segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Westworld: um parque de diversão para adultos

Imagine só um lugar onde você pudesse fazer tudo o que quisesse e no qual fosse possível dar vazão aos seus impulsos mais secretos, pecaminosos e violentos sem quaisquer riscos ou consequências. Você consegue imaginar um lugar assim? Você gostaria de ir para um lugar como esse? Feliz ou infelizmente tal lugar ainda não existe na vida real, onde diversões possuem riscos e, muitas vezes, efeitos colaterais. Mas na ficção ele se chama Westworld, um parque de diversão para adultos que é tema de uma série de mesmo nome lançada em outubro pelo canal HBO. Inspirada em um filme homônimo lançado em 1973 - no Brasil ele se chama Westworld - Onde ninguém tem alma (um ótimo subtítulo!) - a série possui um argumento semelhante mas tenta (e consegue) ir além, muito além da produção que a inspirou, tanto no enredo quanto no visual. A história básica de ambos é praticamente a mesma: em um parque voltado para adultos, especialmente para homens, androides com aparência humana atuam como anfitriões de "convidados" humanos que desejam viver romances e grandes aventuras no Velho Oeste - no filme original, além do Velho Oeste existem outros dois cenários: o mundo medieval e o mundo romano. 

A grande questão tanto do filme quanto da série é que os androides são tão incrivelmente semelhantes aos seres humanos, que é praticamente impossível distingui-los - Westworld se configura, neste sentido, como um imenso Teste de Turing (na verdade, os androides são tão reais que seria mais correto dizer que o parque superou o Teste de Turing). Uma diferença crucial, no entanto, é que somente anfitriões podem se "ferir" e "morrer" - na realidade, nenhum é de fato ferido ou morto pois são máquinas e não seres vivos, apenas o parecem sê-lo; os convidados estão, pelo menos em um primeiro momento, protegidos (o filme de 1973 deixa claro que os revólveres possuem sensores que impedem anfitriões e convidados de atirarem em convidados, mas não parece haver qualquer impedimento para que convidados firam ou matem convidados com outras armas; já a série, pelo menos até onde assisti, não deixa claro se anfitriões podem de fato ferir convidados com socos ou facas, por exemplo, ou se convidados podem atirar em convidados). De fato há uma grande preocupação dos administradores do parque com a segurança dos convidados. No filme há uma cena em que uma cobra robótica morde um visitante, o que deixa a equipe transtornada. Um dos administradores então afirma ser "imperdoável ferir um hóspede"; e complementa: "Se não pudermos garantir a segurança dos hóspedes teremos sérios problemas". A preocupação é legítima. Se os convidados pagam caro para ir a este parque (o filme fala em U$1000,00 por dia), o mínimo que esperam é que voltem inteiros da experiência.

Mas se a expectativa dos administradores diz respeito, dentre muitíssimas outras coisas, à segurança dos convidados, as expectativas destes vão muito além. O que eles esperam é não só voltarem vivos mas também e principalmente viverem experiências intensas de sexo e violência que não podem colocar em prática na vida real com pessoas reais. Em Westworld tudo é permitido. Se quiserem roubar, podem; se quiserem matar, podem; se quiserem estuprar, podem. Os convidados - majoritariamente homens - podem tudo. Como bem afirma Robert Ford, criador e administrador de Westworld na série, "os convidados gostam de poder. Como não podem tê-lo lá fora, eles vem aqui". Os anfitriões foram criados - embora não o saibam - justamente para atender, entreter e satisfazer os convidados. Um dos protagonistas do filme afirma, nesse sentido, que "essas máquinas são servas do homem". Pois é disto que se trata: de um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade (de fato não há ambiente mais masculinizado e viril do que o Velho Oeste do parque). Em Westworld os convidados são deuses que tudo podem. Lá, ao contrário da vida real, eles não estão submetidos a regras, a leis, a tradições, a rotinas e a constrangimentos de qualquer tipo. Lá eles podem ser e fazer o que quiserem, quando quiserem e da forma como quiserem. Como afirma Ford para sua equipe, os convidados "não querem histórias que lhes digam quem são. Eles já sabem quem são. Eles vem porque querem vislumbrar quem poderiam ser". É possível ver nesta fala de Ford que um dos objetivos do parque é propiciar uma experiência de autoconhecimento para seus clientes. 

Mas para além disso, a ideia central é que consigam colocar em prática, pelo menos no tempo em que estiverem no parque, tudo aquilo que não conseguem fazer no mundo real. Se na vida cotidiana, não conseguem ou não podem se aproximar de certas mulheres, lá todas estão à sua inteira disposição; elas foram concebidas justamente para atender aos desejos dos homens - e com uma "vantagem": elas não se lembrarão de nada no dia seguinte, aconteça o que acontecer. Se na rotina do dia-a-dia não convém esmurrar e muito menos matar as pessoas que lhe incomodam, lá isto é permitido e mesmo estimulado. Foi contrariado, questionado ou ironizado por alguém? Então atire! E pode atirar à vontade pois no dia seguinte todos os anfitriões estarão novos em folha, prontos para serem mais uma vez alvejados por tiros. Quer roubar um banco e ainda sequestrar e estuprar a filha do banqueiro? Pode fazer sem medo, pois em Westworld você não será punido e não haverão consequências reais. Lá não há leis, não há moral, não há restrições. Lá, ao contrário do que ocorre na vida real, todos os convidados possuem total ou, pelo menos, grande controle do rumo dos acontecimentos. Eles sabem que tudo terminará bem e que eles serão, pelo menos por um instante, protagonistas e heróis de alguma história grandiosa. Lá eles são especiais.

De uma forma geral, o filme e a série possuem uma visão bastante negativa (ou será realista?) do ser humano. Liberto das amarras da sociedade, o homem livre é um ser puramente sexual e violento, parece nos dizer Westworld. E talvez seja realmente assim. Em sua clássica obra Mal-estar na civilização, Freud argumentou justamente nesta direção. Segundo ele, viver em sociedade implica necessariamente na repressão e sublimação de grande parte de nossos impulsos sexuais e agressivos, o que traz como consequência  uma permanente e inevitável sensação de mal estar. Em sociedade não conseguimos e provavelmente nunca conseguiremos nos sentir plenamente satisfeitos. Viveremos eternamente frustrados e incompletos, sempre desejando aquilo que não temos e nem podemos ter. E talvez por isto todos ou muitos de nós nutramos internamente um enorme desejo de liberdade, um anseio permanente de nos libertarmos de tudo e de todos para que possamos viver e ser e fazer o que bem entendermos. Talvez por isso também nos regozijemos com obras de arte ou jogos (e Westworld é, em sua essência, um jogo) que permitem que vivamos experiências radicais e perigosas em ambientes controlados e seguros. É como se ao assistirmos um filme de terror, por exemplo, pudéssemos dar vazão aos nossos medos mais profundos sem que de fato sejamos afetados. Como afirma um criador de jogos de terror realistas no episódio Playtest da série Black Mirror, "sempre gostei de fazer o jogador pular. Assustado. Se assustar e pular. Depois você se sente bem. Fica radiante. Por que? Por causa da adrenalina? Sim. Mas principalmente por ainda estar vivo. Você encarou seus maiores medos em um ambiente seguro. É uma libertação do medo. Você se liberta". O objetivo de Westworld é semelhante: permitir ao convidado vivenciar experiências radicais em um ambiente controlado e seguro e possibilitar, com isso, que ele se sinta livre, leve e solto.

