segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Imagens da frenologia

No post anterior eu apresentei e analisei a frenologia, uma teoria extremamente popular sobre o funcionamento da mente e do cérebro no início do século XIX. No presente post eu gostaria de trazer uma série de imagens sobre a frenologia que ilustram com brilhantismo o que foi e como se desenvolveu esta ciência, hoje vista como pseudociência. Algumas das imagens abaixo são facilmente encontráveis em sites como o Wikipedia, já outras (a maioria) eu acessei e retirei diretamente das obras originais publicadas ou no século XIX ou no início do século XX - felizmente elas estão disponíveis no maravilhoso site archive.org. Logo abaixo de cada imagem eu incluí algumas breves informações, além da indicação da fonte primária de onde a retirei. Clique na imagem para vê-la em detalhe.

Franz Joseph Gall (1758-1828), criador da frenologia, discutindo sua teoria com colegas em meio à sua enorme coleção de crânios e modelos de cabeça.
Gravura satírica de Thomas Rowlandson, 1808. Fonte: Wellcome Collection


Gall medindo a cabeça de uma elegante mulher sem sua peruca. Gravura satírica de E. F. Lambert, 1823. Fonte: Wellcome Collection



Acredita-se que esta gravura retrate o famoso frenologista George Combe (1788-1858) fazendo uma apresentação para uma distinta platéia em sua casa, em Edimburgo, na Escócia. Combe é autor do principal best-seller frenológico do século XIX, The constitution of man (1828), que vendeu mais de 350 mil cópias entre 1828 e 1900 - só para ter uma noção do que isto significa, cabe apontar que a famosa obra A origem das Espécies, de Charles Darwin, vendeu apenas 50 mil cópias entre 1959 e 1900).  Esta gravura satírica é atribuída a J. Lump e L. Bump, obviamente nomes ficticios. Fonte: Wellcome Colection

Grandes nomes da frenologia: Gall, Johann Gaspar Spurzheim (1776 -1832), George Combe (1788-1858) e Orson Squire Fowler (1809 -1887)
Fonte: How to read character : a new illustrated handbook of phrenology and physiognomy - Samuel Roberts (1883)



Mapa frenológico de Combe, com 35 "órgãos" ou faculdades mentais - Gall, originalmente, identificou 25.
Fonte: A system of phrenology - George Combe (1839)


"Conheça a si mesmo": propaganda do The phrenological journal and Science of Health, periódico norte-americano publicado entre 1839 e 1911.
Fonte: Reminiscences of Dr. Spurzheim and George Combe - Nahum Capem (1881)
Craniômetro e pinças: equipamentos frenológicos para medição de crânios (ilustração). Fonte: Elements of phrenology - George Combe (1828)

Equipamentos frenológicos para medição de crânios (foto). Fonte: Scottish Museums Federation





Análise craniológica: uma mãe genuína versus uma mãe não confiável. Fonte: Vaught's practical character reader - L.A. Vaught (1902).
Análise craniológica: um pai genuíno versus um pai não confiável. Fonte: Vaught's practical character reader - L.A. Vaught (1902).
Olhos, bocas, queixos e cabeças "não confiáveis" versus "honestos". Fonte: Vaught's practical character reader - L.A. Vaught (1902).

Psycograph: máquina frenológica para "leitura" de crânios patenteada nos Estados Unidos por Henry Lavery em 1905. Fonte: Museum of Quackery

Saiba mais sobre o tema no post Reavaliando a frenologia à luz do século XXI

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Reavaliando a frenologia à luz do século XXI

Franz Joseph Gall apalpando o crânio de uma pessoa
Concebida pelo médico, anatomista e fisiologista alemão Franz Joseph Gall (1758-1828), a frenologia foi uma teoria muito popular entre cientistas e leigos na primeira metade do século XIX. Sua principal intenção (da teoria e de Gall) era estabelecer ligações entre as funções ou faculdades mentais, as áreas cerebrais e a superfície do crânio. Tendo como ponto de partida sua enorme coleção de crânios, iniciada em 1792, Gall desenvolveu, ainda nesta década, uma técnica de medição sistemática das protuberâncias e reentrâncias do crânio - chamada por ele de cranioscopia - que serviu de base para o desenvolvimento da teoria frenológica. Batizada inicialmente por Gall de organologia e renomeada posteriormente de frenologia por seu assistente e mais famoso discípulo Johann Gaspar Spurzheim (1776 -1832), esta  teoria possuía cinco princípios fundamentais: 1) o cérebro é o órgão da mente; 2) a mente é composta por um grande número de funções ou "faculdades" inatas, sendo algumas intelectuais e outras afetivas; 3) cada faculdade possui sua própria região específica, ou "órgão", no córtex cerebral; 4) certas pessoas são mais dotadas do que outras de certas faculdades e, com isso, apresentam mais tecido cerebral nos locais correspondentes do que as menos dotadas; 5) como o formato do crânio reproduz a superfície do córtex, podemos inferir a intensidade de diversas faculdades do indivíduo analisando a parte externa do crânio. 

Mapa frenológico com 35 faculdades mentais
Ao longo de sua vida e obra, Gall identificou 27 faculdades mentais que teriam localizações precisas no córtex cerebral e, consequentemente, no crânio (veja abaixo) - posteriormente, esta lista foi aumentada por Spurzheim para 35, número comumente encontrado nos chamados mapas frenológicos (em outros é possível encontrar até 50). Tais faculdades, cabe reforçar, estariam espalhadas pelo córtex cerebral - isto é, pela "superfície" do cérebro - e transpareceriam também no crânio da pessoa. Um frenologista experiente, apalpando a cabeça do indivíduo, poderia identificar certas saliências e reentrâncias de seu crânio que revelariam sua dominância em certas faculdades mentais e sua deficiência em outras. Por mais estranho que isso possa parecer atualmente, esta curiosa técnica de investigação da personalidade se tornou extremamente popular no início dos anos 1800. Em pouco tempo se espalharam pela Europa e pelos Estados Unidos "consultórios frenológicos", que ofereciam "leituras" de crânio da mesma forma que ainda hoje quiromancistas oferecem "leituras" de mão. Como aponta Hugh Aldersey-Williams no livro Anatomias - Uma história cultural do corpo humano, no início do século XIX "sociedades frenológicas surgiram por toda parte. Virou moda fazer com que apalpassem nossas protuberâncias. Todas as farmácias vendiam bustos frenológicos. Começaram a se multiplicar periódicos científicos dedicados à frenologia, que tinham suas páginas cheias de análises detalhadas dos famosos e dos mal-afamados, com base em medições do crânio ou de moldes da cabeça". A parte mais complicada disso tudo era a crença de que o exame frenológico poderia ser usado não só para avaliar a personalidade e a inteligência da pessoa - e não coincidentemente, negros e mulheres eram considerados menos capazes do que homens brancos - mas também para definir sua profissão, a seleção em determinado trabalho e até mesmo a pessoa com quem deve ou não se casar - um uso semelhante ao que ainda ocorre, infelizmente, com a astrologia.

