quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Um breve guia para a obra de Oliver Sacks

Oliver Sacks nasceu no dia 9 de Julho de 1933 em Londres, na Inglaterra, e faleceu, em decorrência de um câncer, no dia 30 de Agosto de 2015 - há exatos 3 anos - aos 82 anos de idade, em Nova York, nos Estados Unidos. Entre estas duas datas, o neurologista e escritor  britânico - que adotou os Estados Unidos como lar - produziu uma obra rica, variada e extremamente sensível que ajudou a desvendar o funcionamento e os mistérios da mente e do cérebro humanos. Chamado pelo jornal New York Times de "poeta da medicina moderna", Sacks escreveu muito, escreveu sempre muito bem e com uma  erudição invejável e escreveu até o fim, deixando um legado importante que ainda será fonte de leitura e pesquisa por muitos e muitos anos. Fortemente influenciado por pensadores como Darwin, Freud, William James, Kurt Goldstein, Gerald Ederman, Stephen Jay Gould e, especialmente, pelo grande neuropsicólogo russo Alexander Luria, Sacks dedicou grande parte de sua obra à descrição minuciosa de sujeitos com distúrbios neurológicos e transtornos mentais graves. Seguindo diretamente os passos iniciados por Luria com seus clássicos A mente de um mnemonista (lançado no Brasil como A mente e a memória) e O homem com o mundo estilhaçado - livros nos quais Luria relata com um incrível nível de detalhamento a trajetória de dois sujeitos excepcionais -, Sacks descreveu seus pacientes neurológicos com uma precisão, uma profundidade e uma delicadeza impressionantes. 

E foi justamente esta delicadeza que fez toda a diferença, pois Sacks não se limitou a descrever objetivamente as áreas afetadas do cérebro e os comportamentos disfuncionais de seus pacientes, como fazem e já fizeram inúmeros neurologistas. Sacks foi muito além e tentou descrever também a subjetividade (e, portanto, a mente) de seus pacientes. Além disso ele não se focou apenas em seus sintomas e déficits mas também em suas forças e potências para enfrentar condições por vezes extremamente debilitantes. Finalmente, apesar de ser um neurologista, Sacks nunca reduziu o ser humano a seu cérebro e sempre defendeu uma visão e uma atuação holísticas, que levassem em conta a pessoa de uma forma integral - ou, como diria Goldstein, o organismo em sua totalidade. No final das contas, Sacks não produziu nenhuma descoberta significativa para o campo da neurologia nem concebeu uma teoria coesa sobre o funcionamento cerebral e a relação mente-cérebro, mas o que ele fez foi extremamente significativo e impactante: ele contou histórias, muitas histórias, belas e trágicas como a vida e, com isso, trouxe "romantismo" à medicina e à neurologia. Seguindo a famosa distinção estabelecida por Luria entre ciência tradicional e ciência romântica, é possível dizer que Sacks foi um cientista romântico - ou, mais precisamente, um neurologista romântico. Como apontou Luria em sua autobiografia intelectual A construção da mente, "os cientistas românticos não querem fragmentar a realidade viva em seus componentes elementares e tampouco representar a riqueza dos eventos concretos através de modelos abstratos que perdem as propriedades dos fenômenos em si mesmos [como os cientistas clássicos]. É de maior importância, para os românticos, a preservação da riqueza da realidade viva, e eles aspiram a uma ciência que retenha esta riqueza". Oliver Sacks, com seu "projeto" de uma neurologia da identidade, aspirou transmitir esta riqueza e, sem dúvida alguma, foi muito bem-sucedido em sua empreitada.

Ao longo de sua vida, Sacks publicou um total de treze livros, todos traduzidos e lançados no Brasil pela editora Companhia das Letras - alguns, infelizmente, estão esgotados. Após sua morte, em 2015, outros dois livros já foram lançados e futuramente outros serão, pois Sacks publicou inúmeros artigos e ensaios em jornais e revistas, que muito provavelmente serão compilados e transformados em livros. Sacks publicou seu primeiro livro em 1970 (Enxaqueca), quando tinha 37 anos de idade, e seu último em Abril de 2015 (sua autobiografia Sempre em movimento), aos 81 anos, quatro meses antes de falecer. Entre estas duas obras, Sacks escreveu extensamente sobre neurologia e neurociências, mas também discorreu sobre química, sobre botânica, sobre filosofia, sobre viagens, sobre a vida e sobre a morte. Numa tentativa de sistematizar a obra de Sacks é possível dizer que ele escreveu: 1) livros autobiográficos (Com uma perna só, Tio Tungstênio e Sempre em movimento); 2) livros com relatos de casos variados (O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Um antropólogo em marte e O olhar da mente) - os melhores livros do autor, na minha opinião; 3) livros temáticos (Enxaqueca, Tempo de despertar, Vendo vozes, Alucinações musicais e A mente assombrada); 4) livros com relatos de viagens (A ilha dos daltônicos e Diário de Oaxaca) e, finalmente, 5) livros com ensaios livres, publicados postumamente (Gratidão e O rio da consciência), totalizando quinze livros, que serão apresentados abaixo, seguindo a ordem de lançamento.

Enxaqueca
Título original: Migrane
Ano de lançamento: 1970

Sinopse oficial da editora: "Para a maioria de nós, a enxaqueca é apenas uma forte dor de cabeça que acomete periodicamente certas pessoas. Para Oliver Sacks, ela é muito mais do que isso. É, antes de tudo, um conjunto extremamente complexo e diversificado de síndromes entre as quais a dor de cabeça nem sempre está presente. Além disso, a enxaqueca pode nos fornecer pistas sobre algumas das questões mais fundamentais do ser humano. As diversas teorias sobre a origem e a natureza da enxaqueca são expostas no livro com clareza e profundidade. Para Sacks, os sintomas e as circunstâncias da enxaqueca devem ser não apenas minuciosamente descritos como também interrogados: o fundamental é o tipo de pergunta que um médico faz aos fenômenos que tem diante de si. Segundo Sacks, a pergunta crucial não diz respeito à doença que tal pessoa tem, mas à pessoa que tem tal doença. Primeiro livro de Sacks, Enxaqueca já contém todos os elementos que fizeram o sucesso de suas obras posteriores: conhecimento científico posto a serviço de um estilo único de narração capaz de transformar relatos clínicos em episódios de uma maravilhosa narrativa de suspense". Em sua autobiografia Sempre em movimento Sacks afirma o seguinte sobre a publicação desta obra: "Eu nunca vivera um sentimento tão forte, um sentimento de ter feito algo real e de algum valor, como senti com aquele primeiro livro".

Trecho do livro"Nossa visão da natureza mudou nos últimos vinte anos — passamos a reconhecer processos dinâmicos não lineares, processos caóticos e autoorganizadores em um vasto conjunto de sistemas naturais, e a perceber que esses processos têm um papel essencial da evolução do universo. Mas não precisamos ir muito longe na busca de exemplos - da agregação dos fungos do mofo aos movimentos de Plutão -, pois temos um laboratório natural, um microcosmo em nossa cabeça. É nesse sentido, finalmente, que a enxaqueca é fascinante, pois ela nos mostra, na forma de uma vitrine alucinatória, não só uma atividade elementar do córtex cerebral, mas todo um sistem auto-organizador, um comportamento universal em funcionamento. Revela-nos não apenas os segredos da organização neuronial, mas o coração criativo da própria natureza".

Tempo de despertar
Título original: Awekenings
Ano de Lançamento: 1973

Sinopse oficial da editora: "Usando uma nova droga, o neurologista Oliver Sacks conseguiu, entre 1969 e 1972, despertar vários pacientes de encefalite letárgica do estado em que viviam desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando ocorreu um surto da chamada "doença do sono".Tempo de despertar traz um minucioso relato das vivências desses pós-encefálicos - os labirintos interiores em que viviam, o mundo onírico a que estavam presos, a aflição que sentiam nos raros momentos de vigília -, formando um conjunto único de pequenos dramas. A destreza narrativa do autor já foi comparada com a que transparece nos casos clínicos contados por Freud (celebrizados por sua qualidade literária)". Este livro inspirou um maravilhoso filme de mesmo nome protagonizado pelos atores Robin Williams (que intepreta Sacks) e Robert De Niro e foi eleito pela revista The Guardian um dos 50 melhores livros de não-ficção de todos os tempos.

Trecho do livro: "A força do hábito e a resistência à mudança - como são em todas as esferas de pensamento - chegam ao auge na medicina, no estudo de nossos mais complexos sofrimentos e distúrbios do ser; pois somos aqui compelidos a investigar minuciosamente as partes que todos se empenham por negar ou não ver. Os pensamentos mais difíceis de compreender ou expressar são aqueles que tocam nossa zona proibida e reacendem em nós as mais intensas negações e as mais profundas intuições".

Com uma perna só
Título original: A leg stand on
Ano de lançamento: 1984
  
Sinopse oficial da editora: "Durante uma escalada solitária na Noruega, em 1974, o jovem neurologista Oliver Sacks depara-se com um enorme touro branco. Em pânico, dá meia volta, dispara pelo caminho inverso e um tombo faz com que sua perna esquerda fique seriamente avariada. Depois de uma cirurgia, a sensação é de que a perna se tornara "inexistente". O médico se transforma em paciente e é obrigado a aprender lições de passividade num leito de hospital. Sem poder andar, apartado da vida normal e isolado pela insensibilidade de colegas médicos, Sacks inicia um processo de autodiagnóstico. Decide então elaborar um relato provocativo sobre os padrões de atendimento do sistema de saúde, mas também um testemunho vivo e fluente sobre os mecanismos neuro-sensoriais responsáveis pela formação da "imagem corporal" - graças à qual sentimos que os membros fazem parte do corpo, formando um todo integrado. Para o leitor é a oportunidade de conviver com a intimidade de um homem de cultura, inteligência e sensibilidade únicas durante um dos momentos mais críticos - e férteis - de sua vida pessoal e profissional". 

