quinta-feira, 28 de maio de 2009

Nova série da FOX: Mental

Estréia na FOX em junho a série Mental que, segundo o site do canal, é "o primeiro drama [mentira!] que explora os segredos da mente humana". A história gira em torno do psiquiatra Jack Gallagher (mais um Jack-protagonista-de-série-dramática depois de Jack Shepard, de Lost e Jack Bauer, de 24 horas... êta povo sem criatividade!), novo diretor do Hospital Wharton Memorial e um profissional "com métodos nem um pouco ortodoxos". De acordo com o referido site: "ele vai desrespeitar todas as regras que forem necessárias para decifrar os segredos da mente humana, mesmo que isso lhe custe a amizade e a simpatia dos colegas. Não perca a primeira série que explora os limites entre a loucura e a razão" (veja abaixo um video promocional da série). Na verdade, outras séries já se propuseram a "investigar" a "mente humana" (seja lá o que "isso" for, como bem questionou o pessoal do blog Olhar Beheca em post recente), dentre elas, Criminal Minds, Huff e In Treatment, séries diretamente ligadas ao mundo psi. Com relação à Mental pretendo assitir alguns episódios antes de me posicionar... Fica a dica!

Para sempre Alice - Lisa Genova

Foi lançado recentemente um livro que parece ser muito interessante: Para sempre Alice (ed. Nova Fronteira, 2009, R$34,90), da neurocientista Lisa Genova. O livro, segundo seu site oficial, conta a seguinte história: "Aos 50 anos, Alice começa a esquecer. No início, coisas sem importância, como o lugar em que deixou o celular, até que, um dia, ela se perde a caminho de casa. O diagnóstico inesperado de sua doença altera para sempre sua vida e sua maneira de se relacionar com a própria família e o mundo. E, quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade. De alguma forma e apesar de tudo, Alice é para sempre". Alice desenvolve o "Mal de Alzheimer", doença degenerativa, até o momento incurável e que foi descrita pela primeira vez no início do século XX pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer, de quem herdou o nome.

Segundo interessante reportagem da revista Época desta semana, a neurocientista decidiu escrever o livro após conviver com um caso de Alzheimer na família: "Minha avó teve Alzheimer aos 85 anos, e eu vi a doença desarmá-la aos pouco", diz. "Como neta, fiquei desolada. Como neurocientista, no entanto, fiquei fascinada". Segundo a reportagem Lisa "notou que as pesquisas científicas de ponta se preocupavam mais com a descoberta de uma droga eficaz que compreender o sofrimento do paciente e sua luta inicial contra a perda de personalidade. Lisa escolheu o romance por ser o único gênero que permite entrar na mente do personagem e viver sua experiência".

De acordo com a mesma reportagem "curiosamente, o mal de Alzheimer tem sido pouco explorado pelos ficcionistas. Talvez porque lhes falte o conhecimento suficiente sobre o tema. Ou porque não haja mistério envolvido (...) Ao contrário do autismo, em que a doença esconde uma realidade interna potencialmente fantástica que o leitor pode desvendar, o Alzheimer parece apagar a complexidade – e isso dificulta o trabalho literário".

Realmente... na literatura não conheço (ou melhor não conhecia até "Para sempre Alice") um livro que tratasse do Mal de Alzheimer não enquanto categoria nosológica, mas enquanto experiência subjetiva. Na contramão, o cinema já retratou esta realidade de forma belíssima em Longe Dela (2007) e Íris (2001), mas também, secundariamente, em O filho da noiva (2001), A Familia Savage (2007) e Diário de uma Paixão (2004). Outros transtornos psi já mereceram maior destaque tanto na literatura quanto no cinema. Por exemplo, o autismo (e sua "versão mais branda", a Síndrome de Asperger) já gerou os seguintes livros: a ficção O estranho caso do cachorro morto (Mark Raddon, 2003), bem como as auto-biografias Nascido em um dia azul (Daniel Tammet, 2006) e Olhe nos meus olhos - Minha vida com Síndrome de Asperger (John Elder Rodison, 2007). No cinema, só para ficar em dois filmes, o autismo já rendeu o clássico Rain Man (1988) e o estranho Loucos de Amor (2005), sobre o amor entre dois portadores da Síndrome de Asperger.

