quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O que os filmes e séries nos ensinam sobre a memória e o esquecimento?

1ª Lição: Existem diversos tipos de memória e de esquecimento. Há muitas décadas psicólogos cognitivos e neurocientistas defendem a ideia de que os seres humanos possuem diversos tipos de memória assim como diversos tipos de esquecimento ou amnésia. Uma divisão básica é aquela que diz respeito à duração da memória. Os psicólogos falam, neste sentido, em memórias de trabalho ou sensoriais, que são aquelas que duram apenas alguns poucos segundos, em memórias de curto prazo, que permanecem por horas e dias, e também em memórias de longo prazo, que se mantém por décadas. Falam também em memória implícita ou não-declarativa, que se refere à "lembrança" de atividades automatizadas como andar de bicicleta ou escovar os dentes, e em memória explícita ou declarativa, que diz respeito à lembrança de fatos e eventos específicos (memória episódica) assim como de palavras e conceitos (memória semântica). Da mesma forma, os psicólogos postulam - e diversos casos clínicos comprovam - a existência de pelo menos três tipos de amnésia. A chamada amnésia anterógrada diz respeito à incapacidade de adquirir novas informações após um trauma ou lesão. Neste caso, são as memórias de curto prazo que são afetadas, mas não as de longo prazo. No caso da chamada amnésia retrógrada, acontece o oposto: as memórias de curto prazo permanecem intactas e o sujeito consegue adquirir novas informações, mas as memórias mais antigas, anteriores ao momento da lesão, se desfazem. Finalmente, existiria uma amnésia global, em que tanto as memórias de curto quanto as de longo prazo ficariam comprometidas - isto acontece, por exemplo, com pessoas em estágio avançado da Doença de Alzheimer. 

Título original de Apagados: Embers
Mas e quanto aos filmes? Pois bem, existem inúmeras obras cinematográficas que retratam situações de esquecimento e com isso reiteram a compreensão de que existem diversas formas de esquecer. Pense, por exemplo, no fascinante Amnésia (2000), no divertido Como se fosse a primeira vez (2004) ou então no assustador Apagados (2016) - e eu não poderia me esquecer da simpática personagem Dory de Procurando Nemo (2003) e Procurando Dory (2016). Em todos estes casos, os personagem possuem amnésia anterógrada, o que significa que não conseguem reter novas informações. No caso de Amnésia e Como se fosse a primeira vez, a patologia é desencadeada por um trauma - no primeiro devido a uma lesão decorrente de um assalto e no segundo devido a um acidente de carro. Já no caso de Apagados, que retrata um mundo pós-apocalíptico no qual uma infecção teria acabado com a capacidade de memorização dos seres humanos, trata-se efetivamente de uma amnésia global, já que os personagens não retém memórias recentes e também não se lembram de nada do seu passado - e nem de quem são, o que é ainda mais assustador. Na verdade, se observarmos com atenção, o que a infecção teria causado aos humanos seria uma perda da memória explícita, já que os personagens se lembram, por exemplo, de como andar de bicicleta ou cortar lenha. Aliás, a fala de um personagem do filme (que não possui nome, como todos os outros) ilustra bem como funciona a memória implícita ou não-declarativa: "Se você me perguntasse se eu sei cortar lenha, eu não saberia dizer. Mas você põe um machado na minha mão e eu sei cortar lenha", ele diz para um outro personagem. Pois é assim mesmo que funciona a memória implícita: depois que aprendemos alguma habilidade, passamos a executá-la de modo tão automático que comumente nos esquecemos como e em que contexto a aprendemos.

Eu não mencionei acima, mas existem inúmeros filmes que retratam pessoas com a Doença de Alzheimer e outros tipos de demência, cujos primeiros sintomas normalmente incluem falhas na aquisição de novas informações, ou seja, na memória de curto prazo. Veja, por exemplo, os filmes Para sempre Alice (2014), Longe dela (2006), Diário de uma paixão (2004), Família Savage (2007), Iris (2001), O filho da noiva (2001), Poesia (2010) ou Alive Inside (2014). Em todos esses casos é possível observar que os sujeitos afetados por uma demência vão perdendo gradualmente a memória: em um primeiro momento apresentam dificuldades na memória de curto prazo e posteriormente perdem até mesmo as de longo prazo. Em alguns casos, chegam até mesmo a se esquecer quem são - como é o caso dos personagens do filme Apagados.

