sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Psicologia e Homofobia


Só faltava essa:


Vaticano cria teste para identificar e banir gays



O Vaticano anunciou que irá adotar testes psicológicos para identificar tendências homossexuais em candidatos a padres. A decisão faz parte de um documento recém divulgado. As novas regras de orientação aos vocacionados inclui uma série de características que, identificadas no candidato, significam a sua reprovação ao sacerdócio. Aprovado pelo Papa Bento XVI, os testes devem ser aplicados em seminários católicos, mas o Vaticano informou que a submissão ao teste é voluntária. No conjunto de características listadas como impróprias para ser padre estão "estranhas tendências homossexuais", "identidade sexual incerta" e "excessiva rigidez de caráter", além de "forte dependência afetiva. Segundo o Vaticano, além da homossexualidade, a incidência de padres pedófilos também contribuiu para a criação e adoção dos testes. O documento com os testes é intitulado "Diretrizes para o Uso de Psicologia e Formação na Admissão dos Candidatos ao Sacerdócio". Em um dos anunciados contidos nele, uma frase ressalta: "erros no discernimento das vocações não são raros". A Igreja trata a homossexualidade, no documento, como "defeito." Está escrito: "a identificação dos defeitos antes do sacerdócio vai ajudar a evitar muitas experiências trágicas". Os testes serão executados por técnicos habilitados (psicólogos) e pretende identificar “imaturidade grave” e desequilíbrios de personalidade, os mesmos que a igreja atribuiu aos homossexuais.

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Agora só falta criar um teste para identificar pedófilos...

OBS: ainda bem que no Brasil o CFP lançou a Resolução n°1 de 1999, que "Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual," afirmando, dentre outras coisas, que "os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados", muito menos "colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades". Infelizmente esta resolução não impediu alguns "pecados" por parte de alguns "profissionais".

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Psicologia em Cordel



Está disponível no site BVS-Psi um livro de cordel denominado "Cem anos da Psicologia no Brasil", do cordelista e funcionário do CRP-11 Jozeilton Lima. Para acessá-lo (em pdf) basta clicar na figura acima. Apesar de superficial, é interessante ver a história da Psicologia no Brasil ser contada de outra forma além da acadêmica!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Psicologia dos Simpsons


Eu sou simplesmente viciado nos Simpsons. É, para mim, o melhor programa de TV. Também sou apaixonado, como era de se esperar, por psicologia. Então imaginem minha surpresa ao descobrir que existe um livro, ainda sem tradução no Brasil, chamado The Psychology of the Simpsons. Deve ser espetacular!!!

Curta da Semana - O bispo



Este video conta a história de Artur Bispo do Rosário (1909-1989), artista plástico e interno da Colônia Juliano Moreira. Quem o apresenta é Fernando Gabeira, isto é, o antigo Fernando Gabeira - o da tanguinha, da defesa da maconha, o combatente, o engajado e liberal; não o novo, este babaca sem opinião que se aliou à direita (PSDB e DEM/PFL) na tentativa de vencer as eleições municipais do Rio de Janeiro. Se deu mal: foi vender a alma pro DEMo, se fudeu! Bem feito!!! De qualquer forma, este video, da década de 80, é muito bom...

Dia Nacional do Livro



OBS: em função da data, o site Submarino, está vendendo todos os livros sem cobrança de frete. Eu acabei de encomendar o novo livro do Yalom (De frente para o Sol). Além dele já comprei muitos outros livros neste e em outras livrarias virtuais (Saraiva, Lojas Americanas, BestBooks, etc) e nunca tive problemas: os livros chegam bem rápido (normalmente em 2 ou 3 dias) e em ótimo estado. Além de serem (sem frete) mais baratos que nas livrarias convencionais. Fica a dica!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Novo livro do Yalom!!!



Foi lançado esta semana, pela editora Agir, o livro "De frente para o Sol", do fantástico escritor e psicoterapeuta Irvin Yalom, autor dos já clássicos "Quando Nietzsche chorou", "A Cura de Shoppenhauer", "Mentiras no Divã", "Desafios da Terapia", "O Carrasco do amor", "Mamãe e o sentido da vida", além do excelente livro teórico "Psicoterapia de Grupo". Vou comprá-lo ainda hoje...

Sinopse do livro: Por trás das nossas angústias, vive o fantasma da morte. Embora as religiões cumpram o papel de nos oferecer uma resposta para nossa existência, sobre a morte todas as nossas construções são imaginárias. A morte não deve ser temida. De certa forma, somos todos imortais, uma vez que algo de nós se transmite aos que nos rodeiam e aos nossos herdeiros por meio do que Yalom chama de propagação. Este livro se propõe a ser um guia acessível a todos aqueles - tanto leitores comuns quanto psicoterapeutas - que desejam fazer uma reflexão mais aprofundada sobre os mistérios que para cada um de nós abriga o futuro e o destino.

OBS: não sei se vocês sabem, mas o livro "Quando Nietzsche chorou" foi adaptado para o cinema. Ainda não o assisti pois estou com medo de o filme ter destruido um belíssimo livro - o que é muito comum - mas fica a dica! O filme já chegou às locadoras...



terça-feira, 21 de outubro de 2008

Psicólogos Midiáticos - Volume 1



Em função do sequestro das garotas de Santo André e de seu trágico desfecho com a morte da jovem Eloá Pimentel, vários psicólogos foram chamados pela mídia a dar declarações, principalmente sobre o ex-namorado-sequestrador Lindemberg Alves. A seguir algumas delas:



Descrito por amigos como pacato e tranqüilo, o seqüestrador Lindemberg Fernandes Alves esconde um perfil bem diferente. Para a psicóloga Cristina Doca, as escolhas dele, como o relacionamento com uma menina bem mais nova que ele - quando ele e Eloa começaram a namorar, Alves tinha 19 anos e ela, 12 - escondem um perfil possessivo e, ao mesmo tempo, dependente e frágil.

- Ao namorar uma garota bem mais nova, a relação de poder certamente é bem mais fácil. Não é uma relação de troca, como num relacionamento comum. Como ele não sabe ouvir "não", tem um perfil ciumento e acabou tendo uma atitude desproporcional quando tudo acabou - diz Cristina.

Segundo a psicóloga, foi o ciúme de Alves que o levou a tentar controlar a situação, fazendo com que Eloa mudasse de idéia sobre o fim do relacionamento.

- Ele tentava fazê-la entender que ainda gostava dela, mas acabou ficando acuado e perdendo o controle, numa reação típica de desespero - resume.

Colegas que preferem não se identificar contam que ouviram reclamações de Eloa sobre o relacionamento de três anos que manteve com Alves. Ela se queixava com as amigas do ciúme excessivo do namorado, que praticamente queria mantê-la longe da rua ou de qualquer contato social no bairro. Descrita como uma menina doce no trato, Eloa chama a atenção pela beleza. Morena, de cabelos negros, ela poderia até provocar ciúme nas outras meninas, mas, ao contrário, despertava a simpatia de todos os alunos da Escola Estadual Professor José Carlos Antunes.

- Sempre que alguém precisa de alguma coisa, ela é a primeira a ajudar - comentou Paulo Henrique Monteiro da Silva, de 15 anos, amigo de escola de Eloa.


