terça-feira, 28 de junho de 2016

Treinamento cerebral e efeito placebo

"Melhore o desempenho de sua mente", promete a versão brasileira da plataforma de treinamentos cerebrais Lumosity. Já a Supera, maior rede de "academias cerebrais" do país afirma que a participação em seus cursos presenciais e virtuais possibilitará a "conquista [de] uma mente saudável, com mais concentração, raciocínio, memória, criatividade e autoestima". A Neuroforma, por sua vez, afirma ser uma "plataforma on-line de exercícios cientificamente projetados para estimular as principais funções cerebrais e aumentar o desempenho cognitivo". Finalmente, a BrainRx afirma ser "especializada em tornar crianças e adultos mais inteligentes". Enfim, todas estas empresas - e muitas outras - prometem melhorar a concentração, a memória e a inteligência de seus usuários e até mesmo prevenir eventuais declínios cognitivos através do engajamento em uma série de jogos e exercícios "cerebrais". Mas será que isto realmente ocorre? Se nos guiarmos exclusivamente por fatores econômicos seremos levados a acreditar que sim, afinal uma indústria tão poderosa como a do brain fitness, que movimenta, segundo revista Forbes, bilhões de dólares por ano, não poderia estar erguida em cima de areia movediça. Ou poderia? Será que realmente tais produtos e serviços possuem fundamentação científica para prometer o que prometem? E será eles que cumprem tais promessas? A questão é controversa. Se por um lado, uma importante meta-análise publicada em 2014 por pesquisadores da Universidade da Califórnia, concluiu que o treinamento cognitivo de curta duração "pode resultar em efeitos benéficos em importantes funções cognitivas", por outro lado, também em 2014 - como já apontei em outro post - dezenas de cientistas de todo o mundo assinaram um comunicado afirmando não haver nenhuma evidência científica sólida de apoio às promessas das empresas de ginástica cerebral.

Para além desta controvérsia sobre a eficácia ou não dos jogos e exercícios cerebrais, um estudo recém-publicado no último dia 20 de Junho no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences sugere uma explicação alternativa para a suposta eficácia de tais treinamentos, evidenciada em alguns estudos. Segundo os pesquisadores da Universidade George Mason, os "efeitos benéficos" seriam consequência não de uma eficácia intrínseca mas do efeito placebo gerado pela expectativa de eficácia. Mas como os pesquisadores chegaram a esta conclusão? Eles elaboraram um experimento simples, porém engenhoso. Para recrutar participantes para o estudo eles distribuiram dois cartazes (veja abaixo). No primeiro deles, à esquerda, eles escreveram: "Treinamento cerebral e aprimoramento cognitivo - Numerosos estudos tem mostrado que treinamentos de memória de trabalho podem aumentar a inteligência fluida. Participe de um estudo hoje. Email para mais informações: GMUBrainTraining@gmail.com" [um detalhe importante é que abaixo abaixo da frase em verde eles colocaram três referências bibliográficas que comprovariam a veracidade da afirmação]. Cabe apontar que a grande maioria dos estudos sobre eficácia de treinamentos cognitivos recrutou as pessoas de maneira similar. Já no segundo cartaz, à direita, eles escreveram: "Mande um email hoje e participe de um estudo - Precisa de créditos estudantis? Inscreva-se em um estudo hoje e ganhe 5 créditos. Participe de um estudo hoje. Email para maiores informações: cforough@masonlive.gmu.edu". Como já deve estar claro, neste segundo cartaz os pesquisadores não fizeram qualquer menção ao fato da pesquisa estar relacionada à temática do "treinamento cerebral", enquanto que no primeiro deram bastante destaque a esta informação.

BrainTrainIntext

Cinquenta participantes foram recrutados e divididos em dois grupos - em um deles (grupo placebo) estavam as pessoas que foram atraídas à pesquisa pelo primeiro cartaz, enquanto que no outro (grupo controle) aquelas que foram atraídas pelo segundo cartaz. Todos os participantes inicialmente responderam a uma teste voltado para a avaliação da inteligência fluida e em seguida se envolveram, por uma hora, em jogos de treinamento cognitivo. Finalmente, no dia seguinte, refizeram o teste de inteligência para que os pesquisadores pudessem averiguar se alguma mudança seria detectada. E o que eles encontraram? Que os participantes do grupo placebo se saíram melhor neste segundo teste do que no primeiro, marcando de 5 a 10 pontos a mais. Já o grupo controle não teve qualquer aumento, permanecendo no mesmo nível de antes. Tendo em vista que é extrememente improvável que um treinamento tão curto traga um efeito significativo e permanente na inteligência e que a única diferença entre os dois grupos estava na forma como foram recrutados, este resultado aponta, assim, que teriam sido as expectativas geradas pelos cartazes as responsáveis pelo "aumento no QI" dos participantes e não o treinamento cognitivo. Os pesquisadores não entendem ainda como o efeito placebo poderia melhorar a pontuação de QI de uma pessoa, ainda que momentaneamente, mas suspeitam que isto poderia estar relacionado a um aumento na motivação e na confiança dos participantes. 

Importante salientar que este novo estudo não sugere que o treinamento cognitivo/cerebral seja ineficaz, mas que sua eficácia se deveria mais às expectativas de eficácia, ou seja, ao efeito placebo, do que à uma eficácia intrínseca. Em suma, o que os pesquisadores indicam é que o marketing de empresas de treinamento cerebral é mais do que um chamariz, é a principal razão de sua "eficácia". E isto significa também que a publicidade de tais empresas é essencialmente mentirosa, pois dissemina a ideia de que são os jogos e treinamentos cognitivos em si que geram certos "efeitos benéficos". Aliás, a empresa Lumos Labs, que é responsável pelo popular aplicativo de treinamento cerebral  Lumosity,  recentemente foi condenada pela Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos (FTC, na sigla em inglês) a uma multa milionária - e ainda foi obrigada a notificar seus assinantes sobre este processo e permitir que eles cancelassem imediatamente a assinatura. Segundo a FTC, a companhia dissemina uma propaganda enganosa ao garantir que praticar 10 a 15 minutos algumas vezes na semana de seus jogos ajudaria seus usuários a melhorar o desempenho na escola e no trabalho e até mesmo a prevenir o declínio cognitivo. De acordo com a porta-voz da FTC Michelle Rusk“a Lumosity se apega aos medos que seus consumidores têm sobre o declínio de capacidades relacionado a idade, sugerindo que seus games podem ajudar a evitar a perda de memória, demência e até mesmo a Doença de Alzheimer. Mas a Lumosity simplesmente não tem a ciência para suportar seu anúncio”. Na mesma direção, um dos pesquisadores responsáveis pela pesquisa descrita acima, Cyrus Foroughi, afirmou para a revista Cosmos que a descoberta de uma maneira de aumentar rápida e permanentemente a inteligência seria algo fantástico, mas ponderou: "eu só acho que a ciência ainda não chegou lá". Será que um dia chegará?

PS: Não consegui ter acesso ao artigo "Placebo effects in cognitive training" na íntegra, apenas a seu resumo e a informações disponíveis na imprensa. Infelizmente o artigo completo está disponível apenas para entidades conveniadas ao site ou mediante pagamento. Isto significa que eu posso ter cometido algum(ns) erro(s) na descrição e intepretação do experimento.

PS2: inteligência fluida (Gf) se refere, segundo este artigo, "à capacidade de raciocinar e de resolver novos problemas, independentemente do conhecimento previamente adquirido". O artigo diz ainda que a inteligência fluida é "fundamental para uma ampla variedade de tarefas cognitivas, e é considerada um dos fatores mais importantes na aprendizagem. Além disso, a Gf está intimamente relacionada com o sucesso profissional e educacional, especialmente em ambientes complexos e exigentes". Esta forma de inteligência se contrapõe à chamada inteligência cristalizada (Gc), que, segundo este outro artigo, é a inteligência envolvida "na solução da maioria dos complexos problemas cotidianos, sendo conhecida como 'inteligência social' ou 'senso comum'. Esta inteligência seria desenvolvida a partir de experiências culturais e educacionais, estando presente na maioria das atividades escolares".

Sugestões de leitura:

Artigos que demontram a eficácia de treinamentos "cerebrais":
Artigos que questionam a eficácia de treinamentos "cerebrais":
 

sábado, 25 de junho de 2016

Freud rompeu com a neurologia?

