quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tú, místico - Fernando Pessoa


Tu, Místico

Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa



Tu, místico, vês uma significação em todas as cousas.

Para ti tudo tem um sentido velado.

Há uma cousa oculta em cada cousa que vês.

O que vês, vê-lo sempre para veres outra cousa.



Para mim, graças a ter olhos só para ver,

Eu vejo ausência de significação em todas as cousas;

Vejo-o e amo-me, porque ser uma cousa é não significar nada.

Ser uma cousa é não ser susceptível de interpretação.


Fonte: Poesia Completa de Alberto Caeiro (Companhia de Bolso, 2005)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Olho por olho - Lucas Figueiredo

Depois de publicar os ESPETACULARES Morcegos negros (sobre a corrupção no governo Collor), Ministério do silêncio (sobre a história dos serviços secretos brasileiros) e O operador (sobre o mensalão, tanto em sua primeira versão mineira e tucana quanto na posterior nacional e petista), o premiado jornalista Lucas Figueiredo acaba de lançar o livro Olho por olho: os Livros Secretos da Ditadura (ed. Record, 2009). De acordo com o site do projeto Sempre um Papo (vinculado pela TV Camara):

A guerra entre os defensores e os opositores da ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) foi longa e suja. O que durante duas décadas não se soube é que o confronto derradeiro mobilizou menos de 40 combatentes de cada lado, foi silencioso — quase invisível — e durou 28 anos: de 1979 a 2007. Um conflito que extrapolou, assim, o próprio período da ditadura. A última batalha dessa guerra foi travada por dois livros. “Brasil: nunca mais” — a “bíblia” sobre a tortura praticada pelas Forças Armadas — e o menos conhecido “Orvil”, a resposta do Exército, sobre a guerrilha e o terrorismo de esquerda. Os bastidores dessa batalha, com detalhes de cortar o fôlego, estão reunidos no livro “Olho por Olho: os Livros Secretos da Ditadura”. Na obra, Figueiredo — com três Prêmios Esso de Jornalismo no currículo — revela toda a tensão dos seis anos de trabalho sigiloso do “Brasil: nunca mais”. Além disso, a obra traz à tona o “Orvil”, o livro de quase mil páginas que o Exército produziu para rebater o “Brasil: nunca mais”, mas que nunca foi publicado, tornando-se assim talvez o mais volumoso documento secreto das Forças Armadas. Depois de ter acesso a uma das quinze cópias sigilosas do “Orvil”, o jornalista constatou um fato impressionante: no livro secreto, o Exército confessa o envolvimento na morte de duas dúzias de presos e desaparecidos políticos.

Li as obras anteriores de Lucas com um prazer incomensurável. Ele, além de um brilhante jornalista - e, por isso, obsessivamente atento aos fatos - é também um escritor extremamente talentoso que consegue transformar importantes, porém pouco explorados, momentos históricos brasileiros em puro suspense. Enfim, seus livros são deliciosos, mesmo, e especialmente, quando tratam de temas duros e indigestos de nossa história recente. Pretendo encomendar Olho por olho esta semana, mas, desde já, fica a dica para todos que - como eu - gostam de bons livros de não-ficção. Afinal, a realidade sempre dá um jeito de nos surpreender...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Documentário "Sociedade Secreta"

Recebi hoje por e-mail (de uma pessoa muito querida) a indicação de um curta-metragem intitulado Sociedade Secreta (2008, 28 min), co-dirigido pelo cineasta Kayky Avraham. Repasso a vocês! De acordo com reportagem da Folha Online "Avraham entrou na equipe do documentário após receber uma câmera dos diretores do filme, os então estudantes Juliana Vettore e Murillo Camarotto, formandos em jornalismo da PUC-SP. Na época, 2007, Avraham nunca havia participado de um filme. Era usuário do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) da rua Itapeva, na região central de São Paulo, onde até hoje passa por tratamento para controlar um quadro de distúrbio bipolar com traços de esquizofrenia. Com a câmera entregue pela equipe, Avraham começou a registrar cenas dentro do Caps e acabou como codiretor e protagonista do filme, que retrata as mudanças no sistema de saúde mental após a reforma psiquiátrica de 2001, que tem a intenção de substituir os antigos manicômios por atendimento extra-hospitalar". Em outra reportagem (intitulada "Paciente produz e dirige documentário; ator cria blog contra preconceito" e publicada no dia 4 de Julho de 2009) a Folha apresenta o excepcional trabalho de dois artistas em prol dos direitos humanos - sobre um deles já tratei neste blog, aqui e aqui. Reproduzo abaixo a breve reportagem:

O ator global Bruno Gagliasso, 27, não conhece o cineasta Kayky Avraham, 40, mas os dois usam a arte como forma de combater a loucura. Diagnosticado com distúrbio bipolar e traços de esquizofrenia, em 2007 Avraham codirigiu o filme "Sociedade Secreta", sobre as mudanças no atendimento à saúde mental desde a reforma psiquiátrica de 2001. O cineasta frequenta o Centro de Atenção Psicossocial Itapeva, no centro de São Paulo, e diz que a arte melhorou inclusive sua saúde. Já Bruno Gagliasso, que interpreta o personagem esquizofrênico Tarso na novela "Caminho das Índias", usa a arte para contar que problemas como o preconceito sofrido por Avraham continuam parte da rotina dos doentes mentais. "O preconceito contra essas pessoas é imenso. Um paciente com esquizofrenia me disse que nem queria ter os direitos dos "normais", só queria ser visto da mesma forma que um deficiente físico". Walter Ferreira de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental, tem opinião semelhante: "Basta a pessoa chegar perto de um hospital psiquiátrico que fica estigmatizada, é vista como improdutiva". No ano passado, Gagliasso percorreu o Brasil com a peça "Um Certo Van Gogh", na qual interpretava o pintor holandês, que sofria de ataques psicóticos e delírios e experimentou seu período mais criativo em um sanatório na França (veja quadro ao lado). O ator criou um blog que fala sobre doença mental, no qual sugere leituras sobre loucura e dialoga com os fãs, inclusive pacientes. Gagliasso conta que seu taxista tinha medo de levá-lo para os ensaios de uma banda formada por profissionais e pacientes, no Rio. "Eu o convidei a entrar. Apontei para um deles, todo mundo dançando e cantando, e perguntei para o taxista "esse aí é louco'? "Claro que é, olha a cara dele", ele respondeu. Era um dos terapeutas. Na saída, ele disse que não trabalharia mais naquele dia, para preservar a emoção que sentiu."


Como não consegui ter acesso ao URL do video (restrito aos assinantes UOL) para disponibilizá-lo neste blog, peço que cliquem na imagem acima (ou aqui) para assistí-lo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

1 ano de blog!!!