O desfecho trágico do seqüestro da menor Eloá Cristina Pimentel, 15, pelo ex-namorado Lindemberg Alves, de 22 anos, levantou a questão do transtorno de personalidade, já que o seqüestrador não tinha nenhum antecedente criminal.

Em entrevista ao SETV 1º edição o psicólogo e especialista em comportamento humano, Alexandre Hardman falou sobre o perfil de quem pratica esse tipo de crime e alertou sobre a importância dos pais orientarem seus filhos desde cedo para que os mesmos saibam que em algumas situações receberam o não como resposta e terão que saber lidar com isso.

Sobre o comportamento do seqüestrador o médico explicou: “a pessoa que comete um crime desse tipo tem características regulares, geralmente são: homens, mais velhos, não tem antecedentes criminais e posteriormente não existe a reincidência do ato”, explicou.

“O fatores que motivam o ser humano são muitos. E muito desses sentimentos começam ainda na infância. Muitos acham que a paixão está ligada a uma sensação de posse. A rejeição pode ser canalizada como ódio. E a pessoa rejeitada se sente vítima da outra”, alerta.

Infelizmente comportamentos com o do jovem Linderberg são mais comuns do que se imagina. “Isso acontece a toda hora em todas as cidades. Alguns sinais podem ajudar a perceber pessoas com transtornos de personalidade: num censo comum é difícil identificar, mas geralmente são pessoas que não aceitam o não como resposta, não gostam de ser contrariadas “, resume.

O psicólogo destaca ainda a importância da família, que desde cedo pode orientar a criança para que ela seja um adulto bem resolvido. “Algumas pessoas dizem que dizer não na infância traumatiza. Mas o não é necessário, pois é importante estabelecer limites. E deixar claro para a criança que a vida é uma relação de troca. As pessoas que são criadas com o sentido de dar. E nada tem que dar em troca, podem ter esse limiar baixo. E numa situação extrema pode perder o controle. Todo excesso é ruim. Se você diz não o tempo todo é ruim , mas se diz sim o tempo todo, também pode ser prejudicial. Nos dias de hoje, por conta do pouco tempo dispensado aos filhos, muitos pais permitem muito e exigem pouco, não estabelecendo uma relação de troca”, alerta.

Sobre o desfecho do trabalho da polícia com seqüestrador o médico conclui: “negociar com um criminoso passional é muito difícil, Pois não existe moeda de troca, já que o que ele mais deseja ele já “possuía”. A policia poderia ter usado de outras técnicas mais rápidas nessa situação e impondo com mais rigorosidade a sua vontade”.

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Ahh, os psicólogos e suas análises vagas e diagnósticos a distância... Por que insistem em cometer velhos erros?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pesquisas brilhantes, psicólogos fascinantes!



Você sabia que o psicólogo Geoffrey Miller, da Universidade do Novo México, levou o prêmio IgNobel 2008 na categoria Economia por um estudo publicado em novembro passado na revista "Evolution and Human Behavior"? Nele, usando dados de 18 voluntárias, ele mostrou que dançarinas de striptease ganham mais dinheiro no pico de seu período fértil.

Saiba maiores informações sobre esta fundamental descoberta (talvez a mais importante já feita pelo homem) na reportagem do site G1:

Strippers no período fértil ganham até 50% mais nas gorjetas

Uma questão que intriga os cientistas há séculos - fêmeas da espécie humana passam ou não por um período de cio? - acaba de receber uma contribuição inesperada: a das strippers. Pesquisadores americanos descobriram que elas ganham quase 50% mais gorjetas quando estão no auge de seu período fértil, o que indicaria que a platéia é capaz de detectar esse período de alguma forma.

Geoffrey Miller e seus colegas da Universidade do Novo México relatam, em estudo publicado na revista científica "Ev­o­lu­tion and Hu­man Be­hav­ior", os dados obtidos de 18 dançarinas de strip-tease. Por meio de um site, elas passaram para os pesquisadores informações sobre seu ciclo menstrual, seus horários de trabalho e seus ganhos durante um período de 60 dias.

O ciclo de fertilidade feminina corresponde ao ciclo menstrual, ao longo do qual os óvulos são liberados e colocados em posição para serem fertilizados. O que os pesquisadores viram é que havia uma correlação entre as gorjetas mais altas e o ponto desse ciclo onde a chance de fecundação do óvulo é máxima.

Nesses períodos ideais para conceber, as dançarinas ganhavam cerca de US$ 335 por cinco horas de trabalho, enquanto o ganho médio era de US$ 260. O pior desempenho financeiro ocorria durante a menstruação: só US$ 185. Trata-se de uma variação média de 45% nos rendimentos."

Esses resultados constituem a primeira evidência econômica direta da existência e da importância do estro [cio] em fêmeas humanas contemporâneas, num contexto real", escrevem os pesquisadores. O mais curioso é que as strippers que tomavam anticoncepcionais (suprimindo, dessa forma, seu pico de ovulação) também não tinham alta em seus ganhos.

Piroterapia - Notícia bizarra!



Navegando pela internet, encontrei esta notícia inacreditável, publicada em 2006 pela Folha Online:

Psicólogo é acusado de queimar uma paciente durante a terapia

Um psicólogo foi preso em flagrante acusado de atear fogo a uma paciente em Anápolis (GO). Edimar Francisca de Oliveira, 42, teve queimaduras de 1º e 2º graus nas costas e cabeça. Ela se tratava contra depressão e síndrome do pânico há seis meses no Instituto de Psiquiatria Professor Wassily Chuc.

Segundo o depoimento de Oliveira e de duas testemunhas à polícia, o psicólogo Edson Rodrigues de Souza, 28, colocou fogo na cama da paciente, para estimulá-la durante a terapia.

O advogado de Souza, Euripes Rosa, disse que a vítima "pulou no fogo". "Meu cliente tentou socorrê-la e até se queimou." Como tem curso superior, Souza está preso num batalhão da PM por lesão corporal e incêndio.

"Esse tipo de procedimento [atear fogo] não é comum, não é terapêutico. Ele foi infeliz", disse Maurício Candiotto, diretor do hospital.
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Esta última frase é espetacular, clássica... Leiam-na novamente e reflitam:

"Esse tipo de procedimento [atear fogo] não é comum, não é terapêutico. Ele foi infeliz" (Maurício Candiotto)

Maurício, aceita um conselho?



Curta da Semana - Integralidade

Este, video, elaborado pela Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP), discute a questão da integralidade na assistência à saúde de uma forma cômica e crítica. Excelente! Muito indicado para discussões em grupo, com estudantes ou profissionais...


Pierre Weil (1924-2008)



Saiu anteontem no site do CFP:

Morre em Brasília o fundador da Unipaz Pierre Weil

É com pesar que o Conselho Federal de Psicologia comunica o falecimento do psicólogo francês Pierre Weil. Doutor pela Universidade de Paris, professor e autor de mais de 40 obras, morreu em Brasília, no dia 09/10, aos 84 anos. Pierre fundou a Universidade Internacional da Paz em 1987, onde são desenvolvidos projetos sociais com crianças e adolecentes de 2 a 17 anos em situação de risco. Sua bandeira de luta sempre foi a disseminação da paz entre os povos de todo o mundo por intermédio da educação. O corpo de Pierre Weil foi velado por parentes e amigos em Brasília, na própria Unipaz.