Trecho do livro: "A neuropsicologia, como a neurologia clássica, visa ser totalmente objetiva, e sua grande força, seus avanços, provém justamente disso. Mas uma criatura viva, e especialmente um ser humano, é em seu todo ativa - um sujeito e não um objeto. É precisamente o sujeito, o 'eu' vivo, que está sendo excluído. A neuropsicologia é admirável, mas exclui a psiquê - exclui o 'eu'".

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu 
Título original: The man who mistooke his wife for a hat
Ano de lançamento: 1985

Sinopse oficial da editora: "O cientista e neurologista Oliver Sacks é também um excelente narrador, dono do raro poder de compartilhar com o leitor leigo certos mundos que de outro modo permaneceriam desconhecidos ou restritos aos especialistas. Em O homem que confundiu sua mulher com um chapéu estamos diante de pacientes que, imersos num mundo de sonhos e deficiências cerebrais, preservam sua imaginação e constroem uma identidade moral própria. Aqui, relatos clínicos são intencionalmente transformados em artefatos literários, mostrando que somente a forma narrativa restitui à abstração da doença uma feição humana, desvelando novas realidades para a investigação científica e problematizando os limites entre o físico e o psíquico". Em sua autobiografia Sempre em movimento, Sacks afirma o seguinte sobre a publicação desta obra: "com a súbita popularidade do Chapéu eu ingressara na esfera pública, quisesse ou não. Sem dúvida houve vantagens. De repente eu estava em contato com uma infinidade de gente. Tinha condições de ajudar, mas também de prejudicar. Não podia escrever mais como anônimo". 

Trecho do livro: "Uma doença nunca é uma simples perda ou excesso; existe sempre uma reação, por parte do organismo ou indivíduo afetado, para restaurar, substituir, compensar e preservar sua identidade, por mais estranhos que possam ser os meios; e estudar ou influenciar esses meios, tanto quanto o dano primário ao sistema nervoso, é uma parte essencial de nosso papel como médicos"; "A neurologia tradicional, por seu caráter mecânico, sua ênfase nos déficits, oculta a nós a verdadeira vida que impregna todas as funções cerebrais - pelo menos as funções superiores como imaginação, memória e percepção. Ela oculta de nós a própria vida da mente".

Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos
Título original: Seeing voices
Ano de lançamento: 1989

Sinopse oficial da editora: "'O que é necessário para nos tornarmos seres humanos completos? O que denominamos nossa humanidade dependerá parcialmente da linguagem? O que acontece conosco se não aprendermos língua alguma? A linguagem desenvolve-se de um modo espontâneo e natural ou requer contato com outros seres humanos?' Numa fascinante incursão pelo universo dos surdos, Oliver Sacks procura responder a questões como essas. Sua preocupação não é simplesmente apresentar ao leitor a condição daqueles que não conseguem ouvir. Acompanhando a história, os dramas e as lutas dessas pessoas, o leitor será levado a olhar para o seu próprio cotidiano de um modo inteiramente novo. Será capaz de ouvir, nos sons da linguagem, um pequeno milagre que se repete cada vez que uma nova sentença é proferida".

Trecho do livro: "O mundo surdo, como todas as subculturas, é formado em parte pela exclusão (do mundo ouvinte) e em parte pela constituição de uma comunidade e um mundo em torno de um centro diferente – seu próprio centro. No mesmo grau em que os surdos se sentem excluídos, podem sentir-se isolados, afastados, discriminados. Quando formam um mundo surdo, voluntariamente, espontaneamente, sentem-se a vontade nele, apreciam-no, veem-no com refúgio e um anteparo. Neste aspecto, o mundo surdo sente-se autossuficiente, não isolado – não anseia por assimilar ou ser assimilado; ao contrário, estima sua própria língua e imagens e deseja protegê-las".

Um antropólogo em marte
Título original: An Anthropologist on Mars
Ano de lançamento: 1995

Sinopse oficial da editora: "O que têm em comum o pintor que, em decorrência de um acidente, passa a enxergar o mundo em preto e branco, o rapaz cujas únicas lembranças se restringem ao final dos anos 60 e o exímio cirurgião tomado por todo tipo de tiques (verbais e físicos) na vida cotidiana? Para o neurologista Oliver Sacks, esses não são apenas casos clínicos extraordinários. Antes de mais nada, eles dizem respeito a indivíduos cujas vidas, pressionadas por situações-limites (por vezes trágicas, em geral dramáticas), podem nos ajudar a compreender melhor o que somos. Em Um antropólogo em Marte, Sacks confirma a originalidade de sua prosa, já consagrada em Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu. Uma prosa que dá ao relato clínico a dramaticidade de um verdadeiro gênero literário". Os casos descritos neste livro inspiraram dois filmes: À primeira vista (At first sight, 1999), baseado no capítulo Ver e não ver, e A música nunca parou (The music never stopped, 2011), baseado no capítulo O último hippie.  

Trecho do livro: "Esse sentido da notável maleabilidade do cérebro, sua capacidade para as mais impressionantes adaptações, para não falar nas circunstâncias especiais (e freqüentemente desesperadas) de acidentes neurológicos ou sensórios, acabou dominando minha percepção dos pacientes e de suas vidas. De tal forma, na realidade, que por vezes sou levado a pensar se não seria necessário redefinir os conceitos de "saúde" e "doença", para vê-los em termos da capacidade do organismo de criar uma nova organização e ordem, adequada a sua disposição especial e modificada e a suas necessidades, mais do que em termos de uma "norma" rigidamente definida. A enfermidade implica uma contração da vida, mas tais contrações não precisam ocorrer. Ao que me parece, quase todos os meus pacientes, quaisquer que sejam os seus problemas, buscam a vida - e não apenas a despeito de suas condições, mas por causa delas e até mesmo com sua ajuda".

A ilha dos daltônicos
Título original: The Island of the Colorblind
Ano de lançamento: 1997 

Sinopse ofocial da editora: "Em A ilha dos daltônicos, o cientista e neurologista Oliver Sacks comprova que é um homem que se apaixona, que possui uma inteligência intensamente refinada pelo trabalho e que é um excelente narrador. As narrativas deste livro nascem nos arquipélagos do Pacífico. De lá vêm reflexões sobre a natureza do tempo geológico profundo, a disseminação das espécies, a gênese das doenças. Vêm também histórias sobre as cicadáceas, teimosas plantas do período paleozóico, histórias de ilhéus que não conhecem o azul ou o verde do mar à sua volta, porque nascidos com uma incapacidade absoluta de ver as cores, histórias de uma paralisia neurodegenerativa que vitima apenas os membros de certo grupo social, os chamorros, nas ilhas Marianas". Em sua autobiografia, Sacks afirma o seguinte sobre esse livro: "A ilha dos daltônicos era diferente de qualquer livro anterior meu: mais lírico, mais pessoal. Em certos aspectos, continua a ser meu livro favorito". 

Trecho do livro: "Fui à Micronésia como neurologista ou neuroantropólogo com a intenção de ver de que maneira indivíduos e comunidades reagiam à condições endêmicas incomuns - uma cegueira total e hereditária para cores em Pingelap e Pohnpei, um distúrbio neurodegeneneativo progressivo e fatal em Guam e Rota. Mas também me prenderam a atenção a vida cultural e a história dessas ilhas, sua flora e fauna únicas, suas origens geológicas singulares. Se a princípio examinar pacientes, visitar sítios arqueológicos, perambular por florestas tropicais e mergulhar de snorkel nos recifes pareciam atividades sem relação umas com as outras, depois fundiram-se todas em uma experiência única e indivisível, uma imersão total na vida da ilha".

Tio Tungstênio: memórias de uma infância química
Título original:Uncle Tungstein
Ano de lançamento: 2001 

Sinopse oficial da editora: "A vida de Oliver Sacks é marcada por uma curiosidade fora do comum. Em Tio Tungstênio, ele relembra sua infância, impregnada de recordações sobre o comportamento misterioso dos materiais. Desconfiando de que existiam leis e fenômenos escondidos por trás do mundo visível, o jovem Oliver se perguntava: "Como o carvão podia ser feito da mesma matéria que o diamante? Do que eram feitos o Sol e as estrelas?".Cada etapa de suas descobertas sobre a luz, o calor, a eletricidade, a fotografia, o átomo, os raios X e a radioatividade é relembrada para conduzir o leitor pela história da química, apresentando as pesquisas e inovações de nomes como Lavoisier, Mendeleiev, Marie Curie, Robert Boyle e Niels Bohr, entre outros. A escrita envolvente de Sacks aproxima poesia e ciência por meio de recordações que são, a um só tempo, investigações intelectuais e episódios de amadurecimento afetivo.As invenções da infância - por exemplo, um experimento com rabanetes para tentar provar a existência de Deus - e os anos traumáticos de colégio interno contribuíram para que ele buscasse refúgio na prática científica. Nascido numa família de cientistas, Sacks encontrou incentivo para sua vocação. Tio Dave fabricava lâmpadas de tungstênio e, na cabeça fantasiosa do menino Oliver, tinha as mãos, os pulmões e os ossos encharcados do metal escuro e pesado. Para as crianças da família, tio Dave era dotado de força e resistência sobre-humanas - era o tio Tungstênio".

