quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

“Neurocoisas”: por que o prefixo “neuro” não converte qualquer ideia em ciência

Republico abaixo um  texto  muito interessante escrito pelos pesquisadores espanhóis Ingrid Mosquera Gende e José Morales García publicado no site The conversation - inicialmente em espanhol e mais recentemente - no dia 24 de fevereiro - em português. Quem acompanha este blog sabe do meu interesse pela discussão sobre os usos e abusos do discurso "neuro", tema que eu já tratei inúmeras vezes por aqui e também em dois livros: "O cérebro vai à escola": aproximações entre neurociências e educação no Brasil e Você não é seu cérebro! e outros ensaios sobre psicologia, neurociências e cinema. Especialmente no primeiro livro, fruto da minha dissertação de mestrado, eu tratei com profundidade de uma das mais populares neurodisciplinas, a neuroeducação, que exemplifica muito bem o fenômeno analisado no presente ensaio. Cabe destacar que este artigo está licenciado sob Creative Commons, podendo ser reproduzido e republicado livremente. O artigo original pode ser lido aqui.

Nas últimas décadas, o prefixo “neuro-” virou uma espécie de selo de qualidade intelectual e científica. Basta dar uma olhada nas redes sociais, canais de divulgação e, pior ainda, em artigos acadêmicos, para encontrar termos como neuromarketing, neurodireito, neuroliderança ou neurocoaching. Basta adicionar cinco letras a uma palavra para que ela pareça mais profunda, inovadora e, acima de tudo, mais científica.

O prefixo “neuro-” vem do grego neûron (νεῦρον) e significa “nervo” ou, por extensão, “sistema nervoso”. Começou a ser usado para formar termos científicos e médicos relacionados a esse sistema, mas se estendeu a outros campos, nem sempre corretamente. Nem tudo que reluz é neuro.

Uso legítimo versus abuso terminológico

O prefixo neuro- deve ser reservado para aquilo que tem uma relação comprovada com o sistema nervoso; não basta mencionar o cérebro. Falar corretamente de neurociência implica apoiar-se em dados obtidos por meio de técnicas próprias dessa disciplina, como neuroimagem, eletrofisiologia ou estudo molecular, celular e tecidual do tecido nervoso.

Nos últimos anos, no entanto, o termo se popularizou em áreas como marketing, gestão empresarial ou coaching, muitas vezes sem que exista uma conexão real com mecanismos cerebrais mensuráveis. Essa ampliação do termo não é irrelevante do ponto de vista cognitivo: vários estudos mostram que explicações que incluem referências ao cérebro são mais persuasivas, mesmo quando essas informações são irrelevantes ou superficiais.

Esse fenômeno, conhecido como neurohype ou “neuroessencialismo”, tem sido amplamente criticado por exagerar o valor explicativo do “neural” e por contribuir para uma compreensão simplificada — e às vezes errônea — de como o sistema nervoso realmente funciona.

Nessa perspectiva, o problema não é que outras disciplinas estudem o comportamento humano — algo perfeitamente legítimo —, mas que adotem o prefixo “neuro-” sem aportar evidências neurobiológicas diretas.

Isso não significa que o diálogo entre a neurociência e outras áreas do conhecimento seja ilegítimo. Pelo contrário: é desejável e necessário. Mas não se consegue uma conversa interdisciplinar apenas adicionando um prefixo, sem integrar dados, teorias e métodos de forma rigorosa. Quando termos como neuromarketing, neurocoaching ou neuroliderazgo, entre muitos outros, são aplicados a intervenções que não geram nem utilizam dados neurobiológicos, o prefixo neuro- funciona principalmente como um golpe publicitário.

Como alertam Sally Satel e Scott Lilienfeld, esse uso indevido da linguagem neurocientífica pode desviar a atenção de questões realmente importantes — o que funciona, para quem e em que contexto — para uma explicação reducionista centrada no cérebro. Nem todo estudo sobre a mente precisa ser neuro para ser rigoroso, e forçar essa linguagem pode criar mais confusão do que conhecimento.

“Neuro-sintomas” que nos fazem desconfiar

Nas redes sociais, tanto influenciadores quanto empresas se apoiam nesse prefixo para chamar a atenção e conferir um aparente rigor científico a um produto, curso ou ideia.

Ações como acessar o perfil da rede social da pessoa que publica, verificar sua formação, observar se ela tem contribuições sobre o tema ou se comenta assuntos muito diversos e sem relação aparente podem nos ajudar a descobrir seu nível de especialização.