Existem ainda outros filmes que retratam casos de amnésia retrógrada. Veja por exemplo Identidade Bourne (2002), Cine Majestic (2001), Cidade dos sonhos (2001), Na noite do passado (1942), Busca mortal (1991) ou O homem sem passado (2001). Em todas essas obras os personagens, após sofrerem algum tipo de acidente, perdem as memórias do passado e comumente se esquecem de quem são - mas continuam retendo novas informações. Eu não poderia deixar de citar também os filmes Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) e O pagamento (2003). No primeiro filme, um clássico contemporâneo, o protagonista procura uma empresa chamada Lacuna para que esta apague de seu cérebro todas as memórias de sua ex-namorada (que já havia passado anteriormente pelo mesmo procedimento) - ou seja, ele espera que a empresa lhe cause uma amnésia retrógrada específica, apagando as memórias associadas a seu antigo amor. Já no filme O pagamento, o protagonista é um engenheiro da computação que é constantemente contratado por grandes empresas para trabalhar em projetos secretos. E sempre que finaliza tais projetos,  ele passa por um processo onde parte de sua memória de curto prazo é apagada para evitar que informações sigilosas vazem. Neste caso, da mesma forma que no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças, o protagonista é  submetido a uma amnésia retrógrada específica, referente a certas memórias ou a certo período de tempo.

Cena do episódio 01x03 da série Black Mirror
2ª Lição: Nossas lembranças não são exatas e não funcionam como as memórias de um computador. No livro Os sete pecados da memória, o psicólogo Daniel Schacter aponta para sete características da memória humana - ou "sete pecados", como ele designa: 1) Transitoriedade: a memória tende a se deteriorar e enfraquecer ao longo do tempo, o que significa que lembramos melhor de eventos recentes do que de eventos antigos; 2) Distração: se não prestamos atenção ou somos distraídos por algo diminuímos nossa capacidade de memorizar determinada informação; 3) Bloqueio: por vezes bloqueamos determinadas memórias - um exemplo é o chamado fenômeno da ponta da língua; 4) Atribuição equivocada: ocorre quando atribuímos determinada lembrança a uma fonte ou contexto errado, ou seja, quando misturamos memórias; 5) Sugestionabilidade: capacidade que temos de ter nossas memórias influenciadas e manipuladas pela ação de outras pessoas (não exatamente como no filme Cidade das sombras, mas de maneiras mais sutis); 6) Distorção: ocorre quando modificamos nossas memórias, transformando-as em algo diferente das situações vividas originalmente; 7) Persistência: capacidade que nossa mente tem de recordar repetitivamente informações ou eventos perturbadores que preferiríamos esquecer. Tais "pecados", especialmente a transitoriedade, a atribuição equivocada, a sugestionabilidade e a distorção nos lembram que nossa memória não funciona como a memória de um computador. Pense bem: se você salvar um arquivo em seu notebook e abri-lo novamente daqui a 10 anos, muito provavelmente você encontrará as mesmas informações contidas no arquivo original. Nada se alterará. Aliás, como questiona um personagem crítico das supostas inteligências artificiais na fantástica série Humans (2015) "como se ensina um computador a esquecer?". A resposta: não se ensina. Computadores não esquecem e esta é uma significativa diferença "deles" para nós. Nossa memória não funciona desta forma. Após você viver determinada experiência, suas memórias serão continuamente enfraquecidas e modificadas ao longo dos anos, o que significa que lembrar-se de algo vivido há uma década dificilmente corresponderá com exatidão à experiência real vivida. Isto ocorre porque a cada vez que recordamos ou falamos de determinada situação, eliminamos ou modificamos alguns elementos e acrescentamos outros. "Quem conta um conto aumenta um ponto", afirma o dito popular. E a nossa memória funciona exatamente desta forma - com um acréscimo: não só aumentamos um ponto, mas também eliminamos pontos e modificamos outros.