Trecho do livro: "A exploração química, a descoberta química era ainda mais emocionante por seus perigos. Eu sentia certo prazer pueril em brincar com aquelas substâncias perigosas, e me espantei, em minhas leituras, com a série de acidentes que haviam sofrido os pioneiros. Poucos naturalistas tinham sido devorados por animais selvagens ou morrido envenenados por plantas ou animais peçonhentos; poucos físicos haviam ficado cegos por olharem para o céu ou quebrado a perna num plano inclinado; mas muitos químicos haviam perdido olhos, membros e até mesmo a vida, geralmente ao produzirem inadvertidamente explosões ou toxinas".

Diário de Oaxaca
Título original: Oaxaca journal
Ano de lançamento: 2002

Sinopse oficial da editora: "Conhecido por seus relatos clínicos que desvendam grandes mistérios do cérebro humano, Oliver Sacks revela uma nova faceta em seu diário de viagem para o estado de Oaxaca, no México. Durante dez dias, acompanhou um grupo de botânicos e cientistas amadores interessados em conhecer o hábitat das samambaias mais raras do mundo.Entre descrições minuciosas da morfologia das plantas e uma ou outra digressão acerca de pássaros e tipos de solo, o texto concentra toda a sua força em desvendar um grande mistério da mente humana: a curiosidade científica. Ao observar de perto o comportamento de seus colegas de excursão, Oliver Sacks revela que a ciência, longe de ser uma seara de cálculos e experimentos, nasce do interesse genuíno e apaixonado de amadores, cuja erudição nem sempre supera a vontade de aprender e descobrir fatos novos.Os personagens que compõem a expedição são sui generis. O grupo é composto de tipos humanos diversos: homens e mulheres, americanos e ingleses, cientistas e curiosos circulam com desenvoltura por selvas e grutas, mas protagonizam cenas de verdadeira comédia ao tentar, sem sucesso, se imiscuir no cotidiano das cidades mexicanas por onde passam. É o caso da visita coletiva feita a um alambique onde se processa o mescal, bebida alcoólica extraída do agave, uma planta nativa que também dá origem à tequila. Levemente alterados pela degustação a que se submetem no maior “interesse científico”, os expedicionários terminam sentados em uma pequena planície das redondezas, uivando para a lua e se “perguntando como será que os lobos e os outros animais se sentiram quando a lua, a sua lua, lhes foi roubada”.Composto de uma gama variada de assuntos, Diário de Oaxaca versa ainda sobre a intimidade de Oliver Sacks, cujo mal-estar em relação aos meios oficiais e ultracompetitivos da ciência contemporânea fica evidente nas diversas passagens em que o autor externaliza sua admiração pelos amadores - classe de cientistas à qual, aliás, o livro é dedicado".

Trecho do livro: "Afastei-me um pouco do grupo e estou sentado a alguns metros de distcia deles, escrevendo em meu caderno. Quase sempre há essa duplicidade participante-observador, como se eu fosse uma espécie de antropólogo da vida, da vida terrestre, da espécie Homo sapiens (Talvez por isso eu tenha usado a expressão de Temple Grandin no título de Um antropólogo em Marte, pois tanto quanto ela sou uma espécie de antropólogo, um 'forasteiro'.) Mas, afinal, não é assim com todo escritor?"

Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro
Título original: Musicophilia
Ano de lançamento: 2007 

Sinopse oficial da editora: "A música é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis, e este livro do neurologista e escritor Oliver Sacks nos faz entender por quê. A exemplo de seus livros anteriores, entre os quais se destacam Tempo de despertar e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Sacks nos oferece aqui histórias musicais cheias de drama e compaixão humana envolvendo pessoas comuns ou portadoras de distúrbios neuroperceptivos.O que se passa com o cérebro humano ao fazer ou ouvir música? Onde exatamente reside o enorme poder, muitas vezes indomável, que a música exerce sobre nós? Essas são algumas das questões que Oliver Sacks explora, em seu estilo cativante, nesta admirável coletânea de casos, mostrando, por exemplo, como a música pode nos induzir a estados emocionais que de outra maneira seriam ignorados por nossa mente ou ainda evocar memórias supostamente perdidas nos meandros do cérebro.É impossível não se impressionar com a história do médico que experimenta, depois de atingido por um raio, uma irresistível compulsão por música de piano, a ponto de se tornar ele mesmo um pianista. Ou com os casos de "amusia", uma condição clínica que faz Mozart soar como uma trombada automobilística aos ouvidos da pessoa afetada. Sem contar as histórias de gente afetada dia e noite por alucinações musicais incessantes. O estudo de casos surpreendentes de pessoas com distúrbios neurológicos ou perceptivos ligados à música reitera a crença de Sacks em uma medicina que humaniza o paciente e tenta, junto com a abordagem clínica, integrar as dimensões psicológica, moral e espiritual tanto das afecções quanto de seu tratamento".

Trecho do livro: "A percepção da música e as emoções que ela pode despertar não dependem exclusivamente da memória, e a música não tem de ser conhecida para exercer poder emocional. Já vi pacientes com demência profunda chorar ou estremecer ao ouvir música que nunca tinham ouvido. Acho que eles podem vivenciar toda a gama de sentimentos ao alcance do resto de nós e que a demência, pelo menos nessas ocasiões, não é obstáculo para a profundidade das  emoções. Quem presencia tais respostas percebe que ainda  existe  um self que pode ser convocado, mesmo que só a música possa ser capaz de fazê-lo"

O olhar da mente
Título original: The mind's eye
Ano de lançamento: 2010

Sinopse oficial da editora: "Um escritor que perde a capacidade de ler. Uma pianista que confunde um guarda-chuva com uma cobra. Indivíduos que só enxergam imagens bidimensionais ou não reconhecem rostos. Nos casos relatados em O olhar da mente, do neurologista inglês Oliver Sacks, a ciência é sempre vista a partir da experiência humana. Nesse percurso se mesclam, de forma ao mesmo tempo rigorosa e afetiva, informações técnicas sobre distúrbios da memória, da fala e de outras funções cerebrais e a narrativa de suas consequências no dia a dia de pacientes e familiares.O que torna essas histórias tão saborosas, a despeito de sua inevitável dramaticidade - ou comicidade, em alguns momentos -, é o talento do autor para tratar de assuntos complexos em prosa lógica e cristalina. Também a erudição discreta de seus argumentos, capazes de incorporar em discussões sobre fisiologia cerebral um poema de John Milton, um quarteto de Haydn, considerações sobre a fotografia estereoscópica, a teoria da linguagem de Noam Chomsky. “Aprendi a olhar para o sofrimento em termos humanos mais amplos”, disse Sacks numa entrevista, referindo-se ao resultado de seu convívio, ainda estudante de medicina, com poetas como W. H. Auden. “A olhar para dilemas, situações - não apenas para doenças.”Aos poucos, os casos de O olhar da mente - quase todos concentrados em problemas de visão - ganham certa familiaridade e convergem para aquele que parece ser o seu grande mote: o câncer que o próprio Sacks teve num dos olhos, e que o faz sair da condição de médico para enfrentar a angústia, a insegurança e os medos comuns de um paciente. “Este é o Natal mais desolador que já passei”, escreve. “O New York Times de hoje traz fotos e histórias de várias personalidades que morreram em 2005. Estarei nessa lista em 2006?”Nesse mergulho pessoal corajoso, que não abre mão da crueza e da autoironia, análise e experiência se fundem para traçar contornos originais do antigo - e ainda hoje complexo - dilema entre mente e cérebro. “Até que ponto somos os autores, os criadores das nossas sensações? Quanto elas são predeterminadas pelo cérebro ou pelos sentidos com que nascemos, e em que medida moldamos nosso cérebro através do que vivenciamos?”

Trecho do livro: "Em décadas recentes a neurociência confimou que o cérebro possui mais capacidades de restauração e regeneração do que antes se acreditava. Há também muito mais 'plasticidade', uma maior capacidade de áreas intactas para assumir algumas das funções das áreas lesadas se o dano não for demasiado extenso. E cada indivíduo possui suas capacidades de adaptação, de encontrar modos novos ou diferentes de fazer coisas quando o modo original deixa de estar disponível" (do ensaio Chamada de volta à vida)

A mente assombrada
Título original: Hallucinations
Ano de lançamento: 2012

Sinopse oficial da editora:  Você já viu algo que não estava realmente lá? Ouviu alguém chamar seu nome em uma casa vazia? Sentiu que havia alguém atrás de você e se virou para encontrar nada?As alucinações não pertencem inteiramente ao campo da loucura. Frequentemente, estão ligadas a privações sensoriais, intoxicações, doenças ou lesões. Pessoas que sofrem de enxaqueca podem ver arcos brilhantes ou pequenas figuras humanas e de animais. Ao mesmo tempo, deficientes visuais podem viver imersos em um mundo visual alucinatório. As alucinações podem ser provocadas por uma simples febre ou até mesmo pelos prosaicos atos de despertar e adormecer, em imagens que vão de manchas coloridas a belos rostos ou monstros terríveis. Pessoas de luto podem receber reconfortantes “visitas” de entes queridos. Em alguns casos, as alucinações levam a epifanias religiosas ou até mesmo à sensação de se deixar o próprio corpo.Por milhares de anos essas visões intrigaram e seduziram a humanidade, e não foram poucos os que usaram compostos alucinógenos para alcançá-las. Como um jovem médico na Califórnia da década de 1960, o interesse de Oliver Sacks por psicodélicos era tão profissional quanto pessoal. Foi essa inquietação, ao lado de suas experiências iniciais com a enxaqueca, que o lançou em uma investigação de vida inteira sobre as variações e os desdobramentos da experiência com as drogas.Em A mente assombrada, Sacks - com a elegância, curiosidade e compaixão que marcam sua obra - entrelaça histórias de seus pacientes com as próprias experiências para mostrar o que as alucinações nos dizem sobre a organização e a estrutura de nosso cérebro, como elas influenciaram a cultura, o folclore e a arte. Em suma, como o potencial para a alucinação que reside em todos nós é parte vitalda condição humana.