No entanto, uma importante lição dos filmes de ficção científica é que nada é totalmente controlado e seguro, especialmente aquilo que é criado pelo homem. Desde a publicação do livro Frankenstein em 1818, esta ideia de que artefatos criados pelo homem podem sair do controle e se voltar contra o próprio homem, é repetida continuamente em inúmeras obras de arte. Pense por exemplo nos filmes Jurassic Park, Blade Runner, A mosca, O Exterminador do futuro, Inteligência artificial, Eu robô, O planeta dos macacos - A origem, Ex Machina, Transcendente, dentre muitos outros. Embora estas obras sejam muito diferentes entre si, todas compartilham da mesma premissa: quando o homem resolve bancar Deus e criar ou modificar a vida, inevitavelmente sua obra sairá do controle e ele acabará por pagar um alto preço por sua ousadia. Westworld não escapa desta premissa. No filme de 1973 a situação começa a sair o controle quando uma cobra morde um convidado. A partir daí tudo vira um completo caos e os anfitriões acabam por matar todos os convidados, à exceção do protagonista. Já na série, o desenrolar do descontrole ocorre de uma forma mais lenta. Os anfitriões aos poucos começam a demonstrar comportamentos não-programados e a apresentar memórias de antigas atualizações. Até o último episódio da primeira temporada, a situação ainda não saiu totalmente do controle mas já dá para imaginar que isso ocorrerá em breve. E isto nos traz de volta à questão de se realmente é possível conceber um ambiente totalmente controlado e seguro. A resposta de Westworld e de toda uma tradição de filmes e livros de ficção científica é clara: não, o homem nunca terá total controle, nem do próprio destino e nem do destino daquilo que cria. As criações humanas serão sempre imperfeitas e incontroláveis, à imagem e semelhança de seus criadores.

Update 13/11: eu acabei esquecendo de mencionar, mas as enormes semelhanças entre Jurassic Park e Westworld não são simplesmente mera coincidência. As histórias de ambos foram criadas pela mesma pessoa: Michael Crichton, que é autor do livro original e do roteiro de Jurassic Park assim como do roteiro do filme Westworld, que inspirou a série. O canal College Humor fez uma compilação das incríveis semelhanças entre as duas obras - veja aqui.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Entre a fantasia e a realidade: sobre Extremis, Os capacetes Brancos e Black Mirror

Encarar a dura realidade de frente ou viver uma vida de fantasias? Este é um dos dilemas filosóficos mais antigos e persistentes vividos pelos seres humanos. Na grécia antiga, Platão já fazia este questionamento com sua Alegoria da Caverna. Milênios depois, a mesma questão - fantasia ou realidade? - é apresentada a Neo, protagonista do filme Matrix, que tem de escolher entre a pílula azul da fantasia e a pílula vermelha da realidade. Em ambos os casos, a realidade é apresentada como a melhor alternativa - ou pelo menos, como a alternativa necessária. No entanto, enquanto sociedade e também como individuos cotidianamente buscamos fantasias (a religião, a literatura, o cinema, as redes sociais, as drogas, a pornografia, etc) para fugirmos, pelo menos por um instante, da dura e opressora realidade. E sim, a realidade é dura. Se tiver estômago assista - ou pelo menos tente assistir - ao documentário em curta metragem Extremis, produzido pelo Netflix. São apenas 20 minutos de duração, mas acredite: este tempo lhe parecerá uma eternidade, pois o filme expõe tanto sofrimento e dor que eu cheguei a pausá-lo duas vezes para respirar. O filme retrata algumas pessoas em fase terminal em um hospital nos Estados Unidos e com isso acaba por jogar em nossa cara algo que tentamos a todo custo evitar pensar: que somos seres biológicos extremamente frágeis e que iremos um dia morrer, provavelmente depois de sofrermos um bocado (como bem afirma Irvin Yalom, encarar nossa finitude é tão difícil como encarar o sol de frente). Certamente, após assistirmos ao filme, muitos - eu inclusive - continuam a tentar jogar tais pensamentos para um lugar bem fundo de nossas mentes. Talvez seja melhor assim. Talvez esta estratégia, em parte consciente em parte inconsciente, seja a única forma de seguirmos adiante. Se pensássemos o tempo todo em nossa fragilidade e na inevitabilidade da morte talvez ficássemos tão paralisados que não conseguiríamos mais caminhar. Talvez.

Mas talvez passássemos a dar mais valor à vida e aos momentos bons - porque sim, a vida é dura mas não se resume à dureza. Tenho certeza que todos já vivemos momentos maravilhosos e profundos, belos e encantadores, intensos e inesquecíveis. Aliás, logo após assistir Extremis eu senti uma profunda gratidão com a vida  - sim, uma gratidão um tanto egoista (do tipo "tem gente sofrendo horrores por aí, mas eu estou bem") mas ainda sim uma gratidão com o fato de que a vida, ainda que inclua dor e sofrimento, não se resume a isso - nem a minha e nem a vida de todas aquelas pessoas do filme que, embora não tivessem mais propriamente uma vida naquele momento, certamente viveram no passado momentos de amor e alegria. Imagino que muitos daqueles médicos retratados no filme, que lidam diariamente com o sofrimento e a morte, sintam a mesma gratidão egoísta que eu senti. Talvez consigam transformar toda, ou pelo menos uma parte, da carga negativa a que estão expostos em algo positivo. Talvez consigam transformar dor em esperança - como fazem, aliás, os voluntários da Defesa Civil Síria, que prestam os primeiros socorros a vítimas dos bombardeios russos no país. Chamados de "Capacetes brancos" tais voluntários - belíssimamente retratados em um documentário de mesmo nome produzido pelo Netflix - são os primeiros a chegar quando um bombardeio acontece e eles tem a duríssima função de procurar e resgatar sobreviventes dos escombros, assim como recolher os corpos. Trata-se de um trabalho incrivelmente difícil, física e psicologicamente, e também extremamente perigoso - basta constatar que inúmeros capacetes brancos morrem todos os dias na Síria, vítimas dos mesmos bombardeios que matam as pessoas que eles tentam salvar. Era de se imaginar que por trabalharem em algo tão penoso e por lidaram cotidianamente com sofrimento e morte - assim como os médicos do filme Extremis - os capacetes brancos seriam pessoas amargas, pessimistas e desesperançosas. Mas na realidade parece ocorrer o oposto: ainda que vejam com muita tristeza a guerra em que estão imersos, eles parecem nutrir uma grande esperança no futuro e acreditam fortemente na importância do trabalho que executam - muitos inclusive aceitam a possibilidade de perderem própria vida para que outras sejam salvas. Enfim, estas pessoas, escolhem cotidianamente a pílula vermelha da dura realidade, pelo menos durante o período de trabalho - mas certamente devem ter os seus mecanismos de fuga, suas fantasias, suas ilusões, para que consigam suportar o cotidiano e seguir adiante.

Mas imagine só como seria viver 100% do tempo num maravilhoso mundo de fantasia, completamente desconectado da dura realidade. Você gostaria de viver neste mundo? Pois este é exatamente o mote do genial episódio San Junipero da fantástica série Black Mirror - na verdade quase todos os episódios da série giram em torno da questão "viver a realidade versus viver uma fantasia". Pois bem, neste episódio, a escolha dos personagens - se é que é possível falar em escolha neste caso - ocorre entre viver uma vida ilusória de eterna juventude, festas e azaração na maravilhosa e virtual cidade praieira de San Junipero ou encarar a dor, a solidão e a velhice em um asilo para idosos. Mas o episódio ainda coloca outra escolha a ser feita: morrer efetivamente e deixar com que a consciência se dissolva ou viver para todo o sempre em San Junipero - ou melhor, manter apenas a sua consciência, sem um cérebro e sem um corpo, em uma eterna vida virtual. À uma primeira vista trata-se de uma não-escolha, afinal quem escolheria a dor, o sofrimento e a velhice ao invés do prazer, da diversão e da juventude. Somente um louco o faria, você pode pensar. Mas como o episódio sugere, não se trata de uma escolha simples, por diversos motivos. Em primeiro lugar, neste paraíso virtual não estão muitas das pessoas que você ama ou amou durante a vida - pelo que pude captar, somente pessoas idosas tem acesso ao sistema. Em segundo lugar, as memórias de sua vida pregressa vão junto com você para San Junipero - se forem boas memórias, ótimo, mas e se você tiver muitas memórias ruins? Elas lhe acompanharão para todo o sempre. E finalmente, o mais complexo e aterrorizante de tudo isso é exatamente a eternidade. Ir para San Junipero é uma viagem sem volta. Depois que você optou por viver neste paraíso virtual não há como voltar atrás, não há como morrer ou se matar. Você passará toda a eternidade em uma infinita balada, com o "corpo" de uma pessoa jovem e a "mente" repleta de memórias de uma outra vida. Enfim, sob esta perspectiva, San Junipero não seria simplesmente um lugar de eterna liberdade, mas uma prisão. Uma prisão com prazer, diversão e juventude, mas ainda sim uma prisão. Este episódio me fez questionar de uma forma bastante profunda se a fantasia realmente nos salva da realidade. Se por um lado é possível pensar que sim, afinal muitas vezes recorremos a ela para fugirmos daquilo que dói ou incomoda, muitas e muitas vezes a fantasia se torna tão opressora quanto a realidade. Por vezes, ao buscarmos a liberdade acabamos em mais uma prisão.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Em defesa de uma neurociência crítica