Hoje (dia 17 de Julho) faz exatamente um ano que criei este blog! Nem acredito que cheguei até aqui... Sério! Trabalho 8 horas por dia (de 8 às 12 e de 14 às 18 horas) e só escrevo na hora do almoço ou, excepcionalmente, quando acho uma brecha no serviço (o que é raro!). De qualquer forma tem sido uma honra ter este espaço para divulgar e discutir notícias e idéias do mundo psi. Neste período de um ano publiquei cerca de 250 posts, configurando uma média nada desprezível de 20 posts por mês. Também neste período cerca de 5000 (cinco mil) pessoas passaram por este blog, o que considero absolutamente surpreendente, dada sua especificidade! Agradeço profunda e sinceramente a todos que visitam este blog e que - espantosamente - se interessam pelo que eu tenho a dizer ou divulgar! OBRIGADO...

Lançamento: Publicar em Psicologia


Ocorreu no último dia 13 em São Paulo o lançamento do importante livro Publicar em Psicologia: um enfoque para a revista científica (organizado pelas autoras Aparecida A. Z. P. Sabadini, Maria Imaculada C. Sampaio e Silvia Helena Koller). De acordo com a Casa do Psicólogo, que editou esta publicação em parceria com o CFP, o IPUSP e a ABECIP, "o manual reúne uma série de artigos refletindo sobre a publicação de artigos científicos em psicologia. 'A publicação dá a necessária visibilidade à produção de um país, preserva a memória e legitima o conhecimento gerado em uma determinada comunidade', escrevem as organizadoras na apresentação". O mais interessante é que o livro está integral e gratuitamente disponível na internet, no blog Publicar em Psicologia. Para ir direto à versão em pdf do livro clique na imagem acima.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Christiane F. 30 anos depois

Complementando o último post de Felipe Epaminondas (do blog Psicológico), encontrei a seguinte notícia no Portal Terra:

Após 30 anos, Christiane F. ainda luta contra vício 
Christiane Vera Felscherinow ainda não se livrou da guerra particular iniciada em 1975 contra as drogas. Aos 43 anos, a alemã chegou a um estado que alguns médicos consideram "irreversível": sofre de hepatite tipo C e de graves problemas circulatórios. A senhora Felscherinow é, para o mundo, Christiane F., drogada e prostituída aos 13 anos. Seu drama de vício da heroína virou best seller e filme cultuado na década de 80. Hoje, 27 anos depois do livro, Christiane é um retrato, ainda vivo, do poder destruidor das drogas. Apenas em dezembro de 2005, o serviço público de saúde alemão registrou duas internações da paciente, que há anos passa por inúmeros tratamentos de desintoxicação. Todos, invariavelmente, não a livraram do uso de heroína. A iminência de um "colapso circulatório com potencial risco às funções vitais" é descrita em pelo menos um relatório médico. Christiane tem de passar regularmente por sessões de hemodiálise. Mas além das agulhas e injeções hospitalares, ela sempre recorreu ao "pico" da heroína. Sem emprego fixo, Christiane sobrevive dos royalties das obras às quais empresta sua história. A vendagem de livros e a exibição do filme, porém, têm sido cada vez mais escassos. Sua situação financeira é limítrofe: vive com dois tios e o filho de 9 anos, Jan-Nicklas, num apartamento modesto em Berlim. É seu sétimo endereço em 15 anos. Desde que se tornou famosa ao ser "descoberta" por dois jornalistas alemães, que publicaram suas memórias em série na prestigiosa revista Stern, em 1979, Christiane tentou reconstruir a vida, sem sucesso. Chegou a anunciar que estava "limpa", livre das drogas. Anos depois, admitiu que isso nunca ocorreu, a não ser por um período máximo de cinco meses. Fez curso de contabilidade, mas quando começou a trabalhar num escritório acabou presa por posse de droga, em 1983. Depois, tentou ser vendedora de livros: durou três semanas na profissão. Christiane brincou de atriz (interpretou uma dançarina de boate num filme B) e foi cantora de banda punk. Nada sério. Convicta, ela sempre diz que não se considera uma vítima das drogas. Pelo contrário, garante que faz tudo de forma absolutamente consciente. Em entrevista ao semanário holandês De Limburger, em 2005, Christiane deu um recado às milhares de pessoas que se chocam (mas que também admiram) com a sua história. "Eu nunca quis ser exemplo de nada a ninguém, acho que cada um deve saber o que está fazendo. Eu, pelo menos, sei o que faço".


Divórcio dos pais

O inferno de Christiane Vera Felscherinow começou em 1973, quando seus pais se divorciaram. Freqüentadora da discoteca Sound, conheceu Detlef, que se tornaria seu namorado. Viciado em heroína e garoto de programa, Detlef introduz Christiane na "gangue do Zôo", grupo de jovens berlinenses que usavam drogas numa famosa estação de metrô da cidade alemã. No local, ela se prostituiu dos 13 aos 15 anos, necessitando de três "picos" (doses da droga) por dia na reta final. No início, fazia programas para completar o valor do "pico". Ela dizia que só admitia sexo oral ou masturbação nos clientes. Dizia ser "seletiva", repelia os "nojentos", levava uma tarde inteira pra aceitar um cliente. Depois, mudou, aceitava o primeiro que aparecia, tinha relações dentro de carros. Os jornalistas Kai Herman e Horst Rieck, da revista Stern, notaram a presença da garota durante uma reportagem e escreveram uma série de reportagens na publicação. Foi a origem do livro. O ex-namorado Detlef ainda está vivo e mora em Berlim. Com filho e mulher, ele se diz limpo.



Triste, muito triste! Esta notícia, porém, só evidencia o que os profissionais que trabalham na área já estão carecas de saber: que é muito difícil superar a dependência de drogas. Obviamente não é impossível - inúmeros casos e estatísticas atestam isso -, mas convenhamos que é muito doloroso encarar a realidade de frente, sem ilusão. Isto é difícil para todos nós, imagine para os dependentes, que conheceram de perto o "fantástico" mundo da consciência alterada. Voltar à realidade e colocar novamente os pés no chão não é nada fácil. Ouvi certa vez e concordo: no tratamento da dependência de drogas o mais importante não é como tirar a droga, mas o quê colocar no lugar. Por experiência própria (como psicólogo!) percebo que muitos só abandonam a ilusão das drogas substituindo-a por outra ilusão. Comumente migram para (ou re-descobrem) a religião. Já está mais do que provado que praticar a religião (só falar que tem uma não basta!) é um importante fator de proteção ao uso, abuso e dependência de drogas, mas cabe a pergunta: não estará a pessoa substituindo uma ilusão por outra - trocando as drogas por Deus? Acredito que sim e esta é somente uma crença que nunca vou poder provar (sim, um ato de fé!). Concordo com quem afirma que a religião é muito menos danosa do que as drogas. Certamente! Mas, como as drogas, grande parte das religiões (o Budismo talvez seja uma exceção) fazem crer em um mundo imaginário para além do mundo cotidiano, uma vida para além da vida. Se isto é bom ou ruim não vem ao caso pois a crença em Deus e no além vai continuar existindo - queira ou não Richard Dawkins - como sempre existiu (assim como as drogas). O que me questiono com frequência é se não é possível viver só de realidade? Serão as ilusões necessárias para o ser humano? Para Christiane F. certamente é...

Vazio existencial

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Psicóloga missionária... Meu Deus!!!

