quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... concentração

Como você avalia sua capacidade de concentração? Você considera que tem conseguido se focar nas suas atividades? E sua memória, como anda? Quando faço perguntas como essas nas palestras que dou sobre concentração e memória, a resposta da plateia, quase sempre, é negativa. Grande parte das pessoas - ou, pelo menos, das pessoas que participam de uma palestra com essa temática - entende que sua concentração e sua memória estão muito aquém do que gostariam. Especificamente no caso da concentração, o descontentamento geral é tão grande que não consigo ver como uma simples coincidência a proliferação de diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Isto ocorre, em grande medida, porque vivemos em um mundo que favorece imensamente a desatenção e a hiperatividade. Como já argumentei inúmeras vezes neste blog, este aumento nos diagnósticos de TDAH não é simplesmente o resultado de mudanças ou diferenças no funcionamento cerebral das pessoas, mas também, e especialmente, de mudanças no funcionamento do mundo - isto para não falar do papel da banalização dos diagnósticos psiquiátricos na atualidade. Pois de fato, nunca tivemos acesso a tanta informação e com tanta velocidade; e isso, certamente, tem um impacto gigantesco na nossa capacidade de prestar atenção. Alguns analistas chegam a denominar a atual geração, ironicamente, de Homo Distractus, devido à enorme capacidade que temos de nos distrairmos e nos desfocarmos. Aliás, eu tenho certeza que você sente esta mudança em si próprio. Quem tem mais de 30 anos como eu e não vivenciou, desde criança, a vida digital plena que possuímos hoje - eu sou da época do VHS e do K7, abreviaturas absolutamente sem sentido para uma geração que tem Netflix e Spotify - provavelmente percebe que sua capacidade de se focar em algo por um tempo significativo foi declinando ao longo do tempo. Ler textos longos, como estes que escrevo, se tornou um desafio colossal. Como um sujeito comentou outro dia na página deste blog no Facebook: "Que absurdo. Um texto gigante que eu ficaria um dia inteiro pra ler. Custa resumir?". Para este sujeito, ler um texto grande - e poxa, nem era tão grande assim - é algo que demanda uma capacidade de atenção, mais até do que disponibilidade de tempo, que ele não possui. Aliás, poucos de nós possuímos atualmente.

Mas o que, afinal, é a concentração? E acho importante destacar que eu tratarei aqui atenção e concentração como sinônimos, apesar de alguns autores entenderem como processos diferentes - na verdade, uma diferenciação possível seria compreender a concentração como sinônimo de atenção focada, isto é, como um tipo de atenção, mas eu prefiro entender as duas expressões como referentes ao mesmo processo. Pois bem, iniciemos com duas definições clássicas. A primeira vem do psicólogo Robert Sternberg, autor de um clássico manual de Psicologia Cognitiva, segundo o qual atenção "é o fenômeno pelo qual processamos ativamente uma quantidade limitada de informações disponíveis através dos nossos sentidos, de nossas memórias armazenadas e de outros processos cognitivos". Já a segunda definição vem do psicólogo William James, para quem a atenção "é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis... Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras". Podem parecer definições complicadas, mas de uma forma resumida - como disse o querido leitor, "custa resumir?" - é possível dizer que a atenção é o processo por meio do qual filtramos a realidade. Como não temos a capacidade de perceber, ao mesmo tempo, tudo o que se passa ao nosso redor, temos necessariamente de focar em uma coisa e depois em outra, uma de cada vez - de outra forma, ficaríamos sobrecarregados de informação. A atenção funciona, assim, como o zoom de uma câmera ou como um projetor de luz, permitindo que enxerguemos o mundo por partes, de forma mais ou menos focada. Quando, por exemplo, olhamos de longe para uma floresta, podemos nos focar tanto na floresta como um todo quanto em apenas uma árvore ou em um passarinho que está pousado nesta árvore. Por uma limitação cognitiva não conseguimos enxergar o geral e o específico ao mesmo tempo.

Tente, por exemplo, achar o Wally nesta imagem (e caso você não o conheça, este é o Wally):


Conseguiu? Espero que sim... caso contrário, insista mais um pouco, pois em algum momento você o encontrará! A grande questão é que para achar o Wally você necessariamente tem percorrer os detalhes da imagem com seus olhos, como um projetor de luz que ilumina uma coisa por vez. Talvez você tenha dado sorte e encontrado imediatamente o Wally, mas em geral é necessário alguns minutos para explorar toda ou uma grande parte da imagem - repleta de personagens vestidos de forma parecida com o Wally - até encontrá-lo. Pois bem, esta brincadeira, que foi extremamente popular na minha infância, é uma espécie de teste de atenção - não um teste para avaliar se a atenção da pessoa é boa ou ruim mas um teste que demonstra como funciona e quais são os limites do nosso processo atencional. Mas quais são estes limites? Em primeiro lugar, como já apontei anteriormente, não temos como prestar atenção no geral e no específico ao mesmo tempo. Se você se focasse na imagem como um todo, você jamais encontraria o Wally; para encontrá-lo você precisou se concentrar nas especificidades da imagem. Em segundo lugar, existe um processo, denominado cegueira inatencional, que impede que prestemos atenção em tudo ao mesmo tempo. Se eu te perguntasse, por exemplo, se você viu na imagem uma mulher levando um tombo, provavelmente você dirá que não, pois você estava focado em encontrar o Wally. Pois a cegueira inatencional diz respeito exatamente a isso. Como apontam os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons (que mencionei no post anterior), “quando a pessoa focaliza a atenção especificamente em uma área ou aspecto do mundo visual, tende a não reparar em objetos inesperados, mesmo que se destaquem, que sejam potencialmente importantes e apareçam exatamente no local onde está olhando”. Enfim, somos cegos, literalmente cegos, com relação a tudo aquilo que não estamos prestando atenção em determinado momento. Não acredita nisso? Então assista ao video abaixo e tente seguir suas instruções...
 

Esta é uma versão modificada de um experimento clássico idealizado pelos psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons, autores do livro O gorila invisível e outros equívocos da intuição. Como o título do livro dá a entender, no experimento original, que pode ser visto aqui, havia um gorila (ou melhor, um homem vestido de gorila) e não um urso, como neste video publicitário. Mas antes de discutirmos as implicações deste experimento, peço que assista ao próximo video, tentando igualmente seguir todas as instruções.


Então... se você realmente seguiu as instruções dos experimentos (e, obviamente, se você não conhecia estes videos), muito provavelmente você não percebeu nem o urso dançando moonwalk, nem o desaparecimento da cesta de basquete e nem a mudança na cor do banheiro químico - e com relação a este último video, eu aposto que você ficou esperando alguma pessoa vestida de bicho passando ao fundo! Por outro lado, se você percebeu estes elementos ou mudanças, provavelmente você errou as contagens. Agora, se você acertou as contagens e ainda percebeu o urso, a cesta e o banheiro muito provavelmente você já conhecia os videos - ou você é jedi! A grande maioria das pessoas, quando segue corretamente as instruções, não percebe tais elementos ou mudanças - eu já apliquei estes experimentos em diversas palestras e a grande maioria das pessoas nunca vê nada de diferente. E por que isso acontece? A explicação, como você já imagina, passa pela cegueira inatencional. Quando estamos focados em uma coisa deixamos de ver outras... e não há nada que possamos fazer a respeito. Como apontam Chabris e Simons, “a estrutura do corpo humano não nos permite voar, assim como a estrutura da mente não nos permite perceber conscientemente tudo ao nosso redor”.

Pois bem, a cegueira inatencional ajuda a explicar também dois fenômenos interessantes: o efeito Stroop e a chamada cegueira para mudança. Começemos pelo efeito Stroop.



Agora passemos para a cegueira para mudança. Veja os dois videos abaixo. 

 


Analisemos primeiramente o efeito Stroop (nome dado em homenagem ao pesquisador John Ridley Stroop, que descobriu este efeito). Pois bem, o efeito Stroop diz respeito à dificuldade que temos em dizer a cor de uma palavra que se refere a uma outra cor. A primeira parte do experimento é muito simples, pois não há contraste entre cor e palavra, mas a segunda parte é bem mais complicada, pois existem dois estímulos chamando nossa atenção ao mesmo tempo (cor e palavra). Esta dificuldade inicial se deve ao fato de não possuirmos a capacidade de focar nossa atenção em dois ou mais estímulos complexos ao mesmo tempo. Mas à medida que o exercício prossegue acabamos por aprender que precisamos ignorar o que está escrito e nos focarmos somente na cor. Quando conseguimos fazer isso, reduzindo o número de estímulos para somente um, passamos a realizar o exercício sem maiores dificuldades. 