Nesse mesmo sentido, mesmo que a pessoa coloque “especialista” em seu perfil ou tenha uma foto com um jaleco branco, investiguemos um pouco mais. Se necessário, pode ser conveniente sair da rede social e procurar em outras fontes.

Por outro lado, a maioria dos perfis científicos e acadêmicos que se dedicam à divulgação tentam fazê-lo de forma acessível e com uma linguagem que possa ser minimamente compreensível para o público não especializado. Portanto, se encontrarmos um reel ou uma publicação com uma linguagem excessivamente técnica, não devemos presumir que estamos diante de um especialista.

E, se não tivermos certeza, não devemos compartilhar, comentar ou citar. Não devemos dar destaque a esse tipo de conta porque, sem perceber, estamos contribuindo para sua viralização, que é exatamente o que elas buscam.

Estar ciente dessas técnicas pode nos tornar usuários de redes sociais mais neurocríticos e menos neuroinfluenciáveis, sem cair na armadilha do clickbait, que busca que cliquemos em determinadas publicações com títulos e palavras sem sentido, como as que usamos neste parágrafo.

Propostas para melhorar comunicação científica

Do ponto de vista da prática investigativa, diferentes trabalhos em comunicação científica e neuroética sugerem que uma forma eficaz de melhorar o rigor — e evitar o abuso do termo “neuro” — é aplicar critérios mais restritos de precisão conceitual. O prefixo deve ser usado apenas quando o estudo incorpora dados, métodos ou medidas diretamente relacionados à atividade do sistema nervoso, e não como um recurso retórico destinado a reforçar explicações psicológicas ou comportamentais já bem estabelecidas por outros meios.

No âmbito editorial, várias análises recomendam avaliar criticamente se a referência ao sistema nervoso traz um valor explicativo real ou se, pelo contrário, introduz ambiguidade conceitual (o citado neuroessencialismo) sem melhorar a inferência científica.

Por fim, estudos experimentais em psicologia cognitiva mostram que o uso da linguagem neurocientífica pode aumentar a percepção de credibilidade de uma explicação sem melhorar sua qualidade ou compreensão. Esse efeito reforça a necessidade de divulgadores e comunicadores científicos priorizarem a clareza, o contexto e os limites interpretativos acima do apelo do discurso “neuro”.

Em conjunto, essas práticas reduzem o risco de neurohype e favorecem uma comunicação científica mais precisa e honesta. Como lembrava Santiago Ramón y Cajal, “todo homem pode ser, se assim o desejar, escultor de seu próprio cérebro”; mas nenhuma palavra, por mais neuro que soe, pode esculpir por si só conhecimento onde não há rigor.

Ingrid Mosquera Gende, Professora Titular da Universidade na Faculdade de Ciências da Educação e Humanidades da UNIR – Universidade Internacional de La Rioja, e José A. Morales García, Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade Complutense de Madrid.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sobre a potência do vínculo: uma resenha do livro "Uma hora de conexão" de Irvin e Benjamin Yalom

O psiquiatra e psicoterapeuta Irvin Yalom, atualmente com 94 anos, possui uma vasta e relevante obra, iniciada em 1970 com a publicação do livro didático The Theory and Practice of Group Psychotherapy (lançado no Brasil pela Artmed em 2006 com o título "Psicoterapia de grupo: teoria e prática"). Desde então, Yalom publicou inúmeros e excelentes livros, incluindo quatro romances filosóficos: When Nietzsche Wept (Quando Nietzsche chorou, 1992), Lying on the Couch (Mentiras no divã, 1996), The Schopenhauer Cure (A cura de Schopenhauer, 2005) e The Spinoza Problem (O enigma de Espinosa, 2012); cinco livros com histórias de terapia, meus preferidos: Every Day Gets a Little Closer (Cada dia mais perto, 1974, escrito em parceria com Genny Elkin), Love's Executioner (O carrasco do amor, 1989), Momma and the Meaning of Life (Mamãe e o sentido da vida, 1999), Creatures of a Day (Criaturas de um dia, 2015) e Hour of the Heart (Uma hora de conexão, 2024, escrito em parceria com seu filho, Benjamin Yalom); dois livros autobiográficos: Becoming Myself (2017) e A Matter of Death and Life (Uma questão de vida e morte, 2021, escrito com sua esposa, Marilyn Yalom); um livro não teórico sobre psicoterapia: o fantástico The Gift of Therapy (Os desafios da terapia, 2001); um livro filosófico sobre a morte: Staring at the Sun (De frente para o sol, 2008); três livros teóricos: The Theory and Practice of Group Psychotherapy (1970), Existential Psychotherapy (1980) e Inpatient Group Psychotherapy (1983), além de duas coletâneas de ensaios: The Yalom Reader (1996) e I'm Calling the Police (Vou chamar a polícia, 2005). Temos, portanto, 18 obras lançadas até o momento. No Brasil, a maior parte desses livros já foi publicada, com exceção de quatro: Existential Psychotherapy, Inpatient Group Psychotherapy, The Yalom Reader e Becoming Myself. E ao longo dessa variada e admirável obra, Yalom tratou como poucos das complexidades da mente humana e, especialmente, das possibilidades e potências do vínculo terapêutico. Certamente outros autores fizeram isso com muita competência, como Lori Gottlieb em Talvez você deva conversar com alguém e Joshua Fletcher em E como você se sente em relação a isso?. No entanto, esses são escritores iniciantes e estão longe de terem uma obra ampla e sólida como Yalom (espero muito que cheguem lá).

