sábado, 31 de outubro de 2009

Homem primata ou A irracionalidade das Massas



OBS: assista o video abaixo, do sociólogo Luciano Alvarenga. Eu não poderia me expressar melhor...

Psiquiatria e Indústria Farmacêutica, again...

Semana que vem acontece em São Paulo o XXVII Congresso Brasileiro de Psiquiatria. E, como era de se esperar (ver imagem acima), o Congresso é patrocinado por uma gigante da indústria farmacêutica, a Wyeth, comprada recentemente pela Pfizer, outra superpoderosa do setor. Segundo o site da empresa "a Wyeth é uma das 10 maiores indústrias farmacêuticas do mundo. De origem norte-americana está presente em 145 países e é líder global em pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos inovadores". Segundo este mesmo site, o faturamento da Wyeth Brasil em 2008 foi de R$732,5 milhões. E, certamente, patrocinar congressos de psiquiatria (e, principalmente, psiquiatras!!!) contribui enormemente para a empresa manter esse faturamento astronômico...

Psicologia em Revista - Novembro 2009


Sou um apaixonado por revistas. Leio várias toda semana, anda mais se tratam de algum tema psi. Das revistas de novembro (que já estão nas bancas), duas tratam, em suas reportagens de capa, do mesmo tema: pílulas de inteligência (ou smart drugs). Tanto a superficial Superinteressante quanto a interessante Scientific American tratam desse assunto. Já a revista Viver Mente & Cérebro (minha preferida) tem como tema de capa um assunto já bem batido: psicopatia. Há inclusive um artigo da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro Mentes Perigosas, que já está a um bom tempo na lista dos mais vendidos de não-ficção. Mas, no mesmo volume, há outros artigos nada batidos: um sobre o fenômeno dos livros de auto-ajuda ("A auto-ajuda e a medida da felicidade"), um sobre resiliência ("Resiliência, para além do trauma"), um sobre a identificação de mentiras ("Para reconhecer mentiras"), dentre muitos outros. Esta mesma revista está lançando também um especial imperdível para quem se interessa por neurociência: o Livro do Cérebro, dividido em quatro volumes, com muitas ilustrações e informações atualizadas. Outra dica é a coleção "Grandes Cientistas Brasileiros", da revista Caros Amigos, que recupera, em 12 volumes, a biografia de 24 importantes nomes da ciência nacional (saiba mais aqui). O quinto volume é imperdível para estudantes de psicologia e psicólogos: conta a história de Nise da Silveira. Boa leitura a todos...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

É triste viver de humor

Semana passada descobri um blog incrível, o É triste viver de humor, do autointitulado jornalista e pseudocartunista Marcelo de Andrade. Seja em suas frases ácidas ou em seus brilhantes cartuns, Marcelo expõe as hipocrisias de nossa sociedade - sem dó nem piedade. Selecionei alguns cartuns, que mostram que, dentre tanta inutilidade e narcisismo, há espaço para inteligência e humor na internet. Aproveitem...

Auto-ajuda


Raio-X


Trote


Mídia


Beleza


Prazos


Leitura


IMC


Ceticismo


Ronaldo


Psicologia


Plano de saúde


Consulta

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A crueldade do homem

Não sou vegetariano, muito menos um fanático defensor dos direitos dos animais, mas o video abaixo me chocou. Mesmo! É crueldade demais, sadismo demais. É o ser humano em seu nível mais baixo. Se fazem isso com um animal indefeso, que dirá com outro homem...

ATENÇÃO: VIDEO CHOCANTE!

Ato Médico é aprovado na Câmara!

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo (link):

