segunda-feira, 4 de maio de 2009

Psicólogas, mistérios e machismos


Nos últimos três meses duas mulheres formadas em psicologia (ou psicólogas? – ver discussão aqui) posaram para a famosa revista masculina Playboy. Em março foi a vez de Tatiana Gomes, também conhecida como a "MC Princesa" ou “psicóloga do funk” (ja falei dela nele blog – ver aqui). Agora, em maio, sai Josy, ex-bbb, modelo, cantora... e psicóloga, ou melhor, formada em Psicologia. Não vou adotar, como fizeram outros blogs e sites, uma postura conservadora e preconceituosa e dizer, no caso sobre Tatiana Gomes, "que essas mulheres frutas fiquem rebolando a gente até entende, afinal são burras e só sabem fazer isso, mas uma moça (mãe de dois filhos aliás) educada e inteligente escolher isso é simplesmente inacreditável". Elas fizeram suas escolhas e eu não tenho nada a ver com isso!

O que gostaria de debater em cima desta notícia é o seguinte: a prática profissional da psicologia no Brasil, essencialmente feminina e clínica, é revestida de um manto de mistério que, para muitos (homens), transforma-se em fantasia sexual. O melhor exemplo que encontrei na net foi de Thor, codinome de algum cara que fez a seguinte pergunta para o Yahoo Respostas (ver aqui): "O que devo fazer para namorar uma psicóloga bonita, gostosa, do estilo da Ivete Sangalo?". E ele continua: "Tenho tara por psicólogas! Penso que deve ser muito bom envolver com psicólogas dentro do consultório ou fora dele! Mas gostaria mesmo que fosse dentro do consultório, pois assim iria aumentar minha auto-estima e eu sentiria um verdadeiro homem se acontecesse uma transa dentro do consultório. O que devo fazer para que isso aconteça, já que gosto de mulheres lindas e inteligentes?" A melhor resposta dada a Thor foi a seguinte: "Marque uma consulta com alguém (psicóloga) dentro do perfil que deseja e ai no ato da consulta, quando estiver falando de alguns problemas seus, desejos, frustações, alegrias, medos, etc.....aproveite e se confesse: 'tenho um sonho, sou doidinho, para ter um romance, uma transa com uma psicológa dentro de seu consultório'. Pode não colar, mas ficará por isso mesmo pois elas estão lá para te ouvir e guardar segredo daquilo que diz, não é mesmo?"

O fato é que nossa prática profissional, especialmente a clínica, é um tanto misteriosa para a maioria das pessoas. E este mistério/ desconhecimento abre espaço (como todos os mistérios e desconhecimentos) para a fantasia. "O que será que eles fazem lá dentro?", já ouvi de leigos. O fato de o trabalho clínico ser predominantemente individual, pago e essencialmente íntimo, leva algumas pessoas a comparar psicólogas com, digamos, garotas de programas. Sério, já ouvi isso! Em alguns meios, fundamentalmente masculinos e machistas, esta é a imagem da Psicologia. Sobre esta visão, vejam como a Desciclopédia (versão maldosa e machista da Wikipedia) define Psicóloga:

Prosti..., digo, Psicóloga é a "profissional" que entra numa faculdade (no curso de psicologia obviamente) e depois de cinco anos (ou até mesmo antes), acha que pode ficar ditando tendências de comportamento, só porque fez esse curso tosco e inútil. Então, ela arruma emprego no RH (Reduto de Humilhações) de uma empresa qualquer e tem a função de fazer perguntas insanas e totalmente desprovidas de sentido. Psicólogas não tem outra função na sociedade que não seja a procriação. Não é a toa que hoje em dia elas são o tipo de profissional mais odiada (ganhando até mesmo dos advogados). Essas "profissionais" não conseguem nem resolver o problema delas mesmas, quanto mais o problema dos outros. Em caso de depressão, o mais recomendado é procurar um puteiro ou encher a cara com os amigos. Psicólogas podem dizer que você é talentoso quando você estiver com baixa alto estima, porém cobram para isso o equivalente a duas garrafas de uísque Blue Label do bom, ou seja, não compensa! Procure uma psicóloga apenas se você tiver interessado em fazer sexo com ela. Geralmente é um grande problema porque elas gostam de discutir a relação antes do ato. É uma imensa enrolação e o pior: costumam ser péssimas de cama. Ficam discutindo sua ansiedade em querer enrabá-la e nada de deixar rolar.

Chocante, não?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Terapia em cartoon


Foram lançados recentemente dois livros de cartuns cujos temas estão relacionados com a psicologia clínica (chamada por uns de psicoterapia e por outros de análise). O primeiro é o No divã com Adão (ed. Planeta), do cartunista Adão Iturrusgarai. De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo "todo ser humano é sujeito a traumas, culpas e ressentimentos. Pode fazer terapia para lidar com essas situações... Ou pode fazer humor. Ou ambos, caso do gaúcho Adão Iturrusgarai, que está lançando 'No Divã com Adão' O livro reúne dezenas de HQs curtas que têm em comum não um personagem, mas, sim, uma espécie de equação. Por exemplo: "trocar o nome do amigo: um mês de análise; trocar o nome da namorada: dois meses de análise; trocar o nome da esposa na lua-de-mel: cem anos de análise". Abaixo dois exemplos:




O outro livro recém-lançado é o The New Yorker Cartoons - Terapia (ed. Desiderata), uma coletânea com desenhos de diversos cartunistas publicados no famoso jornal americano desde a década de 1940 - para saber mais clique na figura acima. Segundo o jornalista Sérgio Augusto, tradutor do livro, "Freud, Jung & cia. ficariam horrorizados com o que volta e meia acontece nos consultórios da New Yorker. Não me refiro apenas aos enfarados analistas que nem prestam mais atenção no que seus analisandos dizem, preferindo o som de um walkman (o iPod dos anos 1980), ou aos mercenários que só pensam em dinheiro, contando no relógio os minutos que faltam para a sessão chegar ao fim, mas sobretudo aos que não impõem limites, vale dizer, não reprimem seu instinto homicida, adotando catapultas e alçapões para mais rápida e eficazmente livrar-se de pacientes indesejáveis". Além do indicado, já foram publicados em português os volumes relativos aos temas "Gatos" e "Cachorros". E para Julho está previsto o lançamento de mais 3 volumes, enfocando médicos, advogados e dinheiro. Abaixo alguns cartuns da coletânea sobre terapia:



E já que estamos falando em terapia (ou análise)...