Em função de alguns textos que escrevi ao longo dos anos, eu frequentemente sou taxado, às vezes diretamente acusado, de ser um sujeito "anti-neurociências", como se  eu considerasse as neurociências e os neurocientistas inimigos a serem combatidos e também como se eu entendesse que o campo neurocientífico nada tem a contribuir com o conhecimento humano para além de uma visão determinista e reducionista do cérebro e da mente. Como reação ao post Vendedores de (neuro)ilusões eu recebi muitos elogios, mas também algumas críticas relativas ao entendimento - equivocado - de que eu estaria dizendo que todos os neurocientistas seriam "neuropicaretas" e todo o campo neurocientífico uma grande "neurobobagem" voltada para iludir as pessoas. Para alimentar ainda mais essa visão equivocada, em minha mensagem de Dia do Psicólogo deste ano eu cheguei a afirmar que "neurocientistas e psiquiatras biologicistas contemporâneos tentam nos fazer acreditar que os problemas e transtornos humanos são mera consequência de desequilíbrios químicos em nossos cérebros". De forma completamente equivocada, eu simplifiquei demais as coisas, generalizei tais afirmações para toda a categoria dos neurocientistas (que em geral, não tem uma visão tão simplista dos transtornos mentais) e, por tudo isso, recebi uma crítica bastante contundente de um leitor, que observou em meus escritos um ataque insistente e inconsistente às neurociências e aos neurocientistas. Percebendo que ele tinha razão neste caso - mas não em outros - eu apaguei a mensagem. Assim, tenho que confessar que algumas vezes eu realmente me equivoquei e exagerei em minhas críticas, fazendo generalizações que não poderiam nem deveriam ser feitas. Outras vezes, porém - muitas vezes, na verdade - eu fui mal interpretado. E é exatamente para evitar mais equívocos e mal entendidos, que eu gostaria de deixar bem clara qual a minha visão das neurociências e dos neurocientistas. Senta que lá vem textão...

Em primeiro lugar, ao contrário do que alguns textos podem ter dado a entender, eu amo estudar neurociências e leio obssessivamente sobre o tema. Para escrever minha dissertação - transformada posteriormente no livro "O cérebro vai à escola": Aproximações entre Neurociências e Educação no Brasil - eu li uma grande quantidade de artigos e livros escritos por neurocientistas e considero os conhecimentos e perspectivas disseminados por muitos deles extremamente relevantes para se entender o ser humano. Considero incrivelmente enriquecedor, além de absolutamente prazeroso, ler os escritos de neurocientistas geniais como o "prêmio Nobel" Eric Kandel (autor do sensacional ensaio autobiográfico Em busca da memória além do manual Princípios de Neurociências), Vilayanur Subramanian Ramachandran (autor dos maravilhosos Fantasmas no cérebro e O que o cérebro tem para contar), Antonio Damásio (autor do clássico O erro de descartes mas também dos interessantes O mistério da consciência, E o cerebro inventou o homem e Em busca de Espinosa), Jean-Pierre Changeux (autor de O homem neuronal e O verdadeiro, o belo e o bem), Steven Rose (autor do magnífico O cérebro do século XXI), Michael Gazzaniga (autor da excelente autobiografia científica Tales from both sides of brain e de dezenas de outros livros sobre neurociência cognitiva como Human e Who's in charge?, poucos traduzidos para o português, infelizmente), Nancy Andreasen (autora do controverso Admirável cérebro novo), além dos brasileiros Miguel Nicolelis (autor de Muito além do nosso eu), Ivan Izquierdo (autor de Memória e A arte de esquecer), Sidarta Ribeiro (autor de Limiar), Roberto Lent (autor de Cem bilhões de neurônios?, o manual básico de neurociências no Brasil, dentre muitos outros), Suzana Herculano Houzel (que além de sua conhecida e questionável obra de divulgação já possui um um rol considerável de publicações científicas), dentre muitos outros. Certamente todas estas obras são passíveis de críticas, seja ao se levar em conta trechos específicos ou a sua totalidade, mas não há como negar a relevância de seus conteúdos e a seriedade dos autores - e é por isso que preservo-os permanentemente perto de mim em minha biblioteca. 

Por outro lado, para cada livro sério como esses existem pelo menos 50 publicações equivocadas que disseminam as tais "neurobobagens", isto é, informações que extrapolam ou se distanciam imensamente dos dados disponíveis. Os autores de tais obras, os tais "neuropicaretas", disseminam intencional ou ingenuamente tais informações e explicações com um embasamento mínimo para tal. Em grande parte das vezes possuem apenas um entendimento ralo de neurociências e para preencher os buracos em seu conhecimento, comumente acrescentam informações imprecisas ou exageradas e misturam tais informações com discurso de auto-ajuda, teorias da Nova Era ou expressões do mundo business. Algumas vezes os neuropicaretas partem de conceitos e informações reconhecidos pela comunidade científica, mas acabam indo para caminhos estranhos. Você já deve ter ouvido falar, por exemplo, de livros e cursos voltados para o desenvolvimento "do lado direito do cérebro" - entendido como o lado responsável pela criatividade, pela intuição, pelas emoções, oposto ao lado esquerdo, que seria mais racional, lógico e analítico. Pesquisando a expressão "lado direito do cérebro" em sites de livrarias é possível encontrar livros como "Desenhando com o lado direito do cérebro" ou "O gerente que pensa com o lado direito do cérebro" ou ainda "A revolução do lado direito do cérebro", etc. Pois bem, este é um típico exemplo de neurobobagem. Nenhum ou quase nenhum neurocientista sério hoje em dia apoia este tipo de visão "lado direito versus lado esquerdo". O cérebro, apontam, funciona de forma integrada. E ainda que cada hemisfério possua certas especificidades, isto não significa que eles funcionem de forma autônoma ou que ajam como cérebros independentes. Estimular o lado direito do cérebro faz tanto sentido quanto exercitar somente o lado direito do corpo - ou seja, não faz o menor sentido. Mas mesmo não fazendo o menor sentido, tem muita gente por aí que continua disseminando esta ideia - e mais gente ainda acreditando nesta e em outras neurobobagens.

Quer um outro exemplo? No final de setembro ocorrerá em São Paulo o Neurobusiness Experience Forum 2016. Whaaat?, questionaria Bojack Horseman. Pois bem, este "evento de nível mundial", "o mais completo e importante da América Latina", segundo o site oficial, é organizado pela Internacional Neurobusiness Comunity que é uma rede internacional composta por “neurolovers”, ou seja, “profissionais e empresas mantenedoras que são dedicados ao acompanhamento, pesquisa e desenvolvimento em Neurobusiness”. Mas o que seria, afinal, esse tal Neurobusiness? Segundo os organizadores do evento, trata-se da “aplicação do conhecimento sobre o cérebro, a mente e o comportamento humano na estratégia dos negócios, na capacitação em liderança empresarial, na gestão do relacionamento com o cliente, no marketing e gestão comercial”. Deixa eu ver se eu entendi: trata-se da aplicação de conhecimentos sobre o CÉREBRO,  a MENTE e o COMPORTAMENTO na área empresarial... mas o campo se chama NEURObusiness? Mas e a mente e o comportamento, onde ficam? Ficam em toda parte, menos no título do evento. Mas por que? Porque "mente" e "comportamento" não tem o mesmo apelo que "cérebro". Pois é exatamente disso que se trata: de uma tentativa de usar a roupagem sedutora das neurociências para disseminar informações que pouco ou nada tem a ver com as pesquisas e descobertas realizadas pelos neurocientistas. Os tais neurolovers parecem saber muito bem que colocar a expressão neuro na frente de qualquer outra expressão dá uma enorme credibilidade e um ar de cientificidade para o que quer que você esteja promovendo - ou vendendo. Como disse certa vez um renomado neurocientista em uma palestra voltada para educadores: "botou neuro na frente, vende! Porque já acha que é algo diferenciado. Botou termo difícil vende mais ainda". Os organizadores do evento de Neurobusiness captaram isso perfeitamente, pois em seu site oficial é possível encontrar encontrar inúmeras expressões “neuro” como neuroinovação, neuroliderança, neuroexperiência, neuromarketing, neuroeducação, neuroempreendedorismo, neurocomunicação, neurovendas, neuroeconomia, neurocoaching... é "neuro" pra dar e vender - especialmente vender.
 
