sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sobre a potência do vínculo: uma resenha do livro "Uma hora de conexão" do Irvin Yalom

O psiquiatra e psicoterapeuta Irvin Yalom, atualmente com 94 anos, possui uma vasta e relevante obra, iniciada em 1970 com a publicação do livro didático The Theory and Practice of Group Psychotherapy (lançado no Brasil pela Artmed com o título Psicoterapia de grupo: teoria e prática). Desde então, ele publicou inúmeros e excelentes livros, incluindo quatro romances filosóficos: When Nietzsche Wept (Quando Nietzsche chorou, 1992), Lying on the Couch (Mentiras no divã, 1996), The Schopenhauer Cure (A cura de Schopenhauer, 2005) e The Spinoza Problem (O enigma de Espinosa, 2012); cinco livros com histórias de terapia, meus preferidos: Every Day Gets a Little Closer (Cada dia mais perto, 1974, escrito em parceria com Genny Elkin), Love's Executioner (O carrasco do amor, 1989), Momma and the Meaning of Life (Mamãe e o sentido da vida, 1999), Creatures of a Day (Criaturas de um dia, 2015) e Hour of the Heart (Uma hora de conexão, 2024, escrito em parceria com seu filho, Benjamin Yalom); dois livros autobiográficos: Becoming Myself (2017) e A Matter of Death and Life (Uma questão de vida e morte, 2021, escrito com sua esposa, Marilyn Yalom); um livro não teórico sobre psicoterapia: o fantástico The Gift of Therapy (Os desafios da terapia, 2001); um livro filosófico sobre a morte: Staring at the Sun (De frente para o sol, 2008); três livros teóricos: The Theory and Practice of Group Psychotherapy (1970), Existential Psychotherapy (1980) e Inpatient Group Psychotherapy (1983), além de duas coletâneas de ensaios: The Yalom Reader (1996) e I'm Calling the Police (Vou chamar a polícia, 2005). Temos, portanto, 18 obras lançadas até o momento. No Brasil, a maior parte desses livros já foi publicada, com exceção de quatro: Existential Psychotherapy, Inpatient Group Psychotherapy, The Yalom Reader e Becoming Myself. Na verdade, o Psicoterapia existencial chegou a ser publicado há algumas décadas, mas no momento encontra-se disponível apenas por preços elevados em sebos virtuais. E ao longo dessa variada e admirável obra, Yalom tratou como poucos das complexidades da mente humana e, especialmente, das possibilidades e potências do encontro terapêutico. Certamente outros autores fizeram isso com muita competência, como Lori Gottlieb em Talvez você deva conversar com alguém e Joshua Fletcher em E como você se sente em relação a isso?. No entanto, esses são escritores iniciantes e estão longe de terem uma obra ampla e sólida como Yalom (espero muito que cheguem lá).

Em seu livro mais recente, lançado em outubro de 2024 nos Estados Unidos e em janeiro de 2026 no Brasil, Yalom dá continuidade ao seu antigo "projeto" de retratar a relação entre terapeuta e paciente, que está no centro e na base da sua abordagem terapêutica, mas, desta vez, ele decidiu inovar e compartilhar os resultados de uma espécie de experimento que ele se propôs a fazer aos 80 e tantos anos. Originalmente intitulado Hour of the heart: connecting in the here and now (Hora do coração: conectando no aqui e agora) o livro, que foi escrito em conjunto com seu filho Benjamin Yalom, recebeu no Brasil um título bem mais interessante (e menos brega): "Uma hora de conexão: sessões sobre memória e vulnerabilidade". Mas do que trata o tal experimento que ele se propôs a fazer? Bem, pouco antes de completar 90 anos, ainda enlutado pela morte recente de sua esposa, com quem ele foi casado por 65 anos, Yalom começou a perceber sua memória piorando dia após dia. E ele passou a sentir também os impactos destes problemas de memória em seus atendimentos, que ele ainda realizava presencialmente no seu consultório em Palo Alto na Califórnia, e também online, especialmente após o início da pandemia de Covid-19. E foi por conta de tais problemas que ele decidiu alterar total e definitivamente a sua forma de atendimento: ao invés de atender as pessoas no decorrer de longos períodos, como fez até então, ele faria apenas atendimentos únicos com uma hora de duração. Esta forma peculiar de atendimento, na sua visão, demandaria menos da memória e mais da sua habilidade, exercitada ao longo de décadas, de se conectar com seus pacientes. 