Não acredita? Então assista ao episódio The entire history of you (2011) da série Black Mirror. Neste episódio, todos os personagens possuem um implante nos olhos que registra de modo absolutamente fiel, em um grande filme, "toda a sua história". Tudo o que eles vivem - na verdade tudo o que veem e ouvem - fica registrado em um "grão" (um potente HD) inserido atrás de suas orelhas. E tudo isto permite que as memórias de cada um sejam fielmente reproduzidas em telas, inclusive naquelas instaladas em seus olhos - um processo chamado no episódio de "re-fazer" (re-do). Enfim, o que esta distopia nos permite perceber - ou relembrar - é que nossas memórias definitivamente não funcionam desta forma. Nossas lembranças não são filmes que ficam armazenados dentro dos nossos cérebros mas sim reconstruções imperfeitas e criativas de situações que vivemos no passado. Quando recordamos determinado evento não trazemos de volta em nossa mente as cenas originais mas as refazemos a partir do que pensamos e sentimos no presente. Isto aparece também no fantástico desenho animado Divertidamente (2015), que retrata de uma forma bastante fiel, ainda que com significativos erros, o funcionamento de nossa mente. No filme, cada memória criada pela personagem central gera uma bolinha que é conduzida para um enorme arquivo central - ou então descartada para o lixão das memórias (como de fato acontece com a maioria do que vivemos). Mas o que é mais interessante é que cada memória é colorida por uma determinada emoção primária (alegria, tristeza, raiva ou nojo), podendo ser também recolorida posteriormente por outra emoção. E isto sugere - e é assim que de fato acontece - que podemos nos lembrar de maneiras completamente diferentes da mesma situação dependendo de nosso humor no presente. Se você está feliz com seu namorado ou namorada no momento, muito provavelmente você se lembrará de situações positivas com ele ou ela. Mas se vocês brigaram por algum motivo, há uma grande chance desta raiva que você sente agora contaminar lembranças suas com esta pessoa e até mesmo "recolorir negativamente" episódios anteriormente vistos como positivos. Enfim, como bem afirma o protagonista do belíssimo filme Ela (2013), "o passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos". Na verdade o mais correto seria dizer que o passado é "apenas" o conjunto de histórias que contamos e recontamos e que construimos e reconstruimos continuamente a nós mesmos ao longo de nossas vidas. Nossas memórias, feliz ou infelizmente, não passam de ficções inspiradas na vida real.

Cena de Apagados: mentes e mundo destroçados
3ª Lição: A memória é fundamental para condução de nossas vidas e para a construção de uma vida em comum. Nenhum filme deixa isso mais claro do que Apagados. Em determinada cena, uma garota não contaminada com o "virus do esquecimento" que mora com seu pai em um Bunker subterrâneo, diz para ele que quer ir embora dali, que não aguenta mais viver trancada, que quer encontrar sua mãe. E então seu pai lhe fala: "Se você for, não estará só abandonando o lugar, mas estará deixando para trás tudo o que você é, as lembranças dos seus amigos, da sua mãe e de mim. Tudo o que lhe faz ser quem é desaparecerá". De fato basta observar os demais  personagens do filme para constatar que o pai tem razão. Ao sair do bunker muito provavelmente ela se contaminará e passará a vagar sem rumo pelo mundo como todos os demais seres humanos - que sem memória não passam de zumbis que simplesmente caminham e se alimentam quando encontram comida. Sem memória não é possível ir muito além disso. Se o mundo retratado pelo filme se tornasse realidade, com toda certeza imediatamente deixariam de existir a religião, a arte, a educação, a justiça e tudo o mais que compõe a vida em sociedade. Sem memória nada disso existiria. Pense bem. Como ensinar e aprender algo sem memória? Como produzir arte sem lembranças, sem referências, sem passado e sem outras pessoas que possam usufruir e se lembrar do que você produz? Como pensar em justiça e moral sem que as pessoas se lembrem das leis, do que é certo e do que é errado? Como se relacionar com as outras pessoas se no momento seguinte você não se lembrará quem elas são e qual sua relação com elas? Uma solução paliativa adotada por um personagem do filme é anotar o que acabou de fazer e o que pretende fazer - solução também adotada pelo protagonista do filme Amnésia, que tatua em seu próprio corpo as descobertas que vai fazendo no processo de investigação de quem matou sua esposa. O problema em ambos os casos é que a cada momento o sujeito terá de reaprender tudo do zero até o próximo esquecimento - isto caso se lembre de fazer as anotações, claro. Por outro lado, creio que em um mundo como esse não haveria sofrimento. Continuaria havendo dor física, claro, mas não sofrimento - da mesma forma que provavelmente uma pessoa com Alzheimer em estágio avançado não sofre. Nos dois casos, como o passado já não existe e o futuro não passa de uma abstração, os sujeitos vivem um contínuo presente. Sem memórias provavelmente viveríamos - como de fato algumas pessoas vivem - continuamente apagados, perdidos e isolados. Por tudo isso devemos ser gratos às nossas memórias pois embora elas não sejam exatas, elas são tudo que temos para sermos quem somos.