Em um post recente, ao comentar criticamente uma entrevista do neurocientista Ivan Izquierdo em que ele dizia que a neurociência havia superado a psicanálise, eu afirmei que Freud, embora tenha iniciado sua carreira e suas pesquisas como neurologista, aos poucos foi se distanciando desta perspectiva em prol de uma visão mais psicológica da mente humana. Em certo momento eu sugeri até mesmo um rompimento, uma ruptura, de Freud com a neurologia e com a biologia em geral. Mas isto de fato aconteceu? Decidi ir mais a fundo nesta questão e busquei livros e pesquisas que analisaram detalhadamente esta pergunta (abaixo indicarei exatamente quais foram as minhas fontes). E as informações que encontrei apontam para duas respostas possíveis: sim e não, com forte tendência para o não. Para alguns autores, a obra neurológica de Freud tem um interesse meramente histórico, não sendo vista como algo relevante para se entender a "metapsicologia" desenvolvida por ele posteriormente - as manifestações organicistas em seus textos tardios são entendidas, deste ponto de vista, apenas como uma excentricidade ou um apego sentimental a certos princípios adquiridos no início de seu processo de formação. Para estes autores seria óbvia a "constatação" de que Freud teria rompido radicalmente com a neurologia. No entanto, análises mais atentas apontam que Freud, por mais que se queira negar, nunca rompeu totalmente com a biologia e com um entendimento neurológico da psiquê. Como afirmam os pesquisadores Richard Simanke e Fátima Caropreso, "a ideia de que o "psicólogo Freud" teria, a partir de certo momento, substituído inteiramente o "neurólogo Freud" não parece poder ser facilmente sustentada".  Segundo estes autores é possível observar, de fato, uma "perfeita unidade e continuidade" entre estas duas dimensões do pensamento de Freud. Neste sentido, o que parece um rompimento não passaria de um recuo estratégico levado à cabo em função da percepção de que não haviam condições técnicas e metodológicas adequadas para se estudar fisiologicamente o cérebro e a relação mente-cérebro naquele momento. Ainda assim Freud sempre defendeu de diferentes formas a visão de que a mente e, logicamente, o inconsciente, não poderiam existir "suspensos no ar", estando necessariamente fundados em estruturas orgânicas/neurais. E tudo isto significa que muito provavelmente, se Freud estivesse vivo, ele olharia com bastante interesse para as atuais pesquisas neurocientíficas, ainda que dificilmente "comprasse" o discurso fisicalista/materialista disseminado por muitos neurocientistas contemporâneos - que insistem em nos fazer acreditar que "somos o nosso cérebro". Sua visão possivelmente incorporaria alguns elementos "neuro" em uma teoria mais ampla da mente humana. Ok, de fato nunca saberemos, mas podemos imaginar, não?

Certamente, não há como negar a origem "neurocientífica" da psicanálise. Freud, no inicio de sua carreira, especificamente a partir de 1883, esteve profundamente envolvido em pesquisas neuroanatômicas e neurofisiológicas em laboratórios de Viena e Paris - anteriormente participou de pesquisas em zoologia, tendo estudado, dentre outras coisas, o sistema reprodutivo de enguias em um laboratório em Trieste, onde produziu, em 1877 seu primeiro artigo científico (sobre este acontecimento, o psicanalista Mark Solms comenta: "não é notável o fato de que o futuro descobridor do processo de castração iniciou sua carreira científica procurando, sem sucesso, os testículos perdidos da enguia?"). Alguns anos mais tarde, em 1891, quando já se interessava pelo campo da psicopatologia, publicou seu primeiro livro, Sobre a concepção das afasias, que não faz parte de suas "obras completas" justamente porque foi escrito e publicado em um período pré-psicanalítico, momento em que o "Freud neurologista" ainda tinha primazia sobre o "Freud psicanalista" - no Brasil este livro foi publicado somente em 2013 pela editora Autêntica. Nesta obra, Freud analisa as diversas concepções de afasia reinantes naquele momento e tece importantes, e ainda atuais, críticas à teoria localizacionista, segundo a qual cada função mental teria uma localização precisa no cérebro, que seria afetada no caso de uma lesão. Esta teoria, cabe ressaltar, voltou, ou melhor, se impôs com grande força após o advento das novas tecnologias de neuroimagem (PET, fMRI, etc), que apontam para áreas mais ou menos "ativas" no cérebro e sugerem, assim, que, determinadas áreas são responsáveis por determinadas funções. Esta visão localizacionista, defendida ardorosamente pelos frenologistas no século XIX e criticada por Freud já em 1891, tem sido alvo de importantes críticas empreendidas por diversos neurocientistas, como o brasileiro Miguel Nicolelis, para quem o cérebro funciona com um todo integrado e de maneira distribuída - daí a utilização do termo distribuicionista para designar o adepto desta corrente, oposta à localizacionista. Em seu livro Muito além do nosso eu, Nicolelis defende justamente a visão do cérebro como uma rede na qual células localizadas em diferentes regiões do cérebro contribuiriam, “cada uma de uma maneira diminuta e peculiar, para a geração de um produto cerebral final”. Segundo o pesquisador, assim como para Freud, não faz sentido atribuir a uma área específica a responsabilidade sobre determinada função.

Em 1895, Freud escreveu, mas nunca o publicou em vida, o texto "Psicologia para neurologistas". Tal publicação ocorreu em sua língua materna somente em 1950, onze anos após a sua morte, e teve seu título alterado pelos editores da versão inglesa, em 1954, para "Projeto para uma psicologia científica". Acredita-se que Freud sempre rejeitou tal manuscrito e nunca quis que fosse publicado, talvez por se tratar de um texto que vai na contramão de sua obra posterior (será mesmo?). Neste texto inacabado, caracterizado por Octave Mannoni como um "manual de neurologia fantástica", Freud se propõs, em suas próprias palavras, a "estruturar uma psicologia que fosse uma ciência natural" e para tanto elaborou uma teoria  acerca do pensamento e comportamento humanos em termos da estrutura e função do sistema nervoso. Freud pretendeu, em suma, construir uma "fisiologia da mente", segundo expressão de Clark Glymour. Não pretendo aqui entrar nos pormenores deste complexo texto - para tanto indico o livro Projeto para uma Psicologia Científica: Freud e as neurociências, escrito pelo psicanalista Benilton Bezerra Jr. -, gostaria apenas de destacar que se trata de uma obra ímpar, na medida em que Freud propõe uma explicação neurológica para a mente - totalmente especulativa, diga-se de passagem, já que não existiam instrumentos disponíveis naquela época para verificar suas hipóteses. Cabe ressaltar ainda que neste texto Freud reforça sua crítica ao localizacionismo, corrente hegemônica naquele momento. E isto sinaliza para o entendimento que Freud já "nadava contra a corrente" antes mesmo de desenvolver a teoria e o método psicanalíticos.

Em sua vasta obra posterior, escrita até o fim de sua vida, em 1939, Freud se refere inúmeras vezes ao funcionamento cerebral e à relação entre este e a mente. Selecionamos abaixo algumas destas frases - que certamente não devem ser entendidas isoladas do texto maior em que estão inseridas, mas que sinalizam para um certo entendimento. Para quem quiser lê-las no contexto em que foram escritas, recomendo a leitura do texto/livro-base.

  • "Mesmo quando a investigação mostra que a causa excitante primária de um fenômeno é psíquica, uma pesquisa mais profunda irá um dia mais adiante nesse caminho e descobrirá a base orgânica do acontecimento mental" (Interpretação dos sonhos, 1900)
  • "A mecânica desses processos me é totalmente desconhecida; qualquer um que quisesse levar essas ideias a sério teria que procurar por seus análogos físicos e encontrar um meio de figurar os movimentos que acompanham a excitação dos neurônios" (Interpretação dos sonhos, 1900) 
  • "É fácil descrever o inconsciente e seguir seus desenvolvimentos, se ele é abordado pelo lado de suas relações com o consciente, com o qual tem tanta coisa em comum. Por outro lado, não parece ainda haver nenhuma possibilidade de abordá-lo pelo lado dos acontecimentos físicos, de modo que ele deve permanecer como um tema de investigação psicológica" (O interesse pela psicanálise, 1913)
  • "Devemos lembrar que todas as nossas ideias provisórias em psicologia estarão, presumivelmente, algum dia, baseadas numa subestrutura orgânica" (Sobre o narcisismo, 1914)
  • "A estrutura teórica que criamos para a psicanálise é, na verdade, uma superestrutura, que, um dia, terá que ser assentada sobre seus fundamentos orgânicos. Mas nós ainda os ignoramos" (Conferências de introdução à psicanálise, 1916/1917)
  • "As deficiências em nossa descrição provavelmente se desvaneceriam, se já estivéssemos em condições de substituir os termos psicológicos pelos termos fisiológicos ou químicos" (Além do princípio do prazer, 1920)
  • "A biologia é, verdadeiramente, uma terra de possibilidades ilimitadas. Podemos esperar que ela nos forneça as informações mais surpreendentes, e não podemos imaginar que respostas nos dará, dentro de poucas dezenas de anos, às questões que lhe formulamos. Poderão ser de um tipo que ponha por terra toda a nossa estrutura artificial de hipóteses" (Além do princípio do prazer, 1920)

