domingo, 1 de março de 2026

O que torna a 'positividade tóxica' diferente de uma atitude saudável (Tradução)

Compartilho abaixo a tradução que fiz do artigo What makes ‘toxic positivity’ different from a healthy attitude, publicado no site Psyche no dia 27 de maio de 2024 por Lucas Dixon, que é pesquisador e professor na University of Queensland Business School, na Austrália. 

Quando você teve um dia ruim, ou até mesmo um ano ruim, já procurou seus amigos ou familiares apenas para ser recebido com um mar de afirmações açucaradas como ‘levante a cabeça’ ou ‘tudo acontece por uma razão’? Ou talvez você tenha procurado seu chefe com algum queixa, apenas para dar de cara uma nova placa na porta dizendo 'Apenas vibrações positivas!' (Positive vibes only) Ou você pode ter visto algum dos infinitos ​​​​livros de autoajuda, cursos e gurus do TikTok prometendo que uma vida feliz está a apenas uma afirmação positiva de distância.

É fácil ver o apelo da ideia de que você pode se tornar feliz e bem-sucedido apenas com a mentalidade e a atitude certas. Mesmo que as afirmações feitas pelos gurus de autoajuda lhe pareçam ridículas e exageradas, você pode pensar "qual é o problema"? Mas a pressão para ser inabalavelmente otimista diante de todos os obstáculos representa uma ameaça ao nosso bem-estar pessoal e coletivo. É por isso que alguns especialistas começaram a se referir à insistência cultural moderna na conformidade alegre em todas as situações como positividade tóxica.

Eu experimentei um exemplo marcante de positividade tóxica quando era estagiário em aconselhamento. Eu tinha uma supervisora que acreditava que o pensamento negativo ‘manifesta’ doenças. Ela insistia que as pessoas deveriam ‘limpar’ a si mesmas de crenças e memórias negativas, e manter uma perspectiva positiva para permanecer saudáveis. Em uma sessão de mentoria em grupo, quando outra estagiária compartilhou a triste notícia da recidiva de seu câncer, nossa supervisora bradou de forma desdenhosa: ‘Ah, você simplesmente continua produzindo essas coisas, não é!’ A estagiária saiu, profundamente magoada, para nunca mais voltar.

A positividade tóxica não surgiu do nada. Há mais do que um fundo de verdade na ideia de que uma atitude mental positiva pode ser benéfica. De fato, existe um campo dedicado a estudar esses benefícios – a psicologia positiva. Pesquisas nessa área mostraram que pessoas que adotam uma atitude mais positiva e otimista em relação à vida tendem a apresentar menos estresse, menos depressão e, em geral, melhores indicadores de saúde e bem-estar. Além disso, Além disso, ser uma pessoa positiva é algo atraente para os outros, e os benefícios sociais que advêm disso também são fundamentais para o bem-estar.

No entanto, estudiosos criticaram as descobertas da psicologia positiva por serem exageradas ou simplistas demais. É importante entender que as intervenções da psicologia positiva tendem a beneficiar mais aqueles que já são, em geral, psicologicamente saudáveis. Em outras palavras, pessoas que enfrentam problemas psicológicos intensos ou circunstâncias de vida difíceis provavelmente não obterão os mesmos benefícios da psicologia positiva, em comparação com a busca por tratamentos mais estabelecidos, como a terapia cognitivo-comportamental. O que é especialmente pouco útil ou até prejudicial é quando as pessoas levam o pensamento positivo a um extremo e acreditam que ele é a resposta para qualquer problema. Infelizmente, é essa mensagem de positividade - excessivamente simplista - que está sendo transmitida a milhões.

Com atitudes do tipo lucky girl [a ideia, popular nas redes sociais, de que basta acreditar que tudo vai dar certo para que o universo traga sorte] e narrativas heroicas segundo as quais qualquer adversidade pode ser superada com uma determinação inabalável, influenciadores das redes sociais costumam divulgar essa versão superficial da psicologia positiva. Para seus inúmeros seguidores, esse tipo de mensagem acaba se tornando um modelo do que todos deveriam alcançar na vida.