Em relativamente pouco tempo após ser concebida, esta teoria - apesar ou em função de sua popularidade e a despeito de toda a "parafernália" de ciência legítima (publicações, sociedades, conferências) - foi alvo de duras críticas por parte de muitos cientistas (e também de religiosos, em função de sua perspectiva essencialmente materialista) e acabou, ainda no século XIX, relegada ao lixo da história, passando a ser considerada uma pseudociência - e Gall, um charlatão. Muito embora as noções frenológicas de que o cérebro é a sede das faculdades mentais (materialismo) e de que as funções mentais estão, de alguma forma, relacionadas a áreas específicas do cérebro (localizacionismo) tenham prevalecido e ainda vigorem na neurociência contemporânea, a frenologia, sem dúvida alguma, foi abandonada - em especial a noção de que seria possível identificar as funções mentais dominantes do indivíduo pela análise das irregularidades de seu crânio. De toda forma, até bem recentemente a frenologia não tinha sido avaliada à luz das modernas técnicas de neuroimagem. Pois isso ocorreu somente no início do ano de 2018 com a publicação do importante artigo An empirical, 21st century evaluation of phrenology na prestigiosa revista Córtex. Neste artigo, os autores relatam os resultados de uma avaliação das principais hipóteses frenológicas realizada a partir dos dados disponibilizados pelo maior estudo de imagens corporais da atualidade, o UK Biobank Imaging Study, que pretende coletar informações detalhadas dos órgãos vitais de 100 mil pessoas - especificamente para esta análise eles levaram em conta dados e imagens cerebrais de 5724 sujeitos. Em síntese, o objetivo dos pesquisadores foi investigar, através de métodos científicos disponíveis no século XXI, as principais alegações feitas pelos frenologistas no século XIX. Como afirmam na introdução do artigo, "acreditamos que é importante que os cientistas testem idéias, mesmo que elas estejam fora de moda ou sejam ofensivas, e não se contentem em descartá-las de imediato". A primeira alegação investigada por eles é de que a "morfologia" (isto é, a forma) do crânio reflete a morfologia do cérebro da pessoa. Já a segunda alegação é de que as a superfície do crânio refletiria as faculdades mentais descritas por Gall. Cada uma destas alegações foi investigada de uma maneira.

Sem entrar nos complexos detalhes metodológicos, é possível dizer que a primeira alegação foi avaliada através de uma comparação entre os contornos da cabeça, do crânio e do cérebro dos sujeitos (veja imagem ao lado). E como já esperavam, os pesquisadores não encontraram qualquer correlação entre o formato do cérebro e o formato do crânio e da cabeça. A primeira alegação da frenologia se mostrou, deste modo, falsa. Agora analisemos a segunda, cuja avaliação foi bem mais complexa. Os pesquisadores agiram, neste caso, da seguinte forma: para avaliar a ideia de que a morfologia do crânio de alguma forma refletiria cada uma das 27 faculdades identificadas por Gall, eles primeiro "transformaram" tais faculdades em características que poderiam ser objetivamente avaliadas - e eles só conseguiram fazer isso com 23 das 27 faculdades. Por exemplo, a faculdade da "amorosidade" (que diz respeito ao impulso para a procriação) foi avaliada pela quantidade de parceiros sexuais que a pessoa já teve; já a faculdade da "filoprogenitalidade" (que diz respeito ao amor e cuidado parental) foi avaliada pela quantidade de filhos que a pessoa tem; muitas outras faculdades foram avaliadas levando-se em conta a profissão da pessoa -  imaginou-se, por exemplo, que cientistas teriam mais desenvolvida a faculdade da "destreza" ao passo que matemáticos teriam maior dominância na faculdade da "numerosidade". Certamente não é nada simples e exato transformar conceitos abstratos e pouco objetivos, como as faculdades identificadas por Gall há dois séculos, em características que pudessem ser avaliadas objetivamente; no entanto, não há uma maneira perfeita e infalível de se avaliar cientificamente tais faculdades. Escolhas precisam ser feitas e os pesquisadores, na minha visão, fizeram o melhor que puderam com os dados que tinham à disposição. Mas prossigamos: após avaliarem as pessoas de acordo com as faculdades identificadas por Gall eles analisaram se a proeminência em certas faculdades teria relação com certas protuberâncias em seus crânios, naquelas regiões específicas apontadas por Gall. Em resumo: o que eles fizeram foi verificar se, por exemplo, uma pessoa com dominância na faculdade de "numerosidade" teria alguma protuberância no crânio na área supostamente relacionada a esta faculdade. E eles não encontraram, novamente, qualquer correlação significativa. "Nenhuma região da cabeça se correlacionou com qualquer das faculdades que testamos", afirmaram. E isto significa, por sua vez, que a segunda alegação dos frenologistas também é falsa.  De uma forma suscinta os autores descreveram os resultados da pesquisa em uma única frase: "Não foram encontrados efeitos estatisticamente significativos para a análise frenológica". Enfim, este importante estudo coloca por terra algumas das principais alegações da teoria frenológica. Se ela não morreu totalmente no século XIX e conseguiu chegar, como um zumbi, no século XX (a Sociedade Frenológica Britânica, por exemplo, só foi encerrada no ano de 1967!) talvez, no século XXI, tenha chegado a hora de enterrar de uma vez por todas esta equivocada teoria. 