Em seu livro mais recente, lançado em novembro de 2024 nos Estados Unidos e em janeiro de 2026 no Brasil, Yalom dá continuidade ao seu antigo "projeto" de retratar a relação entre terapeuta e paciente, que está no centro e na base da sua abordagem terapêutica. Mas, desta vez, ele decidiu inovar e compartilhar os resultados de uma espécie de experimento que ele se propôs a fazer aos 80 e tantos anos. Originalmente intitulado Hour of the heart: connecting in the here and now (Hora do coração: conectando no aqui e agora) o livro, que foi escrito em parceria com seu filho Benjamin Yalom, recebeu no Brasil um título bem mais interessante (e menos piegas): "Uma hora de conexão: sessões sobre memória e vulnerabilidade". Mas do que trata o tal experimento que ele se propôs a fazer? Bem, pouco antes de completar 90 anos, ainda enlutado pela morte recente de sua esposa, com quem ele foi casado por 65 anos, Yalom começou a perceber sua memória piorando dia após dia. E ele passou a sentir também os impactos destes problemas de memória em seus atendimentos, que ele ainda realizava presencialmente no seu consultório em Palo Alto na Califórnia, e também online, especialmente após o início da pandemia de Covid-19. E foi por conta de tais problemas que ele decidiu alterar total e definitivamente a sua forma de atendimento: ao invés de atender as pessoas no decorrer de longos períodos, como fez até então, ele faria apenas atendimentos únicos com uma hora de duração. Esta forma peculiar de atendimento, no seu entender, demandaria menos da memória e mais da sua habilidade, exercitada ao longo de décadas, de se conectar com seus pacientes. 

E assim, no decorrer dos anos seguintes, Yalom atendeu dezenas, talvez centenas, de pessoas - e no livro ele compartilhou algumas de suas histórias. Mas além de inovar na duração dos atendimentos ele se propôs a explorar ainda mais o aqui-e-agora na relação entre ele e seus pacientes durante a sessão e também a experimentar a autorevelação por meio da inversão de papéis entre terapeuta e paciente. Nesta técnica, o terapeuta deixa momentaneamente a função de "escutador" e se propõe a responder, da forma mais sincera possível, a qualquer pergunta ou questionamento do paciente. É um recurso que exige coragem e abertura e que pode ser útil em determinados momentos. No entanto, da forma como é retratado no livro, eu fiquei com a impressão de que, em alguns casos, a inversão de papéis se estende além do necessário, fazendo com que a sessão pareça girar mais em torno dele do que do paciente. De toda forma, mesmo com exageros pontuais, Yalom continua conduzindo e retratando o atendimento terapêutico com uma admirável sensibilidade e humanidade. E é com a mesma atitude que ele relata também o seu próprio declínio. Aos 93 anos, após alguns anos atendendo neste formato, Yalom tem um assustador apagão de memória, esquecendo-se completamente de um atendimento que acabara de fazer. E por conta desta situação, retratada no último capítulo do livro, ele decidiu pôr fim à sua longa carreira como terapeuta. No entanto, como aponta seu filho Benjamin, no posfácio, embora não atenda mais, Yalom não deixou de escrever e tem se dedicado intensamente àquele que pode ser seu último livro. Essa informação, contudo, não funciona apenas como nota biográfica; ela prolonga, para além das páginas de Uma hora de conexão, o mesmo movimento que o livro encena: o de transformar os limites humanos - inclusive o declínio e a finitude - em matéria de reflexão e partilha. Se o consultório se fecha, a escrita permanece como outra forma de encontro. Assim, este livro se afirma como uma obra de passagem: ao mesmo tempo em que marca o encerramento de uma prática clínica de décadas, reafirma a fidelidade de Yalom àquilo que sempre sustentou em sua trajetória: a aposta na relação, na vulnerabilidade compartilhada e na coragem de olhar de frente a própria finitude. Ao final da leitura, permanece menos a sensação de despedida e mais a de continuidade: enquanto houver leitores e terapeutas dispostos a sustentar o aqui e agora do encontro, a obra de Yalom seguirá viva.

