quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Homossexualidade: como curar o que não é doença? (Parte 1)

Discussões sobre a possibilidade ou impossibilidade de se tratar e mesmo curar a homossexualidade frequentemente vêm à tona. Neste post gostaria de debater algumas questões centrais em toda essa problemática. Antes de tudo, devo dizer que sei que a proposta que circula pelo Congresso Nacional não é exatamente para “curar gays”, mas para permitir (ou deixar de proibir) que psicólogos tratem pessoas que desejam mudar sua orientação sexual. Para quem não está por dentro desta história, explico: o Projeto de Decreto Legislativo nº234/11 (que vem sendo chamado de Projeto de Cura Gay) de autoria do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), visa a revogação de dois dispositivos da Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). Esta resolução proíbe o envolvimento do psicólogo com qualquer atividade que favoreça a patologização da homossexualidade - o que inclui tanto pronunciamentos públicos quanto propostas de tratamento. O CFP, obviamente, se manifestou contra tal projeto. No presente artigo, gostaria de tecer algumas considerações sobre toda esta celeuma.

Uma primeira questão é se é possível falar em cura. Na área da saúde existem tratamentos para muitas doenças, mas a cura (ou seja, a remissão completa e permanente dos sintomas) é possível somente em poucos casos. Na saúde mental, então, é praticamente impossível falar em cura. Pelo menos no sentido tradicional de retorno ao que era antes. Para o filósofo (e médico) Georges Canguilhem, em seu estudo clássico O normal e o patológico, um fato biológico fundamental é que a vida não conhece reversibilidade. Desta forma, não é possível falar em cura como um retorno à “inocência orgânica”, mas como um rearranjo, uma nova forma de vida. Curar, para Canguilhem, é criar para si novas normas de vida, às vezes superiores às antigas. Neste sentido, poderíamos até falar em cura na saúde mental, mas a palavra mais apropriada seria transformação. Psicólogos e psiquiatras não curam, mas auxiliam as pessoas a se transformarem, a construírem novas possibilidades de ser e estar no mundo.

Uma segunda questão é se ser gay é ou não uma doença. Afinal, quer se deseje a cura ou um tratamento para homossexualidade, a ideia implícita a este desejo é que ser gay é algo doentio, algo que não deveria ser. Na verdade, a perspectiva, declarada ou não, dos partidários da chamada “cura gay” é que ser gay é um pecado porque a bíblia assim o diz. Sobre esse argumento não tenho nada a dizer. É um argumento de fé: “a Bíblia disse, então é verdade”. Na verdade este nem é propriamente um argumento. É uma crença. A única coisa que poderia questionar é que a Bíblia também diz inúmeras outras coisas que se aplicavam à época em que foi escrita, mas não à atualidade. Exemplos de recomendações bíblicas absolutamente anacrônicas existem às dezenas, quiça às centenas. Não vou me deter nisso. Se você considera a Bíblia a fonte absoluta da verdade, do bom e do certo, não sou eu que vou lhe convencer do contrário. 



Mas voltando à questão de se a homossexualidade é ou não uma doença, precisamos refletir sobre o que, afinal de contas, é uma doença. Não paramos para pensar nisso normalmente, embora seja uma questão fundamental. Uma resposta possível é: doença é ausência de saúde. Só que esta resposta não resolve o problema, pois se doença é ausência de saúde, saúde é ausência de doença. Trata-se de um argumento circular que não responde a pergunta. A definição de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que saúde não é somente a ausência de doença, mas o “completo bem estar físico, psíquico e social”. Pegando esta definição e invertendo-a, poderíamos dizer que doença é o “completo mal estar físico, psiquico e social” ou então o “incompleto bem estar físico, psíquico e social”. A primeira anti-definição, o "completo mal estar", é muito extrema, deixando de fora grande parte do que compreendemos vulgarmente como doença. Já a segunda, o "incompleto bem estar" aponta para a possibilidade de todos sermos, em alguma medida, doentes, afinal, quem pode dizer que possui um completo bem estar biológico, psíquico e social? De qualquer forma, o que é doença ainda não está claro.

Uma definição clássica diz que saúde é o silêncio dos órgãos. Se não sentimos nosso corpo isto significa que estamos bem. Quando algum órgão, por outro lado, faz “barulho”, incomoda, dói, aí teríamos uma doença. Esta definição talvez valha para muitas situações da vida cotidiana: se sentimos uma dor de dente, procuramos um dentista; se a dor é no coração um cardiologista; se a dor é de coluna, um ortopedista ou um fisioterapeuta, ou seja, somente quando algo incomoda é que costumamos procurar ajuda – daí talvez a dificuldade de pensarmos preventivamente. Muito embora nem tudo que cause dor seja de fato uma doença (por exemplo, o parto ou uma dor decorrente de um tombo), muitas doenças causam dor. Mas e aquelas doenças silenciosas, como alguns tipos de câncer, que vão corroendo por dentro sem gerar, pelo menos nos momentos iniciais, nenhum sofrimento? O problema de definir doença em função do sofrimento é que nem toda doença gera sofrimento – ou pelo menos não todo o tempo - e nem todo sofrimento é patológico. Mas a relação doença-sofrimento ainda vale para a maioria dos casos – e também porque em algum momento o sofrimento costuma aparecer, mesmo nas doenças silenciosas – o que levou Canguilhem a dizer que “patológico implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida contrariada”. Mas será que isto vale tanto para as doenças físicas quanto para as chamadas doenças mentais? Podemos dizer que todo doente mental sofre? Um depressivo claramente sofre, mas o mesmo não pode ser dito de um sujeito na fase maníaca do transtorno bipolar. O problema deste sujeito é, de certa forma, justamente a falta de sofrimento. Como podemos então dizer que ele está doente? 


Pra finalizar esta discussão sobre o que é doença, sem pretender concluí-la, obviamente, não poderia deixar de mencionar uma concepção de doença que a identifica com a anormalidade e, o contrario, a saúde com a normalidade. Dizer o que é normal ou anormal é ainda mais complexo do que o que é saúde e doença, mas tradicionalmente normal esteve associado à média estatística: o que se aproxima da média é normal e o que se distancia é anormal. O problema é que é impossível definir o ponto exato onde termina a normalidade e começa anormalidade e vice-versa. Neste sentido, afirma Canguilhem, a estatística não fornece nenhum meio para decidir se o desvio é normal ou anormal, muito menos se determinado traço humano é normal ou patológico. Toda decisão é arbitrária. E, portanto, argumenta Canguilhem, social. Para este autor não existem fatos que sejam patológicos ou normais em si. O que é normal em uma situação pode ser patológico em outra. Para ele, é o próprio sujeito que define o que é ou não doença e se está ou não doente. A norma, para Canguilhem, é sempre individual. A doença não pode, portanto, ser definida por uma média estatística ou um por julgamento social, mas por um julgamento de valor realizado pelo próprio sujeito diante da polaridade dinâmica da vida. Para diferenciar saúde e doença, normalidade e patologia, Canguilhem propõe o conceito de normatividade vital, que é a capacidade do organismo de não somente responder aos desafios de seu meio, mas de criar novas normas ou possibilidades de vida. Tanto a saúde como a doença, para ele, são formas de se lidar com a instabilidade e imprevisibilidade da vida. No entanto, a doença, por limitar o organismo, é considerada uma forma negativa. Já a saúde é potência normativa e implica na capacidade de superar crises e instaurar novas normas e valores. 

