quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Os robôs levarão ao fim do trabalho?

Dando continuidade à discussão sobre os impactos das novas tecnologias no mundo do trabalho (que já tratei em outros dois posts, veja aqui e aqui), disponibilizo abaixo a tradução que fiz do texto "Will robots bring about the end of work?", escrito por Toby Walsh, professor de Inteligência Artificial da Universidade de Nova Gales do Sul/Austrália e autor do livro “Android Dreams: the past, present and future of Artificial Intelligence”, ainda sem tradução para o português. A versão original deste artigo, publicado no último dia 1° de Outubro pelo jornal britânico The Guardian, pode ser conferida aqui

Hal Varian, economista-chefe do Google, tem uma maneira simples de prever o futuro. O futuro é simplesmente o que as pessoas ricas têm hoje. Os ricos têm motoristas (chauffeurs). No futuro, teremos carros autônomos que nos conduzirão pelas ruas. Os ricos possuem banqueiros privados. No futuro, todos teremos robôs-banqueiros.

Uma coisa que imaginamos que os ricos possuem são vidas de pura diversão (lives of leisure). Então, nosso futuro será aquele em que também levaremos vidas divertidas enquanto as máquinas trabalharão por nós? Poderemos gastar o nosso tempo com coisas mais importantes do que a preocupação com alimento e abrigo?

Voltemos agora para outro economista-chefe. Andy Haldane é economista-chefe do Bank of England. Em novembro de 2015, ele previu que 15 milhões de empregos no Reino Unido, cerca de metade de todos os empregos, estariam sob ameaça da automação. Você esperaria que ele soubesse o que estava falando.

Mas ele não é o único que faz previsões catastróficas. Políticos. Banqueiros. Empresários. Todos estão dizendo a mesma coisa.

"Precisamos urgentemente encarar o desafio da automação e da robótica, que podem tornar o trabalho contemporâneo redundante", disse Jeremy Corbyn na Conferência do Partido Trabalhista em setembro de 2017.

"Os dados do Banco Mundial previram que a proporção de postos de trabalho ameaçados pela automação na Índia é de 69%, 77% na China e 85% na Etiópia", de acordo com o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em 2016.

Realmente soa como se estivéssemos enfrentando o fim do trabalho tal como o conhecemos.

Muitos desses medos podem ser rastreados até um estudo de 2013 da Universidade de Oxford, que estabeleceu uma previsão muito citada de que 47% dos empregos nos EUA estariam sob ameaça de automação nas próximas duas décadas. Outros estudos mais recentes e detalhados fizeram previsões igualmente dramáticas.

Por outro lado, há muito o que se criticar no estudo de Oxford. Do ponto de vista técnico, algumas das previsões do relatório estão claramente erradas. O relatório aponta para uma probabilidade de 94% de que o trabalho de mecânico de bicicleta seja automatizado nas próximas duas décadas. E como alguém que tenta construir esse futuro, eu posso garantir a qualquer profissional da área que não há nenhuma chance de que nós automatizaremos sequer pequenas partes deste trabalho num futuro próximo. A verdade sobre esta questão é que ninguém tem nenhuma ideia real do número de empregos em risco.

Mesmo que tenhamos 47% dos postos de trabalho automatizados, isso não se traduzirá em 47% de desemprego. Um dos motivos é que nós podemos encurtar a semana de trabalho. Esse foi o caso na Revolução Industrial. Antes da Revolução Industrial, muitos trabalhavam 60 horas por semana. Após a Revolução Industrial, o trabalho reduziu-se para cerca de 40 horas por semana. O mesmo pode acontecer com o desenvolvimento da Revolução da Inteligência Artificial.

Outra razão pela qual 47% de automação não se traduz em 47% de desemprego é que todas as tecnologias criam novos empregos, assim como os destroem. Esse foi o caso no passado e não temos motivos para supor que não ocorrerá da mesma forma no futuro. Não existe, entretanto, nenhuma lei fundamental da economia que exija o mesmo número de empregos a serem criados e destruídos. No passado, mais trabalhos foram criados do que destruídos, mas isto não necessariamente ocorrerá no futuro.

Na Revolução Industrial, as máquinas assumiram muitas das tarefas físicas que costumávamos fazer. Mas nós, humanos, ainda ficamos com todas as tarefas cognitivas. Na atualidade, com as máquinas começando a assumir também muitas das tarefas cognitivas, surge uma questão preocupante: o que resta a nós humanos?

Alguns dos meus colegas afirmam que surgirão inúmeros novos empregos, como o de "mecânico de robô" (robot repair person). Não estou totalmente convencido de tais afirmações. As milhares de pessoas que costumavam pintar e soldar na maioria das nossas fábricas de automóvel foram substituídas por apenas um par de "mecânicos de robôs".

Não, as novas profissões terão que gerar trabalhos tanto onde os seres humanos se sobressaem quanto onde escolhemos não ter máquinas. Mas aqui temos uma contradição. Entre cinquenta a cem anos no futuro, as máquinas serão super-humanas. Portanto, é difícil imaginar qualquer trabalho no qual os humanos permanecerão melhores do que as máquinas. Isso significa que os únicos trabalhos que restarão serão aqueles que preferimos que sejam feitos por seres humanos.

Neste contexto, a Revolução da IA envolverá redescobrir as coisas que nos tornam humanos. Tecnicamente, as máquinas se tornarão artistas incríveis. Elas poderão criar músicas que rivalizarão com Bach e pinturas que se igualarão à Picasso. Mas ainda preferiremos obras produzidas por artistas humanos.

Essas obras vão falar sobre a experiência humana. Apreciaremos um artista humano que fala sobre o amor porque temos isso em comum. Nenhuma máquina experimentará verdadeiramente o amor como nós.

Assim como na seara artística, haverá uma re-apreciação do artesanato. Na verdade, vemos isto começando já na cultura hipster. Apreciaremos mais e mais as coisas feitas pela mão humana. Produtos de massa feitos por máquinas tornar-se-ão baratos. Mas os itens feitos à mão serão raros e cada vez mais valiosos.

Finalmente, como animais sociais, também apreciaremos e valorizaremos as interações sociais com outros humanos. Assim, os traços humanos mais importantes serão a nossa inteligência social e emocional, bem como as nossas habilidades artísticas e artesanais. A ironia é que nosso futuro tecnológico não será focado na tecnologia, mas na nossa humanidade.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Quando você divide o cérebro, você divide a pessoa?

No último dia 26 de Setembro o site Aeon publicou um interessante artigo escrito pelo cientista cognitivo Yaïr Pinto, da Universidade de Amsterdã. Segue a tradução que fiz desse texto, cuja versão original pode ser lida aqui.

O cérebro é provavelmente a máquina mais complexa do universo. Ele consiste em dois hemisférios cerebrais, cada um com muitos módulos diferentes. Felizmente, todas essas partes separadas não são agentes autônomos. Elas são altamente interligadas, todas trabalhando em harmonia para criar um ser único: você.
 
Mas o que aconteceria se destruíssemos essa harmonia? E se alguns módulos começassem a operar independentemente do resto? Curiosamente, isso não é apenas uma experiência de pensamento; para algumas pessoas, é a realidade.

Nos chamados "pacientes com o cérebro dividido" (split-brain patients), o corpo caloso - a via de comunicação entre os hemisférios cerebrais esquerdo e direito - é cirurgicamente cortado de forma a impedir crises epiléticas intratáveis de outra maneira.