Trecho do livro: "muitas alucinações parecem ter a criatividade da imaginação, dos sonhos ou da fantasia – ou os vívidos detalhes e a externalidade da percepção. Mas uma alucinação não é nenhuma dessas coisas, embora possa ter alguns mecanismos neurofisiológicos em comum com cada uma delas. Alucinação é uma categoria única e especial da consciência e da vida mental".

Sempre em movimento - Uma vida
Título original: On the move
Ano de lançamento: 2015

Sinopse oficial da editora: "Quando Oliver Sacks tinha doze anos, um professor bastante sagaz escreveu num relatório: “Sacks vai longe, se não for longe demais”. Hoje está absolutamente claro que Sacks jamais parou de ir. Desde as primeiras páginas deste comovente livro de memórias, em que relata sua paixão de juventude pelas motos e pela velocidade, Sempre em movimento parece estar carregado dessa energia. Conforme fala de sua experiência como jovem neurologista no início dos anos 1960 - primeiro na Califórnia, onde lutou contra o vício em drogas, e depois em Nova York, onde começa a despontar como pesquisador -, vemos como sua relação com os pacientes veio a definir sua vida.A ideia de estar sempre em movimento alimentou não apenas suas pesquisas, mas também sua vida. Quando revelou à família que era homossexual, ouviu de volta da mãe que ele era “uma abominação”. A mãe foi eventualmente perdoada, mas a sentença o fez abandonar a Inglaterra e o colocou na estrada. Nessas viagens, cruzando de ponta a ponta um país tão familiar quanto estrangeiro, surge o médico que viemos a conhecer: apaixonado, obstinado e perpetuamente curioso com o mundo.Com a honestidade e o humor que lhe são característicos, Sacks nos mostra como a mesma energia que motiva suas paixões “físicas” - levantamento de peso e natação - alimenta suas paixões cerebrais. Ele escreve a respeito de seus casos de amor, tanto os românticos quanto os intelectuais, sobre a culpa de abandonar a família para ir aos Estados Unidos, sua ligação com o irmão esquizofrênico e os escritores e cientistas que o influenciaram - Thom Gunn, A. R. Lúria, W. H. Auden, Gerald M. Edelman, Francis Crick. Sempre em movimento é a história de um pensador brilhante e nada convencional, o homem que iluminou as muitas formas com que o cérebro nos faz humanos". 

Trecho do livro: "Sou um narrador, um contador de histórias. Desconfio que o gosto pela narrativa é uma disposição humana universal, que acompanha as nossas capacidades de linguagem, de consciência de si e de memória autobiográfica.  O ato de escrever, quando dá certo, me dá um prazer, uma alegria como nada mais na vida. Leva-me para outro lugar - seja qual for o assunto -, onde fico totalmente absorvido, alheio a distrações, preocupações, inquietações ou mesmo passar do tempo. Nesses estados de espírito raros, celestiais, posso escrever ininterruptamente até não conseguir mais enxergar o papel. Só então percebo que anoiteceu e que escrevi o dia inteiro. Ao longo da vida, escrevi milhões de palavras, mas o ato de escrever continua tão fresco e tão divertido como na época em que comecei, há quase setenta anos".

Gratidão
Título original: Gratitude
Ano de lançamento: 2015

Este pequeno livro, publicado postumamente, consiste de quatro ensaios escritos nos dois últimos anos de vida de Sacks - denominados Mercúrio, My own life, Minha tabela periódica e Shabat - e que versam, dentre outros, sobre os temas do envelhecimento e da morte. O destaque fica para o comovente ensaio My own life, publicado originalmente pelo jornal New York Times no dia 19 de Fevereiro de 2015, no qual Sacks tornou pública a proximidade de sua morte e se despediu do mundo, com gratidão por tudo o que viveu. Uma bela despedida!

Trecho do livro: "Não consigo fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado, recebi muito e dei algo em troca, li, viajei, pensei, escrevi. Tive meu intercurso com o mundo, o intercurso especial dos escritores e leitores. Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal que pensa, neste belo planeta, e só isso já é um enorme privilégio e uma aventura" (do ensaio My own life)

O rio da consciência
Título original: The River of Consciousness
Ano de lançamento: 2017

Nesta coletânea de dez ensaios lançada dois anos após sua morte, Sacks discorre sobre temas variados que vão desde o interesse de Darwin pelas flores, a aproximação inicial de Freud com a neurologia e a teoria da consciência de William James (em uma ensaio que dá título ao livro) até temas inusitados como sua fascinação pela velocidade, a vida mental de plantas e minhocas, a falibilidade da memória, enganos auditivos,  criatividade, a sensação de desordem, etc. De acordo com o prefácio do livro, duas semanas antes de sua morte, "Sacks esboçou os conteúdos de O rio da consciência, o último livro sob sua supervisão". 

Trecho do livro: "Ao que parece, a mente ou o cérebro não possui um mecanismo para assegurar a verdade, ou pelo menos o caráter verídico das nossas recordações. Não temos acesso direto à verdade histórica, e o que sentimos ou afirmamos ser verdade depende tanto da nossa imaginação como dos nossos sentidos. Não existe nenhum modo pelo qual acontecimentos do mundo possam ser transmitidos ou registrados diretamente no cérebro: eles são experimentados e construídos de um modo acentuadamente subjetivo que, para começar, é diferente em cada indivíduo, e além disso são reinterpretados ou novamente experimentados de forma diferente toda vez que a pessoa as recorda. Nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos - as histórias que recategorizamos e refinamos continuamente. Essa subjetividade é embutida na própria natureza da memória e decorre de sua base e dos mecanismos que possuímos no cérebro" (do ensaio A falibilidade da memória).

quarta-feira, 2 de maio de 2018

10 livros para entender o funcionamento da memória

Já  tratei do tema da memória inúmeras vezes neste blog, assim como de outros temas relacionados às áreas da psicologia cognitiva e neurociências. Gostaria agora de indicar uma série de livros, todos publicados no Brasil (alguns esgotados na editora, infelizmente, mas disponíveis em sebos virtuais), que qualquer pessoa que se interesse em compreender o funcionamento da memória humana pode buscar para ampliar seu conhecimento sobre o assunto. Certamente, todos os anos são lançados inúmeros livros sobre o tema, em especial manuais de auto-ajuda que prometem "potencializar sua memória", no entanto, a grande maioria desses livros é simplesmente lixo ou "mais do mesmo" e raramente trazem discussões aprofundadas e consistentes sobre a psicologia e a neurobiologia da memória. Já os livros abaixo certamente trazem importantes contribuições para o entendimento deste complexo e multifacetado tema.

1-  Memória (Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia) - L&PM, 2011.

Este pequeno livro lançado pela editora L&PM em 2011 é uma ótima introdução ao tema, talvez a melhor disponível no Brasil. Escrito pelo pesquisador Jonathan K. Foster, que é também professor de neuropsicologia clínica e neurociência comportamental na Universidade de Curtin, na Austrália, esta tradução do livro Memory: a very short introduction passa pelas principais questões relacionadas ao tema, como os diferentes tipos de memória, suas bases neurobiológicas, as imprecisões e os distúrbios mnemônicos, etc. Trata-se de uma pequena mas consistente obra, extremamente indicada para aqueles que pretendem iniciar neste tema.

2- Psicologia cognitiva - Artmed, 2016.

Escrito pelo psicólogo Robert Sternberg em parceria com sua esposa, a também psicóloga Karin Sternberg, este manual básico sobre a área da psicologia cognitiva é um ótimo material para quem pretende entender de uma forma um pouco mais aprofundada o funcionamento da memória humana, tema que livro dedica dois capítulos. Importante destacar que estes capítulos se focam na psicologia da memória e não tanto na neurobiologia da memória. Portanto, caso seu interesse seja entender as bases cerebrais da memória existem outros livros mais adequados, como "Em busca da memória" e "Presente permanente", que apresentarei brevemente abaixo.

3- Em busca da memória - Companhia das Letras, 2009.

Este livro clássico, infelizmente esgotado no Brasil e disponível apenas por valores altíssimos em sebos virtuais, foi escrito pelo neurocientista, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, Eric Kandel. Trata-se de uma obra fundamental para todo e qualquer estudioso da memória. Em um calhamaço de mais de 500 páginas, Kandel nos conta sua trajetória pessoal e acadêmica ao mesmo tempo em que descreve as pesquisas sobre o funcionamento cerebral realizadas ao longo dos séculos XIX e XX. Em especial ele narra em detalhes a evolução de sua pesquisa com o molusco Aplysia californica, que revolucionou os estudos cerebrais sobre a memória.

OBS: há um interessante documentário baseado neste livro, disponível legendado aqui.

4- A arte e ciência de memorizar tudo - Nova Fronteira, 2011.