Update 19/11/16: A importância da memória social (que poderíamos chamar simplesmente de história) para a vida coletiva é tema também de dois outros filmes, ambos distopias, que acabei esquecendo de mencionar: Fahrenheit 451 (1966) e O doador de memórias (2014). O primeiro, um clássico do diretor François Truffaut inspirado na obra de Ray Bradbury, retrata um sociedade do futuro no qual os livros são proibidos e os bombeiros não tem mais a função de controlar incêndios mas, justamente o contrário, de atear fogo nos livros apreendidos -  o título do filme se refere, neste sentido, à temperatura de combustão do papel. A ideia por trás da proibição é que os livros trariam infelicidade e gerariam discórdia entre as pessoas e entre estas e o Estado. No entanto, como reação a esta política, surgem diversos grupos rebeldes em que cada um de seus membros possui em sua mente um livro integralmente decorado. São as pessoas-livro, que pretendem manter a memória social viva, a despeito do desejo do Estado de anulá-la. Já o segundo filme retrata uma sociedade onde não há mais doenças, guerras ou sofrimentos. Todos vivem numa completa e artificial felicidade - propiciada por um medicamento muito semelhante ao Soma do livro/filme Admirável Mundo Novo. Nesta sociedade as pessoas também não possuem memórias e nem tem acesso a livros - por motivos muito semelhantes aos de Fahrenheit 451: lembrar-se (e ler) gera reflexão, eventualmente sofrimento e potencialmente rebelião. No entanto, com o objetivo de manter as memórias sociais e, ao mesmo tempo preservar a população dos efeitos deletérios destas memórias, a uma única pessoa é delegado o conhecimento da história e cabe a esta pessoa não só manter viva a memória coletiva mas também guiar os demais com sua sabedoria. E de tempos em tempos esta tarefa muda de mãos, sendo este processo de transferência denominado doação de memórias. Pois bem, o que estes filmes trazem de reflexão é que as memórias sociais são fundamentais para a vida coletiva e não podemos de maneira alguma abrir mão delas entregando-as para o controle de um Estado soberano - afinal, como bem afirma o cartaz do filme O doador de memórias, "Quando não há memórias, a liberdade é apenas uma ilusão".

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Westworld: um parque de diversão para adultos

Imagine só um lugar onde você pudesse fazer tudo o que quisesse e no qual fosse possível dar vazão aos seus impulsos mais secretos, pecaminosos e violentos sem quaisquer riscos ou consequências. Você consegue imaginar um lugar assim? Você gostaria de ir para um lugar como esse? Feliz ou infelizmente tal lugar ainda não existe na vida real, onde diversões possuem riscos e, muitas vezes, efeitos colaterais. Mas na ficção ele se chama Westworld, um parque de diversão para adultos que é tema de uma série de mesmo nome lançada em outubro pelo canal HBO. Inspirada em um filme homônimo lançado em 1973 - no Brasil ele se chama Westworld - Onde ninguém tem alma (um ótimo subtítulo!) - a série possui um argumento semelhante mas tenta (e consegue) ir além, muito além da produção que a inspirou, tanto no enredo quanto no visual. A história básica de ambos é praticamente a mesma: em um parque voltado para adultos, especialmente para homens, androides com aparência humana atuam como anfitriões de "convidados" humanos que desejam viver romances e grandes aventuras no Velho Oeste - no filme original, além do Velho Oeste existem outros dois cenários: o mundo medieval e o mundo romano. 

