quinta-feira, 25 de abril de 2013

Preguiça: pecado capital ou ato de rebeldia?



“São os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo algum” 
Albert Camus

“A preguiça é o melhor dos sete pecados, 
pois ela te impede de cometer os outros seis" 
Autor anônimo 

Tenho que confessar: sou um preguiçoso. Tenho preguiça de acordar cedo, de fazer exercícios e até mesmo de comer laranja porque preciso descascá-la. Também tenho preguiça de escrever. E, por causa desta preguiça, fui adiando a escrita desse texto até o último momento, quando já não tinha mais como fugir. Ou seja, além de preguiçoso sou um procrastinador – e você já se deu conta de que a procrastinação é uma espécie de prima-irmã da preguiça? Apesar disso, não me considero uma pessoa improdutiva. Tento me inspirar nos princípios da chamada “procrastinação positiva”. Sim, isso existe! Como aponta o filósofo John Perry, autor do livro "A arte da procrastinação", em um artigo do jornal New York Times, "procrastinadores raramente fazem absolutamente nada". Só não fazem o que deveriam estar fazendo. Portanto, para ser um ‘procrastinador produtivo’ deve-se seguir o princípio de que "qualquer um pode fazer qualquer quantidade de trabalho, desde que não seja o trabalho que pretensamente se deveria estar fazendo naquele momento". Não é um bom princípio este? Às vezes consigo segui-lo, às vezes não. Neste caso, adiei porque escrever sobre preguiça dá muito trabalho. Aliás, escrever dá muito trabalho. E tudo que dá trabalho, que exige esforço, gera preguiça. 

Aliás, preguiça e trabalho quase sempre andaram de mãos dadas. Quem não trabalha ou não quer trabalhar é entendido, até hoje, como vagabundo, preguiçoso, indolente. “Vai trabalhar vagabundo”, diz aquela música do Chico Buarque. O dicionário Aurélio define preguiça, antes de tudo, como “aversão ao trabalho”, mas também como “morosidade, negligência, moleza, indolência”. A própria noção de preguiça como um pecado capital tem relação com este entendimento. Num mundo dominado pela ideologia cristã, uma forma astuta de fazer as pessoas trabalharem – e mais: desejarem trabalhar - foi disseminar as ideias de que a preguiça é algo condenável e de que “o trabalho enobrece o homem”. E isto foi tão difundido no mundo ocidental, especialmente após a Reforma Protestante no século XVI, que se tornou uma espécie de verdade inquestionável. O trabalho nos define de tal maneira na atualidade, que ficar desempregado é como perder uma parte importante de si mesmo. Como diz aquela música do Legião Urbana, “Sem trabalho eu não sou nada/ Não tenho dignidade/ Não sinto o meu valor/ Não tenho identidade”. Isto é tão forte em nossa sociedade que logo que somos apresentados a uma pessoa, a primeira coisa que normalmente fazemos é perguntar “O que você faz?”. E a partir de sua resposta (“Sou psicólogo”, “Sou cozinheiro”, “Sou gari” – e perceba como vinculamos o que fazemos com o que somos) elaboramos uma série de julgamentos que influenciarão de forma significativa a maneira de nos relacionarmos com tal pessoa. 


No entanto, anteriormente à ascensão do capitalismo como sistema econômico e social hegemônico, o trabalho foi visto, muitas vezes, de uma forma negativa. A própria Igreja Católica considerou, por um bom tempo, o trabalho como algo que afastava os homens das orações e, logo, de Deus. A preguiça era entendida não como preguiça de trabalhar, mas como preguiça de orar e se dedicar a Deus. Santo Agostinho chamava de “ócio santo” justamente o tempo necessário para se dedicar à contemplação e à oração. Antes disso, os gregos, especialmente os atenienses, valorizavam o ócio muito mais do que o trabalho. Interessante constatar que a palavra escola deriva do grego skole, que significa ócio. Ou seja, as escolas para os gregos eram considerados locais de ócio – de um ócio criativo, como diria muito tempo depois o sociólogo Domenico De Masi. Para os atenienses, os homens sábios deveriam se dedicar às ideias e ao espírito. Desta forma, estar ocioso não significava estar fazendo nada (aliás, o que é estar fazendo nada?), mas sim, "dedicar-se operações de natureza intelectual e espiritual que se traduziam no exercício da contemplação da verdade, do bem e da beleza, de forma não utilitária" . Segundo Paul Lafargue, autor do livro-manifesto “Direito à preguiça”, publicado em 1880, ”os filósofos da antiguidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses”. Importante se atentar que para realizar os trabalhos manuais existiam os escravos. O ócio e a atividade intelectual eram privilégio dos homens livres. 

Esta visão negativa do trabalho está presente na própria origem da palavra trabalho, do latim tripalium, que designa um instrumento de tortura. Da mesma forma, labor, denota sofrimento, dor, fadiga. Tal visão do trabalho enquanto algo sofrido ou penoso aparece até mesmo no Velho testamento, quando Adão e Eva são expulsos do paraíso e condenados ao trabalho árduo como forma de expiar o pecado cometido. "Com o suor do teu rosto comerás teu pão", teria dito Deus a Adão. Já Eva Deus teria condenado às dores de parto. E não por acaso, todo este doloroso processo é chamado de “trabalho de parto”. Por sua vez, o ócio aparece na Bíblia majoritariamente de uma forma positiva. Por exemplo, após criar o céu, a terra e tudo o mais, Deus teria se permitido, no sétimo dia, um momento de descanso para contemplar sua obra. A recomendação de não se trabalhar aos sábados vem daí. Posteriormente, o filósofo Sêneca apontava para uma divisão entre o otium (ócio) e o negotium (negócio, negação do ócio), na qual o primeiro era associado à contemplação, ao estudo, ao autoconhecimento e à serenidade enquanto o segundo ao trabalho repetitivo e estressante – tal como o trabalho a que Sísifo foi condenado, e que virou sinônimo de uma atividade laboral esgotante e inútil. Até hoje tal conotação se faz presente em expressões como “escrever dá trabalho” ou “tal tarefa é trabalhosa”. Com tudo isso quero apontar que o ócio (e o trabalho) nem sempre tiveram o sentido que possuem hoje. E, da mesma forma, nem sempre o ócio e a preguiça foram vistos como coisas negativas e o trabalho como algo indispensável para o bem-viver. 


Já a noção de preguiça enquanto um pecado capital é quase tão antiga quanto o próprio cristianismo. Diz-se que no final do século VI o papa Gregório Magno, tomando como referência as cartas do apóstolo São Paulo, determinou os pecados capitais (capital vem do latim caput, cabeça, chefe, líder), ou seja, os pecados mais graves – opostos, de certa forma, aos chamados pecados veniais, mais leves e perdoáveis. Sete pecados foram definidos como capitais: a Soberba, a Avareza, a Gula, a Luxúria, a Inveja, a Ira e a Preguiça. Mas tal lista só teria sido oficializada na Igreja Católica no século XIII, a partir da Suma Teológica, escrita por São Tomás de Aquino. Posteriormente a Igreja definiu as sete virtudes fundamentais, que deveriam servir como uma espécie de antídoto aos pecados capitais. São elas: a Humildade (oposta à soberba), a Generosidade (oposta à avareza), a Temperança (oposta à Gula), a Castidade (oposta à Luxúria), a Caridade (oposta à inveja), a Paciência (oposta à ira) e, finalmente, a Diligência – entendida como a presteza ou prontidão para a ação, e, portanto, como “remédio” para a preguiça. 

É possível interpretar a criação e disseminação da noção de pecados capitais (e mesmo de virtudes fundamentais) como uma tentativa de controle de certas questões humanas, demasiada humanas, como diria Nietzsche. Em um debate realizado no Brasil, o escritor português e eminente crítico das religiões, José Saramago, disse o seguinte: “Quando a Igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle. Um instrumento de controle dos corpos. Porque aquilo que perturba a igreja católica é o corpo: o corpo com sua liberdade, o corpo com seus apetites, o corpo com suas ansiedades” (e, poderíamos acrescentar, o corpo com suas preguiças). Concordo com ele. Os pecados são uma tentativa – um tanto quanto infrutífera – de controlar o que há de mais humano em nós mesmos. Afinal quem nunca sentiu inveja e desejou ter a grama tão verde como a do vizinho? Quem nunca foi tomado pela gula quando se sentiu ansioso ou triste? Quem nunca foi avarento, pão duro ou apegado às próprias coisas ou ao dinheiro? Quem nunca foi tomado por uma paixão e desejou uma pessoa de forma luxuriosa? Quem nunca ficou irado quando contrariado ou quando se deparou com uma injustiça? Quem nunca foi tomado pela soberba quando atingiu algum objetivo de vida? E finalmente, quem nunca sentiu vontade de não fazer nada de produtivo, de simplesmente vagabundear? Que jogue a primeira pedra quem nunca fez (ou desejou fazer) como na música Lazy Song, do Bruno Mars: “Hoje eu não estou com vontade de fazer nada/ Só quero ficar deitado na cama/ Não quero atender o telefone/ Então deixe o recado na secretária eletrônica/ Pois juro que hoje eu não quero fazer nada/ Vou ficar com os pés pro alto olhando para o ventilador/ Vou ligar a TV, ficar com as mãos no bolso/ Ninguém vai me dizer que não posso fazer isso/ Porque no meu castelo quem manda sou eu”. Pela lógica da Igreja (e mesmo do mundo do trabalho), o preguiçoso deve se sentir culpado e mesmo ser punido pelo que deixou de fazer. 