Li a notícia abaixo no site SNN. É simplesmente chocante ver uma pessoa formada em Psicologia (não a chamo de psicóloga, percebam) falando tantas besteiras. A pessoa em questão é a senhora Rozângela Justino, auto-declarada "psicóloga missionária" e recente alvo de um processo no CFP, instaurado a partir de representação da ABGLT em função de seus discursos homofóbicos e práticas de “cura” de homossexuais. O julgamento estava marcado para o dia 29 de Maio, mas acabou sendo adiado para 31 de Julho. Recheando ainda mais seu currículo, Rozângela já recebeu, segundo o site Mix Brasil, “o troféu Pau de Sebo, concedido pelo GGB a quem promove o preconceito contra homossexuais”. Currículo interessante, não? Segue a notícia:

O 3° Encontro para uma Sexualidade Sadia realizado nesta terça-feria, 5, na Central de Palestras do X Encontro para a Consciência Cristã, trouxe como tema principal “A Desconstrução de Valores apontando para uma nova Sodoma”, abordado pela psicóloga Rosângela Justino. No entendimento de Rosângela, desconstrução diz respeito a tentativa de retirar os alicerces humanos, seus valores e ideais, sendo então algo que leva o homem a um estado de total destruição. Segundo ela, uma das formas pela qual o “movimento da desconstrução” tem conquistado território é pelo lado da sexualidade. “Se tínhamos o valor que o casamento entre homem e mulher era um valor bíblico, ético e moral, mas hoje há um trabalho para desconstruir esse valor, tentando mostrar que o casamento de homem com homem e mulher com mulher é algo natural. Isso é uma forma de minar esses alicerces”, afirmou. Para a psicóloga, a única maneira de mantermos uma sexualidade sadia é fortalecendo os princípios cristãos e melhorando as relações familiares. O terceiro Encontro para uma Sexualidade Sadia terminou nesta terça-feira junto com todos os eventos paralelos do X Encontro para a Consciência Cristã.

O que não entendo é porque ela insiste em se declarar psicóloga. Se admitisse ser apenas uma “religiosa missionária” não haveria problema algum. Ela poderia continuar falando e fazendo as besteiras dela sem problemas. Mas ela insiste neste discurso pretensamente “psicológico”, mas que de Psicologia não tem nada. É moralismo cristão puro e simples. Rozângela, por favor, leia um pouquinho de história e antropologia antes de falar em relações "naturais"... Deixe a Bíblia de lado só um minutinho, criatura!

Pra piorar, alguns apoiadores de Rozângela dizem se tratar de uma censura do CFP a proibição de suas atividades e discursos. Mas a questão é que o CFP é um órgão político e não pode deixar tudo, literalmente, ao deus-dará. Tem de estabelecer limites para nossa atuação profissional. Todas as profissões tem limites, porque a nossa seria diferente? E Rozângela pode fazer ou falar o que quiser desde que não o faça como Psicóloga. Simples assim...

UpDate 10/07/09: Dentre os apoiadores de Rozângela está o Deputado Federal Jairo Paes de Lira, coronel ultra-conservador vinculado ao PTC, o Partido Trabalhista Cristão. Em seu canal do Youtube ele se manifestou a respeito do caso da "psicóloga". Para ver sua assustadora opinião sobre o assunto avance o video abaixo até os 6 minutos e 50 segundos (06:50)... Triste, muite triste!



OBS: Que fundamentos científicos????

OBS2: A grande ironia nesta história toda é que o deputado assumiu (???) o cargo na Câmara Federal com a morte de Clodovil Hernandes. Paes de Lira era suplente dele...

OBS3: No blog da "psicóloga", que também é presidente da ABRACEH (Associação Brasileira de Apoio aos que Voluntariamente Desejam Deixar a Homossexualidade, porém divulgada como Associação de Apoio ao Ser Humano e à Família) há uma série de fotos da manifestação que os apoiadores de Rozângela fizeram em Brasília (veja abaixo). Já no site da ABRAPEH há vários textos, além de uma carta aberta ao CFP e CRPs escrita por Rozângela, que explica os "fundamentos científicos" da "terapia de conversão" de homossexuais. É ver para crer (ou melhor, crer para ver)!






Update 14/07/2009 - Em reportagem publicada hoje pelo jornal Folha de São Paulo, ficam claras as intenções da "psicóloga". O reporter se passou (incógnito) por paciente de Rozângela e ouviu o seguinte dela: "Tenho minha experiência religiosa que eu não nego. Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais", afirma a "psicóloga". Outra pessoa entrevistada pela reportagem, a almoxarife Cláudia Machado "diz que recebeu de Rozângela a apostila 'Saindo da homossexualidade para a heterossexualidade', que prega meios para a mudança de orientação sexual. 'Hoje vivo a minha homossexualidade tranquila, essa história de cura não existe, o que houve foi um condicionamento. Reprimi meus desejos. Não sentia prazer', diz". Já a pedagoga Fernanda, "diz ter sido lésbica por dez anos e que, depois da terapia que faz com Rozângela há quatro anos, passou a ter relações heterossexuais. 'Realmente há possibilidade de sair da homossexualidade. É um processo longo. De lá para cá busco a feminilidade'. Para quem se interessar em ler toda a reportagem clique aqui. Reproduzo abaixo apenas a última parte, intitulada "Como paciente, repórter paga R$ 100 a sessão":

Numa sala onde mal cabem dois sofás cobertos com capas meio encardidas e uma cadeira de palha, a psicóloga Rozângela Alves Justino promete "curar" gays em terapia que pode durar de dois a cinco anos. A mulher de fala mansa e fleumática diz já ter "revertido" uns 200 pacientes da homossexualidade -que vê como doença- em 21 anos de profissão. Sem se identificar como jornalista, a reportagem se passou por paciente e pagou por uma consulta - R$ 200, regateados sem resistência para R$ 100. Para uma primeira sessão, ela mais fala do que ouve. Tampouco anota dados ou declarações do consulente. Explica que faz "militância política para defender o direito daquelas pessoas que querem voluntariamente deixar a homossexualidade". "É um transtorno porque traz sofrimento", diz a psicóloga, formada nos anos 1980 no Centro Universitário Celso Lisboa, no Rio. Rozângela diz adotar a "linha existencialista" e que 50% de chance do sucesso da "cura" vem da vontade do homossexual de sair "dessa vida" e outros 50% decorrem do trabalho psicoterápico. "É preciso entender o que está por trás da homossexualidade. E a mudança vai acontecendo naturalmente. Vamos tentar entender o que aconteceu para que você tenha desenvolvido a homossexualidade. Na medida em que você for entendendo a sua história, vai ficar mais fácil sair", diz. Rozângela mostra plena convicção no que defende. "Com certeza há possibilidade de saída. Nesses 20 anos já vi várias pessoas que deixaram a homossexualidade. Existe um grupo que deixou o comportamento HOMOSSEXUAL. Existem pessoas que, além do comportamento, deixaram a atração homossexual. E outras até desenvolveram a heterossexualidade e têm filhos." No final da consulta, a recomendação: "A igreja pode ser um espaço terapêutico também" - embora não faça pregação.