Agora passemos para o fenômeno da cegueira para mudança. Mas antes, peço que tentem encontrar em cada imagem abaixo um elemento que muda quando ela pisca.




Conseguiu encontrar? Bom, tenho que confessar que eu demorei um bocado para perceber as mudanças, que agora me parecem tão evidentes. E por que temos, em geral, esta dificuldade? A resposta passa pelo curioso fenômeno da cegueira para mudança, que como o próprio nome dá a entender, diz respeito à dificuldade que temos em perceber mudanças no mundo. Os videos acima deixam isto bastante claro. No primeiro deles, a vítima da "pegadinha" (o senhor de barba), não consegue perceber que o homem para quem ele está dando uma informação não é mais a mesma pessoa - o mesmo ocorrendo com cerca de 50% dos participantes da pesquisa. Já no segundo video, as pessoas simplesmente não conseguem perceber não só que a atendente atrás do balcão não é mais a mesma pessoa mas também que a roupa e o cabelo são completamente diferentes. Mas porque diabos isso acontece? A resposta é que as "vítimas" de tais estudos (e cabe apontar que muitas pesquisas da área de psicologia se parecem muito com "pegadinhas") não conseguem perceber as mudanças porque não estão prestando a devida atenção na fisionomia das pessoas que estão lhe ajudando naquele momento. No primeiro caso, o senhor está focado em explicar para o sujeito onde se localiza determinado prédio no campus universitário. Já no segundo caso, as pessoas estão focadas provavelmente nos próprios pensamentos ou no objetivo que as conduziu até aquela loja. Difícil saber exatamente, mas o fato é que aquelas que caíram na "pegadinha" não estavam prestando atenção na fisionomia das atendentes - assim, como, em geral, não prestamos atenção na fisionomia dos motoristas de ônibus ou das pessoas que distribuem folhetos na rua. Isto ocorre também porque em 99,99% das vezes as pessoas não se transformam em outras repentinamente, o que significa que a nossa mente não está, de forma alguma, preparada para mudanças abruptas e sem sentido como essas. Mas a cegueira para mudança ajuda a explicar também porque os "jogos dos 7 erros" são, algumas vezes, tão desafiadores e ainda porque não conseguimos detectar facilmente erros de continuidade nos filmes (e os filmes são repletos desses erros!). Isto ocorre porque não conseguimos focar em todos os elementos de uma imagem ou de um video ao mesmo tempo. Se focamos em um aspecto da realidade, acabamos por desfocar de outros.

Tudo isto me traz à seguinte questão: se a atenção tem tantos limites, isto significa, então, que não é possível fazer várias coisas ao mesmo tempo? A resposta para esta questão é complexa, mas pode ser resumida com uma simples palavra: depende. Mas depende do que? Depende do nível de complexidade, de automatismo e de dispêndio de "energia mental" das tarefas que você se propõe a fazer simultaneamente. É possível, por exemplo, cozinhar e falar ao telefone? Sim e não. Na verdade tudo depende da sua habilidade na cozinha e da profundidade da conversa ao telefone. Se você cozinha já há muito tempo, provavelmente você desenvolveu uma série de automatismos que fazem com que cozinhar demande menos "energia mental" para você do que para alguém que está iniciando na arte da cozinha - o mesmo vale para todas as demais habilidades, como dirigir, estudar e manipular o smartphone. No início é difícil mas, com o tempo, fica mais fácil. Isto significa que se você é um expert no fogão muito provavelmente cozinhar e falar ao telefone, especialmente por viva-voz, não lhe prejudicará muito. Agora, se você não está habituado a cozinhar ou se você está preparando um prato novo, pode ser que falar ao telefone lhe prejudique. Mas tudo depende também da complexidade desta conversa ao telefone: caso se trate de uma conversa leve e casual, que pode ser interrompida eventualmente, é provável que o ato de cozinhar não saia prejudicado. Agora, caso se trate de uma conversa difícil - tipo uma DR - muito provavelmente a preparação do alimento sairá prejudicada, pois a conversa provavelmente demandará grande "energia mental". Bom, acho que você já captarou o ponto: é possível sim fazer simultaneamente duas ou mais coisas desde que apenas uma delas demande grande "energia mental" - ou, dizendo de outra forma, demande grande capacidade atencional. Isto significa que não é possível fazer ao mesmo tempo duas ou mais atividades complexas e não-automatizadas - como, por exemplo, estudar e falar ao telefone, dirigir e assistir um filme ou andar de bicicleta e mexer no celular. Caso você tente fazer estas duas coisas ao mesmo tempo, alguma delas certamente sairá prejudicada. Isto significa também que muito do que as pessoas chamam de multitarefa ou multitask na verdade se trata de uma realização intercalada ou alternada de tarefas e não propriamente de uma realização simultânea. Quando algumas pessoas dizem, por exemplo, que as mulheres conseguem fazer mais coisas ao mesmo tempo do que os homens isto significa, na verdade, que elas conseguem (ou melhor, conseguiriam) mudar rapidamente de uma tarefa para outra e não que fazem tudo ao mesmo tempo, o que não é seria possível.

Bom, para finalizar esta longa reflexão - e eu aposto que a maioria das pessoas não chegará até aqui (e se você chegou, meus parabéns!) - gostaria de trazer uma última questão: tendo em vista tudo isso, o que podemos fazer para melhorar nossa atenção? Pois bem, como para a maioria das questões humanas, não há uma receita, um caminho fácil ou uma panaceia. Certamente é possível encontrar na internet infinitos picaretas vendendo falsas promessas e ilusões sobre como "melhorar sua concentração" e "potencializar sua memória" e, exatamente por isso, você deve ficar muito atento para não cair em suas teias. Pois o fato é que não é nada simples melhorar sua atenção. Uma primeira possibilidade, nesse sentido, é tentar reduzir o número de distratores, isto é, de elementos que geram distração. Se você precisa se concentrar no estudo para uma prova ou concurso, por exemplo, talvez ajude se você buscar um local silencioso para estudar, tipo uma biblioteca pública. Desligar o celular (e não somente colocá-lo no silencioso) também pode ajudar, pois certamente uma das principais fontes de distração atualmente são os smartphones. Deixar o notebook em casa e estudar totalmente offline, utilizando-se somente dos livros, apostilas e cadernos, também pode ser útil, pois é muito comum que uma simples pesquisa no Google desencadeie uma série de outras buscas e visitas ao seu email, ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram, ao seu site de cinema favorito, a um video de gatinho no Youtube etc... quando você se dá conta se passaram 3 horas e o seu estudo, nesse meio tempo, foi pras cucuias. Todo cuidado é pouco! Enfim, tentar eliminar o máximo possível de distratores externos pode auxiliar muito à concentração. Afinal, como bem disse o economista e prêmio Nobel Herbert Simon, "riqueza de informações cria pobreza de atenção". 