OBS: Todos estes cartuns expressam de uma forma cômica e um tanto exagerada a representação que a sociedade faz do psicólogo e do profissional psi de uma forma geral. Feliz ou infelizmente...

O maior livro de auto-ajuda

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Psicologia no Flamengo


Não gosto muito de futebol, mas, por tradição familiar, sou flamenguista e certamente não vou perder o jogo deste domingo (Flamengo x Botafogo), que decide o Campeonato Carioca deste ano. E qual foi minha surpresa ao descobrir que o Flamengo tem um Serviço de Psicologia a mais de duas décadas - quando nem se falava em psicologia do esporte - e cuja equipe atual (formada por três psicólogos, além de estagiários e colaboradores) criou um interessante blog para discutir e divulgar a promissora área da Psicologia do Esporte (ou Psicologia Esportiva). Modestamente, o site no qual o blog está inserido (do Serviço de Psicologia do clube) se intitula "o principal portal da psicologia do esporte no brasil". Digitando "Psicologia do Esporte" e "Psicologia esportiva" no Google, encontrei de relevante, além do referido site, o da ABRESP (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte - link), da Revista Brasileira de Psicologia do Esporte (link), do CEPPE (Centro de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte - link) e do Paulo Ribeiro (link), um dos psicólogos do time carioca, junto com Erick Conde e da Adriana Lacerda. O video abaixo, diponível no blog indicado, mostra uma interessante reportagem que conta com a entrevista de diversos profissionais desta área que tem, nos últimos anos, crescido substancialmente tanto em termos de pesquisa e atuação quanto de visibilidade (grande parte das notícias sobre psicologia encontradas no Google Notícias, estão relacionadas à Psicologia do Esporte).

terça-feira, 28 de abril de 2009

Esquisitologia - Richard Wiseman

Foi lançado ano passado no Brasil pela editora Best Seller um livro que parece ser bastante divertido: Esquisitologia - A Estranha psicologia da vida cotidiana, do psicólogo americano Richard Wiseman, considerado por Michael Shermer, colunista da revista Scientific American "o psicólogo mais interessante e inovador do mundo atual". Algumas perguntas que o pesquisador se propõe a tentar responder em seu livro são (segundo o site Saúde Lazer): O que a data de nascimento pode lhe dizer sobre sua personalidade? Como o sobrenome influencia na escolha da profissão? Por que os políticos incompetentes sempre vencem as eleições? Qual é a piada mais engraçada do mundo? Por que os moradores de Nova Déli são mais solidários que os de Londres? De acordo com resenha de Leandro Kruszielski (disponível aqui) "todas as informações presentes no livro estão referenciadas com artigos publicados em conceituadas revistas científicas de Psicologia e, às vezes, pelos mais renomados psicólogos. Além disso, não se pode negar em nenhum momento a originalidade da obra e, principalmente, de seu autor". Ainda de acordo com esta resenha Richard "é professor da Universidade de Hertfordshire (...) mas sua fama ultrapassa os muros do ambiente acadêmico. Wiseman é conhecido principalmente por alguns de seus populares vídeos disponíveis na internet (como um vídeo sobre atenção que consegue fazer quase invisível um gorila dançando entre jogadores de basquete [uma adaptação deste video pode ser vista abaixo]) e pelos curiosos resultados de suas próprias pesquisas (como a que aponta Curitiba como a cidade com a maior velocidade de pedestres nas Américas)". Além do citado, o psicólogo tem uma série de videos em seu canal no YouTube (link) bem como outros livros publicados em português: Onde está o gorila? e O fator sorte, seu livro mais famoso nos Estados Unidos.



E ainda: de acordo com o Blog da Firma, Wiseman "participou de testes de diversos supostos “paranormais”, e é inclusive co-autor de um tratado técnico sobre o assunto, “Guidelines for Testing Psychic Claimants”, algo como “Regras para o Teste de Pessoas que Alegam Poderes Psíquicos”. Desses testes talvez o mais curioso tenha sido o que colocou a astrologia em rota de colisão com o mercado financeiro. O experimento envolveu três participantes em entrevista sendo uma astróloga financeira, um analista financeiro e uma criança pequena. Cada participante recebeu a soma hipotética equivalente a R$ 19 mil e a orientação de dizer como o dinheiro deveria ser investido no mercado de ações. A astróloga examinou cuidadosamente a data de formação das companhias. O investidor valeu-se de sua experiência de sete anos e para a criança, foi escrito os nomes de empresas em pedaços de papel para que ela escolhesse três. Ao final de uma semana, o grupo voltou a se reunir. Todos perderam dinheiro, pois foi uma semana difícil para o mercado (no ano de 2001). A astróloga perdeu mais, 10%. O investidor profissional, 7,1%. A criança, meros 4,6%. Curioso foi a astróloga que disse que, se soubesse que a criança era de Câncer, jamais teria jogado contra ela. O experimento foi prorrogado por um ano além da semana original, com os seguintes resultados: o investidor perdeu 46% do capital hipotético; a astróloga perdeu 6,2%. A criança lucrou 5,8%. No mesmo ano, a bolsa de Londres caiu 16%. Foi o ano em que estourou a “bolha” das empresas ponto-com.

Outro video famosíssimo de Wiseman é o “The Amazing Colour Changing Card Trick” (”O Espetacular Truque da Carta que Muda de Cor”), com mais de 3 milhões de acessos no YouTube. Trata-se de um experimento de Psicologia Cognitiva...

Blog sobre esquizofrenia


O ator Bruno Gagliasso, que interpreta o personagem Tarso na novela Caminho das Índias, criou um interessante blog (clique na figura acima para acessá-lo) com o objetivo de discutir a questão da esquizofrenia. Excelente iniciativa de um jovem e talentoso ator! Maiores informações no video abaixo, que conta também com uma entrevista de Jorge Cândido de Assis, portador de esquizofrenia, vice-presidente da Abre (Associação brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizfrenia) e um dos autores do livro "Entre a Razão e a Ilusão: desmistificando a loucura". Ele escreveu também, junto com outras pessoas, uma série de livretos intitulada "Conversando sobre a esquizofrenia" (disponível aqui). Fica a dica!

