso é simples e um tanto óbvio: os rumos da vida e do mundo são imprevisíveis. Podemos até especular, imaginar, conjecturar, mas não temos como saber com precisão o que irá acontecer.

“O medo nos mantêm vivos", diz o pai Crood.
Bom, agora que já compreendemos minimamente algumas características da ansiedade, eu gostaria de trazer uma outra questão: por que, afinal de contas, somos ansiosos? Se a ansiedade é tão ruim para quem a sente, porque o processo de seleção natural não simplesmente eliminou a ansiedade da nossa mente? O desenho animado Os Croods pode nos ajudar a explicar esse aparente paradoxo. Neste filme, acompanhamos uma família pré-histórica liderada por um pai que morre de medo do mundo exterior. Eles moram todos juntos numa caverna e são constantemente advertidos por esse pai dos perigos do lado de fora. “O medo nos mantêm vivos. Nunca deixe de ter medo”, diz o pai como uma espécie de mantra. Pois bem, será que esse pai tem razão em defender a necessidade do medo? Na minha visão, esta recomendação faz todo sentido, tanto no mundo ficcional em que eles vivem quanto, em certa medida, no mundo real. Afinal de contas, o mundo deles, assim como o nosso, está repleto de perigos e riscos. Simplesmente ignorá-los não me parece uma boa estratégia de sobrevivência. Pense, por exemplo, em programas como o Largados e pelados do Discovery Channel: se os participantes forem tranquilos demais, provavelmente se darão mal. Um pouco (e até um tanto) de ansiedade num contexto de luta por sobrevivência não faz mal a ninguém; pelo contrário, pode favorecer a vida. Mas o mesmo vale, em alguma medida, para o contexto da vida de cada um de nós. Pré-ocupar-se com algumas coisas pode favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis. Por exemplo, se você fica ansioso com uma viagem de carro, isto pode fazer com que você dirija com mais cuidado; se você se preocupa com a possibilidade de ter um infarto na meia-idade isso pode fazer com que você se engaje em atividades físicas; se você vê um cachorro na rua e sente medo dele, isto provavelmente fará com que você se afaste e evite uma mordida. Em todos estes casos, a ansiedade ou o medo podem favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis que estão sob nosso controle, mas o grande problema começa quando a ansiedade e o medo ultrapassam todos os limites e ao invés de ajudar começam a atrapalhar. 

Pois bem, uma dificuldade comum na área da saúde mental é definir quando determinado sentimento ou comportamento deixa de ser "normal" e se torna "patológico". Já discuti esta questão infinitas vezes neste blog - e até já escrevi uma monografia sobre isso - e o resumo da história é o seguinte: 1) existem muitos pontos de vista e nenhum consenso sobre o que é "normal" na área de saúde mental - aliás, não há consenso nem sobre o que é "saúde" nem sobre o que é "mental";  2) o que é entendido como "normal" varia de lugar pra lugar, de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e também ao longo do tempo; 3) as classificações e definições presentes nos "manuais de doença" (CID e DSM) são modificadas de tempos em tempos e representam apenas maneiras peculiares, dentre muitas outras, de se compreender os "transtornos mentais". No caso específico da ansiedade, diferenciar a "ansiedade normal" da "ansiedade patológica" não é uma tarefa nada simples. Pessoalmente - na verdade, profissionalmente - eu tento me distanciar o quanto posso da linguagem e da lógica psiquiátricas. Quando um sujeito me procura, simplesmente não me interessa qual o seu diagnóstico - se é "transtorno de ansiedade generalizada", "transtorno do pânico" ou "transtorno obsessivo-compulsivo". O que eu quero de fato saber é como ele se sente, o que ele pensa e porque ele se comporta de tal ou qual maneira. O que é normal, nesse sentido, só pode ser definido pelo próprio sujeito e não por classificações ou critérios externos a ele. Só o sujeito pode dizer se a ansiedade que ele sente é ou não é normal. Assim, se ele me disser que sua ansiedade está exagerada eu simplesmente acreditarei em suas palavras e tentarei ajuda-lo a compreender seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e a buscar estratégias que permitam o controle da sua ansiedade.

