sexta-feira, 21 de março de 2025

Email sobre este blog

Já faz algum tempo que eu recebi o email abaixo de um querido leitor deste blog - e eu fiquei muito feliz por recebê-lo, especialmente porque raramente eu recebo retornos tão positivos como esse. Eu já não atualizo muito esse blog há tempos - nos últimos anos eu apenas repostei algumas resenhas que escrevo lá no Instagram (me sigam lá!) - mas eu gostaria de postar esse email aqui no blog para que ele fique registrado como uma espécie de troféu por todo o tempo que dediquei a este blog no passado - quando o blogs ainda faziam sentido e eram lidos. E eu agradeço imensamente ao querido leitor pelas palavras tão gentis e carinhosas... Muito obrigado!

Felipe, não sei se lerá meu email, mas quero registrar meu agradecimento ao seu blog "Psicologia dos Psicólogos".
Sabe quando em uma aleatoriedade de pesquisa buscando por algo simples terminamos por encontrar algo de grande valor? Foi assim com seu blog.

Para mim, foi uma fonte importante para me fazer refletir sobre conhecimentos dos quais eu estava simplesmente aceitando como verdades absolutas, principalmente em relação a neurociência.
Achei também interessante que em postagens mais antigas, você já tratava de temas que atualmente se tornaram presentes como tudo ser neuro*insira uma palavra*, o desmerecimento mais intenso do que nunca em torno da Psicanálise (e olha que nem sou psicanalista), as máquinas e a humanidade (afinal estamos adentrando na era das IA mais do que nunca, onde o que é real e não é, vai se tornando cada vez mais difícil de distinguir), etc.
Sem perceber, devorei algumas dezenas de postagens, fiz várias anotações e reflexões.
Ao fim, então passei a ver pontos dos quais achava sem nexo, com mais alívio e críticas, pois alguém trouxe escrito e embasado questões das quais eu refletia, discordava e meramente aceitava, por não ter tido até o momento um alguém que norteasse um sentido com críticas interessantes e profundas reflexões. Mas no fim do horizonte, eu então vi seu blog, eu li seus textos, suas traduções.
Há ainda muito a ler nas minhas anotações, pensar e então filtrar, no intuito de me tornar um pouquinho melhor como profissional. Entretanto esse é um começo.

Agradeço, por suas postagens, sua coragem, suas reflexões. Profissionais de tamanha competência como você estão escassos.
Um abraço e tudo de bom.

Sobre os riscos e potenciais da IA: uma resenha do livro "Ética na inteligência artificial"

No livro "Ética na inteligência artificial" (Ubu, 2023) o cientista social e professor de filosofia Mark Coeckelberg apresenta e analisa, com uma linguagem simples porém rigorosa, as principais questões éticas e sociais relacionadas ao campo da inteligência artificial - como os problemas da privacidade, da responsabilidade, do enviesamento, dentre muitos outros. E como se trata de um livro introdutório, ele também se preocupa em definir os principais conceitos desse campo, desde "inteligência artificial" até "aprendizado de máquina" e "ciência dos dados". Trata-se de um excelente livro para quem deseja se aproximar desse tema super atual e entender os principais usos, problemas e potencialidades das tecnologias de Inteligência Artificial.

Trecho do livro: "A IA está relacionada a um tipo de inteligência e pensamento humano: o mais abstrato, de caráter cognitivo. Esse tipo de pensamento se provou muito bem-sucedido, mas tem suas limitações e não é o único tipo de pensamento a que podemos ou devemos recorrer. Precisamos de pessoas perspicazes e máquinas inteligentes, mas também precisamos de intuições e know-how que não podem ser completamente explicitados, além de sabedoria prática e virtude para responder a problemas e situações concretas e decidir nossas prioridades. Tal sabedoria pode ser abastecida por processos cognitivos abstratos e análise de dados, mas também tem como base experiências corporificadas, relacionais e situacionais no mundo, na lida com outras pessoas, com a materialidade e com o nosso ambiente natural. Nosso sucesso em enfrentar os grandes problemas do nosso tempo provavelmente dependerá de combinações entre inteligência abstrata - humana e artificial - e sabedoria prática concreta, desenvolvida com base na prática e na experiência humanas, de caráter situacional e concreto - incluindo a nossa experiência com a tecnologia. Seja qual for a direção do futuro desenvolvimento da IA, o desafio de aperfeiçoar esse tipo de conhecimento e aprendizado é nosso. Os seres humanos devem fazer isso. A IA é boa em reconhecer padrões, mas não se pode delegar sabedoria às máquinas". (Último parágrafo do livro, pgs 183 e 184)

Três excelentes e impactantes documentários sobre algumas mazelas dos nossos tempos

A recém-lançada minissérie documental "Uma atualização sobre a nossa família", disponível na Max, é muito forte e impactante. Ela conta a história de um famoso casal de youtubers que criou um canal no qual mostravam, como se fosse um reality show, o dia-a-dia com os filhos. Em certo momento eles decidem adotar um garoto chinês e este garoto, que viria a ser diagnosticado com autismo, passa a fazer parte desse insano reality familiar, no qual quase tudo é filmado. Acontece que após certo tempo, o casal decide desfazer a adoção, devolvendo a criança para seu país de origem - para o absoluto choque dos fãs do canal, que se que tornam instantaneamente haters. A minissérie é perfeita na forma como retrata essa dinâmica fluida das redes, na qual o amor pode rapidamente se tornar ódio. Mas a produção também deixa claro como que por mais que as pessoas se exponham, elas nunca mostram tudo - na verdade elas só mostram aquilo que querem mostrar de acordo com certa narrativa. A realidade é, como sempre, extremamente complexa, multifacetada e difícil de ser acessada e plenamente compreendida. Como bem disse o escritor espanhol Javier Marias "a verdade é sempre um emaranhado".