Neste maravilhoso livro lançado em 2011 no Brasil - e infelizmente esgotado - o jornalista Joshua Foer traz um ensaio autobiográfico delicioso sobre o funcionamento da memória. Seu bizarro título original, Moonwalking with Einstein [Dançando Moonwalk com Einstein], acabou por ser ignorado pelos editores brasileiros, que optaram por transformar o subtítulo em título. Na resenha do livro que publiquei no ano de seu lançamento eu apontei: "o mais interessante do livro é que o relato de sua jornada é entrecortado por explicações sobre o funcionamento da memória, entrevistas com pessoas com memórias excepcionais e com amnésias severas, discussões históricas sobre o tema, além de algumas técnicas para melhorar a memória".

OBS: assista aqui uma interessante palestra, legendada, do autor deste livro.

5- Os sete pecados da memória - Rocco, 2003.

Escrito por Daniel Schacter, professor e pesquisador na Universidade de Harvard - e uma das maiores autoridades do mundo no estudo da memória - este livro trata das falhas "normais" da nossa memória, isto é, daquelas falhas não-patológicas que acometem todas as pessoas. Schacter aponta para sete falhas ou transgressões, que ele denomina ironicamente de "pecados": a transitoriedade, a distração, o bloqueio, a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a persistência - neste post é possível encontrar uma breve definição de cada um destes pecados. Enfim, neste livro excepcional, o pesquisador analisa em detalhes as principais falhas de nossa memória apontando ainda para a importância fundamental do esquecimento.

6/7- O gorila invisível - Rocco, 2011/ O Rio da consciência - Companhia das Letras, 2018.


No sensacional livro O gorila invisível, lançado em 2011 no Brasil, os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons analisam diversos "equívocos da intuição", dentre eles, no segundo capítulo, a chamada "ilusão da memória" - que não coincidentemente, é o título de um post que publiquei em 2017. De uma forma resumida é possível dizer que o segundo capítulo deste livro, denominado "O técnico que esganou", trata da questão das falsas memórias, mesmo tema, aliás, de um ótimo ensaio de Oliver Sacks, "A falibilidade da memória", publicado postumamente no livro O Rio da consciência. Estes dois ensaios tratam com brilhantismo da natureza construtiva das nossas memórias.

8- Presente permanente - Record, 2018.

Lançado no início de 2018 no Brasil, este livro - talvez o grande lançamento do campo das neurociências este ano no país - foi escrito pela renomada neurocientista Suzanne Corkin, falecida em 2016. Nesta obra de peso, Corkin faz uma narrativa completa e profunda dos mais de 50 anos de pesquisa com o paciente H.M. - que após sua morte, em 2008, descobrimos se chamar Henry Molaison. Se você já leu algum livro sobre o funcionamento da memória é muito provável que ele tenha mencionado H.M., um sujeito epilético que aos 27 anos de idade foi submetido a uma neurocirurgia que lhe retirou o hipocampo, dentre outras partes de seu cérebro, e que, desde então, nunca mais conseguiu formar novas memórias - vivendo, desde 1953, em um "presente permanente". Em seu maravilhoso livro, Corkin relata a fundamental importância das pesquisas com Henry para o avanço da compreensão científica sobre o funcionamento das nossas memórias. Afirma Corkin sobre Henry: "sua tragédia tornou-se um presente para a humanidade. Ironicamente, ele nunca será esquecido".

9/10- A mente e a memória/ O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Cada um destes dois livros traz um relato de caso de certa forma oposto ao outro. No primeiro, um clássico do neuropsicólogo russo Alexander Luria, publicado em 1968 com o título original de The mind of a mnemonist [A mente de um mnemonista], encontramos um relato incrivelmente detalhado de um sujeito, chamado por Luria simplesmente de S., que possuia uma memória infalível e ilimitada. Importante destacar que Luria possui um outro livro de relato, denominado O homem com o mundo estilhaçado, que apresenta um sujeito que, na contramão de S. teve um severo comprometimento cognitivo, inclusive mnemônico, em função de uma lesão de guerra. Já o segundo livro, um clássico do neurologista Oliver Sacks publicado originalmente em 1985, somos apresentados, no segundo capítulo, ao caso do "Marinheiro perdido", um sujeito que devido à Síndrome de Korsakov desenvolveu uma severa amnésia que, tal qual H.M., o impediu de formar novas memórias. Todos estes casos ilustram com brilhantismo o funcionamento normal e anormal da memória.

OBS: O ensaio "O marinheiro perdido" inspirou um belo curta-metragem de animação. Veja aqui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Atiradores em escolas: como explicar o inexplicável?

Cena do filme "Elefante" de Gus van Sant
Basta que um jovem entre em uma escola atirando - como ocorreu esta semana nos Estados Unidos, mais uma vez - para que apareça na mídia um monte de gente, inclusive psicólogos e psiquiatras, culpando o bullying e os games violentos pela situação. Muita calma nessa hora, pessoal! Não sejamos tão simplistas, afinal de contas, muitas pessoas sofrem ou sofreram bullying e jogam games violentos e não saem por aí atirando em pessoas. Eu mesmo sofri bullying na escola por muitos e muitos anos e joguei video games violentos por toda a infância e adolescência... e eu nunca entrei na minha escola atirando nas pessoas; nem outros colegas que também sofreram bullying; e nem a absoluta maioria das pessoas que sofre bullying e joga games violentos. Veja bem que eu não estou dizendo com isso que o bullying seja algo aceitável e nem que os jogos violentos não possam ter algum impacto negativo, mas que tais explicações são insuficientes. Em algum momento é preciso admitir que nestes e em outros casos, não há propriamente uma explicação. Podemos apontar milhares de explicações mas elas nunca serão suficientes, pois cada explicação isoladamente nunca explicará completamente (e muito menos justificará) uma atitude dessas. Eventos como esse, além de imprevisíveis, são, em grande medida, inexplicáveis.

Cena do Massacre em Columbine, em 1999
É possível também atribuir a culpa de tais episódios a problemas familiares, transtornos mentais e ainda ao acesso facilitado a armas. Certamente, todos estes elementos podem contribuir, mas nenhum sozinho tem a capacidade de explicar. Afinal de contas, todas as pessoas possuem, em alguma medida, problemas familares e inúmeras foram diagnosticadas com transtornos mentais - e somente uma ínfima parcela delas sai por aí atirando em outras pessoas. O acesso às armas também ajuda a explicar os episódios de tiroteio em escolas, mas mesmo este elemento não é decisivo. Certamente, um acesso facilitado a armas, como ocorre na maior parte dos Estados Unidos, contribui para o problema na medida em que diminui a dificuldade do sujeito para encontrar uma arma, mas se o acesso é facilitado para ele, também é facilitado para todos os demais jovens que não entram na escola atirando nos colegas. Regulamentar e restringir o acesso a armas muito provavelmente contribui para a prevenção de inúmeras situações, mas infelizmente isto não impede que outras aconteçam de tempos em tempos. E o motivo é simples: mesmo em países com regulamentações mais severas, como é o caso do Brasil, é possível que o sujeito consiga ilegalmente uma arma. Mas o que fazer, então? Simplesmente cruzar os braços e esperar o próximo tiroteio? De forma alguma! Muitas coisas podem ser feitas: trabalhos de prevenção e combate ao bullying nas escolas, intervenções psicossociais junto aos estudantes e suas famílias, regulamentação e restrição ao porte de armas, etc. Tudo isso pode contribuir e de fato contribui para a prevenção de inúmeros episódios (que deixaram de ocorrer) mas infelizmente não há nada infalível que possa ser feito para acabar definitivamente com o problema - ainda mais porque, assim como o suicídio, um caso acaba por servir de inspiração ou modelo para o outro. A grande questão é que situações com múltiplas causas, individuais e sociais, são também, por sua própria natureza, incontroláveis e imprevisíveis.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O fim da Psicologia está próximo?

No ano passado, um antigo professor meu, que deixou o Brasil para trabalhar em uma universidade norte-americana, comentou em uma palestra que tem observado uma curiosa (e perigosa) preponderância dos estudos cerebrais nos departamentos de Psicologia dos Estados Unidos - em detrimento de estudos "mentais" e comportamentais, por exemplo. Segundo ele, dificilmente um projeto de pesquisa em psicologia consegue um financiamento significativo caso não mencione a palavra "cérebro". Na mesma direção, os autores deste artigo apontam para um curioso fenômeno no qual os departamentos de Psicologia de universidades norte-americanas vem gradualmente alterando os próprios nomes de forma a incluir o foco nas neurociências. Assim, é possível encontrar, atualmente, em prestigiosas universidades americanas não mais "departamentos de psicologia" mas sim "departamentos de psicologia e ciências cerebrais" ou "departamentos de psicologia e neurociências". De uma forma geral, os autores apontam, com preocupação, que a psicologia, nos últimos 20 anos, "adotou cada vez mais o cérebro como o mais importante nível de análise para a compreensão de fenômenos psicológicos, como as emoções, os pensamentos, os distúrbios de humor e ansiedade, os vícios e os problemas sociais". E isto, na visão deles, é muito danoso, pois reduz o foco da psicologia apenas a um nível de análise, quando há muitas outras formas e abordagens para se estudar o ser humano. No Brasil, talvez pela considerável força e presença da psicanálise e dos psicanalistas nos cursos de psicologia - e também, minoritariamente, dos humanistas e comportamentalistas - este processo vem ocorrendo de forma muito mais lenta - isto para não falar do alto custo dos estudos cerebrais associado ao baixo investimento governamental em pesquisa nos últimos anos. 