Uma parte substancial das críticas que fiz e faço neste blog dizem respeito a estes usos e apropriações equivocados e comerciais do discurso neurocientífico e não à pesquisa básica e às teorizações empreendidas pelos neurocientistas. Minha grande preocupação - inclusive acadêmica - é com as ações e publicações voltadas para a popularização das neurociências, que muitas vezes disseminam visões e versões simplificadas e frequentemente equivocadas do conhecimento científico - e comumente vão além do objetivo de explicar "como o cérebro funciona" para pretender também ensinar como "o cérebro pode funcionar melhor". Este salto - da explicação para a prescrição, da divulgação científica para  auto-ajuda cerebral - é um importante alvo de minhas críticas. A obra da neurocientista Suzana Herculano-Houzel é bastante representativa neste sentido. Em seus primeiros livros (O cérebro nosso de cada dia, Sexo Drogas, Rock'n Roll e chocolate e Por que o bocejo é contagioso?) a proposta da autora era divulgar os resultados de pesquisas neurocientíficas para o público leigo. Seus textos eram curtos, engraçados e sempre finalizavam com uma indicação bibliográfica - normalmente um artigo científico publicado em alguma prestigiosa revista científica internacional. Mas a medida que a neurocientista começou a ficar famosa, chegando até mesmo a apresentar um quadro no Fantástico, o NeuroLógica, suas publicações começaram a se alterar. Seus livros mais recentes (Fique de bem com seu cérebro e Pílulas de neurociência para uma vida melhor) tem estruturas e objetivos completamente diferentes dos primeiros. Em primeiro lugar, há sempre uma foto da neurocientista na capa dos livros, tal qual nos livros de auto-ajuda. Em segundo lugar, não há mais qualquer indicação bibliográfica, o que faz parecer que tudo o que está escrito foi exclusivamente "descoberto" pela autora. E finalmente, o objetivo já não é mais explicar o funcionamento cerebral, mas sim dar dicas e sugestões, supostamente baseadas em pesquisas neurocientíficas - mas efetivamente banais - para que o leitor possa "viver melhor". Seu discurso já não se difere em nada daquele disseminado pela literatura de auto-ajuda. Na verdade trata-se agora de uma nova modalidade de auto-ajuda, chamada por alguns autores de auto-ajuda cerebral ou auto-ajuda neurocientífica. Assim, muito embora a autora tenha uma respeitada  e produtiva carreira científica, tendo produzido importantes pesquisas e artigos, - vários publicados em renomadas revistas internacionais - sua obra de divulgação científica em algum momento se perdeu e acabou cedendo lugar à "neuroredundância", ou seja, ao senso comum travestido de ciência.

Parábola dos cegos e do elefante
Vários pontos de vista: qual tem razão?
Mas eu estaria equivocado se voltasse minha mira somente para a popularização das neurociências. Infelizmente, muitos neurocientistas sérios - ou seja, aqueles que não pensam somente em vender neurocoisas e lucrar com o discurso das neurociências  -  também cometem erros, especialmente quanto tentam explicar tudo pela ótica das neurociências - são as chamadas "explicações totalizantes" que ignoram ou diretamente rejeitam outras explicações e narrativas possíveis sobre os fenômenos e comportamentos humanos. No passado, a psicanálise, por exemplo, já foi uma "explicação totalizante". Tudo podia ser explicado através dos conceitos psicanalíticos. Atualmente as neurociências ocupam este papel. E muitos neurocientistas, deslumbrados com as descobertas e potencialidades do campo neurocientífico, realmente disseminam a ideia de que em breve (sempre em breve!) as neurociências trarão muitas das respostas e soluções para as principais questões e problemas humanos - além daquelas que já teriam sido dadas, claro. Mas felizmente existem outros tantos que não fazem isso e possuem uma visão mais realista e menos deslumbrada das neurociências, entendendo que o campo, sem dúvida, possui inúmeras potencialidades, mas também muitos limites. E tais limites passam inevitavelmente pelo fato de que estudar o sistema nervoso é apenas mais uma forma de se entender o ser humano. Existem inúmeras outras formas de buscar uma compreensão dos nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos. A neurociência, assim como a psicologia, é apenas mais um "ponto de vista" possível, dentre inúmeros outros. 

E tudo isto significa também que o cérebro é apenas mais um elemento a ser levado em conta neste grande entendimento do que é, afinal, ser humano. Certamente, trata-se de um elemento fundamental, sem o qual não seríamos quem somos e não teríamos a capacidade de agir sobre o mundo como fazemos. Não questiono, como nunca questionei, a importância fundamental do cérebro para a vida humana - e eu seria ingênuo e ignorante se o fizesse. Minha questão é mais profunda e mais filosófica e passa pela resposta à seguinte pergunta: nós somos o nosso cérebro? Muitos neurocientistas contemporâneos responderiam positivamente a esta questão. Possivelmente argumentariam que sem um cérebro nós nada seríamos: não conseguiríamos andar, falar, pensar e sequer respirar - enfim, não haveria vida possível sem um cérebro. Não questiono isso, pois basta observar que crianças com anencefalia não vivem mais do que poucos dias e crianças com microcefalia possuem uma série de limitações cognitivas e físicas. No entanto, dizer que precisamos do nosso cérebro não é o mesmo que dizer que somos o nosso cérebro. Eu também preciso de um coração para viver e nem por isso eu digo que eu sou meu coração. "Ah, mas o cérebro é muito diferente do coração. Se eu fizer um transplante de coração eu continuo sendo eu mesmo, mas se eu fizer um transplante de cérebro eu não serei mais eu", você poderia argumentar e com certa razão. Mas isto também não significa dizer que somos o nosso cérebro. Significa sim que ele é necessário para a vida e para a constituição de nossa personalidade. Mas, e esse é o meu ponto, ser necessário não é o mesmo que ser suficiente. Pois, de fato, o cérebro não é suficiente para sermos o que somos. Antes de tudo precisamos de um corpo - e o cérebro, cabe salientar, é parte constituinte do corpo. E isto significa então que nós somos o nosso corpo? De um ponto de vista estritamente materialista, isto seria mais correto do que dizer que "nós somos o nosso cérebro". Mas ainda assim esta afirmação é incompleta, pois um cadáver também possui um corpo - mas lhe falta algo, lhe falta a vida. Um cadáver não é, por assim dizer, um organismo - entendendo organismo como o conjunto de órgãos que constituem um ser vivo. Então nós somos organismos? Sim, mas não organismos isolados. Com nossos corpos interagimos com o mundo e com outros organismos e seus corpos. Somos, enfim, organismos em constante interação com o mundo físico e social - e não simplesmente cérebros. Nós somos o todo e não as partes.

