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sexta-feira, 14 de junho de 2019

Precisamos falar sobre... coaching

A "indústria do coaching" está mais forte do que nunca. De acordo com uma reportagem da revista Exame além de movimentar, só nos Estados Unidos, mais de 2,3 bilhões de dólares por ano, o coaching tem atraído um número crescente de profissionais. Estima-se que este mercado conte, atualmente, com cerca de 53 mil profissionais em todo o mundo, 4 mil apenas na América Latina. No Brasil não se sabe ao certo o número de "coaches" inseridos no mercado, haja vista a multiplicação descontrolada de cursos de formação, mas acredita-se que tem crescido substancialmente nos últimos anos - e ainda que a quantidade de coaches esteja muito distante, por exemplo, do número de psicólogos (342 mil) e médicos (450 mil) que atuam no país, a atividade tem obtido uma visibilidade crescente, o que contribui tanto  para o aumento da demanda pelos serviços de coaching quanto para a multiplicação de críticas e questionamentos. A novela da Rede Globo O outro lado do Paraíso, por exemplo, fez um merchandising descarado da atividade, bancado pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), e que acabou por tornar a prática ainda mais conhecida no país - mas também rendeu uma nota crítica do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e uma denúncia no Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar). Posteriormente o CFP publicou uma nota orientativa sobre a prática do coaching - afirmando, dentre outras coisas que, "qualquer profissional que não esteja inscrito no CRP, e que se utilizar de métodos e técnicas privativas do psicólogo durante sessões de coaching, ou que desenvolva, de alguma forma, atribuições restritas à Psicologia, estará incorrendo em exercício ilegal da profissão" - e um cidadão sergipano encaminhou à Câmara Federal uma ideia legislativa (absurda, na minha visão) que criminaliza a atividade de coaching - de acordo com ele, “se tornada lei, [a proposta] não permitirá o charlatanismo de muitos autointitulados formados até mesmo sem diploma válido. Não permitindo propagandas enganosas como 'reprogramação do DNA' e 'cura quântica', que desrespeitam o trabalho científico e metódico de terapeutas e outros profissionais das mais variadas áreas". Por outro lado, diversas instituições de coaching e os próprios coaches tem vindo a público defender a seriedade da prática e apontar para as diferenças entre o coaching e outras atividades de apoio e orientação. Ao que tudo indica, esta controvérsia está longe de chegar ao fim.

Mas afinal de contas, o que é esse tal "coaching"? Comecemos pela palavra, coach, que em inglês, significa originalmente carruagem - e que era usada também para se referir ao condutor da carruagem. Posteriormente a palavra foi usada para designar, no contexto universitário, o professor que exercia uma função de tutoria com seus estudantes. Mais a frente, a palavra passou a caracterizar a figura do treinador ou técnico esportivo. No entanto, em sua conotação atual, a expressão "coaching" superou em muito todas essas acepções, passando a designar qualquer atividade de orientação no qual uma pessoa (o "coach") ajuda outra (o "coachee") a obter determinado desempenho ou resultado, pessoal ou profissional. Como os "coaches" repetem à exaustão, o objetivo desse processo é "ajudar a pessoa a sair do ponto A e ir até o ponto B", tal como fazia o condutor de uma carruagem. Inicialmente, o coaching esteve fortemente ligado ao contexto empresarial/corporativo, no entanto, atualmente, a atividade se expandiu para muito além deste universo - o IBC, por exemplo, aponta para 16 tipos de coaching, dos quais destacarei apenas alguns: coaching corporativo, coaching familiar, coaching de relacionamento, coaching espiritual, coaching financeiro, coaching esportivo, coaching nutricional, coaching de liderança, etc. Em comum, todos esses tipos de coaching teriam como objetivo proporcionar aos clientes benefícios amplos como o "desenvolvimento pessoal e profissional", a "elevação da felicidade e realização", a "conquista do autoconhecimento e autodesenvolvimento", a "maximização da performance e dos resultados", o "aumento da produtividade" e muito mais. É possível observar nestes e em outros supostos benefícios da atividade um foco muito grande no "desempenho", na "produtividade", na "performance" e no "sucesso" do sujeito, linguagem que se relaciona fortemente ao contexto corporativo em que a prática teve origem.

Uma grande preocupação das instituições de coaching e dos próprios coaches está em diferenciar a prática de outras atividades de apoio e orientação, como a psicoterapia. Analisemos, por exemplo, a tabela ao lado extraída do livro Coaching executivo, escrito pela coach Rosa Krausz (para ampliar a tabela clique na imagem). Nela é possível observar a diferença apresentada pela autora, e repetida por muitos outros autores, entre a atividade de coaching e outras atividades como o aconselhamento, a mentoria, a consultoria, a terapia e o treinamento - eu focarei minha análise apenas na diferença apontada entre coaching e terapia. Pois bem, na visão da autora a terapia teria como "abrangência" as questões de saúde emocional dos clientes ou pacientes, como "tempo" o passado e como "resultado" o alívio ou a eliminação das causas do mal-estar e das dificuldades sentidas; já o coaching teria como "abrangência" as questões de desempenho, desafios e mudanças específicas dos coachees, como "tempo" o presente e o futuro e como "resultado" a criação de "opções construtivas, viáveis e informadas" que auxiliem o indivíduo a obter determinados resultados - o que significa dizer que o coaching não pretende tratar problemas de saúde mental mas levar o sujeito para além de onde ele se encontrava  anteriormente. Como qualquer psicoterapeuta pode atestar, essa visão da autora está absolutamente equivocada. A atividade de psicoterapia, de uma forma geral, não tem como foco simplesmente o passado, mas também o presente e o futuro imaginado ou desejado pelo paciente. É claro que compreender o passado do sujeito é fundamental, para qualquer abordagem psicoterapêutica, mas isto não significa que o passado seja o foco ou que o presente e o futuro não sejam e não devam ser levados em consideração. Outro equívoco está em dizer que o resultado esperado de uma psicoterapia é o alívio ou a eliminação das causas do mal-estar do paciente. E o motivo é que simplesmente não é possível aliviar ou eliminar as causas de determinado problema. Se uma pessoa foi abusada na infância, por exemplo, e se sente mal com isso no presente, como poderíamos eliminar essa causa? Isso não é possível, pois causas não podem ser eliminadas, apenas "trabalhadas" terapeuticamente. O máximo que podemos fazer é ajudar nosso paciente a encarar o seu passado de uma outra maneira, ressignificando determinados acontecimentos ou vivências, e a agir, no presente, de uma forma diferente. De uma forma bem geral - sem levar em contas as especificidades das inúmeras abordagens psicoterapêuticas - é possível dizer que a psicoterapia tem como objetivo ajudar o paciente a superar ou lidar melhor com seus problemas atuais. Uma importante diferença da proposta do coaching, nesse sentido, é que, em geral, os psicoterapeutas não trabalham com a lógica e a linguagem corporativa. Isto significa que dificilmente um terapeuta atuará tendo como foco e objetivo o "desempenho", a "produtividade", a "performance" e o "sucesso" de seu paciente ou cliente. Certamente, algumas abordagens terapêuticas - como a Terapia Cognitivo-Comportamental - atuam de maneira mais focada e com metas ou objetivos terapêuticos mais claros, no entanto, mesmo em tais abordagens a intenção é proporcionar maior bem-estar (ou menor mal-estar) ao paciente - e nunca, ou muito raramente, maior "produtividade" ou "sucesso". Esse foco e essa linguagem empresarial, em geral, não estão presentes na psicoterapia.