Esta visão crítica dos pecados como instrumentos de controle se evidencia também no fato de que, por exemplo, a alcunha de “preguiçoso” foi e ainda é utilizada basicamente para se referir aqueles que estão na base da pirâmide social ou a grupos socialmente marginalizados. Durante o período colonial, os índios e os escravos eram considerados “naturalmente” preguiçosos e indolentes. Outro exemplo são os baianos, que até hoje são alvo de piadas por supostamente serem preguiçosos. Para a antropóloga Elisete Zanlorenzi, autora da tese “O mito da preguiça baiana”, tal visão é completamente falsa. Segundo ela, o entendimento do baiano como culturalmente preguiçoso teve início com o intenso movimento migratório de nordestinos - genericamente chamados de “baianos” - para o sul do país, especialmente São Paulo, a partir da década de 40. Predominantemente negros e pobres, se instalaram em precários cortiços e favelas e tiveram grande dificuldade em conseguir emprego. Segundo Elizete, "estas condições contribuíram para que o termo baiano fosse associado a outros como sujo, desorganizado, não produtivo e, finalmente, preguiçoso" (fonte). Além disso, a pesquisadora aponta para a contribuição da indústria do turismo e da imprensa na disseminação da imagem do baiano como preguiçoso. Finalmente, Elizete afirma que os próprios artistas baianos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dorival Caymmi, têm sua parcela de responsabilidade na popularização desta imagem. "Eles chegavam no eixo Rio-São Paulo afirmando serem preguiçosos. Era como dizer: eu não sou daqui", aponta a pesquisadora.

Relacionado a esta visão, li certa vez que o compositor baiano Dorival Caymmi, passava várias horas do dia olhando para o mar, contemplando sua beleza. Independente disto ser verdade ou mentira – e sem desejar reforçar o mito da preguiça baiana - gostaria de trazer a discussão para o presente e propor o seguinte questionamento: você consegue imaginar tal comportamento no mundo atual? Num mundo hiperconectado e hiperativo como o nosso, a contemplação (e a preguiça) tem cada vez menos espaço. Cada vez menos olhamos para o mar ou para o céu ou ainda para as pessoas. Tenho observado nas ruas, que o comportamento padrão de muitas pessoas quando estão sentadas esperando o ônibus ou dentro do metrô é ficarem mexendo ininterruptamente no celular ou no tablet. Parecem imersas naquele mundo virtual, como que ignorando o mundo real à sua volta. Cada vez mais olhamos menos para o mundo e para as outras pessoas. Ao mesmo tempo, nunca interagimos tanto, nunca estivemos tão interligados, nunca tivemos tão próximos de pessoas distantes fisicamente de nós. Se perdemos por um lado, ganhamos por outro, obviamente. Mas, de fato, temos perdido, cada vez mais, a capacidade de contemplar o mundo. E isso tem consequências. 


Como aponta o jornalista Carl Honoré, autor do livro “Devagar”, atualmente cultuamos o “evangelho do sempre-mais-depressa”. E de acordo com este evangelho, devemos prezar sempre pela velocidade e pela quantidade, em detrimento da calma e da qualidade. Devemos ocupar nosso dia (e das nossas crianças) com o máximo de atividade que pudermos. Devemos manter nossa mente sempre ocupada, afinal, “cabeça vazia é oficina do diabo”. Devemos trabalhar o máximo e dormir o mínimo. Não podemos nos esquecer que “Tempo é dinheiro”. Devemos andar depressa, comer depressa, transar depressa, amar depressa. A vida é curta, não há tempo a perder. Devemos viver o máximo, aproveitar o máximo, gozar o máximo. O ócio e a preguiça devem ser evitados a todo custo. O problema é que, como aponta Honoré, “certas coisas não podem nem devem ser apressadas. Elas levam tempo, precisam de lentidão. Quando aceleramos coisas que não devem ser aceleradas, quando esquecemos como é possível moderar o ritmo, sempre pagamos um preço”. E este preço tem sido cada vez mais alto. Estamos cada vez mais ansiosos, mais deprimidos, mais doentes do corpo e da alma. E toda esta velocidade certamente contribui para este mal-estar contemporâneo. 

Mas felizmente, como reação a esta brutal apropriação do tempo pelo capitalismo contemporâneo, um contingente cada vez maior de pessoas tem aderido à filosofia Slow e tentado ir mais devagar. Como aponta Honoré, “enquanto o resto do mundo vai em frente vociferando, uma minoria considerável e cada vez maior opta por não fazer tudo com o pé no acelerador. Em todas as esferas de ação humana que você possa imaginar, de sexo, trabalho e exercícios a alimentos, medicina e urbanismo, estes rebeldes vem fazendo o impensável – estão abrindo espaço para a lentidão”. Num mundo que anda com tanta pressa, nada mais revolucionário do que ir devagar. Nada mais rebelde do que ser um pouco preguiçoso. Está lá na Bíblia: “Todo aquele que vive habitualmente no pecado também vive na rebeldia, pois o pecado é rebeldia” (João 3:4). Então, que sejamos rebeldes. Viva o ócio! Viva a vagareza! Viva a preguiça!

Texto originalmente publicado aqui.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

“As sessões” e o sexo terapêutico



Baseado em fatos reais, o filme “As sessões” (The sessions, EUA, 2012) retrata a surpreendente história do poeta e escritor Mark O’Brien (1949-1999), interpretado magnificamente pelo ator John Hawkes. Aos seis anos de idade, Mark contraiu poliomielite e ficou paralisado do pescoço para baixo – muito embora mantivesse a sensibilidade na maior parte do corpo. Desde então e até o fim de sua vida, passou seus dias preso a uma cama, quando não em um "pulmão de aço" (veja foto abaixo), que o permitia respirar. Apesar de todas essas limitações, conseguiu se formar em letras, atuou como jornalista, escreveu poesias e ainda foi um ardoroso militante do direito das pessoas com deficiência. Em termos profissionais, Mark conseguiu superar muitos obstáculos, o mesmo não ocorrendo em sua vida pessoal. Aos 38 anos de idade, virgem e tendo constantes ejaculações espontâneas (e mesmo “induzidas” pelo contato de suas cuidadoras), Mark chega à conclusão que não deseja passar pela vida sem ter tido ao menos uma experiência sexual. 



Mas para colocar em prática este desejo, ele precisa superar três barreiras: a primeira é sua culpa católica, inculcada por seus pais, em sentir prazer; a segunda é a dúvida se realmente conseguirá fazer sexo em função de todas suas limitações físicas e a terceira é a questão de com quem faria sexo, haja vista que as mulheres que conheceu durante a vida sentiram mais pena do que atração por ele - e mesmo aquelas que se atraíram, não seguiram adiante. Com relação à primeira barreira, Mark, procura o conselho - e mesmo a "autorização" - de um padre (interpretado pelo excelente ator Willian H. Macy). Este, mesmo em dúvida sobre o que dizer, o aconselha a seguir seu desejo, indo contra, desta forma, aos próprios preceitos de sua igreja de que o sexo só deve ser realizado após o casamento. O padre, neste caso, foi bem razoável e compreendeu a peculiar situação de Mark. Já para tentar resolver as outras duas barreiras, Mark decide procurar, a partir da indicação de sua psicoterapeuta, uma “substituta sexual" (sexual surrogate), interpretada no filme pela atriz Helen Hunt - que concorreu este ano ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel. Merecidamente, diga-se de passagem. 