Relacionamentos modernos



Fonte: Bruno Drummond (Revista O Globo - 26/04/2009)

Falou tudo!!!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Os porcos-espinhos de Schopenhauer


Na esteira do genial escritor Irvin Yalom (que já comentei anteriormente neste blog), foi lançado recentemente pela editora José Olympio um livro que parece ser bastante interessante: Os Porcos-Espinhos de Schopenhauer - A Intimidade e seus dilemas, da terapeuta americana Deborah Anna Luepnitz, que se propõe a discutir o tema da intimidade a partir de cinco casos de psicoterapia e cujo título é baseado na famosa e brilhante parábola do mau-humorado filósofo alemão, que reproduzo abaixo:
 
Num dia frio de inverno, alguns porcos espinhos se juntaram para se aquecerem com o calor de seus corpos. Mas logo viram que estavam se espetando e se afastaram. Ficaram com frio de novo e se juntaram, ficando entre dois males até descobrirem a distância adequada. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas seus muitos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.

Eis a solução para o problema de Schopenhauer:
 

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Psicologia e Saúde na TV - Fantástico


No último Fantástico (TV Globo) foram exibidas três reportagens belíssimas. A primeira trata da esquizofrenia, discutida a partir do personagem de Bruno Gagliasso na novela Caminho das Índias (e que já comentei anteriormente neste blog) - percebam a preocupação da reportagem em utilizar a expressão "portador de esquizofrenia" ao invés da estigmatizante "esquizofrênico"; a segunda retrata um acontecimento que a revista Época chamou de A cura do Doutor Pajé (ver mais aqui) - trata-se da possibilidade, concretizada num hospital público de São Paulo, de conciliar a medicina ocidental tradicional (também chamada de Biomedicina) com outras possibilidades terapêuticas, no caso a intervenção de um Pajé; finalmente, a terceira reportagem, comandada pelo médico Dráuzio Varella, é o segundo episódio da série Transplante: o dom da vida. Já li praticamente todos os livros de Drauzio Varella e sou suspeito para elogiar a série visto que admiro muito seu proponente. Na verdade admiro muito todos aqueles que se propõem a disseminar, de uma forma séria e ética, conhecimentos científicos e/ou filosóficos para parcelas da população que normalmente não tem acesso a estes conhecimentos. No Brasil fazem isto muito bem, além do Drauzio Varella, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, o físico Marcelo Gleiser, o economista e filósofo Edurado Giannetti (este então é genial), dentre outros. Coincidentemente - ou não - todos estes tiveram quadros no Fantástico. A Psicologia brasileira, infelizmente, é carente deste tipo de profissional-difusor. No próprio Fantástico há uma série que trata da Psicologia Evolucionista (intitulada Bicho Homem), mas quem a comanda são os divertidos Evandro Mesquita e Fernanda Torres e não um especialista. Que bom...

Psicologia e "cura" de homosexuais




Saiu no site da revista Época semana passada que "um estudo com 1400 psiquiatras e terapeutas publicado pela revista especializada BMC Psychiatry concluiu que um em cada seis profissionais admite ter tratado pelo menos um paciente para alterar os seus sentimentos homossexuais, mesmo sabendo que a prática é condenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o estudo, as entidades religiosas são as que mais estimulam a crença de que a homossexualidade pode ter "cura". Em um artigo publicado no jornal britânico The Independent, o professor Michael King, da Universidade College Medical School, em Londres, afirma que os jovens encontram esse tipo de promessa principalmente na internet e depois levam a questão para seus terapeutas. 'Se o terapeuta não tem bom senso o suficiente para dizer que o desejo homossexual é uma parte deles e não há nada patológico nisso, os pacientes podem ser seduzidos a tentar a reversão', afirma King". A reportagem completa pode ser lida aqui

Não sou gay, mas também não concordo de maneira nenhuma - enquanto profissional dos direitos humanos - com esse tipo de prática discriminatória (sim, discriminatória, pois se eu parto do pressuposto que a heterossexualidade é o normal e busco "converter" os diferentes tendo em vista o meu referencial, estou negando que outras normalidades e realidades, para além da minha, sejam possíveis). O problema é que muitos psicólogos confundem psicologia com religião e acabam levando alguns princípios religiosos - que deveriam permanecer na esfera privada - para a prática profissional. Aí parece estar o cerne de grande parte das condutas profissionais equivocadas na psicologia. O ponto-chave é que da mesma forma que não parece possível - nem desejável - reverter a homossexualidade, parece muito difícil "desligar o botão" da religião (como na metáfora da foto acima) e ligar o da psicologia, sem que a primeira influencie, de alguma forma, a última. Penso que para ser um profissional minimamente ético e empático, o psicólogo deve ficar muito atento e crítico à forma como suas crenças - em especial as religiosas, por serem muito fortes e arraigadas - influenciam sua prática, especialmente a clínica. O psicólogo não precisa ser ateu como eu (e que fique claro: não tenho nenhuma pretenção, como Richard Dawkins, de converter ninguém à minha descrença), mas ele deve - e uma terapia pessoal pode ajudar muito - estar bastante consciente de suas crenças para não tentar (consciente ou inconscientemente) converter seus pacientes às suas verdades. Este é um dos pilares da psicoterapia e é o que mais nos diferencia de outras práticas ditas terapêuticas. 

OBS: Em março desde ano completou 10 anos da publicação da Resolução CFP n°001/1999, que, dentre outros apontamentos, proibe a atuação dos psicólogos na "cura" de homossexuais e que representou um gigantesco avanço na luta contra a homofobia e o preconceito de uma forma geral.

Update (23/04/09): Nos comentários à reportágem da revista Época li relatos tocantes. O que mais me chamou atenção foi o seguinte, intitulado "Sou gay e sou feliz": No dia 30 de dezembro de 1993, entrei no consultório de uma psicóloga, revelando que era homossexual. Ela disse que ia me ajudar a superar este “problema” e que ainda iria me ver se casando na igreja com uma mulher, pois, segundo ela, já havia “tratado” um rapaz que era gay, mas que havia se tornado heterossexual e ainda fora madrinha do casamento dele. Eu não tinha a menor consciência de nada e, pelo fato de não ter com quem conversar, inclusive não podia revelar em casa que fazia terapia porque meus pais não iriam aceitar, concordei com o que ela disse numa boa. E mais, confesso que fiquei bastante aliviado, pois, no meu modo de ver, iria, definitivamente, conseguir me livrar da angústia de ser homossexual. No entanto, a terapia não evoluiu e eu sofria cada vez mais. Até que uma colega de trabalho me contou que seu namorado era psicólogo.Larguei a antiga psicóloga e passei a ter o namorado de minha amiga como novo terapeuta. Desde então, minha vida se transformou. O tratamento dele comigo foi outro. Aceitei minha homossexualidade, parei de chorar, parei de sofrer, aprendi a conviver com o fato de ser gay, apesar do gigantesco sacrifício, mas hoje sou um cara bem resolvido e feliz. O problema hoje é externo, ou seja, o preconceito da sociedade machista, mas, na vida, ser feliz não quer dizer não ter problemas, mas, sim, saber lidar com os problemas com calma e lucidez. Meu psicólogo sempre me respeitou. Eu era afeminado e até isto percebi que não precisava ser, pois, para ser gay, não precisa, necessariamente, parecer mulher, embora eu tenha amigos assim e eu os adoro. Ter um bom psicólogo e ter a vontade de superar problemas emocionais ajudam a transformar uma vida. Sou gay e sou feliz. Outros comentários e relatos podem ser lidos aqui.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Musica Psi - Nóia (Rita lee)