Tendo tudo isso em vista e voltando à nossa questão central, poderíamos dizer que a homossexualidade é uma doença? Absolutamente não. Afinal, ser gay não gera em si qualquer sofrimento ou mal estar – além, obviamente, daqueles advindos de vivermos numa sociedade que valoriza a heterossexualidade e desvaloriza outras formas de vivenciar o sexo e a afetividade. Além disso, ser gay não implica em qualquer perda de potência normativa, ou seja, da capacidade de lidar com os desafios do mundo e transformá-lo. No entanto, os partidários da “cura gay” podem argumentar: “mas e os estudos que apontam que somente 10% das pessoas são gays? O normal é ser hétero!”. Então, recorrendo novamente à Canguilhem, poderíamos quebrar tal argumento pensando que nem tudo o que é “anormal” estatisticamente é patológico. Um exemplo disto são as anomalias, que representam tanto algo insólito, inabitual, quanto algo anormal ou estatisticamente desviante. Para o filósofo, as anomalias são conseqüência da variabilidade biológica individual e não são necessariamente patológicas. O que faz de uma anomalia algo normal ou patológico é o favorecimento ou prejuízo da vida. Se favorece ou, pelo menos, não atrapalha, é saudável; se prejudica é patológica. Certas anomalias podem, apesar de estranhas ou monstruosas, não causar nenhum mal ou sofrimento significativo a seu portador, enquanto outras, aparentemente insignificantes, podem trazer grandes prejuízos por atingirem importantes órgãos ou funções anátomo-fisiológicas. O que importa, no final das contas, é a normatividade vital, ou seja, a capacidade de instituir normas de vida. Uma anomalia é saudável se não for incompatível com a vida. É patológica, por outro lado, se o for. Para Canguilhem a questão da anomalia demonstra que diversidade não é doença e que o anormal não é necessariamente patológico. Ao contrário, problemas que afetam grande parte das pessoas (como a cárie e a tristeza) podem não ser doenças. Enfim, nem tudo que é minoritário é patológico e nem tudo que é majoritário é saudável. 



Além do mais, como também aponta Canguilhem, a palavra normal tem dois sentidos: aquilo que é comum e aquilo que é ideal, ou seja, aquilo que “é” e aquilo que “deveria ser”. Quando perguntamos, portanto, se a homossexualidade é normal, precisamos responder à outras duas perguntas: a homossexualidade é comum? A homossexualidade é ideal? A primeira pergunta leva ainda à outra: o que é comum? Algumas pesquisas realmente apontam que cerca de 10% das pessoas são homossexuais. Aparte o fato destas estatísticas desconsiderarem aqueles que estão “dentro do armário”, será 10% um número significativo ou não? Difícil dizer, afinal, para certas questões 10% pode ser muito (por exemplo, 10% dos homens tem câncer de próstata) enquanto que para outras questões pode ser pouco (por exemplo, 10% dos brasileiros usam smartphones). Tudo depende do contexto. Para aqueles que consideram a homossexualidade um pecado, uma abominação, 10% de gays é muito. Para o movimento gay, talvez seja pouco diante do número significativo de gays "dentro do armário". Com relação à segunda questão (a homossexualidade é ideal?), talvez a pergunta correta seja: a homossexualidade é natural? “De forma alguma”, dizem os partidários da “cura gay”: “o natural é o relacionamento homem-mulher. Qualquer outra forma de relação é uma abominação”. Por que, questiono? “Porque a Bíblia disse!”. Outro argumento, por favor... “Ok, porque na natureza o normal é a heterossexualidade”. Argumento falso: existem inúmeros exemplos de relações “homossexuais” na natureza. Outro argumento: “O fim de toda relação sexual deve ser a reprodução. Se não há reprodução, é antinatural”. Ah, então quer dizer que casais heterossexuais que não podem ou não querem ter filhos são abominações também? 

Finalmente, os partidários da “cura gay” podem argumentar: “Ok, você pode até ter razão quanto à tudo isto, mas por que então a Organização Mundial de Saúde, na sua Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e a Associação Psiquiátrica Americana no seu Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) já incluíram a homossexualidade dentre as doenças mentais? E mais, no caso do DSM a homossexualidade só foi eliminada, em 1980, em função de uma intensa pressão do movimento gay - o mesmo ocorrendo em 1990 com o CID. Isto prova que a decisão de retirar a homossexualidade do DSM foi política, não científica. Desta forma, como a ciência ainda não conseguiu mostrar de forma conclusiva que a homossexualidade é ou não uma doença, ela de fato pode ser”. Belo argumento, pena que seja falso. Em primeiro lugar, como já disse anteriormente neste blog, a ciência não tem como provar que a homossexualidade é ou não uma doença ou transtorno mental. Definições como esta são sempre o resultado de acordos coletivos, atravessados por múltiplos interesses e perspectivas e, portanto, dificilmente consensuais. O que os partidários da "cura gay" não percebem, ou não querem perceber, é que é desta forma que TODOS os diagnósticos, especialmente no campo da psiquiatria, são concebidos. Há muito mais política do que ciência neste processo. E mais: ciência e política andam juntas, são inseparáveis. Portanto, o que quer que esteja inserido em qualquer manual de doenças não representa a verdade suprema sobre o que é normal e o que é patológico. A homossexualidade pode até ter sido incluída no CID e no DSM, mas isto não significa que ela é, de fato, uma doença. Significa apenas que certos grupos de "especialistas", imbuídos do espírito de sua época, decidiram, por votação, que a heterossexualidade era a norma.



OBS: Na segunda e última parte deste texto discutirei se (e de que forma), mesmo não sendo a homossexualidade uma doença, é possível auxiliar uma pessoa que deseja deixar de ser gay a converter-se à heterossexualidade - e vice-versa.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Neuroblábláblá (ou Como o cérebro conquistou o mundo)


Reproduzo abaixo, na íntegra, um  excelente artigo do jornalista Sérgio Augusto, publicado dia 31 de Dezembro de 2012 no Estadão. O artigo, muito bem escrito, além de extremamente irônico, trata de um tema atualíssimo: a popularização das neurociências - que será exatamente o tema da minha dissertação de mestrado. Quem quiser ler o artigo na página original clique aqui.

O ano da neurocascata

Em 2012 a palavra do ano foi menos que um vocábulo, foi um prefixo: neuro. Usado e abusado em várias línguas, não se ateve a identificar a ciência que estuda a anatomia e a fisiologia do cérebro humano e o funcionamento do sistema nervoso - neurociência - mas também uma infinidade de atividades presumidamente científicas ou humanísticas e outras nem tanto. 2012 foi o ano do neuroisso, do neuroaquilo, do neurotudo e, em última instância, do neuronada.

Tinham outro objetivo os que fizeram a revolução cognitiva, no final dos anos 1950. O pior é que a neuromania, asseguram os que monitoram o fenômeno desde o início do milênio, não tem prazo para nos deixar em paz. Nem a nós nem à ciência.

Em sua primeira dentição, a neuromania inspirou a expressão "é cuca", aplicada a qualquer sintoma ou distúrbio de origem nebulosa, mesmo aqueles com pouca possibilidade de terem sido causados por problemas de natureza psicológica. Quase ninguém mais diz "é cuca", nem sequer "é psicossomático", mas ainda é na cabeça que quase tudo começa e se resolve, na opinião - vale dizer, na cabeça - de muita gente.