Mas o problema é que existem também os distratores internos, isto é, os nossos próprios pensamentos e sentimentos, que não podem ser simplesmente eliminados, no máximo controlados. Neste sentido, participar de atividades que ajudem a acalmar a mente e diminuir a ansiedade, como ioga, meditação e tai chi chuan pode ajudar - afinal, se você está ansioso você está pensando no futuro e se você está pensando no futuro você não está vivendo o presente e se você não está vivendo o presente você não está concentrado na sua tarefa. A questão é que ainda que tais atividades ajudem - e certamente elas ajudam - nenhuma delas resolverá totalmente o problema, pois é muito difícil manter a mente calma o tempo todo, especialmente nos momentos mais turbulentos da vida. Como eu disse, não há uma solução simples. O que penso ser realmente fundamental é realizar um esforço consciente de fazer uma coisa de cada vez e de estar em apenas um "lugar" a cada momento. Quando, por exemplo, um estudante fica na sala de aula alternando sua atenção entre o celular e a fala do professor, ele está tentando viver duas vidas ao mesmo tempo: a vida real e a vida virtual. Como já sabemos que não é possível prestar atenção em duas coisas complexas de um só vez, provavelmente, neste caso, a vida real sai perdendo. Fundamental, neste caso, seria o estudante tomar uma decisão: ou se focar totalmente na fala do professor e viver a vida real ou se focar totalmente no celular e viver plenamente a vida virtual. Tentar se dedicar às duas coisas ao mesmo tempo, como temos feito com grande frequência, só poderá resultar em perda da nossa capacidade de concentração. Eu não poderia discordar, nesse sentido, da preciosa recomendação feita pelo jornalista Pedro Burgos no livro Conecte-se ao que importa: um manual para a vida digital saudável: “Minha regra é o bom-senso ou qualquer derivação da frase 'esteja totalmente no lugar onde você escolheu estar'”.  

domingo, 22 de outubro de 2017

A ilusão da memória

No sombrio Blade Runner 2049, continuação do clássico de ficção científica Blade Runner, lançado em 1982, acompanhamos o caçador de andróides K., interpretado pelo ator Ryan Gosling, no percurso de uma complexa investigação com potencial para implodir a diferenciação e a relação entre humanos e replicantes. Não entrarei em detalhes da narrativa, me concentrarei apenas em uma questão importante, embora não central, da história, que se refere ao fato do blade runner K., um replicante (isto é, um robô humanizado), ter memórias da infância quando, de fato, ele não teve uma infância. Como todos os demais replicantes, K. foi construído "adulto" e, portanto, sempre foi exatamente da forma como se apresenta no presente. Isto significa que suas memórias de infância, embora lhe pareçam extremamente reais, não passam de invenções, de criações, de ilusões concebidas por seus criadores para lhe dar uma sensação de humanidade. A grande questão é que tais memórias lhes são tão vívidas que K. se questiona o tempo todo se ele não teve, de fato, uma infância. Na verdade, o fato de saber, racionalmente, que tais memórias foram implantadas, não impede que ele as sinta como verdadeiras. Tudo isto significa que sua investigação não é apenas objetiva, mas também subjetiva. Seu intuito não é simplesmente desvendar certo acontecimento, mas também, desvendar a si mesmo, tentando chegar, em ambos os casos, a alguma verdade sobre as coisas. Como afirma em determinado momento, "estamos todos à procura de algo real".

Saindo da ficção e voltando para a realidade, gostaria de trazer e discutir a seguinte questão: se as memórias do replicante K. são claramente inventadas, embora ele sinta que não, será que podemos concluir que as memórias humanas, isto é, as nossas memórias dos acontecimentos que vivemos, são reais? Certamente toda memória é real na medida em que é sentida como real por quem se lembra, mas a questão não é tão simples assim. A questão é saber se as nossas memórias, que sentimos como reais, de fato correspondem a acontecimentos reais que ocorreram no passado. Enfim, nossa memória funciona como um filme ou como um computador que reproduz em nossa mente exatamente o que aconteceu ou ela não é tão fiel assim aos acontecimentos? Uma significativa parcela da população tende a acreditar na primeira opção. Como apontam os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons no fantástico livro O gorila invisível e outros equívocos da intuição, uma ampla pesquisa encomendada por eles encontrou que 47% dos 1500 participantes acreditava que "se você vivencia um evento e forma uma lembrança na memória, essa lembrança não muda", ao passo que 63% concordava com a afirmação de que "a memória humana funciona como uma filmadora, gravando com precisão os eventos que vemos e ouvimos, de forma que podemos revê-los e inspecioná-los mais tarde". Como você já deve estar suspeitando, esta visão de que a memória é fixa e fiel aos acontecimentos não passa de um equívoco ou, mais precisamente, de uma ilusão - denominada pelos autores de "ilusão da memória". 

Episódio The entire history of you
Mas se a memória humana não funciona como no episódio The entire history of you da série Black Mirror - no qual os personagens possuem implantes nos olhos que registram em video tudo o que vêem - então como ela funciona? Pois bem, a nossa memória, exatamente por não funcionar como um filme, não armazena tudo o que é capturado pelos sentidos. Na verdade, a concentração funciona como um primeiro filtro: não memorizamos aquilo que não focamos nossa atenção. Se, por exemplo, não prestamos atenção em uma determinada aula porque estávamos "viajando na maionese", jamais o seu conteúdo será "armazenado" em nossa memória. E mesmo se prestarmos atenção e nos mantivermos 100% focados, a grande maioria das informações certamente se perderá. Tente se lembrar de alguma palestra que você assistiu ou de uma viagem que você fez 5 ou 10 anos atrás. Muito provavelmente você não se lembrará mais dos detalhes, exceto dos mais marcantes e emocionalmente relevantes, sendo capaz de se recordar, se muito, apenas dos fatos mais gerais. No caso da palestra, por exemplo, você pode até se lembrar do tema e da conclusão geral do palestrante, mas dificilmente se recordará de frases específicas ou de qual era a cor da camisa dele. Já no caso da viagem, você pode até se lembrar de quais cidades conheceu e dos pontos turísticos que visitou, mas dificilmente se recordará do nome do restaurante que foi no segundo dia ou de informações específicas sobre certo monumento histórico ditas pelo guia de turismo. Enfim, logo após você viver determinada experiência, as memórias estarão "frescas" e provavelmente você se lembrará de alguns detalhes - ao passo que muitos outros serão perdidos instantaneamente -, mas à medida que o tempo passa você se lembrará cada vez menos daquilo que viveu, restando, quando muito, apenas algumas impressões gerais. Mas a questão, neste caso é: o quão reais são essas "impressões gerais" e os poucos detalhes que conseguimos nos lembrar? Podemos ter a certeza de que essas lembranças que permanecem correspondem exatamente àquilo que foi vivido? 

Infelizmente, a resposta, mais uma vez, é negativa. Nossas memórias, inclusive as mais marcantes, não são exatas como um video de determinado acontecimento. Pelo contrário, elas são continuamente reconstruídas cada vez que são recuperadas e narradas. Além disso, estão sujeitas a múltiplas influências e interferências seja de nós mesmos (através de nossas expectativas e fantasias) seja de outras pessoas (através de sugestões e manipulações), podendo ser distorcidas e mesmo inventadas. Todos nós estamos sujeitos, quer queiramos ou não, à criação de falsas memórias, isto é,  de "lembranças de eventos que não ocorreram, de situações que não foram presenciadas, de lugares jamais vistos, ou então, de lembranças distorcidas de algum evento". Difícil saber se tais memórias são a regra ou a exceção; o que de fato sabemos é que elas existem, são frequentes, podem acometer todas as pessoas e causam uma série de problemas em situações diversas, como, por exemplo, nos tribunais, onde comumente as testemunhas de um crime são solicitadas a relatar em detalhes o que realmente aconteceu em determinada situação - e não simplesmente o que elas acham que aconteceu. A grande dificuldade neste e em outros casos é que é praticamente impossível determinar se a lembrança é verdadeira ou falsa, haja vista que, muitas vezes, não há como confirmar o relato por outros meios. E é justamente em função desta enorme incerteza – e da comprovação de inúmeros casos de falsas memórias que levaram à condenação de pessoas inocentes – que a utilização de provas testemunhais vem sendo, já há muitos anos, questionada e relativizada.