Trechos do livro: "Fui lembrado mais uma vez de uma realidade humilhante. Raramente é o brilhantismo de um terapeuta que faz a diferença. Nossas intepretações engenhosas? As intervenções ousadas que nos provocam descargas de adrenalina e satisfação pessoal? Isso em geral passa despercebido pelos pacientes. Por outro lado, o que quase sempre faz a diferença são as qualidades do vínculo (a empatia, o desejo e a capacidade de realmente enxergar o outro) e a disposição de oferecer um feedback honesto, algo que raramente se obtém na vida cotidiana. É aí que residem os tesouros, uma verdade confirmada em minhas décadas de experiência, bem como em pesquisas científicas revisadas por pares. Compreendi que a melhor forma de tirar proveito das sessões únicas era focando o relacionamento"; "Meu mantra profissional: é o relacionamento que cura. Ou seja, o que faz um paciente crescer e se transformar é, antes de tudo, a experiência de um vínculo de proximidade e segurança com o terapeuta, mais do que qualquer intervenção, diagnóstico ou medicamento específico. Em várias dessas histórias, mencionei a necessidade de construir essa conexão de confiança como essencial para o trabalho no aqui e agora. Mas iria além e diria que qualquer que seja a abordagem terapêutica, desde a terapia focada em soluções de curto prazo até a terapia cognitivo-comportamental e a análise psicodinâmica de longa duração, é fundamental criar um relacionamento forte, positivo e de confiança com os pacientes. É claro que a construção desse relacionamento em uma única sessão é uma tarefa particularmente desafiadora. Mas se levar a sério meu próprio mantra e acreditar que a relação é, de fato, mecanismo de cura, então, nessas sessões únicas, devo me dedicar por inteiro a criar esse vínculo o quanto antes. Falar de mim mesmo - mostrar vulnerabilidade, compaixão, humanidade - e incentivar o paciente a fazer igual pode não ser o único recurso, mas decerto é o que funciona melhor pra mim".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Dois videos sobre algumas (neuro)coisas

Compartilho abaixo, com os leitores deste blog (se é que alguém ainda lê este blog), dois videos publicados no Youtube em 2025: o primeiro deles é de uma entrevista que eu dei para um curso de formação online de professores do ensino básico sobre o tema da aproximação entre neurociências e educação, tema que eu me dediquei no mestrado - e que resultou na minha dissertação, que posteriormente foi adaptada e transformada no livro "O cérebro vai à escola: aproximações entre neurociências e educação no Brasil", lançado em 2016 pela editora Paco; o outro vídeo é de uma palestra que eu ministrei durante o III Congresso de Saúde Mental da UFV. Nesta palestra, intitulada "Tecnologias para o aprimoramento do cérebro e da mente: uma análise crítica" eu falo especialmente do tema do treinamento cognitivo ou cerebral, tema que eu me dediquei no doutorado - e que resultou na minha tese, que em breve será publicada como livro também pela editora Paco. A palestra tem início às 1h8min do video. Espero que gostem...
 

Um breve comentário sobre o filme "Vampira humanista procura suicida voluntário"

Sasha é uma jovem vampira no mínimo diferente. Seria possível dizer até que ela tem uma anomalia ou - porque não? - um transtorno mental: ela se importa com os seres humanos e não consegue matá-los para se alimentar, o que deixa sua família vampírica extremamente frustrada e preocupada. E por conta desse "transtorno" ela se alimenta apenas do sangue extraído de pessoas mortas por seus pais - em um processo de autoengano semelhante ao que nós fazemos quando comemos um bife nos "esquecendo" temporariamente que aquela carne é o resultado da morte de um animal. Pois essa é a história do incrível filme canadense "Vampira humanista procura suicida voluntário" (2023), dirigido pela cineasta Ariane Louis-Seize e recém-incluído no catálogo da Netflix. O que eu acho mais fascinante nessa história é que ela deixa bem claro como as noções de normalidade e de patologia dependem fundamentalmente do contexto em que a pessoa vive. E no contexto criado pelo filme, ser uma vampira humanista é visto, especialmente por sua família, como algo anormal, doentio, patológico e que, portanto, precisa ser tratado ou curado, de forma a enquadrar a pessoa à tal "normalidade". Sério, não deixem de assistir esse filme precioso lá na Netflix!

