domingo, 1 de março de 2026

Impressões sobre o documentário alemão "Irvin Yalom - De Frente para o Sol"

O documentário "Irvin Yalom - De Frente para o Sol" (Irvin Yalom - In die Sonne schauen), produção alemã lançada em 2023, está longe de ser um grande filme - eu diria mais: ele chega a soar como um desperdício de tempo e dinheiro. A equipe teve acesso privilegiado a Irvin Yalom e à sua família, pôde filmá-lo em momentos íntimos, acompanhar sua rotina, registrar conversas pessoais e ainda assim entregou um trabalho superficial, curto demais (com apenas 50 minutos) e sem o aprofundamento que um personagem dessa estatura claramente merecia. Falta ao documentário um fio narrativo mais consistente, maior contextualização da trajetória profissional e intelectual de Yalom e, sobretudo, mais tempo para desenvolver temas que aparecem apenas de passagem, como sua relação com a morte, o envelhecimento, a escrita e a própria prática clínica. Ainda assim, apesar dessas limitações, o filme tem qualidades que o tornam interessante para quem admira a obra de Yalom. O tom é bastante intimista, com belas imagens de arquivo, cenas familiares e depoimentos sinceros do próprio Irvin, de seus filhos, de um neto e também de sua atual esposa, Sakino Sternberg - e pelo filme ficamos sabendo que eles estavam, naquele momento, escrevendo um livro juntos (que ainda não foi publicado). Há também pequenas passagens que mostram Yalom com 91 anos refletindo sobre a vida e o envelhecer com a consciência cada vez mais concreta da finitude - reflexões que atravessam toda a sua obra, mas que aqui aparecem mais sugeridas do que exploradas.

Entre todas as falas, duas me chamaram particularmente a atenção. A primeira é quando Yalom afirma considerar Os desafios da terapia o seu melhor livro - avaliação com a qual concordo totalmente. A segunda, mais surpreendente, é um desabafo de sua filha Eve, que afirma que o pai “nunca fez nada por sua família”. Ela explica que, enquanto Irvin se dedicava ao trabalho clínico e à escrita dos seus livros, praticamente todas as responsabilidades com relação à casa e à criação dos filhos ficaram a cargo de sua primeira esposa, Marilyn Yalom, que ainda precisava conciliar essas tarefas com sua própria carreira acadêmica - e segundo Eve, isso foi fonte de tensão entre eles durante anos. Esse depoimento é talvez o momento mais forte do documentário, justamente porque rompe com a imagem idealizada do casal que aparece no livro Uma questão de vida e morte, escrito por ambos. Ali, a relação entre Irvin e Marilyn é retratada de forma extremamente harmoniosa e exemplar, quase idílica; no filme, surge uma dimensão mais humana, com conflitos e desigualdades muito comuns às antigas (e atuais) gerações. O resultado é interessante porque mostra que o sujeito pode ser um grande terapeuta e escritor e, ao mesmo tempo, um marido e pai bastante tradicional, no pior sentido da palavra. No fim das contas, "Irvin Yalom: De Frente para o Sol" não é um filme memorável, nem faz jus à importância de seu protagonista. Ainda assim, vale a pena ser visto por quem se interessa pela obra de Yalom, justamente por causa desses fragmentos mais pessoais, desses pequenos deslizes de sinceridade e das cenas que expõem, mesmo que rapidamente, a pessoa por trás do autor. E é por conta desses momentos - e não pela qualidade do documentário como um todo - que eu recomendo o filme, atualmente disponível no canal Aquarius da Prime Video.

Pós-escrito: há também um documentário mais antigo, de 2014, que trata da vida e obra de Yalom. O filme, dirigido por Sabine Gisiger, chama-se "Yalom's cure" e está disponível no Youtube gratuitamente - mas infelizmente sem legendas em português. Se tiver interesse assista abaixo.

 
 
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