Brincadeira estúpida

Psicologia popular

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Estudantes de Psicologia

Dia do Orgulho Nerd


Eu, como um nerd atípico (afinal não me interesso por tecnologia, quadrinhos, Star Trek, Guerra nas Estrelas ou RPG, mas sou viciado na série Lost, adoro The big bang theory, faço de tudo para me manter atualizado, além de realmente ter cara de nerd - ver foto acima), parabenizo todos os nerds do mundo pelo Dia do Orgulho Nerd, celebrado hoje, dia de 25 de Maio. Esta data foi estabelecida por grupo de geeks espanhóis como uma homenagem ao lançamento, em 1977, do filme Guerra nas Estrelas, símbolo máximo do mundo nerd. Parabéns!!!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Filme da semana - Control (2007)

Assisti ontem ao belíssimo filme Control, que conta a história de Ian Curtis, vocalista da cultuada banda inglesa Joy Division. Epilético, depressivo e, provavelmente, alcoolista, Ian teve uma vida curta e conturbada. Segundo o site Adoro Cinema, Curtis "ficou famoso por seu talento de letrista e por suas performances épicas à frente da banda [ver video abaixo]. Sofrendo com os ataques de epilepsia, sem saber como lidar com o seu talento e dividido entre o amor por sua mulher e filha e um caso extraconjugal, ele se enforcou em 18 de maio de 1980, aos 23 anos". Eu nunca tinha ouvido falar da banda, muito menos de Ian Curtis antes de assistir ao filme. E fiquei impressionado com sua história. Brilhantemente interpretado por Sam Riley (que ganhou o Bafta de melhor ator revelação), Ian foi um sensacional performer, além de um compositor muito talentoso. Colocava em suas músicas muito do que estava vivendo e sofrendo, com destaque para a sensação de falta de controle, gerada pela epilepsia (ver música "She's lost control", cuja apresentação real pode ser vista no video abaixo - legendado). De acordo com o blog Moda sem Frescura: "Poucas bandas, nos anos 80, tiveram tanta influência na cena musical quanto o Joy Division. O som soturno, tristonho, com batidas de bateria abafadas e letras cheias de angústia refletiam o sentimento de uma geração. Muita gente se inspirou neles, inclusive Renato Russo, no primeiro disco do Legião Urbana".

OBS1: por alguma coincidência incrível, Ian Curtis se suicidou no dia 18 de maio de 1980, mesma data em que escrevo este post, só que 29 anos depois. Assustador...

OBS2: uma belíssima análise do filme foi feita pelo crítico de cinema Pablo Villaça e pode ser lida aqui.

Iatrogenia

Segundo o Wikipedia, "Iatrogenia refere-se a um estado de doença, efeitos adversos ou complicações causadas por ou resultantes do tratamento médico. Contudo, o termo deriva do grego iatros (médico, curandeiro) e genia (origem, causa), pelo que pode aplicar-se tanto a efeitos bons ou maus. Em farmacologia, o termo iatrogenia refere-se a doenças ou alterações patológicas criadas por efeitos laterais dos medicamentos. De um ponto de vista sociológico, a iatrogenia pode ser clínica, social ou cultural. Embora seja usada geralmente para se referir às consequências de acções danosas dos médicos, pode igualmente ser resultado das acções de outros profissionais médicos, tais como psicólogos, terapeutas, enfermeiros, dentistas, etc. Além disso, doença ou morte iatrogénica não se restringe à medicina Ocidental: medicinas alternativas também podem ser uma fonte de iatrogenia, de acordo com a origem do termo". A pergunta que fica é: quando nós, psicólogos, somos iatrogênicos?

Preconceitos

terça-feira, 12 de maio de 2009

Video da semana - Deus é Pai (1999)



Este curta-metragem clássico do escrachado desenhista Allan Sieber, conta a seguinte história, segundo o Portal Curtas: "Após milhares de anos de convivência, a relação de Deus com seu amado filho, Jesus, sofreu um inevitável desgaste. Para melhorar a relação, uma terapeuta passará por maus bocados...". Clique na figura acima para ver o filme. 

Filhos experimentais

A reportagem abaixo, traduzida pelo portal TV IG a partir de video do jornal americano The New York Times, trata de um dilema ético: é correto utilizar os próprios filhos como sujeitos experimentais de pesquisas científicas? A personagem principal desta reportagem é a psicóloga do desenvolvimento Deborah Linebarger, que estuda o papel dos meios de comunicação no aprendizado, utilizando-se para isso de seus próprios filhos como sujeitos. A iniciativa gerou polêmica. De acordo com o texto que acompanha o video "A psicóloga faz parte da nova geração de cientistas que fazem pesquisas com os próprios filhos, porque eles são confiáveis e o acesso à eles permite mais profundidade nos estudos.  Os especialistas em ética dizem que alguns desses projetos são aceitáveis e até válidos, mas levantam questões a respeito do impacto sobre a criança, sobre seu relacionamento com o pai ou com a mãe cientista e sobre a objetividade dos dados". Uma reportagem completa do The New York Times sobre o tema (traduzida pelo portal Terra) pode ser lida aqui.








