terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tô de férias... Yes!!!


Hoje, às 18 horas, eu entro de férias!!! Minhas primeiras férias desde que comecei a trabalhar como psicólogo, em Setembro de 2008. Pra quem não sabe, eu me formei em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora no final de 2007 e, em junho de 2008, eu passei num concurso público (federal!) para trabalhar como psicólogo no setor de saúde mental da Universidade Federal de Viçosa, também aqui em Minas. Fui nomeado somente em setembro e, desde então, tenho trabalhado 8 horas por dia como psicólogo. Aqui faço atendimentos individuais breves (com estudantes e servidores), trabalhos em grupo, coordeno um projeto de extensão intitulado Psicocine (que busca articular a Psicologia com o Cinema, por meio da exibição e discussão de filmes, reunidos em mostras temáticas - saiba mais aqui), participo de várias comissões voltadas para a melhoria da qualidade de vida no campus, dentre muitas outras coisas. Tem sido extremamente desafiador, ainda que um tanto desgastante. Ser psicólogo não é nada fácil! Lidar com pessoas e com o sofrimento delas diariamente é bastante cansativo e exige demais de mim... Isto pra não falar da complicação que é trabalhar em equipe e lidar com pontos de vista muitas vezes opostos ao meu (aqui somos 5 psicólogos, 2 assistentes sociais, 1 psiquiatra e 2 assistentes administrativos, ou seja, 10 formas de se enxergar o mundo). Por tudo isso, estou precisando muito de férias! E decidi, para fugir totalmente da rotina trabalho-casa-trabalho, ir para uma cidade longe e desconhecida: Fortaleza, capital do Ceará (ver foto acima). No início de Janeiro vou pegar um avião em Belo Horizonte rumo à cidade em que espero passar as melhores (e mais merecidas!) férias da minha vida...

Amor versus Pirâmide de Maslow


Traduzido e adaptado por mim mesmo. O original pode ser visto aqui.

Escuta diferenciada - p3

Para ver os volumes anteriores clique aqui e aqui.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Criadores (e vendedores) de doenças


Complementando o post anterior, sobre o DSM-V, disponibilizo abaixo, na íntegra, um texto absolutamente brilhante, publicado pelo ótimo jornal Le Monde Diplomatique Brasil (link). Boas reflexões!


Os vendedores de doenças


As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa “síndrome” que exige tratamento


Ray Moynihan, Alan Cassels


Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune seu desespero por ver o mercado potencial de sua empresa confinado somente às doenças. Explicando preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley’s – fabricante e distribuidor de gomas de mascar –, Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às... pessoas saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de “vender para todo mundo”. Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.

As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de 500 bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.





A fabricação das “síndromes”

A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndomes graves, de tal modo que a timidez torna-se um “problema de ansiedade social”, e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada “problema disfórico pré-menstrual”. O simples fato de ser um sujeito “predisposto” a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.


O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais famacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.

De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado “A arte de catalogar um estado de saúde”, Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para “favorecer a criação” dos problemas médicos. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova “disfunção”. Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.





Médicos orientados por marqueteiros


Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.


Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para “criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde”. O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, “de uma nova maneira de pensar nessas coisas”. O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.

Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de “criar mercados de novas doenças” traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser “convencidas” de que “problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição” são “dignos de uma intervenção médica”. Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: “Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa”.

Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o “normal” do “anormal” são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.

Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado “hipertensão arterial”; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de 40 milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.




Quanto mais alienados, mais consumistas

A remuneração dos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influências. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, médicos e indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.

As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo demarketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no célebro.

O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.

A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas demarketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.


O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de “pacientes”. Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.





A “medicalização” interesseira da vida

A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a “toda e qualquer pessoa do mundo”. O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.

Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão doestablishment médico estava prestes a “medicalizar” a própria vida, minando a capacidade das pessoas enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, “que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias”.

Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou “a venda de doenças”: ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido domarketing e que se consolidas as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.