As neurociências, nesse sentido, estão aptas a contribuir com a investigação de como o sistema nervoso funciona, de como ele interage com o resto do corpo e até mesmo de como mudanças no ambiente e nas relações impactam no sistema nervoso (o conceito de neuroplasticidade aponta justamente nesta direção), mas muitas outras investigações fogem ao arcabouço das neurociências. Entender, por exemplo, como as pessoas interagem umas com as outras é algo que diz respeito aos campos da psicologia social e da microsociologia. As neurociências podem, no máximo, estudar o que acontece no sistema nervoso enquanto uma pessoa interage com outras - mas estudar o cérebro, cabe reforçar, não é o mesmo que estudar a pessoa como um todo. As diferentes áreas do conhecimento estudam diferentes dimensões do ser humano. O foco das neurociências está no nível das células, dos tecidos e dos órgãos, mas não no nível do organismo total, das populações e das comunidades. Pretender se utilizar dos conhecimentos das neurociências para explicar o comportamento global de indivíduos, de populações e comunidades, só poderá resultar - como já resultou no passado - em equívocos e simplificações. Seria como a sociologia pretender explicar o funcionamento dos neurônios. Da mesma forma, as neurociências e os neurocientistas devem aceitar e entender que embora possam estudar com grande profundidade a estrutura e o funcionamento do sistema nervoso, a mente lhes escapa completamente. Isto porque o que eles estudam é o cérebro e não a mente. Mas estudar o cérebro não é o mesmo que estudar a mente? De forma alguma. Embora ambos estejam inevitavelmente ligados, o cérebro diz respeito à matéria enquanto que a mente diz respeito à subjetividade. Isto significa que estudar o cérebro é possível somente através de uma perspectiva de "terceira pessoa", ou seja, de uma análise externa. Podemos, por exemplo, examinar o cérebro de uma pessoa indiretamente através de um equipamento de ressonância magnética ou diretamente abrindo sua cabeça. Mas jamais poderemos ter acesso direto à mente, ou seja, à subjetividade da pessoa. Mesmo que consigamos abrir e examinar o cérebro, nunca veremos lá dentro seus pensamentos e sentimentos, pois estes dizem respeito à perspectiva em "primeira pessoa". Esta diferenciação entre as perspectivas de "primeira" e "terceira" pessoa é fundamental para que possamos entender os limites de cada campo do conhecimento e compreender que as neurociências, por mais que avancem, nunca poderão dar conta do todo - exatamente porque se dedicam às partes. 

E é por isso que defendo uma neurociência crítica, uma neurociência que queira avançar mas que entenda que nem tudo lhe cabe; uma neurociência que não idolatre a si mesma e ao cérebro, mas que compreenda que o cérebro faz parte do sistema nervoso da mesma forma que o sistema nervoso faz parte do corpo e que este corpo compõe um organismo que interage com outros organismos e com o mundo e é por este afetado; uma neurociência que pratique o reducionismo no laboratório, onde reduzir o foco de análise é fundamental, mas que fora dele dissemine e contribua para uma visão complexa e multifatorial dos comportamentos e problemas humanos; uma neurociência que não venda soluções mirabolantes e mágicas e que aja com grande cautela na explicação e prescrição de soluções para os problemas humanos; uma neurociência que entenda que a ciência avança através da crítica e da autocrítica e não do dogmatismo e do autoenaltecimento. Enfim, uma neurociência que pense e repense a si mesma continuamente e que dialogue em pé de igualdade com outros campos do saber. Como bem aponta o meu ex-professor e pesquisador Saulo Araújo, neste artigo, "se a ciência tem uma função primordial, ela consiste na promoção do exame crítico da realidade, mas não na criação de histórias fantásticas e mitos alienantes. E se não podemos encontrar respostas definitivas para certas perguntas que temos levantado sistematicamente ao longo dos tempos, isso talvez aponte para certos limites de nosso conhecimento, o que nos obriga a recordar permanentemente os obstáculos que persistem, para não corrermos o risco de cair em novas formas de dogmatismo".

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

São tantas opções!!! Reflexões sobre a arte de escolher, no Netflix e na vida

Se você é assinante do Netflix então você deve passar pelo que eu passo e sentir o que eu sinto. Aposto que você, como eu, já ficou um tempão passando pelas inúmeras opções de filmes e séries da plataforma sem conseguir escolher, afinal, o que assistir naquele momento. São tantas opções e, ao que parece, tantas boas opções, que é comum a sensação de me sentir perdido e até mesmo paralisado. Confesso que algumas vezes eu passei mais tempo imerso nesse doloroso processo de escolha do que assistindo efetivamente alguma coisa - uma total perda de tempo! Outras vezes eu acabei desistindo e não assisti nada. Isto acontece com você? Aposto que sim. Aliás, mesmo que você não tenha Netflix, esta sensação deve estar presente em sua vida de alguma forma. Isto porque temos hoje, enquanto sociedade, um gigantesco número de opções para quase tudo. Se as pessoas tem igualmente acesso a todas estas opções é uma outra história (e a resposta, já adianto, é um sonoro "Não!"), mas o fato é que nunca tivemos tantas opções. Já comprou um celular? Então você sabe do que eu estou falando. Comprar um celular ou um notebook hoje em dia é uma tarefa complexíssima em função da existência de uma quantidade absurda de marcas e modelos e funções e cores... Ahhh! É muito fácil se sentir perdido no meio de tantas opções. Mas o excesso de opções não existe somente no mundo do consumo, onde isso é mais evidente, mas em diversos outros âmbitos da vida. Pensemos, por exemplo, na escolha do curso de graduação. Um adolescente que deseje ingressar hoje na universidade tem à sua disposição, pelo menos teoricamente, mais de 500 cursos diferentes. E isto significa que ao escolher determinado curso ele estará instantaneamente abrindo mão de todos os outros. Não é uma tarefa simples! Escolher e abrir mão nunca é e nunca foi fácil, mas se torna ainda mais difícil diante de tantas e tantas e tantas opções.

Em geral, tendemos a ver isso como uma coisa boa. "Se temos mais opções, temos mais liberdade para escolher e se temos mais liberdade somos mais felizes", é o que normalmente pensamos. No entanto, isto não é totalmente verdade - por dois principais motivos. O primeiro é que em grande parte das vezes, acabamos optando pelo caminho mais fácil e escolhemos a opção mais óbvia, mais conhecida ou mais popular - por exemplo, quando você vai a uma sorveteria que tem mais de 200 sabores de sorvete e escolhe o sorvete de chocolate. Você tinha à sua disposição uma infinidade de opções, mas acabou optando - como grande parte das vezes as pessoas optam - pelo caminho mais seguro. Talvez você não saiba como é o gosto, por exemplo, de um sorvete de cajá, mas certamente você imagina e sabe como é o gosto de um sorvete de chocolate. Não que os sorvetes de chocolate sejam todos iguais, mas você tem uma referência mais clara em sua mente de como é e como será este sabor, o que lhe sugere que haverá uma menor possibilidade de você se decepcionar. Por isso você opta pelo caminho mais seguro e pede o sorvete de chocolate - e não o de cajá. Aliás, eu aposto que na maioria das sorveterias, um pequeno número de sabores tem uma saída muito maior que 99% dos outros sabores - da mesmo forma como acredito que no Netflix um pequeno número de filmes e séries domina a audiência (a ideia da categoria "Em alta" parece ser indicar justamente os filmes e séries mais vistos, que acabam, por conta desta indicação, sendo ainda mais vistos). Queremos acreditar que estamos tomando uma decisão autônoma e seguindo nossa intuição, mas estamos apenas agindo como ovelhinhas e seguindo a multidão. 