Entre o ceticismo e a fé: uma resenha do romance "Batida só", da Giovana Madalosso

Durante um assalto, Maria João desmaia e por conta disso é levada a um hospital, onde descobre, após despertar, que possui uma grave arritmia cardíaca - totalmente desconhecida por ela até então. A questão é que após tal descoberta, Maria passa por uma bateria de exames e seu cardiologista, além de lhe prescrever alguns remédios para atenuar a arritmia, recomenda que ela tente evitar "toda e qualquer emoção forte" - mas como fazer isso? Nós temos algum controle sobre as nossas emoções? E mais profundamente: o que é uma emoção? Pois esse é o ponto de partida do maravilhoso livro "Batida só", terceiro romance da escritora curitibana Giovana Madalosso (os anteriores são o interessante Tudo pode ser roubado e o fenomenal Suite Tóquio). Sem entrar em muitos detalhes da narrativa é possível dizer que após receber tal recomendação, Maria procura um psiquiatra na esperança de que algum psicofármaco a ajude a controlar e atenuar suas emoções - o que de fato acontece: o antidepressivo prescrito faz com que suas ansiedades e angústias (mas também suas alegrias e sua libido) se tornem fracas e distantes em sua mente, como se ela nada sentisse. Ao mesmo tempo, Maria opta por se mudar por um tempo para a cidade onde cresceu, uma pequena cidade do interior, com o objetivo de descansar e tentar acalmar, ainda mais, as suas emoções. E lá ela reencontra uma antiga amiga de infância, a Sara, que é mãe de Nico, um garoto brilhante e adorável acometido por uma doença gravíssima. Unidos pelo adoecimento, todos eles partem para uma cidade vizinha onde tratamentos espirituais (bem ao estilo de João de Deus) são realizados. Acontece que Maria é ateia e cética com relação a tudo o que é realizado lá, bem o contrário de Sara, que possui uma forte e inabalável fé. Uma das grandes riquezas do livro está justamente na forma como ele trata o embate e as aproximações entre ceticismo e fé, entre razão e emoção e entre pessimismo e esperança. Meu destaque fica para o encantador Nico, meu personagem favorito da história, que incorpora com brilhantismo todas as ambivalências e contradições dessas discussões - e de muitas outras - trabalhadas com muito talento e sensibilidade pela autora neste livro lançado em 2025 pela editora Todavia. Amei!

Trecho do livro: "Até ter aquela cardiopatia, eu era como a maioria das pessoas, achava que a medicina tinha evoluído a ponto de resolver qualquer problema. É assim que os leigos falam: hoje em dia tem tratamento pra tudo (...). Só quando a doença está no seu corpo você descobre a verdade. E a verdade é que a medicina é uma ciência de poréns. Não existe consenso absoluto entre os médicos. Mesmo no meu caso, que as opiniões convergiam e o tratamento prometia dar certo, havia discordâncias. Não há garantia de nada - cada corpo é uma folha em branco a escrever todo dia a sua própria e única história. O que parece fácil de resolver é sempre um pouco mais complexo do que se espera. E algumas vezes a solução não existe. Ou é um daqueles artigos de luxo a que só uma ínfima parte da população pode ter acesso".

A potência do encontro terapêutico: uma resenha do livro "E como você se sente em relação a isso?"