A operação é eficaz para cessar a epilepsia; se uma tempestade neural começa em um hemisfério, o isolamento garante que ela não se espalhe para a outra metade. Mas sem o corpo caloso os hemisférios praticamente não têm meios para trocar informações. 

O que acontece, então, com a pessoa? Se as partes não estão mais sincronizadas, o cérebro ainda produz uma única pessoa? Os neurocientistas Roger Sperry e Michael Gazzaniga decidiram investigar esse problema nos anos 60 e 70, e encontraram dados surpreendentes que sugerem que, quando você divide o cérebro, você também divide a pessoa. Sperry ganhou o prêmio Nobel de Medicina por seu trabalho sobre o cérebro dividido em 1981.
 
Mas como os pesquisadores comprovaram que dividir o cérebro produz duas pessoas, uma por hemisfério? Através de uma metodologia inteligente que controlava o fluxo de informações visuais para o cérebro.

Eles já sabiam que ambos os olhos enviavam informações para ambos os hemisférios do cérebro - e que o relacionamento entre estes órgãos era complexo. Se você fixou seu olhar em um ponto, então tudo à esquerda desse ponto (o campo visual esquerdo) foi processado pelo hemisfério direito e tudo à direita do seu ponto de fixação (o campo visual direito) foi processado pelo hemisfério esquerdo. Além disso, o hemisfério esquerdo controlou o lado direito do corpo e a produção da linguagem (language output), enquanto que o hemisfério direito controlou o lado esquerdo do corpo.

Quando Sperry e Gazzaniga apresentaram estímulos para o campo visual direito (processados ​​pelo "falante" hemisfério esquerdo), o paciente respondeu normalmente. No entanto, quando os estímulos foram apresentados ao campo visual esquerdo (processado pelo "mudo" hemisfério direito), o paciente disse que não via nada. No entanto, sua mão esquerda desenharia a imagem mostrada. Quando perguntado por que sua mão esquerda fez isso, o paciente pareceu confuso e respondeu que não tinha idéia. 

O que estava acontecendo ali? O hemisfério esquerdo não conseguiu ver o campo visual esquerdo, então, quando um estímulo apareceu lá, ele respondeu, com razão, que não viu nada. No entanto, o hemisfério direito viu o estímulo e indicou isso da única maneira que podia, conduzindo a mão esquerda. A conclusão, formulada por Sperry e Gazzaniga, era clara: um único paciente com cérebro dividido deveria ser entendido como dois pacientes com meio cérebro - tipo gêmeos siameses. Sperry argumentou que esta descoberta superou a mera curiosidade - tendo literalmente provado o conceito de materialismo na área estudos da consciência. Se você divide a pessoa quando você divide o seu cérebro, isso deixa pouco espaço para uma alma imaterial.

Caso encerrado? Não para mim. Nós temos que admitir que os pacientes com cérebro dividido se sentem e se comportam normalmente. Se um paciente com cérebro dividido entra na sala, você não notará nada incomum. E eles mesmos afirmam estar completamente inalterados, além do fato de terem se livrado de terríveis crises epilépticas. Se a pessoa estivesse realmente dividida, isso não seria verdade.

Com o objetivo de ir fundo nesta questão, minha equipe na Universidade de Amsterdã retornou a este problema fundamental, testando dois pacientes com cérebro dividido e avaliando se eles poderiam responder com precisão a objetos no campo visual esquerdo (percebido pelo cérebro direito), enquanto respondiam verbalmente ou com a mão direita (controlada pelo cérebro esquerdo). Surpreendentemente, nestes dois pacientes, encontramos algo completamente diferente do que Sperry e Gazzaniga encontraram antes de nós. Ambos os pacientes apresentaram consciência total da presença e localização dos estímulos em todo o campo visual - direito e esquerdo. Quando os estímulos apareceram no campo visual esquerdo, eles praticamente nunca disseram (ou indicaram com a mão direita) que eles não viram nada. Em vez disso, eles indicaram com precisão que algo havia aparecido e onde. 

Mas os pacientes com cérebro dividido que estudamos não eram completamente normais. Em primeiro lugar, os estímulos não podiam ser comparados ao longo da linha média do campo visual. Além disso, quando um estímulo apareceu no campo visual esquerdo, o paciente se saiu melhor ao indicar suas propriedades visuais (mesmo quando ele respondeu com a mão direita ou verbalmente); e quando um estímulo apareceu no campo visual direito, ele se saiu melhor indentificando verbalmente (mesmo quando ele respondeu com a mão esquerda).

Com base nestes achados, propusemos um novo modelo para a síndrome do cérebro dividido. Quando você divide o cérebro, você ainda continua sendo uma única pessoa. No entanto, essa pessoa experimenta dois fluxos de informações visuais, um para cada campo visual. E essa pessoa não consegue integrar os dois fluxos. É como se ela assistisse a um filme fora de sincronia, mas não com o áudio e o vídeo dessincronizados. Em vez disso, os dois fluxos não sincronizados são ambos videos. E há mais. Enquanto o modelo anterior forneceu evidências fortes para o materialismo (divide-se o cérebro, divide-se a pessoa), o entendimento atual parece aprofundar o mistério da consciência. Você divide o cérebro em duas metades, e ainda assim tem apenas uma pessoa. Como um cérebro, composto por muitos módulos, cria apenas uma pessoa? E como os pacientes com o cérebro dividido funcionam como uma só pessoa quando essas duas partes nem sequer se comunicam uma com a outra?

domingo, 1 de outubro de 2017

Resenha do livro "Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem": como assim "tudo bem"?

Recém-lançado no Brasil pela editora Portfolio-Penguin, o livro Os robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem: como sobreviver ao colapso econômico e ser feliz tem início com uma interessante e pertinente discussão sobre os impactos da automatização do trabalho na sociedade; no entanto, para minha surpresa e decepção, a obra descamba para um discurso vazio e individualista de autoajuda que em nada contribui ou acrescenta à esta discussão fundamental - que já tratei em um post anterior. Uma pena, realmente. Escrito pelo jovem cientista da computação italiano Federico Pistono, apresentado na orelha do livro como sendo "escritor, empreendedor, pesquisador e palestrante", esta obra consegue demonstrar de forma clara que não só os robôs - ou, mais precisamente os processos de automação e mecanização - vão "roubar" ou substituir muitos trabalhos e aumentar o desemprego, como isto já está ocorrendo em todo o mundo. O grande problema é que o autor não consegue justificar e explicar com igual precisão a segunda parte do título de seu livro - como assim "mas tudo bem"? Enfim, Pistono consegue expor de forma bastante didática o problema, já extensamente descrito e analisado por outros autores (sociólogos, economistas, etc) muito mais gabaritados que ele, mas as soluções propostas pelo autor não passam de fugas ou saídas individuais para um problema que, em essência, é coletivo. A conclusão, contrária à pretendida, não poderia ser mais desesperadora: os robôs vão roubar e já estão roubando os nossos trabalhos e não, não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Na primeira e mais acertada parte do livro, Pistono analisa o impacto dos processos de automação nos índices de emprego e desemprego e sua conclusão não é nada boa: ainda que até o momento a substituição de mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos não tenha levado a um colapso econômico generalizado, o desemprego tem aumentado gradativamente e, no futuro, atingirá níveis astronômicos. Além disso, segundo o autor, os novos empregos criados em função das novas tecnologias não tem sido gerados na mesma proporção que os velhos empregos tem sido substituídos e isto se agravará ainda mais ao longo do tempo. Sua conclusão, pessimista, pode ser resumida pelo seguinte trecho do livro: "Os velhos empregos não vão voltar. Os novos empregos serão sofisticadíssimos, desafiadores técnica e criativamente, e apenas um punhado deles será necessário. A questão é simples: o que farão os trabalhadores não qualificados de hoje? Até agora ninguém foi capaz de responder a esta pergunta. O motivo disso, creio, é que não há resposta. Não nesse sistema, não de acordo com a maneira como é projetado para funcionar". Enfim, os trabalhos serão cada vez mais automatizados e o desemprego aumentará mas... tudo bem? Não! Nada está bem ou ficará bem.