Ao absorver essas normas idealizadas de positividade, as pessoas podem passar a acreditar que suas reações naturais às inevitáveis experiências difíceis da vida (seja de luto, perda de emprego, pandemias ou fracassos nos relacionamentos) são de alguma forma erradas. Há o risco delas desenvolverem hábitos de esquiva experiencial negando, suprimindo ou evitando de forma consistente pensamentos e emoções difíceis. É claro que não há problema em fingir estar bem para superar uma reunião difícil ou reinterpretar positivamente uma situação para lidar com contratempos momentâneos, mas, em algum momento, todos precisamos parar e abordar nossos problemas e questões pendentes.

A evitação pode reforçar a ideia de que existem experiências internas ‘ruins’ que precisam ser evitadas. Mas não é tão fácil evitar nossas experiências internas. Você já tentou não pensar em um elefante roxo? Experimentos descobriram que, quando as pessoas tentam fazer isso, acabam pensando neles mais, não menos. Isso dá peso ao antigo ditado do psiquiatra suíço Carl Jung de que ‘aquilo a que você resiste… persiste’ (‘what you resist…persists')

Rotular certos pensamentos ou emoções como ‘bons’ ou ‘maus’ também pode criar um ciclo desnecessário de autojulgamento e expiação por pecados inexistentes. Digamos que você passe a acreditar que um pensamento que teve sobre alguém é ‘mau’. Isso pode fazer com que você se sinta culpado porque seu comportamento não corresponde às suas rígidas regras morais. Seguindo os gurus da positividade, para escapar dessa dissonância cognitiva, você pode tentar encobrir esse pensamento com afirmações positivas, tentando reduzir o desconforto e se convencer de que você é, na verdade, uma ‘boa’ pessoa. No entanto, todo esse esforço acaba dando aos pensamentos ‘ruins’ mais poder do que eles precisam ter.

Em última análise, o esforço e a energia extras gastos em evitar problemas através do pensamento positivo provavelmente causarão estresse. Paradoxalmente, esse estresse coloca você na linha de frente para os mesmos problemas de saúde mental e física que você estava tentando evitar com o pensamento positivo! Um estudo longitudinal  descobriu que pessoas cujo estilo de enfrentamento envolvia evitar problemas relataram situações de vida mais estressantes quatro anos depois e mais sintomas de depressão 10 anos depois. Tentar suprimir emoções negativas também tem sido associado  a problemas de saúde física e potencialmente até mesmo à morte prematura.

Nem todas as situações da vida exigem uma perspectiva positiva. Há momentos em que uma visão sóbria da realidade, ainda que desconfortável,  é útil. Por exemplo, alguns sentimentos ou experiências negativas podem motivar alguém a buscar um diagnóstico e tratamento para uma doença, a enfrentar as dívidas que estão se acumulando ou a terminar um relacionamento ruim. Às vezes precisamos encarar aspectos incômodos de nós mesmos. Jung sugeria que a busca por perfeição moral nega as partes mais complexas e menos socialmente aceitáveis da nossa personalidade; e isso pode dificultar a verdadeira autoaceitação e o crescimento.

Problemas semelhantes surgem quando impomos padrões rígidos de positividade aos outros. A mentalidade de ‘apenas vibrações positivas’ pode dificultar a comunicação aberta e empática em contextos sociais e profissionais. Por exemplo, insistir em vibrações positivas no trabalho pode desencorajar colegas a expressar preocupações, deixando problemas reais sem solução. O mesmo ocorre em nossos relacionamentos íntimos. Minha própria experiência com minha supervisora me fez reconsiderar se reavaliações aparentemente bem-intencionadas e banais das situações dos outros, como dizer “olhe pelo lado bom”, são realmente úteis. Às vezes as pessoas só precisam ser ouvidas com atenção. Abraçar todo o espectro das emoções humanas, incluindo as desconfortáveis ou dolorosas, é fundamental para uma conexão e compreensão genuínas.