O documentário "A conspiração consumista", recém-lançado pela Netflix, analisa as principais estratégias utilizadas pelas grandes empresas globais para fazer as pessoas consumirem cada vez mais - o que, por sua vez, gera uma quantidade absurdamente insana de resíduos/lixo, despejados a cada instante em nosso planeta. Muito embora tente trazer um tom esperançoso, o documentário dá uma dimensão bastante precisa - e assustadora - do buraco em que a gente se meteu. Minha única crítica é que embora condene a atuação de diversas empresas, o documentário não se aprofunda na causa primária desse problema que é o capitalismo, sistema baseado na lógica do crescimento perpétuo, absolutamente incompatível com a lógica da preservação ambiental. Ainda assim, recomendo fortemente esse documentário, que é tão assustador que poderia facilmente ser classificado como um filme de terror.

No documentário No other land (Sem chão), vencedor do Oscar de Melhor Documentário este ano, acompanhamos de dentro - isto é, sob o olhar palestino - a destruição de casas e até de uma escola pelo exército israelense na região montanhosa de Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada. O filme retrata o terror vivenciado pelas famílias ao se verem, de um instante para o outro, sem suas casas - e sem as vidas que tinham anteriormente. E as pessoas dessa comunidade ainda têm de lidar cotidianamente com as ameaças e violências do exército de Israel - que compõem um cenário de grande terror psicológico. Se este documentário não conseguir sensibilizar as pessoas para a situação dos palestinos - seja na Cisjordânia seja em outros lugares - eu não sei o que mais poderia ser feito. Simplesmente assistam!

A vida universitária na corda bamba: uma resenha do romance "De onde eles vêm", de Jeferson Tenório

O livro "De onde eles vêm", novo romance do escritor Jeferson Tenório, vem sendo divulgado como um "romance sobre a política de cotas". Acontece que nenhum romance pretende ou teria condições de dar conta de um tema como esse. Quando escrito com talento - e este é o caso de Jefferson Tenório - um romance pode "apenas" contar uma boa história através da singularidade dos seus personagens. No caso do livro "De onde eles vêm", a narrativa é centrada em Joaquim, um jovem negro, pobre, órfão de pai e mãe e morador da periferia de Porto Alegre, que ingressa, por meio de uma política de cotas raciais, no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas para além de sua vida estudantil e das demandas acadêmicas, Joaquim precisa cuidar de sua avó doente e ainda se virar para conseguir recursos financeiros suficientes para se manter na universidade. Joaquim representa aquele estudante - que eu, como psicólogo de uma universidade pública federal, conheço muito bem - que vive na corda bamba, sempre assombrado pela possibilidade de não conseguir avançar e finalizar o curso, seja por dificuldades financeiras seja pela permanente sensação de não-pertencimento ao mundo universitário - algo que Joaquim vivencia e verbaliza a todo momento. A história de Joaquim, ao mesmo tempo em que sinaliza para a importância das políticas de ações afirmativas voltadas para o ingresso do estudante, também aponta para a necessidade de políticas de assistência estudantil que contribuam para sua permanência. As dificuldades vivenciadas por Joaquim tem grande relação com a inexistência, no momento em que se passa a história (início dos anos 2000) de uma política centralizada de apoio ao estudante - o Programa Nacional de Assistência Estudantil (o PNAES) foi criado apenas em 2010. Mas mesmo tais políticas, fundamentais, ainda são insuficientes, já que não dão conta de auxiliar o estudante nas suas dificuldades educacionais, nas suas vivências de racismo e na sensação constante de não-pertencimento à universidade. A trajetória de Joaquim nos permite ao mesmo tempo exaltar os avanços que foram feitos e também constatar os limites das políticas implementadas até o momento. Ainda temos muito a avançar!

Trecho do livro: "Até os meus doze anos, eu nunca tinha lido. Eventualmente o abria em uma página qualquer, mas acontece que o livro tinha outras funções em minha vida. Servia de brinquedo, objeto que eu jogava de lá para cá, nunca para leitura. Mas penso que, de certa maneira, o livro cumpriu seu papel comigo. Foi útil para as necessidades básicas que eu tinha. Então, uma vez, ainda na infância, quando me senti entediado, abri o livro. Lembro que deitei no sofá e comecei a ler sobre maças, bananas e abacaxis. Aquela imagem de uma pessoa deitada no sofá lendo um livro me atraía. De algum modo, tornei-me leitor não por causa de uma leitura em si, mas porque eu gostava daquela imagem: alguém que lê".