Sofisticou-se o linguajar, especificou-se o diagnóstico: agora sofremos de alguma síndrome (do pânico, a mais comum), da falta (ou excesso) de dopamina, de disfunções que nem de nome conhecíamos até algum tempo atrás. Fala-se em neurônio, sinapse e córtex pré-frontal quase com a mesma intimidade com que desde sempre nos referimos às artérias e ao esôfago. Não precisamos esperar que glia, dendrito e axônio caiam na boca do povo para reconhecer, penhorados, que a popularização da neurociência ampliou tremendamente nossa cultura biológica.

O preço pago por esse enriquecimento vocabular e patológico foi alto demais. Como o marxismo, o freudianismo, a Teoria Crítica e outras visões totalizantes, a neurociência virou o século submetida a abusivas simplificações e aplicações levianas. Vulgarizada para consumo e consolo das massas, a neurociência pop tornou-se uma pestilência intelectual, um engana-trouxa de jaleco a oferecer ensinamentos, no mínimo, discutíveis sobre certas funções orgânicas e determinados processos mentais e soluções para uma infinidade de problemas - dos cognitivos aos emocionais, dos políticos aos econômicos.



Se ainda não ouviu falar em neuroeconomia, neuropolítica, neuroteologia, neurogastronomia, neurocrítica literária, neurodireito, neuroestética, neuromagia, neuromarketing, prepare-se. São o que você imagina, e igualmente dotadas de impositivas imagens por ressonância magnética ou de tomografia axial computadorizada. Como resistir à impressionante visão de um cérebro com aquelas manchas vermelhas, amarelas e verdes excitadas por impulsos nervosos?

"This is your brain..." (É assim o seu cérebro...) virou um meme editorial, um abracadabra para o que sucede em nossa cuca quando estamos felizes, nos apaixonamos, ouvimos música, comemos carboidratos, negociamos ações na bolsa e duvidamos da ressurreição de Lázaro. A dupla Earl Henslin-Daniel Amien fatura horrores nesse ramo de neurocascata. Outros incansáveis praticantes: Louis J. Cozolino, "inventor" da neurociência das relações humanas, e John B. Arden, que tem uma receita neoestoica para "modificar e melhorar" nossa massa cinzenta.



Com o prefixo neuro alçado a padrão ouro da exegese e da autoajuda, as prateleiras das livrarias se abarrotaram de obras que tentam dar respostas até a questões fora da alçada da neurociência ou compartilhadas com a psicologia e outros consolidados ramos do conhecimento. Não há muito mistério: desenvolva uma desconfiança comportamental ou psicossocial sob a forma de tese, busque alguns exemplos que a sancionem, ainda que só parcialmente, enfeite o texto com lantejoulas neurológicas (dopamina, oxitocina, ínsula, glândula pineal, etc.), e pronto - está feita a sua neurobobagem.

Em julho deste ano, Elaine Fox pôs na praça "a nova ciência do otimismo", dividindo o cérebro - que sabemos dotado de dois hemisférios: o esquerdo, responsável pelo pensamento lógico, o direito, pelo pensamento simbólico - em dois hemisférios metafóricos: de um lado, o "chuvoso" (rainy brain), do outro, o "ensolarado" (sunny brain). Poucos meses antes, Chris Mooney "descobrira" que os republicanos são geneticamente diferentes dos democratas, e também menos inteligentes e mais agressivos do que seus adversários políticos "porque têm uma amídala mais ativa", a amídala cerebral, é claro. O que me levou a supor que o filho republicano de Alan Alda em Todos Dizem eu te Amo, que depois de um piripaque se transformava num democrata liberal, teve sua amídala amansada no hospital.




Quando a dicotomia neurometeorológica de Elaine Fox e o maniqueísmo neuroeugenista de Chris Mooney chegaram ao mercado, os best-sellers de Malcolm Gladwell (Blink - A Decisão num Piscar de Olhos) e Jonah Lehrer (Proust Era um Neurocientista e Imagine: Como Funciona a Criatividade) já haviam sido malhados pelos vigilantes da seriedade científica espalhados por publicações especializadas e pela internet; sendo que Lehrer acabou demitido da revista The New Yorker por inventar citações. Existem blogueiros que se dedicam a apontar e gozar erros e abusos cometidos pelos proxenetas da divulgação científica. São os "neurocéticos", que leem tudo o que se publica em jornais, revistas e livros com mais de um grão de sal. Serviço não falta.

Um grupo de cientistas ingleses analisou cerca de 3 mil artigos sobre neurociência publicados na imprensa britânica nos primeiros dez anos da década passada e constatou ser bastante elevada a taxa de informações distorcidas ou edulcoradas pela mídia, por ignorância, negligência ou para servir a algum interesse. Divulgada pela revista Neuron, a pesquisa motivou a comunidade científica a um alerta contra os que ajudam a conferir "uma aparência de seriedade e verdade a pensamentos vagos e indisciplinados" e a difundir a falácia de que as explicações neurocientíficas vieram para eclipsar as interpretações históricas, sociológicas, políticas, econômicas, literárias, e torná-las obsoletas.



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Mudanças no DSM-5: despatologização aspie e trans?



No dia 1º de Dezembro de 2012, o conselho diretor da Associação Psiquiátrica Americana (APA), aprovou a revisão final da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, o DSM-5 - também conhecido como a Bíblia da Psiquiatria, embora sua influência extrapole em muito a atuação psiquiátrica. Dentre as inúmeras mudanças, destaco duas realizadas pela APA (saiba mais aqui, aqui e aqui): 1) eliminação do diagnóstico de Síndrome de Asperger, que será, a partir de 2013, incorporado ao diagnóstico guarda-chuva de Transtorno do Espectro Autista e 2) remoção do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero, substituido pelo de Disforia de Gênero. Com relação à estas modificações, cabe a reflexão: trata-se de um movimento de despatologização ou somente de mudanças na nomenclatura e localização dentro do manual?


Com relação à primeira alteração, o argumento da APA é de que a incorporação de diversos diagnósticos em somente um favoreceria um processo diagnóstico mais consistente e preciso das crianças com autismo. Segundo a entidade, inúmeras pesquisas realizadas por cientistas de diversos países, apontaram para a existência de um continuum, de leve a greve, entre as diversas manifestações autísticas e não somente de um “sim ou não” para cada transtorno específico. A APA alerta, no entanto, que tal modificação nos critérios não implicará em qualquer alteração no número de pacientes que recebem tratamento para distúrbios do espectro do autismo em centros de tratamento. Isto significa que uma pessoa que hoje possui o diagnóstico de Asperger, continuará tendo acesso aos tratamentos que recebia. Mas uma pergunta se faz necessária: será que, no decorrer do tempo, haverá uma diminuição no número de pessoas diagnosticadas? Difícil saber, mas provavelmente ninguém que hoje é considerado Asperger ficará sem um diagnóstico. Neste sentido, parece tratar-se mais de uma ampliação do diagnostico de autismo, do que de um movimento de despatologização da Síndrome de Asperger. De qualquer maneira, não é uma mudança pequena. Afinal, os nomes dos transtornos conformam identidades. E muitos indivíduos atualmente, no Brasil e no mundo, se identificam como Aspies, mesmo que seja para criticar o diagnóstico e propor sua despatologização. Em 2004 foi criado nos EUA o movimento Aspie for Freedom, que defende a ideia de que os autistas e os aspies não são deficientes ou doentes, mas sim diferentes - assim como os gays, negros e canhotos. Sendo assim, não precisam ser tratados ou curados, mas entendidos e respeitados enquanto "neurodiversos", ou seja, diferentes dos "neurotípicos", que são todos os não-autistas. Afinal, argumentam, se a neurodiversidade é uma doença, a "neurotipicidade" (ou seja, a normalidade) também o é. Sobre esta visão, é muito interessante conferir o irônico site do Instituto para o Estudo do Neurologicamente Típico, criado por um autista, que define a "síndrome neurotípica" como "um transtorno neurobiológico caracterizado pela preocupação com questões sociais, delírios de superioridade e obsessão pela conformidade". Alguém aí se identificou com este diagnóstico? Para um aprofundamento destas questões, recomendo o artigo O sujeito cerebral e o movimento da neurodiversidade, do filósofo (e meu professor) Francisco Ortega.