Pois, de fato, só o controle é possível, não a cura. Aliás, vi outro dia em uma livraria da minha cidade uma obra chamada "O fim da ansiedade" e sempre me deparo na internet com cursos ou sites que prometem "acabar com a ansiedade" das pessoas. Sinto dizer que nada disto é possível. A dolorosa verdade é que a ansiedade é parte constituinte de nós, seres humanos, assim como a tristeza, o medo e a raiva - e também a alegria e o amor. Certamente nós podemos aprender a controlar algumas de suas manifestações e efeitos e até buscar tratamento psicológico e psiquiátrico quando ela extrapola nossos próprios limites e começa a trazer muitos prejuízos, mas acabar com ela simplesmente não é possível. E o motivo é simples: só acabaríamos com a ansiedade se conseguíssemos deixar de pensar no futuro e/ou se conseguíssemos pensar somente nas possibilidades positivas. Se você conseguisse eliminar de forma permanente os pensamentos negativos sobre o futuro de sua mente, substituíndo-os por pensamentos positivos, aí sim você chegaria ao "fim da ansiedade". Porém, ao contrário do que pregam os "gurus do pensamento positivo", isto não é possível e muito menos desejável. Afinal de contas, a vida não é, nem será no futuro, simplesmente positiva. A vida é quase sempre contraditória e ambígua: boa e ruim ao mesmo tempo - boa em alguns aspectos, ruim em outros, boa em alguns momentos, ruim em outros - a depender, claro, da forma, como avaliamos estes aspectos e estes momentos. Imaginar que tudo dará sempre certo, que não haverá sofrimento e que o final será necessariamente feliz, não passa de uma forma de ilusão - assim como o pensamento contrário de que tudo dará sempre errado, de que só haverá sofrimento e de que o final será necessariamente infeliz. Um pensamento muito mais maduro e realista e que pode ajudar a diminuir a ansiedade, é admitir para si mesmo: "Eu não sei como será o futuro, pois tenho apenas o controle parcial do rumo dos acontecimentos. Pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu temo, pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu gostaria, pode ser que as coisas não aconteçam da forma como eu gostaria mas pode ser que eu me adapte. Ou pode ser que as coisas aconteçam de uma forma totalmente diferente do que eu tenho capacidade de imaginar atualmente. Eu não tenho como prever o que irá acontecer".

Aceitar a falta de controle, mais do que tentar imaginariamente controlar o incontrolável, pode ser um importante passo para diminuir o nível de ansiedade. É claro que isto não é algo simples de se obter e muito menos de se manter, mas certamente uma terapia pode ajudar muito nesse processo de aceitação. Existem também outras atitudes que podem (repito: podem) ajudar no controle da ansiedade. Tudo aquilo que eu recomendei no post sobre concentração, vale igualmente para a ansiedade: ioga, meditação, tai chi chuan, atividades físicas em geral, etc. E o motivo é simples: estar concentrado em algo significa estar focado no presente - e não no passado ou no futuro. E tudo o que te traz ao presente ajuda a melhorar a concentração e também a diminuir a ansiedade. Se você está focado no aqui-e-agora, o futuro, neste exato instante, não existe, e, logo, não há ansiedade. É claro que é impossível permanecer focado no presente todo o tempo. Muitas vezes pensaremos no que passou - e ficaremos tristes ou alegres a depender se o pensamento foi relativo a um momento bom ou ruim do passado. Muitas outras vezes pensaremos no que virá - e ficaremos alegres ou ansiosos ou a depender se o pensamento é relativo a uma expectativa boa ou ruim do futuro. Esta oscilação passado-presente-futuro faz parte da vida, não há o que fazer, assim como não há como evitar que a ansiedade lhe visite de vez em quando. Alguns remédios de fato podem ajudar a acalmar um pouco aquelas pessoas que se encontram em níveis elevados de ansiedade e que provavelmente já possuem consequências físicas relacionadas ao problema (enxaqueca, bruxismo, problemas de estômago ou intestino, alterações no sono, etc), mas nenhuma medicação tem a capacidade de eliminar permanentemente a ansiedade. De fato, alguns remédios e atividades como meditação e o ioga, auxiliam a acalmar o corpo e, por conseguinte, a mente - já que mente e corpo estão intrinsecamente conectados - mas nenhum remédio ou atividade de relaxamento tem a capacidade de desligar por completo os nossos pensamentos - e se pensamos, podemos pensar no futuro e ficar ansiosos. Só o que podemos fazer é tentar relaxar o corpo e a mente, buscar nos conectar sempre que possível com o aqui-e-agora e nos esforçar para aceitar que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Pessoalmente, tenho que confessar que ainda não atingi este nível de aceitação, mas espero um dia poder dizer com convicção e sinceridade as belas palavras de Paulo Leminski: "Não discuto com o destino. O que pintar eu assino". 