O segundo motivo pelo qual não é totalmente verdadeira a ideia de que "mais opções = mais liberdade = mais felicidade" é que, em geral, o excesso de opções causa sofrimento, ansiedade e angústia. Certamente, ter opções é bom até um determinado ponto, como bem aponta como aponta o psicólogo Barry Schwartz no magnífico livro O paradoxo da escolha: porque mais é menos (A Girafa Editora, 2007). No entanto, ultrapassado este "ponto", o excesso de opções começa a pesar e aí começamos a ficar perdidos e angustiados. Em parte, esta angústia se deve à ideia amplamente disseminada de que devemos fazer sempre "a melhor escolha", o que alguns indivíduos levam extremamente a sério - Schwartz os chama de "maximizadores". Essas pessoas não aceitam qualquer coisa, não se contentam com o mínimo, elas querem o máximo. Se vão comprar um celular querem o melhor celular. Se o objetivo é ter um carro, não querem um carro qualquer, querem "o" carro. Na hora de escolher a profissão, almejam a profissão perfeita: aquela que trará satisfação permanente e muito dinheiro. Ao "escolher" o parceiro amoroso (na verdade não é tanto uma escolha e mais um encontro), não aceitam menos do que a alma gêmea.  Enfim, os maximizadores querem sempre fazer a melhor escolha. E para tanto gastam (ou investem?) uma grande quantidade de tempo antes de tomarem qualquer decisão. Se o objetivo é comprar uma camisa, por exemplo, percorrerão todas as lojas do Shopping antes de escolher qual irá levar. Se o objetivo é escolher um filme no Netflix, explorarão todo o enorme catálogo da plataforma antes de se decidir. Se o objetivo é encontrar sua "alma gêmea" passarão horas no Tinder avaliando todos ou o máximo possível de perfis. O problema é que dificilmente os maximizadores ficarão satisfeitos. De acordo com Schwartz, os maximizadores, em geral, são pessoas "menos satisfeitas com a vida, menos felizes, menos otimistas e mais deprimidas". Em sua busca pelo "melhor" eles sempre se sentirão frustrados, inclusive depois de escolher. Isto porque eles quase certamente ficarão com a sensação de que poderiam ter pesquisado mais, explorado mais, comparado mais e, portanto, terem feito escolhas ainda melhores.

Escala de Maximização - Veja como você se sai!
O que o maximizador não percebe, ou não quer perceber, é que não existe escolha perfeita, não existe "a" melhor escolha, não existe alma gêmea. Todas as escolhas são falíveis. Nunca há ou haverá garantia de que fizemos a escolha certa. Aliás, o que seria uma escolha certa? Se tivéssemos feito outras escolhas em nossas vidas, nunca saberíamos como estaríamos. Se eu tivesse feito outro curso que não Psicologia, como seria minha vida hoje? Eu não sei e nunca vou saber - da mesma forma como não tenho como saber como minha vida seria se eu tivesse nascido na Índia ou se eu fosse mulher, por exemplo. A vida é o que é e não o que teria sido. Escolher, nesse sentido, é um ato de coragem, como bem aponta o orientador profissional Silvio Bock. É uma aposta que fazemos em determinados caminhos - e como em toda aposta, não há garantias, apenas possibilidades. E isto significa que diante de uma escolha (seja ela de qual sorvete tomar, de qual filme assistir, de qual pessoa namorar ou de qual profissão seguir) você tem basicamente duas opções: 1) buscar a melhor opção - e nunca encontrar e viver permanentemente frustrado; ou 2) aceitar o "suficientemente bom". A ideia, neste caso, não é fazer a escolha de qualquer jeito ou se contentar com o mínimo, mas aceitar que não existe escolha perfeita e que o máximo que podemos encontrar em cada momento é o "suficientemente bom". O melhor está no plano das ideias, é uma utopia. Já o "suficientemente bom" é mais palpável, mais real, mais possível. Schwartz defende, nesse sentido, que nos sentiríamos mais felizes se: aceitássemos determinadas restrições voluntárias à nossa liberdade de escolha, em vez de nos revoltarmos contra elas; buscássemos aquilo que fosse "suficientemente bom" em vez de buscar o melhor; baixássemos as expectativas quanto ao resultado das nossas decisões; nos importássemos menos com o que as pessoas ao nosso redor fazem. Tudo isto significa que da próxima vez que estiver de frente para a tela do Netflix tente não pensar "qual o melhor filme que eu posso assistir agora?" mas sim "este filme parece suficientemente bom para mim neste momento?". Estabeleça um limite de tempo para pesquisar (por exemplo, 5 minutos) e finalizado este período, escolha o que sua intuição mandar. Pode ser que você não goste do filme mas pode ser que você goste. Não há como saber anteriormente. Não há certezas. Escolher, no Netflix e na vida, é sempre uma caixinha de surpresas.

Sugestões (apenas duas para você não se sentir perdido):

domingo, 21 de agosto de 2016

Quem são as psicólogas brasileiras?

No último dia 19 de Agosto, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou o relatório final do “Levantamento de informações sobre a inserção dos psicólogos no mercado de trabalho brasileiro”, realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) a pedido do CFP. Este levantamento, realizado com base nos dados colhidos pelo IBGE para a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), permite que tenhamos uma noção a respeito de quem é, afinal, o psicólogo brasileiro - na verdade, como a maioria absoluta dos profissionais do campo são mulheres, eu utilizarei quase sempre o gênero feminino para falar deste profissional, invertendo a lógica de se falar no masculino para se referir à ambos os gêneros. A seguir eu farei um breve compilado dos resultados, mas quem quiser se aprofundar, pode acessar diretamente o relatório final do levantamento clicando aqui. Pois bem, logo no inicio, o relatório aponta para a atuação, no Brasil, de cerca de 146 mil psicólogas - este número se refere, cabe reforçar, ao número de "psicólogas ocupadas", ou seja, não leva em consideração o número de pessoas formadas em psicologia mas somente aquelas que efetivamente atuam na área. Outro dado interessante é que grande parte destas profissionais, cerca de 90 mil, vive na região Sudeste - o que talvez tenha relação com a localidade dos cursos de formação (como eu constatei, em 2009, neste artigo). Importante destacar que o relatório contrapõe as psicólogas às pessoas "ocupadas com o ensino superior", ou seja, pessoas que no momento da pesquisa: a) frequentavam curso de mestrado ou doutorado; b) não frequentavam,  mas  já  frequentaram curso  de  mestrado  ou  doutorado;  ou  c)  não frequentavam,  mas  já  frequentaram e  concluíram,  com aprovação,  curso  superior  de graduação - nesse caso, o número que consta no relatório é de 14 milhões de pessoas. Pelo que pude entender, este número inclui todas as pessoas que concluíram um curso de graduação, não somente de psicologia. Segundo o Dieese, o objetivo ao retratar estes dados foi "fornecer uma base de comparação entre a situação dos psicólogos e a dos demais profissionais com o mesmo grau de formação".

Com relação à idade das profissionais, a conclusão do relatório é que cerca de 84% possuem mais de trinta anos - somente 16% teriam menos de trinta (no caso daquelas ocupadas com o ensino superior, o percentual é parecido: 80 versus 20%). E isto aponta para a conclusão de que as psicólogas não são assim tão jovens - embora dizer que a maioria possui "mais de 30" seja um tanto quanto vago, afinal, há uma enorme diferença entre ter 31 e 80. O relatório não explora os porquês dos dados, mas proponho alguns questionamentos: será que as psicólogas são mais velhas porque as mais jovens não conseguem ou demoram para conseguir emprego na área? Ou porque muitas pessoas ingressam na faculdade de psicologia mais tarde na vida? Como a proposta do levantamento é descrever a realidade das psicólogas e não explicá-la, não há qualquer resposta para estas perguntas. Da mesma forma como não há qualquer tentativa de resposta para a pergunta: por que a maioria dos psicólogos brasileiros são mulheres? Pois de fato o levantamento aponta que mais de 90% dos profissionais são do sexo feminino. Curiosamente, no caso das pessoas ocupadas com o ensino superior, a proporção é significativamente menor: 57% de mulheres contra 43% de homens. E isto aponta para uma maior "masculização" do ensino superior em geral, que se contrapõe a uma quase absoluta "feminilização" da formação e profissão psi. De toda forma, o debate continua: por que a psicologia no Brasil sempre foi e continua sendo uma profissão majoritariamente feminina?