De toda forma, esta expansão das abordagens "neuro" no interior das áreas "psi" (que inclui também a psiquiatria) vem gerando preocupação em alguns pesquisadores, que especulam que em algum momento a neurociência poderá "engolir" a psicologia - se não totalmente, pelo menos hegemonicamente. E com isso, a psicologia, uma disciplina híbrida que historicamente oscila entre abordagens mais biológicas e abordagens mais psico-sociológicas, se inclinaria fortemente para a biologia. Para alguns, isto significaria o fim da psicologia como atualmente a entendemos; já para outros seria uma oportunidade para a psicologia se reinventar e se tornar de fato uma disciplina científica. Analisemos, por exemplo, o artigo  The imminent decline of psychology (as we know it today) (2017) [O iminente declínio da Psicologia (como a conhecemos hoje)], escrito pela psicóloga Jesús Retto, do departamento de Psicologia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, no Peru. De acordo com a autora, "o vertiginoso avanço tecnológico no campo da Inteligência Artificial, juntamente com a rápida expansão das Neurociências, está gradualmente tirando o lugar dos vários campos de estudo da Psicologia. Tanto que o seu desaparecimento - como a conhecemos hoje - é previsível em um futuro não muito distante, tanto como disciplina quanto como profissão". Para Retto, diante deste cenário apocalíptico para a Psicologia, a única saída é que os psicólogos se adaptem à nova realidade e busquem incorporar em seus estudos e práticas profissionais os conhecimentos advindos das ciências do cérebro. Em sua visão, a neurociência tem a capacidade de "oferecer melhores respostas" do que a Psicologia para os problemas referentes à psiquê humana, tanto em função de sua natureza multidisciplinar quando devido aos recursos tecnológicos que ela possui.

Como vocês já devem estar imaginando, eu discordo veementemente desta posição, pois acredito - como já defendi em outros momentos - que as áreas da psicologia e da neurociência podem e devem coexistir e colaborar uma com a outra. Não é necessário, nem me parece sensato acreditar, que uma área venha a substituir ou subjugar a outra, afinal cada uma tem suas especificidades, seus objetivos e seus métodos e ambas podem trazer contribuições importantes para o desenvolvimento de teorias interdisciplinares sobre a complexa relação mente-cérebro-comportamento. A neurociência cognitiva, por exemplo, sendo a sub-área da neurociência que se ocupa dos mecanismos biológicos relacionados aos processos cognitivos (memória, atenção, percepção, etc) tem muito a ganhar ao se aproximar e dialogar com a psicologia cognitiva, sub-área da psicologia que investiga os mesmos processos de um ponto de vista mental e comportamental. E vice-versa. Isoladamente, cada área ou subárea consegue investigar apenas um determinado nível da realidade, mas juntas elas podem construir conhecimentos mais profundos e relevantes sobre a cognição humana. Como defendem os autores do importante artigo The role of neuroscience within psychology: A call for inclusiveness over exclusiveness (2016) [O  papel da neurociência dentro da psicologia: um chamado para a inclusão acima da exclusividade] o conhecimento neurocientífico tem muito a contribuir e a somar com a psicologia na medida em que possibilita a análise das bases cerebrais dos pensamentos, emoções e comportamentos humanos. Como apontam os pesquisadores, "a neurociência é um componente essencial da psicologia porque ela nos permite entender o funcionamento do cérebro, os efeitos das lesões cerebrais no funcionamento psicológico e neurológico e as regiões e processos associados com atividades mentais específicas". Mas a grande questão é que este é apenas um olhar ou um nível de análise possível, dentre muitos outrosImaginar, neste sentido, que a psicologia chegará a um fim, sendo gradualmente substituída pelas neurociências, só faz sentido caso se acredite que estudar os neurônios, sinapses e circuitos cerebrais seja suficiente para se entender a mente e o comportamento humanos. Da mesma forma, imaginar que a profissão de psicólogo chegará a um fim, sendo substituída por uma espécie de neuropsiquiatria clínica, só faz sentido caso se acredite na existência, ou na possibilidade de desenvolvimento, de medicações ou intervenções puramente cerebrais capazes de dar conta das angústias, tristezas e demais questões inerentes à subjetividade humana. Eu, definitivamente, não acredito nisso. E você?

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"O cérebro vai ao tribunal": reflexões a partir do caso do motorista epilético

No último dia 18 de Janeiro um motorista perdeu o controle do carro e invadiu o calçadão da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, matando um bebê de 8 meses e deixando 17 pessoas feridas. Posteriormente descobriu-se que o motorista, que sobreviveu sem ferimentos, é epilético e teria tido, segundo seu próprio relato, confirmado por uma testemunha-chave, um ataque epilético enquanto dirigia naquele dia, o que teria causado o acidente. De toda forma, o motorista está sendo processado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e também por falsidade ideológica, devido ao fato de não ter mencionado sua doença no processo de renovação da carteira de motorista. Pra piorar sua situação descobriu-se que sua habilitação estava suspensa devido ao fato de que, em cinco anos, ele acumulou 14 multas e 62 pontos na carteira - o motorista alega não ter sido informado desta suspensão. Pois bem, se realmente for comprovado que ele tinha ciência da suspensão e que intencionalmente não mencionou ser portador de epilepsia no formulário para renovação da carteira, eu não tenho dúvidas que ele tem alguma responsabilidade no acidente, ainda que não tenha responsabilidade sobre o ataque epilético, se de fato ele ocorreu. Segundo as normas de trânsito brasileiras, uma pessoa diagnosticada com epilepsia pode sim dirigir, desde que a pessoa esteja se medicando corretamente e o quadro esteja controlado. De acordo com este site, "pacientes epiléticos que apresentam crises frequentes ou com intervalos inferiores a 1 ano não devem dirigir e estão impossibilitados de tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH)". Cabe apontar que para esta avaliação ser feita é necessário, antes de tudo, que a pessoa indique no formulário específico ser portadora de epilepsia. A partir daí, uma serie de avaliações médicas serão feitas ou exigidas de forma a avaliar, caso a caso, a gravidade da situação. 

Agora, vamos supor que o motorista em questão tenha de fato mencionado sua doença no questionário e sua avaliação tenha sido positiva, permitindo que ele tirasse a carteira de motorista e dirigisse por aí. Vamos supor ainda que o motorista estivesse tomando corretamente as medicações indicadas  e que, mesmo assim, ele tivesse tido o ataque epilético na Avenida Atlântica e atropelasse, no mesmo dia, as mesmas pessoas. Neste caso ele poderia ser considerado culpado da situação? Seu advogado de defesa certamente argumentaria - como provavelmente irá argumentar - que o acidente ocorreu devido a uma alteração elétrica no seu cérebro, sobre a qual ele não possui qualquer controle ou responsabilidade. "A culpa é do cérebro doente do meu cliente, meritíssimo, não do meu cliente", ele poderia argumentar. Se o juiz ou o júri seriam convencidos por esta alegação é uma outra história, mas é um fato estabelecido que tais argumentações focadas no funcionamento "anormal" do cérebro tem sido cada vez mais utilizadas nos tribunais, especialmente por advogados de defesa. Parodiando o título do meu primeiro livro, é possível dizer que atualmente o cérebro vai ao tribunal - cada vez mais. E por que isso tem ocorrido? Um dos motivos é que todo conhecimento ao qual é atribuído a alcunha de científico goza de mais legitimidade no mundo contemporâneo do que outras formas de conhecimento - como o filosófico e o artístico, por exemplo. Assim, a neurociência, sendo a ciência que se dedica ao estudo do sistema nervoso, tem sido cada vez mais vista por advogados e juristas como uma importante fonte de dados capaz de explicar o comportamento humano  - há algumas décadas eram a psicologia e à psicanálise que ocupavam esse lugar. Um segundo motivo, relacionado a este, é que o conhecimento neurocientífico é comumente utilizado não somente para explicar mas também para justificar determinado comportamento. Advogados de defesa frequentemente argumentam que seu cliente cometeu certo delito ou crime em decorrência de determinada "lesão", "disfunção"  ou "desequilíbrio" em seu cérebro, que "fez" com que ele se comportasse - ou não se comportasse - de determinada maneira. A ideia, neste caso, é inverter a lógica, e transformar um suposto culpado em vítima de algo que ocorreu dentro do seu cérebro - e, portanto, fora do seu controle.

Em alguns casos, certamente, isto faz sentido. Por exemplo, em um caso bastante citado na literatura neurocientífica, um homem passou de uma hora para outra a se interessar sexualmente por crianças. Posteriormente descobriu-se que o sujeito possuía um enorme tumor em seu lobo frontal, área relacionada, dentre outras coisas, ao controle de impulsos. O tumor foi retirado e o sujeito deixou de manifestar desejos e comportamentos pedófilos. Um outro caso, ficcional mas baseado em alguns casos reais, pode ser encontrado no filme Terapia de risco (que já analisei aqui), no qual uma mulher mata o marido durante um episódio de sonambulismo. Nestes dois casos, os sujeitos até podem ser punidos pelos atos ilícitos, no entanto me parece bastante claro que eles de fato não tinham total controle dos próprios comportamentos - no segundo caso menos ainda, pois a "criminosa" estava inconsciente. O mesmo parece valer para todos aqueles que cometeram crimes durante surtos psicóticos ou como consequência de transtornos psiquiátricos e neurológicos graves. Caso o advogado consiga provar que o sujeito não tinha consciência do que fez e de que tal ato era errado ele pode ser considerado inimputável, isto é, sobre ele não pode ser imputado ou atribuído nenhum crime. Como afirma este site, são inimputáveis todos aqueles "incapazes de discernir seus atos, que cometem infração penal, porém no momento do crime eram inteiramente incapazes de entender o caráter ilícito do fato" - no Brasil se encaixam nesta categoria os menores de 18 anos, os maiores de 70 anos, os "doentes mentais" e as pessoas que "cometeram crime em estado de embriaguez completa, desde que seja proveniente de caso fortuito ou força maior". A ideia de culpabilidade no Direito também está relacionada a esta questão. De acordo com este artigo, culpabilidade significa "poder atuar de outro modo". Isto quer dizer que só pode ser considerado culpado o sujeito que escolheu livremente agir de forma ilícita ou criminosa quando poderia seguir o caminho "correto". Caso o sujeito não tenha tido condições, por algum motivo, de "atuar de outro modo", ele não pode ser considerado culpado.