O mito da meritocracia
Na segunda parte do livro, Pistono discute a complexa relação entre trabalho e felicidade, concluindo que se, em geral, o trabalho não gera felicidade - uma estatística apresentada por ele aponta que 80% das pessoas odeiam seu trabalho - o desemprego também gera infelicidade. Resumindo: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Sua visão, igualmente pessimista, é que sendo a felicidade algo tão subjetivo e fugidio, não somos nem seremos felizes trabalhando - e muito menos desempregados. Isto porque, segundo ele, além do fato de a maioria dos trabalhos ser extremamente repetitiva e mecânica (e, portanto, facilmente substituível por máquinas ou algoritmos), mesmo nos trabalhos menos mecanizados as pessoas se habituam às suas realidades e muitas vezes, aquilo que gerava bem-estar no início passa a gerar mal-estar ao longo do tempo - como afirma Pistono, "se você melhora seu padrão de vida, rapidamente se adapta a ele, o qual se torna a norma, e suas expectativa por consequência aumentam". Já o desemprego, por óbvio, gera mal-estar, afinal, se dinheiro não traz felicidade, a falta de dinheiro certamente gera infelicidade. Ah, alguém poderia dizer, mas basta se esforçar para conseguir um bom emprego e ganhar dinheiro, não? Quem se esforça sempre consegue o que quer, não é verdade? Infelizmente nada é tão simples assim. A meritocracia, filosofia que estabelece uma ligação direta entre mérito e poder, não passa de um mito - ou, para sermos um pouco mais otimistas, de uma utopia. Como bem aponta Pistolo, a lógica do sistema capitalista não funciona desta forma e por mais que algumas pessoas se esforcem, elas dificilmente "chegarão lá" - algumas podem até conseguir (e são justamente essas que reforçam o mito) mas a grande maioria não chegará nem perto. Como aponta o autor, "os pobres continuarão pobres e os ricos continuarão ricos, independente do quanto se esforcem". Enfim, mais uma vez a conclusão não é positiva. Não está tudo bem. Nada está bem ou ficará bem.

Tendo em vista todo o cenário catastrófico ou, no mínimo, desanimador descrito nos parágrafos anteriores, quais seriam, então as "soluções" apontadas por Pistono na última parte de seu livro? Quais seriam as saídas possíveis para os problemas apontados que justificariam a visão supostamente otimista demonstrada pelo autor no título do livro? Bem... veja só os conselhos dados pelo autor a seus leitores nos quatro últimos capítulos - denominados "Conselhos práticos para todos", "Construindo o futuro", "Como ser feliz" e "O futuro é lindo":

- Precise de menos, viva mais
- Eduque-se/eduque os outros
- Cultive seu próprio alimento
- Coma menos carne
- Economize energia/produza sua própria energia
- Abandone o carro
- Apoie projetos open source
- Trabalhe menos, seja autônomo
- Não seja um pentelho
- Viva de modo inteligente, isto é:
  * Medite
  * Anote o que precisa de resolução
  * Anote as coisas boas que lhe aconteceram hoje
  * Exercite-se 
  * Pratique atos aleatórios de bondade
  * Cultive novas experiências
  * Estabeleça metas pequenas e realistas
- Gaste com inteligência, isto é:
  * Compre experiências ao invés de coisas
  * Ajude os outros em vez de si mesmo
  * Compre muitos pequenos prazeres ao invés de poucos grandes
  * Faça menos seguros
  * Pague agora e consuma depois
  * Pense sobre aquilo em que não está pensando
  * Cuidado com as compras por comparação
  * Siga o rebanho em vez de sua cabeça

Você pode estar se perguntando (e eu próprio me questionei enquanto lia o livro): o que todas estas dicas e sugestões tem a ver com o problema da substituição da mão-de-obra humana por máquinas e algoritmos? De que forma "comer menos carne" ou "meditar" pode contribuir para resolver o problema do "desemprego tecnológico"? A resposta é: não pode. Na verdade, a mensagem do autor nesta última parte do livro parece ser a seguinte: "tendo em vista que o problema da automatização do trabalho é insolúvel ou muito difícil de resolver - eu pensei e pensei e não cheguei a nenhuma conclusão - você, isto é, a pessoa que ainda tem um emprego que garante o seu sustento, deve tentar ser feliz. Ignore os problemas sociais amplos e sistêmicos descritos anteriormente e tente resolver a sua situação individualmente - e, se possível, sem prejudicar o mundo. Nada vai ficar bem globalmente - as máquinas vão continuar substituindo pessoas, o desemprego vai aumentar, muitas pessoas vão passar necessidade - mas você, indivíduo-privilegiado-não-descartado-pelo-sistema, pode ficar bem se seguir algumas das dicas que eu estou te dando. Agora, se você está desempregado porque sua função foi substituída por sistemas automatizados, aproveite a oportunidade para curtir a vida, para fazer tudo aquilo que sempre teve vontade de fazer mas não pôde porque estava trabalhando... Ah, mas está sem dinheiro para aproveitar a vida? Que pena... Sobre isso eu não tenho nenhum conselho para te dar". Muito embora Pisono critique os livros de autoajuda - afirmando que "alguns são úteis, mas a maioria não presta para nada" - sua obra, que começa como uma boa análise de um tema fundamental, acaba por desembocar numa autoajuda vazia e inútil. Certamente, seguir os conselhos sugeridos por ele pode fazer bem para cada um de nós individualmente e também para o mundo (por exemplo, quando ele sugere a instalação de painéis solares e a redução no consumo de carne), mas tais sugestões em nada dizem respeito à problemática da automatização. Mais honesto seria ele admitir que não existe solução ou que ele não descobriu nenhuma solução, ao invés de fingir que todas estas pseudosoluções são de fato saídas para o problema apresentado. Não, Pistono, não está tudo bem. E você sabe disso!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando os 'estranhos' batem à nossa porta: reflexões sobre a atual crise dos refugiados