No livro "E como você se sente em relação a isso?", o psicoterapeuta inglês Joshua Fletcher intercala algumas (ótimas) histórias de psicoterapia com histórias da sua própria vida. Muito embora os relatos pessoais sejam interessantes, por demonstrarem o fato óbvio, por vezes esquecido, de que terapeutas são humanos e também sofrem e passam por problemas assim como seus pacientes, o ponto alto do livro, sem dúvida alguma, são suas ótimas histórias de terapia. Como eu cheguei a dizer na resenha que fiz do maravilhoso "Talvez você deva conversar com alguém", escrito pela terapeuta Lori Gottlieb, pouquíssimos livros, especialmente livros técnicos, conseguem transmitir a complexidade e a potência do encontro terapêutico. Os mais bem-sucedidos nessa empreitada são aqueles e aquelas com boas habilidades na escrita literária, como é o caso de Irvin Yalom mas também de Gottlieb... e de Fletcher. No caso de Fletcher, além de narrar com muito talento algumas sessões de terapia, ele escolheu os casos para o livro com muita sabedoria: são casos que exploram variadas facetas, desafios e, até mesmo, frustrações do trabalho terapêutico. O que achei mais interessante é que ele optou por narrar tanto casos que poderíamos chamar de bem-sucedidos, nos quais as pessoas apresentaram melhoras significativas, quanto casos que tiveram um desfecho ruim, seja em função de uma desistência ou por conta do interesse romântico que ele desenvolveu por uma determinada paciente. Eu preciso salientar e elogiar, nesse sentido, a enorme sinceridade com que Fletcher se expressa, seja ao expor os seus pensamentos durante as sessões, seja ao relatar episódios nada agradáveis ou lisonjeiros de sua própria vida - algo que exige muita coragem. Mas eu preciso elogiar também a forma como ele conduz as sessões, com muita empatia, ternura e sensatez. É claro que não temos como saber o quão precisas e fiéis são suas narrativas de terapia, mas o fato é que elas pareceram para mim - que já tenho, como ele, uma boa experiência clínica - extremamente verossímeis. Por tudo isso, gostaria de recomendar com muito entusiasmo a leitura deste ótimo livro, lançado em 2024 pela Editora Sextante.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ainda faz sentido chamar a dependência química de "doença cerebral"? (Tradução)

“Meu nome é Isabel e eu sou alcoolista”, disse a mulher, apresentando-se na sessão de terapia em grupo. “Estou sem beber há 22 anos.” Uma de nós, Chrysanthi, estava presente como estagiária clínica. Com curiosidade genuína, ela perguntou: “O que faz de você uma alcoolista se não bebe há quase um quarto de século?” Isabel a olhou, um pouco perplexa, e respondeu: “É uma doença. Eu a tenho no meu cérebro.”

Para Isabel (nome fictício), compreender sua dependência química como uma doença cerebral foi libertador. Sua experiência ilustra como o modelo de dependência química como doença cerebral, formulado pela primeira vez em 1997 pelo psicólogo norte-americano Alan Leshner, provavelmente ajudou algumas pessoas a enfrentarem a dependência química com menos culpa e autorrecriminação. O modelo conferiu legitimidade científica a um conceito mais antigo, popularizado pelos Alcoólicos Anônimos, que definia a dependência química como uma doença crônica que exigia apoio espiritual e comunitário, em vez de punição e vergonha. Ao retirar os elementos espirituais e morais desse conceito, o modelo da doença cerebral buscava eliminar de vez o estigma em torno da dependência química: a ciência acabaria por provar que a dependência química resulta de uma disfunção cerebral, não de falhas de caráter.

De fato, reduzir o estigma era uma das metas explícitas desse modelo. Ao mesmo tempo, ele inaugurou uma nova forma de explicar a dependência química: como uma condição crônica causada por alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro. Esse modelo emergiu de uma mudança cultural mais ampla, que começou nos anos 1960 e culminou nos anos 1990 com o advento das técnicas de neuroimagem, priorizando cada vez mais a neurociência na compreensão dos transtornos mentais. O modelo moldou prioridades de pesquisa em todo o mundo. Decifrar as causas biológicas da dependência química deveria levar a tratamentos mais eficazes, incluindo intervenções precisas voltadas para processos neurobiológicos ou neuroquímicos específicos.

Quase três décadas depois, é importante avaliar até que ponto esse modelo cumpriu o que prometia. O modelo da doença cerebral ainda é a melhor forma de pensar a dependência química? Os resultados produzidos por ele justificam ensinar gerações inteiras de pacientes, famílias e clínicos a ver a dependência química sobretudo como uma patologia cerebral individual?

A resposta curta é que o modelo da doença cerebral não cumpriu o prometido. Após inúmeros estudos encontrando diferenças neurobiológicas fracas entre pessoas com transtornos por uso de substâncias e aquelas sem tais transtornos, nenhum biomarcador confiável para diagnóstico, prognóstico ou tratamento personalizado foi identificado. Os tratamentos mais eficazes para a dependência química são psicossociais – incluindo grupos de apoio e terapia – ou foram desenvolvidos muito antes da ascensão do modelo da doença cerebral. Por exemplo, a metadona foi aprovada pela Food and Drug Administration (FDA, equivalente da Anvisa) nos anos 1970 para transtorno por uso de opioides, a naltrexona nos anos 1980. E a buprenorfina foi aprovada no início dos anos 2000 – justamente quando o modelo cerebral ganhava força, mas sem ligação direta com ele.