Já a segunda modificação aprovada pela força-tarefa do DSM-5, isto é, a retirada do diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero do futuro manual, poderia apontar para um movimento concreto de despatologização da transexualidade. Será? De acordo com o site da Campanha Internacional Stop Trans Pathologization – STP 2012, um de seus objetivos principais é a retirada da categoria “disforia de gênero/ transtornos de identidade de gênero” das próximas edições dos manuais diagnósticos (DSM e CID). Na recente mudança, foi-se eliminado o rótulo de Transtorno de Identidade de Gênero, mas o de Disforia de Gênero permanece. A perspectiva parece ter sido eliminar a palavra "Transtorno", que traz consigo a ideia de uma doença mental, substituindo-a pela teoricamente menos negativa "Disforia", que apontaria para um sofrimento emocional relacionado à incongruência entre sexo e gênero. Segundo a pesquisadora Jaqueline Jesus (nos comentários desta notícia): "A APA não despatologizou a transexualidade, apenas a realocou dentro do Manual, e a agregou com outras expressões transgênero dentro da categoria 'disforia de gênero', considerando assim que todas as pessoas trans sofrem por terem essa identidade de gênero. Sinto, mas isso ainda é patologizar". Ao mesmo tempo, dentro do próprio movimento pela despatologização trans, existem aqueles, mais pragmáticos, que se posicionam favoráveis à manutenção da medicalização da transexualidade, haja vista que muitos sujeitos trans - mas não todos - desejam se submeter à cirurgia de redesignação sexual. E, para isso, o aval médico é, atualmente, indispensável. Para estas pessoas, a recente modificação no DSM-5 talvez possa representar um avanço. Mas não para outras, que defendem a total retirada da transexualidade tanto do DSM quanto do CID, por acreditarem, como Judith Butler, que 

"O diagnóstico reforça formas de avaliação psicológica que  pressupõem que a pessoa diagnosticada é afetada por forças que ela não entende. O diagnóstico considera que essas pessoas deliram ou são disfóricas. Ele aceita que certas normas de gênero não foram adequadamente assimiladas e que ocorreu algum erro ou falha. Ele assume pressupostos sobre os pais e as mães e sobre o que seja ou o que deveria ter sido a vida familiar normal. Ele pressupõe a linguagem da correção, adaptação e normalização. Ele busca sustentar as normas de gênero tal como estão constituídas atualmente e tende a patologizar qualquer esforço para produção do gênero seguindo modos que não estejam em acordo com as normas vigentes".

Deste ponto de vista, as modificações realizadas pela equipe do DSM-5 não parecem ter modificado em nada o caráter patologizante/estigmatizante do autismo e da transexualidade. Talvez ainda não tenha chegado a hora destas configurações identitárias serem efetivamente despatologizadas e desmedicalizadas, como ocorreu com a homossexualidade algumas décadas atrás. 


Update 07/12/12: Além da eliminação da Síndrome de Asperger e do Transtorno de Identidade de Gênero, diluídos em outras categorias, outras alterações foram realizadas no DSM-5 (veja aqui um release da APA com todas as modificações). Dentre os novos transtornos catalogados estão: o Transtorno da Acumulação Compulsiva (Hoarding Disorder), o Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (Binge eating desorder), Transtorno da Escoriação (Excoriation Disorder), Transtorno da Desregulação do Humor Disrupitivo (Disruptive Mood Dysregulation Disorder, mais conhecido como "birra"), etc. Outra alteração importante foi a retirada do luto como critério de exclusão para o diagnóstico de depressão, o que significa que em breve, alguém que acabou de perder uma pessoa querida poderá ser diagnosticado com Depressão. A indústria farmacêutica deve estar dando pulos de alegria...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Ser formado em Psicologia é igual ser Psicólogo?



Para quem não sabe, dois ícones do conservadorismo brasileiro - o pastor evangélico Silas Malafaia e a senadora ruralista Katia Abreu - são psicólogos. Ou melhor, se formaram em Psicologia e estão inscritos no Conselho Federal de Psicologia (CFP), embora não exerçam a profissão. Uma rápida pesquisa no Cadastro Nacional dos Psicólogos prova que ambos estão realmente inscritos e ativos em seus respectivos Conselhos Regionais (ver imagem abaixo). Deve haver algum motivo para manterem-se ativos, pagando a anuidade do CFP, mesmo que não exerçam a profissão e não precisem da Psicologia para viver. Afinal, ele é pastor e ela senadora e empresária pecuarista. Devem existir outras razões para utilizarem-se publicamente do título de Psicólogo. Razões, imagino, muito pouco nobres...


Com relação ao pastor Silas, não encontrei em seu site oficial (vitoriaemcristo.org) nem em seu perfil no Twitter, nenhuma menção à sua formação em Psicologia, o que apontaria para uma certa honestidade no uso que ele faz da alcunha de Psicólogo já que, efetivamente, ele não atua como um. No entanto, em debates públicos (como na audiência na Câmara dos Deputados ontem, veja o video no final do post), Silas costuma expôr o fato de ter se formado em Psicologia como que para respaldar e dar uma certa credibilidade "científica" à sua fala, mesmo que na realidade não haja nada de Psicologia, muito menos de ciência no que ele diz. Seu discurso é eminentemente religioso e político - e politicamente conservador



Por exemplo, em um discurso proferido na Câmara dos Deputados em 2011, Silas afirmou o seguinte (fonte): “Eu sou psicólogo também, e homofobia é sentir aversão a um homossexual e querer agredir, maltratar. Existe uma diferença entre criticar comportamento e discriminar pessoas. Eles fazem um jogo muito lindo: eles dizem que criticar comportamento é discriminação”. Fica claro que a afirmação "sou psicólogo" é utilizada na tentativa de validar o que ele diz em seguida. Um site gospel chega a afirmar o seguinte sobre esta questão: "O pastor se formou em psicologia clínica [???] e não exerce a profissão, mas faz com frequência menção a sua formação nas pregações aos fiéis". A formação de Silas aparece em destaque também em seus DVDs de auto-ajuda, por exemplo, no Vencendo a Depressão (ver abaixo). No entanto, importante ressaltar que as soluções apresentadas por ele para este e outros problemas, são eminentemente religiosas. Afirmar-se psicológo e vender fé como psicologia me parece mais uma estratégia comercial do que algo coerente e embasado nas teorias psicológicas - se a Psicologia é ciência ou não, discutirei em outro momento.