Nóia

Guarde seu drama para sua mamma
Freud já explicou

Tem alguma nóia aí na história
Que você deletou

Eu não sou Jung
Mas você confunde
Pau com pedra

Nem sou Lacan
Pra te botar no divã
E ouvir sua merda

Se manca neném !
Gente mala a gente trata com desdém
Se manca neném !
Enfia sua nóia e passe bem

Não me vem falar de Jesus
Você é pecador

Não me vem com papo ecológico
Você é poluidor

Não vem arrotar sua grana
Você é mão de vaca

Não vem se achando bacana
Você é babaca

Psicologia na TV - Head Case (GNT)

Assisti ontem no GNT uma série hilária que tem como protagonista uma terapeuta, ou melhor, uma psicanalista (como podemos inferir a partir do teste de Rorschach em sua mão na foto acima). Segundo o site Minha Série: Dra. Elizabeth Goode é uma terapeuta que tem pacientes um pouco fora do comum: todos são celebridades de Hollywood que vêm ao seu consultório buscar orientações para suas vidas profissionais e, principalmente, para as suas conturbadas vidas pessoais. Convivendo com as celebridades e conhecendo muito mais do que qualquer pessoa sobre cada uma delas, a Dra. Goode não deixa de fazer uma fofoca sobre seus pacientes quando tem a oportunidade. Além disso, ela tem uma assistente obcecada por famosos e um rival no consultório ao lado. Nessa comédia irreverente, a atriz Alexandra Wentworth interpreta a terapeuta Dra. Goode. O que mais se destaca na série é que seus pacientes são realmente algumas das maiores estrelas do cinema, da televisão e da música, que fazem participações especiais para interpretarem a si mesmas numa paródia de suas próprias vidas. Na série, Elizabeth (recuso-me a chama-la, como a qualquer pessoa, real ou ficcional, de Doutora) comete praticamente todos os "10 pecados" profissionais apontados em uma reportagem recente do Portal MS (são eles: (1) comer na frente do paciente, (2) atender ao telefone, (3) tomar notas em excesso, (4) atrasar-se para a sessão, (5) ser pouco acessível, (6) olhar demais para o relógio, (7) bocejar demais, (8) contato físico excessivo, (9) falar demais sobre si mesmo e (10) vestir-se inadequadamente), mas ela vai além. O consultório dela é um Deus-nos-Acuda: a secretária entra e sai quando quer; ela própria entra e sai quando quer, deixando muitas vezes, o cliente falando sozinho; ela fala excessivamente de si mesma ou simplesmente deixa de prestar atenção no que o cliente está falando em função de algum problema pessoal; quebra o sigilo a todo momento, principalmente com a secretária... enfim, ela faz tudo o que não devemos fazer, mas de uma forma muito engraçada! Uma amostra desta série pode ser vista no video abaixo (infelizmente sem legendas), com o ator Jeff Goldblum como cliente da "Dra." Goode (que nem é tão "good" assim). Há muitos outros videos no Youtube (ver aqui) com trechos de Head Case.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Video da Semana - Fala

Nesta interessante montagem, imagens que remetem à Psicanálise (e ao surrealismo, movimento claramente inspirado nas teorias de Freud) são sobrepostas pela música Fala, do Secos e Molhados, que sempre entendi como uma descrição do trabalho psicanalítico (ok, pode ser maldade minha!). Abaixo do video a letra da música.



Fala

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser 
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala 

Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala 

OBS: Queridos psicanalistas, é tudo brincadeira, tá? Amo muito vocês, tanto que nunca, jamais, sobre nenhuma circunstância exibiria aquele comercial do HSBC que sacaneia vocês. Repito: nunca.

Agradeço Felipe Epaminondas, do blog Psicológico, pela dica.

Como diz a Bíblia...

Sexta-Feira passada (dia 10 de Abril) assisti no GNT um documentário fascinante, vencedor de inúmeros prêmios, intitulado For the Bible tells me so (traduzido pelo GNT como "Porque a Biblia me diz assim", mas também encontrado na internet com os nomes de "Como diz a Bíblia" e "Assim diz a Bíblia"). O filme discute a sempre tensa relação entre a Igreja Católica (com suas interpretações literais da Bíblia) e a homossexualidade. De acordo com o interessante site Diversidade Católica: "O filme conta com o depoimento de vários teólogos, pastores, do bispo anglicano Desmond Tutu, além de um rabino. Por meio destas participações se põe em questão o que realmente as passagens da Sagrada Escritura que se referem à relação entre pessoas do mesmo sexo querem dizer e se é justo, para com o sentido original do texto, usá-las como prerrogativa de condenação absoluta ao inferno para gays e lésbicas. A interpretação literal do texto bíblico é desconstruída gradativamente na medida em que se contextualiza a situação cultural, a mentalidade presente na época retratada pelos textos. Numa linguagem fácil, os diversos depoimentos vão nos fazendo perceber que assim, como a Bíblia foi, e às vezes, ainda é, usada para justificar uma submissão ideológica das mulheres em relação aos homens e a discriminação racial, hoje, o alvo dos fundamentalistas bíblicos são os homossexuais" (O restante desde texto pode ser lido aqui). O argumento central deste brilhante documentário - que deveria ser passado nas escolas, universidades e empresas - pode ser resumido nesta cena da série The West Wing:


Assista ao documentário na íntegra aqui.