E assim, no decorrer dos anos seguintes, ele atendeu dezenas, talvez centenas, de pessoas e no livro compartilhou algumas de suas histórias. Mas além de inovar na duração dos atendimentos ele se propôs a explorar ainda mais o aqui-e-agora na relação entre ele e seus pacientes durante a sessão e também a experimentar a autorevelação por meio da inversão de papéis entre terapeuta e paciente. Nesta técnica, o terapeuta deixa momentaneamente a função de "escutador" e se propõe a responder, da forma mais sincera possível, qualquer pergunta ou questionamento do paciente. É um recurso que exige coragem e abertura e que pode ser útil em determinados momentos. No entanto, da forma como é retratado no livro, eu fiquei com a impressão de que, em alguns casos, a inversão de papéis se estende além do necessário, fazendo com que a sessão pareça girar mais em torno dele do que do paciente. De toda forma, mesmo com exageros pontuais, Yalom continua conduzindo e retratando o atendimento terapêutico com uma admirável sensibilidade e humanidade. E é com a mesma sensibilidade que ele relata também o seu próprio declínio. Aos 93 anos, após alguns anos atendendo neste formato, Yalom tem um assustador apagão de memória, esquecendo-se completamente de um atendimento que acabara de fazer. E por conta desta situação, retratada no último capítulo do livro, ele decidiu pôr fim à sua longa carreira como terapeuta. No entanto, como aponta seu filho Benjamin no posfácio, embora não atenda mais, Yalom não deixou de escrever e tem se dedicado intensamente àquele que pode ser seu último livro. Essa informação, contudo, não funciona apenas como nota biográfica; ela prolonga, para além das páginas de Uma hora de conexão, o mesmo movimento que o livro encena: o de transformar os limites humanos - inclusive o declínio e a finitude - em matéria de reflexão e partilha. Se o consultório se fecha, a escrita permanece como outra forma de encontro. Assim, este livro se afirma como uma obra de passagem: ao mesmo tempo em que marca o encerramento de uma prática clínica de décadas, reafirma a fidelidade de Yalom àquilo que sempre sustentou em sua trajetória: a aposta na relação, na vulnerabilidade compartilhada e na coragem de olhar de frente a própria finitude. Ao final da leitura, permanece menos a sensação de despedida e mais a de continuidade: enquanto houver leitores e terapeutas dispostos a sustentar o aqui e agora do encontro, a obra de Yalom seguirá viva.

Trechos do livro: "Fui lembrado mais uma vez de uma realidade humilhante. Raramente é o brilhantismo de um terapeuta que faz a diferença. Nossas intepretações engenhosas? As intervenções ousadas que nos provocam descargas de adrenalina e satisfação pessoal? Isso em geral passa despercebido pelos pacientes. Por outro lado, o que quase sempre faz a diferença são as qualidades do vínculo (a empatia, o desejo e a capacidade de realmente enxergar o outro) e a disposição de oferecer um feedback honesto, algo que raramente se obtém na vida cotidiana. É aí que residem os tesouros, uma verdade confirmada em minhas décadas de experiência, bem como em pesquisas científicas revisadas por pares. Compreendi que a melhor forma de tirar proveito das sessões únicas era focando o relacionamento"; "Meu mantra profissional: é o relacionamento que cura. Ou seja, o que faz um paciente crescer e se transformar é, antes de tudo, a experiência de um vínculo de proximidade e segurança com o terapeuta, mais do que qualquer intervenção, diagnóstico ou medicamento específico. Em várias dessas histórias, mencionei a necessidade de construir essa conexão de confiança como essencial para o trabalho no aqui e agora. Mas iria além e diria que qualquer que seja a abordagem terapêutica, desde a terapia focada em soluções de curto prazo até a terapia cognitivo-comportamental e a análise psicodinâmica de longa duração, é fundamental criar um relacionamento forte, positivo e de confiança com os pacientes. É claro que a construção desse relacionamento em uma única sessão é uma tarefa particularmente desafiadora. Mas se levar a sério meu próprio mantra e acreditar que a relação é, de fato, mecanismo de cura, então, nessas sessões únicas, devo me dedicar por inteiro a criar esse vínculo o quanto antes. Falar de mim mesmo - mostrar vulnerabilidade, compaixão, humanidade - e incentivar o paciente a fazer igual pode não ser o único recurso, mas decerto é o que funciona melhor pra mim".

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