A situação dos refugiados é uma das principais, senão a principal, crise humanitária do mundo atualmente. Todos os dias milhares de pessoas são forçadas a sair às pressas de seu país devido à conflitos armados e/ou perseguições e buscarem abrigo em outras nações. Inúmeros países, muitos à contragosto, tem recebido estas pessoas. O Brasil, por exemplo, acolheu até o final de 2016 cerca de 9552 refugiados de diversos países - em especial da Síria, do Congo, do Paquistão, da Palestina, da Angola e, de forma crescente, da Venezuela. No entanto, ao mesmo tempo em que diversas nações, grupos e indivíduos tem se esforçado para receber, acolher e integrar estas pessoas, tem se multiplicado pelo mundo discursos xenofóbicos de ódio que tem como principal mote a ideia de que estas pessoas são invasoras que trazem a desordem e roubam os empregos. No início deste mês, por exemplo, o refugiado sírio Mohamed Ali, que vive e trabalha no Rio de Janeiro há 3 anos, foi hostilizado na rua por um homem que gritou repetidas vezes "Sai do meu país!", afirmando ainda: "O nosso país está sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças". Não gosto de pensar que se trata simplesmente de uma atitude irracional, haja vista que existe alguma racionalidade (diferente da minha, por exemplo) por trás de um ato preconceituoso como esse - ademais, a ideia de irracionalidade é há tanto tempo utilizada como categoria acusatória por pessoas de todos os lados de todos os conflitos e controvérsias, que  acabou por perder a sua força ("Você é irracional!" acusa a pessoal supostamente racional. "Não, você é que é irracional", rebate outra pessoa supostamente racional em uma troca infinita de acusações). Enfim, ao invés de considerar atitudes xenofóbicas e ofensivas como a descrita acima simplesmente como comportamentos irracionais prefiro encará-las como comportamentos preconceituosos baseados em estereótipos, isto é, em visões preconcebidas e generalizantes sobre determinadas pessoas e grupos. De forma mais profunda é possível enxergar em tais atitudes um enorme medo daquilo e daqueles que vem de fora e daquilo que é estranho ou diferente - a ideia de xenofobia aponta justamente nesta direção.

Em sua última obra publicada em vida, Estranhos à nossa porta, o eminente sociólogo polonês Zygmunt Bauman trata justamente desta questão. Segundo o autor,  os refugiados incomodam muitas pessoas exatamente porque trazem as marcas da diferença, seja na língua que falam, na roupa que vestem, na religião que professam e na forma como se comportam. Eles são os tais "estranhos" que batem à nossa porta. Como afirma Bauman, "refugiados da bestialidade das guerras, dos despotismos e da brutalidade de uma existência vazia e sem perspectivas têm batido à porta de outras pessoas desde o início dos tempos modernos. Para quem está por trás dessas portas, eles sempre foram – como o são agora – estranhos. Estranhos tendem a causar ansiedade por serem 'diferentes' – e, assim, assustadoramente imprevisíveis, ao contrário das pessoas com as quais interagimos todos os dias e das quais acreditamos saber o que esperar". Segundo o sociólogo, os refugiados são um "lembrete" permanente para as pessoas que estão detrás das portas, especialmente para aquelas das classes médias e altas, de  que todos estamos à mercê de forças que não controlamos e de que a vida confortável que levam pode ser perdida num piscar de olhos. Como afirma Bauman, "estes nômades - não por escolha, mas por veredicto de um destino cruel - nos lembram de modo irritante, exasperante e aterrador, a (incurável?) vulnerabilidade de nossa própria posição e a endêmica fragilidade de nosso bem-estar arduamente conquistado". O medo, enfim, é que estes estranhos, vindos de lugares exóticos e caóticos, tragam consigo o "vírus do caos e da desordem" que poderá eliminar ou desfigurar o confortável modo de vida que muitas pessoas vivem, especialmente nos países desenvolvidos.  

Diante destes 'estranhos', todos nós, enquanto pessoas e enquanto nações, temos basicamente duas alternativas iniciais: ou mantemos a porta fechada ou a abrimos e permitimos que entrem. A primeira alternativa, chamada por Bauman de "política da separação" é aquela na qual decidimos manter distância destes estranhos, seja através da negação de vistos ou da construção de muros - o presidente Trump é, talvez, o maior representante desta forma de política, que se manifesta não somente no impedimento de entrada mas também, e especialmente, na segregação e marginalização daqueles que já entraram. Para Bauman, a construção de muros ao invés de pontes, é a pior escolha possível, especialmente porque tal política acaba por gerar aquilo que ela pretende evitar. Como afirma o sociólogo, "enganosamente reconfortantes a curto prazo (por colocarem o desafio fora de vista), essas políticas suicidas armazenam explosivos para uma detonação futura". Isto porque ao segregarem os refugiados - e os imigrantes de uma forma geral - tais políticas acabam por reforçar uma já disseminada distinção entre "nós" e "eles" e, com isso, gerar um sentimento de ódio "deles" contra "nós" que certamente contribui para que alguns se aproximem de determinados grupos extremistas. Mas qual a solução, então? Para Bauman, a única alternativa viável é a solidariedade. Parece algo banal de se dizer, mas eu não teria como discordar de Bauman: a única saída possível para a situação dos refugiados e dos imigrantes  é estendermos os braços para eles e dizermos "Sejam bem vindos. Fiquem à vontade. Mi casa, su casa". Somente se (e quando) compreendermos que não existem "nós" e "eles" mas sim um gigantesco e planetário "nós", e também quando aprendermos a substituir hostilidade por hospitalidade, é que a situação começará a melhorar. Como bem afirma Bauman, "a humanidade está em crise - e não existe outra saída para ela senão a solidariedade dos seres humanos".

Certamente não se trata de uma saída fácil, mas um primeiro passo, como eu tenho insistido neste blog, é ter ou desenvolver empatia por estas pessoas. Isto pode ser construído de diversas maneiras e eu destacaria especialmente a conversa e a convivência com refugiados como formas ímpares de se aproximar e entender suas histórias e pontos de vista. Pessoas que atuam como voluntárias em organizações de apoio e recepção aos refugiados certamente desenvolvem grande empatia pelos indivíduos que ajudam a acolher. No entanto, esta é uma possibilidade distante para muitas pessoas. Uma saída, neste caso, é assistir a documentários como o impactante Fogo no mar, reportagens como esta do magnífico programa Que mundo é esse?, ou então ler livros como Eu venho de Alepo: itinerário de um refugiado, recém-lançado no Brasil pela editora Vestígio. Nesta obra, o refugiado sírio Joude Jassouma conta sua história, desde sua infância e juventude na histórica cidade síria de Alepo, onde chegou a se graduar em Literatura Francesa e trabalhar como professor; o início da guerra que destruiu sua cidade e seu país e o obrigou a se mudar às pressas diversas vezes com a família, deixando tudo para trás; a perigosa fuga feita em um bote para a Grécia e, finalmente, sua instalação na pequena e acolhedora cidade de Martigné-Ferchaud na França. Nesta dolorosa e, curiosamente, esperançosa narrativa, Joude nos permite compreender os motivos e circunstâncias que o forçaram a fugir de seu país, a dor e a angústia que sentiu ao ter de abandonar sua casa e todas as suas coisas em meio a tiroteios e bombas caindo, o medo que sentiu ao atravessar o mar Egeu à bordo de um bote junto de sua mulher e filha de 3 meses e, finalmente, a felicidade que sentiu ao ser acolhido pela França e pelos franceses. Especialmente nesta última etapa da narrativa de Joude, pude perceber claramente que a solidariedade defendida por Bauman é de fato concretizada em muitos lugares e por muitas pessoas. Assim que chegou na França, Joude e sua família foram carinhosamente acolhidos por voluntários de instituições filantrópicas, sendo posteriormente conduzidos a uma pequena cidade na região da Bretanha, onde foram calorosamente recebidos e integrados pelos moradores. Como afirma em certo momento, "desde que estamos aqui, nunca nos sentimos rejeitados nem julgados. Ninguém olha para nós desconfiado ou faz comentário inoportunos. E os moradores de Martigné sempre nos cumprimentam quando passamos". Enfim, a situação dos refugiados é ainda muito grave, a adesão a políticas e políticos contrários ao acolhimento destas pessoas tem crescido, mas bons exemplos tem se multiplicado pelo mundo, o que nos permite vislumbrar ao menos uma centelha de esperança. 