Esta profissão realmente existe, tendo surgido na década de 70 nos Estados Unidos – em plena revolução sexual, portanto – a partir do trabalho dos sexólogos Willliam Master e Virginia Johnson. Posteriormente foi criada uma associação internacional (a IPSA) e até mesmo um código de ética para regular a prática profissional. Atualmente existem somente cerca de 50 "substitutos" treinados e atuantes nos Estados Unidos - no Brasil, pelo que pesquisei, nenhum. Na década de 70 haviam cerca de 2 mil mas, mesmo neste momento, a profissão nunca gozou (ops!) de grande visibilidade e sempre foi alvo de um inúmeros preconceitos. Na década de 90, a profissão tornou-se conhecida do grande público em função de um artigo escrito por Mark para a The sun Magazine intitulado “On seeing a sex surrogate” (leia aqui). O filme é baseado neste artigo assim como no livro autobiográfico An intimate life (publicado em 2012 no Brasil como "As sessões: minha vida como terapeuta do sexo" - que li e recomendo), escrito pela "parceira substituta" de Mark, Cheryl Cohen Greene, hoje com 68 anos (na foto abaixo com Helen Hunt). Em 40 anos de carreira, Cheryl atendeu até hoje mais de 900 pacientes, em sua maioria homens virgens ou que não conseguem ter uma ereção ou chegar ao orgasmo, além de indivíduos portadores de deficiência - como foi o caso de Mark. Ela atende também mulheres e casais e trabalha sempre (até hoje!) em parceria com uma terapeuta sexual convencional ou com um psicólogo ("enquanto ele trabalha a parte emocional, fico com os exercícios práticos", diz ela). Cheryl descreve da seguinte forma sua metodologia de trabalho:  

"A cada sessão há um ganho gradativo de intimidade. Começo com técnicas de relaxamento e testes de toques para saber quais as partes mais sensíveis do corpo do paciente. Em seguida, vêm as carícias, beijos e masturbação. A penetração costuma acontecer só nas últimas sessões. Durante o sexo, presto atenção a todos os detalhes e anoto cada reação do paciente. Sempre usamos preservativos. As sessões acontecem duas vezes por mês e têm duração de duas horas. Cobro US$ 300 por consulta. Há um limite de sessões, que varia de seis a dez".


Muitos consideram a profissão de Cheryl uma forma de prostituição, o que ela nega. No filme, a diferença apresentada pela personagem é que enquanto a prostituta pretende criar uma freguesia, ou seja, que o cliente a procure mais e mais vezes, seu esquema de trabalho se dá com um número máximo de sessões, sem possibilidade de retorno, de forma a não criar um vínculo de dependência. Outra diferença, explicitada por ela nesta entrevista, é que "ir a uma prostituta é como ir a um restaurante, escolher no cardápio e ser servido pelos funcionários, que esperam que você volte. Ter sessões com a terapeuta sexual substituta é como ir a uma escola de culinária: você descobre onde achar ingredientes, aprende receitas e sai fazendo pratos por conta própria". Ou seja, o objetivo é mais educar para o prazer do que gerar prazer por si mesmo, como seria no caso de uma prostituta. Como afirma a terapeuta de casais Louanne Cole Weston no prefácio do livro de Cheryl, "os terapeutas do sexo são como professores para seus clientes". Além disso, como disse em uma entrevista o diretor do filme Ben Lewin (que também contraiu pólio aos 6 anos de idade e se locomove com ajuda de muletas): “Certa vez, perguntei para Cheryl como foi o ato sexual entre eles [ela e Mark]. E ela me respondeu que tinha que pegar suas anotações para recordar. Duvido que prostitutas façam anotações”. Ou seja, o trabalho de parceira substituta é mais minucioso e sistemático do que é ou seria o de uma prostituta.




A ideia de uma "substituta sexual" parece ser, em suma, uma forma prática de auxiliar pessoas com alguma dificuldade ou imaturidade na área sexual a conhecer o próprio corpo para que possam fazer sexo com outras pessoas. No caso do Mark O'Brien o filme me convenceu se tratar de uma alternativa necessária diante de seu problema peculiar. Uma prostituta, mesmo atenciosa e bem-intencionada, talvez não tivesse os conhecimentos e a paciência necessários para ajudá-lo. Da mesma forma, uma terapeuta sexual que se utilizasse somente da terapia pela palavra não teria, acredito, qualquer efeito. Ele precisava descobrir na prática que conseguia sentir prazer. Precisava descobrir e despertar o próprio corpo. Como afirma Cheryl em uma entrevista"Numa terapia convencional, o paciente pode não conseguir pôr as orientações em prática, seja por vergonha do parceiro, seja pela falta de um. Conseguimos transpor essas barreiras. O paciente também aprende a conhecer melhor o corpo do outro – no caso, o meu, que serve de modelo para relações futuras. Comigo, ele pode falar abertamente sobre suas fantasias e experimentar as posições que deseja".

Questionada como encara o sexo sem envolvimento afetivo (que é diferente do envolvimento sexual necessário para o trabalho) ela respondeu: "Tudo o que é consensual entre adultos é válido. O lindo do meu trabalho é que você não precisa se apaixonar, mas tem que se tornar íntimo da pessoa e respeitá-la". E para evitar que o paciente se apaixone por ela, a técnica usada é contar detalhes de sua vida privada a eles: "digo que sou casada e feliz. Isso já diminui as expectativas". O problema é que nem sempre isso funciona, haja vista que ela própria é casada, há mais de 30 anos, com um ex-paciente. Segundo ela, "Bob me procurou depois que terminaram as sessões. Na segunda vez que saímos já fizemos sexo fora do 'consultório'". Podemos e devemos questionar essa atitude dela, mas devemos nos lembrar que o envolvimento entre terapeuta e paciente pode ocorrer (e de fato ocorre) mesmo que não haja sexo envolvido na terapia. 



Com relação à esta polêmica profissão, gostaria de fazer alguns questionamentos. No Brasil, os tradutores do livro de Cheryl optaram por traduzir "sex surrogate" por Terapeuta do Sexo. Mas será que o que ela faz pode ser, realmente, chamado de terapia? Se entendermos terapia como sinônimo de tratamento para algum problema, certamente o que Cheryl faz é uma forma de terapia (da mesma forma que a fisioterapia, a massoterapia ou a hipnoterapia). Mas será a "substituição sexual" uma forma psicoterapia? Se definirmos psicoterapia como uma terapia utilizada para tratar problemas psicológicos, a atividade de Cheryl pode sim ser considerada uma forma de psicoterapia, haja vista que grande parte  de seus pacientes são sujeitos com dificuldades "psicológicas" em se relacionar sexualmente. Se tais dificuldades fossem devido a questões "físicas" o mais lógico seria que procurassem um médico. Agora, outra questão a se pensar é: quais são ou devem ser os limites de uma psicoterapia? Dialogar obviamente é permitido e mesmo necessário. Aliás, a maioria das psicoterapias são baseadas no diálogo entre terapeuta e paciente. Mas e tocar, pode? Até que ponto? Tem psicoterapeutas que se recusam até mesmo a encostar no paciente para cumprimentá-lo. Outros, por exemplo os terapeutas corporais, fazem massagens e outros procedimentos que envolvem o toque nos pacientes. Isso pode. Mas sexo não pode. Por que não? 

Uma resposta possível seria: o sexo é terapêutico, sem dúvida, mas não pode fazer parte de uma terapia porque extrapola os limites do que, convencionalmente, é entendido como psicoterapia. Neste sentido, uma terapia com sexo não poderia ser considerada propriamente uma psicoterapia, mas sim sexo com fins terapêuticos – a ser realizado não por um(a) psicólogo(a) mas por uma parceira substituta ou mesmo por uma prostituta. De acordo com uma reportagem sobre o filme, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) proíbe a relação sexual entre terapeuta e paciente. No entanto, pesquisei sobre esta questão no site do Conselho e não encontrei nenhuma resolução específica que regulamente a relação terapêutica ou que proíba o sexo entre terapeuta e paciente. De fato, no Código de Ética Profissional está escrito que é vedado ao psicólogo “prestar serviços ou vincular o título de psicólogo a serviços de atendimento psicológico cujos procedimentos, técnicas e meios não estejam regulamentados ou reconhecidos pela profissão”. O problema é que não existe nenhum documento que especifique quais “procedimentos, técnicas e meios” são permitidos e quais são proibidos. Isso acaba ficando a cargo do psicólogo decidir ou do Conselho julgar, o que é um tanto complicado. O Código de Ética também impede o psicólogo de “estabelecer com a pessoa atendida, familiar ou terceiro, que tenha vínculo com o atendido, relação que possa interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado”. No entanto o texto não deixa claro quais são exatamente as relações proibidas ou não-aconselhadas. Podemos imaginar que o sexo estaria dentre estas relações, mas quem foi que disse que a relação sexual interferiria  de forma necessariamente negativa no tratamento? Segundo a psicanalista Araceli Albino, entrevistada para uma reportagem sobre o filme, "sexo entre terapeuta e paciente ocorre mais do que imaginamos. É danoso: a pessoa depositou confiança no profissional e fica à mercê dele. É quebra de contrato". Mas e se o sexo fizer parte do contrato estabelecido entre o terapeuta e o paciente? 