Em todos os trechos destacados acima é possível observar diferentes variações em cima da ideia de que no presente, ou seja, no momento em que Freud escrevia, não haviam condições técnicas e científicas para se fazer determinados estudos e, consequentemente, para se chegar a certas conclusões sobre o funcionamento cerebral, mas que no futuro tais restrições deixariam de existir. É possível perceber nos textos de Freud uma grande fé no futuro e, especificamente, no futuro da ciência, que, acredita ele, seria um dia capaz de dar algumas respostas sobre o sistema nervoso e o cérebro que naquele momento não eram possíveis e que poderiam complementar o conhecimento psi e até mesmo, quem sabe, substituí-lo. Cabe apontar que esta fé na ciência está presente de uma forma ainda mais evidente em seu livro O futuro de uma ilusão, no qual a fé na ciência, de certa forma, substitui a fé em deus ou em uma religião. Na verdade, a grande crítica de Freud à ciência cerebral de sua época é que ela se restringia à busca pela localização de determinadas funções mentais na estrutura do cérebro e isto, para ele, era insuficiente para seus propósitos e interesses. O que ele almejava era uma análise funcional do cérebro, ou seja, uma análise de sua dinâmica e não somente de sua estrutura. No entanto, naquele momento não existiam instrumentos pra tal investigação. Até a primeira metade do século XX, estudos sobre o cérebro humano eram realizados majoritariamente de forma indireta, através do exame minucioso de indivíduos lesionados – como no famoso caso do operário Phineas Cage – mas também, diretamente, por meio de análises post mortem e de tecnologias de exame mais simples como a eletroencefalografia, disponíveis a partir da década de 1920. Foi somente no final do século XX, com o desenvolvimento e disseminação das novas tecnologias de visualização do cérebro, que tornou-se possível ir além e estudar o cérebro in vivo, ou seja, o cérebro de indivíduos vivos, e ao vivo, isto é, praticamente no momento em que o sujeito realiza determinada ação ou tarefa. Nada disso existia durante o período de vida de Freud o que reforça a hipótese de que, diante da impossibilidade de levar à cabo uma investigação funcional do cérebro, que fosse além da análise de lesões na estrutura (inexistentes no caso de transtornos neuróticos), Freud teve que dar uma guinada em direção a uma investigação psicológica da mental. Isto significa que Freud não propriamente optou por seguir esta trilha, mas foi como que conduzido a ela em função de uma série de limites técnicos e metodológicos. Ainda sim sempre nutriu a expectativa de que tais empecilhos seriam eliminados no futuro - como de fato foram, pelo menos parcialmente. No entanto, Freud jamais poderia imaginar que o localizacionismo ressurgiria com força total no século XXI em função do desenvolvimento e disseminação das novas tecnologias de neuroimagem. Nesta nova onda localizacionista, chamada por alguns de neofrenologia, a busca pela localização de áreas funcionais tem sido majoritariamente preferida à busca por um entendimento dinâmico, funcional e/ou distribuído do cérebro. Freud certamente olharia com bastante criticidade para tudo isto e provavelmente continuaria nadando contra a corrente.

Sugestões de leitura:

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Como assim a culpa é do cérebro?

No dia 21 de Junho a revista Galileu publicou a seguinte notícia em seu site: "Comportamento antissocial é culpa do cérebro". Gostaria de fazer algumas considerações sobre esta matéria e também sobre a pesquisa lhe que serviu de base. Pois bem, um grupo de pesquisadores de diversos países, encabeçados pelo psicólogo inglês Graeme Fairchild, colocou 58 adolescentes diagnosticados com "transtorno de conduta" (grupo experimental) em uma máquina de ressonância magnética e mediu a espessura de 68 partes do córtex de seus cérebros, comparando-as com a de 25 adolescentes da mesma faixa etária não diagnosticados com o "transtorno" (grupo controle). E o que encontraram? De forma bem resumida, os pesquisadores apontaram para importantes diferenças entre os dois grupos no que diz respeito à estrutura cerebral. Mais especificamente, afirmaram ter encontrado significativas "diferenças quantitativas na organização estrutural" do cérebro tanto entre o grupo experimental e o grupo controle quanto dentro do próprio grupo experimental - que foi dividido em dois grupos: transtorno de conduta (1) com início na infância e (2) com início na adolescencia. Segundo os pesquisadores, o grupo experimental (1) apresentou mais semelhanças na espessura de diversas partes do córtex do que o grupo experimental (2) e do que o grupo controle, o que aponta para o entendimento de que adolescentes que desenvolveram transtorno de conduta quando crianças possuiriam um cérebro menos especializado ou diverso do que aqueles que desenvolveram o transtorno mais tarde e, especialmente, do que aqueles que não desenvolveram o transtorno. Os pesquisadores, entretanto, não compreendem ainda qual a relação entre menor especialização cortical e comportamento antissocial. E o que a revista Galileu, e até certo ponto o próprio Fairchild neste texto, concluem dos resultados deste estudo? Que o "desvio de conduta" é um trantorno psiquiátrico real (e não uma uma "forma exagerada de rebelião adolescente") porque é causado pelo cérebro - que seria, então, o verdadeiro "culpado" pelo problema. Especialmente a revista, em sua ânsia de criar uma manchete bombástica, mas também o pesquisador ao tentar "traduzir" os resultados de sua pesquisa, cometem uma série de erros, que analisarei abaixo.

Em primeiro lugar, a revista e o pesquisador atribuem realidade somente àquilo que possuiria uma "realidade cerebral" - e com isso cometem um equívoco que o pesquisador Eric Racine chama de "neurorealismo", que é a crença de que encontrar alterações cerebrais provaria a existência ou a realidade de determinados sentimentos ou transtornos. Na verdade, descobrir que existem diferenças entre pessoas diagnosticadas e não-diagnosticadas não prova que este ou aquele transtorno é real. Aliás, o que isto significa? O que seria uma transtorno irreal? A partir do momento em que a Associação Psiquiátrica Americana (APA) escolhe classificar determinados comportamentos como "transtornos" e os insere no DSM, o diagnóstico passa a ser real. Não é a pesquisa neurocientífica que confere realidade ao transtorno, mas o consenso entre as "autoridades" de que se trata "realmente" de um transtorno. Esta ideia de que é o consenso que cria a realidade vale não só para transtornos psiquiátricos, mas para muitas outras coisas. Por exemplo: o amor é real? E o dinheiro? E as leis? A resposta para todas estas perguntas é sim, são reais, pois acreditamos que sejam. O amor, por exemplo, não tem qualquer realidade física, mas ninguém duvida de sua existência. Da mesma forma  o dinheiro: uma nota de 10 reais não tem qualquer valor em si; seu valor é consequência de um consenso social de que aquilo possui de fato algum valor. O mesmo vale para as leis: elas existem porque acreditamos e agimos como se elas existissem. Tudo isto aponta para o fato de que a referida pesquisa não teria como conferir realidade ao transtorno de conduta, sendo possível apenas concluir que as pessoas previamente diagnosticadas com tal transtorno e que participaram do experimento, possuem determinadas caracteristicas cerebrais semelhantes - embora não exatamente iguais. Mas mesmo tal conclusão não pode ser generalizada para todas as pessoas com tal diagnóstico (e muito menos para todas as pessoas antissociais, tímidas ou problemáticas do mundo), em função do pequeno número de pessoas pesquisadas, apenas 58.