Embora relatos pessoais como o de Isabel não sejam incomuns entre pessoas com dependência química, o impacto do modelo da doença cerebral sobre o estigma é mais complexo do que se supõe. Pesquisas recentes mostram que aceitar esse modelo não reduz substancialmente o estigma na população geral, nem diminui o apoio a respostas punitivas à dependência química. A ideia de que alguém com dependência química tem uma doença cerebral pode até reforçar o estigma em alguns casos, alimentando pessimismo quanto às chances de recuperação e um menor senso de agência pessoal. Medicalizar uma condição não a destigmatiza automaticamente; rótulos de doença podem, eles mesmos, ser altamente estigmatizantes, como se viu em condições como HIV/AIDS.

Avaliar o status científico do modelo da doença cerebral revela uma fonte mais profunda de confusão: não está totalmente claro o que significa dizer que a dependência química é uma doença cerebral. Isso significa apenas que, como a dependência química é um transtorno mental, e toda atividade mental reside no cérebro, então a dependência deve ser também uma “doença cerebral”? Ou significa que ela é semelhante a condições universalmente reconhecidas como doenças cerebrais, como câncer cerebral ou doença de Parkinson?

A formulação inicial de Leshner do modelo da doença cerebral se alinhava mais a esta última visão. Nos anos 2000, a dependência química era frequentemente comparada a doenças como o Alzheimer e o AVC. Acreditava-se que resultava de uma vulnerabilidade genética aos efeitos das drogas, combinada a mudanças cerebrais induzidas pelas drogas em regiões ligadas à recompensa, ao controle de impulsos e às emoções negativas. Essas alterações duradouras eram vistas como os principais motores da recaída e se tornaram alvos centrais na busca por novos medicamentos.

Os elementos centrais do modelo se refletem bem na metáfora do “cérebro sequestrado” (hijacked brain). Popular tanto no discurso científico quanto no público, essa metáfora sugere que o uso crônico de drogas “sequestra” o sistema motivacional do cérebro, tornando o consumo irresistível, apesar das consequências negativas.

Mas até esses elementos fundamentais do modelo da doença cerebral vêm sendo questionados. A extensão da perda de controle na dependência química tem sido posta em dúvida, já que os sintomas respondem fortemente a intervenções psicossociais. Por exemplo, o manejo por contingência (contingency management), que usa reforços positivos para incentivar a abstinência, é altamente eficaz em diversos transtornos por uso de substâncias e continua sendo tratamento de primeira linha em casos sem medicamentos aprovados, como nos transtornos por uso de estimulantes. Diferentemente de doenças cerebrais paradigmáticas, como câncer cerebral, a dependência química pode ser modificada pelo desejo da pessoa de melhorar. E embora possa ser crônica e difícil de tratar, também há evidências de que muitas pessoas não só se recuperam, como o fazem sem recaídas – o que desafia a visão da dependência química como necessariamente crônica e reincidente.

Além disso, as mudanças cerebrais associadas à dependência química não se mostraram confiáveis nem específicas o suficiente para ter relevância clínica. Até o momento não encontraram nenhuma assinatura neural que permita a clínicos distinguir o cérebro de uma pessoa com dependência química do cérebro de uma pessoa sem dependência. Alguns defensores do modelo argumentam que, com mais tempo e recursos, a neurociência trará descobertas mecanísticas e tratamentos mais eficazes. No entanto, após décadas de pesquisa intensiva, esse otimismo parece irrealista.

Com seus elementos centrais cada vez mais difíceis de defender empiricamente, os defensores do modelo da doença cerebral recorrem à visão mais ampla de que a dependência química deve ser uma doença cerebral simplesmente porque envolve o cérebro. Nenhum cientista sério contesta que o cérebro está envolvido na dependência química (ou em qualquer transtorno mental), então esse argumento é logicamente trivial. Reconhecer que toda atividade mental envolve atividade cerebral, sem identificar disfunções específicas, consistentes e identificáveis, não avança a compreensão ou o tratamento da dependência química. Essa visão genérica também implicaria que qualquer processo que gere sintomas por meio de mecanismos neurobiológicos precisa ser qualificado como uma doença cerebral. No entanto, eventos de vida negativos, como separação ou perda, podem desencadear ou agravar sintomas depressivos, provavelmente através de mudanças neurobiológicas, e ninguém os consideraria doenças cerebrais.