Não estou aqui defendendo a inclusão ou mesmo a aceitação da relação sexual na terapia realizada por psicólogos ou psicanalistas. Até porque a profissão de “parceira substituta” é autônoma à Psicologia e à Psicanálise. Trata-se de uma profissão com características, técnicas e ética próprias. Mas a existência e atuação destes profissionais faz pensar sobre o manto de hipocrisia que ainda cobre nossa relação com o sexo e a sexualidade. Fazer sexo profissionalmente ainda é visto por muitas pessoas como algo degradante e eminentemente negativo, tanto para o profissional quanto para o cliente. Em muitos comentários e resenhas que li sobre o filme, a profissão de “parceira sexual” é fortemente criticada e Cheryl frequentemente desqualificada e rotulada de prostituta, como se isso fosse algo negativo em si. Condenamos, desta forma, aqueles que “vendem” o próprio corpo, mas nos esquecemos (ou não nos damos conta) de que todos os que trabalham, em alguma medida, vendem o próprio corpo em troca de dinheiro. Mas talvez não seja o "corpo" o verdadeiro problema e sim o sexo. Sempre ele. É triste e curioso que em pleno século XXI ainda tenhamos dificuldade em tratar o sexo de forma aberta e honesta, sem tantos pudores e preconceitos.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tieta fala sobre sexualidade, normalidade e diferença

Impagável ver Tieta (interpretada pela atriz Betty Faria) dando preciosas e atualíssimas lições sobre sexualidade, normalidade e diferença... na década de 80! Se tivéssemos escutado o que ela disse, talvez nosso país fosse um pouco menos infeliciano. Mas ainda dá tempo de absorver suas sábias palavras. Com vocês, Tieta, em mais uma pérola desconhecida do Youtube!

PS: o video tem, na verdade, 7:15 minutos de duração.

sábado, 6 de abril de 2013

III Seminário A educação Medicalizada: inscrições abertas!


Já está no ar o site do "III Seminário Internacional A educação medicalizada: reconhecer e acolher as diferenças", que ocorrerá em São Paulo de 10 a 13 de Julho - clique aqui para acessar. As inscrições para participação e submissão de trabalhos já estão abertas. Este humilde psicólogo que vos fala estará presente. Fui convidado a dar uma palestra e um mini-curso. A palestra, intitulada, "Blogs como espaços privilegiados para o debate sobre temas em Saúde" será na sexta-feira dia 12 às 17hs no simpósio "Diversidade: ocupai as praças, as redes, a blogosfera". Estarão comigo na mesa a bióloga Ligia Moreiras Sena, responsável pelo blog A cientista que virou mãe, e o sociólogo Sérgio Amadeu. Que honra estar na mesma mesa que eles!!! Já o minicurso, intitulado "Entre o normal e o patológico: das concepções tradicionais às tendências contemporâneas" ocorrerá no dia 10 de Julho das 14:00 às 17:00hs. Seguem as ementas da palestra e do mini-curso.


Palestra: "Blogs como espaços privilegiados para o debate sobre temas em Saúde" 

Ementa: Blogs são sites cuja estrutura permite uma atualização rápida através do acréscimo dos chamados posts, que podem ser compostos por imagens e/ou textos. A estrutura dos blogs permite também a interação com seus leitores ou seguidores através dos comentários, que podem ser feitos de forma nominal ou anônima. Criados na década de 90, os blogs tiveram sua origem nos diários virtuais, nos quais o sujeito escrevia, em primeira pessoa, sobre o seu cotidiano. Posteriormente seus objetivos e ferramentas foram ampliados, o que contribuiu para que se tornassem importantes espaços de difusão de informações e debates sobre os mais variados assuntos. Pretendemos discutir, neste seminário, a importância dos blogs e outras ferramentas virtuais na disseminação e debate de temas da área da saúde, com destaque para o tema da medicalização da vida. Tomaremos como exemplo o blog Psicologia dos Psicólogos, que, desde 2008 se propõe a debater questões relacionadas ao campo psi no Brasil. Pretendemos fazer um balanço das publicações do blog além de analisar a linguagem utilizada na comunicação dos temas propostos e a interação com os leitores.

Mini-curso: "Entre o normal e o patológico: das concepções tradicionais às tendências contemporâneas". 

Ementa: Pretendemos neste minicurso proporcionar uma reflexão sobre as principais concepções de normal e patológico e de saúde e doença no campo psi. Para tanto, tendo como fio condutor as reflexões do filósofo Georges Canguilhem, faremos um panorama pelas inúmeras formas em que essa questão foi abordada no decorrer da história, desde as concepções positivistas e normativas até as perspectivas biológicas e neurocientíficas contemporâneas. Identificamos, na formação na área da saúde, a falta de uma sólida discussão conceitual e prática acerca das fronteiras entre o normal e o patológico. Observamos que, para muitos profissionais, os transtornos mentais são considerados entidades objetivas, dotadas de vida própria e dispostas a quem quiser enxergar. Parecem desconsiderar as determinações sociais, políticas e econômicas que contribuem para as definições de normalidade, patologia, saúde e doença. Este minicurso pretende, assim, introduzir as principais problemáticas relacionadas a esta questão, de forma a estimular os participantes a refletirem sobre as próprias concepções e práticas. 


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Homossexualidade: como curar o que não é doença? (Parte 2)



Na primeira parte deste texto tentei contra-argumentar a noção de que a homossexualidade é uma doença que pode ser curada. Para tanto, recorri à perspectiva do filósofo Georges Canguilhem sobre o normal e o patológico. Nesta segunda parte, pretendo refletir sobre a possibilidade de uma reorientação sexual. Digo reorientação para evitar as expressões “tratamento” ou “cura” que apontam para uma perspectiva patologizante. A pergunta que move esta segunda parte do texto é se é possível mudar a orientação sexual de uma pessoa, seja da homossexualidade para a heterossexualidade ou vice-versa.

Gostaria inicialmente de comentar um episódio que trouxe à tona, mais uma vez, a questão da “cura gay”. Em entrevista cedida à jornalista Marilia Gabriela, o pastor evangélico (e “psicólogo”) Silas Malafaia afirmou, dentre outras coisas que, o “homossexualismo”, como ele chama, é um comportamento passível de mudança por ser eminentemente comportamental. Para ele, a ciência já demonstrou que a genética não tem qualquer influência na orientação sexual de uma pessoa. Poucos dias após a entrevista ser vinculada, circulou pela internet um vídeo de um geneticista que critica Silas afirmando haver muitas evidências científicas de que a genética, ainda que não determine, influencia de forma significativa na constituição da orientação sexual. Segundo esta perspectiva, não sendo a homossexualidade uma escolha, não seria passível de “tratamento”.




Minha posição geral sobre esta briga pode ser resumida da seguinte forma: tirando poucas características e doenças realmente determinadas por genes, todos os outros comportamentos e traços humanos são constituídos num caldo híbrido de natureza e cultura. Definir a causa ou as causas da homossexualidade me parece uma tarefa um tanto infrutífera e, até certo ponto, desnecessária. O fato indiscutível é que existem pessoas que se identificam como gays e elas devem ser respeitadas não porque a homossexualidade é "genética" ou "comportamental", mas porque pessoas adultas devem ter liberdade para se relacionar com quem bem entenderem - desde que seja consensual, obviamente. A defesa deste princípio não deve estar atrelada a teorias científicas, mas a pressupostos humanistas. Ficar brigando sobre quem tem acesso à "verdadeira ciência" ou quem é mais cientista do que quem, me parece, neste caso, irrelevante. Além do mais, dizer que a homossexualidade tem base “genética” ou “comportamental” não resolve o problema fundamental da intolerância, pois ambas possibilidades abrem espaço para perspectivas de tratamento, sejam terapias genéticas ou comportamentais. 

Tudo isto nos traz de volta à pergunta-guia deste artigo: é possível fazer uma pessoa deixar de ser gay? Outra questão relacionada a esta é: sendo possível, COMO isto poderia ocorrer? Uma outra questão ainda é se é possível fazer o contrário: tornar gay uma pessoa hétero. Afinal, se a homossexualidade é uma escolha, a heterossexualidade também o é, e, como tal, poderia ser revertida. Os partidários da “cura gay” fogem desta questão igual “o diabo foge da cruz”, porque, para a responderem, teriam que admitir que tal "conversão inversa", independente de ser ou não possível, não é desejável. E por que? Porque consideram a heterossexualidade o normal, o natural e a homossexualidade um pecado, uma abominação. Desta forma, o caminho só poderia ser da homossexualidade para a heterossexualidade e nunca o inverso. Simples assim. Mas nos concentremos agora nas duas primeiras perguntas: é possível fazer uma pessoa deixar de ser gay? E como isto seria possível? 