De toda forma - e este é o segundo e mais importante erro (da revista Galileu e não do artigo original) - isto não significa que são estas características cerebrais que causam determinado comportamento, por exemplo, o comportamento antissocial. É bem possível aliás, que ocorra o contrário: que o comportamento antissocial cause ou contribua para a constituição de determinadas características cerebrais. Peguemos uma outra situação: imaginemos que cientistas coloquem pessoas anoréxicas em um equipamente de ressonância magnética e encontrem, comparativamente com um grupo não-anoréxico, uma maior "ativação" de determinadas áreas do cérebro. Isto significa que são estas áreas que causam a anorexia ou que, por exemplo, a falta de uma alimentação adequada afeta a "ativação" de tais áreas? Ou então imaginemos que cientistas coloquem pessoas apaixonadas em um moderno equipamento de tomografia e constatem, após exibir para elas uma série de imagens da pessoa amada, que determinadas áreas são "ativadas". Isto significa que são estas áreas que causam a paixão? Ou quer dizer, pelo contrário, que a ativação destas áreas é consequência desta paixão? Dizer que o cérebro causa tal ou qual comportamento ou, pior, que "a culpa é do cérebro", é um erro primário, que cientistas costumam evitar (no artigo original, por exemplo, não há qualquer argumentação neste sentido), mas que jornalistas e divulgadores científicos cometem todos os dias. Este argumento simplista de que a "culpa é do cérebro" também tem sido constantemente usado nos tribunais por advogados de defesa na criação de justificativas para determinados crimes (este video do Porta dos Fundos, embora trate da utilização da astrologia no tribunal, ironiza justamente estas explicações que tentam anular a responsabilidade do indivíduo por suas ações). Em comum entre advogados e divulgadores científicos está, neste caso, o entendimento de que é o cérebro que causa a mente e o comportamento. O grande problema destas explicações supostamente neurocientíficas é que elas ignoram a própria neurociência e os neurocientistas contemporâneos, que tem disseminado um entendimento muito menos determinista e mais dinâmico do cérebro e da mente. A ideia de plasticidade cerebral aponta justamente para o entendimento de que não só o cérebro "causa" a mente e o comportamento, mas também que estes "causam" mudanças no cérebro. Isto significa que, exceto em casos muito graves e raros, não é o cérebro o único responsável por nossas ações. Como afirmam Sally Satel e Scott Lilienfeld, no sensacional livro Brainwhashed: the seductive appeal of mindless neuroscience, "nossas decisões são inevitavelmente produto de uma vasta gama de influências - nossos genes (e a história evolucionária que eles representam), os mecanismos dos nossos cérebros, nossa criação, assim como o ambiente  físico e social em que vivemos". Todas estas forças convergem para a produção de nossos pensamentos e ações. O cérebro é "apenas" mais um elemento em cena.

domingo, 19 de junho de 2016

A neurociência superou a psicanálise... #sqn

Em entrevista publicada no dia 18 de Junho de 2016 no jornal Folha de São Paulo, o eminente neurocientista Ivan Izquierdo fez algumas afirmações polêmicas. Dentre outras coisas ele disse que "Freud é uma grande referência, deu contribuições importantes. Mas a psicanálise foi superada pelos estudos em neurociência". Segundo o pesquisador, a psicanálise "é coisa de quando não tínhamos condições de fazer testes, ver o que acontecia no cérebro". E continua: "Hoje a pessoa vai me falar em inconsciente? Onde fica? Sou cientista, não posso acreditar em algo só porque é interessante. Para mim, a psicanálise hoje é um exercício estético, não um tratamento de saúde. Se a pessoa gosta, tudo bem, não faz mal, mas é uma pena quando alguém que tem um problema real que poderia ser tratado deixa de buscar um tratamento médico achando que psicanálise seria uma alternativa". E outros tipos de análise que não a freudiana?, questiona a jornalista da Folha, ao que Izquerdo responde "Terapia cognitiva, seguramente. Há formas de fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo".

Tenho profundo respeito pelo neurocientista Ivan Izquierdo, que aos 78 anos de idade e 60 de carreira "é uma grande referência, deu contribuições importantes", como ele próprio afirma sobre Freud. Izquierdo tem uma vasta produção acadêmica no campo das neurociências e ainda publicou diversas obras de divulgação cientifica, especialmente sobre o tema da memória, como os livros  "A arte de esquecer" e "Questões sobre memória", dentre outros. Sua importância para o campo neurocientífico brasileiro é inquestionável. Maaaaas... definitivamente não concordo com suas afirmações sobre a psicanálise - e olha que eu não sou psicanalista! Mas por que não concordo? Em primeiro lugar ele afirma que apesar de ter sido uma referência e ter feito importantes contribuições, hoje as ideias de Freud (e mais amplamente da própria psicanálise, que vai além de seu criador) já estariam superadas pelos estudos em neurociência. Mas o que significa superar? Segundo o dicionário Aurélio, superar significa ao mesmo tempo "vencer, subjugar, dominar" e também "destruir, devastar, arrasar, aniquilar, livrar-se de, afastar, remover". Então vejamos: a neurociência venceu ou destruiu a psicanálise? De forma alguma, pois isto somente aconteceria caso os dois campos partilhassem dos mesmos objetivos, o que não é o caso. Dizer, nesse sentido, que a neurociência superou a psicanálise seria como dizer que a física superou a biologia ou que o direito superou a sociologia (ou mesmo que o rock superou o samba). Áreas diferentes que possuem objetivos diferentes não podem superar umas às outras.

Mas quais são especificamente os objetivos da neurociência e da psicanálise? No caso do campo neurocientífico, cuja emergência se deu na segunda metade do século XX após o termo "neurociências" ter sido cunhado em 1962 por Francis O. Schmitt, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology, nos EUA, o objetivo é claro: estudar e entender o funcionamento do sistema nervoso dos seres vivos (não somente dos seres humanos) - e não custa lembrar que o sistema nervoso inclui o cérebro mas não se reduz a ele. Isto significa que o campo neurocientífico tem como objetivo central entender o funcionamento não do ser humano como um todo e nem da consciência em geral mas do sistema nervoso do homem e de outros animais. Mesmo o campo da neurociência cognitiva, que se propõe a estudar as capacidades mentais complexas normalmente associadas ao ser humano, como a linguagem, a memória e a autoconsciência, tem como foco o estudo do sistema nervoso, especialmente do cérebro. 

Já a psicanálise, por outro lado, possui uma origem diversa e outros objetivos. Criada (e não descoberta!) na virada do século XIX para o século XX por Freud, a psicanálise se constituiu, desde o início, como um campo de investigações sobre a psiquê humana e também de intervenção clínica (intervenção essa que está na base do processo investigativo). Embora Freud tenha atuado inicialmente como neurologista, e até escrito alguns textos sob esta ótica, aos poucos foi abandonando, ou deixando de lado, seu "projeto para uma psicologia científica" (título de um de seus primeiros livros, escrito em 1895) para desenvolver uma teoria do inconsciente - ou, mais amplamente, uma teoria da mente ou da subjetividade. O cérebro, neste sentido, deixou de ser o foco de seu interesse - especialmente a partir da publicação de Interpretação dos sonhos, em 1900. Na verdade é possível constatar um progressivo distanciamento (ainda que não propriamente um rompimento) com a neurologia e, mais amplamente, com a biologia. No entanto, como afirma o psicanalista Benilton Bezerra Jr. no livro Projeto para uma Psicologia Científica: Freud e as neurociências, não é que Freud teria rejeitado a intenção de investigar neurologicamente a psiquê, mas sim "reconhecido que, no horizonte restrito de seu tempo, não existiam as condições para que pudesse ser realizada". Independentemente dos motivos para tal afastamento, de fato a psicanálise se desenvolveu por um caminho distinto e distante das neurociências, o que significa que ainda que tenham o ser humano como "objeto" de estudo e intervenção, os dois campos o fazem por caminhos, perspectivas e métodos muito diferentes. E é exatamente por isso que jamais a neurociência poderia superar a psicanálise - e vice-versa.

Além do mais, entender o funcionamento do cérebro não é o mesmo que entender o funcionamento da mente. Certamente, como já disse outras vezes neste blog, há uma relação entre os dois. Quando, por exemplo, o cérebro é lesionado ou quando ingerimos determinadas medicações/drogas, isto normalmente gera efeitos na mente (entendendo aqui mente como sinônimo de subjetividade ou, segundo expressões bastante utilizadas no campo da filosofia da mente, de perspectiva de primeira pessoa ou qualia). Por outro lado, a mente também influencia o cérebro e o corpo como um todo, o que pode ser observado no efeito placebo ou ao avaliarmos o impacto das terapias psicológicas no cérebro. E isto significa também que cérebro e mente são "coisas" diferentes. Não substâncias diferentes, como os chamados "dualistas de substância" acreditam, mas "propriedades" diferentes. Os "dualistas de propriedades",  dentre os quais me incluo, acreditam que mente e cérebro possuem propriedades diferentes. Por exemplo, o cérebro pode ser analisado objetivamente através de equipamentos como tomografias computadorizadas, ressonâncias magnéticas e microscópios. A mente não. Esta só pode ser acessada pelo próprio indivíduo via introspecção - e por outras pessoas indiretamente através do relato do indivíduo. Nenhum equipamento jamais acessará diretamente a mente, permitindo um estudo objetivo da mesma. E é exatamente por isso que a psicanálise não é (e nem pretende ser) uma ciência como a neurociência e é também por isso que vejo com muito ceticismo propostas como a neuropsicanálise, que pretende juntar ou aproximar os dois campos. Como aponta o filósofo Francisco Ortega e a psicóloga Rafaela Zorzanelli no livro Corpo em evidência: a ciência e a redefinição do humano, "a pretensão de reunir psicanálise e neurociências ou reagrupá-las sob um mesmo vocabulário só pode ser considerada um equívoco, pois não leva em conta a ruptura com a biologia realizada pela teoria freudiana".