(Tradução: Wanda Caldeira Brant)

O DSM-V vem aí...

Está em processo de elaboração, por "renomados cientistas", a quinta versão do DSM, ou seja, do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Para quem não conhece, trata-se do catálogo oficial (ou podemos chamar de Menu?) das "doenças mentais", utilizado por psiquiatras e psicólogos do mundo inteiro. O DSM-IV-TR (lançado em 2000, versão revisada, text revision, do DSM-IV, de 1994), em breve deverá ser substituído pelo novo. Inicialmente o DSM-V ia ser publicado em 2011, depois passou para 2012 e agora foi adiado, finalmente, por razões "técnicas", para 2013. Maio de 2013 (ver informe da Associação Psiquiatrica Americana aqui). E, preparem-se, pois ele vêm recheado de dezenas de novas doenças!!! Certamente você e seus pacientes vão se enquadrar em alguma. Ou, se tiverem sorte, em várias!!! E vão procurar um psiquiatra que vai lhe medicar e alimentar ainda mais a já gigantesca indústria farmacêutica, sem dúvida a grande beneficiária de todo este processo (e não por acaso, muito dos psiquiatras que fazem parte da comissão de elaboração do novo DSM tem estreitas ligações com a Big Pharma - ver denúncia aqui). Quanto mais doenças descritas no manual oficial, mais remédios serão desenvolvidos (ou ligeiramente modificados a partir dos atuais - saiba mais aqui) e, consequentemente, maior o lucro destas empresas - e dos psiquiatras que prescrevem os remédios. É uma lógica cruel e atrelada à patologização do cotidiano. Juntando as "doenças" do DSM-V com as do CID-10 (cuja nova revisão, o CID-11, deverá ficar pronta em 2014, de acordo com a mesma declaração da APA) praticamente elimina-se qualquer possibilidade de que alguém seja considerado saudável. Todo mundo tem que ter alguma doença (e tomar remédios, óbvio!). E se, por uma gigantesca sorte, você não se encaixar em nenhuma doença "normal", tascam-lhe um Transtorno de Personalidade pra você não ficar sem um diagnóstico. Afinal, ninguém gosta de sair do médico sem uma receita na mão...





terça-feira, 15 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Piso Salarial dos Psicólogos Já - O blog

Um colega meu, não sei se sozinho ou com outras pessoas, criou um blog intitulado Piso Salarial dos Psicólogos Já, com o objetivo de mobilizar os psicólogos e a comunidade virtual de psicologia para esta importante e antiga reivindicação, sumariamente ignorada pelo CFP - que parece fazer questão de fechar os olhos para uma série de necessidades do trabalhador psi. Em um interessante debate realizado no blog KanzlerMelo sobre o conflito entre o (imbecil direitista) Diogo Mainardi e o (esquerdista) CFP, escrevi o seguinte:

Cadê o CFP lutando pela aprovação do piso salarial dos psicólogos? E pela fixação de uma carga horária semanal menor e mais adequada ao nosso tipo de trabalho? E fiscalizando os concursos públicos que oferecem salários miseráveis e péssimas condições de trabalho? Eles preferem fazer campanhas sobre grandes temas (maioridade penal, comunicação, sistema prisional, etc.) quando deveriam, também e principalmente – e está teoricamente é a função deles – representar os profissionais psicólogos, que trabalham muitas vezes com péssimos salários e em tenebrosas condições de trabalho. Talvez seja necessário ir do macro ao micro, sem esquecer do macro, óbvio, mas valorizando, essencialmente, o trabalhador psi… Nas próximas eleições do CFP e CRPs temos de ser bastante cuidadosos e atentos…

Por tudo isso conclamo: Psicólogos de todo o mundo (virtual), uní-vos em torno desta importante questão do Piso Salarial dos Psicólogos. Visitem o blog indicado, leiam o excelente texto introdutório e mobilizem seus colegas psi (estudantes e profissionais) no sentido de trazer esta pauta à tona. Não dá mais para fechar os olhos!