Em primeiro lugar, é importante refletirmos sobre a função de uma terapia, quer seja de reorientação sexual ou não. Na minha visão, terapeutas não mudam pessoas, muito menos as curam (como já havia apontado na primeira parte). Terapeutas auxiliam as pessoas a se transformarem. Portanto, diante de um sujeito que deseja reorientar a própria sexualidade, o terapeuta pode, no máximo, auxiliar a pessoa a transformar-se naquilo que ela deseja. O terapeuta sozinho não tem a capacidade de "mudar" ou "curar" ninguém. Neste sentido, gosto da ideia de que o terapeuta é uma espécie de co-piloto, que ouve, acolhe, orienta e sugere, mas quem realmente é o piloto, ou seja, quem define caminhos e possibilidades, é o sujeito, paciente ou cliente. Terapeuta e paciente são, como aponta Irvin Yalom, "companheiros de viagem".

De uma forma geral, as pessoas chegam até um terapeuta por basicamente duas vias: ou o procuram por conta própria, porque sentem que tem alguma coisa errada com a própria vida; ou são encaminhadas, e mesmo forçadas, por outras pessoas a procurarem ajuda, seja porque estão sofrendo muito ou porque estão incomodando os outros. Neste caso, muitas vezes, a pessoa não sente que tem realmente um problema, acreditando que quem deve se tratar são aqueles que a encaminharam. Algumas vezes a pessoa pode estar certa e não haver de fato qualquer problema com ela; em outros, pode-se tratar de um processo de negação, no qual a pessoa não aceita que tem um problema que de fato ela tem. Isto é muito comum de ocorrer com dependentes químicos, que costumam relutar em aceitar tratamento 



Neste último caso poderíamos dizer que a pessoa se encontra, segundo o modelo de mudança proposto por Prochaska e DiClemente, no estágio da pré-contemplação, ou seja, não contempla que tem um problema, acha que está tudo bem, quando de fato, tudo está mal ou nem tão bem assim. A pessoa pode permanecer neste estágio ou passar para o seguinte, que é o estágio da Contemplação, no qual a pessoa já contempla que tem um problema, embora não esteja motivada a superá-lo nem saiba como fazê-lo. Da mesma forma, a pessoa pode permanecer deste estágio ou avançar para o seguinte, que é o da Preparação. Nesta fase o sujeito já concebe que tem um problema, deseja superá-lo e começa a preparar-se para isso. Na fase seguinte, a da Ação, o sujeito já iniciou o seu processo de mudança e está motivado e engajado em fazer diferente. No entanto, não basta iniciar o processo de mudança, ele deve permanecer nele. Neste sentido, a fase da Manutenção é fundamental. Nela, o sujeito procura criar estratégias para manter-se motivado e engajado no processo de mudança. Se as estratégias utilizadas forem bem sucedidas, o sujeito pode permanecer indefinidamente neste estágio. Se não, poderá recair para algum estágio anterior, seja o da pré-contemplação ou o da contemplação. No entanto, esta recaída, bastante comum e até mesmo esperada em qualquer processo de mudança, pode ser apenas momentânea. Este modelo, embora bastante genérico, é bastante útil para compreendermos que o processo de mudança, qualquer que ele seja, depende substancialmente da motivação e do engajamento permanente dos sujeitos - o que talvez explique o fracasso retumbante da maioria dos tratamentos compulsórios que tem se disseminado por aí. E mais: tal modelo aponta para o fato de nenhuma mudança ser necessariamente permanente, sendo as recaídas partes integrantes do processo. 

Por tudo isto, forçar uma pessoa a se tratar não costuma ser uma tática muito eficaz. Logicamente, e vamos pensar no caso dos dependentes químicos, a mudança é possível mesmo que a pessoa inicialmente negue que tem um problema. No entanto, para que ela saia da fase de pré-contemplação e passe para a fase de contemplação é necessário um trabalho cuidadoso de escuta e diálogo que pode levar ou não a pessoa a se dar conta de que tem um problema. No caso deste trabalho fracassar, dificilmente a pessoa caminhará em direção à mudança, o que é um tanto óbvio: se a pessoa não acha que tem um problema por que, afinal de contas, ela se engajaria num processo de mudança? Se, por outro lado, a pessoa passar a contemplar o próprio problema, aí ela pode seguir para as etapas seguintes. Mas nem neste caso, há a certeza do “sucesso” – entendido aqui como a manutenção do processo de mudança (por quanto tempo? Difícil definir. Talvez a palavra sucesso seja inadequada, afinal, por exemplo, um sujeito que conseguiu manter-se abstêmio por 5 anos foi, de certa forma, bem-sucedido em sua empreitada, mesmo que esta não tenha sido “para toda a vida”). Tudo isto aponta para a importância da motivação, ou seja, do desejo de “querer mudar” para que qualquer transformação se efetive. 


No entanto, a motivação, ainda que necessária, não é suficiente. Muitos limites estão em jogo. Nem toda mudança é possível. Se você é negro e deseja se tornar branco, a menos que você seja o Michael Jackson, isto não será possível – ou melhor, ainda não é possível, felizmente. Existem até formas de clarear a pele, mas a menos que você tenha alguma doença, você permanecerá negro, pois isto é, de certa forma, constitutivo. Agora vamos supor que um dia haja uma forma de “reorientar sua cor de pele”. Isto seria desejável? De forma alguma, afinal porque as pessoas buscariam tal forma de “tratamento”? Certamente porque se sentiriam incomodadas com a própria cor de pele. E porque se sentiriam assim? Não tenho dúvidas de que isso ocorreria por viverem numa sociedade em que a pele branca é valorizada e a negra desvalorizada e estigmatizada. Senão, por que elas desejariam ser diferentes do que são? Simplesmente por motivos estéticos do tipo “eu acho branco mais bonito que preto”? Mas será que tal pessoa teria tais preferências estéticas se vivesse numa sociedade em que o negro fosse valorizado? Dificilmente. Afinal, nossas preferências estéticas dizem muito do mundo em que vivemos. Se achamos bonita a pele clara, o cabelo loiro e os olhos azuis é porque fomos “moldados” socialmente a pensar assim. Se fôssemos aborígenes australianos talvez considerássemos tal padrão muito pouco atrativo. 

Da mesma forma, poderíamos perguntar por que, afinal, uma pessoa desejaria, hoje em dia, reorientar a própria sexualidade? E mais: porque o desejo de reorientação se dá sempre da homossexualidade para a heterossexualidade e nunca – repito: NUNCA – no sentido contrário. Ou você sabe de algum caso de um sujeito heterossexual que deseja se tornar gay? Os motivos para isso são absoltamente claros para mim: o sujeito deseja deixar de ser gay e tornar-se hétero porque a heterossexualidade é valorizada socialmente – ao contrário da homossexualidade, que é carregada de estigmas e alvo de um enorme preconceito. Se não fosse assim, porque, afinal de contas, as pessoas procurariam uma “terapia de reorientação sexual”? Com tudo isso quero apontar que tanto o desejo de ser reorientado quanto a disponibilidade de “tratamentos” como esses, só são possíveis num mundo como o nosso. Numa sociedade mais igualitária e menos preconceituosa, ambos seriam simplesmente inconcebíveis.



Uma outra questão é se ser gay é “constitutivo” da mesma forma que ser negro. Biólogos tendem a responder que sim. Sociólogos que não. Psicólogos se dividem a respeito. Eu tendo a pensar que não. Como já expressei em outros momentos, acredito que a sexualidade humana é muito mais complexa do que fazem supor as categorias homossexual e heterossexual. A famosa Escala de Kinsey já apontava para isso no início do século passado. Para quem não conhece, tal escala apontava para uma classificação da sexualidade humana que ia além deste binarismo, apontando mesmo para uma variação de graus. Segundo Kinsey, a orientação sexual dos seres humanos vai desde os "exclusivamente heterossexuais" até os "exclusivamente homossexuais", passando pelos “heterossexuais ocasionalmente homossexuais” até os “homossexuais ocasionalmente heterossexuais” e os bissexuais, que seriam ao mesmo tempo heterossexuais e homossexuais. Na atualidade, o movimento dos assexuados e a emergência dos pansexuais, quebram ainda mais a visão da sexualidade humana enquanto restrita ao binarismo heterossexualidade-homossexualidade. Segundo esta visão, a perspectiva de uma “cura gay” não passaria de uma “passagem de ida”, talvez momentânea, talvez não, da homossexualidade para a heterosexualidade. A “passagem de volta” seria concebida não como uma recaída, mas como uma possibilidade dentre outras. Desta forma, sendo a sexualidade humana concebida de uma forma tão dinâmica e fluida, a noção de certo e errado e de norma e anormal se desfaz. Não há mais ponto de partida ou de chegada. Todos os caminhos são possíveis. 

Mas vamos supor que esta concepção esteja equivocada e a sexualidade humana se resuma basicamente à heterossexualidade e à homossexualidade – sendo a bissexualidade uma mentira, como alguns acreditam. E vamos supor também que um sujeito homossexual procure um psicólogo querendo tornar-se hétero. Como seria este tratamento? 