Fábula do conhecimento - Nietzsche


Eis a bela fábula de Nietzsche sobre o conhecimento:

Em algum ponto do universo inundado por cintilações de inúmeros sistemas solares houve um dia um planeta em que os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais orgulhoso e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza o planeta se congelou e os animais inteligentes tiveram que morrer.

E os animais inteligentes continuam mortos...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Marcha da Maconha 2009


Se o Ministério Público deixar, ocorrerá amanhã - dia 9 de Maio - em diversas cidades do país a polêmica Marcha da Maconha. De acordo com o site do movimento:

A Marcha da Maconha Brasil é um movimento social, cultural e político, cujo objetivo é levantar [???] a proibição hoje vigente em nosso país em relação ao plantio e consumo da cannabis, tanto para fins medicinais como recreativos. Também é nosso entendimento que o potencial econômico dos produtos feitos de cânhamo deve ser explorado, especialmente quando isto for adequado sob o ponto de vista ambiental. A Marcha da Maconha Brasil não é um movimento de apologia ou incentivo ao uso de qualquer droga, o que inclui a cannabis. No entanto, partilhamos do entendimento de que a política proibicionista radical hoje vigente no Brasil e na esmagadora maioria dos países do mundo é um completo fracasso, que cobra um alto preço em vidas humanas e recursos públicos desperdiçados. A Marcha da Maconha Brasil não tem posição sobre a legalização de qualquer outra substância além da cannabis, a favor ou contra. O nosso objetivo limita-se a promover o debate sobre a planta em questão e demonstrar para a sociedade brasileira a inadequação de sua proibição.

Pessoalmente sou favorável à descriminalização da maconha (mas não à legalização da mesma), pelos mesmos motivos apontados pelo médico Elisaldo Carlini em entrevista ao site do "Dr." Drauzio Varella:

Sou totalmente contra o uso e a legalização da maconha. No entanto, é necessário distinguir legalização de descriminalização. Quando falo em descriminalizar, não estou me referindo à droga. Estou me referindo a um comportamento humano, individual, que atinge o social. Quando falo em legalizar, falo de um objeto. Posso legalizar, por exemplo, o uso de determinado medicamento clandestino ou de um alimento qualquer desde que prove que eles não são prejudiciais à saúde. Como a maconha faz mal para os pulmões, acarreta problemas de memória e, em alguns casos, leva à dependência, não deve ser legalizada. O que defendo é a descriminalização de uma conduta. Veja o seguinte exemplo: se alguém atirar um tijolo e ferir uma pessoa, não posso culpar o tijolo. Só posso criminalizar a conduta de quem o atirou. A mesma coisa acontece com a maconha. O problema é criminalizar seu uso e assumir as conseqüências da aplicação dessa lei. Nos Estados Unidos, num único ano, 600.000 pessoas foram detidas e processadas por posse de maconha e o sistema de justiça americano acabou não fazendo outra coisa do que julgar jovens que, na maioria das vezes, não haviam cometido nenhum outro deslize e ficavam marcados por uma ficha criminal que os prejudicava na hora de conseguir um emprego, por exemplo, e de tocar a vida. Diante disso, vários estados americanos optaram por descriminalizar o uso da maconha. O mesmo fizeram o Canadá e alguns países da Europa, entre eles Portugal. O importante não é punir um comportamento. É corrigi-lo. Para tanto, deve existir um programa eficiente de prevenção e de educação para que a pessoa evite consumir essa ou qualquer outra droga. Repetindo, sou contra o uso e a legalização, mas favorável à descriminalização da maconha.

Abaixo um clipe com o jingle da Marcha da Maconha 2009:

Musica Psi - Não é Proibido (Marisa Monte)




Não é Proibido
Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate,

Paçoca, mariola, quindim,
Frumelo, doce de abóbora com coco,
Bala juquinha, algodão doce e manjar.

Venha pra cá, venha comigo!
A hora é pra já, não é proibido.
Vou te contar: tá divertido,
Pode chegar!

Vai ser nesse fim de semana
Manda um e-mail para a Joana vir
Woo.. Uh!

Não precisa bancar o bacana
Fala para o Peixoto chegar aí!

Traz todo mundo, 'tá liberado, é só chegar.
Traz toda a gente, 'tá convidado, é pra dançar,
Toda tristeza deixa lá fora; chega pra cá!