Uma outra diferença entre as duas práticas é que a psicoterapia, ao menos quando praticada por um psicólogo (e cabe salientar que não se trata de uma prática exclusiva deste profissional), está sujeita a fiscalização pelo Conselho Federal de Psicologia e os profissionais podem receber sanções por comportamento equivocado ou anti-ético. Já o coaching não é uma profissão regulamentada, como a psicologia e a medicina, e não possui, portanto, órgãos ou conselhos de fiscalização profissional, e isso certamente favorece atuações equivocadas e pouco embasadas. Isto para não falar dos cursos de formação de coaches, comumente de curta duração, que se multiplicam pelo país sem qualquer controle. Também devido à falta de regulamentação, não há qualquer fiscalização relativa à qualidade de tais cursos, o que igualmente favorece a inserção no mercado de profisionais pouco e mal capacitados e com atuações no mínimo questionáveis. É claro que a formação na área da psicologia, por exemplo, está longe, muito longe, de ser perfeita - eu cheguei a escrever um artigo científico inteiramente dedicado a essa questão - e a atuação profissional de inúmeros psicólogos também deixa muito a desejar, mas a existência de um conselho profissional dedicado a orientar, disciplinar e fiscalizar nossa prática profissional, além de um código de ética unificado, minimiza muito tais problemas - sem o CFP a psicologia estaria ao "deus-dará", como ocorre atualmente com o coaching. Uma saída para esta situação, contrária à absurda proposta de criminalização encaminhada pelo cidadão sergipano, passa pela regulamentação da profissão de coaching. Criminalizar a atividade só fará com que as pessoas que atuam como coaches se tornem, de uma hora para outra, criminosas - e encham ainda mais nossas já cheias e desumanas prisões. Não consigo ver vantagem alguma nisso. Muito mais sensato seria regulamentar o coaching, criando regras bem claras de atuação e também mecanismos de fiscalização da formação e da prática. Como no caso das drogas, penso que não faz sentido lutar para acabar com o coaching. Mesmo que existam incontáveis "abusos" a melhor coisa a fazer é permitir a atuação e regulá-la. Criminalizar - o coaching e o uso de drogas - só piora qualquer situação.

Na minha visão, um grande problema do coaching - mas não só do coaching - é a colcha-de-retalho téorico-prática que embasa a atuação dos profissionais. Como aponta o site do IBC, "Coaching é um processo de desenvolvimento humano, pautado em diversas ciências como: Psicologia, Sociologia, Neurociências, Programação Neurolinguística, e que usa de técnicas da Administração de Empresas, Gestão de Pessoas e do universo dos esportes para apoiar pessoas e empresas no alcance de metas, no desenvolvimento acelerado e, em sua evolução contínua". A ideia parece ser buscar em cada uma dessas abordagens, teorias ou práticas alguns conhecimentos e atividades que possam ser úteis, bater tudo isso no liquidificador e servir ao cliente. O coaching, nesse sentido, se parece muito com a chamada Programação Neurolinguística (PNL), que o IBC afirma "pautar" a atividade. Se você nunca ouviu falar dessa abordagem - ou já ouviu falar mas não entende bem do que se trata - eu explico. A PNL foi desenvolvida na década de 1970, nos Estados Unidos, pelo analista de sistemas Richard Bandler juntamente com  o linguista John Grinder como  uma abordagem  pragmática, composta por um conjunto de técnicas advindas  de  campos diversos,  voltada para a melhoria da comunicação e da aprendizagem e, logo, para o desenvolvimento pessoal. A expressão  Programação Neuroliguistica se refere a supostas ligações entre a experiência interna de  uma pessoa (neuro), a sua linguagem (linguística) e seus padrões de comportamento (programação) e não teria conexão direta com as neurociências e com a computação, embora estas  disciplinas interessassem aos  seus  desenvolvedores. A criação  da PNL  foi influenciada por inúmeras teorias ou abordagens, como a epistemologia  cibernética de Gregory Bateson, a gramática transformacional de Noam  Chomsky, a gestalt-terapia de Fritz Pearls, a abordagem centrada na pessoa de Carl Rogers,  a hipnoterapia Ericksoniana, a psicologia comportamental, dentre outras. No  entanto, apesar (ou  em  decorrência  do  fato) de ter sido influenciada por uma miríade de teorias, a PNL não se constituiu enquanto uma teoria coesa sobre o comportamento humano, mas sim como um conjunto de estratégias (denominado “modelagem”) voltadas para o desenvolvimento pessoal. Como afirmam seus  criadores, “nós não temos nenhuma ideia sobre a natureza‘real’ das coisas e nós não estamos particularmente interessados no que é ‘verdadeiro’. A função da modelagem é chegar a descrições que são úteis”. A PNL, assim, é guiada mais por um interesse pragmático do que por uma teoria geradora coesa, situação idêntica à do coaching, que se constitui como uma espécie de bagunça teórico-prática - ou "mix de recursos e técnicas", como preferem chamar os coaches. A lógica parece ser juntar tudo o que for ou parecer útil para ajudar os clientes a atingir seus objetivos. Se para isto for necessário simplificar ou distorcer determinados conhecimentos - juntando uma xícara de psicologia de botequim, com uma colher de neurobobagem e de blá-blá-blá quântico e uma pitada de "reprogramação de DNA" - tudo bem. O que importa é o resultado, não o embasamento ou a coerência.

Esta falta de embasamento e coerência fica absolutamente clara ao analisarmos a proposta do "neurocoaching", que seria uma espécie de sub-abordagem de coaching baseada na neurociência.  De acordo com os autores do artigo As contribuições da neurociência no processo de coaching, "com a evolução dos estudos a respeito da neurociência veio à tona algumas revelações a respeito do funcionamento do cérebro e os processos que definem os diferentes comportamentos humanos, abrindo assim novos caminhos para o coaching, que quando em conjunto com a neurociência passa a ser chamado de neurocoaching". Segundo os autores, aproximar as técnicas do coaching dos conhecimentos advindos da neurociência tornaria o processo do coaching ainda mais eficaz - de que forma? Em nenhum momento do texto ou de todos os textos que li sobre o tema isso fica claro, assim como não fica claro de que forma os conhecimentos (quais conhecimentos?) da neurociência poderiam ser úteis de alguma forma na prática do coaching. O máximo que encontrei foram afirmações vagas e imprecisas sobre o funcionamento cerebral. Veja por exemplo essa passagem do referido artigo: "a neurociência é capaz de identificar quais os bloqueios e quais dificuldades atrapalham o desenvolvimento de cada indivíduo e, quando trabalhado junto com o coaching pode tornar o processo ainda mais eficiente. Através do neurocoaching adquire-se um novo olhar sobre as dificuldades, onde o foco deixa de ser o problema e sim a solução". Adoraria saber de que forma "a neurociência" seria capaz de identificar os bloqueios e dificuldades do indivíduo. Não há nas referências do artigo uma menção sequer a qualquer artigo ou livro de neurociência que embase qualquer uma destas afirmações vagas sobre o funcionamento cerebral. Mas esta omissão tem um sentido claro. As neurociências e os conhecimentos que elas fornecem não importam; o que importa é que as neurociências aumentam a legitimidade do coaching. Em uma passagem reveladora e extremamente sincera deste artigo os autores apontam: "o fato de incorporar uma ciência ao coaching trouxe mais credibilidade, aumentando assim a aceitação das pessoas com relação a eficácia do processo". Pois é disto que se trata: de usar das ciências - isto é, de um conhecimento extremamente limitado e distorcido das ciências - para aumentar a aceitação das pessoas da prática do coaching. Não digo que esta seja a regra no universo do coaching, mas me parece, pelo que pude observar em inúmeros sites e videos de coaches, que se trata de uma prática bastante comum. Ao se misturar indiscriminadamente discursos, teorias e práticas provenientes das mais diversas áreas do conhecimento (administração, psicologia, neurociências, física quântica, PNL, etc) o resultado pode até ser útil e relevante para algumas pessoas, mas não deixa de ser confuso.