A grande questão tanto do filme quanto da série é que os androides são tão incrivelmente semelhantes aos seres humanos, que é praticamente impossível distingui-los - Westworld se configura, neste sentido, como um imenso Teste de Turing (na verdade, os androides são tão reais que seria mais correto dizer que o parque superou o Teste de Turing). Uma diferença crucial, no entanto, é que somente anfitriões podem se "ferir" e "morrer" - na realidade, nenhum é de fato ferido ou morto pois são máquinas e não seres vivos, apenas o parecem sê-lo; os convidados estão, pelo menos em um primeiro momento, protegidos (o filme de 1973 deixa claro que os revólveres possuem sensores que impedem anfitriões e convidados de atirarem em convidados, mas não parece haver qualquer impedimento para que convidados firam ou matem convidados com outras armas; já a série, pelo menos até onde assisti, não deixa claro se anfitriões podem de fato ferir convidados com socos ou facas, por exemplo, ou se convidados podem atirar em convidados). De fato há uma grande preocupação dos administradores do parque com a segurança dos convidados. No filme há uma cena em que uma cobra robótica morde um visitante, o que deixa a equipe transtornada. Um dos administradores então afirma ser "imperdoável ferir um hóspede"; e complementa: "Se não pudermos garantir a segurança dos hóspedes teremos sérios problemas". A preocupação é legítima. Se os convidados pagam caro para ir a este parque (o filme fala em U$1000,00 por dia), o mínimo que esperam é que voltem inteiros da experiência.

Mas se a expectativa dos administradores diz respeito, dentre muitíssimas outras coisas, à segurança dos convidados, as expectativas destes vão muito além. O que eles esperam é não só voltarem vivos mas também e principalmente viverem experiências intensas de sexo e violência que não podem colocar em prática na vida real com pessoas reais. Em Westworld tudo é permitido. Se quiserem roubar, podem; se quiserem matar, podem; se quiserem estuprar, podem. Os convidados - majoritariamente homens - podem tudo. Como bem afirma Robert Ford, criador e administrador de Westworld na série, "os convidados gostam de poder. Como não podem tê-lo lá fora, eles vem aqui". Os anfitriões foram criados - embora não o saibam - justamente para atender, entreter e satisfazer os convidados. Um dos protagonistas do filme afirma, nesse sentido, que "essas máquinas são servas do homem". Pois é disto que se trata: de um exercício de poder, de dominação, de soberania e de masculinidade (de fato não há ambiente mais masculinizado e viril do que o Velho Oeste do parque). Em Westworld os convidados são deuses que tudo podem. Lá, ao contrário da vida real, eles não estão submetidos a regras, a leis, a tradições, a rotinas e a constrangimentos de qualquer tipo. Lá eles podem ser e fazer o que quiserem, quando quiserem e da forma como quiserem. Como afirma Ford para sua equipe, os convidados "não querem histórias que lhes digam quem são. Eles já sabem quem são. Eles vem porque querem vislumbrar quem poderiam ser". É possível ver nesta fala de Ford que um dos objetivos do parque é propiciar uma experiência de autoconhecimento para seus clientes. 