Segundo notícia do ano passado, O CRP-RJ recebeu diversas denúncias do movimento gay contra Silas, por suas declarações homofóbicas - que batem de frente com a Resolução 01/99 do CFP (o artigo 4° estabelece que "os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica"). Um processo disciplinar foi aberto contra ele e, ao que tudo indica, não deu em nada, pois sua inscrição no conselho permanece ativa. Questionada sobre o processo de Silas no CRP, a "Psicóloga Cristã" Marisa Lobo - que está com um processo disciplinar no CRP-08 pelos mesmos motivos - disse em uma entrevista se tratar de perseguição heterofóbica e religiosa e não acredita que ele será cassado. Será que ela terá a mesma sorte? 



Finalmente, com relação à Katia Abreu, a informação de que é Psicóloga, encontra-se destacada em seu perfil no Twitter, aparecendo antes mesmo do título de senadora. Em entrevista para a Agência Senado (ver aqui), ela disse o seguinte: "Eu estava no último ano de Psicologia. Pretendia ser uma grande psicanalista. E aí eu tive que tocar a fazenda. Tinha um filho de 4 anos, outro de 1 ano e estava grávida de dois meses. Um ano depois que meu marido morreu foi criado o estado do Tocantins, em 1988. Aí eu fui para a fazenda e comecei a trabalhar pra criar os meninos". Ao que tudo indica, ela nunca atuou como psicóloga. O que não consigo entender é porque, depois de tanto tempo atuando como política e empresária pecuarista, ela ainda paga a anuidade do CFP e afirma-se publicamente psicóloga. 


Uma questão importante, que gostaria de trazer como reflexão, é a seguinte: legalmente, qualquer pessoa que finaliza um curso de Psicologia, em qualquer universidade, faculdade ou centro universitário, e obtém um diploma válido, pode ser considerado Psicólogo. No dia seguinte à obtenção do diploma, esta pessoa pode atuar em qualquer área da Psicologia e, publicamente, apresentar-se e dar declarações com o título de Psicólogo. E mais: mesmo que a pessoa não atue ou nunca tenha atuado como psicólogo(a), ela pode falar o que quiser e dizer-se publicamente psicólogo(a). 
Não considero isso correto, haja vista que certas declarações acabam prejudicando a imagem e a credibilidade de toda a categoria, mas é assim que a coisa funciona no Brasil. Ao mesmo tempo, censurar é uma péssima opção. Alguém imagina alguma solução possível para este problema? 




Update 30/11/2012: Encontrei uma fala da Katia Abreu que deixa explícito que, como Silas, ela usa o fato de ter se formado em Psicologia em momentos estratégicos. Em uma audiência na Comissão de Constituição e Justiça, ela deu a seguinte declaração  (fonte): "Sou psicóloga. E percebo que o governo tem uma obsessão compulsiva pelo gasto, que precisa ser tratado urgentemente". Ou seja, ela usa de sua "autoridade de psicóloga" para diagnosticar o governo. Que absurdo!

domingo, 25 de novembro de 2012

Veja e a indústria farmacêutica: jornalismo ou propaganda?



Ontem, passando por uma banca de jornal, vi a capa da edição desta semana da revista Veja: "Depressão: A promessa de cura - A cetamina é a primeira esperança de tratamento totalmente eficaz da doença que afeta 40 milhões de brasileiros". Fiquei consternado! Na verdade, nem sei como ainda me surpreendo com esta revista, que representa o que há de pior no jornalismo nacional - e mesmo internacional. Não digo isso somente porque discordo de suas posições políticas conservadoras mas porque, mesmo em termos jornalísticos básicos, ela comete erros absurdos, inclusive nas seções não-políticas. 

Especificamente com relação aos assuntos ligados à área da saúde, é conhecida - e já analisada em alguns trabalhos acadêmicos - a estreita e promíscua ligação da revista com a indústria farmacêutica. Não é a primeira vez que a Veja, sob a aparência de um jornalismo isento, faz propaganda descarada de alguma medicação. Como afirma a pesquisadora Fernanda Lunkes, que analisou em sua tese de doutorado o discurso de medicalização em várias reportagens da revista, "sob um efeito de cientificidade, compreendo que as matérias se inscrevem em um negócio, e um bom negócio, à indústria farmacêutica e à Veja. As matérias, inseridas principalmente nas Seções medicina e saúde, filiam-se ao discurso da venda e do lucro, onde quem mais ganha é quem vende o produto". Em outro trecho ela afirma que a revista "direciona seus argumentos a favor da indústria e não produz marcas linguísticas de resistência a ela. Ao contrário, ao trazer termos relacionados ao contexto capitalista, como venda, mercado, consumo, ela torna o medicamento um produto a ser vendido/consumido por qualquer um e muitas vezes sem ser por motivos de doença e sim porque está 'na moda' (e se está na moda é preciso consumir)". Por tudo isso, não seria um exagero afirmar que a revista presta um verdadeiro desserviço à população brasileira em matéria de saúde. Ao invés de informar, faz propaganda.


Há pouco mais de um ano, a revista publicou uma reportagem de capa sobre um "milagroso" remédio para emagrecer  "sem grandes efeitos colaterais". Terá sido coincidência sua publicação  justo num momento em que o governo se mobilizava para restringir a venda de alguns remédios para emagrecer? Certamente não. Afinal, sempre que alguma ação governamental é realizada no sentido regulamentar ou restringir o uso de certas medicações, eis que surge a Veja para defender os interesses da indústria. Nesta outra capa, a revista é ainda mais explícita em suas intenções.


Com relação à reportagem de capa desta semana ainda não a li  pois, como me recuso a comprar a revista, estou esperando ela cair na internet - o que ainda não ocorreu. Desta forma, somente analisando a capa, faço algumas considerações preliminares:

1) Como é possível falar em cura para uma doença ou transtorno ou problema como a depressão? Afirmar que existe uma cura para a depressão é como dizer que é possível eliminar definitivamente qualquer tristeza ou ansiedade ou ainda as dúvidas, os receios e os medos, dos quais, dentre outras coisas, a depressão é consequência. É claro que existe algum componente biológico na depressão, mas isto não significa dizer, como querem os psiquiatras modernos, que a depressão é simplesmente um problema genético/cerebral que pode ser eliminado por via química. A coisa é muito mais complexa que isto, mas a revista compra (e vende) muito bem, de forma acrítica, este discurso biologizante/ medicalizante. Uma curiosidade é que há 13 anos, em março de 1999, a revista divulgava, em sua capa, que o mal da depressão "já pode ser vencido com a ajuda de remédios". Será que em 2025 teremos uma nova capa da Veja prometendo mais uma cura definitiva para a "doença da alma"?



2) Sério que 40 milhões de pessoas tem depressão no Brasil? Isto equivale a cerca de 20% da população. Como já discuti neste post, os altos índices de depressão no Brasil e no mundo provavelmente refletem menos a realidade endêmica do problema e muito mais a ampliação e a banalização do diagnóstico moderno de depressão, que desconsidera o contexto em que os sintomas emergem e se mantém. Não sei qual a fonte utilizada pela Veja, mas mas o curioso é que a mesma revista, em 2009, divulgou que 17 milhões de brasileiros tinham depressão. Será que em três anos os índices praticamente triplicaram? Não creio. Este estudo epidemiológico internacional de 2011 aponta que cerca de 10% dos brasileiros teriam depressão. Metade do que aponta a Veja; 

3) A montagem utilizada pela revista para ilustrar a capa se utiliza do clichê da "pílula da felicidade", contrapondo a imagem de uma jovem triste à sua (nova) versão feliz. Esta montagem se assemelha muito àquelas produzidas pela indústria farmacêutica para divulgar seus produtos - seja para médicos ou para a população em geral (o que no Brasil, felizmente, é proibido). Esta semelhança não pode ser simplesmente mera coincidência.