Outro dado interessante - e preocupante - é o baixíssimo percentual de psicólogas negras. De acordo com o levantamento, apenas 16,5% das psicólogas são negras - as não-negras compõem a absoluta maioria (83,5%). Curiosamente, dentre aqueles ocupados com o ensino superior o percentual é maior: 30,5% de negros versus 69,5% de não-negros. Tendo em vista que a população negra representa, segundo o IBGE, cerca de 54% da população, é possível concluir que a categoria das psicólogas definitivamente não representa a população brasileira, sendo ainda majoritariamente branca. Não entrarei nos porquês disto - assim como o levantamento não entrou - mas gostaria apenas de deixar aqui o minha preocupação com este dado. Outra informação curiosa disponível no relatório é que cerca de 90% das psicólogas tem como grau mais elevado de formação a graduação. Apenas 4,4% possui mestrado ou doutorado completo - e 5,1 incompleto (nada é dito sobre o percentual de psicólogas envolvidas em pós-graduações lato sensu como especializações e residências). Curiosamente, as porcentagens permanecem semelhantes quando se analisam as pessoas ocupadas com o ensino superior: 92% possuem apenas graduação, 5,4% mestrado ou doutorado completo e 2,3% incompleto.

Outros dados interessantes dizem respeito à situação socioeconômica das psicólogas brasileiras. De acordo com o levantamento, as profissionais de psicologia possuem um rendimento mensal domiciliar médio de R$10.795,00 valor 24,4% superior ao rendimento total das pessoas ocupadas com ensino superior (R$8.680,00). Cabe reforçar que este é o valor do rendimento domiciliar, que é calculado somando-se os  rendimentos mensais de todos os moradores da unidade domiciliar. Não fica claro neste dado, portanto, qual é a renda média específica da psicóloga brasileira. Outra informação disponível no relatório é que o rendimento domiciliar per capita das psicólogas atinge, em média R$ 4.055,00, valor 28% superior ao das pessoas ocupadas com ensino superior (R$3.169,00) - mas isto ainda não diz nada sobre o salário médio das psicólogas. O cálculo do rendimento per capita é feito dividindo-se o valor do rendimento domiciliar pelo número de pessoas dependentes da renda familiar. Neste sentido, pode ser que um outro ente familiar, que não a psicóloga, contribua mais com a renda da família. Enfim, esses dados não permitem uma conclusão acerca da renda média das psicólogas brasileiras.

O mesmo não pode ser dito sobre o tipo de inserção profissional. O levantamento é bastante claro ao expor que grande parte das profissionais atua de forma autônoma/por conta própria (42%) - em contrapartida, pouco menos de um quarto trabalha na condição de assalariada com carteira de trabalho assinada (22,6%) e outras 20,8% como funcionárias públicas estatutárias. Aquelas  empregadas  sem  carteira  de  trabalho assinada representam 8,9% do total de psicólogas e as empregadoras 5,8%. Além disso, o levantamento aponta que 83% das psicólogas possuem apenas um único trabalho, que seria o responsável por toda sua renda mensal (no caso das ocupadas com ensino superior o número é ainda maior: 90%). Com relação à área de atuação, o relatório indica que cerca de 75% das psicólogas trabalham em atividades de "Educação, saúde e serviços sociais", o que não diz muita coisa sobre a real atuação destas profissionais. Em segundo  lugar (18%) está  a  administração  pública, mas este dado é também muito vago para que eu possa extrair qualquer conclusão.

Na parte final do levantamento, finalmente é respondida a pergunta "quanto ganha uma psicóloga no Brasil?" E a resposta é que em média a psicóloga brasileira ganha cerca de R$3400,00 - o que equivale a cerca de R$29,00 por hora hora de trabalho. Você considera este valor muito ou pouco? Confesso que minhas expectativas eram menores e eu me surpreendi positivamente - mas não podemos nunca nos esquecer que se trata de uma média e médias são sempre abstrações estatísticas (basta lembrar que a média entre 1 e 99 é 50, o que aponta para a possibilidade de algumas psicólogas ganharem muito e outras muito pouco, o que na média dá um valor razoável). No caso das pessoas ocupadas com o ensino superior, a renda média mensal é consideravelmente maior, cerca de R$4000,00, sendo R$32,00 por hora. Com relação à renda por faixa etária a conclusão do relatório é que as psicólogas mais jovens, com menos de 30 anos, ganham menos (em média R$2.211,00) do que aquelas com mais com 30 anos ou mais (em média R$ 3.639,00), o que sugere uma valorização da experiência profissional. Outro dado muito interessante é que embora as psicólogas ganhem em média mais do que os psicólogos (R$ 3.497 versus R$ 2.676), entre aqueles ocupados com o ensino superior, o rendimento masculino corresponde a R$ 5.296,00 quase 70% maior que o feminino (R$ 3.137,00) - e bem maior também que a renda média das psicólogas. Aliás, importantíssimo apontar que embora o salário médio das psicólogas seja maior do que dos psicólogos, o valor  da hora  trabalhada pelas psicólogas é consideravelmente inferior ao dos psicólogos: a hora média das mulheres equivale a R$27,76, enquanto a dos homens a R$ 37,68, ou seja, 36% a mais. E isto indica, segundo o relatório, que "as mulheres têm um rendimento mensal superior ao dos homens por trabalharem mais horas no mês". Verifica-se, portanto, uma clara e evidente desigualdade de gênero na psicologia brasileira. 

Mas não só: os dados apontam também para uma evidente desigualdade racial quando se comparam as rendas médias das psicólogas negras e não-negras. Segundo o relatório, uma psicóloga  negra recebe em média R$2.921,00, valor que corresponde a cerca de 83% do que recebe uma não-negra (R$3.514,00). Um evidente racismo permeia a psicologia, assim como a sociedade brasileira como um todo. Finalmente, avaliando-se a renda das psicólogas por tipo de inserção no mercado de trabalho, a conclusão do estudo é que aquelas que trabalham por “conta própria” recebem valores superiores (R$3.772,00) àqueles auferidos às que trabalham como  funcionárias  públicas  estatutárias (R$3.246,00), empregadas  com  carteira (R$3.214,00) e sem carteira (R$2.452,00). Enfim, de todo este levantamento se pode depreender que o "psicólogo brasileiro" (ou melhor, a psicóloga brasileira) é predominantemente uma mulher branca que possui apenas a graduação em psicologia e que trabalha de forma autônoma em alguma cidade da região sudeste do país, recebendo cerca de R$3400,00 por mês. Uma pergunta que fica de todo este relatório - dentre muitas outras que poderiam ser feitas - é: o quanto você, psicóloga(o), se encaixa neste perfil?

Sobre as funções psicológicas dos programas de sobrevivência do Discovery Channel

Eu simplesmente adoro aqueles programas de sobrevivência do Discovery Channel - tipo o "À prova de tudo", o "Largados e pelados" ou o "Survivorman" - mas confesso que não sei bem o porque. Afinal, dificilmente eu me perderei em alguma floresta ou deserto e mesmo que isso acontecesse, dificilmente eu me lembraria das dicas de sobrevivência fornecidas pelos programas. Mas se não é para ajudar em situações reais de sobrevivência, para que servem, então, tais programas? Refletindo sobre isso, cheguei à duas respostas: 1) ver alguém passando por situações difíceis e "comendo o pão que o diabo amassou" é maravilhoso se você está confortavelmente sentado em um sofá com bastante comida às disposição. Talvez uma das funções psicológicas de programas como esses seja gerar uma enorme gratidão pela vida civilizada que levamos - uma vida sem insetos sugando o seu sangue o tempo todo, com teto e paredes para te proteger do sol e de animais selvagens, com água limpa e comida à disposição (ou melhor, comida que não foge de você e que não quer te comer). 2) uma segunda função psicológica destes programas de sobrevivência talvez seja propiciar ao sedentário telespectador uma aventura sem riscos. A vida cotidiana da maioria das pessoas não é lá cheia de muitas aventuras e grandes emoções, mas ao assistir programas como esses é como se saíssemos do comodismo e da chatice de nossas vidas e rotinas e embarcássemos em grandes aventuras pelo mundo - com uma enorme vantagem: sem sair do sofá - e sem os malditos insetos, claro.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Como assim "neuropsicanálise"?