Update 16/08/2017: um outro exemplo bastante interessante de solidariedade foi a reação de muitos cariocas à agressão sofrida pelo refugiado sírio Mohamed Ali narrada no início deste post. Após o video da agressão ser amplamente divulgado nas redes sociais, um empresário carioca organizou pelo Facebook um "Esfirraço" com o objetivo de reunir pessoas para comprar as esfirras vendidas pelo sírio em sua barraquinha em Copacabana. No dia marcado, mais de 3 mil esfirras foram vendidas e muitas pessoas passaram pelo local para dar um abraço e demonstrar solidariedade com ele. Mohamed ficou extremamente contente com toda esta repercussão e afirmou ser "a pessoa mais feliz do mundo". Sobre este episódio, a professora Vanessa Souza afirmou para o jornal O Globo: "estamos vivendo um movimento mundial de muita intolerância. E essa iniciativa mostra que a força das pessoas que não concordam com isso é muito grande". Impossível discordar dela! Aliás, quer uma prova bastante concreta deste "movimento de intolerância" citado por ela? A poucos quilômetros da barraquinha do Mohamed, no Arpoador, um pequeno protesto contra os muçulmanos foi organizado por um grupo de cerca de 20 evangélicos ligados à Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, que seguravam cartazes com dizeres como "Alcorão: guia de estupros e assassinatos" e "Muçulmanos: assassinos, sequestradores, estupradores". Felizmente, o apoio a este protesto foi muito menor que aquele demonstrado à Mohamed. A tolerância e o respeito, pelo menos neste caso, venceram!

A tolerância - Mohamed e apoiadores durante o Esfirraço
A intolerância - Protesto contra muçulmanos

terça-feira, 1 de agosto de 2017

3 best-sellers para exercitar a empatia


Preâmbulo - Eric Arthur Blair queria se tornar escritor, mas não sabia bem por onde começar. Nascido na Índia em 1903,  Eric se mudou para uma pequena cidade na Inglaterra quanto tinha pouco mais de um ano. Sua família era, segundo sua própria descrição, de "classe média-alta inferior". Quando tinha cerca de 20 e poucos anos, após uma temporada em Burma (atual Myanmar), onde trabalhou em um posto na Polícia Imperial Indiana, decidiu retornar à Inglaterra e colocar em prática o seu desejo de escrever. Mas sobre o que escrever? Inspirado em Jack London, um autor que gostava muito, e também em certas ideias socialistas que lhe instigavam, Eric resolveu explorar a periferia de Londres. Mas ele não queria simplesmente observar, mas efetivamente se colocar no lugar de alguém que não possuia quaisquer bens materiais. Eric queria sentir na pele como era ser pobre em Londres na década de 1920. E para tanto viveu, por algum tempo, como um mendigo, perambulando pelas ruas miseráveis da cidade. O relato deste período se transformou em seu primeiro ensaio, intitulado "The strike". Em seguida, Eric se mudou para Paris, onde se hospedou em um alojamento vagabundo e chegou a trabalhar, por um tempo, como lavador de pratos em um hotel. Neste período, em que chegou a passar fome em diversas ocasiões, pôde vivenciar e efetivamente sentir como é ser pobre. Eric escreveu, então, um relato pormenorizado destas duas experiências, que resultaram na obra Na pior em Paris e Londres - seu primeiro livro, publicado em 1933. E foi para a publicação desta obra que decidiu adotar o pseudônimo que o tornaria célebre: George Orwell. Posteriormente à publicação desta obra, Blair lançou muitas outras, dentre as quais duas que lhe conduziram ao panteão dos grandes escritores: 1984 e Revolução dos bichos. Mas não seria equivocado dizer que a "imersão empática" empreendida pelo jovem Eric na vida dos pobres cimentou a visão social crítica que o maduro Orwell consagraria em sua obra vindoura. 

Posteriormente, outros escritores recorreram a esta estratégia de "imersão" para tentar compreender como se sentem e vivem determinados indivíduos e grupos sociais. Quase setenta anos após a experiência de Orwell, a jornalista Barbara Ehrenreich (que já apresentei em outro post) decidiu sentir na pele como é ser pobre nos Estados Unidos. Para tanto, trabalhou por um longo período em uma série de subempregos (como garçonete, faxineira e atendente em um asilo) e tentou se "virar nos 30" com os baixíssimos salários. O resultado é o maravilhoso livro Miséria à americana, lançado em 2001 e já publicado no Brasil Outro exemplo interessante de jornalismo de imersão é o livro Cabeça de Turco, escrito pelo jornalista alemão Günter Wallraff. Nesta obra, o autor relata a dolorosa experiência de viver e trabalhar por dois anos em empregos precários como se fosse um imigrante turco na Alemanha. O livro, lançado em 1985, foi um escândalo na época por escancarar o preconceito e a marginalização a que estavam sujeitos os imigrantes no país. Muitos outros exemplos poderiam ser citados de experiências de imersão, no entanto gostaria de trazer uma reflexão sobre esta maneira de se "exercitar" a empatia. Ainda que se constitua como uma forma profunda de "sentir na pele", trata-se de um método extremamente complicado de se colocar em prática - tanto por exigir um grande investimento pessoal de tempo e energia quanto por demandar grande coragem. No entanto, existem outras formas mais simples de se exercitar a empatia: ler livros, ver filmes, viajar, conversar, etc. E é tendo isto em vista que gostaria de indicar 3 livros, dentre os mais vendidos atualmente no Brasil, que podem contribuir para uma ampliação da capacidade de empatia de seus leitores. Certamente, como já disse anteriormente, não é possível se colocar de fato na pele e na perpectiva de outra pessoa, mas é possível imaginar como ela se sente. E este processo de imaginação pode ser decisivo para a construção de uma compreensão profunda a respeito de como vivem e quais dificuldades enfrentam determinadas pessoas e grupos diferentes de nós. Os três livros indicados e brevemente analisados abaixo podem contribuir fortemente para isso. #ficaadica

1- Na minha pele - Editora Objetiva, 2017.