Imaginem se fizesse...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Psicologia cristã - O retorno


A frase abaixo foi retirada de uma reportagem recente vinculada pelo Google Notícias. Retirei o nome da psicóloga pois não quero receber mais uma ameaça de processo (como recebi há cerca de 1 mês em função de um post sobre um charlatão, que acabei retirando do ar):

"A psicóloga xxx abordou o tema do medo de amar. Disse que, apesar dos traumas, é possível superar as decepções com a ajuda de Deus, sem transformar as situações dolorosas em 'muletas'".

Não sei se a reportagem distorceu a fala da "psicóloga" ou se ela falou isso mesmo. A questão é que tal argumentação não é, digamos, "psicológica", mas pura e simplesmente religiosa. Portanto o "psicóloga" no início da frase já não faz o menor sentido... Venho insistindo nesta questão pois considero muito perigosa a junção da Psicologia (enquanto profissão) com a Religião. Ambas tem seu espaço na sociedade... separadamente! A religião, principalmente a católica, está impregnada de uma moral conservadora que o profissional não pode, no meu ponto de vista, levar para sua prática. Quando estagiava em um CAPS na minha cidade presenciei uma cena que nunca me esqueci. Coordenávamos, eu e outra estagiária, uma reunião com os usuários, quando um deles falou que estava aprendendo a tocar violão. Brincando, um outro usuário falou algo do tipo: "E punheta, continua tocando?". Imediatamente, minha colega estagiária, católica fervorosa, gritou que aquilo não podia ser dito, muito menos ser feito (se é que vocês me entendem)... É CLARO QUE AQUILO PODIA SER DITO E, CERTAMENTE, SER FEITO! Quando gritou com os usuários, a estagiária não estava sendo (ou tentando ser) uma profissional. Estava agindo como uma religiosa ultra-conservadora que considera tudo relacionado a sexo como pecado. Ela mesmo me confessou isso mais tarde! Triste...

terça-feira, 30 de junho de 2009

Auto-ajuda... atrapalha? - Volume 1


A reportagem abaixo foi publicada semana passada no portal Terra:
 
Técnicas de autoajuda podem piorar o humor
 
Pesquisadores da Universidade de Waterloo, em Ontário, descobriram que repetir declarações positivas, técnica contida principalmente em livros de autoajuda, não fazem as pessoas com baixa autoestima se sentirem melhores. Os resultados sugerem que, para certas pessoas, autodeclarações positivas podem não só ser ineficiente, como também prejudicial. As informações são do Washington Post. Durante o estudo, envolvendo estudantes de psicologia, 32 homens e 36 mulheres, os pesquisadores pediram aos alunos que repetissem declarações como: "Eu sou uma pessoa amável" - em seguida, mediram o humor dos voluntários. Os investigadores descobriram que repetir as frases de autoajuda prejudicou o humor dos estudantes. Segundo os pesquisadores, em uma recente edição da revista Psychological Science, os meios de comunicação têm defendido as técnicas de autoajuda. "Neste momento, milhares de pessoas em toda a América do Norte estão, provavelmente, silenciosamente, repetindo declarações positivas para si." De acordo com os pesquisadores, uma das explicações para o resultado obtido na pesquisa é que o excesso de elogios positivos pode suscitar pensamentos contraditórios, afetando seriamente o humor e aumentando o abismo entre as pessoas com autoestima e baixa autoestima.

A metodologia da pesquisa é absurdamente frágil, a amostra irrisória e a conclusão generalizada não é possível tendo em vista os dois primeiros fatores, mas é tão bom ver uma pesquisa criticando a auto-ajuda...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mais sobre Psicologia Virtual...

O Jornal Correio de Uberlândia publicou no último sábado (27/06/09) uma interessantíssima reportagem sobre o atendimento psicológico mediado por computador. Segue na íntegra abaixo:
 
Psicólogos atendem pela internet


Da sala ou do quarto com o notebook conectado à rede, Luiza [nome fictício] está pronta para iniciar a sessão. Na próxima hora, o sofá ou o colchão se torna o divã. Num mundo no qual se compra, vende, aluga, fecha negócio ou se conhece pessoas, fazer terapia pela internet até que não soa estranho. A prática já faz parte da rotina semanal da assistente administrativa. Foi com o atendimento psicológico online que ela recuperou a autoestima e superou o rompimento repentino do namoro de três anos. “Eu esperava me casar, de repente fiquei sem chão. Ele terminou comigo sem me dar qualquer motivo”, afirmou. Embora para os mais radicais nada substitua as interações face a face, para quem está angustiado ou sem tempo a ajuda ao alcance de um clique pode ser aquela luz no fim do túnel em meio à escuridão. A alternativa também ajudou Rafael [nome fictício] num momento de extrema angústia com relação ao rumo que sua vida tinha tomado. O rapaz formou-se em administração de empresas aos 22 anos e, aos 24, ocupava um dos postos mais altos da empresa na qual havia estagiado. A progressão, que, segundo ele, se deu por seus méritos, o fazia se sentir culpado. “Em dois anos, eu passei de estagiário a chefe de pessoas que estavam há mais de 15 anos na empresa. Elas me olhavam como se eu tivesse puxado o tapete delas”, disse. Numa noite, depois de chegar em casa e não conseguir se livrar do sentimento nem da lembrança dos olhares que recebia no trabalho, resolveu buscar na internet contatos de especialistas. Primeiro pensou em conseguir números de telefones de psicólogos para conversar, mas descobriu o serviço disponível na rede. “Descobri um profissional que estava online naquele exato momento. Teclamos durante uma hora, mais ou menos. Pude desabafar e receber uma orientação que me ajudou muito”, afirmou. Os serviços de psicologia pelo computador estão engatinhando no Brasil. A nova tendência é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) pela Resolução Nº 012, de 2005, e exige o selo de aprovação do órgão disponibilizado no site para o público.

53 sites brasileiros estão credenciados

Atualmente, 53 sites brasileiros possuem credenciamento no Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo dois deles em Minas Gerais. Até a primeira quinzena de junho, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) havia registrado 365 solicitações de credenciamento de sites que gostariam de oferecer atendimentos pela internet. Destes, 117 estão sob análise e o restante foi reprovado por não atender aos critérios da Resolução que regulamenta o serviço. Até agora, o consenso entre os profissionais é de que não se pode resolver todos os conflitos num bate-papo eletrônico. Os sites credenciados perante o CFP estão habilitados a prestar ajuda para questões precisas ou crises específicas, mas nada grave. Caso contrário, o tratamento convencional é o indicado. De acordo com a membro do CFP, Andréa dos Santos Nascimento, o órgão regulamenta o atendimento psicológico mediado pelo computador, sem caráter psicoterapêutico. Ele se restringe à orientação e ao aconselhamento. A psicoterapia pela internet só pode ser realizada como pesquisa científica, cujo protocolo tenha sido aprovado por um comitê de ética em pesquisa, reconhecido pelo Conselho Nacional de Saúde. “A psicoterapia online ainda não é reconhecida como uma prática do psicólogo por não existirem estudos suficientes sobre isso”, afirmou Andréa Nascimento, mestre em política social e doutoranda em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Porém, antes de se iniciar uma interação, Andréa Nascimento afirmou que é preciso se cercar de cuidados para não cair em armadilhas. “Há sites que clonam o selo do Conselho, por isso, antes de interagir, o internauta precisa clicar no selo e verificar se o link o remeterá ao site do Conselho. Além disso, a psicologia não se utiliza de bruxinhas nem de nenhum símbolo do esoterismos”, disse. Para ela, é preciso verificar ainda se a pessoa do outro lado é realmente um profissional sério. “Desconfie de consultas muito baratas, apesar de encontrar alguns profissionais que disponibilizam o atendimento a um custo menor, a diferença não deve ser escandalosa. O tempo de um bom profissional nunca é barato”, afirmou. As interações no atendimento psicológico online são feitas por intermédio do MSN, skype, google talk, gmail ou videoconferência, por isso, exigem um certo conhecimento sobre computador, para manipular as ferramentas. Para optar pela videoconferência, é necessário que o internauta não tenha resistência ao uso da câmera. Quem se trava diante da webcam não conseguirá ter êxito no atendimento.