4) Com relação à cetamina (também chamada de ketamina), trata-se de um anestésico que tem sido cada vez mais consumido na Europa e nos EUA. Algumas pesquisas, como a relatada por esta reportagem, apontaram para o alívio imediato dos sintomas da depressão por alguns indivíduos após a ingestão da medicação. O fato é que existem ainda poucos e inconclusivos estudos sobre os efeitos antidepressivos da droga, o que é muito diferente de afirmar que os cientistas descobriram um "tratamento totalmente eficaz" para a depressão. O que esta manchete sensacionalista não diz é que o efeito da cetamina é limitado e que, como qualquer medicação, gera efeitos colaterais e pode, inclusive, levar à dependência. Este estudo alerta ainda para o fato de que "o seu uso não se restringe apenas à prática clínica ou pesquisa, sendo frequentemente utilizada como droga de abuso pelos jovens em festas como um potente alucinógeno". Não sei ainda se isto é mencionado no decorrer da reportagem - o que duvido muito -, mas a capa, pelo menos, passa a ideia de uma medicação 100% eficaz e sem efeitos colaterais. 

A pesquisadora Lia Hecker Luz, neste estudo sobre a "pílula da longevidade à venda nas páginas da Revista Veja" conclui, após analisar 50 matérias sobre saúde, que a revista "assume esse papel de anunciar aos seus leitores, formados pela classe média, o que há de novo no mercado farmacêutico e de equipamentos de saúde, dando às matérias de Jornalismo científico caráter publicitário, citando nomes comerciais de medicamentos e de seus fabricantes" E conclui com um importante alerta: "Antes de ler as matérias da revista, o leitor deve lembrar-se das prováveis respostas a duas questões: quem tem interesse na notícia e quem vai lucrar com a divulgação da mesma". Quem NÃO vai lucrar, certamente, é o leitor da revista.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Humor Psi: A Psicobotânica

Segue o segundo texto escrito por mim em 2007 para o Jornal do Centro Acadêmico.

Apresento-lhes a mais nova área da Psicologia: a Psicologia Botânica. O que até bem pouco tempo estava restrito a um pequeno número de jovens pesquisadores agora se espalhou pelo mundo. A Sociedade Botânica do Brasil (SBB) juntamente com a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), fundaram, numa parceria inédita, a Sociedade Brasileira de Psicologia Botânica (SBPB). E já estão organizando o primeiro periódico sobre o tema. Especulam-se que chamar-se-á Journal of Botanical Psychology, atendendo às inúmeras demandas internacionais.

Isto para não falar do I Congresso Latinoamericano de Psicologia Botânica, marcado para Dezembro. Nele serão apresentados os resultados dos últimos estudos e pesquisas realizados no Brasil e no mundo. Além disso, serão lançados inúmeros livros, dentre eles, “A Psicologia Botânica, Freud e a Pós-modernidade” (Ed. Imago), “A fruta como sintoma” (Ed. Casa do Psicólogo), “O caule fala” (Ed. Vozes), "Vencendo a adubofobia" (Ed. Artmed) e os mais aguardados “Plantas: Quem ama educa” e “O que toda planta inteligente deve saber” (Ed. Sextante), ambos do prestigiado autor Içami Tiba.

Por todo o país, teses de mestrado e doutorado tem sido escritas sobre o tema, a partir de inúmeras abordagens. Por exemplo, a tese de mestrado “O feminino e a Psicanálise Botânica – Um estudo de caso” analisa o caso de uma samambaia, chorona e histérica que, com todo o corpo paralisado, passou por cinco anos de análise e agora compreende que não pode querer ser outra coisa além do que se é. Continua paralisada, porém feliz. 

Já a tese de Doutorado “Para-psicobotânica – Análise de uma planta sensitiva”, analisa o comportamento de uma Mimosa pudica, espécie de vegetal que fecha seus folíolos ao mínimo toque. Conclui, após complexas teorizações, que tudo o que se move é animal e que todo animal possui alma. Desta forma, todas as plantas são seres animais e espirituais. 

O Greenpeace foi além e lançou à campanha “Planta também é gente! Você comeria um parente?”. E a coisa segue por aí... É o eterno retorno. Começa como  psicologia e termina como histeria...


Update (25/11/2012): Àqueles que ainda duvidam que plantas tem sentimentos e sofrem, recomendo o video abaixo, que reproduz um clássico experimento de Psicobotânica, intitulado "O grito da cenoura".

Humor Psi: Personal Psych



Em 2007, no último ano da faculdade, escrevi alguns textos cômicos sobre a Psicologia e os Psicólogos para o Jornal do Centro Acadêmico do curso. Segue o primeiro deles.

Tendo em vista a multiplicidade de áreas de atuação do psicólogo (clínica, escolar, organizacional, jurídica, etc.), lanço mais uma possibilidade, inacreditavelmente inédita: a atuação “personal”. Imaginem esta cena: você chega em casa cansado, levemente estressado, precisando de alguém para conversar (na verdade, para lhe escutar). Você então abre seu guarda-roupa e tchanam: eis que surge seu personal psych! Com sua escuta diferenciada ele ouve atentamente seus problemas, suas frustrações, seus desejos, interpreta seus sonhos, seus atos falhos, questiona sobre sua infância, sobre sua mãe... Aliviado, você fecha a porta do guarda-roupa, toma aquele banhozinho gostoso, veste aquele pijaminha cheiroso e dorme. Feliz, completamente feliz. Não seria uma maravilha?

Agora imaginem outra cena: você chega em casa cansado, levemente estressado, você quer muito dormir, mas seu quarto está uma bagunça e isto lhe incomoda. Você liga então para sua namorada e desabafa sobre seu problema. Ela, mau-humorada como sempre, fala algo do tipo: “E eu com isto?”. Você desliga o telefone mais frustrado do que quando ligou. Neste momento lhe ocorre uma idéia: ligar para a ABPP (Associação Brasileira dos Personal Psychs). Você liga e a secretária lhe informa que, dentro de 2 dias um PP do tipo O (organizacional) estará chegando em sua residência. Você reclama do valor do frete, mas acaba aceitando. Dois dias depois, o interfone toca. Você atende. É ele, é ele! Você não consegue esconder sua ansiedade. Você abre a porta e tchanam: eis que surge seu personal psych! Agora você tem certeza de que sua vida vai mudar.  

A primeira coisa que ele faz (antes mesmo de lhe cumprimentar) é analisar o ambiente onde você está inserido: observa atentamente todos os detalhes de sua casa, todas as coisas fora do lugar, todos os cantos empoeirados, todos os CDs desordenados. Decide então implantar o Programa 5S de Qualidade. Descarte, organização, limpeza, saúde e autodisciplina. Tudo o que você precisa! Implantado o PQ (programa de qualidade), o PP lhe aplica uma PC (pesquisa de clima) e descobre, após analisar exaustivamente os dados quantitativos, que você tem problemas de relacionamento interpessoal. Ele, então, pela primeira vez, lhe dirige a palavra perguntando: “Como vai?”, e você responde que tem brigado muito com sua namorada. Identificada a variável interveniente, ele decide inseri-la em um PDV (programa de demissão voluntária) mas, como a variável não quis colaborar, o PP inicia então um processo OP (out-placement), demitindo-a por conta própria e encaminhando-a para a PQP. Recolocada a antiga colaboradora, o PP decide iniciar um processo de recrutamento de candidatas à vaga, agora em aberto. 