Pois bem, mas como será possível criar falsas memórias? De acordo com a literatura sobre o assunto, tais memórias podem se originar basicamente de duas maneiras: de forma espontânea e de forma implantada ou sugerida. No primeiro caso, as falsas memórias são criadas naturalmente no processo de recordação e esquecimento. Funciona mais ou menos assim: você vive determinada situação; o tempo passa e você se esquece dos detalhes - você continua se lembrando do que aconteceu mas não tanto de como aconteceu; ao relembrar a situação ou contá-la para outra pessoa, você preenche as lacunas de sua lembrança com elementos e detalhes que não ocorreram de fato (ou que ocorreram de forma diferente) e ao imaginar estes novos detalhes você acaba por incorporá-los na memória; e a cada vez que você relembra ou narra esta situação, sua memória vai eliminando, acrescentando ou distorcendo cada um de seus elementos. Todo este processo, cabe apontar, acontece o tempo todo com todas as pessoas em todos os lugares. Ninguém está imune. Já no caso das falsas memórias implantadas ou sugeridas, a criação ocorre em função da influência, proposital ou não, de terceiros. Um bom exemplo disso pode ser visto no filme A caça - que já analisei anteriormente - no qual um psicólogo, por meio de perguntas tentenciosas, induz uma garotinha de 5 anos a criar uma falsa lembrança de abuso sexual. Um outro exemplo, mais recente, pode ser encontrado no filme Otherlife, atualmente disponível no Netflix, que retrata uma empresa que oferece a seus clientes a possibilidade de viver, ilusoriamente, experiências intensas em lugares magníficos através da utilização de um "software biológico", que consiste de uma substância que é colocada nos olhos das pessoas. A ideia desta tecnologia é criar novas (e falsas) memórias através da vivência virtual de tais situações. Como afirma uma das sócias da empresa Otherlife no filme, "criamos experiências que são difíceis de distinguir do que é real. Para o cérebro, fantasia e realidade são, quimicamente, a mesma coisa". Nestes dois casos - no primeiro de forma realista e no segundo de forma ficcional - vemos como uma memória pode ser criada através de influências e/ou interferências externas.

Em geral, tanto no caso das falsas memórias espontâneas quanto no caso das falsas memórias implantadas ou sugeridas, a imaginação tem um papel fundamental. Ao imaginarmos determinada cena que não ocorreu, seja por "iniciativa" própria  ou induzidos por outra pessoa, acabamos por empalidecer ainda mais a já pálida distinção entre imaginação e memória - afinal, a memória nada mais é do que a imaginação de eventos do passado, ao passo que a imaginação nada mais é do que a criação de "imagens mentais" a partir de elementos advindos da memória (para imaginarmos um elefante rosa, por exemplo, precisamos ter memórias tanto da forma de um elefante quanto da cor rosa... jamais conseguiremos imaginar algo totalmente novo, sem que tenhamos memórias de seus elementos). Nas crianças, em especial, a distinção entre memória e imaginação é ainda mais pálida do que nos adultos - e não é por outro motivo que elas são muito mais susceptíveis à criação de falsas memórias. E este fato também explica porque muitas das falsas memórias mais vívidas e intensas dos adultos se referem a eventos alegadamente ocorridos na infância. Aliás, grande parte dos experimentos mais clássicos de "implantação de memórias" foram conduzidos de forma a criar falsas memórias de eventos infantis. Pense, por exemplo, no clássico experimento da pesquisadora Elizabeth Loftus, que conseguiu implantar em uma significativa parcela dos participantes da pesquisa (25%) a memória de que eles se perderam no shopping quando eram crianças. Neste caso, a memória foi "implantada" por meio de falsos relatos de parentes, que teriam descrito em detalhes esta situação inventada, gerando no participante uma imaginação da cena e, posteriormente, uma falsa memória. Outros experimentos igualmente criativos conseguiram implantar falsas memórias variadas, como a de que o partipante, quando criança, viajou de balão, se afogou e foi regatado por um salva-vidas ou presenciou uma posseção demoníaca. Em comum, todos estes experimentos se utilizaram de metodologias que tinham como objetivo criar nos participantes a imaginação de eventos que não ocorreram. Afinal, como bem sabem os pesquisadores, da imaginação para as falsas memórias é só um pulo.

Enfim, com esta breve discussão sobre a "ilusão da memória", gostaria de apontar para a natureza construtiva de nossas lembranças, isto é, para o fato - já amplamente comprovado por meio de experimentos na área da psicologia cognitiva - de que nossas memórias não são exatas como gostaríamos que elas fossem. Frequentemente nos esquecemos e distorcemos coisas que aconteceram e nos lembramos de coisas que não aconteceram... e não há nada que possamos fazer para evitar. Na verdade, o máximo que podemos fazer é aceitar a imperfeição de nossa memória e compreender, tal qual o protagonista do filme Ela, que "o passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos". Muito embora todos estejamos, como o Agente K., "à procura de algo real", diferenciar realidade de fantasia, no caso das nossas memórias, não é algo nada simples.

Sugestão de video: A ficção da memória - Palestra da psicóloga Elizabeth Loftus

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Precisamos falar sobre... pornografia

Ela está por toda parte, embora pareça invisível. Falamos pouquíssimo dela, ainda que ela faça parte da vida e do cotidiano de uma significativa parcela da população. Para algumas pessoas religiosas ela é uma forma de pecado, para algumas feministas uma forma de opressão contra a mulher, para alguns cientistas ela prejudica o cérebro e vicia como uma droga, para alguns psicólogos ela influencia negativamente nas relações e nos processos de desenvolvimento, ao passo que para muitos homens e mulheres ela é vista e praticada como uma forma saudável de se estimular a fantasia e exercer a sexualidade. Sim, você já sabe do que eu estou falando. Eu estou falando da pornografia. O que me traz a esse tema complexo, delicado e pouco explorado são os fantásticos documentários Pornocracy e Rocco, atualmente disponíveis no Netflix. Comecemos pelo primeiro, uma primorosa investigação sobre a "indústria pornô", conduzida pela ex-atriz pornô, diretora de filmes adultos e escritora feminista Ovidie. Neste documentário, a diretora nos traz e tenta responder a uma questão inquietante: se o advento da internet no fim dos anos 1990 teve o impacto de uma bomba atômica na anteriormente ultralucrativa e glamourosa indústria pornô - na medida em que ninguém atualmente precisa mais pagar para ter acesso a imagens e videos pornográficos - quem está de fato lucrando com a pornografia? E sua resposta passa pela emergência de um megaconglomerado pornô, administrado pela empresa MindGeek, que atualmente controla os principais sites pornográficos. Curiosamente, esta empresa é dirigida por um empresário da área de tecnologia de informação totalmente à parte do mundo pornô. Para ele, como para muitas outras pessoas, a pornografia é um negócio como outro qualquer, isto é, um meio de se ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Pois bem, que a pornografia é um negócio lucrativo - e também um negócio que se beneficia, em grande medida, da exploração de mulheres - poucos questionarão. Mas a questão que eu gostaria de trazer neste post é se a pornografia pode ser reduzida a um mero negócio. Que algumas pessoas lucram com ela, isto é óbvio, mas existem pessoas que também lucram com o cinema e com a literatura e poucos diriam que o cinema ou a literatura se resumem a formas de se ganhar dinheiro. Em alguma medida estes artefatos são também manifestações artísticas - e o são justamente por atenderem a certas necessidades ou anseios humanos, demasiado humanos, como as necessidades por expressão, por identificação, por reflexão, por imaginação e por significado. Mas a quais necessidades ou anseios a pornografia atende ou tenta atender? Porque certamente ela responde a alguma necessidade humana profunda. De outra forma, porque, afinal de contas, as pessoas consumiriam tanta pornografia todos os dias em todas as partes do mundo, como demonstram inúmeros dados e pesquisas sobre o tema? Algum motivo deve haver - ou vários. Pois bem, esta complexa questão me traz ao fantástico e chocante documentário Rocco, que acompanha o famoso ator pornô Rocco Siffred durante o período que culminou com a gravação de sua última cena. Este filme traz tantos elementos para reflexão que eu precisaria de vários textos para analisá-lo com toda a profundidade que ele merece. Tratarei aqui apenas de alguns aspectos pertinentes à questão de quais necessidades humanas a pornografia atende ou pretende atender.

O documentário tem início com uma interessante fala de Rocco - que é dita enquanto a câmera expõe em close o seu pênis: "Eu penso em mim como alguém que foi pago para ser a pessoa que queria ser". Veja bem, ele não está dizendo que foi pago para ser aquilo que muitos homens gostariam de ser, o que também seria verdade. Ele está dizendo que foi pago para ser o que ele próprio gostaria de ser - e com isso ele sugere que os outros homens não são (e nem são pagos para ser) o que gostariam de ser. Os homens, em geral, se reprimem e são reprimidos, poderia ter dito Rocco, mas ele não. Ele sempre pôde dar vazão aos seus desejos. E de fato, ao longo de sua extensa carreira, Rocco pôde colocar em prática todas ou quase todas as suas fantasias sexuais, especialmente aquelas mais sórdidas e violentas, algo que a maioria dos homens apenas sonhou fazer. E veja bem que eu estou falando dos homens e não das pessoas em geral porque embora a pornografia seja consumida por homens e mulheres, sem dúvida alguma o maior público consumidor é masculino. Na verdade, a pornografia é, em grande medida, voltada para o homem e seu prazer. O objetivo imediato da maioria absoluta das produções pornôs é simples: fazer o homem (o ator e o espectador) gozar - e tanto isto é verdade que a maioria das cenas se encerra com a ejaculação masculina. O gozo feminino ou a encenação do gozo feminino não tem valor em si, só servindo na medida em que contribui para o gozo masculino. Muito embora as cenas pornôs em geral se foquem nos corpos das mulheres, sendo o homem apenas um pênis sem rosto, o foco primordial, o objetivo final e o elemento central é o homem e seu prazer. O pornô, em geral, não passa de uma celebração da potência masculina.