Bom, em primeiro lugar é preciso diferenciar dois “objetos” possíveis para um tratamento como esse: o comportamento e o desejo. Porque uma coisa é o sujeito deixar de comportar-se como gay (o que pode significar em alguns casos agir de forma menos afeminada ou masculinizada e de uma forma geral deixar de se relacionar com outras pessoas do mesmo sexo, seja afetivamente e/ou sexualmente) e outra coisa é não sentir desejo por pessoas do mesmo sexo. “Tratar” o comportamento pode até ser difícil, mas talvez seja possível. Afinal, nem sempre agimos conforme desejamos. Algumas vezes podemos ter pensamentos homicidas ou suicidas, mas acabamos não os transformando em realidade. O próprio Freud já nos alertava, no início do século passado, que viver em sociedade implica em uma certa renúncia de nossos impulsos sexuais e destrutivos. Mas como evitar o desejo? 

Talvez com um exemplo tosco, a questão fique mais clara. Vamos supor que você goste muito de chocolate. Agora vamos admitir que você passe, em certo momento, a não achar mais correto comer chocolate, seja porque dizem que faz mal ou porque você não quer engordar. Então você decide não comer mais chocolates – ou seja, você quer curar sua chocolatria. Com um certo autocontrole é possível que você consiga evitar comer chocolate. Talvez você evite ir à festas ou a lugares que você ia comprar chocolate para evitar cair em tentação. Talvez você busque prazeres alternativos. Com tudo isso, você segue firme em sua missão de não comer chocolate. Mas será possível nunca mais desejar colocar um chocolate na boca? 



Os partidários da “cura chocólatra” podem afirmar que sim. Com o tempo, poderiam dizer, o desejo vai diminuindo à medida que você se afasta dos estímulos que poderiam lhe fazer cair em tentação. O problema é que, para isso, você talvez tenha que se afastar de tudo e de todos. Sozinho no quarto talvez você consiga realmente atingir seu objetivo. Mas a questão é que você está no mundo, sujeito a ver pessoas comendo chocolate, assistir na TV propagandas de marcas de chocolate... e uma hora, mesmo sem estes estímulos externos, você pode simplesmente desejar colocar mais uma vez uma deliciosa barra de chocolate na boca. Sobre isto, os partidários da “cura chocólatra” tem um argumento “imbatível”: deixar de comer chocolate é como parar de fumar ou abandonar o sedentarismo. No início é difícil, mas com o tempo vai ficando mais fácil até se chegar ao ponto de o desejo inicial nem mesmo existir. Afinal, não existem ex-fumantes e ex-sedentários? Por que então não poderiam existir ex-chocólatras?... E ex-gays? 

Voltando para a questão da “cura gay”, algumas pessoas poderiam utilizar o mesmo argumento: deixar de ser gay é como deixar de fumar ou de comer chocolate. No início é difícil, sofrido, mas com o tempo a pessoa se acostuma com nova realidade até o ponto de o desejo cessar. Neste sentido, poderia se falar em ex-gay como alguém que passou tempo suficiente sem praticar o “comportamento homossexual” que fez cessar o “desejo homossexual”. No entanto, a metáfora do chocolate tem seus limites. Não dá para comparar o desejo por chocolate com o desejo afetivo-sexual, pois estão em planos "existenciais" distintos. A satisfação provocada por um chocolate está, sem dúvida, em um nível mais superficial do que a satisfação (ou insatisfação) provocada por um relacionamento. Neste sentido, negar o desejo por um chocolate talvez seja mais fácil do que negar um desejo afetivo-sexual. Obviamente, a frustração faz parte da vida. Nem sempre podemos ou devemos comer chocolate, mesmo desejando muito. Da mesma forma, nem sempre conseguimos nos relacionar afetiva e/ou sexualmente com aqueles que desejamos. No entanto, uma coisa é não nos relacionarmos com algumas pessoas que desejamos; outra, bem diferente, é não nos relacionarmos com nenhuma das pessoas que desejamos. Se, por exemplo, o sujeito sente desejo exclusivamente por homens e, por algum motivo, só pode se relacionar com mulheres, provavelmente emergirá uma enorme frustração e insatisfação com a vida. Não é por outro motivo que muitos sujeitos que passam por terapias de reorientação sexual tornam-se pessoas depressivas ou atormentadas e alguns chegam mesmo a se suicidar - caso do matemático Alain Turing. Afinal, estão negando uma parte muito forte e profunda de si mesmos. Alguns desses sujeitos, por outro lado, tornam-se famosos militantes anti-homossexualidade - até serem pegos com "a boca na botija", claro.



Com relação aos ex-gays, não tenho como dizer que todos estão mentindo e que tudo não passa de um grande engodo. Como já disse em outro momento, não há como afirmar categoricamente que tal "conversão" seja impossível. O fato de eu e muita gente não acreditar nisso não significa que estejamos certos. Podemos estar errados! Se uma pessoa falar para mim, olhando nos meus olhos, que deixou de ser gay, eu tenho todos os motivos do mundo para duvidar dela, mas não tenho como penetrar em seus desejos mais profundos para desmentí-la. Só o que tenho são suas palavras contra minhas crenças. O que fazer? Uma possibilidade é negar terminantemente: “Não existe ex-gay. Uma vez gay sempre gay. Não é uma escolha, é um destino”. Talvez seja verdade e a tal “reorientação sexual” não passe de um retorno para “dentro do armário”. Mas volto à questão: como lidar com o sujeito que afirma ser um ex-gay? Como provar que ele está mentindo? Vamos colocá-lo diante de um filme pornô gay e verificar se seu pênis fica entumecido ou então se as regiões de seu cérebro ligadas ao prazer se ativam? Podemos até fazer isso com alguns, mas faremos com todos aqueles que se dizem ex-gays? Iniciaremos uma “caça às bruxas” para provar que todos eles não passam de um bando de mentirosos? Por que faríamos isso? Afinal, eles estão fazendo algum mal a alguém? Na minha opinião, eles até podem estar mentindo ou negando um desejo constitutivo, mas eles tem o direito de se relacionarem (ou não se relacionarem) com quem quiser. O problema não está neles, mas sim no mundo ao redor deles, que faz com que esses sujeitos queiram deixar de ser gays para tornarem-se héteros. 

Desejo sinceramente que chegue um momento em que tais “terapias de reorientação sexual” não existam mais. Não por serem proibidas, mas por simplesmente não fazerem mais sentido. Neste contexto, os rótulos não terão o peso que tem hoje e as pessoas poderão ser o que bem entenderem e deixar de ser no momento seguinte, se assim o quiserem. Serão, pelo menos no que diz respeito ao afeto e à sexualidade, livres. 



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Homossexualidade: como curar o que não é doença? (Parte 1)

Discussões sobre a possibilidade ou impossibilidade de se tratar e mesmo curar a homossexualidade frequentemente vêm à tona. Neste post gostaria de debater algumas questões centrais em toda essa problemática. Antes de tudo, devo dizer que sei que a proposta que circula pelo Congresso Nacional não é exatamente para “curar gays”, mas para permitir (ou deixar de proibir) que psicólogos tratem pessoas que desejam mudar sua orientação sexual. Para quem não está por dentro desta história, explico: o Projeto de Decreto Legislativo nº234/11 (que vem sendo chamado de Projeto de Cura Gay) de autoria do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), visa a revogação de dois dispositivos da Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). Esta resolução proíbe o envolvimento do psicólogo com qualquer atividade que favoreça a patologização da homossexualidade - o que inclui tanto pronunciamentos públicos quanto propostas de tratamento. O CFP, obviamente, se manifestou contra tal projeto. No presente artigo, gostaria de tecer algumas considerações sobre toda esta celeuma.

Uma primeira questão é se é possível falar em cura. Na área da saúde existem tratamentos para muitas doenças, mas a cura (ou seja, a remissão completa e permanente dos sintomas) é possível somente em poucos casos. Na saúde mental, então, é praticamente impossível falar em cura. Pelo menos no sentido tradicional de retorno ao que era antes. Para o filósofo (e médico) Georges Canguilhem, em seu estudo clássico O normal e o patológico, um fato biológico fundamental é que a vida não conhece reversibilidade. Desta forma, não é possível falar em cura como um retorno à “inocência orgânica”, mas como um rearranjo, uma nova forma de vida. Curar, para Canguilhem, é criar para si novas normas de vida, às vezes superiores às antigas. Neste sentido, poderíamos até falar em cura na saúde mental, mas a palavra mais apropriada seria transformação. Psicólogos e psiquiatras não curam, mas auxiliam as pessoas a se transformarem, a construírem novas possibilidades de ser e estar no mundo.