Por fim, gostaria de tratar do aspecto mais problemático do discurso (e da prática) dos coaches, que é a forte conexão entre as ideologias da meritocracia e do pensamento positivo. Com relação à lógica meritocrática, que estabelece que o  "sucesso" do indivíduo depende exclusivamente seu próprio esforço e força de vontade, trata-se de uma ideologia extremamente danosa na medida em que desconsidera inúmeros outros fatores (econômicos, sociais, etc) que afetam o desempenho e  possibilidade de ascensão social do sujeito. Junte a essa lógica a ideia de que "basta pensar positivamente para conseguir o que se quer" e temos um discurso que, em última instância, culpabiliza apenas os indivíduos pelo próprio "fracasso": se eles não "chegaram lá" - e estão desempregados, por exemplo - isto ocorreu exclusivamente porque não se esforçaram o suficiente e/ou se deixaram levar por pensamentos negativos. Sem dúvida alguma, este pensamento individualista também está presente na teoria e na prática psicológicas, especialmente na área clínica, mas na área do coaching, assim como em toda literatura de auto-ajuda, tais ideologias são hegemônicas. Basta acessar os sites das principais instituições, associações ou sociedades de coaching para encontrar artigos embebidos de tais ideologias como Ser lider é meritocracia, Como implantar o conceito de meritocracia nas empresas?, Pensamentos positivos e sucesso, Como a força do pensamento positivo pode ajudar sua carreira?, etc. Em todos estes materiais, e em muitos outros, é possível observar um discurso que isola o indivíduo da sociedade, tratando-o como uma ilha, e o responsabiliza totalmente pelo próprio "sucesso" ou "fracasso". Mas - você pode estar se perguntando - qual a alternativa a este discurso? A saída seria, então, abandonar a crença no esforço pessoal e apenas desistir de atingir determinados objetivos pessoais e profissionais? É claro que não! Cada indivíduo pode estabelecer os objetivos que quiser para a própria vida e correr atrás para atingi-los - e pode até mesmo procurar um coach ou um psicólogo para ajudá-lo nesse processo. O que não podemos fazer, enquanto sociedade, é deixar os indivíduos por sua própria conta, culpabilizando e abandonando aqueles que não "chegaram lá" - e também aqueles que partem de condições desvantajosas de existência. Enquanto sociedade, precisamos compreender que existem inúmeros fatores econômicos e sociais que interferem fortemente no acesso, na permanência e na ascensão dos indivíduos no mercado de trabalho (e também na educação formal) e, ao mesmo tempo, criar e manter mecanismos e políticas que auxiliem as partes mais vulneráveis da população. Mas e quanto ao pensamento positivo? A alternativa seria adotar a "ideologia do pensamento negativo" e passar a crer que tudo vai dar errado? Também é claro que não! Sem dúvida alguma uma certa dose de otimismo é importante, mas na maioria das situações um pensamento mais realista, que leve em conta riscos, limites e problemas reais, é fundamental para enfrentarmos os desafios concretos da existência humana. Ignorar os aspectos negativos da vida e do mundo, além de ser uma forma de ilusão, em nada contribui para o bem-estar das pessoas. O que se faz cada vez mais necessário, numa sociedade individualista como a que vivemos, é justamente que as pessoas olhem um pouco menos para dentro de si e mais para fora, para o outro, para os problemas do mundo. Manter o foco em si mesmo - no próprio desempenho, na própria performance, no próprio sucesso - impele as pessoas a se distanciarem umas das outras e a competirem entre si, o que só contribui para o aumento do mal-estar individual e coletivo. O que se faz cada vez mais necessário é que as pessoas se aproximem e atuem de forma colaborativa na busca por soluções para os principais problemas que afetam os indivíduos, a sociedade e o mundo. 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Precisamos falar sobre... ansiedade

Tenho que confessar: sou uma pessoa bastante ansiosa. Sim, eu sou psicólogo e, supostamente, eu não deveria sentir ansiedade ou tristeza ou raiva ou medo. Eu deveria ter apenas belos sentimentos como a alegria, o amor e a gratidão. Eu deveria ser uma pessoa totalmente zen e bem-resolvida. Afinal, como eu posso pretender ajudar as pessoas se eu próprio sinto muito do que os meus pacientes sentem? Como eu poderia auxiliar pessoas ansiosas se eu próprio sou ansioso? Quando comecei a atender, há cerca de 10 anos, eu ficava, como todo bom ansioso, muito preocupado com isso, mas aos poucos fui entendendo que esta era uma preocupação inútil e despropositada - como grande parte das preocupações que temos. Eu podia negar ou tentar construir uma ilusão a meu respeito e a respeito dos psicólogos em geral, mas o fato, um tanto óbvio - e o mais difícil, por vezes, é perceber o óbvio - é que eu sou um ser humano como qualquer outro e estou sujeito aos mesmos sentimentos e problemas que todo mundo. E eu posso ajudar outras pessoas não porque eu sou perfeito ou bem-resolvido, o que não é nem poderia ser verdade, mas porque eu possuo formação, experiência e legitimidade profissional, conhecimento técnico, disposição para me aproximar da realidade do paciente/cliente e vontade de contribuir com seu aperfeiçoamento enquanto ser humano. Além disso, sempre fiz e continuo fazendo terapia, de forma a estar consciente e atento às minhas falhas e limitações enquanto pessoa e enquanto terapeuta. E mais: na relação terapêutica eu observo e analiso os problemas e dilemas das pessoas com uma certa distância, pois não estou diretamente envolvido em suas questões. E isso me possibilita uma  atuação ao mesmo tempo próxima (pois se trata de uma relação com um certo grau de intimidade) e distante (pois se trata de uma relação profissional) - e por óbvio eu não consigo manter a mesma distância das minhas próprias questões. Enfim, aos poucos fui entendendo que por mais que eu quisesse, eu não teria como escapar dos meus próprios sentimentos. Feliz ou infelizmente, eu estou tão sujeito à ansiedade, ao medo e a tristeza quanto qualquer um - assim como um bombeiro está sujeito a ter um incêndio em sua casa ou um médico está sujeito a ficar doente. A grande conclusão é que, no fim das contas, somos todos humanos. E o ser humano, por sua própria natureza, é problemático e vulnerável. E também ansioso.

Existem cachorros ansiosos?
E eu diria mais: o ser humano é o único animal ansioso. Ou você já viu algum outro animal demonstrando ansiedade? Aposto que algumas pessoas diriam que sim: "Ah, mas meu cachorro é super-ansioso. Ele não para um segundo e vive roendo e destruindo os móveis lá de casa". Ok, ele de fato me parece agitado e um tanto estressado, mas será que realmente ele está ansioso? Não creio. No meu entendimento, a ansiedade diz respeito à uma relação do sujeito com o futuro. É o futuro, ou melhor, a imaginação deste futuro, que pré-ocupa o ansioso, fazendo com que ele tenha, no presente, uma série de reações corporais e comportamentais extremamente incômodas. E, pelo que se saiba, somente os seres humanos concebem e planejam o futuro com a complexidade que o fazemos. Todos (ou quase todos) os outros animais, e também as crianças pequenas, vivem essencialmente o presente e não tem a capacidade de projetar ou imaginar o que virá, para além de um futuro próximo. Certamente todos estes seres sentem medo e ficam estressados, mas não ansiosos. A diferença é que o medo e o estresse são reações ao que está acontecendo com o sujeito neste exato momento (por exemplo, ao visualizar uma cobra ou realizar uma prova), ao passo que a ansiedade é uma espécie de medo daquilo que ainda não aconteceu ou do que se imagina que irá acontecer. Como sempre digo aos meus pacientes, a ansiedade é a "síndrome do E se?". E se eu começar a namorar e a pessoa me trair? E se eu casar e me arrepender? E se eu viajar e o avião cair? E se eu engravidar e o filho morrer? E se ele sobreviver e eu não der conta de educá-lo? E se eu for demitido? E se eu não for demitido e continuar frustrado com meu trabalho? E se eu desenvolver um câncer? E se eu envelhecer e for abandonado por todos? Quem é ansioso certamente vive com vários "e se's" martelando na cabeça grande parte do tempo - mas não todos os "e se's", já que a pessoa ansiosa se foca essencialmente nas possibilidades negativas, ignorando solenemente as possibilidades positivas (de por exemplo, o avião não cair, do filho não morrer ou da demissão não ocorrer). Na cabeça do ansioso o futuro será sempre trágico e triste e nada pode ser feito para evitar.