Os filmes de Rocco não fogem desta regra - pelo contrário, eles a levam a níveis extremos. Como o documentário expõe com grande crueza, eles são totalmente focados na dominação masculina e, consequentemente, na submissão feminina. As cenas de gravação, neste sentido, são incrivelmente chocantes (pelo menos para mim), na medida em que expõem a grande violência a que as atrizes são submetidas nos sets de filmagem. Certamente é possível contra-argumentar que elas o fazem por livre e espontânea vontade como parte de uma relação comercial (na qual elas vendem o próprio corpo em troca de dinheiro) e também que algumas realmente gostam da submissão durante o ato sexual - caso, por exemplo da atriz pornô feminista Kelly Stafford que afirma em certo momento do documentário: "Como eu posso estar me humilhando como mulher se é isto que eu quero? Se sou eu que estou aproveitando, sou eu que quero fazer isso, nunca é humilhante. Eu não quero ser humilhada. Quero mostrar que sou mulher. Sou uma mulher forte. Preciso de um homem forte para me foder". Esta atriz, não por acaso escolhida por Rocco como parceira de sua última cena, afirma ainda, em tom elogioso, que o sexo com Rocco ocorre "em um nível muito animalesco, é muito bruto". E isto talvez ajude a explicar o apelo que os filmes pornôs, especialmente os mais violentos, como aqueles produzidos por Rocco, tem sobre muitos homens. Talvez tais produções permitam que os homens façam, pelo menos no terreno da fantasia (na medida em que se colocam imaginariamente na pele de Rocco) aquilo que não podem ou não conseguem fazer na realidade. Afinal, transar de forma "animalesca" e "bruta" na vida real é bem mais complicado, pois depende necessariamente do consentimento da pessoa, homem ou mulher, com quem você pretende fazer sexo - de outra forma você estaria cometendo o crime de estupro.

Na análise que fiz da série Westworld, que retrata um "parque de diversão" para adultos onde tudo é permitido, escrevi que a atratividade deste parque se devia justamente ao fato dele permitir aos participantes, majoritariamente homens, um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade - em um ambiente controlado e seguro. Pois a mesma coisa pode ser dita da pornografia: ela permite aos seus usuários vivenciar situações sexuais e violentas, extremas ou não, sem, supostamente, quaisquer constrangimentos e efeitos colaterais. Como bem afirma a jornalista Pamela Paul no interessante livro Pornificados: como a pornografia está transformando a nossa vida, os nossos relacionamentos e as nossas famílias, "a pornografia dá sem exigir esforço". Em outro momento, falando especificamente sobre o consumo de pornografia por homens envolvidos em relacionamentos estáveis, a autora afirma: "a pornografia proporciona a exitação adicional de outras mulheres sem o perigo de realmente estar com elas" - e por perigo ela quer dizer, na verdade, "sem as implicações de se relacionar com uma mulher real". Afinal de contas, as mulheres reais não agem como as mulheres nos filmes pornôs: elas não estão disponíveis e com vontade para o sexo o tempo todo, não se atiram sem pudor para cima dos homens, não aceitam todas as práticas e posições sexuais e, muitas vezes, gostam de estar no controle e desejam que os homens se preocupem com o prazer delas. Enfim, na vida real, elas são pessoas completas e complexas e não simplesmente "objetos" do prazer masculino. Na pornografia, pelo contrário, o foco está majoritariamente no controle e no poder masculinos. Como afirma Pamela Paul "o enfoque é sobre uma mulher (ou, cada vez mais, várias mulheres) a serviço do prazer sexual do homem".  

Bom, talvez uma palavra chave em toda esta discussão seja "controle", afinal a pornografia serve em grande medida para dar aos homens não o controle, mas a ilusão de controle sobre as mulheres e o mundo. Se na vida real, os homens tem um poder limitado - ainda que, em geral, maior do que as mulheres (não nos esqueçamos jamais: vivemos em um mundo machista!) - no pornô os homens são soberanos, são reis que tudo podem e tudo fazem. Como afirma Pamela Paul, "a pornografia, literalmente, cria um mundo sonhado, livre de exclusões, constrangimentos, competitividade estressante e rejeição", o que, certamente, é algo extremamente tentador. E não é por outra razão que muitos homens estejam exagerando no consumo de pornografia: exatamente porque ela, como as drogas e também, em alguma medida, como as artes e as religiões, permite a eles sair temporariamente da dura realidade e adentrar em um mundo onde a vida é mais fácil e manejável. O grande problema é que isto não passa de uma ilusão. Como já discuti anteriormente, não creio ser possível viver só de realidade, mas viver só de fantasia também não me parece algo desejável, nem saudável. A pornografia, certamente tem uma função no mundo contemporâneo - ao que me parece fortemente ligada aos anseios por controle, dominação, fantasia e novidade - mas, ao mesmo tempo, penso que se não soubermos separar ficção de realidade, corremos o risco de nos perder, especialmente quanto trazemos ou tentamos trazer para a realidade elementos que deveriam permanecer no terreno da ficção. Tentar agir como um ator pornô e esperar que sua parceira ou as mulheres em geral se comportem como atrizes pornográficas (ou melhor, como as personagens que elas interpretam nos filmes - sim, elas são atrizes!) só poderá resultar em mais e mais frustração. Afinal de contas, entre o sexo real e a pornografia e entre a realidade e a fantasia há uma distância significativa, impossível de ser totalmente eliminada.

domingo, 15 de outubro de 2017

Clown terapêutico: que palhaçada é essa?

O adulto (en)quadrado e a criança
Os adultos são uns chatos! Tão cheios de problemas, crises e dilemas - e tão "vazios" de tempo, dinheiro e disposição - eles só reclamam da vida e do mundo e se lamentam sobre o que passou e sobre o que virá. O desenrolar da vida, as repetidas perdas e as infinitas exigências do mundo vão fazendo com que eles, ao poucos, se distanciem da criança espontânea, curiosa e criativa que, provavelmente, um dia foram. 

Muitos acabam por se enquadrar (e se "enquadradar", tal qual o protagonista do filme Up - Altas aventuras), tornando-se pessoas amargas, duras e pragmáticas que, diante da ausência de utopias e alegrias, apenas seguem adiante pela vida tentando cumprir as inúmeras obrigações e papéis sociais estabelecidos e constantemente reforçados. 

Mas será possível resgatar essa "alma de criança" e trazer de volta a espontaneidade, a criatividade e a alegria perdidas? Pois esse é justamente o objetivo de uma abordagem desenvolvida pelo psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos, autor do livro "O clown terapêutico", lançado este ano pela editora Bartlebee através de financiamento coletivo (Crowdfunding). 

Fiquei sabendo do trabalho e do livro do Rodrigo - também conhecido como palhaço Mirabel - através da minha mãe, que participa de um dos grupos terapêuticos coordenados por ele em minha cidade natal, Juiz de Fora. Li o livro rapidamente e fiquei encantado com a proposta, que tenta conectar a abordagem da Gestalt-Terapia com a filosofia e a arte do Clown

A ideia, em essência, é buscar na icônica e milenar figura do palhaço e na arte da palhaçaria ensinamentos e técnicas que podem ser utilizados por pacientes e psicólogos durante o processo terapêutico. Como afirma Rodrigo no início de seu livro, "usaremos a sabedoria das tradições circenses na formação dos palhaços e das técnicas que lançamos mão na Psicologia Gestalt e também de outras linhas afins, para auxiliarmos a promover crescimento, perspectiva, e novas e criativas rotas de solução para problemas".