 
PÓS-ESCRITO: Em sua obra mais célebre, intitulada On the functions of the brain and of each of its parts [Sobre as funções do cérebro e de cada uma de suas partes, disponível na íntregra aqui], Gall identificou 27 faculdades mentais. São elas (e entre parênteses eu acrescento um sinônimo ou uma breve explicação, fornecidos por este artigo): 1) Amorosidade (impulso à procriação); 2) Filoprogenitalidade (amor parental); 3) Adesão (amizade, fidelidade); 4) Combatividade (disposição para auto-defesa); 5) Destrutividade (tendência ao assassinato e à alimentação carnívora); 6) Destreza (esperteza); 7) Aquisitividade (desejo de possuir coisas); 8) Auto-estima (orgulho, arrogância); 9) Necessidade de aprovação (ambição, vaidade); 10) Cautela (circunspecção); 11) Educabilidade (memória de coisas, fatos); 12) Localidade (senso de localização); 13) Memória de pessoas; 14) Memória de palavras; 15) Linguagem; 16) Coloração (sentido das cores); 17) Afinação (sensação dos sons, talento musical); 18) Numerosidade (habilidade para calcular e manipular números); 19) Construtividade (habilidade para construir); 20)  Comparação (habilidade para comparar); 21) Causalidade (sentido da metafísica); 22) Alegria (senso da graça); 23) Idealismo (talento poético); 24) Benevolência (senso moral, compaixão); 25) Mimetismo (talento para imitar); 26) Senso de Deus e religião; 27) Perseverança (firmeza de propósito, obstinação). Importante ressaltar que para Gall as primeiras 19 faculdades estariam presentes também, em alguma medida, nos animais; já as faculdades de 20 a 27 seriam exclusivas do ser humano.

PÓS-ESCRITO 2: Nesta fantástica cena do filme Django Livre, do diretor Quentin Tarantino, o fazendeiro escravagista Calvin Candle (Leonardo DiCaprio) explica e exemplifica os princípios da frenologia e demonstra como ela foi utilizada para justificar o racismo e a escravidão. Veja só!



Saiba mais no post Imagens da frenologia

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Divertida Mente: "filosofia do eu" para crianças

Compartilho abaixo a tradução que fiz do excelente artigo Inside Out: a crash course in PhD philosophy of self that kids will get first, escrito pelo jornalista e filósofo britânico Julian Bagginie e publicado no jornal The Guardian em 27 de Julho de 2015.  

Quando você vai assistir a um filme da Pixar, sabe que vai ver algo inteligente, engraçado e inventivo. O que você não espera, entretanto, é ver um tratamento extraordinariamente inteligente para uma das questões filosóficas mais complicadas e confusas de todas: o "eu" [no original: self].

Eu escrevi uma tese de doutorado sobre isso e posteriormente um livro [The ego trick: what does it mean to be you], e sempre que eu falo sobre essa questão, eu aponto que a teoria mais confiável e amplamente aceita (entre filósofos, pelo menos) é contraintuitiva e difícil de entender. E aí surge um desenho animado que torna os pontos-chave desta teoria inteligíveis para as crianças. Divertida Mente [no original Inside Out] virou meu mundo de cabeça para baixo.

O filme nos leva para dentro da mente de uma garota de 11 anos, Riley, onde cinco homúnculos - Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojo - estão literalmente pressionando todos os seus botões. A maioria dos analistas se concentrou em como esse dispositivo engenhoso ensina lições difíceis sobre maturidade emocional, especialmente sobre como você não pode ser feliz o tempo todo e sobre como a tristeza também tem seu papel a desempenhar.

Isso é verdade. Mas, embora de forma esquemática e simplificada, o filme também reflete sobre algumas das mais importantes verdades sobre o que significa ser uma pessoa individual.

A primeira delas é que não existe um "você" único e unificado. Seu cérebro não é um pequeno mundo cheio de criaturas antropomórficas, é claro. Mas é composto de vários impulsos diferentes, muitas vezes concorrentes. "Você" é simplesmente como tudo se junta, a soma de suas partes psíquicas.

Esta, no entanto, é apenas a primeira rachadura no mito do "eu" duradouro e unificado. O que o filme também mostra é que cada uma dessas partes é impermanente. A personalidade de Riley é representada por uma série de ilhas que refletem o que mais importa para ela: amizade, honestidade, família, bobeira e hockey. Mas, à medida que a vida se torna mais complexa, cada uma delas, por sua vez, ameaça desmoronar. E é assim que funciona no mundo real: à medida que crescemos e mudamos, e a vida cobra seu preço, algumas das coisas que mais importam para nós irão perdurar, outras irão desaparecer e novas irão surgir em seus lugares.

O terceiro elemento-chave na compreensão do "eu" é que o que mantém tudo isso junto é memória. A princípio, parece que o filme vai simplificar demais isso, apresentando memórias como pequenos filmes, experiências que são capturadas, armazenadas e reproduzidas. Mas à medida que avança, fica mais complicado. Torna-se claro que não apenas muitas memórias se perdem - mesmo aquelas que antes eram preciosas - mas também que outras mudam suas caraterísticas, como nós pŕoprios. Para que as memórias façam seu trabalho, elas precisam ser nutridas e compreendidas. 

Tudo isto se soma à criação de uma imagem do "eu" como algo coerente a uma única narrativa, mas que não tem nada de permanente e imutável em seu núcleo. Estamos sempre em fluxo, sempre no processo de crescer a partir do que fomos para o que vamos ser.

Acho que a razão pela qual isso pôde ser transmitido em um filme infantil é que, em muitos aspectos, as crianças são mais receptivas a essa mensagem do que os adultos. As crianças mudam tão rapidamente que podem entender a idéia de impermanência mais facilmente do que os adultos, cuja autoconcepção muitas vezes ossifica. As crianças não têm problemas para imaginar que elas podem crescer para serem bem diferentes, ao passo que os adultos assumem que estão presos às pessoas que acabaram sendo.

Os melhores filmes infantis costumam ter um duplo propósito. Eles ajudam as crianças a desenvolver, mas também lembram os adultos do que perderam fazendo isso. Divertida Mente atinge de forma brilhante ambos os objetivos.

OBS: assista à palestra TED "Existe um verdadeiro você?", do autor deste artigo, clicando aqui.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Top 12 - Filmes e séries sobre transplantes ou transferências de cabeça, cérebro, mente ou alma



Um tema extensamente explorado pela ficção científica contemporânea é a transferência da mente ou do cérebro de um corpo para outro ou de um corpo para uma máquina. Especificamente sobre a questão da transferência da mente para uma máquina (também chamada de upload mental), já tratei extensamente em um post recente, denominado Em busca da imortalidade da mente. No presente post eu gostaria de trazer uma lista de filmes e séries, do pior ao melhor (na minha humilde opinião), que tratam das possibilidades de transferência ou transplante de cabeça, cérebro, mente/consciência ou alma. Optei por ignorar nesta lista todo o enorme e lucrativo filão dos filmes de troca de corpo (ou troca de mente) como Se eu fosse você, Sexta-feira muito louca, Coisas de meninos e meninas, De repente 30, Garota veneno, Eu queria ter a sua vida, dentre muitos outros. E o motivo é que nestes casos a "troca" é apenas temporária, não constituindo propriamente um transplante ou uma transferência de mente ou consciência - além disso, a maioria destes filmes é de qualidade muito duvidosa. Da mesma forma ignorei produções nas quais há uma transferência momentânea da mente para determinados fins, como é  caso dos filmes Avatar, Substitutos e Contra o tempo, nos quais os personagens controlam "avatares" reais ou virtuais à distância - mas podem regressar ao próprio corpo quando desejarem. Nestes casos tratam-se "apenas" de tecnologias de interface cérebro-máquina e não, propriamente de transferências ou transplantes. Tendo tudo isso em vista, segue a minha lista.