sábado, 11 de abril de 2009

Psicologia no Cinema - Passageiros

Estréia esta semana o filme Passageiros, que tem como personagem principal uma profissional psi. Em cada site que entrei pesquisando sobre este filme, colocam a personagem da atriz Anne Hathaway (dos ótimos O diabo veste Prada e O casamento de Rachel) em uma categoria profissional. Numa mesma reportagem, do Diário de Marília, ela é chamada de psiquiatra, terapeuta e psicóloga. A revista Brasília em Dia vai além e a chama de psicanalista. Esta confusão, comum na sociedade, deveria ser minimizada pelos jornalistas que, ao invés de explicarem, confundem ainda mais o leitor. Pesquisando no site do IMDB - e esta parece ser uma fonte segura - vemos que se trata de uma "grief counselor", o que literalmente significa "conselheira da dor" (de acordo com o tradutor do Google, grief é um substantivo que significa "desgosto, aflição, tristeza, mágoa, dor, pesar, preocupação", ou seja, tudo). Enfim, a personagem trabalha com aconselhamento, o que, na cultura norte-americana é o equivalente da nossa terapia. Mas isso não diz nada sobre a formação desta profissional pois terapeutas podem ser tanto psicólogos, psiquiátras e até mesmo (e cada vez mais) filósofos. Bem, de acordo com o site Yahoo Cinema, o filme conta a seguinte história "Após a queda de uma avião, uma jovem psicóloga Claire (Anne Hathaway) é escalada para dar apoio psicológico aos que sobreviveram ao acidente aéreo. Na medida em que conhece suas memórias relacionadas ao acidente, a psicóloga fica particularmente intrigada por Eric (Patrick Wilson), o mais enigmático dos sobreviventes. Quando os passageiros começam a desaparecer misteriosamente, Claire desconfia que um deles pode ter a resposta do mistério". O trabalho desta profissional parece estar diretamente ligado ao que no Brasil tem sido chamado de Psicologia das Emergencias e dos Desastres. Esta área promissora foi, em 2006, tema de um Seminário Nacional - ver relatório aqui - e tem sido bastante discutida nas últimas publicações do CFP. Com relação ao filme, vale destacar ainda que o diretor, Rodrigo Garcia, dirigiu 22 episódios da elogiada série In Treatment, que também trata do universo psi (e que já comentei nest blog). Fica a dica... OBS: Queda de avião? Claire? Sobreviventes enigmáticos? Desaparecimentos misteriosos? Não sei não, mas tá me lembrando Lost...

Opinar ou não opinar, eis a questão!


Esta semana, um assunto que mobilizou a imprensa - pelo menos a virtual - foi a súbita decisão do jogador Adriano de parar de jogar futebol por tempo indeterminado. Dezenas de psicólogos, psiquiatras e psicanalistas foram convocados para explicar tal atitude. Segundo o site do Globo Esporte: "Psicólogos e psicanalistas dizem que o atacante Adriano tem dificuldade em lidar com o sucesso. Na semana passada, ele não se apresentou ao Inter depois do jogo da seleção e passou três dias na Vila Cruzeiro, favela onde foi criado, no subúrbio do Rio de Janeiro. Segundo especialistas, a volta às origens seria uma forma de retomar o anonimato e a vida pessoal". Já de acordo com o portal Terra, segundo o "presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, a necessidade de Adriano recorrer a seus amigos da favela se dá por causa da ascensão como uma estrela do futebol. 'Quando uma pessoa muda de classe social e econômica de uma forma muito abrupta, pode desenvolver um distanciamento de sua identidade e de sua imagem, logo é importante retornar à origem. Ele quer o colo da mãe e dos amigos', analisa". Na mesma matéria, uma psicóloga "sugere que contratempos pessoais devem ter sido a origem dos problemas do atacante. 'Ele é um atleta de altíssimo nível que tem demonstrado nesses últimos dois anos muita instabilidade emocional. O Adriano mostra evidências claras de que algo extracampo aconteceu que o tirou desse caminho. Ele precisará trabalhar isso', aponta". Muitos opininaram, mas poucos ou nenhum destes opinadores de plantão (que existem aos montes) conhecem Adriano minimamente para falarem o que falaram. São palavras vagas, baseadas em praticamente nada, além - obviamente - de informações fornecidas pela mídia (o que a história já provou serem, em muitos casos, pouco ou nada confiáveis). Isto está se tornando uma praga: falar sobre a vida alheia sem conhecimento de causa. Para a maioria das pessoas isto não é um problema, mas quando um profissional sai por aí explicando a vida e as escolhas de pessoas que ele desconhece, aí se torna um problema. Mas o problema é maior: se o profissional efetivamente conhece o jogador, seja porque faz um acompanhamento sistemático ou porque o atende ocasionalmente, aí é que ele não pode mesmo falar sobre o caso. Como resolver este dilema? Não sei, mas acho que entre falar obviedades e não falar nada, talvez a melhor e mais sensata opção seja a segunda. Afinal, como diz o ditado, quem fala demais dá bom dia a cavalo!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Simpósio em BH


Não devo postar nos próximos 3 ou 4 dias porque estarei em Belo Horizonte participando do I Simpósio de História da Formação em Psicologia e VII Encontro da Rede Interinstitucional de Pesquisadores da História da Psicologia, que acontece de amanhã (2/4) até sábado (4/4) na PUC Minas - Campus Coração Eucarístico. Vou realizar amanhã à tarde - de 14:00 às 15:30 - uma apresentação oral intitulada "Formação inicial em Psicologia no Brasil: passado e presente", baseada no meu trabalho de conclusão de curso (o artigo "Formação em Psicologia no Brasil: um perfil dos cursos de graduação", orientado pelo Prof. Altemir José Gonçalves Barbosa, pessoa maravilhosa e excelente professor e orientador) que será publicado este ano na revista Psicologia: Ciência e Profissão. Foi uma longa jornada até a aprovação final do artigo pelos pareceristas da revista: comecei a escrevê-lo em agosto de 2007, finalizei-o para a banca examinadora em dezembro do mesmo ano, revisei-o para publicação até junho de 2008, quando enviei-o à revista; somente em janeiro deste ano recebi a resposta: um parecer favorável mas com indicação de algumas modificações. Como fazia muito tempo que não estudava sobre o tema, recorri ao Altemir que fez as alterações necessárias (valeu, Altemir!) e enviou de volta à revista em fevereiro; em março finalmente veio o parecer final: APROVADO!!! UFA!!! Assim que for publicado, indico o link para os interessados poderem ler. E com relação ao evento, parece que vai ser ótimo. A programação está espetacular! Fica o convite...