Rodrigo Bastos, isto é, Palhaço Mirabel
Mas o que, afinal de contas, os palhaços tem a nos ensinar? Pois bem, para além de uma figura que gera medo em muitas pessoas - e se você assistiu ao recente filme "It: a coisa", provavelmente você se assustou com o horripilante "palhaço" Pennywise -, o palhaço é também uma figura que escancara para o mundo sua "alma de criança". 

Um palhaço não é simplesmente um ator que pinta o nariz de vermelho, mas sim uma pessoa que expõe para o mundo, com uma lente de aumento, suas forças e suas fraquezas. Enquanto a maioria de nós se esforça cotidianamente para apresentar aos outros somente o nosso "lado bom e nobre", o palhaço aceita que não é perfeito e revela para o mundo sua fragilidade e seu lado ridículo. 

O próprio nariz vermelho seria representativo disso. Como aponta Rodrigo, "segundo reza uma das lendas, ele é vermelho devido aos tombos que a vida deu ao palhaço, aonde  este se machucava ao embebedar-se, pelas noites de frio, pela perda da mulher amada, pela falta de dinheiro, era vermelho por ser um tonto desequilibrado e por isso dava constantemente com a cara no chão. O palhaço sempre foi um grande perdedor e acabou por descobrir que a 'humanidade' adorava vê-lo cair de cara no chão, de bunda no chão, tomar tapas e tortadas na cara".

Enfim, o palhaço representa e traz à tona o que há de mais frágil e ridículo em nós - e se orgulha disso. Seu objetivo de vida, como bem aponta Rodrigo, é ser um idiota e fazer idiotices, algo que os adultos, em geral, fogem como o diabo foge da cruz. Afinal, quem quer ser (ou ser visto como) um idiota? Os palhaços querem. E são. E é por isso rimos deles: porque, no fundo, rimos de nós mesmos e de todas as nossas infinitas idiotices. 

A proposta do Clown Terapêutico, desenvolvida pelo Rodrigo, busca justamente o resgate e a aceitação deste lado idiota e da capacidade de rirmos de nós mesmos. A ideia é recorrer a estratégias lúdicas utilizadas na formação de palhaços para contribuir para o desenvolvimento das pessoas. 

Como aponta Rodrigo, "a terapia baseada em conceitos lúdicos e clownescos busca dar suporte para transformar o indivíduo, dentro de suas possibilidades, numa figura mais divertida, alegre, leve, otimista, criativa, potente e que se importe menos com 'o que os outros vão pensar de mim', até porque 'o que os outros vão pensar de mim' é problema dos outros e não meu".

O objetivo de sua proposta, em suma, é reconectar o adulto chato e quadrado que nos tornamos com a criança espontânea e criativa que um dia fomos. E sendo o palhaço um "adulto com alma de criança", nada mais adequado do que buscar na milenar arte do clown elementos para potencializar o processo psicoterapêutico. 

Mas Rodrigo alerta que não se trata de transformar o adulto em uma criança, o que além de impossível seria indesejável, mas sim de buscar no "espírito da criança" a força para cair e levantar e rir de si mesmo e não dos outros. Como afirma o psicólogo-palhaço, "para ser criança é preciso brincar, para ser palhaço  é preciso brincar, para se tornar um adulto com a capacidade criativa de resolução dos seus problemas é necessário achar sua criança; o palhaço, então, serve de 'meio pelo qual' acessá-la".

Caso você tenha interesse em adquirir o livro "O clown terapêutico", escrito pelo psicólogo e palhaço Rodrigo Bastos, envie um email para oclownterapeutico@gmail.com

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Os robôs levarão ao fim do trabalho?

Dando continuidade à discussão sobre os impactos das novas tecnologias no mundo do trabalho (que já tratei em outros dois posts, veja aqui e aqui), disponibilizo abaixo a tradução que fiz do texto "Will robots bring about the end of work?", escrito por Toby Walsh, professor de Inteligência Artificial da Universidade de Nova Gales do Sul/Austrália e autor do livro “Android Dreams: the past, present and future of Artificial Intelligence”, ainda sem tradução para o português. A versão original deste artigo, publicado no último dia 1° de Outubro pelo jornal britânico The Guardian, pode ser conferida aqui

Hal Varian, economista-chefe do Google, tem uma maneira simples de prever o futuro. O futuro é simplesmente o que as pessoas ricas têm hoje. Os ricos têm motoristas (chauffeurs). No futuro, teremos carros autônomos que nos conduzirão pelas ruas. Os ricos possuem banqueiros privados. No futuro, todos teremos robôs-banqueiros.

Uma coisa que imaginamos que os ricos possuem são vidas de pura diversão (lives of leisure). Então, nosso futuro será aquele em que também levaremos vidas divertidas enquanto as máquinas trabalharão por nós? Poderemos gastar o nosso tempo com coisas mais importantes do que a preocupação com alimento e abrigo?

Voltemos agora para outro economista-chefe. Andy Haldane é economista-chefe do Bank of England. Em novembro de 2015, ele previu que 15 milhões de empregos no Reino Unido, cerca de metade de todos os empregos, estariam sob ameaça da automação. Você esperaria que ele soubesse o que estava falando.

Mas ele não é o único que faz previsões catastróficas. Políticos. Banqueiros. Empresários. Todos estão dizendo a mesma coisa.

"Precisamos urgentemente encarar o desafio da automação e da robótica, que podem tornar o trabalho contemporâneo redundante", disse Jeremy Corbyn na Conferência do Partido Trabalhista em setembro de 2017.

"Os dados do Banco Mundial previram que a proporção de postos de trabalho ameaçados pela automação na Índia é de 69%, 77% na China e 85% na Etiópia", de acordo com o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em 2016.

Realmente soa como se estivéssemos enfrentando o fim do trabalho tal como o conhecemos.

Muitos desses medos podem ser rastreados até um estudo de 2013 da Universidade de Oxford, que estabeleceu uma previsão muito citada de que 47% dos empregos nos EUA estariam sob ameaça de automação nas próximas duas décadas. Outros estudos mais recentes e detalhados fizeram previsões igualmente dramáticas.

Por outro lado, há muito o que se criticar no estudo de Oxford. Do ponto de vista técnico, algumas das previsões do relatório estão claramente erradas. O relatório aponta para uma probabilidade de 94% de que o trabalho de mecânico de bicicleta seja automatizado nas próximas duas décadas. E como alguém que tenta construir esse futuro, eu posso garantir a qualquer profissional da área que não há nenhuma chance de que nós automatizaremos sequer pequenas partes deste trabalho num futuro próximo. A verdade sobre esta questão é que ninguém tem nenhuma ideia real do número de empregos em risco.

Mesmo que tenhamos 47% dos postos de trabalho automatizados, isso não se traduzirá em 47% de desemprego. Um dos motivos é que nós podemos encurtar a semana de trabalho. Esse foi o caso na Revolução Industrial. Antes da Revolução Industrial, muitos trabalhavam 60 horas por semana. Após a Revolução Industrial, o trabalho reduziu-se para cerca de 40 horas por semana. O mesmo pode acontecer com o desenvolvimento da Revolução da Inteligência Artificial.

Outra razão pela qual 47% de automação não se traduz em 47% de desemprego é que todas as tecnologias criam novos empregos, assim como os destroem. Esse foi o caso no passado e não temos motivos para supor que não ocorrerá da mesma forma no futuro. Não existe, entretanto, nenhuma lei fundamental da economia que exija o mesmo número de empregos a serem criados e destruídos. No passado, mais trabalhos foram criados do que destruídos, mas isto não necessariamente ocorrerá no futuro.

Na Revolução Industrial, as máquinas assumiram muitas das tarefas físicas que costumávamos fazer. Mas nós, humanos, ainda ficamos com todas as tarefas cognitivas. Na atualidade, com as máquinas começando a assumir também muitas das tarefas cognitivas, surge uma questão preocupante: o que resta a nós humanos?

Alguns dos meus colegas afirmam que surgirão inúmeros novos empregos, como o de "mecânico de robô" (robot repair person). Não estou totalmente convencido de tais afirmações. As milhares de pessoas que costumavam pintar e soldar na maioria das nossas fábricas de automóvel foram substituídas por apenas um par de "mecânicos de robôs".