Pierre Weil escreveu, dentre muitos outros, o clássico:

Uma grande perda para a Psicologia brasileira e internacional...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pense Magro - A dieta definitiva de Beck

Saiu anteontem na revista Veja:


A Dieta do Pensamento

Não tem nada de mágica, não. Para você perder osquilos a mais e ficar elegante para sempre, a terapiacognitivo-comportamental oferece um caminho: deixarde "pensar gordo" e passar a "pensar magro"

Você está pensando em internar-se num spa de emagrecimento? Então tenha duas certezas: sim, você eliminará alguns quilos de sua silhueta. E, sim, você engordará tudo (ou quase) de novo depois de voltar à rotina diária. Spas são ilhas da fantasia: zero de stress, refeições em porções controladíssimas, prescritas por nutricionistas, e uma intensa programação de atividade física. Entre a lembrança de um bombom e a saudade do pudim da mamãe, há a opção da massagem relaxante, do ofurô ou da conversa catártica com o gordinho ao lado, que, assim como você, sua frio ao pensar numa torta de morango. No mundo real, tudo conspira a favor do excesso de comida e do sedentarismo. É o fast-food na hora do almoço, o biscoitinho na mesa do colega de trabalho, a geladeira pronta para ser assaltada, o sofá aconchegante com a televisãozona na frente. Como resistir?

Você já tentou... pensar? Não, não se ofenda. É claro que você pensa, e às vezes até em aspectos filosóficos da vida. Mas será que você pensa certo no que se refere às suas formas? Ou melhor, será que você não está "pensando gordo" em vez de "pensar magro"? Pensar magro (vamos abolir as aspas como um excesso adiposo) significa, basicamente, reprogramar seu cérebro para que ele passe a dominar a fome ou a simples gulodice até o ponto em que você possa ignorar um prato de coxinhas da mesma maneira que despreza aquele ex-amigo fofoqueiro. Reprogramar o cérebro não implica tomar choques elétricos ou aderir ao zen-budismo. Requer enfrentar frituras, salgadinhos, doces e refrigerantes sem subterfúgios – e, espera-se, com alguma altivez. Nada de tentar cancelar-lhes a existência, porque, afinal de contas, o mundo não é um spa. A resistência mental definitiva é o que prega a terapia cognitivo-comportamental (TCC), hoje considerada o tratamento de primeira linha contra o excesso de peso. "Quanto mais resistirmos aos desejos de comida, menos freqüentes eles se tornarão", disse a VEJA a psicóloga americana Judith Beck, autora do livro Pense Magro – A Dieta Definitiva de Beck, recém-lançado no Brasil pela editora Artmed.

O objetivo da TCC é, por meio da combinação de confronto e resistência, "desligar" os comandos cerebrais que acionam os pensamentos distorcidos – no caso, aqueles que levam as pessoas a empanturrar-se. De fato, na maioria das vezes, as pessoas que pensam gordo o fazem por causa de uma associação meramente subjetiva entre comida e determinados sentimentos. Há as que comem porque estão felizes e as que comem porque estão infelizes (ou ambos). Existem as que se empanzinam porque estão numa festa e vêem os outros comendo e as que se empacham porque estão completamente sozinhas (ou ambos)... Desconectar apetite e situação, eis a chave da terapia cognitivo-comportamental. O programa proposto por Judith Beck estabelece seis semanas – mais precisamente 42 dias – de exercícios práticos para desprogramar o cérebro da vontade injustificável de comer. Você confunde fome com gula? Um dos exercícios ajuda o pensador gordo a diferenciar uma da outra. Você mal acaba o almoço e já imagina como será o jantar? Judith ensina a fazer como os magros – que só pensam em comida no horário da refeição.

Judith é filha do psiquiatra Aaron Beck, fundador, nos anos 60, da terapia cognitivo-comportamental. Na visão dos adeptos desse método, grande parte dos distúrbios psíquicos, como a depressão, a ansiedade e as fobias, deve-se a interpretações errôneas do mundo concreto. Assim, o substrato da TCC é a exposição da pessoa à realidade que a afeta, de modo a levá-la a reagir proporcionalmente a ela. Em geral, o prazo é de vinte sessões. No tratamento de fobias, por exemplo, confronta-se o paciente com o objeto de seu medo exagerado. Se a fobia é de cachorro, o fóbico "desaprende" a temer o animal entrando em contato direto com ele. Judith sugere que o compulsivo por comida a enfrente como quem se expõe ao pavor por cachorro. As bases da terapia cognitivo-comportamental, cujas taxas de sucesso são bastante altas (veja quadro nas páginas 156 e 157), remontam às teorias do médico russo Ivan Pavlov (1849-1936) e às do psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), precursores do behaviorismo. Pavlov formulou a tese do reflexo condicionado, segundo a qual a repetição constante de um estímulo "ensina" o sistema nervoso a responder invariavelmente da mesma forma. Sua teoria foi elaborada a partir de estudos com cães que eram alimentados depois que ele tocava um sino. Com o tempo, Pavlov constatou que bastava tocar o sino para que os animais salivassem. Skinner, por sua vez, chegou ao conceito de condicionamento operante, por meio de experiências com ratos de laboratório. Quando os roedores apertavam um botão, uma portinhola com comida se abria. Os ratos, por fim, aprenderam que, para comer, era preciso pressionar o botão. A diferença entre o reflexo condicionado de Pavlov e o condicionamento operante de Skinner é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo (o sino toca, o cachorro saliva), ao passo que o segundo é o hábito produzido por uma ação estranha à natureza do animal (o rato que aperta botão para comer). Na terapia cognitivo-comportamental, para simplificar, o sino e a portinhola seriam os estímulos (ou desestímulos) que contrariam a tendência doentia – sejam eles o confronto calculado do fóbico com o objeto do medo ou o auto-elogio de quem resiste a uma refeição gordurosa.

Por ser um programa de treinamento psicológico, o livro Pense Magro é um manual sobre dieta sem nenhuma receita alimentar. Sua autora não recomenda nem condena nenhum alimento. Ela preconiza que, com uma programação mental adequada, qualquer dieta razoável dá certo – permanentemente. A psicóloga começou a utilizar o método para o controle de peso há vinte anos, em pacientes psiquiátricos que engordavam por causa dos efeitos colaterais de medicamentos. Embora a ansiedade integre a personalidade de quase todos os gulosos, a terapia cognitivo-comportamental, ao contrário da psicanálise, não sai em busca dos motivos que levam uma pessoa a afogar as mágoas numa travessa de espaguete. Simplesmente ensina como anular os pensamentos engordativos. "Eu era do tipo que sempre fazia uma pausa para beliscar. Tudo era motivo para parar o que eu estava fazendo e ir atrás de um lanchinho", conta a carioca Ialda Costa de Farias. Há cerca de quatro anos, ela mudou a sua relação com a comida. Por meio da TCC, conseguiu regular suas escolhas, antes marcadas pela compulsão. Agora, sua palavra de ordem é planejamento. Ela sabe exatamente o que e quanto vai comer ao longo do dia e, obedecendo aos ditames da terapia, anota minuciosamente todas as suas refeições, inclusive as escapadelas. Perdeu 31 quilos desde então e não os incorporou mais. "Só de saber que terá de anotar os erros e os excessos alimentares cometidos, a pessoa já pensa duas vezes antes de comer exageradamente", diz o endocrinologista Walmir Coutinho, vice-presidente da Associação Internacional para o Estudo da Obesidade.