É possível prever o futuro?
O ansioso, em geral, não suporta a ideia de não ter o controle sobre o rumo dos acontecimentos. Se tem uma coisa que o tira do sério é a incerteza. Não saber o que vai acontecer ou se determinada coisa vai acontecer exatamente da forma como ele gostaria que acontecesse, tira o ansioso do eixo. Tudo o que ele quer é ter a certeza de que tomou a decisão correta, de que as coisas vão dar certo e de que, enfim, sua história terá um final feliz. O grande problema é que a vida é repleta de incertezas e fazer uma escolha, quase sempre, é mergulhar no desconhecido. Podemos pensar e ponderar com cuidado sobre todas as opções, mas nunca saberemos de fato quais serão as consequências das nossas decisões. Embora sejamos os únicos animais com capacidade para imaginar o futuro, não somos muito bons em prever o que de fato irá acontecer. Só o que nós fazemos (na verdade, só o que podemos fazer) é imaginar - e o pensamento ansioso se constitui como mais uma maneira de imaginar o que irá ocorrer. Mas a questão é que não temos como saber. Façamos um exercício: tente imaginar como estará o mundo e a sua vida daqui a 20 anos? Agora suponhamos que exista uma máquina do tempo que pudesse te levar imediatamente ao ano de 2037. Será que você encontraria as coisas exatamente como as imaginou? Difícil saber, pois se trata de um exercício de imaginação, mas eu arrisco uma resposta: duvido muito! E como eu posso fazer tal afirmação? É simples: basta observarmos as previsões que foram feitas no passado sobre o mundo atual. Embora elas tenham acertado em alguns pontos, erraram terrivelmente em muitos outros. Deem só uma olhada nas imagens abaixo, que foram feitas no final do século XIX pelos ilustradores franceses Jean-Marc Côté e Villemard (utilizei a última delas na conclusão do meu livro O cérebro vai à escola). Eles tentaram imaginar, em 1899, como seria o mundo no ano 2000. Analise as imagens atentamente e tente observar o que eles acertaram e o que erraram.






E então: nós temos atualmente barbearias mecanizadas? Passeios conduzidos por baleias no fundo do mar? Máquinas para fazer a limpeza doméstica? Bombeiros voadores? Equipamentos que transferem o conhecimento dos livros diretamente para o cérebro dos estudantes? A resposta para quase todas estas perguntas é um sonoro "Não!". A única previsão relativamente acertada dos ilustradores foi a existência de máquinas autônomas para limpeza doméstica, que já são vendidas, mas ainda estão longe de serem baratas, populares e realmente úteis. Enfim, esses ilustradores podem até ter acertado algumas de suas previsões ou parte delas, mas no geral eles erraram vertiginosamente, assim como nós muito provavelmente erraremos ao imaginar o nosso futuro e também como possivelmente nós erramos na previsão que fizemos da nossa vida no passado. Tente se lembrar de como você imaginava, quando criança, que seria a sua vida quando você tivesse a sua idade atual? Você acertou sua previsão? Como os ilustradores, você pode até ter acertado em alguns aspectos, mas muitos outros você deixou passar ou simplesmente não conseguiu imaginar. E o motivo para isso é simples e um tanto óbvio: os rumos da vida e do mundo são imprevisíveis. Podemos até especular, imaginar, conjecturar, mas não temos como saber com precisão o que irá acontecer.

“O medo nos mantêm vivos", diz o pai Crood.
Bom, agora que já compreendemos minimamente algumas características da ansiedade, eu gostaria de trazer uma outra questão: por que, afinal de contas, somos ansiosos? Se a ansiedade é tão ruim para quem a sente, porque o processo de seleção natural não simplesmente eliminou a ansiedade da nossa mente? O desenho animado Os Croods pode nos ajudar a explicar esse aparente paradoxo. Neste filme, acompanhamos uma família pré-histórica liderada por um pai que morre de medo do mundo exterior. Eles moram todos juntos numa caverna e são constantemente advertidos por esse pai dos perigos do lado de fora. “O medo nos mantêm vivos. Nunca deixe de ter medo”, diz o pai como uma espécie de mantra. Pois bem, será que esse pai tem razão em defender a necessidade do medo? Na minha visão, esta recomendação faz todo sentido, tanto no mundo ficcional em que eles vivem quanto, em certa medida, no mundo real. Afinal de contas, o mundo deles, assim como o nosso, está repleto de perigos e riscos. Simplesmente ignorá-los não me parece uma boa estratégia de sobrevivência. Pense, por exemplo, em programas como o Largados e pelados do Discovery Channel: se os participantes forem tranquilos demais, provavelmente se darão mal. Um pouco (e até um tanto) de ansiedade num contexto de luta por sobrevivência não faz mal a ninguém; pelo contrário, pode favorecer a vida. Mas o mesmo vale, em alguma medida, para o contexto da vida de cada um de nós. Pré-ocupar-se com algumas coisas pode favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis. Por exemplo, se você fica ansioso com uma viagem de carro, isto pode fazer com que você dirija com mais cuidado; se você se preocupa com a possibilidade de ter um infarto na meia-idade isso pode fazer com que você se engaje em atividades físicas; se você vê um cachorro na rua e sente medo dele, isto provavelmente fará com que você se afaste e evite uma mordida. Em todos estes casos, a ansiedade ou o medo podem favorecer a adoção de comportamentos seguros e saudáveis que estão sob nosso controle, mas o grande problema começa quando a ansiedade e o medo ultrapassam todos os limites e ao invés de ajudar começam a atrapalhar. 

Pois bem, uma dificuldade comum na área da saúde mental é definir quando determinado sentimento ou comportamento deixa de ser "normal" e se torna "patológico". Já discuti esta questão infinitas vezes neste blog - e até já escrevi uma monografia sobre isso - e o resumo da história é o seguinte: 1) existem muitos pontos de vista e nenhum consenso sobre o que é "normal" na área de saúde mental - aliás, não há consenso nem sobre o que é "saúde" nem sobre o que é "mental";  2) o que é entendido como "normal" varia de lugar pra lugar, de cultura para cultura, de pessoa para pessoa e também ao longo do tempo; 3) as classificações e definições presentes nos "manuais de doença" (CID e DSM) são modificadas de tempos em tempos e representam apenas maneiras peculiares, dentre muitas outras, de se compreender os "transtornos mentais". No caso específico da ansiedade, diferenciar a "ansiedade normal" da "ansiedade patológica" não é uma tarefa nada simples. Pessoalmente - na verdade, profissionalmente - eu tento me distanciar o quanto posso da linguagem e da lógica psiquiátricas. Quando um sujeito me procura, simplesmente não me interessa qual o seu diagnóstico - se é "transtorno de ansiedade generalizada", "transtorno do pânico" ou "transtorno obsessivo-compulsivo". O que eu quero de fato saber é como ele se sente, o que ele pensa e porque ele se comporta de tal ou qual maneira. O que é normal, nesse sentido, só pode ser definido pelo próprio sujeito e não por classificações ou critérios externos a ele. Só o sujeito pode dizer se a ansiedade que ele sente é ou não é normal. Assim, se ele me disser que sua ansiedade está exagerada eu simplesmente acreditarei em suas palavras e tentarei ajuda-lo a compreender seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e a buscar estratégias que permitam o controle da sua ansiedade.