PONTOS POSITIVOS

Timidez

Grande parte dos pacientes apresenta dificuldades de se abrir nas interações face a face. O atendimento online ajuda essas pessoas a relaxarem.

Comodidade

O acesso pela web diminui as chances de empecilhos como tempo, distância ou trânsito.

Custo

Um atendimento online é cerca de um terço mais barato que no consultório.

Residentes no exterior

A barreira da língua e da distância é derrubada, já que o desconhecimento do idioma pode ser um dos motivos de angústia.


PONTOS NEGATIVOS

Charlatanismo

O acesso pela internet aumenta o risco de cair em armadilhas e ser vítima de pessoas desqualificadas.

Conexão

A conexão entre os computadores do paciente e do terapeuta pode ser derrubada, o que interromperia a terapia. A praxe é igual: data e horário da consulta são agendados previamente.

Sigilo

Não há garantia de sigilo absoluto como ocorre com qualquer pessoa que navegue na rede, mas os adeptos alegam que nem o tratamento convencional oferece isso.

Conflito
 
Muitos especialistas afirmam que a terapia online funciona apenas como orientação, mas não segura a barra de uma crise.

Pesquisas

Não há pesquisas conclusivas que provem sua eficácia.

Interpretação

Na comunicação virtual, o terapeuta não vê ou ouve o paciente, o que compromete a interpretação dos signos e, consequentemente, torna a técnica tradicional inadequada. Ao escrever, o paciente pode mostrar segurança, mas no íntimo está apavorado.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Web Therapy

Estréia em Julho a segunda temporada da série on-line Web Therapy, protagonizada pela atriz Lisa Kudrow, a Phoebe do extinto e famoso seriado Friends. De acordo com o site do jornal O Globo "Kudrow ganhou em junho o Prêmio Webby Award - considerado o Oscar da internet - por seu notável desempenho como comediante em "Therapy". Ela interpreta Fiona Wallice, uma psicanalista que adota métodos bastante descontrolados numa clientela que atende por meio de uma Webcam". Lançada pela fabricante de carros Lexus em seu portal L Studio, a série contará nesta nova temporada com a participação da atriz Courtney Cox, colega de Lisa em Friends, que interpretará, segundo a mesma reportagem, "uma paranormal que busca a ajuda de Wallice porque não tem mais os sonhos em que se baseia para apresentar sua visão mediúnica. É uma alusão cômica ao papel desempenhado por sua cunhada, Patricia Arquette, no programa 'Medium', da CBS". Ainda não tive tempo de assitir a série, mas disponibilizo abaixo, para os interessados, os três primeiros episódios da primeira temporada (correpondente a três atendimento de um único paciente), infelizmente sem legendas em português. Para assitir a mais episódios clique aqui. Um curiosidade é que tal modalidade de terapia não seria possível no Brasil em função da Resolução do CFP n°12 de 2005, que proibe qualquer trabalho psicoterapêutico não-experimental mediado por computador. Outras formas de atendimento, menos profundas (como a orientação profissional, por exemplo), são permitidas. De qualquer forma, o psicólogo responsável pelo serviço, deverá se cadastrar no site www.cfp.org.br/selo. Muitos não o fazem...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Psicologia Cristã e outras polêmicas

Há tempos venho observando, com preocupação, um movimento crescente que tem buscado fundir a Psicologia com a Religião, em especial com o cristianismo. Durante a graduação tive contato - para meu total espanto na época - com a revista Psicoteologia, publicada pelo Corpo de Psiquiatras e Psicólogos Cristãos (CPPC). E como, felizmente, nunca perdi a capacidade de me espantar com notícias espantosas, foi exatamente esta minha reação ao ler a seguinte nota no blog da revista Viver Mente e Cérebro:

Dia 29 de maio (sexta-feira) o Conselho Federal de Psicologia deve julgar o caso da psicóloga Rozângela Alves Justino, que trabalha no Rio de Janeiro e presta serviço a pessoas que querem deixar de ser homossexuais. A representação foi movida pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), tendo como base a resolução CPF 01/99 do Código de Ética Profissional do Psicólogo, que veda este tipo de atendimento. Segundo representantes da GLBT, a psicóloga é evangélica, se esforçaria para estabelecer associações entre a homossexualidade, prática de abuso sexual e pedofilia, recorrendo a argumentos de fundo religioso. Ainda segundo a entidade, também tem sido notória a atuação militante da psicóloga contra o projeto de lei nº. 122/2006, que criminaliza a discriminação por gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, atualmente em pauta para ser votado no Senado Federal. A associação pede a cassação do registro profissional de Rozângela e conta com o apoio formal de 71 psicólogos ligados a Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs).

Digitando o nome da "psicóloga" no Google, encontrei vários textos no mínimo curiosos sobre a questão. O primeiro, do site Jornada Cristã, cita um e-mail enviado por um leitor do site que diz o seguinte sobre Rozângela:

Mais uma vítima da perseguição da Gaystapo. Acessem o blog da psicóloga Rozangela Justino para se informarem melhor acerca do assunto (rozangelajustino.blogspot.com). Recomendo que apóiem e divulguem o quanto for possível, para dar a conhecer ao maior número de pessoas os perigos da “Ditadura Gay” que aos poucos está sendo implantada nesta Terra de Santa Cruz – e que corre o seríssimo risco de ser oficializada no país através do PLC 122/2006 (a famigerada “Lei da Mordaça Gay”) que está sendo avaliada no Congresso Nacional.

E o site continua:

Pequeno comentário: o “crime” da psicóloga é ajudar pessoas que queiram, por livre e espontânea vontade, abandonar o vício do homossexualismo. Por agir assim, corre o risco de ter seu registro profissional cassado. Não há nada pior para um “gay” que um… “ex-gay”. “Traidor do movimento!”, bradam aos quatro ventos. A modernidade é isso: perda completa do direito de escolher o próprio caminho. A identidade de um grupo, ainda que seja uma mera construção social, se sobrepõe à liberdade do indivíduo e de sua própria consciência. Agora, o que você faz na cama, algo que pertence à sua vida privada e à sua intimidade, dá a você “direitos”; o vício torna-se virtude, pela simples vontade e capricho de alguns. E ai de quem for contra… É silenciado pela força, sem chance de expor sua discordância através de um debate. Isso é ou não uma ditadura?