Mas para além disso, a ideia central é que consigam colocar em prática, pelo menos no tempo em que estiverem no parque, tudo aquilo que não conseguem fazer no mundo real. Se na vida cotidiana, não conseguem ou não podem se aproximar de certas mulheres, lá todas estão à sua inteira disposição; elas foram concebidas justamente para atender aos desejos dos homens - e com uma "vantagem": elas não se lembrarão de nada no dia seguinte, aconteça o que acontecer. Se na rotina do dia-a-dia não convém esmurrar e muito menos matar as pessoas que lhe incomodam, lá isto é permitido e mesmo estimulado. Foi contrariado, questionado ou ironizado por alguém? Então atire! E pode atirar à vontade pois no dia seguinte todos os anfitriões estarão novos em folha, prontos para serem mais uma vez alvejados por tiros. Quer roubar um banco e ainda sequestrar e estuprar a filha do banqueiro? Pode fazer sem medo, pois em Westworld você não será punido e não haverão consequências reais. Lá não há leis, não há moral, não há restrições. Lá, ao contrário do que ocorre na vida real, todos os convidados possuem total ou, pelo menos, grande controle do rumo dos acontecimentos. Eles sabem que tudo terminará bem e que eles serão, pelo menos por um instante, protagonistas e heróis de alguma história grandiosa. Lá eles são especiais.

De uma forma geral, o filme e a série possuem uma visão bastante negativa (ou será realista?) do ser humano. Liberto das amarras da sociedade, o homem livre é um ser puramente sexual e violento, parece nos dizer Westworld. E talvez seja realmente assim. Em sua clássica obra Mal-estar na civilização, Freud argumentou justamente nesta direção. Segundo ele, viver em sociedade implica necessariamente na repressão e sublimação de grande parte de nossos impulsos sexuais e agressivos, o que traz como consequência  uma permanente e inevitável sensação de mal estar. Em sociedade não conseguimos e provavelmente nunca conseguiremos nos sentir plenamente satisfeitos. Viveremos eternamente frustrados e incompletos, sempre desejando aquilo que não temos e nem podemos ter. E talvez por isto todos ou muitos de nós nutramos internamente um enorme desejo de liberdade, um anseio permanente de nos libertarmos de tudo e de todos para que possamos viver e ser e fazer o que bem entendermos. Talvez por isso também nos regozijemos com obras de arte ou jogos (e Westworld é, em sua essência, um jogo) que permitem que vivamos experiências radicais e perigosas em ambientes controlados e seguros. É como se ao assistirmos um filme de terror, por exemplo, pudéssemos dar vazão aos nossos medos mais profundos sem que de fato sejamos afetados. Como afirma um criador de jogos de terror realistas no episódio Playtest da série Black Mirror, "sempre gostei de fazer o jogador pular. Assustado. Se assustar e pular. Depois você se sente bem. Fica radiante. Por que? Por causa da adrenalina? Sim. Mas principalmente por ainda estar vivo. Você encarou seus maiores medos em um ambiente seguro. É uma libertação do medo. Você se liberta". O objetivo de Westworld é semelhante: permitir ao convidado vivenciar experiências radicais em um ambiente controlado e seguro e possibilitar, com isso, que ele se sinta livre, leve e solto.

No entanto, uma importante lição dos filmes de ficção científica é que nada é totalmente controlado e seguro, especialmente aquilo que é criado pelo homem. Desde a publicação do livro Frankenstein em 1818, esta ideia de que artefatos criados pelo homem podem sair do controle e se voltar contra o próprio homem, é repetida continuamente em inúmeras obras de arte. Pense por exemplo nos filmes Jurassic Park, Blade Runner, A mosca, O Exterminador do futuro, Inteligência artificial, Eu robô, O planeta dos macacos - A origem, Ex Machina, Transcendente, dentre muitos outros. Embora estas obras sejam muito diferentes entre si, todas compartilham da mesma premissa: quando o homem resolve bancar Deus e criar ou modificar a vida, inevitavelmente sua obra sairá do controle e ele acabará por pagar um alto preço por sua ousadia. Westworld não escapa desta premissa. No filme de 1973 a situação começa a sair o controle quando uma cobra morde um convidado. A partir daí tudo vira um completo caos e os anfitriões acabam por matar todos os convidados, à exceção do protagonista. Já na série, o desenrolar do descontrole ocorre de uma forma mais lenta. Os anfitriões aos poucos começam a demonstrar comportamentos não-programados e a apresentar memórias de antigas atualizações. Até o último episódio da primeira temporada, a situação ainda não saiu totalmente do controle mas já dá para imaginar que isso ocorrerá em breve. E isto nos traz de volta à questão de se realmente é possível conceber um ambiente totalmente controlado e seguro. A resposta de Westworld e de toda uma tradição de filmes e livros de ficção científica é clara: não, o homem nunca terá total controle, nem do próprio destino e nem do destino daquilo que cria. As criações humanas serão sempre imperfeitas e incontroláveis, à imagem e semelhança de seus criadores.