Não, as novas profissões terão que gerar trabalhos tanto onde os seres humanos se sobressaem quanto onde escolhemos não ter máquinas. Mas aqui temos uma contradição. Entre cinquenta a cem anos no futuro, as máquinas serão super-humanas. Portanto, é difícil imaginar qualquer trabalho no qual os humanos permanecerão melhores do que as máquinas. Isso significa que os únicos trabalhos que restarão serão aqueles que preferimos que sejam feitos por seres humanos.

Neste contexto, a Revolução da IA envolverá redescobrir as coisas que nos tornam humanos. Tecnicamente, as máquinas se tornarão artistas incríveis. Elas poderão criar músicas que rivalizarão com Bach e pinturas que se igualarão à Picasso. Mas ainda preferiremos obras produzidas por artistas humanos.

Essas obras vão falar sobre a experiência humana. Apreciaremos um artista humano que fala sobre o amor porque temos isso em comum. Nenhuma máquina experimentará verdadeiramente o amor como nós.

Assim como na seara artística, haverá uma re-apreciação do artesanato. Na verdade, vemos isto começando já na cultura hipster. Apreciaremos mais e mais as coisas feitas pela mão humana. Produtos de massa feitos por máquinas tornar-se-ão baratos. Mas os itens feitos à mão serão raros e cada vez mais valiosos.

Finalmente, como animais sociais, também apreciaremos e valorizaremos as interações sociais com outros humanos. Assim, os traços humanos mais importantes serão a nossa inteligência social e emocional, bem como as nossas habilidades artísticas e artesanais. A ironia é que nosso futuro tecnológico não será focado na tecnologia, mas na nossa humanidade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Quando você divide o cérebro, você divide a pessoa?

No último dia 26 de Setembro o site Aeon publicou um interessante artigo escrito pelo cientista cognitivo Yaïr Pinto, da Universidade de Amsterdã. Segue a tradução que fiz desse texto, cuja versão original pode ser lida aqui.

O cérebro é provavelmente a máquina mais complexa do universo. Ele consiste em dois hemisférios cerebrais, cada um com muitos módulos diferentes. Felizmente, todas essas partes separadas não são agentes autônomos. Elas são altamente interligadas, todas trabalhando em harmonia para criar um ser único: você.
 
Mas o que aconteceria se destruíssemos essa harmonia? E se alguns módulos começassem a operar independentemente do resto? Curiosamente, isso não é apenas uma experiência de pensamento; para algumas pessoas, é a realidade.

Nos chamados "pacientes com o cérebro dividido" (split-brain patients), o corpo caloso - a via de comunicação entre os hemisférios cerebrais esquerdo e direito - é cirurgicamente cortado de forma a impedir crises epiléticas intratáveis de outra maneira.

A operação é eficaz para cessar a epilepsia; se uma tempestade neural começa em um hemisfério, o isolamento garante que ela não se espalhe para a outra metade. Mas sem o corpo caloso os hemisférios praticamente não têm meios para trocar informações. 

O que acontece, então, com a pessoa? Se as partes não estão mais sincronizadas, o cérebro ainda produz uma única pessoa? Os neurocientistas Roger Sperry e Michael Gazzaniga decidiram investigar esse problema nos anos 60 e 70, e encontraram dados surpreendentes que sugerem que, quando você divide o cérebro, você também divide a pessoa. Sperry ganhou o prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho sobre o cérebro dividido em 1981.
 
Mas como os pesquisadores comprovaram que dividir o cérebro produz duas pessoas, uma por hemisfério? Através de uma metodologia inteligente que controlava o fluxo de informações visuais para o cérebro.

Eles já sabiam que ambos os olhos enviavam informações para ambos os hemisférios do cérebro - e que o relacionamento entre estes órgãos era complexo. Se você fixou seu olhar em um ponto, então tudo à esquerda desse ponto (o campo visual esquerdo) foi processado pelo hemisfério direito e tudo à direita do seu ponto de fixação (o campo visual direito) foi processado pelo hemisfério esquerdo. Além disso, o hemisfério esquerdo controlou o lado direito do corpo e a produção da linguagem (language output), enquanto que o hemisfério direito controlou o lado esquerdo do corpo.

Quando Sperry e Gazzaniga apresentaram estímulos para o campo visual direito (processados ​​pelo "falante" hemisfério esquerdo), o paciente respondeu normalmente. No entanto, quando os estímulos foram apresentados ao campo visual esquerdo (processado pelo "mudo" hemisfério direito), o paciente disse que não via nada. No entanto, sua mão esquerda desenharia a imagem mostrada. Quando perguntado por que sua mão esquerda fez isso, o paciente pareceu confuso e respondeu que não tinha idéia. 

O que estava acontecendo ali? O hemisfério esquerdo não conseguiu ver o campo visual esquerdo, então, quando um estímulo apareceu lá, ele respondeu, com razão, que não viu nada. No entanto, o hemisfério direito viu o estímulo e indicou isso da única maneira que podia, conduzindo a mão esquerda. A conclusão, formulada por Sperry e Gazzaniga, era clara: um único paciente com cérebro dividido deveria ser entendido como dois pacientes com meio cérebro - tipo gêmeos siameses. Sperry argumentou que esta descoberta superou a mera curiosidade - tendo literalmente provado o conceito de materialismo na área estudos da consciência. Se você divide a pessoa quando você divide o seu cérebro, isso deixa pouco espaço para uma alma imaterial.

Caso encerrado? Não para mim. Nós temos que admitir que os pacientes com cérebro dividido se sentem e se comportam normalmente. Se um paciente com cérebro dividido entra na sala, você não notará nada incomum. E eles mesmos afirmam estar completamente inalterados, além do fato de terem se livrado de terríveis crises epilépticas. Se a pessoa estivesse realmente dividida, isso não seria verdade.

Com o objetivo de ir fundo nesta questão, minha equipe na Universidade de Amsterdã retornou a este problema fundamental, testando dois pacientes com cérebro dividido e avaliando se eles poderiam responder com precisão a objetos no campo visual esquerdo (percebido pelo cérebro direito), enquanto respondiam verbalmente ou com a mão direita (controlada pelo cérebro esquerdo). Surpreendentemente, nestes dois pacientes, encontramos algo completamente diferente do que Sperry e Gazzaniga encontraram antes de nós. Ambos os pacientes apresentaram consciência total da presença e localização dos estímulos em todo o campo visual - direito e esquerdo. Quando os estímulos apareceram no campo visual esquerdo, eles praticamente nunca disseram (ou indicaram com a mão direita) que eles não viram nada. Em vez disso, eles indicaram com precisão que algo havia aparecido e onde. 

Mas os pacientes com cérebro dividido que estudamos não eram completamente normais. Em primeiro lugar, os estímulos não podiam ser comparados ao longo da linha média do campo visual. Além disso, quando um estímulo apareceu no campo visual esquerdo, o paciente se saiu melhor ao indicar suas propriedades visuais (mesmo quando ele respondeu com a mão direita ou verbalmente); e quando um estímulo apareceu no campo visual direito, ele se saiu melhor indentificando verbalmente (mesmo quando ele respondeu com a mão esquerda).

Com base nestes achados, propusemos um novo modelo para a síndrome do cérebro dividido. Quando você divide o cérebro, você ainda continua sendo uma única pessoa. No entanto, essa pessoa experimenta dois fluxos de informações visuais, um para cada campo visual. E essa pessoa não consegue integrar os dois fluxos. É como se ela assistisse a um filme fora de sincronia, mas não com o áudio e o vídeo dessincronizados. Em vez disso, os dois fluxos não sincronizados são ambos videos. E há mais. Enquanto o modelo anterior forneceu evidências fortes para o materialismo (divide-se o cérebro, divide-se a pessoa), o entendimento atual parece aprofundar o mistério da consciência. Você divide o cérebro em duas metades, e ainda assim tem apenas uma pessoa. Como um cérebro, composto por muitos módulos, cria apenas uma pessoa? E como os pacientes com o cérebro dividido funcionam como uma só pessoa quando essas duas partes nem sequer se comunicam uma com a outra?

domingo, 1 de outubro de 2017

Resenha do livro "Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem": como assim "tudo bem"?