Pois, de fato, só o controle é possível, não a cura. Aliás, vi outro dia em uma livraria da minha cidade uma obra chamada "O fim da ansiedade" e sempre me deparo na internet com cursos ou sites que prometem "acabar com a ansiedade" das pessoas. Sinto dizer que nada disto é possível. A dolorosa verdade é que a ansiedade é parte constituinte de nós, seres humanos, assim como a tristeza, o medo e a raiva - e também a alegria e o amor. Certamente nós podemos aprender a controlar algumas de suas manifestações e efeitos e até buscar tratamento psicológico e psiquiátrico quando ela extrapola nossos próprios limites e começa a trazer muitos prejuízos, mas acabar com ela simplesmente não é possível. E o motivo é simples: só acabaríamos com a ansiedade se conseguíssemos deixar de pensar no futuro e/ou se conseguíssemos pensar somente nas possibilidades positivas. Se você conseguisse eliminar de forma permanente os pensamentos negativos sobre o futuro de sua mente, substituíndo-os por pensamentos positivos, aí sim você chegaria ao "fim da ansiedade". Porém, ao contrário do que pregam os "gurus do pensamento positivo", isto não é possível e muito menos desejável. Afinal de contas, a vida não é, nem será no futuro, simplesmente positiva. A vida é quase sempre contraditória e ambígua: boa e ruim ao mesmo tempo - boa em alguns aspectos, ruim em outros, boa em alguns momentos, ruim em outros - a depender, claro, da forma, como avaliamos estes aspectos e estes momentos. Imaginar que tudo dará sempre certo, que não haverá sofrimento e que o final será necessariamente feliz, não passa de uma forma de ilusão - assim como o pensamento contrário de que tudo dará sempre errado, de que só haverá sofrimento e de que o final será necessariamente infeliz. Um pensamento muito mais maduro e realista e que pode ajudar a diminuir a ansiedade, é admitir para si mesmo: "Eu não sei como será o futuro, pois tenho apenas o controle parcial do rumo dos acontecimentos. Pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu temo, pode ser que as coisas aconteçam da forma como eu gostaria, pode ser que as coisas não aconteçam da forma como eu gostaria mas pode ser que eu me adapte. Ou pode ser que as coisas aconteçam de uma forma totalmente diferente do que eu tenho capacidade de imaginar atualmente. Eu não tenho como prever o que irá acontecer".

Aceitar a falta de controle, mais do que tentar imaginariamente controlar o incontrolável, pode ser um importante passo para diminuir o nível de ansiedade. É claro que isto não é algo simples de se obter e muito menos de se manter, mas certamente uma terapia pode ajudar muito nesse processo de aceitação. Existem também outras atitudes que podem (repito: podem) ajudar no controle da ansiedade. Tudo aquilo que eu recomendei no post sobre concentração, vale igualmente para a ansiedade: ioga, meditação, tai chi chuan, atividades físicas em geral, etc. E o motivo é simples: estar concentrado em algo significa estar focado no presente - e não no passado ou no futuro. E tudo o que te traz ao presente ajuda a melhorar a concentração e também a diminuir a ansiedade. Se você está focado no aqui-e-agora, o futuro, neste exato instante, não existe, e, logo, não há ansiedade. É claro que é impossível permanecer focado no presente todo o tempo. Muitas vezes pensaremos no que passou - e ficaremos tristes ou alegres a depender se o pensamento foi relativo a um momento bom ou ruim do passado. Muitas outras vezes pensaremos no que virá - e ficaremos alegres ou ansiosos ou a depender se o pensamento é relativo a uma expectativa boa ou ruim do futuro. Esta oscilação passado-presente-futuro faz parte da vida, não há o que fazer, assim como não há como evitar que a ansiedade lhe visite de vez em quando. Alguns remédios de fato podem ajudar a acalmar um pouco aquelas pessoas que se encontram em níveis elevados de ansiedade e que provavelmente já possuem consequências físicas relacionadas ao problema (enxaqueca, bruxismo, problemas de estômago ou intestino, alterações no sono, etc), mas nenhuma medicação tem a capacidade de eliminar permanentemente a ansiedade. De fato, alguns remédios e atividades como meditação e o ioga, auxiliam a acalmar o corpo e, por conseguinte, a mente - já que mente e corpo estão intrinsecamente conectados - mas nenhum remédio ou atividade de relaxamento tem a capacidade de desligar por completo os nossos pensamentos - e se pensamos, podemos pensar no futuro e ficar ansiosos. Só o que podemos fazer é tentar relaxar o corpo e a mente, buscar nos conectar sempre que possível com o aqui-e-agora e nos esforçar para aceitar que a maioria das coisas fogem ao nosso controle. Pessoalmente, tenho que confessar que ainda não atingi este nível de aceitação, mas espero um dia poder dizer com convicção e sinceridade as belas palavras de Paulo Leminski: "Não discuto com o destino. O que pintar eu assino". 

Sugestão de leitura: O livro definitivo da ansiedade

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... concentração

Como você avalia sua capacidade de concentração? Você considera que tem conseguido se focar nas suas atividades? E sua memória, como anda? Quando faço perguntas como essas nas palestras que dou sobre concentração e memória, a resposta da plateia, quase sempre, é negativa. Grande parte das pessoas - ou, pelo menos, das pessoas que participam de uma palestra com essa temática - entende que sua concentração e sua memória estão muito aquém do que gostariam. Especificamente no caso da concentração, o descontentamento geral é tão grande que não consigo ver como uma simples coincidência a proliferação de diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Isto ocorre, em grande medida, porque vivemos em um mundo que favorece imensamente a desatenção e a hiperatividade. Como já argumentei inúmeras vezes neste blog, este aumento nos diagnósticos de TDAH não é simplesmente o resultado de mudanças ou diferenças no funcionamento cerebral das pessoas, mas também, e especialmente, de mudanças no funcionamento do mundo - isto para não falar do papel da banalização dos diagnósticos psiquiátricos na atualidade. Pois de fato, nunca tivemos acesso a tanta informação e com tanta velocidade; e isso, certamente, tem um impacto gigantesco na nossa capacidade de prestar atenção. Alguns analistas chegam a denominar a atual geração, ironicamente, de Homo Distractus, devido à enorme capacidade que temos de nos distrairmos e nos desfocarmos. Aliás, eu tenho certeza que você sente esta mudança em si próprio. Quem tem mais de 30 anos como eu e não vivenciou, desde criança, a vida digital plena que possuímos hoje - eu sou da época do VHS e do K7, abreviaturas absolutamente sem sentido para uma geração que tem Netflix e Spotify - provavelmente percebe que sua capacidade de se focar em algo por um tempo significativo foi declinando ao longo do tempo. Ler textos longos, como estes que escrevo, se tornou um desafio colossal. Como um sujeito comentou outro dia na página deste blog no Facebook: "Que absurdo. Um texto gigante que eu ficaria um dia inteiro pra ler. Custa resumir?". Para este sujeito, ler um texto grande - e poxa, nem era tão grande assim - é algo que demanda uma capacidade de atenção, mais até do que disponibilidade de tempo, que ele não possui. Aliás, poucos de nós possuímos atualmente.

Mas o que, afinal, é a concentração? E acho importante destacar que eu tratarei aqui atenção e concentração como sinônimos, apesar de alguns autores entenderem como processos diferentes - na verdade, uma diferenciação possível seria compreender a concentração como sinônimo de atenção focada, isto é, como um tipo de atenção, mas eu prefiro entender as duas expressões como referentes ao mesmo processo. Pois bem, iniciemos com duas definições clássicas. A primeira vem do psicólogo Robert Sternberg, autor de um clássico manual de Psicologia Cognitiva, segundo o qual atenção "é o fenômeno pelo qual processamos ativamente uma quantidade limitada de informações disponíveis através dos nossos sentidos, de nossas memórias armazenadas e de outros processos cognitivos". Já a segunda definição vem do psicólogo William James, para quem a atenção "é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis... Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras". Podem parecer definições complicadas, mas de uma forma resumida - como disse o querido leitor, "custa resumir?" - é possível dizer que a atenção é o processo por meio do qual filtramos a realidade. Como não temos a capacidade de perceber, ao mesmo tempo, tudo o que se passa ao nosso redor, temos necessariamente de focar em uma coisa e depois em outra, uma de cada vez - de outra forma, ficaríamos sobrecarregados de informação. A atenção funciona, assim, como o zoom de uma câmera ou como um projetor de luz, permitindo que enxerguemos o mundo por partes, de forma mais ou menos focada. Quando, por exemplo, olhamos de longe para uma floresta, podemos nos focar tanto na floresta como um todo quanto em apenas uma árvore ou em um passarinho que está pousado nesta árvore. Por uma limitação cognitiva não conseguimos enxergar o geral e o específico ao mesmo tempo.