Update 13/11: eu acabei esquecendo de mencionar, mas as enormes semelhanças entre Jurassic Park e Westworld não são simplesmente mera coincidência. As histórias de ambos foram criadas pela mesma pessoa: Michael Crichton, que é autor do livro original e do roteiro de Jurassic Park assim como do roteiro do filme Westworld, que inspirou a série. O canal College Humor fez uma compilação das incríveis semelhanças entre as duas obras - veja aqui.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Entre a fantasia e a realidade: sobre Extremis, Os capacetes Brancos e Black Mirror

Encarar a dura realidade de frente ou viver uma vida de fantasias? Este é um dos dilemas filosóficos mais antigos e persistentes vividos pelos seres humanos. Na grécia antiga, Platão já fazia este questionamento com sua Alegoria da Caverna. Milênios depois, a mesma questão - fantasia ou realidade? - é apresentada a Neo, protagonista do filme Matrix, que tem de escolher entre a pílula azul da fantasia e a pílula vermelha da realidade. Em ambos os casos, a realidade é apresentada como a melhor alternativa - ou pelo menos, como a alternativa necessária. No entanto, enquanto sociedade e também como individuos cotidianamente buscamos fantasias (a religião, a literatura, o cinema, as redes sociais, as drogas, a pornografia, etc) para fugirmos, pelo menos por um instante, da dura e opressora realidade. E sim, a realidade é dura. Se tiver estômago assista - ou pelo menos tente assistir - ao documentário em curta metragem Extremis, produzido pelo Netflix. São apenas 20 minutos de duração, mas acredite: este tempo lhe parecerá uma eternidade, pois o filme expõe tanto sofrimento e dor que eu cheguei a pausá-lo duas vezes para respirar. O filme retrata algumas pessoas em fase terminal em um hospital nos Estados Unidos e com isso acaba por jogar em nossa cara algo que tentamos a todo custo evitar pensar: que somos seres biológicos extremamente frágeis e que iremos um dia morrer, provavelmente depois de sofrermos um bocado (como bem afirma Irvin Yalom, encarar nossa finitude é tão difícil como encarar o sol de frente). Certamente, após assistirmos ao filme, muitos - eu inclusive - continuam a tentar jogar tais pensamentos para um lugar bem fundo de nossas mentes. Talvez seja melhor assim. Talvez esta estratégia, em parte consciente em parte inconsciente, seja a única forma de seguirmos adiante. Se pensássemos o tempo todo em nossa fragilidade e na inevitabilidade da morte talvez ficássemos tão paralisados que não conseguiríamos mais caminhar. Talvez.