12- Transcendence: A revolução (2014) - Tema: Transferência de mente

Comentário: Neste filme terrível, dirigido por Wally Pfister, em sua estreia na direção, acompanhamos o cientista Will Caster (Johnny Depp) transferir a própria mente para um computador quântico e, com isso, se tornar incrível e exageradamente poderoso. A ideia era boa, o resultado foi catastrófico. Na minha singela opinião, o pior filme já feito sobre o tema.

11 - Vigilante do amanhã: Ghost in the Shell (2017) - Tema: transplante de cérebro



Comentário: Nesta insossa refilmagem da clássica animação japonesa Ghost in Shell, lançada em 1995, temos como protagonista a agente Major (Scarlett Johansson), que é uma cyborg, mistura de cérebro real com corpo artificial - aliás, no mundo retratado tanto pela animação original quanto por este filme, quase todas as pessoas são parcialmente (ou totalmente) máquinas. O título original de ambas produções, Ghost in shell ou "fantasma na concha", remete à ideia de "fantasma na máquina" introduzida pelo filósofo Gilbert Ryle (veja mais aqui) para criticar a visão dualista de Descartes segundo o qual nossa alma (fantasma) habita um corpo (concha/máquina).

10 - Sem retorno (2015) - Tema: transferência de mente



Comentário: Neste interessante mas não memorável filme do diretor Tarsem Singh, cujo título original é Self/less (que poderíamos traduzir por Eu/menos ou Sem um eu), acompanhamos Damian (Ben Kingsley), um rico empresário que está com câncer terminal e, por isso, decide se submeter a um procedimento de transferência de sua mente/consciência para um corpo artificial jovem e saudável (Ryan Reynolds). A grande questão é que após tal transferência ser realizada ele descobre que o corpo para o qual sua mente foi realocada era de uma pessoa real, e com isso ele se vê envolvido em uma complexa trama. Um bom filme, mas que poderia ser muito melhor.

9- O cérebro que não queria morrer (1962) - Tema: transplante de cabeça


Comentário: Lançado em 1962, este bizarro e já clássico filme trash conta a história do experiente e obsessivo cirurgião Bill Cortner em sua saga para transplantar a cabeça viva de sua noiva. Já analisei anteriormente este filme, assim como a proposta real de transplante de cabeça feita em 2017 pelo neurocirurgião italiano Sérgio Canavero - veja aqui. OBS: uma refilmagem deste filme já foi gravada e está em fase de pós-produção - a previsão de lançamento é para 2018. Veja fotos dos bastidores e informações detalhadas sobre a produção e o elenco  neste link.

8- Soldado do futuro (2013) - Tema: transferência de mente  
 
Comentário: Nesta fascinante produção britânica, que também fez parte de nosso Top 10 - Filmes e séries sobre Inteligência Artificial, acompanhamos o cientista Vincent McCarthy no processo de transferência da mente de Ava (Caity Lotz) para um corpo artificial, de forma a transformá-la em uma poderosa máquina de guerra - não por acaso, o título original do filme é The machine.  

7-  Advantageous (2015) - Tema: transferência de mente



Comentário: Nesta interessante produção de ficção científica feminista - escrita, dirigida e protagonizada por mulheres - acompanhamos Gwen (Jacqueline Kim), uma mulher de cerca de 40 anos, mãe solteira de uma garota e funcionária de um laboratório farmacêutico, que é demitida e, por estar "velha demais" para regressar ao mercado de trabalho (e com medo de não ter como sustentar sua filha) acaba por se submeter a um procedimento experimental de transferência de sua mente para um corpo mais jovem. Veja duas ótimas análises deste filme aqui e aqui.  
 
6- O homem com dois cérebros (1983) - Tema: transplante de cérebro


Comentário: Neste bizarro e hilário filme dirigido pelo cineasta Carl Reiner, acompanhamos o neurocirurgião Michael Hfuhruhurr (intepretado pelo genial Steve Martin) em sua busca por um corpo para "alojar" o cérebro sem corpo de uma mulher por quem ele se apaixonou perdidamente e com o qual se comunica telepaticamente. Já analisei este filme em um outro post - veja aqui.

5 - Black Mirror (2017/2018) - Tema: transferência de mente


Comentário: A fantástica série de ficção científica Black Mirror, que já analisei em outras ocasiões (ver aqui e aqui, por exemplo), tratou do tema da transferência da mente em pelo menos três episódios: White Christimas, San Junipero e Black Museum. No primeiro deles a transferência (na verdade, uma cópia da mente) é feita para um dispositivo eletrônico que pretende controlar toda a tecnologia da casa da pessoa; no segundo caso, a mente da pessoa é transferida, após sua morte, para um dispositivo que cria uma realidade virtual; finalmente, no terceiro, a consciência da pessoa é transferida para um boneco de pelúcia. Assustador!

4- Altered Carbon (2018) - Tema: transferência de mente


Comentário: Esta belíssima série, lançada pelo Netflix, retrata uma sociedade na qual o upload mental é absolutamente comum. Neste mundo, as pessoas, ou melhor, suas mentes, não morrem jamais: quando o corpo perece, um disco rígido com o conteúdo de sua mente é simplesmente realocado em um novo corpo ou "capa" (que pode ser de um outro gênero, idade ou etnia) e a vida continua indefinidamente - como afirma o protagonista, você troca de capa como uma cobra muda de pele. Já escrevi sobre esta série em outro post - veja aqui.

3 - Corra! (2017) - Tema: transplante de cérebro

Comentário: Neste assustador filme, que concorreu ao Oscar de Melhor filme e venceu o de Melhor Roteiro Original em 2018, acompanhamos o jovem fotógrafo negro Chris (Daniel Kaluuya) durante uma visita aos pais, brancos, de sua namorada. Muito embora a temática do racismo e das relações raciais sejam centrais, o filme retrata ainda a possibilidade de transplante de cérebro (e eu não vou revelar de que forma para não estragar o final do filme).