Judith mantém há dez anos o mesmo peso – 52,5 quilos distribuídos em 1,61 metro – graças, ela jura, à terapia cognitivo-comportamental. Ex-cheinha (pesava 8 quilos a mais), agora pensa magro. E reafirma que ninguém se mantém enxuto sem algum sacrifício dietético. Ainda não há estudos sobre as alterações na química cerebral de quem usa a TCC para emagrecer, como ocorre em relação aos pacientes de depressão que recorrem à terapia. Mas as pesquisas clínicas são animadoras. A mais célebre foi conduzida por pesquisadores suecos, com dois grupos – em dez semanas, aquele que se submeteu à terapia perdeu 8 quilos, em média. Passados dezoito meses, 92% dos seus participantes haviam emagrecido ainda mais. Já o grupo de controle, que só fez dieta, voltou a engordar depois de um ano e meio.

Driblar a compulsão por comida é tarefa das mais difíceis. Para se ter uma idéia do seu grau de complexidade, a linha mais recente de pesquisas sobre os mecanismos da obesidade a compara ao vício, por envolver o sistema cerebral de recompensa. "Em obesos, o metabolismo cerebral é muito semelhante ao dos viciados em drogas", diz Ivan de Araújo, neurofisiologista e pesquisador da Escola de Medicina da Universidade Yale, nos Estados Unidos. No cérebro dos gordos, por uma deficiência na atividade do neurotransmissor dopamina, o grau de recompensa gerado pela ingestão de alimentos é menor que no dos magros. Para se sentirem satisfeitos, portanto, eles precisam comer mais. É provável que novos estudos mostrem que o recondicionamento para pensar magro transforma a química cerebral. Não há nada de mágico nisso – errou quem fez associações entre o livro de Judith e O Segredo, da australiana Rhonda Byrne, a auto-ajuda que requenta a lengalenga de que o "pensamento positivo" opera milagres. Pensar magro demanda empenho e disciplina. Envolve cultivar melhor as emoções e adquirir novos comportamentos. A perda de peso não é da noite para o dia. Em situações mais difíceis, para prevenir as recaídas, seguir o manual não é suficiente. Torna-se necessário recorrer a um especialista. "Na luta contra o excesso de peso, não existe bala de prata", diz Mônica Duchesne, terapeuta cognitivo-comportamental e coordenadora do grupo de obesidade e transtornos alimentares da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Existe trabalho. Vá à luta.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Intolerância




Intolerância à diversidade sexual

Por Gustavo Venturi*(1)

Acaba de sair do forno a mais recente pesquisa social do Núcleo de Opinião Pública (NOP), intitulada Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, Intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado – uma realização da Fundação Perseu Abramo, em parceria com a alemã Rosa Luxemburg Stiftung.

Com dados coletados em junho,de 2008(2), a pesquisa percorreu processo de elaboração semelhante ao de estudos anteriores do NOP(3), tendo sido convidados pela FPA para definir quais seriam as prioridades a investigar entidades e pesquisadores dedicados ao combate e ao estudo da estigmatização e da discriminação dos indivíduos e grupos com identidades sexuais que fogem à heteronormatividade – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT).

Com o intuito de subsidiar ações para que as políticas públicas avancem em direção à eliminação da discriminação e do preconceito contra as populações LGBT, de forma a diminuir as violações de seus direitos e a facilitar a assunção e afirmação de suas identidades sexuais, buscou-se mensurar tanto indicadores objetivos de práticas discriminatórias em razão da orientação sexual das pessoas, quanto as percepções sobre o fenôme- no (indicadores subjetivos, portanto) e manifestações diretas e indiretas de atitudes preconceituosas. A pesquisa cobriu assim um amplo espectro de temas, de modo que o relato que segue constitui tão-somente uma leitura preliminar – entre muitas que certamente os dados obtidos permitirão – e sobre parte dos resultados que, à primeira vista, parecem mais relevantes.

O preconceito dos outros
Indagados sobre e existência ou não de preconceito contra as pessoas LGBT no Brasil, quase a totalidade da população responde afirmativamente: acreditam que existe preconceito contra travestis 93% (para 73% muito, para 16% um pouco), contra transexuais 91% (respectivamente 71% e 17%), contra gays 92% (70% e 18%), contra lésbicas 92% (para 69% muito, para 20% um pouco) e, tão freqüente, mas um pouco menos intenso, 90% acham que no Brasil há preconceito contra bissexuais (para 64% muito, para 22% um pouco). Mas perguntados se são preconceituosos, apenas 29% admitem ter preconceito contra travestis (e só 12% muito), 28% contra transexuais (11% muito), 27% contra lésbicas e bissexuais (10% muito, para ambos) e 26% contra gays (9% muito). (Gráficos 1a e 1b)

O fenômeno de atribuir os preconceitos aos outros sem reconhecer o próprio é comum e esperado, posto que por definição a atitude preconceituosa é politicamente incorreta.


Gráfico 1a


Gráfico 1b

No entanto, chama a atenção, neste caso, as taxas relativamente elevadas de pessoas que admitem ter preconceitos contra os grupos LGBT: na pesquisa Idosos no Brasil, em 2006, 85% dos não-idosos (16 a 59 anos) afirmaram que há preconceito contra idosos na sociedade brasileira, mas apenas 4% admitiram ser preconceituosos em relação aos mais velhos; e na pesquisa Discriminação Racial e Preconceito de Cor no Brasil, em 2003, 90% reconheciam que há racismo no Brasil, 87% afirmaram que os brancos têm preconceito contra os negros mas apenas 4% dos de cor não preta assumiram ser preconceituosos em relação aos negros.

Certamente, é preciso aprofundar a investigação sobre o fato de o preconceito contra a população LGBT ser mais admitido. Mas duas hipóteses, não necessariamente excludentes, parecem concorrer para explicar esse contraste: tomando o dado em sua “literalidade” (como em geral convém, até prova em contrário), a maior admissão de preconceito contra LGBT seria expressão de um preconceito efetivamente mais arraigado, mais assimilado e menos criticado socialmente. A alta disseminação de piadas sobre “bichas” “veados” ou “sapatonas” por exemplo, e sua aceitação social, como atesta a presença cotidiana de personagens caricaturais em novelas e programas na TV, considerados humorísticos, também seriam evidências disso.

A segunda hipótese é que a maior admissão de preconceito contra LGBT tem a ver com a “natureza” da identidade sexual, para muitos vista como uma opção ou preferência – em contraste com as identidades “raciais” ou etárias que, de modo mais evidente, independem das escolhas individuais, sendo assim não passíveis de crítica (ao menos deste ponto de vista) e, conseqüentemente, mais incorreto discriminá-las. De fato, 31% discordam (25% totalmente) que “ser homossexual não é uma escolha, mas uma tendência ou destino que já nas nas ce com a pessoa” e 18% concordam apenas em parte (só 37% concordam totalmente) com isso. Ora, se acho que é gay (ou lésbica) quem quer, posso considerar sua opção um erro e punir (discriminar) quem a faz.