Aliás, esta ruptura com o biológico é a razão de a psicanálise não ser propriamente uma forma de tratamento médico, como a intervenção medicamentosa feita por um psiquiatra. Embora a psicanálise tenha surgido da medicina e Freud tenha sido médico, a terapia psicanalítica não objetiva simplesmente a "cura" ou a redução sintomática de determinados transtornos mentais. A psicanálise e os psicanalistas em geral não operam por esta lógica e não se utilizam dos conceitos e diagnósticos psiquiátricos, como aqueles descritos nos manuais oficiais de saúde mental. E isto aponta para objetivos bastante distintos das terapias psicanalíticas com relação às terapias cognitivas e às intervenções medicamentosas. A psicanálise certamente não pretende "fazer o sujeito mudar sua resposta a um estímulo", como afirmou Izquierdo ao se referir à terapia cognitiva, entendida por ele como muito mais científica, e portanto, efetiva. De forma alguma. Os objetivos da terapia psicanalítica são outros e estariam muito mais próximos daquilo que leigamente chamamos de autoconhecimento. Isto significa então, como sugeriu Izquierdo, que a psicanálise não seja eficaz? Não, significa apenas que ela opera em outra lógica, muito diferente daquela que leva em conta apenas estímulos, respostas e química cerebral. Eficácia, no caso da psicanálise, não é algo que possa simplesmente ser mensurado em um teste duplo-cego como aqueles realizados para se avaliar a eficácia de uma determinada medicação. Mas isto não significa que a terapia psicanalítica não tenha o seu valor e sua efetividade. Quem já fez terapia, seja psicanalítica ou de outra abordagem, sabe que se trata de um processo complexo, cheios de altos e baixos, de progressos e estagnações, cuja eficácia não pode ser facilmente medida ou avaliada. Isto porque se trata de um processo essencialmente subjetivo e que tem na subjetividade sua principal matéria prima. Negar esta subjetividade, como faz Izquierdo, transformando as dificuldades humanas em meros processos neuroquímicos e de estímulo-resposta que devem ser devidamente "tratados" através de procedimentos "médicos" e "científicos" só pode ser visto como um discurso reducionista e, mais do que isso, simplista. O mundo é muito grande, Dr. Izquierdo, e ele tem espaço pra diversas perspectivas e intervenções. Um conhecimento não precisa "superar" ou suplantar o outro. A neurociência não superou e não precisa superar a psicanálise. Afinal, como bem disse a escritora Siri Hustvedt no maravilhoso livro A mulher trêmula - em uma frase que carrego comigo como um mantra - "jamais fui capaz de aceitar que qualquer sistema, por mais sedutor que pareça, possa abranger as ambiguidades inerentes a ser uma pessoa no mundo".

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Um ataque à diversidade

Muitas incertezas ainda pairam sobre o ataque empreendido pelo norte-americano Omar Mateen na boate Pulse, em Orlando, na madrugada do dia 12 de Junho, que matou pelo menos 50 pessoas e feriu outras 53, mas uma coisa é inegável: trata-se de um ataque frontal à diversidade e, especialmente, à comunidade LGBT. Muitos acreditam que se trate de um ataque terrorista ordenado pelo Estado Islâmico, mas, como aponta o jornal El País, o FBI está tratando o caso como um crime de ódio, de possível caráter homofóbico, embora não exclua outras vias de investigação. Esta hipótese de um atentado homofóbico  foi de certa forma confirmada ou pelo menos reforçada pelo próprio pai de Mateen que afirmou na mídia que o filho nutria profundo ódio pela comunidade gay. “Isso não tem nada a ver com religião”, disse o pai, que relatou um episódio recente no qual Omar teria demonstrado um grande incômodo ao ver um casal gay se beijando  no centro de Miami. Independente de fatos relativos ao passado de Mateen, a sua escolha de empreender o ataque em uma boate gay é extremamente simbólica e reveladora de sua visão de mundo - compartihada por muitas outras pessoas - e também de suas intenções.

Se Mateen possuia de fato relação com grupos terroristas como o Estado Islâmico ou se seu ato teve motivações religiosas, isto ainda está para ser confirmado ou negado, mas desde já é possível enxergar o ato empreendido por ele como um ato de profunda intolerância e desrespeito com as diferenças, especialmente com as diferenças relativas à orientação sexual. Mateen como inúmeras outras pessoas em todo o mundo, e também no Brasil, não aceitam, especialmente por motivos religiosos, que se possa ter uma sexualidade para além da considerada "normal", ou seja, a heterossexualidade. Embora alguns se utilizem do discurso médico, argumentando que a homossexualidade seria uma psicopatologia, na maioria das vezes - e mesmo por trás deste argumento médico - o entendimento é que se trata de um pecado, de uma abominação, de algo que não seria natural segundo as "leis de Deus". Cabe apontar, neste sentido, que a ideia de que a homossexualidade não é natural só faz sentido em uma perspectiva religiosa, pois, como bem aponta o historiador Yuval Noah Harari no sensacional livro Sapiens: uma breve história da humanidade, em uma perspectiva biológica, "não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido do que a velocidade da luz, ou que elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros". Este argumento demolidor simplesmente coloca por terra alegações supostamente baseadas na biologia de que a homossexualidade, e mesmo a transexualidade, seriam "fenômenos" antinaturais.

Tal argumentação só é possível caso se considere natural algo que esteja "de acordo com as intenções de Deus". Só que aí o grande problema é definir quais exatamente são as intenções de Deus. E a forma encontrada por muitos religiosos é se basear nos livros sagrados que trariam, indiretamente, a voz e os ensinamentos do todo-poderoso. No caso dos cristãos, sendo o livro sagrado de referência a Bíblia, os trechos normalmente utilizados para se condenar a homossexualidade se encontram no Velho Testamento, especialmente no livro Levítico. Neste livro constam duas frases bastante diretas a respeito desta questão: "Não te deitarás com homens, como com mulheres: é uma abominação" (Levítico 18:22) e "Se um homem também se deita com homens, assim como se deita com uma mulher, ambos cometeram uma abominação: certamente serão condenados à morte; seu sangue cairá sobre eles" (Levítico 20:13). Ok, se ignorarmos o fato de que tais frases simplesmente desconsideram o sexo entre mulheres, podemos de fato identificar uma condenação explicita e direta à homossexualidade. No entanto, o mesmo livro também considera pecados ou abominações ter contato com uma mulher menstruada, cortar o cabelo e comer mariscos, dentre muitas outras coisas. E isto inevitavelmente sinaliza para a impossibilidade de se levar tudo o que está escrito lá ao pé da letra e à ferro e fogo - como dolorosamente constatou o jornalista A.J. Jacobs no período de um ano em que tentou viver seguindo todos os preceitos bíblicos. Neste sentido, se não é possível seguir literalmente tudo, qual a lógica em seguir determinados princípios e ignorar outros? Aliás, como escolher quais seguir e quais ignorar? Ademais, cabe apontar que no Novo Testamento não há qualquer referência à questão da homossexualidade. Jesus não disse absolutamente NADA sobre esse assunto - ao passo em que disse inúmeras coisas sobre o amor, a tolerância e o respeito. Não é curioso que a principal figura do cristianismo tenha simplesmente ignorado a questão da homossexualidade? E não é mais curioso ainda que inúmeras pessoas que se digam cristãs ajam de forma completamente intolerante e desrespeitosa com os homossexuais?