Tente, por exemplo, achar o Wally nesta imagem (e caso você não o conheça, este é o Wally):


Conseguiu? Espero que sim... caso contrário, insista mais um pouco, pois em algum momento você o encontrará! A grande questão é que para achar o Wally você necessariamente tem percorrer os detalhes da imagem com seus olhos, como um projetor de luz que ilumina uma coisa por vez. Talvez você tenha dado sorte e encontrado imediatamente o Wally, mas em geral é necessário alguns minutos para explorar toda ou uma grande parte da imagem - repleta de personagens vestidos de forma parecida com o Wally - até encontrá-lo. Pois bem, esta brincadeira, que foi extremamente popular na minha infância, é uma espécie de teste de atenção - não um teste para avaliar se a atenção da pessoa é boa ou ruim mas um teste que demonstra como funciona e quais são os limites do nosso processo atencional. Mas quais são estes limites? Em primeiro lugar, como já apontei anteriormente, não temos como prestar atenção no geral e no específico ao mesmo tempo. Se você se focasse na imagem como um todo, você jamais encontraria o Wally; para encontrá-lo você precisou se concentrar nas especificidades da imagem. Em segundo lugar, existe um processo, denominado cegueira inatencional, que impede que prestemos atenção em tudo ao mesmo tempo. Se eu te perguntasse, por exemplo, se você viu na imagem uma mulher levando um tombo, provavelmente você dirá que não, pois você estava focado em encontrar o Wally. Pois a cegueira inatencional diz respeito exatamente a isso. Como apontam os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons (que mencionei no post anterior), “quando a pessoa focaliza a atenção especificamente em uma área ou aspecto do mundo visual, tende a não reparar em objetos inesperados, mesmo que se destaquem, que sejam potencialmente importantes e apareçam exatamente no local onde está olhando”. Enfim, somos cegos, literalmente cegos, com relação a tudo aquilo que não estamos prestando atenção em determinado momento. Não acredita nisso? Então assista ao video abaixo e tente seguir suas instruções...
 

Esta é uma versão modificada de um experimento clássico idealizado pelos psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons, autores do livro O gorila invisível e outros equívocos da intuição. Como o título do livro dá a entender, no experimento original, que pode ser visto aqui, havia um gorila (ou melhor, um homem vestido de gorila) e não um urso, como neste video publicitário. Mas antes de discutirmos as implicações deste experimento, peço que assista ao próximo video, tentando igualmente seguir todas as instruções.


Então... se você realmente seguiu as instruções dos experimentos (e, obviamente, se você não conhecia estes videos), muito provavelmente você não percebeu nem o urso dançando moonwalk, nem o desaparecimento da cesta de basquete e nem a mudança na cor do banheiro químico - e com relação a este último video, eu aposto que você ficou esperando alguma pessoa vestida de bicho passando ao fundo! Por outro lado, se você percebeu estes elementos ou mudanças, provavelmente você errou as contagens. Agora, se você acertou as contagens e ainda percebeu o urso, a cesta e o banheiro muito provavelmente você já conhecia os videos - ou você é jedi! A grande maioria das pessoas, quando segue corretamente as instruções, não percebe tais elementos ou mudanças - eu já apliquei estes experimentos em diversas palestras e a grande maioria das pessoas nunca vê nada de diferente. E por que isso acontece? A explicação, como você já imagina, passa pela cegueira inatencional. Quando estamos focados em uma coisa deixamos de ver outras... e não há nada que possamos fazer a respeito. Como apontam Chabris e Simons, “a estrutura do corpo humano não nos permite voar, assim como a estrutura da mente não nos permite perceber conscientemente tudo ao nosso redor”.

Pois bem, a cegueira inatencional ajuda a explicar também dois fenômenos interessantes: o efeito Stroop e a chamada cegueira para mudança. Começemos pelo efeito Stroop.



Agora passemos para a cegueira para mudança. Veja os dois videos abaixo. 

 


Analisemos primeiramente o efeito Stroop (nome dado em homenagem ao pesquisador John Ridley Stroop, que descobriu este efeito). Pois bem, o efeito Stroop diz respeito à dificuldade que temos em dizer a cor de uma palavra que se refere a uma outra cor. A primeira parte do experimento é muito simples, pois não há contraste entre cor e palavra, mas a segunda parte é bem mais complicada, pois existem dois estímulos chamando nossa atenção ao mesmo tempo (cor e palavra). Esta dificuldade inicial se deve ao fato de não possuirmos a capacidade de focar nossa atenção em dois ou mais estímulos complexos ao mesmo tempo. Mas à medida que o exercício prossegue acabamos por aprender que precisamos ignorar o que está escrito e nos focarmos somente na cor. Quando conseguimos fazer isso, reduzindo o número de estímulos para somente um, passamos a realizar o exercício sem maiores dificuldades. 

Agora passemos para o fenômeno da cegueira para mudança. Mas antes, peço que tentem encontrar em cada imagem abaixo um elemento que muda quando ela pisca.




Conseguiu encontrar? Bom, tenho que confessar que eu demorei um bocado para perceber as mudanças, que agora me parecem tão evidentes. E por que temos, em geral, esta dificuldade? A resposta passa pelo curioso fenômeno da cegueira para mudança, que como o próprio nome dá a entender, diz respeito à dificuldade que temos em perceber mudanças no mundo. Os videos acima deixam isto bastante claro. No primeiro deles, a vítima da "pegadinha" (o senhor de barba), não consegue perceber que o homem para quem ele está dando uma informação não é mais a mesma pessoa - o mesmo ocorrendo com cerca de 50% dos participantes da pesquisa. Já no segundo video, as pessoas simplesmente não conseguem perceber não só que a atendente atrás do balcão não é mais a mesma pessoa mas também que a roupa e o cabelo são completamente diferentes. Mas porque diabos isso acontece? A resposta é que as "vítimas" de tais estudos (e cabe apontar que muitas pesquisas da área de psicologia se parecem muito com "pegadinhas") não conseguem perceber as mudanças porque não estão prestando a devida atenção na fisionomia das pessoas que estão lhe ajudando naquele momento. No primeiro caso, o senhor está focado em explicar para o sujeito onde se localiza determinado prédio no campus universitário. Já no segundo caso, as pessoas estão focadas provavelmente nos próprios pensamentos ou no objetivo que as conduziu até aquela loja. Difícil saber exatamente, mas o fato é que aquelas que caíram na "pegadinha" não estavam prestando atenção na fisionomia das atendentes - assim, como, em geral, não prestamos atenção na fisionomia dos motoristas de ônibus ou das pessoas que distribuem folhetos na rua. Isto ocorre também porque em 99,99% das vezes as pessoas não se transformam em outras repentinamente, o que significa que a nossa mente não está, de forma alguma, preparada para mudanças abruptas e sem sentido como essas. Mas a cegueira para mudança ajuda a explicar também porque os "jogos dos 7 erros" são, algumas vezes, tão desafiadores e ainda porque não conseguimos detectar facilmente erros de continuidade nos filmes (e os filmes são repletos desses erros!). Isto ocorre porque não conseguimos focar em todos os elementos de uma imagem ou de um video ao mesmo tempo. Se focamos em um aspecto da realidade, acabamos por desfocar de outros.