2- Transfers (2017) - Tema: transferência de mente

Comentário: Esta excelente série francesa, lançada em 2017 e recentemente incluída no catálogo da Netflix, retrata uma sociedade na qual a transferência de mentes para outros corpos é comum, ainda que ilegal. A história central da série gira em torno de um marceneiro que se afoga e tem sua mente ilegalmente transferida para o corpo de um policial que trabalha justamente no combate à transferência ilegal de mentes. A série explora muitíssimo bem os impactos individuais, sociais e religiosos da possibilidade de transferência de mente - tal qual a série Humans faz com a temática da inteligência artificial - e traz uma série de questionamentos muito pertinentes sobre a relação da mente/alma com o corpo e o cérebro. Excelente!

1- Almas à venda (2009) - Tema: transplante de alma


Comentário: Neste bizarro e pouco conhecido filme da diretora Sophie Barthes acompanhamos o talentoso ator Paul Giamatti, que aqui interpreta a si próprio - ou melhor, uma versão de si próprio, já que ninguém pode, digamos, se auto-interpretar. Pois bem, na louca trama deste filme, originalmente denominado Cold souls (Almas frias), Giamatti se encontra em meio a uma crise existencial e criativa, não conseguindo se separar do personagem que está ensaiando para interpretar no teatro (Tio Vânia, personagem concebido pelo escritor e dramaturgo russo Anton Tchekov). E para sanar este problema ele decide procurar uma empresa especializada na extração e depósito de almas (que quando são extraídas tomam a forma de uma pequena ervilha que representa a glandula pineal, uma pequena glândula localizada no meio do cérebro que para o filósofo René Descartes era a sede da alma no corpo). E assim ele o faz e, sem o peso de sua alma, ele se sente muito mais leve e menos angustiado. Por outro lado ele não consegue mais interpretar o personagem - afinal, como interpretar sem alma? Aí ele decide, então, experimentar a alma de um poeta russo, mas logo percebe que esta alma é nobre e complexa demais e acaba por rejeitá-la. Por fim ele decide re-implantar sua própria alma. O problema é que ela foi roubada e enviada para a Rússia - e transplantada em uma bela atriz russa - através de um complexo esquema de tráfico de almas (que envolve, dentre outras coisas, "mulas" de almas, que são mulheres "desalmadas" que levam, dentro do próprio cérebro, almas roubadas dos Estados Unidos para a Rússia). Só por esta breve descrição dá para perceber a loucura e a genialidade deste filme, que tem início com uma citação atribuída ao livro Paixões da alma, de Descartes: "A Alma localiza-se em uma pequena glândula no centro do nosso cérebro" (a citação correta e completa, na verdade é: "a parte do corpo em que a alma exerce imediatamente suas funções não é de modo algum o coração, nem o cérebro todo, mas somente a mais interior de suas partes, que é uma glândula muito pequena situada no meio de sua substância"). Um filme imperdível para quem se interessa pelas discussões sobre a relação entre mente/alma e cérebro/corpo e também por filmes estranhos e originais como Quero ser John Malkovich e Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Veja uma ótima análise do filme Almas à venda aqui.

Pós-escrito: além dos filmes e séries acima, indico ainda um curta-metragem fantástico que trata do tema do upload mental: The final moments of Karl Brant. Assista o filme abaixo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Solidão: a história de um problema ocidental

Compartilho abaixo a tradução que fiz do interessante artigo One is the loneliest number: the history of a Western problem, publicado no site AEON no dia 12 de Setembro de 2018 pela historiadora britânica Fay Bound Alberti, que é co-fundadora do Centro para a História das Emoções da Universidade Queen Mary de Londres e autora de diversos livros, dentre eles A Biography of Loneliness, que será lançado em 2019.


"Deus, a vida é solitária", declarou a escritora Sylvia Plath em seus diários privados. Apesar de todos os gracejos e sorrisos que trocamos, ela disse, apesar de todos os opiácios que usamos: "quando você finalmente encontra alguém em quem seria capaz de derramar sua alma, você é incapaz de continuar, chocada com as palavras que pronuncia – elas são tão desbotadas, tão feias, tão sem sentido e débeis por terem passado tanto tempo em uma escuridão estreita dentro de você". 

No século 21, a solidão tornou-se onipresente. Os comentaristas chamam de "uma epidemia", uma condição semelhante à "lepra" e uma "praga silenciosa" da civilização. Em 2018, o Reino Unido chegou ao ponto de nomear um Ministro da Solidão. No entanto, a solidão não é uma condição universal; nem é uma experiência interna puramente visceral. É menos uma simples emoção e mais um conjunto complexo de sentimentos, composto de raiva, luto, medo, ansiedade, tristeza e vergonha. A solidão também tem dimensões sociais e políticas, transformando-se através do tempo de acordo com concepções relativas ao self, a Deus e ao mundo natural. A solidão, em outras palavras, tem uma história.  

O termo loneliness (solidão) surge pela primeira vez na língua inglesa por volta de 1800. Antes disso, a palavra mais próxima era oneliness, simplesmente o estado de estar sozinho. Assim como solitude - do latim 'solus' que significava 'só' - a oneliness não foi caracterizada pela ausência de emoções. A solitude ou a oneliness não eram patológicas ou indesejáveis, mas, acima de tudo, entendidas como um espaço necessário para a reflexão com Deus, ou com os pensamentos mais profundos. Já que Deus estava sempre por perto, uma pessoa nunca estava realmente sozinha. No entanto, dando um salto de um século ou dois, o uso do termo loneliness - sobrecarregado de associações com as ideias de vazio e falta de conexão social -  ofuscou completamente o termo oneliness. O que aconteceu?

A noção contemporânea de solidão deriva de transformações culturais e econômicas que ocorreram no Ocidente moderno. A industrialização, o crescimento da economia de consumo, o declínio da influência da religião e a popularidade da biologia evolutiva serviram para enfatizar que o indivíduo era tudo o que importava - e não visões tradicionais e paternalistas de uma sociedade em que cada um tinha um lugar definido.  

No século XIX, filósofos políticos usaram as teorias de Charles Darwin sobre a "sobrevivência do mais apto" para justificar a busca dos vitorianos pela riqueza individual. A medicina científica, com ênfase nas emoções e experiências centradas no cérebro [brain-centred], e a classificação do corpo em estados "normais" e anormais, sublinhou essa mudança. Os quatro humores (fleumático, sanguíneo, colérico, melancólico), que dominaram a medicina ocidental por 2.000 anos e classificaram as pessoas em "tipos", foram substituídos por um novo modelo de saúde dependente do corpo físico individual.  