Música do Dia - Sufoco na Vida

Esta música, do grupo Hamonia Enlouquece (formado por usuários e funcionários do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro), faz parte da trilha sonora da novela Caminho das Índias que, com todas suas imperfeições e chatices, parece estar - pois não a acompanho - retratando de forma bastante interessante a jornada de um jovem (interpretado pelo ator Bruno Gagliasso) que desenvolve um quadro de esquizofrenia. Só assim para fazer a população refletir sobre o assunto! No I Congresso Brasileiro de Saúde Mental, que ocorreu em Dezembro do ano passado em Florianópolis e no qual estive presente, teve uma apresentação deste grupo e, sinceramente, fiquei embasbacado com a qualidade das músicas, a sonoridade do conjunto e a animação e energia do vocalista. Vida longa ao Harmonia Enlouquece!!!

terça-feira, 31 de março de 2009

Psicoterapia versus Religião?



Este video (intitulado "Psicologia: Deus não é suficiente"), publicado no YouTube pelo site católico Chamada Online, comete um equívoco básico: enxerga a psicoterapia como concorrente da religião, como se a primeira negasse a última. O fato é que são saberes e práticas distintos ainda que, em alguns casos, complementares. Mas não são, de forma alguma, concorrentes! E sim, a psicoterapia tem um embasamento científico (ver livro "Processos Humanos de Mudança - As bases científicas da Psicoterapia", de Michael J. Mahoney), mas isto não quer dizer que sirva para todos em todas as questões humanas - a ciência não é tão poderosa e infalível quanto promete (e além disso o trabalho psicoterapêutico, por mais que seja embasado cientificamente, não é em si científico - quando estou no consultório de frente para meu paciente não sou um cientista. Me vejo mais como um artista!). A religião tem o seu papel na promoção da saúde (ver reportagem de capa da revista Época da semana passada, intitulada "A fé que faz bem à saúde"), mas, da mesma forma que a Psicologia, não dá conta de tudo. O que me assustou neste video é o medo implícito da Igreja de ser substituída pela psicoterapia na resolução dos problemas humanos. Ela não percebe que, na verdade, nós, profissionais psi, estamos em desvantagem (como se fosse uma competição). A religião ainda é tão forte e tão disseminada que, se ainda podemos ajudar as pessoas em suas questões, é porque não batemos de frente com ela. Porque, certamente, é uma luta sem possibilidade de vitória para nós. Eu, pelo menos, não estou disposto a isto! Outra coisa: simplesmente não entendo esta crítica de que a Psicoterapia não tem embasamento científico. E por acaso a Religião tem?

Psicologia no Cinema - Divã

Estréia dia 17 de Abril nos cinemas brasileiros o filme Divã, inspirado no livro homônimo da escritora e colunista do jornal O Globo Martha Medeiros. Segundo o site da Globo Filmes, Divã - dirigido por José Alvarenga Jr. (de Os normais - O filme) - "conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos que vive às voltas com as alegrias e desafios da sociedade contemporânea. Casada e mãe de dois filhos, Mercedes decide, mesmo sem saber bem o porquê, procurar um psicanalista. E, assim, o que antes era apenas uma curiosidade, se transforma em uma experiência devastadora, que provoca uma série de mudanças em sua vida cotidiana. No divã, Mercedes questiona o seu casamento, a realização profissional e seu poder de sedução. As revelações de Mercedes para o analista, assim como as conversas com a melhor amiga, Mônica, dão novo rumo à vida de Mercedes que a princípio parecia boa, estável, mas sem grandes emoções. É só o princípio de uma grande transformação". Pessoalmente, eu gosto bastante dos textos da Martha Medeiros (muitos inclusive circulam em correntes de e-mails com outras autorias, como alerta Cora Ronai no livro "Caiu na Rede"), mas costumo odiar a maioria dos filmes classe-média-alta da Globo Filmes (E se eu fosse você 1 e 2, Casa da Mãe Joana, A Partilha, Polaróides Urbanas, os filmes da Xuxa, do Didi, do Casseta e Planeta e do Padre Marcelo Rossi). No entanto, quando a produtora decide realizar filmes com temas regionais e/ou marginais (no sentido de "à margem") só tem gerado clássicos: Auto da Compadecida, Cidade de Deus, 2 filhos de Francisco, Anjos do Sol e O Homem que Copiava. Quanto à Divã, sinceramente, não sei o que esperar...

segunda-feira, 23 de março de 2009

"O leitor" e o poder da situação


Em uma interessante reportagem da revista Época desta semana intitulada "O que eles fizeram no lugar dela", Paulo Moreira Leite faz uma importante discussão a partir de uma frase do filme "O leitor". Este filme - que ainda não vi - é inspirado em um romance homônimo de Bernhard Schlink (atualmente entre os mais vendidos no Brasil) e, segundo o crítico Pablo Villaça do site Cinema em Cena conta a seguinte história: "Jovem estudante na Alemanha Oriental em 1958, Michael Berg (Kross) conhece por acaso a enigmática Hanna Schmitz (Winslet) ao ser ajudado por esta quando passava mal em função da febre escarlatina. Depois de curado, ele procura a mulher para agradecer pelo auxílio e, quando se dá conta, já está na cama com sua benfeitora, que, bem mais velha, o apresenta às maravilhosas possibilidades do sexo. O contraste entre aquela nova relação e a frieza com que é tratado por sua própria família logo leva Michael a se descobrir apaixonado por Hanna, que, antes de cada sessão na cama, pede que o rapaz leia algo para seu divertimento – textos que vão desde O Amante de Lady Chatterley (que a escandaliza e excita) até As Aventuras de Tintim. No entanto, depois que Hanna subitamente desaparece de sua vida, Michael se torna um indivíduo solitário e triste – e, quando anos depois, ele (já como estudante de Direito) reencontra a antiga paixão, deve lidar com o choque de descobrir que ela, uma ex-nazista, está sendo julgada por um terrível crime de guerra cometido quando era responsável por 300 prisioneiras judias". O trecho do filme que inspirou a reportagem da revista Época é aquele no qual Hanna questiona um de seus interrogadores: O que o senhor faria no meu lugar?, pergunta ela. O advogado fica em silêncio, pois devia saber que a grande verdade é que a maioria de nós faria a mesma coisa que Hanna (matar judeus ou não impedir suas mortes) se estivéssemos em seu lugar. É o poder da situação, retratado no post anterior. Mas o que a revista questiona é: será este poder ilimitado? Ou melhor, não é possivel resistir a uma situação opressora? Época cita como exemplo de resistência o Coronel Claus von Stauffenberg, nazista responsável pela Operação Valquíria, que pretendia matar Hittler, e que inspirou vários livros, além de um filme recém-lançado com Tom Cruise no papel principal. Se ele e outros nazistas resistiram a simplesmente "obedecer ordens" por considerá-las excessivamente macabras, porque outros não o fizeram? O fato de uma situação - como o nazismo - ser extremamente poderosa exime seus carrascos de qualquer responsabilidade sobre as vidas que tiraram ou deixaram tirar? Reafirmando um post recente, acredito que não. O poder da situação, assim como a genética e a criação, nos possibilita explicar vários atos cruéis cometidos pelo homem. Mas não os justifica...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Freud - Objeto do desejo