Nos comentários ao texto dois supostos ex-gays deixaram seus depoimentos. Cito um:

Concordo plenamente com o colega Claudemiro Soares [que defendeu o texto e a "psicóloga"], pois também estive homossexual por um período de 4 anos, tinha passado a curtir momentos de sexo homo, fiquei tão viciado que só procurava homens para transas, gostava de penetrá-los ativamente. Certo dia pude perceber que quanto mais praticava mais ficava insaciável, então, parei e pensei em resolver essa questão tão esquisita. O estilo de vida gay é pura ilusão, um mundo de fantasia passageiro, angustiante, insaciável, um mundo “cão”, onde ninguém confia em ninguém, tudo é muito perigoso em todos os sentidos e aspectos. O melhor que fiz deixar esse vício pecaminoso e resgatar minha verdadeira sexualidade sadia: Heterossexualidade Masculina. Tenho um exemplar do livro “Homossexualidade Masculina: Escolha ou Destino?”…

Em outro site, intitulado Monergismo, a própria "psicóloga" escreve o seguinte num texto intitulado "Os Movimentos Pró-Gay e Neonazista":

O movimento pró-gay (movimento sócio-político-cultural empenhado na transformação do mundo em gay) está mudando os costumes brasileiros. Filmes e novelas já mostram cenas de relações entre casais que “estão” homossexuais, tanto masculinos quanto femininos. Há revistas que exaltam a “beleza” do “tipo gay”. As passeatas gays estão se transformando em festa folclórica brasileira. Como o movimento de defesa das mulheres e de crianças e adolescentes tem trabalhado contra o “marketing” do cenário brasileiro associado às “mulatas rebolantes”, devido ao tráfico e à prostituição, as passeatas gays se transformaram na bola da vez para atrair o turista nacional e internacional. Famílias levam seus filhos para se divertirem às custas da miséria humana, embora os ativistas gays acreditem que as passeatas sejam medidas efetivas para uma melhor aceitação social de sua condição.

Para mim, a questão central de toda esta polêmica não é se é possível transformar um homossexual em um heterossexual (o que duvido muito!), mas se queremos e devemos apoiar tais práticas, sejam elas efetivas ou não. É uma decisão política, não científica, afinal, cientificamente, não há como afirmar categoricamente que tal "conversão" seja impossível. O fato de eu e muita gente não acreditar nisso não significa que estejamos certos. Podemos estar errados! Se uma pessoa falar para mim que deixou de ser gay, eu tenho todos os motivos do mundo para duvidar dela, mas não tenho como penetrar em seus desejos mais profundos para desmentí-la. Só o que tenho são suas palavras contra minhas crenças. O que fazer? Sinceramente não sei.

Outra questão é que não podemos proibir uma pessoa de, por livre e espontânea vontade (se isto for possível, questionariam os behavioristas), buscar a "conversão" em uma Igreja ou consultório psicológico. As pessoas podem fazer o que bem entendem de suas próprias vidas desde que não afetem outras pessoas, não é mesmo? Se ela quiser deixar de ser gay, esteja ela certa ou errada, não posso proibí-la, no máximo tentar dissuadí-la. E se ela quiser mesmo "transformar-se" em hetero, o que posso eu fazer? O que questiono é o psicólogo participar disso.

É uma questão muito complexa! A Psicologia brasileira vem lutando a décadas para ser encarada pela sociedade como uma profissão séria e "científica", muito embora inúmeros profissionais insistam em contrariar isso, inserindo em suas práticas diversos procedimentos místicos e religiosos. Só que se fossemos levar à cabo a cientificidade da Psicologia e eliminar tudo o que não é científico, certamente não ia sobrar muita coisa. A psicanálise, inclusive, estaria fora. O que fazer? Como distinguir as práticas científicas das alternativas? E, mais importante, o que fazer com esta distinção? Eliminar tudo o que não seja científico ou aceitar a não-cientificidade da maioria das práticas psicológicas? Pra variar, não tenho respostas, só perguntas.

O CFP, como entidade representativa dos psicólogos, ao contrario destes individualmente, deve ter uma posição clara a respeito deste e de outros assuntos polêmicos. Ficar em cima do muro não ajudaria em nada. E o fato é que o CFP é dominado pelos sócio-históricos, psicólogos marxistas de esquerda. E isto é um elogio! E os psicólogos-sócio-históricos-do-CFP tem uma posição clara a respeito do assunto: o psicólogo não pode e não deve trabalhar na "conversão" de homossexuais. E ponto final! Foi uma decisão baseada na perspectiva dos direitos humanos e contra a homofobia. Apoio totalmente o CFP nesta empreitada contra a discriminação, seja ela qual for. E esta é uma posição política, não científica!

OBS: já discuti a questão da homofobia neste blog diversas vezes (ver aqui, aqui, aqui e aqui).

UpDate (23/06/09): segundo o site Mix Brasil, o julgamento da "psicóloga" Rozângela Alves Justino foi adiado para o dia 31 de Julho...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Primeiro os jornalistas... depois nós?

A polêmica decisão do STF de derrubar a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão poderá se extender a outras profissões. É o que afirma uma reportagem publicada hoje pelo Yahoo Notícias. Segundo o presidente do STF Gilmar Mendes, a decisão tomada deverá criar um "'modelo de desregulamentação'" das profissões que não exigem aporte científico e treinamento específico. 'A decisão vai suscitar debate sobre a desregulamentação de outras profissões. O tribunal vai ser coerente e dirá que essas profissões podem ser exercidas sem o diploma'. Há, segundo o ministro, vários projetos sobre o tema no Congresso, que, se chegarem ao STF, terão a mesma interpretação dada à questão do diploma de jornalismo".

Assim que li esta reportagem a primeira coisa que pensei foi: será que existe o risco da profissão de Psicólogo ser também desregulamentada? Acredito que não, afinal, teoricamente (e isto é muito discutível, eu sei) a Psicologia é uma ciência - muito embora também não o seja majoritariamente. O fato é que certamente desregulamentar nossa profissão pioraria substancialmente o que já está ruim. A quantidade de profissionais mal-formados fazendo merda por aí já é muito grande. Agora imagine se abrirem a porteira e qualquer um poder se dizer psicólogo e atuar como tal - seja lá o que "ser psicólogo" seja. Seria definitivamente o caos. Não que isso não aconteça hoje (afinal "todo mundo é um pouco psicólogo", não é?), mas certamente pioraria demais. A regulamentação da nossa profissão em 1962 foi uma conquista muito grande para nossa categoria e não podemos de forma alguma sequer pensar em perdê-la. Não acho que isso acontecerá, mas cuidado nunca é demais... afinal o risco é vermos por toda parte placas como a da imagem acima. E isso não seria nada bom!