Todo mundo já deve ter escutado esta música, mas certamente poucos a entenderam como eu entendi. Minha interpretação (e eu não sou nenhum moralista paranóico que procura mensagens subliminares em tudo) é que a música faz alusão ao uso da maconha. Tanto o título ("Não é proibido") quanto algumas frases ("Tá liberado, é só chegar", "Toda tristeza deixa lá fora") podem ser interpretados segundo esta ótica, mas a mensagem fica escancarada quando a música diz para mandar um e-mail para a Joana, apelido carinhoso da Maria Joana ou Marijuana, nome americano da droga (existe inclusive uma música do Erasmo Carlos chamada Maria Joana, bem menos sutil que a da Marisa - ver letra aqui - além de um filme muito louco intitulado A loucura de Mary Joana - saiba mais sobre ele aqui). Quanto ao Peixoto, permanece o mistério... alguns afirmam se tratar de outro apelido para a maconha enquanto outros falam que se trata de uma piada interna com um tal de Peixoto, coordenador de mídia da Marisa Monte. Vai saber... 

UpDate (11/05/2009) : segundo Janaína, leitora deste blog, Peixoto refere-se à Marcelo Peixoto, nome verdadeiro de Marcelo D2, amigo da cantora. Faz todo o sentido...

Psicólogos e bombeiros


Em seu blog, o crítico de cinema Pablo Villaça, transcreveu um brilhante diálogo da série In treatment que diz muito sobre o trabalho do psicoterapeuta e da importância deste fazer terapia pessoal continuamente. Na cena descrita o terapeuta Paul, que está vivendo um período conturbado em sua vida pessoal, conversa com sua própria terapeuta, Gina:

- Como eu vou ajudar meus pacientes se minha própria vida está uma bagunça? Você contrataria um bombeiro caso soubesse que todos os encanamentos da casa dele estão entupidos?

- Não é a mesma coisa. Você é um psicoterapeuta profissional.

- Mas não um marido, um pai ou um filho profissional.

- Não, não é. Como homem, você é uma espécie de animal na selva: você vive o cotidiano tentando proteger seu território e sua família. Como terapeuta, você está observando certos integrantes do rebanho à distância, através de binóculos. Estas são duas formas muito diferentes de enxergar a vida. E você não pode se observar através de binóculos.

- Mas é por isso que estou aqui.

- Correto.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Distorções

O paradoxo da escolha - Barry Schwartz

Um dos livros mais interessantes que li nos últimos tempos (juntamente com O valor do amanhã, do economista Eduardo Giannetti) é O paradoxo da escolha: porque mais é menos (Ed. Girafa, 2007), escrito por Barry Schwatz, psicólogo e professor de Teoria Social e Ação Social da Faculdade Swarthmore, na Filadélfia. O que o autor defende neste brilhante livro, pode ser resumido nos seguintes pontos, extraídos do prefácio (p. 20):

1- Sentir-nos-íamos mais felizes se aceitássemos determinadas restrições voluntárias à nossa liberdade de escolha, em vez de nos revoltarmos contra elas;

2- Sentir-nos-íamos mais felizes se buscássemos aquilo que fosse "suficientemente bom" em vez de buscar o melhor (você já ouviu algum pai dizendo "quero apenas o que for 'suficientemente bom' para os meus filhos"?);

3- Sentir-nos-íamos mais felizes se baixássemos as expectativas quanto ao resultado das nossas decisões;

4- Sentir-nos-íamos mais felizes se as decisões que tomássemos fossem irreversíveis;

5- Sentir-nos-íamos mais felizes se nos importássemos menos com o que as pessoas ao nosso redor fazem.

Segundo Schwartz "essas conclusões desafiam o bom senso convencional, que diz que quanto mais opções as pessoas têm mais felizes se sentem, que a melhor maneira de obter bons resultados é tendo padrões muito elevados e que é sempre melhor poder voltar atrás de uma decisão. Espero demonstrar que o bom senso convencional está errado, ao menos no que se refere àquilo que nos satisfaz em nossas decisões" (p. 21).

O psicanalista Contardo Caligaris (autor do brilhante "Cartas a um jovem terapeuta") diz o seguinte sobre o livro:

Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio. Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades). Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: o excesso de liberdade nem sempre é bom. 

Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo? Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar. Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto. Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher". O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes. Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga. 

Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade - a de inventar.