Tudo isto me traz à seguinte questão: se a atenção tem tantos limites, isto significa, então, que não é possível fazer várias coisas ao mesmo tempo? A resposta para esta questão é complexa, mas pode ser resumida com uma simples palavra: depende. Mas depende do que? Depende do nível de complexidade, de automatismo e de dispêndio de "energia mental" das tarefas que você se propõe a fazer simultaneamente. É possível, por exemplo, cozinhar e falar ao telefone? Sim e não. Na verdade tudo depende da sua habilidade na cozinha e da profundidade da conversa ao telefone. Se você cozinha já há muito tempo, provavelmente você desenvolveu uma série de automatismos que fazem com que cozinhar demande menos "energia mental" para você do que para alguém que está iniciando na arte da cozinha - o mesmo vale para todas as demais habilidades, como dirigir, estudar e manipular o smartphone. No início é difícil mas, com o tempo, fica mais fácil. Isto significa que se você é um expert no fogão muito provavelmente cozinhar e falar ao telefone, especialmente por viva-voz, não lhe prejudicará muito. Agora, se você não está habituado a cozinhar ou se você está preparando um prato novo, pode ser que falar ao telefone lhe prejudique. Mas tudo depende também da complexidade desta conversa ao telefone: caso se trate de uma conversa leve e casual, que pode ser interrompida eventualmente, é provável que o ato de cozinhar não saia prejudicado. Agora, caso se trate de uma conversa difícil - tipo uma DR - muito provavelmente a preparação do alimento sairá prejudicada, pois a conversa provavelmente demandará grande "energia mental". Bom, acho que você já captarou o ponto: é possível sim fazer simultaneamente duas ou mais coisas desde que apenas uma delas demande grande "energia mental" - ou, dizendo de outra forma, demande grande capacidade atencional. Isto significa que não é possível fazer ao mesmo tempo duas ou mais atividades complexas e não-automatizadas - como, por exemplo, estudar e falar ao telefone, dirigir e assistir um filme ou andar de bicicleta e mexer no celular. Caso você tente fazer estas duas coisas ao mesmo tempo, alguma delas certamente sairá prejudicada. Isto significa também que muito do que as pessoas chamam de multitarefa ou multitask na verdade se trata de uma realização intercalada ou alternada de tarefas e não propriamente de uma realização simultânea. Quando algumas pessoas dizem, por exemplo, que as mulheres conseguem fazer mais coisas ao mesmo tempo do que os homens isto significa, na verdade, que elas conseguem (ou melhor, conseguiriam) mudar rapidamente de uma tarefa para outra e não que fazem tudo ao mesmo tempo, o que não é seria possível.

Bom, para finalizar esta longa reflexão - e eu aposto que a maioria das pessoas não chegará até aqui (e se você chegou, meus parabéns!) - gostaria de trazer uma última questão: tendo em vista tudo isso, o que podemos fazer para melhorar nossa atenção? Pois bem, como para a maioria das questões humanas, não há uma receita, um caminho fácil ou uma panaceia. Certamente é possível encontrar na internet infinitos picaretas vendendo falsas promessas e ilusões sobre como "melhorar sua concentração" e "potencializar sua memória" e, exatamente por isso, você deve ficar muito atento para não cair em suas teias. Pois o fato é que não é nada simples melhorar sua atenção. Uma primeira possibilidade, nesse sentido, é tentar reduzir o número de distratores, isto é, de elementos que geram distração. Se você precisa se concentrar no estudo para uma prova ou concurso, por exemplo, talvez ajude se você buscar um local silencioso para estudar, tipo uma biblioteca pública. Desligar o celular (e não somente colocá-lo no silencioso) também pode ajudar, pois certamente uma das principais fontes de distração atualmente são os smartphones. Deixar o notebook em casa e estudar totalmente offline, utilizando-se somente dos livros, apostilas e cadernos, também pode ser útil, pois é muito comum que uma simples pesquisa no Google desencadeie uma série de outras buscas e visitas ao seu email, ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram, ao seu site de cinema favorito, a um video de gatinho no Youtube etc... quando você se dá conta se passaram 3 horas e o seu estudo, nesse meio tempo, foi pras cucuias. Todo cuidado é pouco! Enfim, tentar eliminar o máximo possível de distratores externos pode auxiliar muito à concentração. Afinal, como bem disse o economista e prêmio Nobel Herbert Simon, "riqueza de informações cria pobreza de atenção". 

Mas o problema é que existem também os distratores internos, isto é, os nossos próprios pensamentos e sentimentos, que não podem ser simplesmente eliminados, no máximo controlados. Neste sentido, participar de atividades que ajudem a acalmar a mente e diminuir a ansiedade, como ioga, meditação e tai chi chuan pode ajudar - afinal, se você está ansioso você está pensando no futuro e se você está pensando no futuro você não está vivendo o presente e se você não está vivendo o presente você não está concentrado na sua tarefa. A questão é que ainda que tais atividades ajudem - e certamente elas ajudam - nenhuma delas resolverá totalmente o problema, pois é muito difícil manter a mente calma o tempo todo, especialmente nos momentos mais turbulentos da vida. Como eu disse, não há uma solução simples. O que penso ser realmente fundamental é realizar um esforço consciente de fazer uma coisa de cada vez e de estar em apenas um "lugar" a cada momento. Quando, por exemplo, um estudante fica na sala de aula alternando sua atenção entre o celular e a fala do professor, ele está tentando viver duas vidas ao mesmo tempo: a vida real e a vida virtual. Como já sabemos que não é possível prestar atenção em duas coisas complexas de um só vez, provavelmente, neste caso, a vida real sai perdendo. Fundamental, neste caso, seria o estudante tomar uma decisão: ou se focar totalmente na fala do professor e viver a vida real ou se focar totalmente no celular e viver plenamente a vida virtual. Tentar se dedicar às duas coisas ao mesmo tempo, como temos feito com grande frequência, só poderá resultar em perda da nossa capacidade de concentração. Eu não poderia discordar, nesse sentido, da preciosa recomendação feita pelo jornalista Pedro Burgos no livro Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável: “Minha regra é o bom-senso ou qualquer derivação da frase 'esteja totalmente no lugar onde você escolheu estar'”.  

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... pornografia

Ela está por toda parte, embora pareça invisível. Falamos pouquíssimo dela, ainda que ela faça parte da vida e do cotidiano de uma significativa parcela da população. Para algumas pessoas religiosas ela é uma forma de pecado, para algumas feministas uma forma de opressão contra a mulher, para alguns cientistas ela prejudica o cérebro e vicia como uma droga, para alguns psicólogos ela influencia negativamente nas relações e nos processos de desenvolvimento, ao passo que para muitos homens e mulheres ela é vista e praticada como uma forma saudável de se estimular a fantasia e exercer a sexualidade. Sim, você já sabe do que eu estou falando. Eu estou falando da pornografia. O que me traz a esse tema complexo, delicado e pouco explorado são os fantásticos documentários Pornocracy e Rocco, atualmente disponíveis no Netflix. Comecemos pelo primeiro, uma primorosa investigação sobre a "indústria pornô", conduzida pela ex-atriz pornô, diretora de filmes adultos e escritora feminista Ovidie. Neste documentário, a diretora nos traz e tenta responder a uma questão inquietante: se o advento da internet no fim dos anos 1990 teve o impacto de uma bomba atômica na anteriormente ultralucrativa e glamourosa indústria pornô - na medida em que ninguém atualmente precisa mais pagar para ter acesso a imagens e videos pornográficos - quem está de fato lucrando com a pornografia? E sua resposta passa pela emergência de um megaconglomerado pornô, administrado pela empresa MindGeek, que atualmente controla os principais sites pornográficos. Curiosamente, esta empresa é dirigida por um empresário da área de tecnologia de informação totalmente à parte do mundo pornô. Para ele, como para muitas outras pessoas, a pornografia é um negócio como outro qualquer, isto é, um meio de se ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Pois bem, que a pornografia é um negócio lucrativo - e também um negócio que se beneficia, em grande medida, da exploração de mulheres - poucos questionarão. Mas a questão que eu gostaria de trazer neste post é se a pornografia pode ser reduzida a um mero negócio. Que algumas pessoas lucram com ela, isto é óbvio, mas existem pessoas que também lucram com o cinema e com a literatura e poucos diriam que o cinema ou a literatura se resumem a formas de se ganhar dinheiro. Em alguma medida estes artefatos são também manifestações artísticas - e o são justamente por atenderem a certas necessidades ou anseios humanos, demasiado humanos, como as necessidades por expressão, por identificação, por reflexão, por imaginação e por significado. Mas a quais necessidades ou anseios a pornografia atende ou tenta atender? Porque certamente ela responde a alguma necessidade humana profunda. De outra forma, porque, afinal de contas, as pessoas consumiriam tanta pornografia todos os dias em todas as partes do mundo, como demonstram inúmeros dados e pesquisas sobre o tema? Algum motivo deve haver - ou vários. Pois bem, esta complexa questão me traz ao fantástico e chocante documentário Rocco, que acompanha o famoso ator pornô Rocco Siffred durante o período que culminou com a gravação de sua última cena. Este filme traz tantos elementos para reflexão que eu precisaria de vários textos para analisá-lo com toda a profundidade que ele merece. Tratarei aqui apenas de alguns aspectos pertinentes à questão de quais necessidades humanas a pornografia atende ou pretende atender.