Uma segunda questão é se ser gay é ou não uma doença. Afinal, quer se deseje a cura ou um tratamento para homossexualidade, a ideia implícita a este desejo é que ser gay é algo doentio, algo que não deveria ser. Na verdade, a perspectiva, declarada ou não, dos partidários da chamada “cura gay” é que ser gay é um pecado porque a bíblia assim o diz. Sobre esse argumento não tenho nada a dizer. É um argumento de fé: “a Bíblia disse, então é verdade”. Na verdade este nem é propriamente um argumento. É uma crença. A única coisa que poderia questionar é que a Bíblia também diz inúmeras outras coisas que se aplicavam à época em que foi escrita, mas não à atualidade. Exemplos de recomendações bíblicas absolutamente anacrônicas existem às dezenas, quiça às centenas. Não vou me deter nisso. Se você considera a Bíblia a fonte absoluta da verdade, do bom e do certo, não sou eu que vou lhe convencer do contrário. 



Mas voltando à questão de se a homossexualidade é ou não uma doença, precisamos refletir sobre o que, afinal de contas, é uma doença. Não paramos para pensar nisso normalmente, embora seja uma questão fundamental. Uma resposta possível é: doença é ausência de saúde. Só que esta resposta não resolve o problema, pois se doença é ausência de saúde, saúde é ausência de doença. Trata-se de um argumento circular que não responde a pergunta. A definição de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que saúde não é somente a ausência de doença, mas o “completo bem estar físico, psíquico e social”. Pegando esta definição e invertendo-a, poderíamos dizer que doença é o “completo mal estar físico, psiquico e social” ou então o “incompleto bem estar físico, psíquico e social”. A primeira anti-definição, o "completo mal estar", é muito extrema, deixando de fora grande parte do que compreendemos vulgarmente como doença. Já a segunda, o "incompleto bem estar" aponta para a possibilidade de todos sermos, em alguma medida, doentes, afinal, quem pode dizer que possui um completo bem estar biológico, psíquico e social? De qualquer forma, o que é doença ainda não está claro.

Uma definição clássica diz que saúde é o silêncio dos órgãos. Se não sentimos nosso corpo isto significa que estamos bem. Quando algum órgão, por outro lado, faz “barulho”, incomoda, dói, aí teríamos uma doença. Esta definição talvez valha para muitas situações da vida cotidiana: se sentimos uma dor de dente, procuramos um dentista; se a dor é no coração um cardiologista; se a dor é de coluna, um ortopedista ou um fisioterapeuta, ou seja, somente quando algo incomoda é que costumamos procurar ajuda – daí talvez a dificuldade de pensarmos preventivamente. Muito embora nem tudo que cause dor seja de fato uma doença (por exemplo, o parto ou uma dor decorrente de um tombo), muitas doenças causam dor. Mas e aquelas doenças silenciosas, como alguns tipos de câncer, que vão corroendo por dentro sem gerar, pelo menos nos momentos iniciais, nenhum sofrimento? O problema de definir doença em função do sofrimento é que nem toda doença gera sofrimento – ou pelo menos não todo o tempo - e nem todo sofrimento é patológico. Mas a relação doença-sofrimento ainda vale para a maioria dos casos – e também porque em algum momento o sofrimento costuma aparecer, mesmo nas doenças silenciosas – o que levou Canguilhem a dizer que “patológico implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida contrariada”. Mas será que isto vale tanto para as doenças físicas quanto para as chamadas doenças mentais? Podemos dizer que todo doente mental sofre? Um depressivo claramente sofre, mas o mesmo não pode ser dito de um sujeito na fase maníaca do transtorno bipolar. O problema deste sujeito é, de certa forma, justamente a falta de sofrimento. Como podemos então dizer que ele está doente? 


Pra finalizar esta discussão sobre o que é doença, sem pretender concluí-la, obviamente, não poderia deixar de mencionar uma concepção de doença que a identifica com a anormalidade e, o contrario, a saúde com a normalidade. Dizer o que é normal ou anormal é ainda mais complexo do que o que é saúde e doença, mas tradicionalmente normal esteve associado à média estatística: o que se aproxima da média é normal e o que se distancia é anormal. O problema é que é impossível definir o ponto exato onde termina a normalidade e começa anormalidade e vice-versa. Neste sentido, afirma Canguilhem, a estatística não fornece nenhum meio para decidir se o desvio é normal ou anormal, muito menos se determinado traço humano é normal ou patológico. Toda decisão é arbitrária. E, portanto, argumenta Canguilhem, social. Para este autor não existem fatos que sejam patológicos ou normais em si. O que é normal em uma situação pode ser patológico em outra. Para ele, é o próprio sujeito que define o que é ou não doença e se está ou não doente. A norma, para Canguilhem, é sempre individual. A doença não pode, portanto, ser definida por uma média estatística ou um por julgamento social, mas por um julgamento de valor realizado pelo próprio sujeito diante da polaridade dinâmica da vida. Para diferenciar saúde e doença, normalidade e patologia, Canguilhem propõe o conceito de normatividade vital, que é a capacidade do organismo de não somente responder aos desafios de seu meio, mas de criar novas normas ou possibilidades de vida. Tanto a saúde como a doença, para ele, são formas de se lidar com a instabilidade e imprevisibilidade da vida. No entanto, a doença, por limitar o organismo, é considerada uma forma negativa. Já a saúde é potência normativa e implica na capacidade de superar crises e instaurar novas normas e valores. 

Tendo tudo isso em vista e voltando à nossa questão central, poderíamos dizer que a homossexualidade é uma doença? Absolutamente não. Afinal, ser gay não gera em si qualquer sofrimento ou mal estar – além, obviamente, daqueles advindos de vivermos numa sociedade que valoriza a heterossexualidade e desvaloriza outras formas de vivenciar o sexo e a afetividade. Além disso, ser gay não implica em qualquer perda de potência normativa, ou seja, da capacidade de lidar com os desafios do mundo e transformá-lo. No entanto, os partidários da “cura gay” podem argumentar: “mas e os estudos que apontam que somente 10% das pessoas são gays? O normal é ser hétero!”. Então, recorrendo novamente à Canguilhem, poderíamos quebrar tal argumento pensando que nem tudo o que é “anormal” estatisticamente é patológico. Um exemplo disto são as anomalias, que representam tanto algo insólito, inabitual, quanto algo anormal ou estatisticamente desviante. Para o filósofo, as anomalias são conseqüência da variabilidade biológica individual e não são necessariamente patológicas. O que faz de uma anomalia algo normal ou patológico é o favorecimento ou prejuízo da vida. Se favorece ou, pelo menos, não atrapalha, é saudável; se prejudica é patológica. Certas anomalias podem, apesar de estranhas ou monstruosas, não causar nenhum mal ou sofrimento significativo a seu portador, enquanto outras, aparentemente insignificantes, podem trazer grandes prejuízos por atingirem importantes órgãos ou funções anátomo-fisiológicas. O que importa, no final das contas, é a normatividade vital, ou seja, a capacidade de instituir normas de vida. Uma anomalia é saudável se não for incompatível com a vida. É patológica, por outro lado, se o for. Para Canguilhem a questão da anomalia demonstra que diversidade não é doença e que o anormal não é necessariamente patológico. Ao contrário, problemas que afetam grande parte das pessoas (como a cárie e a tristeza) podem não ser doenças. Enfim, nem tudo que é minoritário é patológico e nem tudo que é majoritário é saudável. 



Além do mais, como também aponta Canguilhem, a palavra normal tem dois sentidos: aquilo que é comum e aquilo que é ideal, ou seja, aquilo que “é” e aquilo que “deveria ser”. Quando perguntamos, portanto, se a homossexualidade é normal, precisamos responder à outras duas perguntas: a homossexualidade é comum? A homossexualidade é ideal? A primeira pergunta leva ainda à outra: o que é comum? Algumas pesquisas realmente apontam que cerca de 10% das pessoas são homossexuais. Aparte o fato destas estatísticas desconsiderarem aqueles que estão “dentro do armário”, será 10% um número significativo ou não? Difícil dizer, afinal, para certas questões 10% pode ser muito (por exemplo, 10% dos homens tem câncer de próstata) enquanto que para outras questões pode ser pouco (por exemplo, 10% dos brasileiros usam smartphones). Tudo depende do contexto. Para aqueles que consideram a homossexualidade um pecado, uma abominação, 10% de gays é muito. Para o movimento gay, talvez seja pouco diante do número significativo de gays "dentro do armário". Com relação à segunda questão (a homossexualidade é ideal?), talvez a pergunta correta seja: a homossexualidade é natural? “De forma alguma”, dizem os partidários da “cura gay”: “o natural é o relacionamento homem-mulher. Qualquer outra forma de relação é uma abominação”. Por que, questiono? “Porque a Bíblia disse!”. Outro argumento, por favor... “Ok, porque na natureza o normal é a heterossexualidade”. Argumento falso: existem inúmeros exemplos de relações “homossexuais” na natureza. Outro argumento: “O fim de toda relação sexual deve ser a reprodução. Se não há reprodução, é antinatural”. Ah, então quer dizer que casais heterossexuais que não podem ou não querem ter filhos são abominações também? 