A Câmara dos Deputados aprovou ontem [22 de Outubro de 2009] o projeto de lei que regulamenta o exercício da medicina e aponta procedimentos exclusivos dos médicos, o chamado ato médico. A proposta restringe a possibilidade de outros profissionais, como fisioterapeutas e nutricionistas, de fazer diagnósticos e de oferecer tratamento. Um dos pontos que devem causar mais discussão é o que restringe a médicos “a invasão da pele atingindo o tecido subcutâneo para injeção” e outros procedimentos. Uma das interpretações é que esse artigo fará com que procedimentos como acupuntura fiquem restritos a médicos. O projeto de lei ainda dá aos médicos a prerrogativa de apenas eles formularem diagnósticos sobre doenças e prescrição de medicamentos, indicação de cirurgias, execução de procedimentos invasivos - mesmo os estéticos - intubação, emissão de laudos de exames de imagem, prescrição de próteses e órteses, realização de perícias e atestados de óbitos, entre outras ações. Dentistas estão excluídos das restrições, podendo realizar os mesmos procedimentos dentro da sua área de atuação. Outras profissões, como fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos e enfermeiros, tiveram garantidas na lei o acesso a procedimentos como aplicação de injeções, coleta de material biológico, realização de alguns tipos de exames, curativos e, especialmente, atendimento de emergência. A preocupação dos deputados foi não permitir que pessoas que façam atendimentos de primeiros socorros sejam penalizadas por atendimento emergencial. A lei deve voltar ao Senado antes da aprovação definitiva, já que sofreu diversas alterações na Câmara e deve causar várias contestações judiciais de outras áreas da saúde.
Segundo o site da Câmara dos Deputados (link)
O projeto do Ato Médico (PL 7703/06) é polêmico porque dá aos médicos a exclusividade do diagnóstico e da prescrição dos tratamentos. Entidades representativas de outras áreas da saúde se opõem à proposta com o argumento de que a população tem o direito ao livre acesso aos profissionais da saúde, sem que tenham de passar obrigatoriamente por uma consulta médica. "Como admitir que os médicos façam a prescrição terapêutica em áreas do conhecimento (Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Fono- audiologia, Enfermagem, Nutrição, Educação Física, Serviço Social, Psicologia, Farmácia, Odontologia, Biomedicina) em que eles nunca tiveram qualquer tipo de treinamento?", questiona o presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional de São Paulo (Crefito-SP), Gil Lúcio Almeida, em manifesto publicado no site www.atomediconao.com.br. Tem preferência na votação do Plenário o texto aprovado no último dia 14 pela Comissão de Seguridade Social e Família. O texto lista o que é privativo dos médicos e o que não é privativo. Em recente debate na Câmara, o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Roberto Luiz d'Ávila, afirmou que sua entidade não aceita compartilhar a consulta, o diagnóstico e o tratamento com outros profissionais da área de saúde. O que pode ser compartilhado, segundo ele, é a prevenção, a promoção da saúde, a reabilitação e a recuperação. [Absurdo, não?] Saiba mais aqui.



Quem é contra este projeto corporativista e invasivo clique aqui e mande um e-mail aos deputados do seu estado.

domingo, 25 de outubro de 2009

Video da Semana - Dr. Katz

Profissão Repórter - Loucura (20/10)

O video abaixo contém o último episódio (de 20 de Outubro, terça-feira) do programa Profissão Reporter, da TV Globo, que tratou do "dia-a-dia de quem lida com doenças mentais no Brasil". Segundo o site G1 "Caco Barcellos revela histórias de moradores de rua de São Paulo afetados por transtornos mentais. Sua equipe percorre o manicômio mais antigo do país, o Hospital São Pedro, em Porto Alegre". Excelente programa, excelente episódio!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Saúde nos EUA: Obama x Extrema-Direita


Para quem quiser entender o atual conflito em torno da reforma (ou não) do sistema de saúde norte-americano indico, além do excelente documentário Sicko - SOS Saúde (do cineasta Michael Moore), o brilhante artigo, publicado semana passada pela Agência Carta Maior, "A fúria da Extrema Direita dos EUA contra Barack Obama" (clique aqui para ler). Simplesmente esclarecedor (e assustador)!!!


OBS: só para deixar claro: a imagem acima, com Obama, é uma ironia. Obama, nem de longe, é socialista. Mas é exatamente assim que a estúpida direita americana (e também a brasileira - vide Diogo Mainardi) o enxerga - ou quer que o povo americano enxergue, para que a necessária universalização do sistema de saúde vá por água abaixo...

Lançamentos Psi - Yalom e Shawn



Este mês foram lançados dois livros interessantíssimos. O primeiro é o livro "Vou chamar a polícia - e Outras histórias de terapia e literatura" (Ediouro, 264 páginas, R$49,90), do psiquiatra e psicoterapeuta americano Irvin Yalom, autor dos geniais Quando Nietzsche chorou, A cura de Schoppenhauer, Mentiras no divã, Os desafios da terapia (livro que ele comenta no video abaixo), O Carrasco do Amor, Mamãe e o sentido da vida e De frente para o sol. Todos magníficos!!! Segundo a revista Veja, o novo livro é uma junção de um conto com outro livro do autor: "Como Vou Chamar a Polícia é um pequeno conto, a Ediouro juntou ao texto uma obra lançada por Yalom nos Estados Unidos há cerca de dez anos, The Yalom Reader - O Leitor de Yalom, em tradução livre para o português. Nela, o autor analisa sua produção literária. 'É uma espécie de antologia minha', explica o prolífico terapeuta, que já trabalha em um novo projeto, um livro sobre - adivinhe - um filósofo: Bento de Spinoza". Para quem se interessar, no site da Veja há uma entrevista com o autor, além de um trecho de seu novo livro, cuja história-título retrata a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, "um drama vivido por seu amigo, o também médico, Robert Berger".