Wiseman 1 x Paranormais 0

O psicólogo Richard Wiseman, autor do livro Esquisitologia (já comentado neste blog - ver aqui) realizou recentemente uma experiência muito interessante sobre paranormalidade utilizando-se do portal Twitter para testar os "poderes psíquicos" de supostos videntes. Uma descrição mais detalhada tanto da metodologia quanto dos resultados pode ser lida abaixo, numa reportagem da BBC Brasil.

Cientista usa Twitter para questionar paranormalidade


Durante quatro dias, o professor Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, pediu que um vasto número de voluntários e pessoas que acreditavam ter poderes paranormais o "seguissem" no Twitter (site de relacionamento) para participar do teste. Wiseman se dirigia a um local secreto e enviava uma mensagem de Twitter pedindo aos participantes que escrevessem de volta, descrevendo suas sensações e impressões do local em que ele se encontrava. Em seguida, Wiseman enviava outra mensagem com fotos de cinco locações diferentes - a que ele se encontrava, além de quatro locações "falsas" - e pedia aos participantes que votassem na que eles consideravam ser a "verdadeira". A que recebesse maior número de votos era considerada a escolha do grupo. O professor acreditava que, se o grupo tivesse habilidades psíquicas, a maioria votaria na locação correta. Em todas as quatro tentativas, no entanto, o grupo escolheu uma das locações falsas. "Na primeira tentativa eu estava olhando para um edifício extremamente moderno, mas a maior parte do grupo (35%) acreditou que eu estava em uma floresta. Em outra tentativa, eu estava sentado embaixo de uma cobertura bastante incomum, mas apenas 15% dos participantes escolheram a locação correta, enquanto 24% (a maior parte) acreditava que eu estava em um cemitério. Isso ocorreu em todas as tentativas", afirmou Wiseman. O objetivo do teste, segundo Wiseman, era testar se o grupo realmente tinha habilidades paranormais, e se os que acreditavam ter essas habilidades se sairiam melhor dos que os outros. A experiência atraiu mais de mil participantes, com 38% deles indicando acreditar em fenômenos paranormais e 16% afirmando ter alguma habilidade psíquica. Não houve diferença de resultado entre os participantes que se diziam "paranormais" e os céticos. Quando os participantes ficavam sabendo qual era a locação verdadeira, no entanto, aqueles que acreditavam ser paranormais tinham maior tendência a tentar se convencer de que havia alto nível de correspondência entre o que eles tinham "visto" e a locação real. A diferença entre os grupos foi bastante notável, afirma a New Scientist, com 31% dos que acreditavam ter "habilidades" indicando uma correspondência "considerável" entre o que eles "viram" e a locação verdadeira, em comparação com apenas 12% dos céticos. "Este tipo de pensamento criativo pode fazer com que as pessoas vejam relações ilusórias com o mundo real e poderia, por exemplo, ajudá-las a se convencer de que há semelhanças escondidas entre seus sonhos e eventos reais", afirmou o professor. "Mas talvez, o mais interessante seja mostrar que milhares de pessoas toparam participar de um estudo instantaneamente no Twitter", disse Wiseman.


OBS: Wiseman tem um poder de juntar pessoas só comparável ao ultra-agregador dançarino anônimo, último sucesso do YouTube. Segundo o site Bombou na Web, o dançarino-doidão "estava se divertindo sozinho no festival americano de música Sasquatch, fazendo uma dança desengonçada, quando, aos poucos, começou a ganhar a companhia de outros. De repente, uma multidão estava acompanhando seus passos". O blog Olhar Beheca fez uma análise interessante e detalhada do video (ver aqui), que é puro deleite para Behavioristas e Psicólogos Sociais...


Atire a primeira pedra...

...o terapeuta que nunca quis que isso fosse possível...

O sentido da vida - v2

terça-feira, 16 de junho de 2009

Psicologia da Percepção... de Bush!

A curiosa notícia abaixo foi publicada na Folha Online semana passada, com o título de "Estudo mostra que Bush contribuiu com a ciência ao se esquivar de sapatos":

O ex-presidente americano George W. Bush (2001-2009) fez uma contribuição inesperada para a ciência quando se esquivou dos sapatos que foram atirados contra ele, em dezembro de 2008, em Bagdá, por um repórter iraquiano. A afirmação é de um estudo publicado pela revista "Current Biology". Os reflexos de Bush e a falta de reação do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, que estava ao lado do ex-presidente, durante o incidente, comprovam a teoria de neurocientistas da Universidade de Washington de que "existem duas vias independentes no sistema visual humano". Um dos sistemas guia as ações e o outro a percepção. O interessante é que o primeiro permite ao cérebro "ver" coisas que os olhos não percebem, segundo o estudante de doutorado em psicologia Jeffrey Lin, autor principal do estudo. "Quando lançamos duas bolas com trajetórias muito similares contra alguém, elas podem parecer iguais para seu sistema de percepção, mas o cérebro calcula de forma automática qual representa uma maior ameaça e desencadeia uma manobra de evasão, inclusive antes que a pessoa se dê conta do ocorrido", afirma Lin. Isto explica porque no incidente dos sapatos al- Maliki nem se mexeu. "Seu cérebro já tinha captado que o sapato não representava uma ameaça. Mas o cérebro de Bush o catalogou como uma ameaça e desencadeou um movimento de evasão, tudo em uma fração de segundo", disse Lin. Os cientistas realizaram vários experimentos com estudantes e o uso de computador para demonstrar sua teoria. Segundo Geoffrey Boynton, coautor do estudo, o fato demonstra que um estímulo em forma de ameaça chama a atenção, inclusive quando não se pode identificar de forma consciente. "Isto ser mais preciso que nossa percepção consciente é bastante impressionante", disse.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Psicoterapeutas no cinema

Descobri na bibliografia do livro comentado no post anterior (Como falhar na relação?) um outro livro, do mesmo autor (John Flowers), junto com Paul Frizler, intitulado "Psychotherapists on film, 1899-1999", uma coletânea de ensaios sobre como os psicoterapeutas foram retratados em mais de 5000 filmes (isso mesmo: cinco mil!). Um trecho: "Recente pesquisa apurou que na última década, psicólogos foram retratados em cerca de 1500 filmes. Infelizmente, apenas 20% desses filmes apresentavam profissionais clínicos competentes, eficazes ou éticos. Os terapeutas costumam aparecer como causadores de males (O silêncio dos inocentes); histéricos e sem ética (Desconstruindo Harry); ou simplesmente incompetentes (Maquina Mortífera I, II, III e IV)" (Flowers e Frizler, 2004)

Lançamento da Casa do Psicólogo


Comprei durante o II Seminário Internacional de Habilidades Sociais (muito bom, por sinal!) um livro espetacular, intitulado Como falhar na relação? Os 50 erros que os terapeutas mais cometem (de Bernanrd Schwartz e John V. Flowers, Casa do Psicólogo, 2009). Ainda estou na primeira parte mas já me encantei com a proposta dos autores, bem como com a inventiva e cuidadosa diagramação da editora. O título dos capítulos é muito ilustrativo:

I Como errar antes mesmo de começar a terapia

II Como fazer avaliações incompletas

III Como ignorar a ciência

IV Como evitar a colaboração do cliente

V Como destruir o relacionamento terapeuta-paciente

VI Como estabelecer limites incorretos entre o terapeuta e o cliente

VII Como fazer com que o paciente não se envolva no cumprimento das metas

VIII Como piorar atitudes que já são ruins

IX Como evitar o confronto com os pacientes

X Como fazer com que os clientes recusem o uso de remédios

XI Como não encerrar uma terapia

XII Como chegar ao desgaste total do terapeuta

XIII Considerações finais: a capacidade humana de recuperação

Prefaciado pelo famoso psicólogo Arnold Lazarus, este livro utiliza a abordagem cognitivo-comportamental como base para seus apontamentos, mas como afirma a editora Chistiane Gradvohl Colas na Apresentação à edição brasileira “o leitor atento, porém, perceberá que os erros descritos pelos autores e as soluções sugeridas aplicam-se a qualquer situação de terapia, transcendendo sua base teórica”.