No post anterior comentei como a psicanálise influenciou - direta e indiretamente - o cinema, a TV e as HQs. Mas, pesquisando sobre o tema, me surpreendi com a penetração de Freud (!!!) em nossa sociedade e em nossa cultura capitalista. Freud, bem como Jesus, Che, Einstein e até mesmo Lênin, serviu de inspiração para uma série de produtos, que listo abaixo. O pai da psicanálise, quem diria, virou grife!

Relógio


Boneco de pelúcia



Boneco de plástico


Boneco voador



Boneco de papel


Marionete


Pela ordem: Anna Freud, C. Jung e Siguinho.

Pantufa


Adesivos para lembretes



Camisa 


Pirulito sabor melancia



OBS: fiquei surpreendido de não existir um vibrador do Freud (ou melhor, que Freud). Se até o Obama mereceu tal homenagem...

Psicologia no cinema


Watchmen - O filme, que estreou há menos de um mês nos cinemas brasileiros, tem como um de seus principais personagens o anti-herói Rorschach, que usa uma máscara que remete ao famoso e criticado teste psicanalítico. Não é a primeira vez que a psicologia (e a psicanálise é uma teoria psicológica, queiram os psicanalistas aceitar este fato ou não) inspira personagens no cinema e na TV. Para felicidade dos comportamentalistas, o mentor do behaviorismo radical é uns dos mais inspiradores. Vide o Diretor Skinner, dos Simpsons (que não consegue controlar os alunos de sua escola) e o cozinheiro-vilão Skinner, de Ratatouille (que, ironicamente, odeia ratos). 



E a psicanálise com suas diversas correntes e dissidências, além de inspirar várias gerações de cineastas (vide os filmes de Ingmar Bergman, Woody Allen, Alfred Hitchcock, David Linch, dentre outros), inspirou diretamente alguns filmes como Freud além da alma (de 1962 e cujo roteiro foi escrito por ninguém mais ninguém menos que Jean-Paul Sartre), Quando Nietszche chorou (de 2007 e inspirado no ótimo livro de Irvin Yalom), Jornada da alma (de 2003 e que tem Jung como personagem principal), etc. Mas a psicanálise foi mais longe e, além de inspirar personagens e histórias, inspirou uma HQ que tem como herói o próprio Freud (ver capa abaixo). De acordo com o portal O Globo, nesta HQ "Sigmund Freud vai à sinistra zona da repressão, onde é atacado por um gigante com um complexo de Édipo muito mal resolvido". Dá-lhe, Sig!!!


segunda-feira, 9 de março de 2009

Responsabilidade: isso existe?

Cada dia mais, psicólogos e psiquiatras são convocados pela mídia e pela justiça a explicar (e justificar!) ações a primeira vista inesplicáveis, como a de Paula Oliveira ou da quadrilha que empurou o casal do penhasco no Rio de Janeiro. O risco destas explicações profissionais é retirar da pessoa a responsabilidade sobre o ato que cometeu, deslocando esta responsabilidade para a criação, os genes ou o cérebro: "Não fui eu, foi minha amígdala!", "Darwin me levou a fazer isso!" "Meus pais me batiam, por isso eu sou assim!". Reproduzo abaixo um trecho do espetacular livro Tábula Rasa (2002), do psicólogo evolucionista Steven Pinker, que trata deste assunto:

"Algo saiu muito errado. Estão confundindo explicação com absolvição. Ao contrário do que insinuam os críticos das teorias das causas biológicas e ambientais do comportamento, explicar um corportamento não é desculpar quem o executou (...) Se o comportamento não é totalmente aleatório, há de ter alguma explicação; se o comportamento fosse totalmente aleatório, não poderíamos responsabilizar a pessoa em nenhum caso. Portanto, se alguma vez responsabilizarmos pessoas por seu comportamento, terá de ser a despeito de qualquer explicação casual que julguemos cabível, independente de ela invocar genes, cérebro, evolução, imagens da mídia, dúvida sobre si mesmo, criação ou convívio com mulheres briguentas. A diferença entre explicar um comportamento e desculpá-lo é captada no ditado "Compreender não é desculpar", e foi salientada de diferentes modos por muitos filósofos, entre eles Hume, Kant e Sartre. A maioria dos filósofos acredita que, a menos que uma pessoa seja realmente coagida (ou seja, se alguém apontar uma arma para sua cabeça), devemos considerar suas ações livremente escolhidas, mesmo se forem causadas por eventos no interior do seu crânio" (p. 250)

Esta questão é complexa! Tem inúmeras implicações teóricas (relativas aos conceitos de livre-arbítrio, escolha, etc), bem como consequencias práticas. A questão da imputabilidade de uma pessoa é séria e já foi amplamente discutida no Direito. No Brasil são inimputáveis absolutos (ou seja, não podem ser penalmente responsabilizados em nenhuma circunstância) os menores de 18 anos e inimputáveis relativos (ou seja, que podem ser responsabilizados dependendo da análise caso a caso na justiça) pessoas portadoras de doença mental. Como em quase tudo nas ciências humanas, tais conceitos são vagos e aleatórios: o que separa a criança de um adulto ou uma pessoa "normal" de uma portadora de doença mental? Em que momento uma criança torna-se adulto e passa a responder pelos seus atos? Com 16, 18 ou 21 anos? E em que ponto do contínuo "normalidade-anormalidade" situam-se os inimputáveis relativos? Por exemplo: uma pessoa diagnosticada com o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), ansiosa com uma prova e que mata o professor, é culpada ou a culpa é do seu transtorno? Na minha opinião a responsabilidade é da pessoa. E vocês, o que acham?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Psicólogo ou formado em Psicologia?