A partir dos anúncios em jornais e sites de namoro, aparecem cerca de 20 candidatas. Destas 5 são imediatamente descartadas por não se encaixarem no perfil mínimo exigido pelo cliente (você!). As demais candidatas passam por um rigoroso processo seletivo constituído por uma bateria de testes psicológicos (BAI, BDI, Escala de Neuroticismo, Escala Kinsey, etc), entrevistas e dinâmicas de grupo. Ao final 3 são selecionadas e apresentadas ao cliente (você! você!). A escolhida passa, então, por um longo programa de T&D (treinamento e desenvolvimento) sobre sua vida, seus defeitos, suas manias e chatices. E a cada dois meses uma AD (avaliação de desempenho) e uma PC (pesquisa de clima) são aplicados e rigorosamente analisados para averiguar a qualidade (inclusive sexual) do seu relacionamento e da sua vida. Isto para não falar nas auditorias semanais do Programa 5S. Mas nada disto lhe incomoda. Agora sim você pode falar que sua vida está perfeita. Você está tão feliz, mas tão feliz, mas tão feliz, que pensa “Como eu vivi sem meu Personal Psych?”. Adquira já o seu*.

* Além do tipo C (clínico) e do tipo O (organizacional), existem PPs do tipo EE (escolar e educacional). Isto sem falar nos modelos especiais: E (esporte), J (jurídico), T (transito) e M (misto). Para os menos abastados, versões genéricas podem ser adquiridas. Mas, cuidado! Modelos falsificados estão sendo vendidos no mercado como originais. Os efeitos colaterais são fortíssimos.





OBS: No próximo artigo discutirei uma possibilidade ainda mais recente e inovadora: a psicologia botânica. Planta também sofre, também ama, também se sente paralisada diante das adversidades da vida. Não podemos nos esquivar de tal problema.

sábado, 10 de novembro de 2012

Entrevista com o cartunista Miguel Montenegro (Psicopatos)


Quem acompanha este blog, sabe da minha paixão por cartuns, charges e quadrinhos, assim como por assuntos do mundo psi. E quando algum artista consegue unir estes dois campos, criando cartuns inspirados em temas psi, eu vou à loucura! E eis que encontrei no Facebook uma fã-page de uma série de cartuns chamada Psicopatos e desde então acompanho os geniais desenhos do cartunista português Miguel Montenegro. Miguel trata em seus cartuns de questões absolutamente relevantes à área psi e não poupa críticas nem aos psiquiatras, representados pela figura de um porco, nem aos psicanalistas, representados por um ser que ele designa de gavião-vampiro. Segundo seus cartuns, não são só os psiquiatras que rotulam e patologizam; os psicanalistas também o fazem, com a diferença de não medicarem. O teste de Rorschach e até mesmo a "vaca sagrada" da psicanálise, são alvos constantes de seus cartuns.



Resolvi contatar Miguel para uma entrevista, assim como fez o psicólogo Vladimir Melo com o cartunista Pacha Urbano (autor da genial série "As traumáticas aventuras do filho do Freud" - veja a entrevista com ele aqui). Miguel gentilmente aceitou o convite. Enviei, então, as perguntas por email e ele respondeu. Segue abaixo o resultado:

Miguel, quando você começou a desenhar?

Desenho desde que me lembro, mas foi com onze anos que decidi ser ilustrador profissional quando crescesse. O meu sonho era fazer banda desenhada para a Marvel Comics. Quando consegui, o interesse foi esmorecendo aos poucos. Ter de desenhar oito horas por dia, todos os dias, pode-se tornar aborrecido.

Atualmente, você desenha profissionalmente ou somente por hobby?

Eu continuo a fazer trabalhos de ilustração para publicidade em regime free-lance, sobretudo storyboards, porque é a minha profissão. O meu objetivo é poder desenhar só por prazer, mas é possível que invista novamente na área da ilustração. Às vezes sinto aquela vontade antiga de voltar a desenhar mais regularmente. Normalmente passa rápido, mas vamos ver como é de futuro.




Qual sua relação com a Psicologia e com a Psicanálise?

Eu estou a terminar o mestrado em Psicologia Clínica. Neste momento estou a estagiar no serviço de psiquiatria do Hospital Sta. Maria, em Lisboa. Este ano espero ainda entrar na Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial.

Já fez análise ou psicoterapia em algum momento da sua vida?

Ando atento à procura de um terapeuta para dar início a esse processo. É tarefa difícil. Gostava de alguém cuja base teórica fosse fenomenológico-existencial, mas que também tivesse formação psicanalítica. Só conheço uma pessoa com essas características. É um professor meu com quem tenho uma relação próxima, pelo que não é a pessoa indicada. Mas não tenho pressa. Vai acontecer quando tiver de ser, se tiver de ser.



Quando e de que forma surgiu a ideia dos Psicopatos?

Os Psicopatos estão comigo desde o fim do primeiro ano do curso de psicologia. Na altura, a ideia era fazer uma tira ou outra, quando me confrontasse com algumas das contradições que encontramos nas “ciências” psicológicas, e que, manifestas de outra maneira, podiam ser mal aceites. Provavelmente por falta de tempo, fui adiando a ideia, e o primeiro Psicopatos nasceu em Fevereiro de 2012. Toda a gente gostou, até os professores de psicanálise. Só um é que me veio chatear, dando-me um raspanete em público. Enfim…Fiz mais duas ou três tiras, até que o ISPA, a minha universidade, mostrou interesse em publicar um livro de Psicopatos no fim do ano. Deram-me carta branca para desenhar o que quisesse, sem qualquer censura. Eu fiquei muito contente com a ideia, e passei a tentar produzir 2-3 tiras por semana. Agora que já temos quase 150 – embora só cerca de metade estejam publicadas no Facebook –, vamos começar a pensar em publicar tudo em livro.



Noto em seus cartuns, uma relação de amor e ódio com a psicanálise. Qual sua visão da psicanálise e dos psicanalistas?

É interessante essa observação. Algumas pessoas acham que eu odeio a psicanálise, o que é errado. Outras, mais perspicazes, percebem que o que faço é apresentar uma visão crítica da psicanálise, no sentido de a tentar compreender na sua essência. Nesse intuito, comecei a notar que algumas questões fundamentais ficam por responder: O Inconsciente existe? Se as pulsões são energias reais e não metafóricas, então porque não as conseguimos medir como uma energia típica da física? Como pode a psicanálise dizer-se humanista se desconsidera o individuo consciente a favor dessa coisa a que chama de Inconsciente e que nunca ninguém viu? A psicanálise diz-se ciência, mas não apresenta nenhum objeto concreto e real passível de ser estudado pelo método cientifico. Está mais próxima da astrologia do que da medicina.




Tenho uma curiosidade: qual a penetração da psicanálise em Portugal? Ela é disseminada por aí como é aqui no Brasil e na França?