"Ah, mas Mateen era muçulmano", eu consigo escutar alguém dizer. "Desta forma, não se pode culpar o cristianismo pelo ataque. A culpa é da religião islâmica, cujos adeptos são terroristas". Ah, se as coisas fossem tão simples assim... em primeiro lugar não está claro se Mateen era de fato muçulmano. Mas mesmo que fosse isto não faria dele instantaneamente um terrorista. A maioria absoluta dos muçulmanos não o são. Aliás, não há no Corão nenhum condenação explícita da homossexualidade, apenas a indicação de que  um tal "povo de Lot" teria sido destruído por participar de atos homossexuais. Ainda sim, em muitos países islâmicos, como a Arábia Saudita e o Sudão, a homossexualidade é considerada crime e é punida com a morte. Em outras nações islâmicas relativamente seculares como Egipto, Tunísia e a Indonésia, há uma certa tolerância, mas ainda distante da praticada na maioria dos países "ocidentais". De toda forma, o que está claro é que não é a religião Islâmica em si ou o conjunto de seus seguidores os responsáveis por este ou aquele ataques realizados nos Estados Unidos e na Europa. A responsabilidade certamente pode ser atribuída, pelo menos em parte, aos fundamentalistas destas e de outras religiões - entendendo fundamentalistas como aquelas pessoas que reúnem, necessariamente mas não exclusivamente, estas três características (identificadas pelos sociólogos Peter Berger e Anto Zijderveld no fantástico livro Em favor da dúvida: como ter convicções sem se tornar um fanático): 1) tem dificuldade de ouvir opiniões e ideias discordantes; 2) alegam estar de posse de uma verdade irrefutável e 3) argumentam que sua verdade é a única verdade, ou seja, alegam deter o monopólio sobre a verdade. Tais pessoas, que podem ou não partir para a ação direta, como fez Mateen, não aceitam a pluralidade e a relativização que a modernidade "trouxe" ao mundo. Isto significa que possuem grande dificuldade para lidar com o fato inegável e irreversível de que existem pessoas e grupos que pensam e agem de maneiras muito diferentes da sua, seja no âmbito reigioso, comportamental e/ou moral.

A ideia de que as pessoas podem escolher ou possuir crenças e estilos de vida diferentes do seu, incomoda e mesmo enfurece certas pessoas e grupos. O fundamentalista não suporta o relativismo e a pluralidade do nosso mundo, pois deseja que todos pensem e ajam como ele. Isto porque ele não tem qualquer dúvida de que o seu caminho é o certo, especialmente porque sente não o ter escolhido mas ter sido conduzido a ele por forças divinas. Assim, enquanto o relativismo se caracteriza por colocar todas as crenças e comportamentos em dúvida ("Não há certezas", diz o relativista), para o fundamentalismo não há quaisquer dúvidas ("Eu tenho certeza", diz o fundamentalista). O fundamentalista, neste sentido, é por definição um crítico da pluralidade e da diversidade. Para ele só há uma única verdade, a dele, e todas as demais formas de ser e estar no mundo são erradas. Certamente, a maioria dos fundamentalistas não parte para a ação direta visando eliminar fisicamente os diferentes; apenas uma pequena parte, como Mateen, o fazem. Só o que não podemos ignorar é que pessoas como ele são apenas a ponta do iceberg. Toda vez que alguém diz que ser homossexual é ruim, é errado, é doentio, é pecaminoso e luta para que a população LGBT não tenha acesso a direitos elementares (que não são privilégios, cabe ressaltar), está contribuindo para a perpetuação de uma cultura de intolerância e desrespeito que vez ou outra culminará em ataques como esse. Aliás, ataques como esse também são a ponta do iceberg. Diariamente gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, trangêneros e travestis sofrem violências de todos os tipos - o Brasil, inclusive, é o campeão mundial de assassinatos da população LGBT. Portanto, acreditar que somente armas matam é de uma ingenuidade sem tamanho. Palavras também matam. Todos os dias. Aliás, a única diferença entre fundamentalistas como Mateen e outros que vemos diariamente nas redes sociais e nos comentários dos grandes portais (e também no Congresso Nacional) é que os primeiros possuem - na verdade desenvolvem - um destemor e uma ousadia que os segundos não têm, ou não tem ainda (até quando?). O que não significa que não lhes falte vontade de sair por aí atirando e matando todos os diferentes. Tais pessoas querem a todo custo acabar com a pluralidade do mundo mas, como bem disseram Berger e Zijderveld, é muito dificil - eu diria impossível - "colocar o gênio pluralizante de volta na lâmpada". O mundo é plural, não há o que se possa fazer. Matar cinquenta, mil ou cem mil pessoas não tornará o mundo menos plural. Pelo contrário, se para cada ação há uma reação, a reação a favor da diversidade será muito, e cada vez mais, potente. Assim espero.

terça-feira, 7 de junho de 2016

"Ideologia de gênero": entre a ignorância e a má-fé

Que família, cara pálida?
O ano era 2015. Estava eu voltando à pé para casa quando vi, na frente da Câmara Municipal da minha cidade, uma aglomeração. Ao me aproximar observei alguns indivíduos com camisas de agremiações religiosas segurando cartazes com os seguintes escritos: "Diga não à ideologia de gênero", "Sou a favor da família" e "Educação sim, gênero não". Daí fui me informar e descobri que estava acontecendo uma discussão sobre a inclusão ou exclusão das temáticas de gênero e sexualidade no Plano Municipal de Educação - no Plano Nacional de Educação tais expressões foram retiradas em 2014. Pois bem, decidi me fazer de bobo e fui fazer umas perguntas para algumas pessoas que estavam protestando contra a tal "ideologia de gênero". Cheguei para o primeiro, um sujeito na faixa dos 40 anos segurando um desses cartazes e, como quem não quer nada, perguntei:

- O que que está acontecendo aqui?
- Ah, tão votando uma lei.
- Sobre o que é essa lei, você sabe?
- Ah, é a lei da ideologia de gênero [também conhecida como... Plano Municipal de Educação]
- Ah é? Tava sabendo não [mentira]. Sobre o que é essa lei?
- É uma lei para instituir a educação sexual nas escolas para que a criança possa escolher se quer ser menininho ou menininha.
- É mesmo? Que coisa.
- A criança seria sem sexo, já pensou?



Conversei rapidamente com outros sujeitos - inclusive com o vendedor de cachorro quente que aproveitou da aglomeração para aumentar suas vendas - e todos tinham mais ou menos o mesmo discurso: esta suposta lei, que ninguém sabia dizer qual era ou do que se tratava exatamente, daria à criança a liberdade para escolher qual sexo ou gênero ela gostaria de pertencer. Isto significa para estas pessoas duas coisas: que isto poderia transformar o gênero e a sexualidade das crianças tornando-as mais propensas à transexualidade e à homossexualidade e que se trata de uma intromissão na educação familiar. Um sujeito chegou a me dizer que se essa lei for aprovada "os pais não vão ter mais o direito de educar sexualmente os filhos", seja lá o que isso signifique. Parece que simplesmente não passa pela cabeça dessas pessoas o entendimento de que a inclusão das temáticas de gênero e sexualidade na escola poderia contribuir para uma formação mais humana e respeitosa com a diversidade que busque reduzir os estereótipos, as desigualdades e as violências de gênero e também as opressões sofridas cotidianamente por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Não, claro que não! Para os críticos desta tal "ideologia de gênero", os objetivos de se incluir estas temáticas na escola são certamente malignos, pois envolveriam a extinção das demarcações "naturais" de sexo/gênero e a criação de crianças homossexuais e amorais. 

Eu juro que eu tento entender o ponto de vista destas pessoas e exercitar a empatia que eu tanto defendo. Eu compreendo - embora não concorde - que elas tenham medo de que seus filhos tenham uma sexualidade "diferente" da "normal". Essas pessoas provavelmente foram criadas em ambientes dominados pela ideologia (sim, ideologia) cristã nos quais a homossexualidade e a transexualidade são vistas como pecados ou abominações. Eu sei. Mas não consigo deixar de pensar na enorme ignorância que elas trazem consigo. Os sujeitos com quem eu conversei - e eu acredito que são representativos dos críticos da tal "ideologia de gênero" - não parecem fazer ideia do que é uma ideologia. Pior: não fazem ideia (ou preferem ignorar o fato) de que o que eles pensam e defendem é também uma ideologia - e é exatamente por isso que não faz qualquer sentido, falar em uma escola e uma educação sem ideologia, como alguns projetos tem defendido por aí. Estas pessoas também não fazem ideia do que é o tal "gênero" que eles tanto combatem. Tanto que utilizam as expressões gênero, sexo e sexualidade como sinônimos, ignorando as fundamentais diferenças entre identidade de gênero e orientação sexual e entre sexo e gênero - aliás, esta última diferença está na base da construção do termo "gênero", concebido em contraponto à "sexo" na medida em que problematiza a ideia de que a biologia determinaria totalmente o comportamento dos indivíduos. Eles não percebem também - ou não querem perceber - que as pessoas homossexuais e transexuais, geralmente foram concebidas e criadas por pais heterossexuais e cisgêneros (outro termo que certamente desconhecem ou não aceitam) e provavelmente tiveram educações tradicionais, comumente cristãs, em casa e na escola - alguns, inclusive, foram educados de forma profundamente repressiva. Mas nada disso foi suficiente para impedi-los de ser quem são.  