É sintomático a esse respeito que, diante de duas alternativas, se “os governos deveriam ter a obrigação de combater a discriminação contra homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais” ou se “isso é um problema que as pessoas têm de resolver entre elas” 70% concordem com a segunda alternativa, contra apenas 24% que entendem que o combate contra a discriminação da população LGBT deve ser objeto de políticas de governo. Em contraste, em 2003, 36% avaliaram que “os governos deveriam ter a obrigação de combater o racismo e a discriminação racial” contra “apenas” 49% que consideraram que “isso é um problema que as pessoas têm de resolver entre elas, sem a interferência do governo”.

O preconceito dissimulado
Como na pesquisa sobre a questão racial, nesta também partimos do pressuposto que a maioria não admitiria os próprios preconceitos. Assim, antes de qualquer referência explícita à temática da discriminação e do preconceito, o questionário tratou de captar manifestações indiretas de intolerância com a diversidade sexual. (Gráfico 2)


Gráfico 2
Inicialmente, solicitou-se a cada entrevistado que dissesse o que sentia normalmente ao ver ou encontrar desconhecidos de diferentes “grupos de pessoas”: “(1) repulsa ou ódio, não gosta nem um pouco de encontrar; (2) antipatia, não gosta muito, prefere não encontrar; (3) indiferença, não gosta nem desgosta, tanto faz encontrá-los ou não; ou (4) satisfação, alegria, gosta de encontrá-los” Considerando-se a soma de (1) e (2) como indicador de aversão ou intolerância, dentre 28 grupos sociais sugeridos – grupos raciais, econômicos, em conflito com a lei, étnicos, religiosos etc. – as identidades sexuais que discrepam da normalidade heterossexual só perderam em taxa de intolerância para dois líderes incontestes: ateus (42% de aversão, sendo 17% de repulsa ou ódio e 25% de antipatia) e usuários de drogas (respectivamente 41%, 17% e 24%).

Dizem não gostar de encontrar transexuais 24% (10% de repulsa/ ódio, 14% de antipatia), travestis 22% (respectivamente 9% e 13%), lésbicas 20% (8% e 12%), gays e bissexuais 19% cada (ambos 8% e 11%) – praticamente igualados em taxas de aversão, por exemplo, a garotos de programa (25%), prostitutas (22%), ex-presidiários (21%) e ciganos (19%); acima, por exemplo, de mendigos (11%), judeus (11%) e muçulmanos (10%) e “gente com aids” (9%), e ainda muito acima de índios (3%), negros ou orientais (2% cada) e brancos (menos de 1%).

A seguir definiu-se homossexuais como “pessoas que se interessam afetiva e sexualmente por pessoas do mesmo sexo” e foram faladas frases – “coisas que costumam ser ditas sobre os gays e as lésbicas, que algumas pessoas acreditam e outras não” –solicitando-se a cada entrevistado que manifestasse seu grau de concordância ou de discordância com as mesmas. (Gráfico 3)


Gráfico 3

A frase epígrafe “Deus fez o homem e a mulher com sexos diferentes para que cumpram seu papel e tenham filhos” tem a concordância, em algum grau, de 92% (sendo 84% totalmente), contra apenas 5% que discordam; e concordam que a “homossexualidade é um pecado contra as leis de Deus” 66% (58% totalmente), contra 22% que discordam (17% totalmente) –dados que revelam o tamanho da colaboração religiosa para a intolerância com a diversidade sexual. E a contribuição do discurso médico não fica muito distante: 40% concordam (29% totalmente) que “a homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada” embora 48% discordem (41% totalmente).

São claras as expressões de preconceito também as concordâncias majoritárias com a idéia de que “as pessoas bissexuais não sabem o que querem, são mal resolvidas” (57% concordam, sendo 44% totalmente, contra 27% de discordância), e com a afirmação de que “quase sempre os homossexuais são promíscuos, isto é, têm muitos parceiros sexuais” (45% concordam, contra 36% que discordam). Há ainda o apoio a potenciais medidas discriminatórias, manifestadas nas frases: “casais de gays ou de lésbicas não deveriam andar abraçados ou ficar se beijando em lugares públicos” (64% de concordância, sendo 52% totalmente, contra 27% de discordância), e “casais de gays ou de lésbicas não deveriam criar filhos” (47% concordam, 38% totalmente; 44% discordam, 35% totalmente). Por fim, 37% concordam que “a homossexualidade é safadeza e falta de caráter” e 34% que “os gays são os principais culpados pelo fato de a aids estar se espalhando pelo mundo”.

Em suma, a primeira leitura desta pesquisa dá números ao que já se suspeitava: por trás da imagem de liberalidade que o senso comum atribui ao povo brasileiro, particularmente em questões comportamentais e de sexualidade há graus de intolerância com a diversidade sexual bastante elevados – coerentes, na verdade, com a provável liderança internacional do Brasil em crimes homofóbicos. O que indica que há muito por fazer, em termos de políticas públicas, para tornar realidade o nome do programa da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, criado em 2004, Brasil sem Homofobia – ele mesmo, segundo a pesquisa, conhecido por apenas 10% da população (2% dizem conhecê-lo e 8% já ouviram falar).

Outros temas foram abordados no levantamento, inclusive de políticas contra a discriminação LGBT para as áreas de educação, saúde, emprego, justiça, cultura e direitos humanos, mas não há espaço aqui para tratá-las. Se lembrarmos ainda que os resultados gerais aqui expostos (médias nacionais) podem acobertar contrastes importantes num país como o nosso, atravessado por desigualdades de classe social, de gênero, raciais e regionais, fica o convite aos interessados para aprofundarem a análise desta introdução, buscando mais dados da pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil, em breve disponíveis no portal da FPA e em futura publicação da Editora da FPA.

*Gustavo Venturi, doutor em Ciência Política e mestre em Sociologia pela USP, é coordenador do NOP e diretor da Criterium Assessoria em Pesquisas


Notas:
(1) Colaboraram Rita Dias e Vilma Bokany, analistas do Núcleo de Opinião Pública (NOP) da Fundação Perseu Abramo.

(2) Levantamento quantitativo (survey) com amostragem probabilística nos primeiros estágios (sorteio de municípios, setores censitários e domicílios) e controle de cotas de sexo e idade (IBGE) para a seleção dos indivíduos (estágio final). Total de 2.014 entrevistas com população acima dos 15 anos de idade (todas as classes sociais), disper sa nas áreas urbanas de 150 municípios (pequenos, médios e grandes), em 25 UFs, nas cinco macrorregiões do país (Sudeste, Nordeste, Sul, Norte e Centro-Oeste). Abordagem domiciliar, com aplicação de questionários estruturados (versões A e B, aplicados a duas sub amostras espelhadas), somando 92 perguntas distintas (cerca de 250 variáveis), com duração média das entrevistas em torno de uma hora. Margens de erro de até ± 3 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. Coleta dos dados entre 7 e 22 de junho de 2008.