Neste livro de ensaios autobiográfico, o ator, diretor e produtor Lázaro Ramos reflete sobre os inúmeros desafios de ser negro - e de ser um ator negro - no Brasil. Sua história começa na pequena Ilha do Paty, na Bahia, onde Lázaro nasceu e viveu até a adolescência e segue até o presente. Neste percurso, o ator consagrado e agora escritor iniciante, faz um esforço narrativo - extremamente bem-sucedido, na minha visão - para que nos coloquemos momentaneamente "em sua pele". A ideia é que possamos compreender, especialmente aqueles que não são negros, o persistente, inegável e lastimável racismo existente no Brasil. Para tanto, Lázaro nos conta inúmeras histórias de sua própria vida e também da vida de companheiros e companheiras de luta que expõem a ilusão do mito da democracia racial no país - ainda defendido por algumas pessoas. Mas para além de histórias, Lázaro traz uma série de importantes reflexões sobre a contrução da identidade e da militância negra, sobre a inserção dos negros no mercado de trabalho (e também na publicidade, nas novelas e filmes), sobre os desafios da ascensão social e da criação de filhos negros, dentre muitas outras questões. Mas não se engane pensando que se trata de um livro voltado somente para pessoas negras. De forma alguma, afinal, a luta contra o racismo e a favor do respeito e da inclusão é (ou deveria ser) uma luta de todos. Como bem afirma o rapper Emicida, em uma frase escolhida por Lázaro como epígrafe de seu livro, "todos nós somos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obras e ir corrigindo isso".

Trecho do livro: "Existe todo um discurso de que não há racismo no Brasil. Afinal, nós fazemos parte de um povo pra lá de miscigenado. Mas quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é a blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão do ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é 'menor' e de quem é 'criança' nos textos da imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamentos de autoridades?"

2 - Outras formas de usar a boca - Editora Planeta, 2017. 

Neste interessante livro de poesias, que atualmente é a obra de "ficção" mais vendida no Brasil (embora não seja propriamente ficção), a poetiza, escritora  e ilustradora indiana radicada no Canadá Rupi Kaur traz uma série de pequenas poesias que retratam situações vivenciadas cotidianamente por mulheres de todo o mundo - o sucesso estonteante do livro, talvez o maior sucesso da poesia nesta década, certamente se deveu à grande idenficação que ele gerou em mulheres dos mais diversos países. Originalmente denominado Milk and honey (Leite e mel), Outras formas de usar a boca é, como está dito na contracapa, "um livro de poemas sobre a sobrevivência, sobre o amor, o sexo, o abuso, a perda, o trauma, a cura e a feminilidade". Ao longo de suas 200 páginas, Kaur, que também é responsável por todas as ilustrações do livro, fala sobre as dificuldades vivenciadas pelo fato de ser mulher, sobre a complexa relação com a família, sobre as dores e delícias das relações amorosas, sobre términos e recomeços. Dividido em quatro partes (a dor, o amor, a ruptura e a cura), Outras formas traz à tona, especialmente na primeira parte, muitos dos abusos, violências e opressões que as mulheres sofrem todos os dias em praticamente todos os lugares. E com isto a autora permite não só a identificação das mulheres com as situações e pensamentos retratados, mas também a possibilidade de que os homens pensem, repensem e desconstruam o próprio machismo.

Trecho do livro: 

"Sexo exige o consentimento dos dois
se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada
porque não está pronta
ou não está no clima
ou simplesmente não quer
e mesmo assim a outra está fazendo sexo
com seu corpo isso não é amor
isso é estupro"

3- Prisioneiras - Companhia das Letras, 2017

Escrito pelo famoso médico Dráuzio Varella, este é o último volume de uma fantástica trilogia literária sobre o sistema carcerário brasileiro, que teve início com os livros Estação Carandiru (1999) e Carcereiros (2012) - ambos foram adaptados para a televisão e o primeiro também para o cinema. Nesta nova empreitada, Dráuzio traz uma série de histórias e reflexões sobre o período de mais de uma década em que trabalhou como médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo, onde vivem (ou sobrevivem) mais de duas mil mulheres. A ideia do autor, neste e nos livros anteriores da trilogia, é dar voz àqueles e àquelas a quem lhes é negada a voz. No caso de Prisioneiras, Dráuzio traz à tona, com sua sensibilidade habitual, as dolorosas histórias de vida das mulheres invisíveis que vivem na penitenciária. São mulheres em geral pobres e negras, muitas vezes vítimas de violência doméstica e abusos de todo tipo e que, após serem presas, majoritariamente por tráfico de drogas, são abandonadas e esquecidas por todos - o que não acontece com os homens, prova mais do que concreta de que o machismo está de fato presente em todos os lugares. Entregues à própria sorte, acabam por buscar algum conforto e alicerce nas relações com as outras prisioneiras. Assim como a maravilhosa série Orange is the new black (que embora se passe em um outro contexto apresenta muitos pontos em comum com a realidade brasileira), Prisioneiras cumpre plenamente a missão de humanizar essas tão desumanizadas mulheres, nos permitindo adentrar em suas perspectivas e, com isso compreender que suas vidas não se resumem a um artigo do Código Penal. Se a maioria das pessoas conseguisse sentir empatia por estas mulheres, ao invés de simplesmente taxá-las de bandidas e ignorá-las, o mundo seria um lugar muito melhor para se viver.

Trecho do livro: "De todos os tormentos do cárcere, o abandono é o que mais aflige as detentas. Cumprem suas penas esquecidas pelos familiares, amigos, maridos, namorados e até pelos filhos. A sociedade é capaz de encarar com alguma complacência a prisão de um parente homem, mas a da mulher envergonha a família inteira. Enquanto estiver preso, o homem contará com a visita de uma mulher, seja a mãe, esposa, namorada, prima ou a vizinha, esteja ele num presídio de São Paulo ou a centenas de quilômetros. A mulher é esquecida".

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Trans-formações: uma resenha do livro "Vidas trans"

A temática da transexualidade ou da transgeneridade tem recebido grande destaque nos meios de comunicação e também no mundo acadêmico. Só na rede Globo, por exemplo, o tema está sendo tratado na novela A força do querer, que possui um personagem transhomem, e foi retratado no início deste ano na série documental Quem sou eu? do programa Fantástico - o canal GNT, ligado à Globosat, também possui um programa especialmente dedicado ao tema, o Liberdade de gênero. Já no meio acadêmico, é possível observar que nunca tantas pesquisas, artigos, dissertações e teses foram feitas sobre o tema. Certamente isto tem um lado positivo: trazer à tona esta temática pode fazer com que gradualmente as pessoas trans, ainda fortemente invisibilizadas, marginalizadas e alvo de grande violência, sejam reconhecidas e respeitadas pela sociedade. No entanto, esta visibilidade possui um lado negativo: em grande parte das vezes as pessoas trans são meros "objetos" e não "sujeitos" da própria narrativa. Tais pessoas em geral são "personagens" e não "protagonistas" dos programas de TV e das pesquisas acadêmicas. Quase sempre os/as diretores/as e roteiristas de tais programas, os atores/atrizes que interpretam personagens trans e ainda os/as pesquisadores/as que estudam o "fenômeno trans" são pessoas cis, isto é, pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento. No caso da novela, por exemplo, quem interpreta o personagem trans é uma atriz cis, o mesmo ocorrendo em quase todas as novelas, filmes e séries que retratam pessoas trans - duas honrosas exceções ficam por conta das séries Orange is the new black, que possui uma personagem trans interpretada pela atriz Laverne Cox, e Sense8, dirigida pelas irmãs trans Lilly e Lana Wachowski e que possui em seu elenco a talentosa atriz Jamie Clayton, também trans. 