No século XX, as novas ciências da mente - especialmente a psiquiatria e a psicologia - ocuparam um lugar central na definição das emoções saudáveis ​​e patológicas que um indivíduo deveria experimentar. Carl Jung foi o primeiro a identificar as personalidades "introvertidas" [introvert] e "extrovertidas" [extravert] na obra Tipos psicológicos (1921). A introversão foi associada ao neuroticismo e à solidão, ao passo que a extroversão à sociabilidade, ao espírito gregário [gregariousness] e à autoconfiança. Nos Estados Unidos, essas idéias adquiriram um significado especial na medida em que estavam atreladas a qualidades individuais relacionadas ao autodesenvolvimento, à independência e ao "sonho americano". 

As associações negativas com a introversão ajudam a explicar por que a solidão agora carrega esse estigma social. As pessoas solitárias raramente querem admitir que estão sozinhas. Enquanto a solidão pode criar empatia, as pessoas solitárias podem ser motivo de desprezo; aqueles com fortes redes sociais geralmente evitam a solidão. É quase como se a solidão fosse contagiosa, tal qual as doenças com as quais ela é comparada atualmente. Quando usamos a linguagem de uma epidemia moderna, nós contribuímos para um pânico moral a respeito da solidão que pode agravar o problema subjacente. Presumir que a solidão é uma aflição generalizada e fundamentalmente individual, tornará quase impossível enfrentá-la. 

Por séculos, os escritores reconheceram a relação entre saúde mental e o pertencimento a uma comunidade. Servir a sociedade era outra maneira de servir ao indivíduo - afinal, como escreveu o poeta Alexander Pope em seu poema An essay on Man (1734):  "True self-love and social are the same". Não surpreende, portanto, descobrir que a solidão serve tanto a uma função fisiológica quanto a uma função social, como argumentou o falecido neurocientista John Cacioppo: como a fome, a solidão assinala uma ameaça ao nosso bem-estar, nascida da exclusão de nosso grupo ou tribo.  

"Nenhum homem é uma ilha", escreveu o poeta John Donne, com espírito semelhante, na obra Devotions upon emergent occasions (1624) - nenhuma mulher também, pois cada um forma "uma parte do continente, uma parte da terra". Se um "torrão de terra  for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída ... a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade". Para alguns de nós, os comentários de Donne assumem uma pungência especial à luz da saída do Reino Unido da Europa, ou do narcisismo da presidência de Donald Trump nos EUA. Eles também nos remetem a metáforas médicas: as referências de Donne ao corpo político sendo destruído são remicicentes da ideia de que a solidão moderna é como uma aflição física, uma praga da modernidade.  

Precisamos urgentemente de uma avaliação mais nuançada a respeito de quem é solitário, quando e por quê. A solidão é lamentada pelos políticos por ser dispendiosa, especialmente para uma população que envelhece. Pessoas solitárias são mais propensas a desenvolver enfermidades como o câncer, as doenças cardíacas e a depressão, e possuem 50% mais chances de morrer prematuramente do que as não solitárias. Mas não há nada de inevitável em ser velho e sozinho - mesmo no Reino Unido e nos EUA, onde, ao contrário de grande parte da Europa, não há uma história de cuidado inter-familiar dos idosos. A solidão e o individualismo econômico estão conectados.  

Até a década de 1830, no Reino Unido, as pessoas idosas eram cuidadas por vizinhos, amigos e familiares, bem como pela paróquia. Mas então o Parlamento aprovou a Nova Lei dos Pobres [New poor law], uma reforma que aboliu a ajuda financeira para as pessoas, exceto para os idosos e enfermos, restringindo-a àqueles que viviam em asilos [workhouses] e considerou a assistência à pobreza [poverty relief] como empréstimos que eram administrados por um processo burocrático e impessoal. A ascensão da vida nas cidades e o colapso das comunidades locais, assim como o agrupamento dos necessitados em prédios construídos para este propósito, produziram pessoas mais isoladas e idosas. É provável, dadas as suas histórias, que países mais individualistas (que incluem o Reino Unido, a África do Sul, os EUA, a Alemanha e a Austrália) experimentem a solidão de forma diferente de países mais coletivistas (como o Japão, a China, a Coréia, a Guatemala, a Argentina e o Brasil). A solidão, desta forma, é experimentada de forma diferente de lugar para lugar e ao longo do tempo. 

Com tudo isso não se pretendeu romantizar a vida comunitária ou mesmo sugerir que não houve isolamento social antes do período vitoriano. Acima de tudo, minha argumentação é que as emoções humanas são inseparáveis ​​de seus contextos sociais, econômicos e ideológicos. A raiva legítima dos moralmente ofendidos, por exemplo, seria impossível sem a crença no certo e no errado e em uma responsabilidade pessoal. Da mesma forma, a solidão só pode existir em um mundo onde o indivíduo é concebido como separado, ao invés de parte do tecido social. Não há dúvidas de que a ascensão do individualismo corroeu os laços sociais e comunitários e conduziu a uma linguagem de solidão [language of loneliness] que não existia antes de 1800.  

Se antigamente os filósofos perguntavam o que era necessário para viver uma vida significativa, o foco cultural mudou para questões relativas à escolha individual, desejo e realização. Não é coincidência que o termo "individualismo" tenha sido usado pela primeira vez (e era um termo pejorativo) na década de 1830, ao mesmo tempo em que a solidão estava em ascensão. Se a solidão é uma epidemia moderna, então suas causas também são modernas - e uma consciência de sua história pode ser a nossa salvação.