Essa ideia de que discutir determinados assuntos na escola vai contaminar as crianças tornando-as mais propensas à homossexualidade ou à transexualidade, não faz o menor sentido - este video do Porta dos fundos ironiza justamente essa ideia. Da mesma forma como não faz sentido a visão contrária, defendida por estas pessoas, de que retirando-se estas temáticas "perniciosas" da educação, os pais poderão educar os filhos como bem entenderem e, com isto, as crianças estarão, finalmente, estabelecidas em seu gênero "natural" e "protegidas" da possibilidade de se tornarem homossexuais ou transexuais. A visão de tais pessoas só reforça para mim a necessidade de se inserir discussões sobre gênero e sexualidade na educação básica - e também na educação superior! Se a educação pretende preparar a pessoa para o mundo e para a vida em comum nada mais sensato do que trazer para a escola discussões fundamentais como estas. Ademais, mesmo que tais questões não sejam inseridas no contexto escolar, ainda sim os sujeitos estarão expostos à elas, seja na vida "real" ou na vida "virtual", e inevitavelmente se envolverão em discussões e reflexões em algum momento, quer se queira ou não.

Em 2015, após as conversas que tive na frente da Câmara Municipal, voltei para casa e, ainda tentando compreender o que é a tal "ideologia de gênero", fui pesquisar na internet e acabei caindo no artigo "Nova ameaça da ideologia de gênero", escrito pelo arcebispo Orani João e publicado no Jornal do Brasil. Pois bem, o artigo começa reproduzindo uma definição proposta por um médico chileno: “A ideologia de gênero é uma tentativa de afirmar para todas as pessoas que não existe uma identidade biológica em relação à sexualidade. Quer dizer que o sujeito, quando nasce, não é homem nem mulher, não possui um sexo masculino ou feminino definido, pois, segundo os ideólogos do gênero, isto é uma construção social”. O que eu acho bastante curioso é a defesa incisiva da visão biológica dos gêneros e da sexualidade. Sim, a mesma igreja que rechaça argumentos biológicos quando lhe convém em outros momentos os utiliza com veemência. Trata-se, como ouvi certa vez, de um secularismo estratégico, ou seja, da utilização do discurso científico para legitimar o que, na realidade, no fundo, é um discurso religioso. Isto não é problemático em si, mas se torna na medida em que em um estado que se propõe laico, nenhuma visão religiosa específica pode direcionar as políticas - e isso vem acontecendo mais frequentemente do que seria aceitável.

Em outro artigo, publicado no Diário do Sertão, o autor, Damião Fernandes, é mais explícito com relação à sua visão da ideologia de gênero. Para ele, "a Ideologia de Gênero é diabólica, visto que pisoteia em uma das principais e fundamentais bases do Cristianismo, onde de acordo com as narrativas bíblicas da criação, a essência da criatura humana é de ter sido criada com uma dualidade: Homem e Mulher". Agora, pelo menos, o autor foi claro e não ficou se utilizando de um discurso pretensamente científico para legitimar sua visão. De toda forma, o cerne da questão parece estar no medo de uma relativização da "sexualidade humana". Para estas pessoas, existem homens e existem mulheres. E pessoas que nasceram homens ou mulheres e possuem, portanto, pênis ou vagina, serão para sempre homens e mulheres. E a heterossexualidade é a norma e o normal. E ponto final. Mas como explicar, por exemplo, a existência dos/das transexuais, nos quais não há uma coincidência entre o gênero que a pessoa se identifica no presente e o gênero que a identificaram ao nascer? Gostaria sinceramente de entender como estas pessoas explicam a transexualidade. Porque se o gênero é algo definido geneticamente, como explicar a existência dos/das transexuais? E dos intersexuais? Será que são "falhas de deus"? Mas deus não é onipotente?  Até o momento não encontrei nenhuma resposta minimamente sensata. Afinal, dizer que algo é errado ou pecaminoso não explica sua gênese.
 
Finalmente eu não poderia deixar de mencionar a "psicóloga" missionária cristã Marisa Lobo, para quem "Ideologia de gênero" "é um conjunto de ideias que quer impor a toda a ciência, a toda à história da humanidade, a todo o senso crítico, que descarta a biologia, a genética, que descarta todos os pensamentos e se atenta apenas no conhecimento sociológico de uma militância, é o que estão querendo impor nas escolas do país e não podemos deixar isso acontecer”. Marisa acabou de lançar um livro denominado "Ideologia de gênero na educação: Como esta doutrinação está sendo introduzida nas escolas e o que pode ser feito para proteger a criança e os pais", onde "desenvolve" tais ideias, baseadas essencialmente em uma visão, por assim dizer, biológico-cristã do gênero e da sexualidade. Para ela, a relativização/desconstrução das categorias binárias (homem/mulher, heterosexual/homossexual) promovidas por abordagens "construtivistas" como a Teoria Queer poderão levar a uma relativização absoluta em que nada mais fará sentido, inclusive as noções "cristãs" de normalidade. A abolição de tais categorias, biologicamente inatas, levaria, como afirma constantemente, à desconstrução da família, ou melhor, da família tradicional (pai, mãe, filhos) e também, mais profundamente, à destruição da própria humanidade. E é justamente para evitar tal "tragédia" que Marisa e seus colaboradores (só gente boa, como o pastor Marcos Feliciano e o deputado Jair Bolsonaro) se envolvem em uma verdadeira cruzada contra esta diabólica "ideologia de gênero".

O que eu acho mais curioso nesta história toda é que as mesmas pessoas que afirmam que o gênero é algo biológico e não uma construção social, afirmam ser a orientação sexual uma construção social e não algo biológico - e é exatamente esta visão que abre espaço para terapias e ações de "cura" das homossexualidades. Então quer dizer que o gênero é algo inato e, portanto, impossível de mudar e a orientação sexual, pelo contrário, é algo construído e passível de modificação? O que estas pessoas não conseguem ver, na minha opinião, é que nós não somos nem só biologia nem só cultura. Nós somos formados num caldo de biologia e cultura no qual não é nada simples diferenciar o que é "inato" do que é "construído". Perspectivas científicas contemporâneas, como a epigenética e a noção de neuroplasticidade, bagunçam e colocam no chão, ainda mais, as visões deterministas - sejam elas biológicas ou sociais. Se, como tem demonstrado o campo da epigenética, a expressão dos genes pode ser influenciada, em alguns casos, por nossos comportamentos e pelo ambiente e se nosso cérebro se modifica em nossa interação com o mundo (a noção de neuroplasticidade, tão em voga atualmente, aponta nesta direção), então não faz o menor sentido dizer nem que o gênero e a orientação são inatos nem que são construídos. Eles são, por assim dizer, inatos e construídos. Herdamos características de nosso DNA mas também somos profundamente influenciados, e efetivamente construídos, pelo mundo físico e cultural. Isto não significa que não existam homens ou mulheres, mas que esta polaridade não dá conta de todos os casos e também que é possível não se conformar ao gênero atribuído ao nascimento. Quer queiram os críticos da "ideologia de gênero" ou não, existem - e continuarão existindo - homens com vagina e mulheres com pênis. Feliz ou infelizmente não é o órgão sexual que definirá a identidade de gênero da pessoa. E também continuarão existindo gays, lésbicas, bissexuais, assexuais, pansexuais e tudo o mais. Estes defensores da moral e dos bons costumes podem espernear, podem conseguir retirar todas as menções à gênero e sexualidade dos Planos Municipais de Educação, podem até criar as leis mais retrógradas possíveis, mas a realidade é que eles nunca conseguirão impedir as pessoas de serem quem elas são - ou quem elas quiserem ser. Aceitem que dói menos, queridos.