Sugestão de leitura: O livro definitivo da ansiedade

sábado, 10 de novembro de 2012

Entrevista com o cartunista Miguel Montenegro (Psicopatos)


Quem acompanha este blog, sabe da minha paixão por cartuns, charges e quadrinhos, assim como por assuntos do mundo psi. E quando algum artista consegue unir estes dois campos, criando cartuns inspirados em temas psi, eu vou à loucura! E eis que encontrei no Facebook uma fã-page de uma série de cartuns chamada Psicopatos e desde então acompanho os geniais desenhos do cartunista português Miguel Montenegro. Miguel trata em seus cartuns de questões absolutamente relevantes à área psi e não poupa críticas nem aos psiquiatras, representados pela figura de um porco, nem aos psicanalistas, representados por um ser que ele designa de gavião-vampiro. Segundo seus cartuns, não são só os psiquiatras que rotulam e patologizam; os psicanalistas também o fazem, com a diferença de não medicarem. O teste de Rorschach e até mesmo a "vaca sagrada" da psicanálise, são alvos constantes de seus cartuns.



Resolvi contatar Miguel para uma entrevista, assim como fez o psicólogo Vladimir Melo com o cartunista Pacha Urbano (autor da genial série "As traumáticas aventuras do filho do Freud" - veja a entrevista com ele aqui). Miguel gentilmente aceitou o convite. Enviei, então, as perguntas por email e ele respondeu. Segue abaixo o resultado:

Miguel, quando você começou a desenhar?

Desenho desde que me lembro, mas foi com onze anos que decidi ser ilustrador profissional quando crescesse. O meu sonho era fazer banda desenhada para a Marvel Comics. Quando consegui, o interesse foi esmorecendo aos poucos. Ter de desenhar oito horas por dia, todos os dias, pode-se tornar aborrecido.

Atualmente, você desenha profissionalmente ou somente por hobby?

Eu continuo a fazer trabalhos de ilustração para publicidade em regime free-lance, sobretudo storyboards, porque é a minha profissão. O meu objetivo é poder desenhar só por prazer, mas é possível que invista novamente na área da ilustração. Às vezes sinto aquela vontade antiga de voltar a desenhar mais regularmente. Normalmente passa rápido, mas vamos ver como é de futuro.




Qual sua relação com a Psicologia e com a Psicanálise?

Eu estou a terminar o mestrado em Psicologia Clínica. Neste momento estou a estagiar no serviço de psiquiatria do Hospital Sta. Maria, em Lisboa. Este ano espero ainda entrar na Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial.

Já fez análise ou psicoterapia em algum momento da sua vida?

Ando atento à procura de um terapeuta para dar início a esse processo. É tarefa difícil. Gostava de alguém cuja base teórica fosse fenomenológico-existencial, mas que também tivesse formação psicanalítica. Só conheço uma pessoa com essas características. É um professor meu com quem tenho uma relação próxima, pelo que não é a pessoa indicada. Mas não tenho pressa. Vai acontecer quando tiver de ser, se tiver de ser.



Quando e de que forma surgiu a ideia dos Psicopatos?

Os Psicopatos estão comigo desde o fim do primeiro ano do curso de psicologia. Na altura, a ideia era fazer uma tira ou outra, quando me confrontasse com algumas das contradições que encontramos nas “ciências” psicológicas, e que, manifestas de outra maneira, podiam ser mal aceites. Provavelmente por falta de tempo, fui adiando a ideia, e o primeiro Psicopatos nasceu em Fevereiro de 2012. Toda a gente gostou, até os professores de psicanálise. Só um é que me veio chatear, dando-me um raspanete em público. Enfim…Fiz mais duas ou três tiras, até que o ISPA, a minha universidade, mostrou interesse em publicar um livro de Psicopatos no fim do ano. Deram-me carta branca para desenhar o que quisesse, sem qualquer censura. Eu fiquei muito contente com a ideia, e passei a tentar produzir 2-3 tiras por semana. Agora que já temos quase 150 – embora só cerca de metade estejam publicadas no Facebook –, vamos começar a pensar em publicar tudo em livro.