O documentário tem início com uma interessante fala de Rocco - que é dita enquanto a câmera expõe em close o seu pênis: "Eu penso em mim como alguém que foi pago para ser a pessoa que queria ser". Veja bem, ele não está dizendo que foi pago para ser aquilo que muitos homens gostariam de ser, o que também seria verdade. Ele está dizendo que foi pago para ser o que ele próprio gostaria de ser - e com isso ele sugere que os outros homens não são (e nem são pagos para ser) o que gostariam de ser. Os homens, em geral, se reprimem e são reprimidos, poderia ter dito Rocco, mas ele não. Ele sempre pôde dar vazão aos seus desejos. E de fato, ao longo de sua extensa carreira, Rocco pôde colocar em prática todas ou quase todas as suas fantasias sexuais, especialmente aquelas mais sórdidas e violentas, algo que a maioria dos homens apenas sonhou fazer. E veja bem que eu estou falando dos homens e não das pessoas em geral porque embora a pornografia seja consumida por homens e mulheres, sem dúvida alguma o maior público consumidor é masculino. Na verdade, a pornografia é, em grande medida, voltada para o homem e seu prazer. O objetivo imediato da maioria absoluta das produções pornôs é simples: fazer o homem (o ator e o espectador) gozar - e tanto isto é verdade que a maioria das cenas se encerra com a ejaculação masculina. O gozo feminino ou a encenação do gozo feminino não tem valor em si, só servindo na medida em que contribui para o gozo masculino. Muito embora as cenas pornôs em geral se foquem nos corpos das mulheres, sendo o homem apenas um pênis sem rosto, o foco primordial, o objetivo final e o elemento central é o homem e seu prazer. O pornô, em geral, não passa de uma celebração da potência masculina.

Os filmes de Rocco não fogem desta regra - pelo contrário, eles a levam a níveis extremos. Como o documentário expõe com grande crueza, eles são totalmente focados na dominação masculina e, consequentemente, na submissão feminina. As cenas de gravação, neste sentido, são incrivelmente chocantes (pelo menos para mim), na medida em que expõem a grande violência a que as atrizes são submetidas nos sets de filmagem. Certamente é possível contra-argumentar que elas o fazem por livre e espontânea vontade como parte de uma relação comercial (na qual elas vendem o próprio corpo em troca de dinheiro) e também que algumas realmente gostam da submissão durante o ato sexual - caso, por exemplo da atriz pornô feminista Kelly Stafford que afirma em certo momento do documentário: "Como eu posso estar me humilhando como mulher se é isto que eu quero? Se sou eu que estou aproveitando, sou eu que quero fazer isso, nunca é humilhante. Eu não quero ser humilhada. Quero mostrar que sou mulher. Sou uma mulher forte. Preciso de um homem forte para me foder". Esta atriz, não por acaso escolhida por Rocco como parceira de sua última cena, afirma ainda, em tom elogioso, que o sexo com Rocco ocorre "em um nível muito animalesco, é muito bruto". E isto talvez ajude a explicar o apelo que os filmes pornôs, especialmente os mais violentos, como aqueles produzidos por Rocco, tem sobre muitos homens. Talvez tais produções permitam que os homens façam, pelo menos no terreno da fantasia (na medida em que se colocam imaginariamente na pele de Rocco) aquilo que não podem ou não conseguem fazer na realidade. Afinal, transar de forma "animalesca" e "bruta" na vida real é bem mais complicado, pois depende necessariamente do consentimento da pessoa, homem ou mulher, com quem você pretende fazer sexo - de outra forma você estaria cometendo o crime de estupro.

Na análise que fiz da série Westworld, que retrata um "parque de diversão" para adultos onde tudo é permitido, escrevi que a atratividade deste parque se devia justamente ao fato dele permitir aos participantes, majoritariamente homens, um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade - em um ambiente controlado e seguro. Pois a mesma coisa pode ser dita da pornografia: ela permite aos seus usuários vivenciar situações sexuais e violentas, extremas ou não, sem, supostamente, quaisquer constrangimentos e efeitos colaterais. Como bem afirma a jornalista Pamela Paul no interessante livro Pornificados: como a pornografia está transformando a nossa vida, os nossos relacionamentos e as nossas famílias, "a pornografia dá sem exigir esforço". Em outro momento, falando especificamente sobre o consumo de pornografia por homens envolvidos em relacionamentos estáveis, a autora afirma: "a pornografia proporciona a exitação adicional de outras mulheres sem o perigo de realmente estar com elas" - e por perigo ela quer dizer, na verdade, "sem as implicações de se relacionar com uma mulher real". Afinal de contas, as mulheres reais não agem como as mulheres nos filmes pornôs: elas não estão disponíveis e com vontade para o sexo o tempo todo, não se atiram sem pudor para cima dos homens, não aceitam todas as práticas e posições sexuais e, muitas vezes, gostam de estar no controle e desejam que os homens se preocupem com o prazer delas. Enfim, na vida real, elas são pessoas completas e complexas e não simplesmente "objetos" do prazer masculino. Na pornografia, pelo contrário, o foco está majoritariamente no controle e no poder masculinos. Como afirma Pamela Paul "o enfoque é sobre uma mulher (ou, cada vez mais, várias mulheres) a serviço do prazer sexual do homem".  

Bom, talvez uma palavra chave em toda esta discussão seja "controle", afinal a pornografia serve em grande medida para dar aos homens não o controle, mas a ilusão de controle sobre as mulheres e o mundo. Se na vida real, os homens tem um poder limitado - ainda que, em geral, maior do que as mulheres (não nos esqueçamos jamais: vivemos em um mundo machista!) - no pornô os homens são soberanos, são reis que tudo podem e tudo fazem. Como afirma Pamela Paul, "a pornografia, literalmente, cria um mundo sonhado, livre de exclusões, constrangimentos, competitividade estressante e rejeição", o que, certamente, é algo extremamente tentador. E não é por outra razão que muitos homens estejam exagerando no consumo de pornografia: exatamente porque ela, como as drogas e também, em alguma medida, como as artes e as religiões, permite a eles sair temporariamente da dura realidade e adentrar em um mundo onde a vida é mais fácil e manejável. O grande problema é que isto não passa de uma ilusão. Como já discuti anteriormente, não creio ser possível viver só de realidade, mas viver só de fantasia também não me parece algo desejável, nem saudável. A pornografia, certamente tem uma função no mundo contemporâneo - ao que me parece fortemente ligada aos anseios por controle, dominação, fantasia e novidade - mas, ao mesmo tempo, penso que se não soubermos separar ficção de realidade, corremos o risco de nos perder, especialmente quanto trazemos ou tentamos trazer para a realidade elementos que deveriam permanecer no terreno da ficção. Tentar agir como um ator pornô e esperar que sua parceira ou as mulheres em geral se comportem como atrizes pornográficas (ou melhor, como as personagens que elas interpretam nos filmes - sim, elas são atrizes!) só poderá resultar em mais e mais frustração. Afinal de contas, entre o sexo real e a pornografia e entre a realidade e a fantasia há uma distância significativa, impossível de ser totalmente eliminada.