Em essência, o modelo da doença cerebral pretendia explicar a dependência química em termos de dados objetivos do cérebro, poupando-nos da dificuldade de lidar com os aspectos subjetivos e confusos da experiência humana. Ele fracassou provavelmente porque ignorou uma realidade fundamental: não se pode retirar o “mental” dos transtornos mentais. Quaisquer alterações cerebrais observadas em transtornos mentais, incluindo aqueles relacionados ao uso de substâncias, derivam seu status de disfunção não de uma comparação com o funcionamento cerebral normal, mas da disfunção mental que supostamente produzem.

Alguns pesquisadores sugeriram que as mudanças cerebrais associadas à dependência química talvez nem indiquem uma patologia cerebral subjacente. Por exemplo, o neurocientista Marc Lewis propôs que essas mudanças poderiam, em vez disso, refletir o traço neurobiológico (neurobiological imprint) de processos normais de aprendizagem que saem do controle no nível comportamental. Esses padrões de aprendizagem podem se consolidar não por causa de um dano cerebral, mas porque o indivíduo não tem acesso a fontes alternativas de recompensa – como relações significativas, oportunidades educacionais ou emprego estável. Essa é apenas uma dentre um conjunto mais amplo de explicações complementares que não se apoiam exclusivamente em anormalidades cerebrais inerentes ou irreversíveis para explicar a dependência.

A persistência em enquadrar a dependência primariamente como um problema individual do cérebro obscurece os fatores sociais mais amplos em jogo, incluindo aqueles reconhecidos como grandes propulsores da dependência, como pobreza, racismo sistêmico e desigualdade social. Tome-se, por exemplo, a epidemia de transtorno por uso de opioides nos Estados Unidos: as principais forças que impulsionaram essa crise foram em grande medida sociais e não biológicas, sistêmicas e não individuais, e incluem o marketing agressivo de opioides por parte da indústria farmacêutica, bem como a desindustrialização e a pobreza. Isso sugere que respostas eficazes à dependência exigem enfrentar as condições estruturais que produzem e sustentam a vulnerabilidade, em vez de perseguir uma patologia cerebral ainda não identificada.

Na busca por avanços científicos para o tratamento da dependência, não devemos esquecer que já sabemos bastante sobre o que provavelmente ajuda e tem impacto na vida das pessoas. Há evidências substanciais que apoiam medidas como acesso gratuito e incondicional a tratamento médico e psicológico, acesso a moradia estável e fortalecimento do apoio comunitário para combater a solidão. No entanto, essas medidas ainda são implementadas de forma insuficiente.

Nos meses seguintes ao encontro, Chrysanthi passou a conhecer melhor Isabel, compreendendo que o modelo de doença cerebral lhe havia oferecido uma narrativa útil justamente no momento em que ela mais precisava – quando Isabel lutava com sentimentos de culpa, auto-ódio e alienação de si mesma e dos outros. Mas é possível ajudar as pessoas a aliviar esses sentimentos sem sugerir que a dependência é uma parte irreversível de quem elas são.

À medida que Isabel retornava ao grupo, tornou-se claro para ambas que o que sustentava sua recuperação não era o modelo específico utilizado para compreender sua experiência, mas sim a possibilidade de reencontrar um sentido para a vida e sentir-se vista, ouvida e compreendida pelos outros. É justamente isso que a psiquiatria corre o risco de perder de vista em sua busca incessante por identificar uma patologia cerebral: intervenções que ajudam as pessoas a se sentirem e viverem melhor nem sempre precisam recorrer à biologia.

Texto originalmente publicado no site AEON, no dia 22/09/25: https://psyche.co/ideas/does-it-still-make-sense-to-call-addiction-a-brain-disease

Sobre as autoras: 

Chrysanthi Blithikioti é pesquisadora de pós-doutorado no Departamento de Psicologia Geral da Universidade de Pádua, na Itália, com especialização em psicologia e neurociência. Sua pesquisa concentra-se na avaliação de intervenções psicossociais em transtornos relacionados ao uso de substâncias e em transtornos psicóticos, com o objetivo de melhorar os desfechos em saúde mental por meio de abordagens baseadas em evidências. 

Ioana Alina Cristea é professora associada de Psicologia Clínica no Departamento de Psicologia Geral da Universidade de Pádua, na Itália. Seu trabalho aplica a meta-research — conjunto de métodos que investigam como a pesquisa é planejada, conduzida e relatada — a questões clinicamente relevantes, tais como o desenvolvimento, aprimoramento e avaliação mais rigorosa de tratamentos em saúde mental.