Este é, na verdade, o grande diferencial deste livro: tratar do dia-a-dia da pratica psicoterapia independente da abordagem teórica seguida pelo terapeuta. Existem muitos livros sobre a teoria das psicoterapias, mas muito poucos exploram a prática, o dia-a-dia, o cotidiano, enfim, a vida real e a complexidade da prática psicoterápica. Lembro-me, agora, de três: Os desafios da terapia – Reflexões para pacientes e terapeutas (de Irvin Yalom, Ediouro, 2006), Cartas a um jovem terapeuta – Reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos (de Contardo Caligaris, Elsevier, 2004) e Entrevista de Ajuda (de Alfred Benjamim, Martins Fontes, 1978). Já ouvi falar também de um chamado Ser Terapeuta, mas ainda não o li. De qualquer forma, este lançamento da Casa do Psicólogo preenche um vazio na literatura brasileira no que se refere ao real – e não ao ideal – do cotidiano de um psicoterapeuta. Fica a dica!

OBS: algumas partes do livro estão disponíveis no Google Books: clique aqui para ver.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Saúde Mental na Época


A reportagem de capa da revista Época desta semana ainda vai dar o que falar. Estou sem tempo de comentá-la, pois viajo para o Rio de Janeiro hoje (para o Seminário Internacional de Habilidades Sociais), mas fica a dica para todos que se interessam pela área de Saúde Mental. É uma reportagem muito interessante e um tanto polêmica, pois critica alguns princípios da Luta Antimanicomial. Clique na imagem acima para ler um trecho. A Época espertamente não disponibiliza todo seu conteúdo no site, forçando o interessado a comprar a revista nas bancas ou a assiná-la.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Terapeutas que sofrem


Saiu ontem no jornal Folha de São Paulo uma interessante reportagem - que reproduzo integralmente abaixo - sobre o seriado In Treatment (ou Em Terapia), que inicia sua segunda temporada hoje, dia 1° de Junho, às 21:30h na HBO. Infelizmente ainda não consegui assistir a nenhum episódio da série em função de não assinar o canal e de o DVD com a primeira temporada ainda não ter sido lançado no Brasil. Aguardo ansioso por isso! Até lá vou lendo a respeito...


Seriado "Em Terapia" coloca protagonista para sofrer


O psicólogo Paul Weston (Gabriel Byrne) está encrencado. Após ter se apaixonado por uma paciente, se separado da mulher e se envolvido com a morte de um herói de guerra, se muda para o Brooklyn, em Nova York, buscando recomeçar na vida pessoal e na carreira. Nem por isso os problemas dão trégua nesta segunda temporada, que estreia amanhã na HBO. O pai do soldado morto acha seu novo escritório e entra com um processo de US$ 20 milhões contra o médico por negligência --com a qual ele, no fundo, concorda. Sua capacidade de julgamento emocional é colocada em xeque. Quando procura uma firma de advocacia para se defender, reencontra Mia (Hope Davis), ex-paciente que ele abandonou há anos, durante uma crise da vida dela. Autodestrutiva, se culpando por não ter marido nem filhos e se considerando "uma fracassada de sucesso", ela será sua salvação ou ruína? Recém-divorciado, ele ainda enfrenta um espelho do casamento frustrado nos relatos de Oliver, um tímido menino de 12 anos diante da separação - e frequentes brigas-- dos pais. Aos 53 anos, Paul atende também um empresário bem-sucedido com ataques de ansiedade e uma jovem de 23 anos com um linfoma em estágio avançado que ela esconde de toda a família e dos amigos. "Em Terapia" já rendeu um Globo de Ouro para Byrne e deriva de um programa israelense, cujo formato o canal HBO comprou para reproduzir nos EUA. Exibida de segunda a sexta, reúne 35 episódios divididos em quatro sessões semanais com personagens fixos. Na sexta, é a vez de o psicólogo revelar suas dúvidas e fraquezas em terapia com Gina (Dianne Wiest). Produzida por Rodrigo Garcia, filho de Gabriel Garcia Márquez, a série se segura toda nos diálogos, já que não há nenhuma ação que se desenrole fora do consultório. Os personagens não se transportam para os eventos que descrevem nem há flashbacks. A câmera funciona como um fio condutor para a história, focalizando reações, a fluência da conversa e a sensação do ambiente, cada vez que um personagem adentra na sala do médico. Nada de relação cristalina. Eles às vezes mentem ou mascaram alguns atos e o próprio analista quebra os limites éticos de sua profissão. Como já bem mostrava "Huff" (2004), com Hank Azaria no papel principal - que coincidentemente também tinha o terror de um paciente morto--, faz tempo que superamos a necessidade de ver seriados assépticos e honestos. A dubiedade na trama é mais interessante. Após terminar um período regrado de casado e carreira estabilizada, Paul está mais inseguro, com pacientes novos e problemas que parecem refletir o inferno astral da sua vida real. Em ritmo intenso e diário, ele vai desnudar seus medos diante dos nossos olhos de voyeur. Vai sofrer e duvidar de si mesmo. E vamos gostar de ver.

Nunca assisti mas já estou encantado com a série, pois ela parece retratar de forma realista e somente com diálogos, sem flashbacks ou outros recusos cinematográficos, a complexidade de uma sessão de terapia. Só por isso já mereceria minha adimiração. Mas ela vai além e mostra como os terapeutas são pessoas antes de serem terapeutas e que estes também passam por dificuldades, sofrem e erram. Inclusive no trabalho. Mas certamente os bons terapeutas tentam continuamente resolver seus problemas e se desenvolverem enquanto pessoas. Além disso, como disse o psicólogo James Bugental, "o psicoterapeuta faria bem em reconhecer que sua profissão continuamente o pressionará a mudar e a se desenvolver". Essa frase foi retirada da epígrafe de um texto clássico sobre a pessoa do terapeuta. Trata-se do capítulo 13 ("A pessoa e a experiência do terapeuta"), do espetacular livro "Processos Humanos de Mudança - As bases científicas da psicoterapia" (Michael J. Mahoney, Ed. Artmed, 1998 - esgotado, mas encontrável na Estante Virtual [eu comprei o meu por lá]). Todos que pretendem trabalhar ou já trabalham com a área clínica deveriam ler este livro, em especial este capítulo. Fica a dica!