Finalmente, os partidários da “cura gay” podem argumentar: “Ok, você pode até ter razão quanto à tudo isto, mas por que então a Organização Mundial de Saúde, na sua Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e a Associação Psiquiátrica Americana no seu Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) já incluíram a homossexualidade dentre as doenças mentais? E mais, no caso do DSM a homossexualidade só foi eliminada, em 1980, em função de uma intensa pressão do movimento gay - o mesmo ocorrendo em 1990 com o CID. Isto prova que a decisão de retirar a homossexualidade do DSM foi política, não científica. Desta forma, como a ciência ainda não conseguiu mostrar de forma conclusiva que a homossexualidade é ou não uma doença, ela de fato pode ser”. Belo argumento, pena que seja falso. Em primeiro lugar, como já disse anteriormente neste blog, a ciência não tem como provar que a homossexualidade é ou não uma doença ou transtorno mental. Definições como esta são sempre o resultado de acordos coletivos, atravessados por múltiplos interesses e perspectivas e, portanto, dificilmente consensuais. O que os partidários da "cura gay" não percebem, ou não querem perceber, é que é desta forma que TODOS os diagnósticos, especialmente no campo da psiquiatria, são concebidos. Há muito mais política do que ciência neste processo. E mais: ciência e política andam juntas, são inseparáveis. Portanto, o que quer que esteja inserido em qualquer manual de doenças não representa a verdade suprema sobre o que é normal e o que é patológico. A homossexualidade pode até ter sido incluída no CID e no DSM, mas isto não significa que ela é, de fato, uma doença. Significa apenas que certos grupos de "especialistas", imbuídos do espírito de sua época, decidiram, por votação, que a heterossexualidade era a norma.



OBS: Na segunda e última parte deste texto discutirei se (e de que forma), mesmo não sendo a homossexualidade uma doença, é possível auxiliar uma pessoa que deseja deixar de ser gay a converter-se à heterossexualidade - e vice-versa.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Neuroblábláblá (ou Como o cérebro conquistou o mundo)


Reproduzo abaixo, na íntegra, um  excelente artigo do jornalista Sérgio Augusto, publicado dia 31 de Dezembro de 2012 no Estadão. O artigo, muito bem escrito, além de extremamente irônico, trata de um tema atualíssimo: a popularização das neurociências - que será exatamente o tema da minha dissertação de mestrado. Quem quiser ler o artigo na página original clique aqui.

O ano da neurocascata

Em 2012 a palavra do ano foi menos que um vocábulo, foi um prefixo: neuro. Usado e abusado em várias línguas, não se ateve a identificar a ciência que estuda a anatomia e a fisiologia do cérebro humano e o funcionamento do sistema nervoso - neurociência - mas também uma infinidade de atividades presumidamente científicas ou humanísticas e outras nem tanto. 2012 foi o ano do neuroisso, do neuroaquilo, do neurotudo e, em última instância, do neuronada.

Tinham outro objetivo os que fizeram a revolução cognitiva, no final dos anos 1950. O pior é que a neuromania, asseguram os que monitoram o fenômeno desde o início do milênio, não tem prazo para nos deixar em paz. Nem a nós nem à ciência.

Em sua primeira dentição, a neuromania inspirou a expressão "é cuca", aplicada a qualquer sintoma ou distúrbio de origem nebulosa, mesmo aqueles com pouca possibilidade de terem sido causados por problemas de natureza psicológica. Quase ninguém mais diz "é cuca", nem sequer "é psicossomático", mas ainda é na cabeça que quase tudo começa e se resolve, na opinião - vale dizer, na cabeça - de muita gente.



Sofisticou-se o linguajar, especificou-se o diagnóstico: agora sofremos de alguma síndrome (do pânico, a mais comum), da falta (ou excesso) de dopamina, de disfunções que nem de nome conhecíamos até algum tempo atrás. Fala-se em neurônio, sinapse e córtex pré-frontal quase com a mesma intimidade com que desde sempre nos referimos às artérias e ao esôfago. Não precisamos esperar que glia, dendrito e axônio caiam na boca do povo para reconhecer, penhorados, que a popularização da neurociência ampliou tremendamente nossa cultura biológica.

O preço pago por esse enriquecimento vocabular e patológico foi alto demais. Como o marxismo, o freudianismo, a Teoria Crítica e outras visões totalizantes, a neurociência virou o século submetida a abusivas simplificações e aplicações levianas. Vulgarizada para consumo e consolo das massas, a neurociência pop tornou-se uma pestilência intelectual, um engana-trouxa de jaleco a oferecer ensinamentos, no mínimo, discutíveis sobre certas funções orgânicas e determinados processos mentais e soluções para uma infinidade de problemas - dos cognitivos aos emocionais, dos políticos aos econômicos.



Se ainda não ouviu falar em neuroeconomia, neuropolítica, neuroteologia, neurogastronomia, neurocrítica literária, neurodireito, neuroestética, neuromagia, neuromarketing, prepare-se. São o que você imagina, e igualmente dotadas de impositivas imagens por ressonância magnética ou de tomografia axial computadorizada. Como resistir à impressionante visão de um cérebro com aquelas manchas vermelhas, amarelas e verdes excitadas por impulsos nervosos?

"This is your brain..." (É assim o seu cérebro...) virou um meme editorial, um abracadabra para o que sucede em nossa cuca quando estamos felizes, nos apaixonamos, ouvimos música, comemos carboidratos, negociamos ações na bolsa e duvidamos da ressurreição de Lázaro. A dupla Earl Henslin-Daniel Amien fatura horrores nesse ramo de neurocascata. Outros incansáveis praticantes: Louis J. Cozolino, "inventor" da neurociência das relações humanas, e John B. Arden, que tem uma receita neoestoica para "modificar e melhorar" nossa massa cinzenta.



Com o prefixo neuro alçado a padrão ouro da exegese e da autoajuda, as prateleiras das livrarias se abarrotaram de obras que tentam dar respostas até a questões fora da alçada da neurociência ou compartilhadas com a psicologia e outros consolidados ramos do conhecimento. Não há muito mistério: desenvolva uma desconfiança comportamental ou psicossocial sob a forma de tese, busque alguns exemplos que a sancionem, ainda que só parcialmente, enfeite o texto com lantejoulas neurológicas (dopamina, oxitocina, ínsula, glândula pineal, etc.), e pronto - está feita a sua neurobobagem.

Em julho deste ano, Elaine Fox pôs na praça "a nova ciência do otimismo", dividindo o cérebro - que sabemos dotado de dois hemisférios: o esquerdo, responsável pelo pensamento lógico, o direito, pelo pensamento simbólico - em dois hemisférios metafóricos: de um lado, o "chuvoso" (rainy brain), do outro, o "ensolarado" (sunny brain). Poucos meses antes, Chris Mooney "descobrira" que os republicanos são geneticamente diferentes dos democratas, e também menos inteligentes e mais agressivos do que seus adversários políticos "porque têm uma amídala mais ativa", a amídala cerebral, é claro. O que me levou a supor que o filho republicano de Alan Alda em Todos Dizem eu te Amo, que depois de um piripaque se transformava num democrata liberal, teve sua amídala amansada no hospital.




Quando a dicotomia neurometeorológica de Elaine Fox e o maniqueísmo neuroeugenista de Chris Mooney chegaram ao mercado, os best-sellers de Malcolm Gladwell (Blink - A Decisão num Piscar de Olhos) e Jonah Lehrer (Proust Era um Neurocientista e Imagine: Como Funciona a Criatividade) já haviam sido malhados pelos vigilantes da seriedade científica espalhados por publicações especializadas e pela internet; sendo que Lehrer acabou demitido da revista The New Yorker por inventar citações. Existem blogueiros que se dedicam a apontar e gozar erros e abusos cometidos pelos proxenetas da divulgação científica. São os "neurocéticos", que leem tudo o que se publica em jornais, revistas e livros com mais de um grão de sal. Serviço não falta.

Um grupo de cientistas ingleses analisou cerca de 3 mil artigos sobre neurociência publicados na imprensa britânica nos primeiros dez anos da década passada e constatou ser bastante elevada a taxa de informações distorcidas ou edulcoradas pela mídia, por ignorância, negligência ou para servir a algum interesse. Divulgada pela revista Neuron, a pesquisa motivou a comunidade científica a um alerta contra os que ajudam a conferir "uma aparência de seriedade e verdade a pensamentos vagos e indisciplinados" e a difundir a falácia de que as explicações neurocientíficas vieram para eclipsar as interpretações históricas, sociológicas, políticas, econômicas, literárias, e torná-las obsoletas.