Noto em seus cartuns, uma relação de amor e ódio com a psicanálise. Qual sua visão da psicanálise e dos psicanalistas?

É interessante essa observação. Algumas pessoas acham que eu odeio a psicanálise, o que é errado. Outras, mais perspicazes, percebem que o que faço é apresentar uma visão crítica da psicanálise, no sentido de a tentar compreender na sua essência. Nesse intuito, comecei a notar que algumas questões fundamentais ficam por responder: O Inconsciente existe? Se as pulsões são energias reais e não metafóricas, então porque não as conseguimos medir como uma energia típica da física? Como pode a psicanálise dizer-se humanista se desconsidera o individuo consciente a favor dessa coisa a que chama de Inconsciente e que nunca ninguém viu? A psicanálise diz-se ciência, mas não apresenta nenhum objeto concreto e real passível de ser estudado pelo método cientifico. Está mais próxima da astrologia do que da medicina.




Tenho uma curiosidade: qual a penetração da psicanálise em Portugal? Ela é disseminada por aí como é aqui no Brasil e na França?

Em Portugal, a psicanálise ainda é a corrente dominante. A corrente cognitivo-comportamental cada vez tem mais relevância, sobretudo pelas vantagens que apresenta em contexto hospitalar e institucional. Infelizmente, a corrente fenomenológico-existencial só agora está a aparecer, havendo menos de vinte terapeutas no pais todo. Espero poder vir a contribuir para a sua disseminação.




Percebo também uma crítica à psiquiatria e ao excesso de medicação. Como enxerga esta questão?

Considero que não há medicação nem a mais nem a menos. Ela deve ser aquela que o próprio deseja tomar, como e quando assim entender. Não encontro fundamento para que umas drogas sejam legais e outras ilegais, para além da manutenção de um monopólio financeiro por parte de alguns grupos económicos, todos eles associados à medicina, o que considero, no mínimo, imoral. 



Tal como em relação à psicanálise, nada tenho contra a psiquiatria em si mesma, como nada tenho contra a astrologia ou contra o nutricionismo. Defendo o direito de qualquer adulto poder aceder livremente a qualquer prestação de serviço, desde que o contrato entre si e o prestador de serviços seja realizado numa base de escolha livre e honesta entre ambas as partes. A minha atitude é sobretudo antifraude e anti-coerção. A psicanálise, ao dizer que é ciência, comete um fraude; ao “tratar” crianças, é coerciva. De igual forma, a psiquiatria, ao dizer que é medicina legítima com fundamento científico, comete um fraude: doenças mentais não são doenças reais, são doenças metafóricas; ao internar e medicamentar pessoas contra a sua vontade, é coerciva.

Agradeço muito sua disponibilidade por ceder esta entrevista. Um grande abraço.

Obrigado, Felipe. Foi divertido



Veja mais cartuns do Miguel aqui.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

GUEST POST: Sobre Psicologia, Ciência e Religião



Inaugurando a seção Guest Post, publico abaixo um texto do meu xará e parceiro de ótimas discussões no Twitter, o Felipe Hautequestt, que é Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Escrito inicialmente como um comentário ao meu post anterior, o texto foi ampliado para ser publicado aqui. Eu gostei tanto do que ele escreveu, inclusive quando ele discorda dos meus argumentos, que pedi sua autorização para publicá-lo. Desejo que este seja o primeiro Guest Post e que este blog deixe de ser apenas um monológo e torne-se um espaço de disseminação de múltiplas vozes sobre as grandes questões da Psicologia. Portanto, se alguém concordar ou discordar do que eu ou o Felipe escrevemos e/ou quiser acrescentar algum ponto de vista sobre esta ou outra questão, é só escrever um texto e me enviar por email. Segue o texto do Felipe Hautequestt: 