Observação: o título original deste artigo, One is the loneliest number [O um é o número mais solitário] faz referência a uma música do cantor e compositor Harry Nisson, lançada em 1968, e que já foi regravada por inúmeros artistas, ficando mais conhecida na voz da cantora Aimee Man, cuja versão faz parte da trilha sonora do maravilhoso filme Magnólia (1999) - ouça aqui.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Phineas Gage: entre o mito e a realidade

Talvez você ja tenha ouvido falar de Phineas Gage. Agora, se você é estudante ou profissional das áreas de psicologia, psiquiatria, neurologia ou neurociências, é praticamente impossível que em algum momento de sua vida, em alguma disciplina, livro ou palestra, você não tenha se deparado com a trágica história de Phineas. E a razão é que este sujeito é um dos "personagens" mais famosos - se não o mais famoso - da história das neurociências. Sua trajetória pode ser encontrada em praticamente todos os manuais de introdução às "ciências do cérebro" assim como em livros clássicos da área - sendo o mais famoso deles O erro de Descartes, do neurologista português Antônio Damásio, que se inicia justamente com a história de Phineas Gage. A grande questão, que gostaria de trazer e analisar neste texto, é que existem inúmeras informações equivocadas e até mesmo inventadas sobre a vida de Phineas. Em uma profunda análise concretizada no livro An odd kind of fame: stories of Phineas Gage [Um estranho tipo de fama: histórias sobre Phineas Gage], o psicólogo Malcolm Macmillan encontrou na literatura científica e popular inúmeros relatos inconsistentes e inverossímeis sobre a trajetória de Phineas. Analisarei abaixo algumas destas "histórias" de forma a separar o que de fato sabemos e o que não sabemos (e nem podemos saber) sobre o caso. O objetivo é, enfim, tentar entender o que é realidade e o que é ficção na curiosa história de Phineas Gage.

Pois bem, a história de Phineas Gage tem início no dia 9 de Julho de 1823, data de seu nascimento em New Hampshire nos Estados Unidos. No entanto, o evento que o tornou célebre e que representou praticamente um renascimento, ocorreu 25 anos após esta data, mais especificamente no dia 13 de setembro de 1848, nos arredores da cidade de Cavendish, também nos EUA.  Às 16:30h deste dia, Phineas, que trabalhava como capataz da indústria ferroviária,  fez um buraco em uma rocha, como de costume, e estava ajeitando a pólvora neste buraco com uma barra de ferro de cerca de 1 metro de comprimento, quando uma explosão fez com a barra entrasse com toda a força e velocidade em seu rosto, na altura de sua bochecha esquerda, e saísse pelo topo de sua cabeça, caindo a mais de 30 metros de distância. Em questão de segundos, seu olho esquerdo foi destruído e algumas partes do seu cérebro e crânio foram seriamente lesionadas. No entanto, surpreendentemente, Phineas ficou inconsciente por apenas alguns instantes, recobrando o movimento e a fala muito rapidamente. Esta parte da história, muito provavelmente, é verdadeira. As controvérias começam com os relatos sobre os momentos posteriores a este terrível acidente. De acordo com alguns desses relatos, após este episódio Cage mudou radicalmente sua personalidade, deixando de ser a pessoa pacata, responsável e educada que era até então e se tornando um sujeito anti-social, instável e até mesmo violento. Alguns relatos chegam a dizer que Gage se tornou um psicopata, isto é, um sujeito indiferente e hostil aos demais seres humanos. Outros relatos ainda apontam que Cage tornou-se tão perturbado e louco que chegou a molestar algumas crianças.

Todas estas narrativas são frequentemente utilizadas por neurocientistas e psicológos como provas incontestáveis de que determinadas partes do cérebro, em especial os lobos frontais (que teriam sido lesionados no acidente), são imprescindíveis para o controle de impulsos e para a execução de comportamentos pró-sociais de uma forma geral - o que significa também que qualquer lesão significativa nestas áreas poderia (na verdade, deveria) causar importantes e, até certo ponto, irreversíveis mudanças no comportamento e na personalidade do sujeito. No entanto, a incômoda realidade é que muito pouco se sabe sobre o comportamento de Gage após o acidente - assim como pouco se sabe sobre sua vida pregressa. Como aponta Malcolm Macmillian, grande parte destes relatos são inconsistentes e não fundamentados pelas evidências disponíveis. O que de fato se sabe é que cerca de uma hora após o acidente, Gage foi atendido pelo médico John Martyn Harlow, que conseguiu conter a hemorragia e, posteriormente, tratar uma grave infecção decorrente. Estes esforços, certamente, salvaram a vida de Gage. Três meses após o acidente e, tendo perdido o emprego de capataz, Gage regressou à fazenda de seus pais e passou a maior parte do ano de 1849 se recuperando. No mês de novembro deste ano, viajou até a cidade de Boston para ser examinado pelo médico Henry Jacob Bigelow, que também atuava como professor de cirurgia na Universidade de Harvard. A partir de 1950, Gage esteve envolvido em diversas atividades: atuou como atração de um "show de horrores" no Museu Americano de Barnum, em Nova Iorque; trabalhou como condutor de carruagens em Hanover; e então se mudou para o Chile com um homem que pretendia montar uma linha de carruagens em Valparaíso. Depois de muitos anos dirigindo carruagens, Phineas decidiu  retornar aos Estados Unidos, em 1859, para se reaproximar de sua família, que agora morava na cidade de São Francisco. Ainda no Chile Gage adquiriu alguma doença desconhecida e chegou nos EUA enfraquecido, o que lhe impossibilitou inicialmente de trabalhar. Pouco tempo depois, no início de 1860, Phineas começou a ter uma série de convulsões, que foram se tornando cada vez mais frequentes e graves. Até que no dia 21 de Maio de 1860 Phineas Gage faleceu, aos 37 anos, como consequência destes ataques, tendo sobrevido 11 anos e meio após o acidente. Seu crânio encontra-se, atualmente no Museu Anatômico de Warren, na Universidade de Harvard.

John Martyn Harlow (1819–1907)
Especificamente com relação às mudanças na personalidade de Gage existem poucos registros. Em 1868 - oito anos após sua morte - o médico John Martyn Harlow, descreveu em um relatório com menos de 200 palavras os motivos pelos quais os patrões de Phineas não o teriam empregado novamente. Esse resumo, além de algumas poucas palavras utilizadas por Harlow no laudo que escreveu após o acidente, nos contam praticamente tudo o que sabemos sobre a personalidade subsequente de Gage - e mesmo tais documentos não são totalmente confiáveis pois as avaliações que eles expõem foram todas subjetivas (nenhum teste ou avaliação mais objetivo foi aplicado em Gage, como seria feito hoje). Segundo Harlow, em seu relatório de 1868, o acidente destruiu "o equilíbrio entre suas faculdades intelectuais e suas propensões animais". Além disso, em função do acidente, Phineas teria se tornado: "vacilante, irreverente e grosseiramente profano, demonstrando 'pouca deferência por seus companheiros de trabalho'"; "intolerante a restrições ou conselhos que conflitam com seus desejos", "obstinadamente teimoso, caprichoso e vacilante a respeito de seus planos para o futuro"; "intelectualmente infantil com as 'paixões animais' de um homem forte". Em contraposição, Harlow apontou que anteriormente ao acidente, Phineas havia sido: "forte e ativo, com determinação de ferro e temperamento nervo-bilioso"; "de hábitos moderados e possuidor de uma considerável energia de caráter"; "o favorito dentre seus colegas de trabalho"; "o capataz mais eficiente e hábil contratado por seus patrões", "de posse de uma mente equilibrada" e "prezado como um homem de negócios esperto e inteligente muito energético na execução de seus planos". Harlow ainda aponta em seu escrito de 1868 que amigos e conhecidos de Phineas teriam dito que "Gage não era mais Gage", frase que se tornou famosa. A grande questão sobre estas supostas mudanças de personalidade é que elas estão respaldadas em apenas um documento, escrito por apenas um médico, Harlow, 8 anos após a morte de Gage. No laudo de 1848, escrito também por Harlow, não há nenhuma consideração sobre mudanças de personalidade - até porque o acidente tinha acabado de ocorrer. Da mesma forma, em registros posteriores feitos por outros médicos (Jackson em 1849 e Bigelow em 1950), não há, igualmente, nenhuma referência a tais mudanças.