(3) Idosos no Brasil, Desafios e Expectativas na Terceira Idade (2006, em parceria com os Sesc-SP e Nacional), Perfil da Juventude Brasileira (2003, em parceira com o Instituto Cidadania), Discriminação Racial e Preconceito de Cor no Brasil (2003, em parceira com a Rosa Luxemburg Stiftung) e A Mulher Brasileira nos Espaços Público e Privado (2001). Para resultados, ver www.fpabramo.org.br e respectivas publicações da Editora Fundação Perseu Abramo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Psicologia da tortura



Assustadora a notícia publicada hoje no JB Online:

A Psicologia da tortura nas prisões

Desde a Primeira Guerra Mundial a Associação Americana de Psicólogos (APA, na sigla em inglês) mantém um relacionamento muito próximo com as Forças Armadas americanas.
Entre suas diversas funções, psicólogos americanos foram pioneiros em desenvolver e padronizar técnicas agressivas de interrogatórios, como o isolamento prolongado, a privação de sono e o afogamento simulado – técnicas inicialmente desenvolvidas para fortalecer mentalmente os militares americanos em treinamento, mas que passaram a ser largamente utilizadas no presídio ultramarino de segurança máxima em Guantánamo, o que vem gerando críticas e condenações da ONU e de algumas das agências humanitárias mais influentes do mundo, que consideram estas técnicas como tortura.
– A tortura está acontecendo em Guantánamo e psicólogos estão participando disso – denunciou Bryant Welch, membro da APA e autor do livro State of confusion: political manipulation and the assault on the american mind.
Em seu relatório deste ano, descrevendo o atual estado dos direitos humanos em âmbito global, a ONG Anistia Internacional chegou a exigir o fechamento da base naval de Guantánamo:
“Os EUA deveriam fechar Guantánamo e outras prisões secretas, conceder aos detentos direito a julgamentos justos ou senão libertá-los, rejeitando sempre e de forma inequívoca o uso da tortura e dos maus-tratos”, diz o relatório.
Em função de denúncias recorrentes de torturas em Guantánamo, alguns psicólogos da APA querem acabar com a velha política de cooperação com as Forças Armadas, que entendem encorajar uma cumplicidade promíscua com militares em interrogatórios suspeitos.
Durante a última conferência anual da APA, realizada em Boston no dia 16 de agosto, seus membros apresentaram ao conselho o primeiro referendo da história da organização, pedindo a proibição de contratos de cooperação entre psicólogos e as Forças Armadas em prisões militares que violem direitos humanos assegurados em leis internacionais. O resultado do referendo só será divulgado no fim de setembro.
– Os regulamentos gerados pelo governo Bush foram projetados para coagir e torturar prisioneiros – ressaltou Welch. – Psicólogos não devem participar de tal processo.
Opositores da medida, contudo, acreditam que ela ameaça limitar de forma significativa o âmbito das atividades dos psicólogos, cujo trabalho em hospitais psiquiátricos, prisões estaduais, e diversos outros cenários opressivos tem função importante na sociedade.
Robert Resnick, psicólogo e porta-voz dos que se opõem ao referendo, acredita que a linguagem do documento é ambígua por citar como parâmetros as “leis do direito internacional”, mas sem definir a quais tratados ou corpos legislativos do volátil sistema internacional se refere. Segundo Resnick, isso deixará psicólogos inocentes suscetíveis a processos frívolos e custosos.
– A APA nunca disse que a tortura é apropriada - acrescentou Resnick durante o recente programa Talk of the Nation da rádio pública americana, NPR.
–Temos dispositivos em nosso Código de Ética proibindo psicólogos de participarem no planejamento de quase duas dúzias de técnicas. Se adicionarmos o referendo, estaremos condenando locais específicos, como Guantánamo, em vez de comportamentos.
Resnick e seus simpatizantes justificam a presença de psicólogos em interrogatórios ligados à segurança nacional como uma forma de garantir que as técnicas utilizadas pelos militares não ultrapassem a fronteira do ético. Insistem que restringir a participação de psicólogos tornará os interrogatórios mais perigosos para os presos.
Há duas semanas, a recusa de uma psicóloga militar de depor no caso de Mohammad Jawad – afegão de 23 anos que alega ter sido torturado em 2003 por seus interrogadores em Guantánamo, alegadamente com o incentivo da terapeuta – serviu para incendiar ainda mais esse debate polêmico que está polarizando a APA.
Para se esquivar da audiência, a psicóloga recorreu a uma lei militar equivalente à Quinta Emenda da Constituição Americana: o privilégio de permanecer calada para evitar a auto-incriminação.
Se aprovado, o que necessita a obtenção de mais de 50% dos votos, o referendo irá proibir que psicólogos estejam na folha de pagamento do Exército. A proibição não valeria para os profissionais contratados por agências humanitárias ou até mesmo pelos próprios detentos.
– Tanto Guantánamo quanto os chamados “sítios negros” da CIA são propositalmente lugares extremamente inacessíveis, para assim evitar o alcance de algumas de nossas leis e dificultar que informações vazem – afirmou Bob Olson, psiquiatra da Universidade de Northwestern, e um dos líderes do referendo. – É impossível saber o que acontece por lá.
Não é de hoje que psicólogos se envolvem em atividades escusas. Outro dia, no livro Ministério do Silêncio do jornalista Lucas Figueiredo, li que muitos psicólogos contribuíram, durante a ditadura militar brasileira, no treinamento de agentes do Sistema Brasileiro de Inteligência (SNI, hoje Abin) que espionavam e deduravam para o DOI-CODI (órgão repressor do exército) indivíduos supostamente subversivos. Muitos destes corajosos rebeldes foram torturados e vários mortos. E nós demos a nossa contribuição para isso...



quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Homenagem infeliz

Ontem, recebi por e-mail a seguinte "homenagem" da editora Artmed:



Quando não temos o que dizer, a melhor coisa a fazer é não dizer nada, não é mesmo? A Artmed (que publica excelentes livros de psicologia) podia ter dito simplesmente "Parabéns" ao invés de seguir o senso comum e confundir o psicólogo com um Ouvido Gigante. Ou podia esculachar de vez e colocar o mesmo texto com a foto abaixo ao fundo.



Ou então com a foto a seguir, mais simbólica:



quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Dia do Psicólogo - Mensagem do CFP



Mensagem do XIV Plenário do CFP aos psicólogos brasileiros

Fazemos hoje 46 anos de profissão regulamentada no Brasil. Temos muitos motivos para comemorarmos essa data, mas preferimos hoje focar nossa atenção nos desafios da sociedade brasileira.

Próximos das eleições municipais, temos um cenário ainda marcado pelos efeitos perversos da legitimação da desigualdade social, presentes em um número elevado de municípios brasileiros, embora tenhamos também em curso no país a implementação de um conjunto de políticas públicas formuladas com a participação, mesmo que incipiente, da sociedade para o enfrentamento das causas estruturais dessa desigualdade.

Esse cenário nos alerta para os discursos e movimentos contrários às mudanças que são produzidas por essas políticas, numa reação que ameaça o avanço da democracia e a consolidação dos direitos de cidadania de todos os brasileiros. Exemplos disso, encontramos na ameaça aos povos indígenas na T.I. Raposa Serra do Sol, no norte do país, onde vivem 20.000 índios. Nesse lugar, um reduzido grupo de 5 arrozeiros, ligado ao agronegócio e apoiado por setores militares, tenta anular a demarcação das terras já homologadas, apelando ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Encontramos também presente em ataques ao Sistema Único de Saúde (SUS), assim como à atual política de atenção aos portadores de sofrimento mental, por parte de profissionais e políticos com interesses pessoais na privatização da saúde e/ou na manutenção de hospitais psiquiátricos, mesmo após sua condenação histórica em todo o mundo.
Vimos, ainda, no projeto de redução da maioridade penal, que visa a condenação e o encarceramento de adolescentes em conflito com a lei, desrespeitando todas as razões que levaram a sociedade à construção do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que fez 18 anos recentemente e que propõe uma atenção digna e respeitosa às nossas crianças e aos adolescentes.