Em Portugal, a psicanálise ainda é a corrente dominante. A corrente cognitivo-comportamental cada vez tem mais relevância, sobretudo pelas vantagens que apresenta em contexto hospitalar e institucional. Infelizmente, a corrente fenomenológico-existencial só agora está a aparecer, havendo menos de vinte terapeutas no pais todo. Espero poder vir a contribuir para a sua disseminação.




Percebo também uma crítica à psiquiatria e ao excesso de medicação. Como enxerga esta questão?

Considero que não há medicação nem a mais nem a menos. Ela deve ser aquela que o próprio deseja tomar, como e quando assim entender. Não encontro fundamento para que umas drogas sejam legais e outras ilegais, para além da manutenção de um monopólio financeiro por parte de alguns grupos económicos, todos eles associados à medicina, o que considero, no mínimo, imoral. 



Tal como em relação à psicanálise, nada tenho contra a psiquiatria em si mesma, como nada tenho contra a astrologia ou contra o nutricionismo. Defendo o direito de qualquer adulto poder aceder livremente a qualquer prestação de serviço, desde que o contrato entre si e o prestador de serviços seja realizado numa base de escolha livre e honesta entre ambas as partes. A minha atitude é sobretudo antifraude e anti-coerção. A psicanálise, ao dizer que é ciência, comete um fraude; ao “tratar” crianças, é coerciva. De igual forma, a psiquiatria, ao dizer que é medicina legítima com fundamento científico, comete um fraude: doenças mentais não são doenças reais, são doenças metafóricas; ao internar e medicamentar pessoas contra a sua vontade, é coerciva.

Agradeço muito sua disponibilidade por ceder esta entrevista. Um grande abraço.

Obrigado, Felipe. Foi divertido



Veja mais cartuns do Miguel aqui.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

"Amor por contrato" e a grama mais verde do vizinho


No último fim de semana, zapeando pelos canais a cabo, acabei caindo no filme "Amor por contrato", que estava passando no Telecine Touch. Dificilmente pararia para assistir a um filme com este título e neste canal, mas a intuição prevaleceu e resolvi arriscar. E foi uma grata surpresa! Não que o filme seja uma obra-prima. Pelo contrário, é bobo em vários momentos e raso de uma forma geral, mas a ideia central é interessantíssima. "The joneses", nome original do filme, conta a história da família Jones, uma família típica dos comerciais de margarina: Steve e Kate e os filhos adolescentes Mick e Jenn moram em uma casa luxuosíssima repleta de aparelhos ultramodernos, possuem - e exibem sem pudor - automóveis caros e potentes e, além de vomitarem dinheiro e poder, esbanjam felicidade. Steve e Jenn demonstram grande paixão um pelo outro e parecem ter uma vida sexual incrível. Os filhos adolescentes são rebeldes e comportados na medida certa. Todos são ricos, bonitos e carismáticos. Enfim, a família Jones seria perfeita se não fosse tudo uma grande mentira. Outros filmes, como o Beleza Americana, já exploraram a falsidade generalizada do chamado "american dream", mas no caso de Amor por contrato - e como o próprio título em português já denuncia - a falsidade está em um outro nível [a partir daqui haverá vários spoilers!].


Os Jones nem mesmo são uma família. Na verdade, eles são funcionários da empresa Lifeimage, que utiliza uma inesperada estratégia de marketing: ela contrata sujeitos de "boa aparência" (leia-se: brancos e magros) para atuarem como membros de uma família perfeita - a idéia é: se fosse uma família "real" nunca poderia ser perfeita. O objetivo desta empresa - e, portanto, de seus funcionários - não é vender diretamente produtos, mas gerar insatisfação e estimular o desejo de consumo de produtos de luxo nos vizinhos. A estratégia é simples e genial: criar uma família com a grama mais verde do que toda a vizinhança. Os Jones não vendem coisas, vendem ilusões. E de fato eles atingem este objetivo: um vizinho em especial, o Larry, com medo de "ficar para trás", começa a comprar vários produtos utilizados por Steve, endividando-se tremendamente. Quando Larry vê Steve com um carro maior e mais potente que o dele (e a comparação com o pênis não seria inadequada neste caso) ele se sente diminuído e, para aliviar este sentimento de frustração, decide comprar um carro novo. Na verdade, Larry não quer ter o que Steve tem, ele quer ser como Steve. Constatando a falência de seu próprio casamento, Larry passa a comprar mais e mais coisas, talvez na esperança de tornar sua vida e seu relacionamento tão perfeitos e completos como, supostamente, os de Steve. O problema é que Steve sempre o supera, gerando uma frustração constante em Larry. Frustração semelhante talvez à que sentem vários indivíduos aficionados por tecnologia ao comprarem o tablet mais moderno e verem, em pouco tempo, novos equipamentos ainda mais modernos e "completos" surgirem no mercado. O que o filme expõe muito bem, ainda que de forma esquemática, é que frustração e consumo andam juntos. Talvez seja por isso que quanto mais frustrados estivermos com nossas vidas mais susceptíveis estamos a consumir coisas ou idéias - o enorme consumo de livros de autoajuda está aí para provar. Os marketeiros e publicitários sacaram isto faz tempo. Quanto mais eles conseguirem nos convencer de que nós e nossas vidas são muito menores do que poderiam ser, mais estamos abertos ao que eles tem para nos vender.


Esta estratégia vale para muitas coisas, inclusive para doenças. É tática conhecida da indústria farmacêutica, em função da restritiva regulamentação no marketing de medicamentos em quase todo o mundo, divulgar não os remédios mas as doenças. Não é coincidência que grande parte das associações de defesa dos portadores de diversos "transtornos mentais" é patrocinada por algum laboratório farmacêutico (dê só uma olhada nos apoiadores desta entidade na parte de baixo do site). A idéia é que quanto mais pessoas se identificarem com o diagnóstico, melhor para eles. E nada melhor para fazer as pessoas acreditarem que estão doentes do que exibir sistematicamente pessoas felizes - ou pelo menos mais felizes que você. Grande parte das propagandas funciona como os Jones: estabelecem padrões inatingíveis de saúde e felicidade que geram frustração e, logo, consumo - porque a indústria vende tanto o problema quanto a solução! No caso de Larry, não houve solução possível. Completamente endividado e desesperado, decide dar fim à própria vida, afogando-se na luxuosa piscina de sua casa. Diante da impossibilidade de ter a grama tão verde como a de Steve, Larry opta por eliminar toda sua frustração de uma só vez. E esta situação felizmente desperta Steve para a mentira e a crueldade de seu trabalho. Como não poderia deixar de ocorrer num filme hollywoodiano, tudo acaba bem: Steve se arrepende de seus atos, abandona o emprego e se apaixona de verdade por sua esposa de mentira - e ela por ele. Como seria bom se tudo ocorresse assim na vida real. Melhor ainda seria se conseguíssemos seguir o conselho do filósofo Gilles Lipovetsky (veja aqui): 

Os objetos de consumo vão proporcionar algum sentimento de evasão, mas não trarão paz, harmonia. Consumir não basta. A felicidade exige outra coisa, principalmente na relação com os outros e consigo. Quem entendeu isso faz política, se engaja em associações. É possível ter satisfação ajudando os outros, as crianças, sentindo-se útil, lutando pela ecologia. Isso não é consumo. O homem não pode se reduzir a um consumidor.