De acordo com Macmillan, parte desta negligência pode ser explicada pela falta de conhecimento sobre as funções do cérebro no início do século XIX. De acordo com o autor, "além da organologia de Franz Josef Gall (frenologia) não existia, antes de 1848, uma teoria sobre o funcionamento do cérebro. O entendimento de que os nervos transmitem sensações e controlam os movimentos já era conhecido, mas ainda não era aceita a ideia de que danos em um lado do cérebro poderiam afetar os movimentos ou as sensações". Mas não só: o entendimento óbvio atualmente de que nossa linguagem e personalidade dependem, de alguma forma, do funcionamento cerebral, ainda não havia sido demonstrado até aquele momento. A situação teria começado a mudar na década de 1860, justamente na época do relatório de 1868 escrito por Harlow. Neste momento os achados feitos por Paul Broca a partir do estudo post mortem do cérebro de sujeitos afásicos sugeriu que as funções da linguagem estavam localizadas no hemisfério cerebral esquerdo. Um pouco mais tarde os experimentos feitos por David Ferrier com macacos demonstraram que danos no lobo pré-frontal poderiam provocar profundas mudanças de personalidade. No entanto, no momento do acidente de Gage - e até cerca de 20 anos após - não se sabia de nada disso. Segundo Macmillan, "Gage estava literalmente à frente de seu tempo". A consequência disso é que grande parte das análises sobre as supostas mudanças em sua personalidade foi feita retrospectivamente, de forma a se ajustar a certas teorias desenvolvidas nas décadas subsequentes. Como aponta Macmillan, "muitas interpretações sobre o comportamento de Phineas foram feitas para suportar teorias particulares". Por exemplo, as alegações sobre as mudanças na sexualidade de Gage - jamais mencionadas nos relatórios e laudos escritos por Harlow e Bigelow, os únicos que de fato examinaram Gage - serviram para dar suporte a observações feitas posteriormente com pacientes lobotomizados, que, em alguns casos, apresentavam tais mudanças. Da mesma forma, grande parte das supostas mudanças apontadas em Gage não passam de distorções ou puras invenções feitas com o propósito de confirmar certas teorias sobre o funcionamento do cérebro e, especificamente, sobre o funcionamento dos lobos frontais, que teriam sido lesionados em Gage. No entanto, como o cérebro de Gage jamais foi analisado - apenas seu crânio, retirado em uma exumação feita em 1867 - é impossível dizer com precisão quais áreas foram efetivamente lesionadas.

Tudo isto significa que grande parte do que é dito sobre Phineas Gage muito provavelmente não ocorreu ou ocorreu de uma outra forma. Esta contraposição quase caricatural entre o sujeito trabalhador, tranquilo e confiável de antes do acidente e o sujeito indisciplinado, imprevisível e depravado de depois do acidente não passa, muito provavelmente, de um mito, criado para respaldar certas teorias sobre o funcionamento do cérebro. Como afirma o jornalista científico Sam Kean no maravilhoso livro O duelo dos neurocirurgiões, "Gage tornou-se - e contiua sendo até hoje - uma espécie de teste de Rorschach para neurocientistas, um reflexo das paixões e obsessões de cada era que passa". Curiosamente, uma possibilidade pouco discutida na literatura neurocientífica é aquela que aponta para a recuperação, ainda que parcial, de Phineas Gage. Tendo em vista a compreensão contemporânea acerca da plasticidade cerebral, assim como os imprecisos mas fundamentais relatos sobre sua vida subsequente, não me parece incorreto afirmar que Gage, de alguma forma, se recuperou da grave lesão cerebral causada pelo acidente. Nunca saberemos de fato, mas indícios indiretos apontam nesta direção. Macmillan afirma, por exemplo, que o longo período em que Gage trabalhou como condutor de carruagens no Chile - um trabalho exigente em termos de habilidades motoras e cognitivas - é inconsistente com a ideia de que após o acidente ele teria se tornado totalmente indisciplinado, impulsivo e desleixado. De acordo com o mesmo autor, a possibilidade de que Gage tenha se recuperado, ainda que parcialmente, traz consigo importantes consequências teóricas e práticas. Segundo Macmillan tal descoberta "poderia se somar  às evidências atuais de que reabilitação pode ser efetiva mesmo em casos difíceis e graves. Mas também poderia significar que o pesquisadores do funcionamento do lobo frontal teriam de considerar que os lobos cerebrais e suas funções são muito mais plásticos do que pensamos agora". Ainda que esta possibilidade de que Gage tenha se recuperado seja em grande medida especulativa, as demais histórias sobre sua vida e sobre suas supostas mudanças  de personalidade são igualmente especulativas. A dolorosa verdade é que jamais saberemos de fato (e em detalhes) como foi a vida e a personalidade de Phineas Cage antes e após o acidente, assim como jamais saberemos com exatidão quais partes de seu cérebro foram danificadas. E este vácuo, por sua vez, abriu espaço para todo tipo de especulação. Como afirma Sam Kean "a escassez de detalhes concretos sobre Gage provavelmente assegurou sua fama, uma vez que deixou espaço infinito para interpretação e discussão". Assim, para além de um marco na história das neurociências, a curiosa história de Phineas Gage também ilustra com perfeição a facilidade com que uma pequena quantidade de fatos pode ser transformada, ao longo do tempo, em um mito popular e científico. 

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