O segundo lançamento é o livro "Bem que eu queria ir" (Companhia das Letras, 312 páginas, R$48,00), do músico americano Allen Shawn, um fóbico generalizado. Segundo a resenha oficial:

Allen Shawn tem medo de muitas coisas, inclusive de altura, água, campos abertos, estacionamentos, túneis e estradas desconhecidas. Ele evita andar de metrô, usar elevadores ou atravessar pontes - ou seja, ele é agorafóbico, o que quer dizer que tem medo tanto de espaços públicos quanto de qualquer espécie de isolamento. Parte memória, parte investigação científica, parte reflexão, Bem que eu queria ir é um livro inusitado sobre a experiência de sentir medo. A busca por compreender suas próprias limitações levou Shawn a examinar as reminiscências da infância: nascido no seio de uma das mais prestigiadas famílias literárias dos Estados Unidos - seu pai era William Shawn, legendário editor da revista The New Yorker durante 35 anos, e seu irmão é o reconhecido dramaturgo e ator Wallace Shawn -, o autor sofreu a convivência traumática com uma irmã gêmea autista, que foi enviada para um lar especial quando eles tinham oito anos de idade, e o segredo da vida dupla do pai, que manteve durante décadas um relacionamento extraconjugal. Nesta arqueologia de suas fobias, Shawn se move agilmente entre a história pessoal e a ciência. Investiga o mundo das pessoas que estudam a psique e o comportamento humanos, tentando decodificar os modos de funcionamento do cérebro e da mente. Entre elas se incluem pesquisadores que procuram mapear a psicologia do medo, e psicólogos e psiquiatras que ainda lutam com o mistério que é a formação de nossos hábitos de pensamento e de comportamento. Ao fazê-lo, ele oferece ideias sensíveis a respeito do papel da dor, da natureza do medo e da definição de mortalidade. O livro honesto de Allen Shawn explora o mistério daquilo que nos torna o que somos, pelos caminhos da criação, da constituição genética ou de nossas próprias escolhas. De dentro do isolamento do medo, ele confronta a luta universal que é encararmos nossos fantasmas.

Este livro vem no encalço de vários outros auto-relatos de portadores de transtornos mentais: Demônio do meio-dia (de Andrew Solomon, sobre depressão), Memórias do Delírio (de LF Barros, sobre esquizofrenia), Não sou uma só, Uma mente inquieta e À espera do sol (sobre o transtorno bipolar), dentre muitos outros. Ler auto-relatos e autobiografias é uma excelente forma de entender determinado transtorno, não sob a fria perspectiva nosológica, mas sobre a intensa (e única) perspectiva subjetiva. Afinal, doenças são abstrações estatísticas. Pessoas são reais...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Perigos da obediência


Foi publicado ontem no jornal Folha de S. Paulo (mais especificamente no caderno Mais!) um artigo brilhante, do psicanalista Renato Mezan, que reproduzo na íntegra abaixo:

Perigos da Obediência

RENATO MEZAN

Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" -e haveria outras a lembrar.
Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.



O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".
Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.
Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.
Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.
Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.
Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.
Forças destrutivas
À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).
Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...
Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".
Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".
Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.
Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.
Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.
Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".
Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.
Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte. O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).


Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.
O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.
Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.
Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".
Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.


Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.
A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Procrastinação - p1



O problema é que, como diz a frase, "procrastinação é como masturbação. No começo é bom, mas depois você percebe que só está fodendo a si mesmo".

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Necessidade

"Pressiono barra por comida"

Aprendizagem

Homens (e mulheres) invisíveis



Estréia hoje na TV Globo a novela Cama de Gato, que terá uma personagem inspirada nas experiências descritas e analisadas pelo psicólogo Fernando Braga da Costa no excelente livro "Homens Invisíveis - Retratos de uma Humilhação Social" (Ed. Globo, 2004), fruto de sua tese de mestrado. Como na TV "nada se cria, tudo se copia", não é a primeira vez que este livro inspira um personagem de novela. Anteriormente deu origem a um personagem gari da eterna novela Malhação. A bola da vez é Rose, uma "faxineira invisível" interpretada pela talentosa atriz Camila Pitanga. Caracterizada como Rose, Camila não foi notada em um movimentado Shopping do Rio de janeiro, experiência que pode ser vista no video acima, do Fantástico de ontem. E ainda: “Eu andava no Projac vestida de faxineira e as pessoas não falavam comigo. Por um lado, isso é muito bom, porque o papel está crível. Mas ao mesmo tempo, é aterrador como se apaga a personalidade com o uniforme”, disse a atriz. Fernando Braga chegou à conclusão semelhante após trabalhar (e se vestir) como gari por cerca de 10 anos na USP, mesma instituição onde fez graduação, mestrado e doutorado em Psicologia. Segundo Braga, "o primeiro choque foi no primeiro dia, quando eu vesti o uniforme de gari e precisei passar dentro do Instituto de Psicologia. Passei por colegas de sala, professores que me chamavam pelo nome, e eles não me viram. Não é que eles fingiram que não me viram. Eles automaticamente me apagaram do campo de visão deles”. Para quem se interessar, o vídeo abaixo explora um pouco mais a questão dos “homens invisíveis”. Além disso, indico o artigo Humilhação Social - Um problema político em Psicologia, do pesquisador José Moura Gonçalves Filho, orientador da tese de Fernando sobre Invisibilidade Pública. Estas questões são muito importantes e devem ser extensamente debatidas. Não podem permanecer invisíveis...