Tendo isto em vista, é com grande satisfação que me deparei com o livro "Vidas trans: a coragem de existir", recém-lançado pela editora Astral Cultural e escrito 100% por pessoas trans. Prefaciado pela famosa cartunista Laerte Coutinho (que foi recentemente retratada no documentário Laerte-se, disponível no Netflix) e também pela psicóloga, pesquisadora e blogueira Jaqueline Gomes de Jesus, autora dos livros Transfeminismo: teorias e práticas (2014) e Homofobia: identificar e prevenir (2015), "Vidas trans" traz quatro narrativas em primeira pessoa escritas por célebres pessoas trans brasileiras: 1) a travesti Amara Moira, que é doutoranda em teoria literária pela Unicamp, autora do livro E se eu fosse puta (2016) e colunista da Mídia Ninja em assuntos que envolvem gênero e direitos dos LGBTs e das profissionais do sexo; 2) o transhomem João W. Nery, que é psicólogo, autor da magnífica autobiografia Viagem solitária: memórias de um transexual 30 anos depois (2011) e o primeiro homem trans a ser operado no Brasil - em 1977, em plena ditadura militar (além disso João Nery dá nome ao Projeto de Lei de Identidade de Gênero, proposto pelos deputados federais Jean Wyllys e Érica Kokay e ainda em tramitação no Congresso Nacional); 3) a travesti Márcia Rocha, que é empresária, advogada integrante da Comissão de Diversidade Sexual da OAB, representante do Brasil no Comitê de Direitos Sexuais da World Association for Sexual Health (WAS) e uma das idealizadoras da Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat) e do projeto Transempregos (além disso Márcia Rocha foi a primeira advogada travesti a ter registrado o nome social na carteira da OAB) e 4) o transhomem T. Brant (antes Tereza Brant e agora Tarso Brant), que é ator e modelo, serviu de inspiração para o personagem trans de A força do querer e agora compõe o elenco da novela (além disso, Tarso Brant é também youtuber, sendo responsável pelo canal/blog Ela ou ele)  

Amara Moira, João W. Nery e T. Brant
No livro, cada uma destas pessoas conta a sua própria história. São narrativas de dor, mas também de crescimento e superação e que expõem muitas das dificuldades vivenciadas pelas pessoas trans no Brasil. Estas histórias, embora tenham elementos bastante peculiares, trazem alguns pontos em comum: a  falta de identificação, desde criança, com o gênero atribuído ao nascimento e, pelo contrário, uma grande identificação com as vestimentas, características e pessoas do outro gênero; grande dificuldade para "sair do armário" e agir publicamente conforme o gênero que se identifica (no livro, há vários relatos de "vida dupla", na qual em público a pessoa atuava, literalmente atuava, de acordo com o gênero "estabelecido" e somente na vida privada agia livremente segundo o gênero "sentido"); dificuldades relacionadas à rejeição da família, dos amigos e da sociedade em geral; a importância da internet e das redes sociais para a descoberta e interação com outras pessoas trans; a insatisfação com o próprio corpo, o processo de hormonização, as cirurgias, etc. Os relatos também tocam em uma série de entraves bastante comuns à população trans, como a dificuldade em alterar legalmente o nome civil, que gera inúmeros constrangimentos e violências cotidianas, a dificuldade em conseguir emprego, que leva muitas pessoas trans, especialmente as mulheres, à prostituição (o projeto Transempregos atua justamente nesta questão), e, finalmente, dificuldades relacionadas ao processo de transformação corporal. Enfim, as tocantes narrativas presentes neste livro nos permitem adentrar momentaneamente na vida destes indivíduos e compreender os seus pontos de vista, suas dores e suas alegrias. E com isso podemos exercitar nossa empatia e entender ou relembrar que existem inúmeras formas de viver o gênero (e a sexualidade) para além daquelas que a sociedade julga "normal".

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entre o medo do Alzheimer e as práticas de neuroaprimoramento

Como já apontei anteriormente, tem se disseminado pelo Brasil e pelo mundo produtos e serviços voltados para o aprimoramento cognitivo - também chamado de aprimoramento cerebral ou neuroaprimoramento. Diversas "academias cerebrais" tem se espalhado pelo país (caso, por exemplo, das empresas Supera e Ginástica do cérebro) assim como inúmeros produtos de "neurofitness" ou "neuróbica", inclusive remédios e suplementos. Em comum, todas ou quase todas estas iniciativas tem como foco primordial o desenvolvimento intelectual da criança e do jovem assim como a prevenção do "declínio cognitivo" na terceira idade. Especialmente neste último caso, a ideia, bastante questionada no campo científico, é que os neuroexercícios e neuroprodutos agiriam para impedir ou, ao menos, minimizar as possibilidades da pessoa desenvolver doenças cerebrais sérias e debilitantes como o Alzheimer e outras demências, cada vez mais comuns na população idosa. De certa forma - e isto é ao mesmo tempo tão óbvio e tão surpreendente - todo este espectro de neuropráticas está ancorado no enorme medo que grande parte das pessoas sente de desenvolver doenças como Alzheimer. 

Diversos estudos tem comprovado este medo e até mesmo uma escala foi desenvolvida para avaliá-lo, a Escala de Medo da Doença de Alzheimer (em inglês Fear of Alzheimer's Disease Scale - FADS). Uma pesquisa publicada em 2012, por exemplo, examinou um grupo de franceses e constatou que 60% deles possuía grande medo de desenvolver a doença. Esta atitude, de acordo com o estudo, esteve fortemente relacionada à idade, tornando-se predominante entre os idosos. No grupo de meia-idade, o medo era maior em mulheres "com pouca auto-percepção de saúde" e, em particular, naquelas que cuidavam ou já cuidaram de alguém com a doença - e cabe apontar que o cuidado da pessoa com Alzheimer, assim como toda forma de cuidado, frequentemente recai sobre as mulheres (netas, filhas, esposas ou cuidadoras profissionais). De uma forma geral, ser um cuidador ou conhecer alguém com a doença se relacionou fortemente com o medo do Alzheimer, especialmente entre adultos mais jovens. Já uma pesquisa norte-americana realizada em 2014 pela Alzheimer's Association identificou a doença de Alzheimer como a segunda doença mais temida pela população, sendo superada apenas pelo câncer. Em outra pesquisa, publicada em 2016, o Alzheimer aparece em primeiro lugar, superando tanto o câncer quanto outras doenças como o HIV e o diabetes. Neste caso, os pesquisadores não encontraram qualquer variação significativa em função da idade mas, como no primeiro estudo citado, o medo esteve fortemente relacionado à proximidade dos entrevistados com a doença.