No meu entendimento, a questão da cientificidade da Psicologia pode ser perfeitamente colocada entre parênteses quando se trata de afastar a Psicologia do domínio da fé e da doutrina religiosas. Não é necessário ir tão longe, pouco importa aqui se a Psicologia sucedeu ou não como ciência. E, aliás, essa questão só pode ser adequadamente respondida se entrarmos em acordo quanto ao que é uma ciência e quais são seus caracteres distintivos, para começar. O que importa é que a Psicologia se pretende uma ciência empírica, tendo nascido de um projeto de cientificidade do qual não pode abdicar (por mais que o sentido de ‘cientificidade’ esteja em aberto e não precise ser necessariamente aquele dado pelos positivistas do século XIX). Dois critérios certos podem ser extraídos dessa pretensão fundadora sem cair em discussões árduas de filosofia da ciência: (1) ela deve necessariamente fazer algum tipo de recurso à experiência, submeter-se, portanto ao seu crivo; e (2) ela deve apresentar hipóteses e teorias argumentadas, raciocinadas. Ou seja, ela não pode ser nem uma ciência puramente especulativa (metafísica), nem um corpo doutrinal que exija uma adesão pela fé, pela aceitação integral duma verdade revelada (religião), sem razões que a sustentem. 





Esse é o ponto central, no meu entendimento. As religiões não lidam com problemas de fato (isto é, de como as coisas são) – por exemplo, como funciona o mundo subatômico –, mas sim com problemas de valor (como as coisas devem ser) – por exemplo, como devo conduzir minha vida. Por isso, os enunciados religiosos se fecham de saída, e por definição, a ambas os critérios: oferecem narrativas que não são passíveis de nenhum tipo de controle pela experiência (como quer que o caracterizemos) e, além disso, são calçadas na fé, e não na argumentação racional. É importante dizer que isso não constitui nenhum demérito para as religiões, apenas define sua especificidade em relação a outros tipos de discurso. E porque seus traços essenciais são estes, é por essência que a religião está automaticamente excluída de qualquer discurso que se pretenda científico – independentemente dele ser efetivamente científico ou não. 




Esse é o critério que embasa (e com toda razão, a meu ver) a Resolução 016/95 citada no texto: aquelas práticas faziam referência aberta a proposições de caráter nitidamente religioso, místico e/ou esotérico. Poderiam dizer alguns: "Ah, mas funcionam! Essas práticas reúnem muitos indícios de que são eficazes, isso não basta?!". Ora, mas a medida da Psicologia como ciência aplicada nunca pode se limitar ao resultado puro e simples – trata-se de saber por que e como as técnicas funcionam, e isso requer uma teoria, um conjunto coerente de proposições que dê algum sustento àquela prática. Era para isso que Canguilhem nos alertava, em seu famoso artigo ‘Que é a Psicologia?’, ao escrever: “Quando se diz que a eficácia do psicólogo é discutível, não se pretende dizer que ela seja ilusória, mas simplesmente assinalar que essa eficácia está sem dúvida mal fundamentada enquanto não se provar que ela resulta realmente da aplicação de uma ciência.” Na medida em que certas práticas vetadas pelo CFP comecem a apresentar um esforço de embasamento teórico, e os profissionais se organizem para vir em sua defesa e argumentar em seu favor, então cabe ao Conselho admiti-las no campo de atuações possíveis do psicólogo. Pois, a partir de agora, tais práticas estão aptas a terem seus alicerces e fundamentos criticados por outros psicólogos e, como se sabe, a crítica cumpre um papel central e decisivo no desenvolvimento científico. (Popper dizia que uma teoria imune a críticas deveria, por isso mesmo, ser descartada de antemão como digna de consideração pelos cientistas.) 


Isso tudo, é claro, não dá tanto uma determinação positiva à Psicologia, não diz tanto o que ela é, mas busca apenas demarcar seus limites negativos, estipulando aquilo que ela não é e não pode ser a partir de certas condições básicas a serem atendidas. Acho eu que é nesse sentido específico que se pode falar de uma identidade ou especificidade da profissão a ser defendida: no sentido de uma identidade às avessas, por contraste com o que ela definitivamente não pode ser. Sendo assim, a demarcação ideal dos campos precisa ser mantida e resguardada, por mais que enfrentemos algumas dificuldades na hora de decidir o que se deve incluir ou rejeitar (se programação neuro-linguística e acupuntura contam ou não contam, por exemplo), e por mais que a inclusão ou rejeição de certa prática possa ser futuramente revogada em vista de novos desdobramentos do campo psi. O importante é perceber que esse problema de demarcação não é só uma tentativa dos órgãos fiscalizadores de preservar a credibilidade do psicólogo contra os excessos de charlatães, místicos etc., mas antes e sobretudo uma tentativa de reconhecer os limites de cada tipo de discurso.

"Cada um no seu quadrado"