Em um post anterior, discuti criticamente a polêmica frase do neurocientista Ivan Izquierdo de que a neurociência teria superado a psicanálise. Meu argumento, em síntese, foi de que isto nunca poderia acontecer pois se tratam de áreas muito diferentes entre si. Em outro post analisei a relação de Freud com a neurologia, concluindo que Freud de fato nunca abandonou a biologia. O que ele fez, em função de restrições técnicas e metodológicas, foi se afastar de uma perspectiva neurológica em direção a um entendimento puramente (ou majoritariamente) psíquico da mente humana. Gostaria agora de discutir a emergência da neuropsicanálise, novo campo que pretende fazer dialogar - e quem sabe até, fundir - neurociências e psicanálise. Embora não seja fácil apontar uma "data de nascimento" precisa, é possível dizer que a neuropsicanálise emergiu entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Um marco, nesse sentido, foi a criação da revista científica Neuropsychoanalysis, cujo primeiro número foi publicado em 1999 - e que possuía em seu conselho editorial neurocientistas célebres como Antônio Damásio, Oliver Sacks e o "prêmio Nobel" Eric Kandel assim como psicanalistas conceituados como André Green, Otto Kernberg e Charles Brenner. Pouco tempo depois, em Julho de 2000, foi realizado em Londres o I Congresso Internacional de Neuropsicanálise, ocasião em que foi fundada a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, definida pelo site oficial como uma "rede internacional de organizações sem fins lucrativos" que visa criar um diálogo entre as neurociências e a psicanálise. Também de acordo com o site, a neuropsicanálise "está interessada nas bases neurobiológicas de como agimos, pensamos e sentimos. Quando começamos a conectar a atividade do cérebro com o modelo psicanalítico da mente, mesmo nos níveis mais profundos, uma compreensão verdadeiramente dinâmica pode emergir". Então esta parece ser a ideia: conectar, unir, aproximar neurociências e psicanálise.


O grande nome da neuropsicanálise, sem dúvida alguma, é o psicanalista e neuropsicólogo sul-africano Mark Solms, primeiro presidente da referida Sociedade e autor de uma considerável obra sobre o assunto - no Brasil, três livros dele já foram traduzidos e publicados: "Da neurologia à psicanálise", "O que é Neuro-psicanálise?",  e "Estudos clínicos em neuro-psicanálise" (estes dois últimos foram escritos em parceria com sua esposa Karen Kaplan-Solms). Segundo esta reportagem da revista The atlantic, Mark  começou a se interessar pela temática cerebral após seu irmão cair do telhado aos 6 anos de idade e sofrer um traumatismo craniano. Esta experiência demonstrou para ele a importância do cérebro na constituição do que somos. Após este acidente seu irmão não foi mais o mesmo, e nem sua família. "Tudo isso porque este órgão [o cérebro] não estava funcionando como antes", afirmou. Alguns anos depois, Mark iniciou e concluiu o curso de Psicologia, fez o mestrado em Psicologia Aplicada e o doutorado em Neuropsicologia. E paralelamente ao doutorado, realizado em Londres, fez a formação em Psicanálise. Seu percurso acadêmico evidencia, assim, um desejo de estudar e entender os dois campos e também de aproximá-los. Afinal, para Solms, psicanálise e neurociência são apenas dois pontos de vista sobre um mesmo objeto: o cérebro. Só que enquanto a psicanálise olha para o cérebro de dentro para fora a neurociência olha para o cérebro de fora para dentro. A ideia de uma neuropsicanálise passaria então justamente por aproximar e integrar estes dois pontos de vista.

À uma primeira vista, esta proposta de aproximar os dois campos parece interessante e mesmo pertinente - afinal, o que haveria de errado em tentar juntar dois pontos de vista antagônicos em prol de uma visão mais ampla do cérebro e da psiquê humana? Pode até ser. No entanto, alguns questionamentos se fazem necessários: será mesmo possível aproximar ou até mesmo fundir as duas visões? Conectar psicanálise e neurociências não será uma tarefa impossível como tentar unir as perspectivas políticas de esquerda e de direita ou teologias distintas como a budista e a católica? Mas para além da questão de se tal aproximação/união é possível, a grande questão na minha opinião é como isto seria possível. Na prática (e mesmo na teoria), como funcionaria a neuropsicanálise? Mark Solms não parece ter uma resposta muito convincente para esta questão. Segundo ele, as neurociências podem contribuir com a psicanálise ao fornecer os métodos científicos de investigação que esta não possui. Com isto algumas das teorias psicanalíticas poderiam ser testadas através de experimentos realizados por neurocientistas. Como afirmou em uma entrevista, "na psicanálise o problema é que ela é subjetiva demais. Não há controle científico. Não há objetividade. Não há teste de hipóteses. Não há forma de falsear hipóteses. Isso também é perigoso. Leva a especulação sem verificação. Trazendo os dois juntos corrige o que há de errado nos dois campos". Cabe apontar, que para Solms não só as neurociências poderiam hipoteticamente confirmar alguns pontos da teoria psicanalítica como já o teriam feito. Segundo ele, a existência de uma "cognição inconsciente", base da teoria psicanalítica, já teria sido comprovada pela neurociência contemporânea. Será mesmo? Não creio. Na minha visão e de outros autores, o inconsciente cerebral disseminado pelas neurociências contemporâneas não é igual ao inconsciente freudiano. Em comum, essas duas noções de inconsciente possuem apenas a ideia de que existem atividades mentais ou cerebrais que funcionam sem que tenhamos consciência. No entanto, o inconsciente disseminado por Freud é, nas palavras da historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, "um inconsciente psíquico, dinâmico e afetivo, organizado em diversas instâncias (o eu, o isso e o supereu)", ao passo que o inconsciente cerebral diz respeito, basicamente, aos mecanismos automáticos do funcionamento neural. Enfim, tratam-se de visões muito distintas - o que significa dizer que as neurociências não teriam como comprovar o inconsciente freudiano. Isto pra não falar do restante da teoria psicanalítica. Será mesmo que as neurociências teriam como comprovar ou refutar o Complexo de Édipo, os estágios de desenvolvimento psicossexuais, o funcionamento tripartite da mente ou ainda conceitos como recalque, catexia ou pulsão? Não creio. 

Como já disse em outro post, psicanálise e neurociências são áreas muito diferentes e possuem objetivos e métodos muito distintos. Acreditar que as neurociências teriam a capacidade de confirmar ou refutar a teoria freudiana, além de colocar muita expectativa nesta área do conhecimento, ainda estabelece uma hierarquia entre as duas áreas - a neurociência, no caso, estaria no topo e seria ela a dar a última palavra sobre a psicanálise. E é esta ideia que leva o psicanalista Jorge Forbes a dizer que "a neuropsicanálise é um cavalo de Tróia que porta um projeto reducionista no ventre". Segundo ele, ao sugerir uma hierarquia entre os dois campos, Solms estaria supervalorizando uma visão biológica e, portanto, reducionista da mente. Outro problema desta "junção ecumênica", nas palavras de Forbes, é que ela tenta unir "paradigmas incompatíveis". Dizer nesse sentido que a psicanálise tem o mesmo objeto de estudos que as neurociências - o cérebro - não é correto. Embora a mente certamente esteja ligada ao cérebro - nem mesmo Freud negava isso - o ponto de vista da psicanálise é puramente mental ou psíquico. Mesmo que o conhecimento neurológico tenha sido importante em um período inicial da carreira de Freud, a psicanálise acabou por trilhar um caminho distinto e distante das ciências do cérebro - segundo Forbes, este "corte epistemológico" foi concretizado com a publicação do livro Interpretação dos sonhos, em 1900. E tudo isto significa que tentar juntar as duas áreas seria um desafio fadado ao fracasso - seguindo a ideia de "junção ecumênica", seria como tentar fundir ou integrar duas religiões muito diferentes entre si. Um meio termo, diferente da pretensão de juntar os dois conhecimentos, seria "simplesmente" colocar neurociências e psicanálise para dialogar. As pesquisadoras Monah Winograd e Nathalia Sisson defendem, nesse sentido, que "para garantir a possibilidade e a integridade de uma cooperação entre as duas áreas, deve-se, antes de qualquer outro passo, definir uma relação de respeito mútuo entre a psicanálise e as neurociências". A grande questão é que para concretizar este objetivo de cooperação não seria necessário criar uma nova área de conhecimento. Se a proposta é o diálogo e não a fusão porque propor, então, algo como uma neuropsicanálise? Acho que isso nem Freud explica.

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