Podem atirar as pedras. Vou falar mais uma vez sobre o Big Brother Brasil. Mas o fato é que, apesar de ser um produto visando meramente os índices de audiência (e a publicidade decorrente destes índices), o BBB oferece para os psicólogos - em especial os sociais - um laboratório em termos de relacionamentos humanos em grupo. Queiram os intelectuais-que-odeiam-tudo-que-o-povo-gosta aceitarem este fato ou não! Muitos experimentos clássicos de psicologia social forjaram situações como as criadas no BBB. Como diz o psicólogo Felipe Epaminontas (do blog Ciência e Psicologia) , "prender vários estranhos em um ambiente fechado e ficar os observando na maior parte do dia é uma idéia que me fascina muito, mas infelizmente tal projeto de pesquisa seria facilmente rejeitado em qualquer comitê de ética". Já que a Globo não tem nem um pingo de ética (vide a prova do Quarto Branco, que está sob investigação do Ministério Público pela suposta prática de tortura), mas, pelo menos, os participantes se submeteram voluntariamente ao programa, que mal há em "dar uma espiadinha". 

Mas o que gostaria de comentar esta semana é a descoberta de que minha conterrânea, a BBB juizforana Josiane Oliveira fez faculdade de Psicologia. Descobri este fato numa notícia publicada no site Ego que traça um perfil da cantora e diz que "há três anos, a mineira largou uma bem-sucedida carreira de psicóloga numa estatal para ser cantora". Outros sites e blogs, no entanto, falam que Josy largou a faculdade de Psicologia para se dedicar à música. Assim, o que ela teria abandonado seria o estágio na tal estatal e não o emprego de psicóloga, pois não teria chegado a tanto. Outra matéria, desta vez no site Terra, afirma que "Josiane pegou Milena de surpresa ao dizer, nesta terça-feira, que quando ainda atuava como psicóloga trabalhou em um presídio. 'Eu atendia lá e acabei montando um coral com os presos. Foi uma experiência muito bacana. Teve um Natal que a gente se apresentou e foi muito emocionante', contou. A cantora afirmou que não sentia medo de trabalhar lá, apesar de ficar presa em uma cela com 40 presidiários durante os ensaios. 'Pelo contrário! Eles diziam que se alguém fizesse alguma coisa comigo iam me proteger', explicou. 'Saí de lá porque tiveram várias rebeliões e meu pai ficou com medo', falou um pouco antes de encerrar o assunto".  

Assim, pelo que parece, Josi chegou a formar em psicologia e até a atuar como psicóloga, mas o que gostaria de problematizar é o seguinte: OK, ela formou em psicologia, atuou como psicóloga, mas abandonou tudo e virou cantora. Minha pergunta é: ela ainda pode ser chamada de psicóloga? Ou seja, o que faz uma pessoa psicóloga é o fato de ela ter formado em um curso de Psicologia ou de ela atuar na profissão? O fato de eu ter o diploma de Bacharel em Psicologia (ou seja, de Psicólogo) e trabalhar, por exemplo (pois não é o caso), como taxista, me dá o direito de dizer para o mundo "Eu sou Psicólogo"?. A questão vai um pouco além da validade legal do diploma porque muitos formados em Psicologia que não exercem a profissão (e, desta forma, não estão vinculados ao CFP) acabam exercendo a profissão informalmente, dando pitaco, sem embasamento algum, sobre tudo e todos. São os opinadores de plantão!

O primeiro exemplo que me vem à cabeça é Luiz Gasparetto, apresentador do extinto programa Encontro Marcado, da Rede TV. Segundo a Wikipedia, Gasparetto é "um psicólogo de formação, médium psicopictográfico e apresentador de televisão". Tenho arrepios só de ler!!! Este cidadão - que mistura psicologia de botequim com espiritismo - é meu colega de trabalho? O fato de ter formado em um curso de Psicologia faz de Gasparetto um psicólogo? Oficialmente sim, afinal ele deve ter o diploma de Bacharel, mas, na boa, não consigo vê-lo desta forma..

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Addiction is a choice?

Excelente esta reportagem da Globo News sobre a dependência de internet (ou, como eles, chamam, o "vício em conexão"). Mas o mais interessante na matéria é a entrevista com o psicólogo americano Jeffrey Schaller, autor do polêmico livro "Addiction is a choice". Ele defende a idéia de que comportamento (aquilo que a gente faz) é uma coisa e doença (aquilo que a gente tem e que se expressa em nosso corpo) outra. E os vícios/adições seriam, na sua concepção, comportamentos e não doenças (como apontam o CID-10 e o DSM-IV). Assim, o que chamamos de dependência de álcool e drogas, de sexo, de internet, etc. não passa de um comportamento auto-destrutivo baseado na escolha do indivíduo. Para ele, neste caso, não há doença alguma. Tudo é uma questão de escolha! Por alguma razão, aquela atividade - mesmo que gere conseqüencias graves - tem um sentido para aquela pessoa, preenche alguma coisa. Por isso a pessoa "escolhe" continuar repetindo tal comportamento (Skinner explica!). O que o autor problematiza, na verdade, é uma velha discussão: qual a responsabilidade do indivíduo adicto em seu próprio "tratamento" (ou mudança de comportamento)? Porque uma coisa é verdadeira: muitos indivíduos se escondem sob o rótulo de DOENÇA para se fazerem de coitadinhos e não mudarem. Certamente este rótulo retira a responsabilidade do indivíuo sobre seu problema, mas será que simplesmente não existe esta história de dependência? Será que tudo é uma questão de escolha? Pensando desta forma, voltamamos à velha história de que o indivíduo que não consegue abandonar ou modificar seu comportamento não tem "força de vontade" e é um "fraco". O ponto de equilíbrio nesta discussão é que ao mesmo tempo em que o indivíduo tem um problema (e já está mais do que provado que há um mecanismo cerebral de recompensa que acaba por gerar uma dependência de determinada substancia ou comportamento) há a responsabilidade da pessoa sobre sua própria vida. O problema é que às vezes falta motivação. Mas aí já é outra história...

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sumi, mas não morri...



Não atualizo este blog acho que desde dezembro do ano passado. É que as vezes fico com uma preguiça imensa de escrever. Mas a questão central é que tenho estado muito envolvido com meu trabalho. Comecei a trabalhar como psicólogo da Universidade Federal de Viçosa em setembro de 2008 e, de lá para cá, o volume de trabalho só vem aumentando. Enfim, espero retomar este blog, só que agora de uma forma mais informal...