Isto significa que somente pessoas "livres", isto é, aquelas que poderiam agir de outra forma - embora não tenham agido - podem ser consideradas culpadas de algum crime - e curiosamente a punição para estas pessoas "livres" tem sido majoritariamente, já há alguns séculos, a perda da liberdade, isto é, a prisão. Mas uma questão importante em toda esta discussão é se nós, os imputáveis, os culpáveis, os "normais", somos de fato livres para fazer nossas escolhas? Esta questão da liberdade, que já discuti em outros momentos, é extremamente antiga e ainda não foi - e provavelmente nunca será - resolvida. Pois de fato é possível verificar uma oscilação ao longo dos séculos entre visões deterministas, que questionam e mesmo negam o livre-arbítrio humano e visões compatibilistas, que tentam compatibilizar o determinismo do mundo físico com a ideia de liberdade. Mais recentemente tem surgido no seio da neurociência um grupo de cientistas que defende a ideia de que a liberdade não passa de uma ilusão, pois todas as nossas escolhas seriam tomadas de forma inconsciente por nosso cérebro. Um dos mais célebres "neurodeterministas" é o neurocientista inglês David Eagleman, autor de diversos livros de divulgação científica, dentre eles o controverso Incógnito: as vidas secretas do cérebro e o interessante Cérebro: uma biografia, recém-lançado no Brasil. No primeiro livro o autor argumenta e defende a tese de que "em nossa atual compreensão da ciência, não podemos encontrar o hiato físico em que encaixar o livre-arbítrio - o causador sem causa - porque não parece haver nenhuma parte da maquinaria [cerebral] que não siga uma relação causal com outras partes". Isto significa que, para ele, nosso cérebro não passa de uma máquina extremamente complexa que toma as decisões de maneira automática em função tanto dos nossos genes, quanto da nossa química cerebral e da nossa educação. Afinal, como ele afirma em outro momento, "quando se trata de natureza e criação a questão que importa é que você não escolhe nem uma nem outra". Sua conclusão, neste sentido é simples: não somos livres pois somos determinados por instâncias que não temos controle. Assim, se um sujeito cometeu um crime, ele o fez necessariamente em função de alguma alteração em seu cérebro. Como afirma Eagleman, "mesmo quando não podemos medir o que há de errado no cérebro de um criminoso, podemos pressupor com boa segurança que há algo errado. Seus atos são prova suficiente de uma anormalidade cerebral mesmo que não saibamos (e talvez jamais venhamos a saber) dos detalhes".

A consequência desta visão é que todo o nosso sistema jurídico/penal, baseado na doutrina da culpabilidade, precisaria ser reformado para lidar com a ideia de que as decisões humanas não são autônomas e de que, enfim, o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. David Eagleman defende, nesse sentido, um sistema de justiça "mais compatível com o cérebro" ou, mais precisamente, uma "jurisprudência de fundamentação biológica" na qual o objetivo do sistema não seria mais punir o infrator, que não é responsável pelo crime cometido (foi seu cérebro que o fez cometer, lembre-se!), mas sim tratá-lo para que mude seu comportamento. Sua perspectiva passa pela substituição da ideia de imputabilidade pela noção de modificabilidade. Neste caso, a questão que o juiz se faria perante um criminoso é se é ou não possível modificar o seu comportamento? Se constatar que sim, ele seria mandado para a reabilitação. Se constatar que não, seria mandado para a prisão. Sua principal crítica - com a qual eu concordo - é que atualmente o único caminho para a maioria dos criminosos é a prisão, que além de não "corrigir" ou "reabilitar" o sujeito (pelo contrário, acaba fortalecendo suas ligações com o crime), não parece ter outro propósito se não vingá-lo ou puni-lo por seu erro. O grande problema da visão de Eagleman, na minha opinião, é que não me parece tão simples assim dizer que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão. Dizer, por exemplo, que um sujeito se tornou pedófilo ou cometeu algum crime devido a uma lesão ou tumor no cérebro não implica que todos os comportamentos humanos sejam causados por alterações cerebrais. Certamente as alterações cerebrais "acompanham" todas as ações humanas, mas isto não quer dizer que elas causam o comportamento, significa apenas que ambos estão "correlacionados". Além do mais, dizer e aceitar que grande parte dos comportamentos humanos são automáticos ou inconscientes não implica que todos os comportamentos sejam "determinados" pelo cérebro. Alguns comportamentos, mesmo que sejam poucos, são livremente escolhidos - por exemplo, David Eagleman decidiu por livre e espontânea vontade escrever um livro sobre a ausência de liberdade, eu decidi escrever esse texto, você escolheu lê-lo. Negar a ideia de liberdade, além de algo profundamente contra-intuitivo me parece extremamente perigoso. Afinal, se não somos livres para fazer nossas escolhas qual seria o problema, então, em deixá-las nas mãos de outras pessoas?

Além do mais, abolir a ideia de livre-arbítrio teria consequências catastróficas para o nosso sistema jurídico, em uma espécie de efeito dominó. Se o criminoso não é livre para escolher entre o crime e a lei, então o juiz também não é livre para julgar e proferir a sentença e o legislador não é livre para elaborar as leis. Retirar a ideia de liberdade de escolha do nossos sistemas jurídico e político me parece algo profundamente perigoso - e vários juristas pensam da mesma forma. Tanto é assim que nos diversos estudos que li sobre a aproximação entre Neurociências e Direito Penal em todos eles os juristas acabam por criticar a ideia de que a neurociência provou de forma definitiva que o livre-arbítrio é uma ilusão. Peguemos, por exemplo, a conclusão da tese de doutorado Livre-arbítrio e culpabilidade: a responsabilização penal em face das contribuições da neurociência, segundo a qual "o estado da arte da discussão filosófica sobre o livre-arbítrio continua no mesmo nível de anteriormente ao advento da neurociência: nossa noção intuitiva de que, de alguma forma, estamos no comando de nossas próprias ações permanece em encruzilhada científica, onde, em um flanco, estão os partidários da física clássica e, de outro, ficam os defensores da física quântica de escala atômica - sendo que nenhum deles é capaz de apresentar uma resposta satisfatória acerca da liberdade da vontade". Já na dissertação de mestrado Neurociências e culpabilidade a autora conclui que "ainda que a neurociência demonstre as cadeias causais inseridas no cérebro humano e revele que tudo se inicia no plano do inconsciente, a ideia de liberdade não é construída, afirmada ou negada a partir de tais parâmetros". Finalmente, no artigo Da psicanálise à neurociência: do fim ao fim da culpabilidade na doutrina ibérica, o autor conclui, de forma brilhante, que "provar empiricamente a existência do livre-arbítrio é tão difícil quanto provar a existência do amor ou da felicidade. Não é possível provar empiricamente que alguém ama ou que alguém é feliz, mas o certo é que o homem se vê como um sujeito capaz de amar e de ser feliz, assim como o ser humano se enxerga como alguém dotado de possibilidades de escolha, e com base nestas possibilidades deve pautar sua vida como homem livre". Enfim, a tese disseminada por alguns neurocientistas de que o livre-arbítrio não passa de uma ilusão é apenas mais uma hipótese sobre a liberdade, nem a única, nem a mais embasada e nem a mais verdadeira. 

Sobre a ideia de substituir a ideia de imputabilidade pela de modificabilidade, o próprio David Eagleman aponta que ainda não existem meios efetivos de se intervir no cérebro e no comportamento de um sujeito criminoso de forma a mudar sua forma de agir. Mas ele acredita que no futuro (sempre no futuro!) tais meios serão desenvolvidos. Como afirma em certo momento do livro Incógnito, "especulo que um dia poderemos basear as decisões de punições na neuroplasticidade" - isto é, na possibilidade de alterar e reabilitar o cérebro do criminoso. Tendo em vista que se trata de uma especulação baseada em uma série possibilidades e probabilidades ainda pouco concretas, seria bastante temerário modificar todo o sistema jurídico com base nisso. Além do mais, mesmo que um dia as neurociências provem de forma definitiva que o livre-arbítrio é uma ilusão (o que não creio ser possível), ainda assim a ideia de liberdade poderia ser defendida e utilizada como base do sistema jurídico. Isto porque uma coisa é o livre-arbítrio enquanto conceito científico e filosófico e outra coisa é a ideia de liberdade de um ponto de vista do Direito. Como bem aponta o autor do artigo Culpabilidade e neurociência: uma análise da crise do paradigma científico moderno, "o direito penal não se afeta pela Neurociência porque o tipo de verdade que interessa o Direito Penal e que se alcança mediante um processo não é a verdade científica (positivista), porém uma verdade formal, fruto de um procedimento regrado cujo objetivo é a resolução consensual do conflito e não a busca da verdade. O direito penal contrói seus próprios conceitos de forma independente do que consideramos hoje como conhecimento científico, de modo que a liberdade que sustenta o juízo de culpabilidade e a própria culpabilidade não é um conceito de caráter empírico, mas normativo". Resumindo: a verdade do Direito não corresponde necessariamente àquilo que a ciência e a neurociência consideram verdade. 