E, ainda, não alcançamos a tão esperada democratização nos meios de comunicação. Por essa razão, o Conselho Federal produziu programas sobre esse tema que estão disponíveis no link abaixo e em nosso site. Essa é mais uma contribuição do CFP ao debate e à Campanha Pró-Conferencia Nacional de Comunicação. Esperamos que esses programas sejam divulgados amplamente.

Por tudo isso, e por muito mais é que queremos, nesse dia, reafirmar a presença da Psicologia Brasileira, na construção de sua ciência e profissão comprometidas com os problemas sociais, tornando-se mais próxima da realidade cotidiana de todos os brasileiros e apresentando-se como co-responsável pela transformação social tão necessária ao nosso país.

domingo, 24 de agosto de 2008

Psicólogos em ONGs



Em um artigo anterior afirmei que, para o psicólogo recém-formado, há basicamente duas possibilidades de obtenção de emprego: no sistema privado ou no público. Por descuido esqueci do atualmente relevante terceiro setor (ONGs) que, cada vez mais, tem recrutado profissionais (inclusive psicólogos) para a composição de seu quadro funcional. De acordo com o excelente encarte especial “O poder das ONGs” da revista Época (disponível aqui) existem atualmente no Brasil 338 mil ONGs que empregam mais de 1,8 milhão de pessoas - o que corresponde a mais de três vezes o número de funcionários públicos federais.
Por outro lado, segundo a reportagem, “a quantidade de dinheiro disponível no Terceiro Setor atrai não apenas gente bem-intencionada. Os esquemas de corrupção e desvio de dinheiro público que surgiram ao redor das ONGs devem ser combatidos e investigados. A legislação que as regula também deve ser aperfeiçoada para evitar as brecas que permitem estes desvios. Mas, surpreendentemente, a maior parte do dinheiro das ONGs não vem do governo. De acordo com pesquisa da John Hopkins, apenas 14% dos recursos das ONGs brasileiras se originam de convênios e subvenções governamentais. A maior fatia - 69% - vem da venda de produtos e serviços. E 17% se originam de doações do setor privado”. Você sabia disso? Eu não. Daí minha surpresa ao constatar a diminuta contribuição governamental às ONGs.
Diminuta, mas não irrelevante, pois, somente em 2006 o governo repassou ao setor cerca de R$161,7 milhões. Tanto dinheiro, levantou, posteriormente, suspeitas de irregularidades, que “hoje são investigadas, simultaneamente, pela Polícia Federal, pela Controladoria-Geral da União (CGU), pelo Tribunal de Contas da União (TCU), pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e pelo Ministério Público”. Além, é claro, da CPI das ONGs, criada em 2007 pelo Senado Federal, e que, atualmente, investiga cerca de 200 ONGs.
Felizmente, porém, a maioria das ONGs parece fazer um trabalho honesto e socialmente relevante. Na reportagem, dois psicólogos são apontados como importantes empreendedores sociais brasileiros. A primeira, Raquel Barros, fundadora da ONG Lua Nova de Sorocaba (SP), chegou inclusive a ser agraciada com um prêmio da fundação Ashoka por seu trabalho de “abrigo e apoio médico, psicológico e educacional a jovens mães solteiras e seus filhos, além de programas de geração de renda para as residentes”. A ONG beneficia diretamente 500 pessoas, além dos 25 funcionários contratados. Como diretora da ONG Raquel ganha um pró-labore de R$4500,00. Mas de uma forma geral o salário médio de um funcionário do terceiro setor é de R$1577,00 ou 3,8 salários mínimos. Razoável, não?
O outro companheiro citado pela matéria é Marcus Góes, psicólogo e coordenador do Instituto Sou da Paz. De acordo com a revista: “Foi na faculdade de Psicologia que Marcus Góes teve contato com o universo que definiria os rumos de sua vida profissional. Envolveu-se tanto com o sistema carcerário na época do estágio que acabou fundando uma ONG, a União de Vila Nova, em São Miguel Paulista, na periferia de São Paulo, com um ex-presidiário. A associação oferecia cursos de artesanato, capoeira e teatro à comunidade local. Em 2002, Marcus deixou a Vila Nova nas mãos do amigo e migrou para o instituto Sou da Paz, como contratado. Lá coordenou um projeto de revitalização de praças, envolvendo as comunidades locais. Após quatro anos foi promovido a coordenador da área para supervisionar os projetos ligados à juventude. Além da ONG, Marcus é psicólogo clínico. Os planos para o futuro? Dar consultoria a ONGs na área de planejamento e avaliação. ‘Quero conhecer e ajudar a fortalecer as instituições sociais que estão aí’, diz ele”. Fico muito feliz de ver um psicólogo retratado em outra função, além da clínica. Esta imagem tradicional vai sendo quebrada aos poucos, à medida que os psicólogos vão deixando de lado o conforto do consultório particular e indo até quem realmente precisa de nós: a população excluída do país.
É bom ficarmos atentos: cada vez mais as ONGs tem buscado profissionalizar sua gestão. Perceberam que somente com boas intenções o trabalho não avançaria. Segundo a revista “pessoas capacitadas passaram a gerenciar as ONGs com ferramentas da iniciativa privada: tabela salarial, modelo de recrutamento, planos de benefícios e avaliação de desempenho”. Em tudo isso temos muito a contribuir. Mas um alerta: não espere ficar rico com seu trabalho na ONG (a menos que você faça parte de um “esquema” de desvio de dinheiro público). De acordo com Mario Aquino, da FGV, “a remuneração nas ONGs é menor, mas é compensada pelos valores”. Pois é...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Fui nomeado!!! Yes..



Saiu hoje (22/08/08) no Diário Oficial da União:

Yes!!! Tenho a partir de hoje 1 mês para tomar posse, ou seja, começar a trabalhar. Semana que vem vou à Viçosa levar os documentos e fazer os exames (médicos e psicológicos) necessários e, na semana seguinte, pretendo organizar minha mudança e já começar na labuta. Inevitavelmente, em função desta nova fase da minha vida, este blog vai se transformar: é claro que vou continuar esculachando os livros e filmes de auto-ajuda e as pseudociências (isto é minha vida!!!), publicando e comentando notícias "psi", mas pretendo acrescentar também relatos de um psicólogo de primeira viagem. Espero que me acompanhem nesta aventura...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Colocando "O Segredo" em prática

Companheiros, quando puderem assistam a esta pérola desconhecida do YouTube. Pura sacanagem com "O Segredo". A-do-rei...



OBS: outro excelente artigo sobre o tema pode ser lido aqui.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Filmes de auto-ajuda - parte 1

Relacionado com o post anterior, recomendo insistentemente a leitura dos seguintes textos, também do blog Dragão na Garagem:

OBS: são textos grandes mas valem muito a pena, especialmente se você viu os filmes (e/ou leu o livro no primeiro caso). Se não for o caso, ainda sim vale a pena ler...