Mas talvez passássemos a dar mais valor à vida e aos momentos bons - porque sim, a vida é dura mas não se resume à dureza. Tenho certeza que todos já vivemos momentos maravilhosos e profundos, belos e encantadores, intensos e inesquecíveis. Aliás, logo após assistir Extremis eu senti uma profunda gratidão com a vida  - sim, uma gratidão um tanto egoista (do tipo "tem gente sofrendo horrores por aí, mas eu estou bem") mas ainda sim uma gratidão com o fato de que a vida, ainda que inclua dor e sofrimento, não se resume a isso - nem a minha e nem a vida de todas aquelas pessoas do filme que, embora não tivessem mais propriamente uma vida naquele momento, certamente viveram no passado momentos de amor e alegria. Imagino que muitos daqueles médicos retratados no filme, que lidam diariamente com o sofrimento e a morte, sintam a mesma gratidão egoísta que eu senti. Talvez consigam transformar toda, ou pelo menos uma parte, da carga negativa a que estão expostos em algo positivo. Talvez consigam transformar dor em esperança - como fazem, aliás, os voluntários da Defesa Civil Síria, que prestam os primeiros socorros a vítimas dos bombardeios russos no país. Chamados de "Capacetes brancos" tais voluntários - belíssimamente retratados em um documentário de mesmo nome produzido pelo Netflix - são os primeiros a chegar quando um bombardeio acontece e eles tem a duríssima função de procurar e resgatar sobreviventes dos escombros, assim como recolher os corpos. Trata-se de um trabalho incrivelmente difícil, física e psicologicamente, e também extremamente perigoso - basta constatar que inúmeros capacetes brancos morrem todos os dias na Síria, vítimas dos mesmos bombardeios que matam as pessoas que eles tentam salvar. Era de se imaginar que por trabalharem em algo tão penoso e por lidaram cotidianamente com sofrimento e morte - assim como os médicos do filme Extremis - os capacetes brancos seriam pessoas amargas, pessimistas e desesperançosas. Mas na realidade parece ocorrer o oposto: ainda que vejam com muita tristeza a guerra em que estão imersos, eles parecem nutrir uma grande esperança no futuro e acreditam fortemente na importância do trabalho que executam - muitos inclusive aceitam a possibilidade de perderem própria vida para que outras sejam salvas. Enfim, estas pessoas, escolhem cotidianamente a pílula vermelha da dura realidade, pelo menos durante o período de trabalho - mas certamente devem ter os seus mecanismos de fuga, suas fantasias, suas ilusões, para que consigam suportar o cotidiano e seguir adiante.

Mas imagine só como seria viver 100% do tempo num maravilhoso mundo de fantasia, completamente desconectado da dura realidade. Você gostaria de viver neste mundo? Pois este é exatamente o mote do genial episódio San Junipero da fantástica série Black Mirror - na verdade quase todos os episódios da série giram em torno da questão "viver a realidade versus viver uma fantasia". Pois bem, neste episódio, a escolha dos personagens - se é que é possível falar em escolha neste caso - ocorre entre viver uma vida ilusória de eterna juventude, festas e azaração na maravilhosa e virtual cidade praieira de San Junipero ou encarar a dor, a solidão e a velhice em um asilo para idosos. Mas o episódio ainda coloca outra escolha a ser feita: morrer efetivamente e deixar com que a consciência se dissolva ou viver para todo o sempre em San Junipero - ou melhor, manter apenas a sua consciência, sem um cérebro e sem um corpo, em uma eterna vida virtual. À uma primeira vista trata-se de uma não-escolha, afinal quem escolheria a dor, o sofrimento e a velhice ao invés do prazer, da diversão e da juventude. Somente um louco o faria, você pode pensar. Mas como o episódio sugere, não se trata de uma escolha simples, por diversos motivos. Em primeiro lugar, neste paraíso virtual não estão muitas das pessoas que você ama ou amou durante a vida - pelo que pude captar, somente pessoas idosas tem acesso ao sistema. Em segundo lugar, as memórias de sua vida pregressa vão junto com você para San Junipero - se forem boas memórias, ótimo, mas e se você tiver muitas memórias ruins? Elas lhe acompanharão para todo o sempre. E finalmente, o mais complexo e aterrorizante de tudo isso é exatamente a eternidade. Ir para San Junipero é uma viagem sem volta. Depois que você optou por viver neste paraíso virtual não há como voltar atrás, não há como morrer ou se matar. Você passará toda a eternidade em uma infinita balada, com o "corpo" de uma pessoa jovem e a "mente" repleta de memórias de uma outra vida. Enfim, sob esta perspectiva, San Junipero não seria simplesmente um lugar de eterna liberdade, mas uma prisão. Uma prisão com prazer, diversão e juventude, mas ainda sim uma prisão. Este episódio me fez questionar de uma forma bastante profunda se a fantasia realmente nos salva da realidade. Se por um lado é possível pensar que sim, afinal muitas vezes recorremos a ela para fugirmos daquilo que dói ou incomoda, muitas e muitas vezes a fantasia se torna tão opressora quanto a realidade. Por vezes, ao buscarmos a liberdade acabamos em mais uma prisão.