Indicação: uma ótima dica para se iniciar em discussões sérias e necessárias sobre gênero e sexualidade na educação para além desta visão catastrófica disseminada pelos críticos da tal "ideologia de gênero" é o livro "Diferentes, não desiguais: a questão de gênero na escola", escrito conjuntamente pelos cientistas sociais Beatriz Accioly Lins, Bernardo Machado e Michele Escoura e publicado este ano pela editora Reviravolta. Neste livro você encontrará as principais discussões e conceitos relativos às temáticas do gênero e da sexualidade apresentadas de uma forma bastante didádica e acessível. Ao final da obra constam ainda um glossário e uma série de indicações de ações práticas para se debater tais questões em sala de aula.

domingo, 5 de junho de 2016

Sobre empatia, morcegos e Sense8

Em um clássico artigo de filosofia da mente denominado Como é ser um morcego? (no original: What is like to be a bat?), publicado em 1974, o filósofo Thomas Nagel faz uma crítica extremamente poderosa às teorias e teóricos materialistas/fisicalistas, que tentam reduzir a experiência humana ao funcionamento do cérebro. Segundo o autor, tal visão reducionista não se sustenta porque deixa de lado algo fundamental, que é o inegável caráter subjetivo da experiência - "fenômeno" denominado qualia pelos filósofos da mente. Para defender seu ponto de vista, até hoje difícil de rebater ou desconsiderar, Nagel recorre à analogia da experiência sensorial do morcego, que, até onde se sabe, é bastante diversa da nossa (caso você não seja o Demolidor, claro!). Segundo Nagel, os cientistas podem estudar à exaustão o sistema nervoso do morcego e fazer extensas análises, com variados equipamentos, de cada parte de seu corpo, no entanto, por mais fundo que consigam ir nesta análise, nunca serão capazes de entender - e muito menos sentir - como é ser um morcego, mesmo que consigam compreender como funciona o seu sistema de ecolocalização. Em suas análises objetivas do corpo ou do cérebro do morcego nunca conseguirão atingir ou minimamente entender a experiência subjetiva de tal animal. É difícil para o cientista ou para qualquer um de nós até mesmo imaginar como é ser um morcego. Sua estrutura corporal e sensorial é tão diversa da nossa que mesmo um exercício puro de imaginação se torna complicado, o que aponta para o entendimento de que não é nada simples ter empatia por um morcego.

Mas o que é empatia? Peguemos a definição do historiador Roman Krznaric, extraída de seu livro "O poder da empatia", lançado no Brasil em 2015: "empatia é a arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações". Analisemos detalhadamente esta definição. Em primeiro lugar, empatia seria uma arte, ou seja, uma habilidade que todos nós, humanos, teríamos (a exceção, talvez, dos psicopatas e dos autistas) e não uma ciência exata baseada em dados objetivos. Em segundo lugar, tratar-se-ia da habilidade de colocar-se no lugar "do outro", sendo que este "outro" pode ser tanto uma pessoa quando um animal (ou melhor, um outro animal, pois nós também somos animais - aliás, eu sempre fico incomodado quando vejo em um estabelecimento a placa "Proibida a entrada de animais". Eu fico sem saber se posso entrar ou não). Quando, por exemplo, você vê ou ouve um cachorro "chorando" você logo imagina que algo não está bem com ele: pode ser que esteja com fome ou com frio ou com dor. De toda forma, neste momento, você sente empatia pelo cachorro. Finalmente, e mais importante, empatia é um "exercício" de imaginação: você se imagina no lugar do outro, mas de fato não se coloca no lugar do outro. Isto porque, de fato, estamos presos ao nosso próprio corpo e à nossa própria subjetividade e, portanto, ao nosso único e peculiar ponto de vista. Certamente podemos imaginar como é ser uma outra pessoa através da literatura e do cinema (que são excelentes formas de desenvolver empatia) ou através de conversas com outras pessoas, mas de fato nunca teremos a experiência de ver e sentir o mundo sob uma outra ótica. Esta prisão subjetiva em que vivemos nos impede de experienciar a realidade sob um outro ponto de vista. O que não nos impede de imaginar, claro.

Até o momento, esta possibilidade de se colocar de fato no lugar do outro está restrita ao campo da ficção - e dificilmente isto se alterará no futuro, o que significa que estamos fadados a permanecer para sempre presos dentro de nós mesmos e de nossos únicos e exclusivos pontos de vista. De toda forma, no campo da ficção, esta possibilidade já foi explorada algumas vezes. Peguemos, por exemplo, o genial (e maluco) filme Quero ser John Malkovich (1999), no qual um portal, localizado no 7º e meio andar de um prédio, dá acesso, por alguns minutos, à mente do ator John Malkovich. Durante este período, e logo antes de ser arremessado nas margens de uma estrada, o sujeito vê e sente o mundo sob a ótica de Malkovich - e isto é considerado uma experiência tão fantástica (uma empatia "real" e não imaginada) que um comércio de "visitas empáticas" à mente do ator é iniciado. Isto até a mente de Malkovich ser de fato colonizada por um sujeito, que passa não somente a ver e sentir o mundo sob o ponto de vista do ator, mas também a controlar sua mente e seu corpo. 

Uma outra obra de arte, mais recente, que trata desta possibilidade de colocar-se no lugar do outro é a série do Netflix "Sense 8", escrita e dirigida pelas irmãs Wachowski (comumente se diz que anteriormente eram irmãos Wachowski, mas o mais correto a dizer é que se tratam de duas mulheres trans, irmãs, que recentemente assumiram sua identidade feminina. Quando dirigiram o filme Matrix, dentre outros, ainda não haviam assumido tal identidade). Esta ambiciosa série (até demais, eu diria), conta a história, ou melhor, as histórias de 8 pessoas que vivem em partes diversas do mundo e levam, portanto, vidas completamente diferentes e que, por algum motivo misterioso, passam a viver conectadas entre si. Os 8 sensates, como são chamados, tornam-se, por assim dizer, um só ser. Com isto eles adquirem a capacidade - ou, como diria Krznaric, a arte - de ver e sentir sob a ótica do outro - e não só: como em Quero ser John Malkovich, aos poucos eles conseguem ir além e efetivamente controlar os comportamentos uns dos outros (quando, por exemplo, um que tem a habilidade de lutar, se conecta a outro para lutar em seu lugar). Desta forma, oito pessoas completamente diferentes - uma hacker transexual norte-americana, um policial também norte-americano, um ator homossexual mexicano, uma empresária coreana, um motorista de van queniano, uma farmacêutica indiana, um ladrão alemão e uma DJ islandesa - passam a enxergar e efetivamente sentir o mundo sob a ótica uns dos outros. Trata-se de um verdadeiro manifesto à empatia, fundamental em tempos tão individualistas e autocentrados como os que vivemos. 

Disseminar a importância da empatia é extremamente necessário mesmo que, de fato, ela não seja mais do que um exercício de imaginação. Efetivamente nunca poderemos ver e sentir o mundo sob a ótica de outra pessoa, mas podemos imaginar como ela se sente em tal ou qual situação e agir de forma a respeitar suas possibilidades e limites. Como aponta o filósofo Thomas Nagel, no texto já mencionado, "o caráter subjetivo da experiência de uma pessoa surda e cega desde o nascimento, por exemplo, não me é acessível e, presumivelmente, nem a minha a ela. Isso não nos impede de acreditar que a experiência dos outros tenha tal caráter subjetivo". Eu iria além: tal barreira não nos impede não só de acreditar que tal pessoa tem uma vida subjetiva (o que não é assim tão difícil), mas também não nos impede de imaginar como se sente uma pessoa surda e cega (ou uma pessoa somente surda, ou somente cega, ou portadora de alguma outra deficiência ou ainda uma pessoa trans ou uma pessoa homossexual). Certamente podemos nos enganar - e de fato nos enganamos constantemente (por exemplo, quando imaginamos uma pessoa cega como alguém sem autonomia para gerir a própria vida), mas uma forma de diminuirmos tais enganos é de fato ouvir ou buscar uma comunicação legítima com as pessoas. O setting clínico do psicólogo, neste sentido, configura-se como espaço extremamente privilegiado no qual a escuta do paciente torna-se uma oportunidade ímpar para o psicólogo desenvolver sua empatia (mas não tanto para desenvolver a empatia do paciente já que a terapia apresenta-se, grande parte das vezes, como uma atividade autocentrada). E eu iria além: a empatia, no caso da atividade clínica, é o principal, ou um dos principais, instrumentos de trabalho do psicólogo. Um profissional que não tenha a capacidade de imaginar como o outro se sente e vê o mundo, não pode ser um bom profissional. Mas não é preciso ser psicólogo para desenvolver a empatia. Basta estar aberto e ouvir mais do que falar. Com tais atitudes podemos compreender que não é preciso efetivamente se colocar no lugar do outro. Basta imaginar.