Guia Cético para assistir a "O Segredo"

Parte 1
Parte 2
Parte3

Guia Cético para assistir a "Quem somos nós?"
Parte 1
Parte 2
Parte3
Ambos os filmes fazem parte de um disseminado movimento que o engenheiro Wilson Porto Reis intitulou de "Festival de Besteiras Quânticas que Assolam o País". Eu já havia alertado sobre isto em minha resenha sobre O Segredo, mas agora quem diz é um especialista: a física quântica vem sendo utilizada, repetida e errôneamente, na tentativa - fracassada - de dar um embasamento científico às maiores baboseiras do mundo, dentre elas aquelas proferidas pelos filmes em questão.

domingo, 17 de agosto de 2008

Nada a ver, mas...

Para quem acompanha este blog, peço desculpas pelas poucas atualizações este semana. Não tem nenhuma razão especial para isto, só que estou um bocado ansioso com a espera da nomeação da UFV. Bem, para quem não sabe, em junho eu passei no concurso para psicólogo da Universidade Federal de Viçosa (MG) e até agora não fui chamado. Algumas pessoas que passaram junto comigo para outros cargos até já começaram a trabalhar. Mas, segundo os organizadores do concurso, houve um problema técnico com o lançamentos de 5 cargos no sistema (dentre eles os 2 de psicólogo). Por isso a demora. Eu sempre soube que demoraria mas, na prática, a demora é angustiante. Além do fato de que odeio ficar à toa, esperando, esperando, esperando o trem (como diria Chico Buarque). Desculpem o desabafo: não é, de forma alguma, o objetivo deste blog. Concebi-o como uma revista virtual sobre a psicologia e os psicólogos brasileiros. Até agora, com este, já publiquei 74 posts e, por não saber mexer direito com o Google Analytics, não sei quantas pessoas acessaram o blog. O que sei é que poucas comentaram. De qualquer forma não desisto fácil. Continuarei publicando sobre assuntos que considero importantes. Esta semana pretendo publicar dois artigos: um sobre o (inexistente) piso salarial dos psicólogos e outro sobre a escolha do curso de psicologia. Pretendo também continuar com as séries "Humor de Psicólogo", "Não dá para competir", "Psicólogos célebres, mas não pela Psicologia", etc., além de comentar notícias publicadas na mídia. Também espero publicar, em breve, neste blog meu artigo científico (elaborado sob orientação do professor Altemir Gonçalves Barbosa) "Formação em Psicologia no Brasil: um perfil dos cursos de graduação", que enviei esta semana para a revista Psicologia: Ciência e Profissão. Espero que seja aprovado pois, modéstia a parte, está muito bom. Trata-se de um estudo inédito sobre a quantidade, qualidade e características dos cursos de psicologia no Brasil. Em breve disponibilizarei-o aqui.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Redução da maioridade penal em pauta... novamente!

Este semestre, a questão volta ao plenário do Congresso Nacional. De acordo com o Jornal do Senado da semana passada: "A primeira sessão de votação [deste semestre] deve ocorrer na terça-feira [5 de agosto]. Seis propostas de mudança constitucional reduzem a maioridade penal. Em abril de 2007, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) concordou com substitutivo apresentado pelo senador Demostenes Torres (DEM-GO) à PEC 20/99. O texto estabelece que os menores de 18 anos e maiores de 16 anos só poderão ser penalmente imputáveis ou responsáveis se, à época em que cometeram a ação criminosa, apresentavam "plena capacidade" de entender que o ato era ilícito. Para isso, o juiz pedirá um laudo de especialistas. Se condenados, os jovens cumprirão pena separados dos presos maiores de 18 anos". Sem dúvida os psicólogos farão parte da equipe de especialistas responsáveis por este laudo de "plena capacidade". Mas será que, por isso, devemos apoiar tal proposta? De forma nenhuma. Várias entidades de psicologia (dentre elas o CFP) já se manifestaram contra qualquer proposta que vise a redução da maioridadade penal. E eu concordo totalmente com os 10 motivos apresentados por elas para sua não aprovação. Você já leu este manifesto? Não? Então segue abaixo...


1. A adolescência é uma das fases do desenvolvimento dos indivíduos e, por ser um período de grandes transformações, deve ser pensada pela perspectiva educativa. O desafio da sociedade é educar seus jovens, permitindo um desenvolvimento adequado tanto do ponto de vista emocional e social quanto físico;
2. É urgente garantir o tempo social de infância e juventude, com escola de qualidade, visando condições aos jovens para o exercício e vivência de cidadania, que permitirão a construção dos papéis sociais para a constituição da própria sociedade;
3. A adolescência é momento de passagem da infância para a vida adulta. A inserção do jovem no mundo adulto prevê, em nossa sociedade, ações que assegurem este ingresso, de modo a oferecer – lhe as condições sociais e legais, bem como as capacidades educacionais e emocionais necessárias. É preciso garantir essas condições para todos os adolescentes;
4. A adolescência é momento importante na construção de um projeto de vida adulta. Toda atuação da sociedade voltada para esta fase deve ser guiada pela perspectiva de orientação. Um projeto de vida não se constrói com segregação e, sim, pela orientação escolar e profissional ao longo da vida no sistema de educação e trabalho;
5. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) propõe responsabilização do adolescente que comete ato infracional com aplicação de medidas socioeducativas. O ECA não propõe impunidade. É adequado, do ponto de vista da Psicologia, uma sociedade buscar corrigir a conduta dos seus cidadãos a partir de uma perspectiva educacional, principalmente em se tratando de adolescentes;
6. O critério de fixação da maioridade penal é social, cultural e político, sendo expressão da forma como uma sociedade lida com os conflitos e questões que caracterizam a juventude; implica a eleição de uma lógica que pode ser repressiva ou educativa. Os psicólogos sabem que a repressão não é uma forma adequada de conduta para a constituição de sujeitos sadios. Reduzir a idade penal reduz a igualdade social e não a violência - ameaça, não previne, e punição não corrige;
7. As decisões da sociedade, em todos os âmbitos, não devem jamais desviar a atenção, daqueles que nela vivem, das causas reais de seus problemas. Uma das causas da violência está na imensa desigualdade social e, conseqüentemente, nas péssimas condições de vida a que estão submetidos alguns cidadãos. O debate sobre a redução da maioridade penal é um recorte dos problemas sociais brasileiros que reduz e simplifica a questão;
8. A violência não é solucionada pela culpabilização e pela punição, antes pela ação nas instâncias psíquicas, sociais, políticas e econômicas que a produzem. Agir punindo e sem se preocupar em revelar os mecanismos produtores e mantenedores de violência tem como um de seus efeitos principais aumentar a violência;
9. Reduzir a maioridade penal é tratar o efeito, não a causa. É encarcerar mais cedo a população pobre jovem, apostando que ela não tem outro destino ou possibilidade;
10. Reduzir a maioridade penal isenta o Estado do compromisso com a construção de políticas educativas e de atenção para com a juventude. Nossa posição é de reforço a políticas públicas que tenham uma adolescência sadia como meta.
Para maiores informações clique aqui.