Recém-lançado no Brasil pela editora Portfolio-Penguin, o livro Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem: como sobreviver ao colapso econômico e ser feliz tem início com uma interessante e pertinente discussão sobre os impactos da automatização do trabalho na sociedade; no entanto, para minha surpresa e decepção, a obra descamba para um discurso vazio e individualista de autoajuda que em nada contribui ou acrescenta à esta discussão fundamental - que já tratei em um post anterior. Uma pena, realmente. Escrito pelo jovem cientista da computação italiano Federico Pistono, apresentado na orelha do livro como sendo "escritor, empreendedor, pesquisador e palestrante", esta obra consegue demonstrar de forma clara que não só os robôs - ou, mais precisamente os processos de automação e mecanização - vão "roubar" ou substituir muitos trabalhos e aumentar o desemprego, como isto já está ocorrendo em todo o mundo. O grande problema é que o autor não consegue justificar e explicar com igual precisão a segunda parte do título de seu livro - como assim "mas tudo bem"? Enfim, Pistono consegue expor de forma bastante didática o problema, já extensamente descrito e analisado por outros autores (sociólogos, economistas, etc) muito mais gabaritados que ele, mas as soluções propostas pelo autor não passam de fugas ou saídas individuais para um problema que, em essência, é coletivo. A conclusão, contrária à pretendida, não poderia ser mais desesperadora: os robôs vão roubar e já estão roubando os nossos trabalhos e não, não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Na primeira e mais acertada parte do livro, Pistono analisa o impacto dos processos de automação nos índices de emprego e desemprego e sua conclusão não é nada boa: ainda que até o momento a substituição de mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos não tenha levado a um colapso econômico generalizado, o desemprego tem aumentado gradativamente e, no futuro, atingirá níveis astronômicos. Além disso, segundo o autor, os novos empregos criados em função das novas tecnologias não tem sido gerados na mesma proporção que os velhos empregos tem sido substituídos e isto se agravará ainda mais ao longo do tempo. Sua conclusão, pessimista, pode ser resumida pelo seguinte trecho do livro: "Os velhos empregos não vão voltar. Os novos empregos serão sofisticadíssimos, desafiadores técnica e criativamente, e apenas um punhado deles será necessário. A questão é simples: o que farão os trabalhadores não qualificados de hoje? Até agora ninguém foi capaz de responder a esta pergunta. O motivo disso, creio, é que não há resposta. Não nesse sistema, não de acordo com a maneira como é projetado para funcionar". Enfim, os trabalhos serão cada vez mais automatizados e o desemprego aumentará mas... tudo bem? Não! Nada está bem ou ficará bem.

O mito da meritocracia
Na segunda parte do livro, Pistono discute a complexa relação entre trabalho e felicidade, concluindo que se, em geral, o trabalho não gera felicidade - uma estatística apresentada por ele aponta que 80% das pessoas odeiam seu trabalho - o desemprego também gera infelicidade. Resumindo: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Sua visão, igualmente pessimista, é que sendo a felicidade algo tão subjetivo e fugidio, não somos nem seremos felizes trabalhando - e muito menos desempregados. Isto porque, segundo ele, além do fato de a maioria dos trabalhos ser extremamente repetitiva e mecânica (e, portanto, facilmente substituível por máquinas ou algoritmos), mesmo nos trabalhos menos mecanizados as pessoas se habituam às suas realidades e muitas vezes, aquilo que gerava bem-estar no início passa a gerar mal-estar ao longo do tempo - como afirma Pistono, "se você melhora seu padrão de vida, rapidamente se adapta a ele, o qual se torna a norma, e suas expectativa por consequência aumentam". Já o desemprego, por óbvio, gera mal-estar, afinal, se dinheiro não traz felicidade, a falta de dinheiro certamente gera infelicidade. Ah, alguém poderia dizer, mas basta se esforçar para conseguir um bom emprego e ganhar dinheiro, não? Quem se esforça sempre consegue o que quer, não é verdade? Infelizmente nada é tão simples assim. A meritocracia, filosofia que estabelece uma ligação direta entre mérito e poder, não passa de um mito - ou, para sermos um pouco mais otimistas, de uma utopia. Como bem aponta Pistolo, a lógica do sistema capitalista não funciona desta forma e por mais que algumas pessoas se esforcem, elas dificilmente "chegarão lá" - algumas podem até conseguir (e são justamente essas que reforçam o mito) mas a grande maioria não chegará nem perto. Como aponta o autor, "os pobres continuarão pobres e os ricos continuarão ricos, independente do quanto se esforcem". Enfim, mais uma vez a conclusão não é positiva. Não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Tendo em vista todo o cenário catastrófico ou, no mínimo, desanimador descrito nos parágrafos anteriores, quais seriam, então as "soluções" apontadas por Pistono na última parte de seu livro? Quais seriam as saídas possíveis para os problemas apontados que justificariam a visão supostamente otimista demonstrada pelo autor no título do livro? Bem... veja só os conselhos dados pelo autor a seus leitores nos quatro últimos capítulos - denominados "Conselhos práticos para todos", "Construindo o futuro", "Como ser feliz" e "O futuro é lindo":

- Precise de menos, viva mais
- Eduque-se/eduque os outros
- Cultive seu próprio alimento
- Coma menos carne
- Economize energia/produza sua própria energia
- Abandone o carro
- Apoie projetos open source
- Trabalhe menos, seja autônomo
- Não seja um pentelho
- Viva de modo inteligente, isto é:
  * Medite
  * Anote o que precisa de resolução
  * Anote as coisas boas que lhe aconteceram hoje
  * Exercite-se 
  * Pratique atos aleatórios de bondade
  * Cultive novas experiências
  * Estabeleça metas pequenas e realistas
- Gaste com inteligência, isto é:
  * Compre experiências ao invés de coisas
  * Ajude os outros em vez de si mesmo
  * Compre muitos pequenos prazeres ao invés de poucos grandes
  * Faça menos seguros
  * Pague agora e consuma depois
  * Pense sobre aquilo em que não está pensando
  * Cuidado com as compras por comparação
  * Siga o rebanho em vez de sua cabeça

Você pode estar se perguntando (e eu próprio me questionei enquanto lia o livro): o que todas estas dicas e sugestões tem a ver com o problema da substituição da mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos? De que forma "comer menos carne" ou "meditar" pode contribuir para resolver o problema do "desemprego tecnológico"? A resposta é: não pode. Na verdade, a mensagem do autor nesta última parte do livro parece ser a seguinte: "tendo em vista que o problema da automatização do trabalho é insolúvel ou muito difícil de resolver - eu pensei e pensei e não cheguei a nenhuma conclusão - você, isto é, a pessoa que ainda tem um emprego que garante o seu sustento, deve tentar ser feliz. Ignore os problemas sociais amplos e sistêmicos descritos anteriormente e tente resolver a sua situação individualmente - e, se possível, sem prejudicar o mundo. Nada vai ficar bem globalmente - as máquinas vão continuar substituindo pessoas, o desemprego vai aumentar, muitas pessoas vão passar necessidade - mas você, indivíduo-privilegiado-não-descartado-pelo-sistema, pode ficar bem se seguir algumas das dicas que eu estou te dando. Agora, se você está desempregado porque sua função foi substituída por sistemas automatizados, aproveite a oportunidade para curtir a vida, para fazer tudo aquilo que sempre teve vontade de fazer mas não pôde porque estava trabalhando... Ah, mas está sem dinheiro para aproveitar a vida? Que pena... Sobre isso eu não tenho nenhum conselho para te dar". Muito embora Pisono critique os livros de autoajuda - afirmando que "alguns são úteis, mas a maioria não presta para nada" - sua obra, que começa como uma boa análise de um tema fundamental, acaba por desembocar numa autoajuda vazia e inútil. Certamente, seguir os conselhos sugeridos por ele pode fazer bem para cada um de nós individualmente e também para o mundo (por exemplo, quando ele sugere a instalação de painéis solares e a redução no consumo de carne), mas tais sugestões em nada dizem respeito à problemática da automatização. Mais honesto seria ele admitir que não existe solução ou que ele não descobriu nenhuma solução, ao invés de fingir que todas estas pseudosoluções são de fato saídas para o problema apresentado. Não, Pistono, não está tudo bem. E você sabe disso!