Neste último estudo, os autores apresentam uma série de possíveis explicações para o grande medo da doença de Alzheimer (e também do câncer) demonstrado pela população pesquisada. Em primeiro lugar, não há uma cura para a doença e existem poucas e insuficientes opções de tratamento - já no caso do câncer a remissão completa é possível e os tratamentos vem evoluindo consideravelmente ao longo dos anos. Em segundo lugar, uma característica central do Alzheimer é o declínio progressivo nas habilidades cognitivas. Em uma sociedade como a nossa, que valoriza imensamente a racionalidade e o crescimento intelectual, a perda da memória e do intelecto é motivo de grande preocupação - o que não ocorre em outras culturas. Imaginar o esquecimento do passado e das pessoas queridas e a perda da autonomia de cuidar de si mesmo, gera pânico em algumas pessoas. Em terceiro lugar, os autores apontam para o grande foco dado pela mídia à doença de Alzheimer e  ao câncer. De acordo com uma pesquisa citada por eles, 5% de todas as notícias relacionadas à saúde nos jornais ingleses dizia respeito, no período analisado, à doença de Alzheimer. De acordo com os pesquisadores, ao mesmo tempo em que essa divulgação pode fornecer informações relevantes e até mesmo incentivar a adoção de práticas saudáveis, tais notícias podem contribuir para a ampliação do pânico da população com relação a certas doenças, em especial o câncer e o Alzheimer, gerando uma espécie de hipocondria social. Finalmente, os autores apontam para a hipótese de que o medo da doença de Alzheimer e do câncer está relacionado a uma percepção de falta de controle. Como afirmam em determinado momento, "os indivíduos tendem a temer o que não podem controlar". Como a ideia de prevenção do câncer e da doença de Alzheimer ainda é bastante questionável e incerta, muitos indivíduos se amedrontam com a possibilidade de que nada - ou muito pouco - pode ser feito para evitar o problema. No caso das doenças cardiovasculares, por exemplo, existem ações (exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, etc) que efetivamente contribuem para sua prevenção, o que aumenta a sensação de controle. Talvez por isto, poucas pessoas na pesquisa (somente 2%) tenham sinalizado para um grande medo de tais doenças - que, curiosamente, são as que mais matam no mundo.

Tendo em vista esse enorme medo social da doença de Alzheimer e também esta sensação de falta de controle, não é de estranhar - aliás, é bastante compreensível - que muitas pessoas recorram a controversos métodos de prevenção da doença. Inúmeros indivíduos tem participado de atividades de "ginástica cerebral" que incluem treinamento com ábaco, jogos de concentração e memória, palavras cruzadas, xadrez, dinâmicas de grupo, etc. Outros tem praticado exercícios disponíveis em livros como "Dicas para simples para previnir o Alzheimer". Outros recorrem ainda a determinados alimentos, remédios ou suplementos que, teoricamente, atuariam na prevenção ou, ao menos, no adiamento da doença. Enfim, os métodos empregados são variados e, em geral, não existem evidências científicas que os amparem - o que não significa, cabe apontar, que tais métodos não funcionem ou que não podem fazer bem para a pessoa. Afinal, como dizia o astrônomo Carl Sagan quando questionado sobre a existência de seres alienígenas, ausência de evidência não é evidência de ausência.

Um estudo brasileiro publicado em 2012 avaliou a literatura científica existente relativa à prevenção e ao atraso na instalação das demências e o que os autores encontraram, em resumo, foi que "a prevenção da doença demencial possui característica multifatorial e depende do estilo de vida que o adulto hoje adquire e pretende manter até a longevidade. Tipo de dieta, saúde emocional, engajamento social, atividade cognitiva e diminuição dos fatores de risco vascular são itens de potencial importância na prevenção deste mal. Além desses, vários outros fatores podem ser citados, uma vez que a combinação de diversos padrões de comportamento resulta em saúde na sociedade que envelhece". Enfim, aquilo que tem "potencial importância" na prevenção da doença de Alzheimer são algumas ações que as pessoas praticam ao longo de muitos anos e décadas - e não atividades realizadas de forma pontual em aulas de "neurofitness". A verdadeira "ginástica cerebral", poderiam dizer os autores, está relacionada com a prática constante, desde a juventude ou da vida adulta, de atividades como o exercício físico, alimentação equilibrada, envolvimento em atividades sociais, atividade cognitiva (que se refere à atividade intelectual ao longo da vida, relacionada, por exemplo, ao estudo formal ou informal), dentre outras coisas. Em suma, o que teria algum potencial de previnir o Alzheimer seriam as mesmas atividades e atitudes que contribuem para a saúde física e mental dos indivíduos em geral, sejam jovens, adultos ou idosos.

Para finalizar esta discussão gostaria de trazer algumas interessantes reflexões feitas pelas pesquisadoras Cliodhna O'Connor e Saskia Nagel em um artigo publicado em Março de 2017 no periódico Frontiers in Sociology. Neste artigo, denominado Neuro-Enhancement Practices across the Lifecourse: Exploring the Roles of Relationality and Individualism [Práticas de neuroaprimoramento ao longo da vida: explorando os papéis da relacionalidade e do individualismo], as autoras questionam a ideia, bastante disseminada na literatura científica sobre o neuroaprimoramento, de que tais práticas promovem o valor cultural do individualismo. De acordo com esta visão, ao buscar práticas de aprimoramento cerebrais os indivíduos, egoístas, estariam simplesmente almejando a melhora do próprio desempenho e da própria produtividade - e também a  prevenção de futuros problemas individuais, como a doença de Alzheimer. O problema desta visão, segundo as autoras, é que ela é extremamente limitada e não consegue dar conta da complexidade do fenômeno. Em especial, elas apontam que esta perspectiva deixa de fora o fato de que nós, humanos, somos seres relacionais: vivemos e convivemos continuamente com outras pessoas e estas pessoas compõem o que somos e influenciam nossas decisões e ações. Como bem afirma o sociólogo Norbert Elias no belo livro A solidão dos Moribundos, "somos parte uns dos outros".

Esta "relacionalidade", como as autoras denominam, está presente também nas práticas de neuroaprimoramento, inclusive naquelas utilizadas com o objetivo de prevenir a doença de Alzheimer. Isto significa que ao buscar atividades de "ginástica cerebral" ou determinados medicamentos, o sujeito não está simplesmente pensando "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha vida, para meu desempenho" mas principalmente "eu quero previnir a doença de Alzheimer porque desenvolvê-la seria péssimo para mim, para minha família e para todas as pessoas que eu amo. Não quero me tornar um fardo para eles". Como apontam os autores do artigo, a justificativa de muitas pessoas para se engajarem em práticas de neuroaprimoramento está relacionada não simplesmente a possíveis repercussões negativas do Alzheimer em si mesmas mas nas pessoas que amam - estas sim consideradas as "verdadeiras vítimas" da doença. Enfim, o que as autoras querem dizer de uma forma geral é que as atividades de neuroaprimoramento não negam a conectividade dos indivíduos uns com os outros; pelo contrário, tais práticas estão totalmente integradas à "relacionalidade" humana. Longe de serem ações egoístas feitas por individuos autocentrados focados somente no próprio desempenho, as práticas de neuroaprimoramento são tentativas de responder ao medo individual e social daquilo que foge ao nosso controle - e das pessoas que amamos. 

Update 25/07/17: Em um artigo publicado na revista The Lancet no último dia 20, os membros de uma Comissão criada pela revista para rever a literatura científica relacionada à prevenção e manejo das demências, apontaram para nove "fatores de risco potencialmente modificáveis" que, se eliminados, poderiam prevenir pelo menos um terço dos casos de demência. São eles: baixo nível educacional na infância, perda auditiva, hipertensão, obesidade, tabagismo, depressão, sedentarismo, isolamento social e diabetes. De acordo com os autores a teoria geral é de que haveria uma "janela de oportunidade" na meia-idade para a prevenção das demências na terceira idade. Isto não significa, cabe esclarecer, que eliminar tais fatores de risco eliminará necessariamente o desenvolvimento da doença de Alzheimer, mas sim que a adoção de determinados comportamentos saudáveis diminui a probabilidade de desenvolvê-la. Nada é dito no artigo sobre a eficácia ou não das técnicas de neuroaprimoramento.