Então, como navegar na linha tênue entre uma positividade saudável e uma positividade excessiva ou tóxica? Diferentemente das frases rápidas do TikTok, a resposta é cheia de nuances. Pense nas afirmações positivas e nas técnicas de visualização, tão populares entre influenciadores e gurus das redes sociais. Pesquisas sugerem que afirmações positivas (como repetir para si mesmo aquilo em que você é bom ou o que gosta em si) podem de fato ajudar as pessoas a se sentirem melhor, mas os benefícios aparecem principalmente em quem já tem uma autoimagem mais positiva. Para quem enfrenta autoestima muito baixa, as afirmações podem sair pela culatra, fazendo a pessoa se sentir pior. Esse efeito adverso pode surgir da dissonância cognitiva que ocorre quando essas declarações positivas entram em conflito com a forma como a pessoa se vê. Se uma afirmação como “eu amo tudo em mim” soa obviamente falsa, ela não só faz você lembrar de tudo o que não gosta em si, como também faz você se sentir um impostor.

Da mesma forma, o valor da visualização positiva também é mais complexo do que parece. Pesquisas da psicóloga alemã Gabriele Oettingen mostraram que apenas ter uma visão inspiradora do futuro não é suficiente para nos motivar a alcançar nossos objetivos. Precisamos de um equilíbrio entre nos entregarmos a fantasias positivas inspiradoras e confrontarmos a realidade das nossas circunstâncias, aceitando-nos como somos.

Em vez de buscar uma positividade constante, muitas abordagens psicológicas contemporâneas - como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Comportamental Dialética (DBT) - enfatizam a importância de aceitar e compreender as coisas como elas são. Elas se concentram em ajudar a construir uma relação mais compassiva e acolhedora com nossas experiências internas. Isso pode funcionar porque, quando diminuímos o julgamento negativo, pensamentos e sentimentos “ruins” acabam, paradoxalmente, tendo menos poder sobre nós, permitindo que nos desvinculemos deles mais rapidamente, sem gastar tanta energia tentando eliminá-los completamente.

Assim, a chave para o bem-estar pode estar na capacidade de equilibrar uma visão positiva com a aceitação e o engajamento com a realidade. Isso me lembra que a oração da serenidade dos Alcoólicos Anônimos continua tão atual hoje quanto era na primeira metade do século passado: “Deus, concedei-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso, e sabedoria para distinguir umas das outras”. Como encontrar essa sabedoria? Acho que cada pessoa tem seu próprio caminho, e é sempre um processo em construção. Ainda assim, aqui vão algumas sugestões baseadas em minhas pesquisas e experiências no campo do autoajuda:

- É útil perceber quando você sente pressão dos outros para ser positivo, sejam seus amigos, familiares, colegas ou celebridades das redes sociais. Você pode notar isso ao rolar o feed e se comparar com as outras pessoas, por exemplo. Nessas situações, é importante lembrar que o que você vê é uma versão editada e selecionada da vida delas, não a história completa.

- Quando pessoas ou grupos exaltam a positividade e tratam a expressão de pensamentos ou emoções “negativas” como algo errado, isso é um sinal de alerta. Às vezes regras morais rígidas são usadas para calar críticas e discordâncias. Isso não é saudável a longo prazo, pois sufoca a expressão genuína e impede mudanças. Vale lembrar que há momentos em que pensamentos e experiências negativas podem ser úteis.

- A positividade pode surgir espontaneamente de maneiras diferentes para cada um de nós. Pode ser quando você está fazendo trabalho voluntário, tocando música, passeando com o cachorro, fazendo uma aula de improvisação, conversando com um amigo ou abraçando seu filho. Descubra o que faz você se sentir bem e dê a si mesmo permissão para fazer isso com mais frequência. Para muitas pessoas, essa abordagem mais suave para ser mais feliz a cada dia é mais eficaz do que ter que adotar uma mentalidade específica ou pensar os ‘pensamentos corretos’ para ser feliz.

Diante de uma cultura que insiste na positividade,
 precisamos lembrar que a vida não é apenas o recorte bonito das redes sociais. Ela envolve o filme inteiro, incluindo as partes que deixamos de fora. O excesso de positividade, embora bem-intencionado, pode silenciar as lutas genuínas que todos enfrentamos e criar um ambiente onde apenas certos aspectos de nós mesmos são valorizados, forçando-nos a usar máscaras que nem sempre nos servem. Para melhorar nosso bem-estar individual e coletivo, vamos abraçar todo o espectro da nossa humanidade e cultivar espaços dentro de nós e ao nosso redor onde seja normal estar bem, e também normal não estar bem.