Na mesma linha de raciocínio, o autor do artigo Da psicanálise à neurociência afirma que "se há dúvidas razoáveis sobre a liberdade individual, no plano empírico ou filosófico, não se pode negar que há o reconhecimento de um direito fundamental de liberdade do gênero humano, direito este que é reconhecido pela ordem jurídica e compreende uma visão de ser humano construída historicamente e solidificada pela secularização e laicização do Estado de Direito. O ser humano é concebido pelo direito como um ser livre, seja coletiva, seja individualmente. E essa concepção não parece ser mera outorga do Direito positivo. Trata-se de um reflexo do modo com o qual o homem enxerga a si mesmo, e seria difícil conceber uma ordem jurídica que não reconheça, em maior ou menor grau, a liberdade como direito fundamental. Não se pode deixar de reconhecer que o moderno Estado Constitucional reflete uma visão de ser humano livre, e que a democracia moderna pressupõe o exercício individual e coletivo do direito de liberdade, sem o qual não é possível conceber a dignidade humana". De uma forma resumida o autor conclui: "A visão do homem como ser livre independe da comprovação empírica do livre-arbítrio". Tudo isto significa que ainda que a neurociência, ou melhor, alguns neurocientistas, neguem a ideia de livre-arbítrio, ainda assim podemos e devemos defender a liberdade humana. Afinal, como bem aponta o autor do artigo Culpabilidade e Neurociência "a Neurociência não é a única disciplina que demonstra dados relevantes sobre a conduta humana. O ser humano é em essência não somente um ente biológico, mas também um ser social, que se comunica, se interrelaciona, de modo que o Direito Penal não pode construir seus fundamentos e instrumentos desconsiderando outras ciências da conduta como a Sociologia, a Psicologia e as Ciências Criminais". Enfim, a neurociência por mais importante e relevante que seja, não tem como, sozinha, explicar o comportamento humano e muito menos direcionar e embasar o nosso sistema jurídico. 

PÓS-ESCRITO: em seu livro mais recente, Cérebro: uma biografia, David Eagleman parece ter recuado um pouco e adotado um tom levemente mais moderado sobre o tema do livre-arbítrio. Ele continua não acreditando na liberdade humana, mas pelo menos pondera que a neurociência não tem meios, ainda, de provar o determinismo. Como aponta em certo trecho do livro, "no momento, a neurociência não tem os experimentos perfeitos para excluir inteiramente o livre-arbítrio - este é um tema complexo e nossa ciência talvez seja jovem demais para o abordar em sua totalidade". Novamente, ele aposta no futuro para reverter esta indefinição.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Top 10 - Filmes e séries sobre Inteligência Artificial


Quem acompanha este blog sabe do meu enorme interesse pelas áreas da psicologia cognitiva, da neurociência e da inteligência artificial - e também da minha paixão por filmes e séries, especialmente de ficção científica. Já escrevi inúmeros posts sobre todos esses temas e agora pretendo apresentar uma lista com aqueles que considero os melhores filmes e séries sobre Inteligência Artificial. Certamente muitas obras ficarão de fora mas reforço que se trata de uma lista extremamente pessoal. Estes são os meus filmes e séries favoritos sobre o tema.

10- Eva: um novo começo (2011)



Comentário: esta interessante e pouco conhecida produção espanhola conta a história do engenheiro cibernético Alex, que retorna à sua cidade natal com o objetivo de desenvolver uma criança-robô e acaba se aproximando de sua sobrinha Eva, uma menina alegre e inteligente que é utilizada como modelo para sua criação. Trata-se de uma obra extremamente bem-feita tecnicamente, mas cujo roteiro, infelizmente, deixa a desejar. De toda forma, gosto especialmente de um detalhe da narrativa, que se refere ao "código" que desativa os robôs. Quando alguém pergunta "O que você vê quando fecha os olhos?" o robô simplesmente entra em pane e "morre", o que aponta para a impossibilidade de uma máquina "ver" alguma coisa sem de fato enxergá-la - o que nós humanos fazemos a todo momento através dos nossos pensamentos.

9- Chappie (2015)

Comentário: terceiro filme de ficção científica do diretor sul-africano Neill Blomkamp - os anteriores são o magnífico Distrito 9 e o péssimo Elysium - Chappie conta a história de um robô de segurança defeituoso que é roubado e no qual é implantado um dispositivo de consciência, que o permite pensar e sentir, inicialmente como uma criança. Apesar do filme descambar para a ação exagerada, ele expõe de uma forma interessante como consciência de si e do mundo, em Chappie e nos seres humanos, se desenvolve ao longo do tempo, gradualmente.

8- Eu robô (2004) / Homem bicentenário (2000) - Disponíveis no Netflix


Comentário: apesar de não serem, na minha opinião, obras maravilhosas, estes dois filmes são baseados em livros do Isaac Asimov, um dos maiores autores de ficção científica de todos os tempos - juntamente com Arthur C. Clarke e Philip Dick - e só por isso merecem ser vistos. Todo fã de ficção científica que se preze tem que se aproximar de Asimov, ainda que seja através destes filmes medianos, pois encontram-se neles os principais elementos de sua obra.

7- Soldado do futuro (2013) - Disponível no Netflix

Comentário: nesta interessante produção britânica, acompanhamos as atividades do cientista Vincent McCarthy no desenvolvimento de uma andróide inteligente e superpoderosa (Ava) que atuaria como uma máquina de guerra - não por acaso, o título original do filme é The machine. Muito bem feito tecnicamente, apesar do baixo orçamento, Soldado do futuro traz uma série de questões extremamente interessantes sobre a formação da consciência e também sobre as possíveis apropriações militares da robótica e das inteligências artificiais.

6- Westworld (2016)/ Westworld: onde ninguém tem alma (1973)


Comentário: tanto a série de 2016 quanto o filme de 1973, que inspirou a série, possuem uma história similar: em um "parque de diversões" voltado para adultos, androides com aparência humana atuam como anfitriões de "convidados" humanos que desejam viver romances e grandes aventuras. Já escrevi em detalhes sobre a série e o filme - acesse aqui para ler.

5- Blade Runner (1982)/ Blade Runner 2049 (2017)


Comentário: No primeiro filme, um clássico do diretor Ridley Scott, acompanhamos o blade runner Rick Deckard (Harrison Ford) em sua caçada a um grupo de replicantes fugitivos. Já no recente Blade Runner 2049, que dá continuidade à obra original, o foco está no caçador de andróides K. no percurso de uma complexa investigação com potencial para implodir a diferenciação e a relação entre humanos e replicantes. Tratam-se de obras fundamentais para todo amante de ficção científica e, mais especificamente, para todos aqueles interessam pelo tema das inteligências artificiais. Já escrevi brevemente sobre o novo Blade Runner - leia aqui.

4- 2001 - Uma odisséia no espaço (1969)

Comentário: Neste clássico do diretor Stanley Kubrick acompanhamos um grupo de astronautas a bordo da nave Discovery no percurso rumo ao planeta Júpiter. A grande questão do filme é que a nave é totalmente controlada pelo computador inteligente HAL 9000, que, em certo momento, decide se voltar contra a equipe humana. Trata-se de uma obra fundamental que precisa ser vista (e revista) por todos os amantes do cinema. Um clássico, simplesmente!

3- Ela (2013) - Disponível no Netflix

Comentário: Neste clássico contemporâneo do diretor Spike Jonze (o mesmo dos fantásticos Quero ser John Malkovich e Adaptação) acompanhamos a curiosa relação amorosa estabelecida entre Theodore (Joaquin Phoenix) e Samantha (Scarlett Johansson), que é a voz de um novo e revolucionário sistema operacional de inteligência artificial. Trata-se do mais belo e poético filme sobre inteligência artificial já feito. Já escrevi sobre ele anteriormente - leia aqui.

2- Ex Machina: Instinto Artificial (2014) - Disponível no Netflix

Comentário: primeira obra do diretor Alex Garland, Ex Machina é, sem dúvida alguma, um dos melhores e mais inteligentes filmes sobre inteligência artificial já feitos. Todas as principais discussões e implicações filosóficas sobre o tema estão lá, da forma profunda como o tema exige. Já escrevi em detalhes sobre ele anteriormente - acesse aqui para ler.

1- Humans (2015/2016)
Comentário: inspirada na série sueca Almost humans (que não vi) a produção britânica Humans é, para mim, a mais profunda reflexão sobre inteligência artificial já feita. A série, que finalizou a segunda temporada e cuja terceira já está confirmada, trata da questão sob diversos aspectos. De uma forma resumida é possível dizer que a série retrata um mundo ao mesmo tempo futurista e atual, no qual humanos e sintéticos, como são denominadas as máquinas humanizadas, convivem de forma relativamente pacífica - isto até alguns sintéticos começarem a desenvolver consciência. Já escrevi sobre ela em duas ocasiões - clique aqui e aqui para ler.

Pós-escrito: Caso você queira se aprofundar no tema das inteligências artificiais recomendo fortemente os livros abaixo, todos escritos pelo professor e pesquisador João de Fernandes Teixeira, o maior nome do campo da filosofia da mente no Brasil.