Impressões sobre o documentário alemão "Irvin Yalom - De Frente para o Sol"

O documentário "Irvin Yalom - De Frente para o Sol" (Irvin Yalom - In die Sonne schauen), produção alemã lançada em 2023, está longe de ser um grande filme - eu diria mais: ele chega a soar como um desperdício de tempo e dinheiro. A equipe teve acesso privilegiado a Irvin Yalom e à sua família, pôde filmá-lo em momentos íntimos, acompanhar sua rotina, registrar conversas pessoais e ainda assim entregou um trabalho superficial, curto demais (com apenas 50 minutos) e sem o aprofundamento que um personagem dessa estatura claramente merecia. Falta ao documentário um fio narrativo mais consistente, maior contextualização da trajetória profissional e intelectual de Yalom e, sobretudo, mais tempo para desenvolver temas que aparecem apenas de passagem, como sua relação com a morte, o envelhecimento, a escrita e a própria prática clínica. Ainda assim, apesar dessas limitações, o filme tem qualidades que o tornam interessante para quem admira a obra de Yalom. O tom é bastante intimista, com belas imagens de arquivo, cenas familiares e depoimentos sinceros do próprio Irvin, de seus filhos, de um neto e também de sua atual esposa, Sakino Sternberg - e pelo filme ficamos sabendo que eles estavam, naquele momento, escrevendo um livro juntos (que ainda não foi publicado). Há também pequenas passagens que mostram Yalom com 91 anos refletindo sobre a vida e o envelhecer com a consciência cada vez mais concreta da finitude - reflexões que atravessam toda a sua obra, mas que aqui aparecem mais sugeridas do que exploradas.

Entre todas as falas, duas me chamaram particularmente a atenção. A primeira é quando Yalom afirma considerar Os desafios da terapia o seu melhor livro - avaliação com a qual concordo totalmente. A segunda, mais surpreendente, é um desabafo de sua filha Eve, que afirma que o pai “nunca fez nada por sua família”. Ela explica que, enquanto Irvin se dedicava ao trabalho clínico e à escrita dos seus livros, praticamente todas as responsabilidades com relação à casa e à criação dos filhos ficaram a cargo de sua primeira esposa, Marilyn Yalom, que ainda precisava conciliar essas tarefas com sua própria carreira acadêmica - e segundo Eve, isso foi fonte de tensão entre eles durante anos. Esse depoimento é talvez o momento mais forte do documentário, justamente porque rompe com a imagem idealizada do casal que aparece no livro Uma questão de vida e morte, escrito por ambos. Ali, a relação entre Irvin e Marilyn é retratada de forma extremamente harmoniosa e exemplar, quase idílica; no filme, surge uma dimensão mais humana, com conflitos e desigualdades muito comuns nas antigas (e atuais) gerações. O resultado é interessante porque mostra que o sujeito pode ser um grande terapeuta e escritor e, ao mesmo tempo, um marido e pai bastante tradicional, no pior sentido da palavra. No fim das contas, "Irvin Yalom: De Frente para o Sol" não é um filme memorável, nem faz jus à importância de seu protagonista. Ainda assim, vale a pena ser visto por quem se interessa pela obra de Yalom, justamente por causa desses fragmentos mais pessoais, desses pequenos deslizes de sinceridade e das cenas que expõem, mesmo que rapidamente, a pessoa por trás do autor. E é por conta desses momentos - e não pela qualidade do documentário como um todo - que eu recomendo o filme, atualmente disponível no canal Aquarius da Prime Video.

Pós-escrito: há também um documentário mais antigo, de 2014, que trata da vida e obra de Yalom. O filme, dirigido por Sabine Gisiger, chama-se "Yalom's cure" e está disponível no Youtube gratuitamente - mas infelizmente sem legendas em português. Se tiver interesse assista abaixo.