Abaixo uma palestra de Schwartz (legendada em inglês) :


terça-feira, 5 de maio de 2009

Video da Semana - Exite (2007)

Com direção de César Netto e narração de Paulo Miklos (do Titãs), este belíssimo curta-metragem de 2007, conta, segundo o Portal Curtas, "a história de angústia e força de quatro pessoas invadidas pela súbita e inesperada sensação de ameaça e apreensão. O filme traz um despertar sobre a síndrome do pânico. Em algum momento do dia aquelas pessoas fizeram as mesmas coisas, mas tiveram a sua rotina interrompida pelos impactos de uma vulnerabilidade e instabilidade suscetíveis a qualquer pessoa". Excelente!


OBS1: saiba mais sobre Síndrome do Pânico aqui, aqui, aqui e aqui.

OBS2: estranhei a logomarca da Roche no início do filme. Fui pesquisar e descobri (ver imagem abaixo) que a empresa é uma das principais, se não a principal, fabricante brasileira de ansiolíticos, medicamento utilizado no tratamento dos Transtornos de Ansiedade, incluído aí o Transtorno do Pânico. Esta descoberta não retira os méritos do curta mas coloca em xeque seus reais objetivos: retratar um problema ou vender um remédio?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Não dá para competir - Volume 9


Isto que é escuta diferenciada!

Psicólogas, mistérios e machismos


Nos últimos três meses duas mulheres formadas em psicologia (ou psicólogas? – ver discussão aqui) posaram para a famosa revista masculina Playboy. Em março foi a vez de Tatiana Gomes, também conhecida como a "MC Princesa" ou “psicóloga do funk” (ja falei dela nele blog – ver aqui). Agora, em maio, sai Josy, ex-bbb, modelo, cantora... e psicóloga, ou melhor, formada em Psicologia. Não vou adotar, como fizeram outros blogs e sites, uma postura conservadora e preconceituosa e dizer, no caso sobre Tatiana Gomes, "que essas mulheres frutas fiquem rebolando a gente até entende, afinal são burras e só sabem fazer isso, mas uma moça (mãe de dois filhos aliás) educada e inteligente escolher isso é simplesmente inacreditável". Elas fizeram suas escolhas e eu não tenho nada a ver com isso!

O que gostaria de debater em cima desta notícia é o seguinte: a prática profissional da psicologia no Brasil, essencialmente feminina e clínica, é revestida de um manto de mistério que, para muitos (homens), transforma-se em fantasia sexual. O melhor exemplo que encontrei na net foi de Thor, codinome de algum cara que fez a seguinte pergunta para o Yahoo Respostas (ver aqui): "O que devo fazer para namorar uma psicóloga bonita, gostosa, do estilo da Ivete Sangalo?". E ele continua: "Tenho tara por psicólogas! Penso que deve ser muito bom envolver com psicólogas dentro do consultório ou fora dele! Mas gostaria mesmo que fosse dentro do consultório, pois assim iria aumentar minha auto-estima e eu sentiria um verdadeiro homem se acontecesse uma transa dentro do consultório. O que devo fazer para que isso aconteça, já que gosto de mulheres lindas e inteligentes?" A melhor resposta dada a Thor foi a seguinte: "Marque uma consulta com alguém (psicóloga) dentro do perfil que deseja e ai no ato da consulta, quando estiver falando de alguns problemas seus, desejos, frustações, alegrias, medos, etc.....aproveite e se confesse: 'tenho um sonho, sou doidinho, para ter um romance, uma transa com uma psicológa dentro de seu consultório'. Pode não colar, mas ficará por isso mesmo pois elas estão lá para te ouvir e guardar segredo daquilo que diz, não é mesmo?"

O fato é que nossa prática profissional, especialmente a clínica, é um tanto misteriosa para a maioria das pessoas. E este mistério/ desconhecimento abre espaço (como todos os mistérios e desconhecimentos) para a fantasia. "O que será que eles fazem lá dentro?", já ouvi de leigos. O fato de o trabalho clínico ser predominantemente individual, pago e essencialmente íntimo, leva algumas pessoas a comparar psicólogas com, digamos, garotas de programas. Sério, já ouvi isso! Em alguns meios, fundamentalmente masculinos e machistas, esta é a imagem da Psicologia. Sobre esta visão, vejam como a Desciclopédia (versão maldosa e machista da Wikipedia) define Psicóloga:

Prosti..., digo, Psicóloga é a "profissional" que entra numa faculdade (no curso de psicologia obviamente) e depois de cinco anos (ou até mesmo antes), acha que pode ficar ditando tendências de comportamento, só porque fez esse curso tosco e inútil. Então, ela arruma emprego no RH (Reduto de Humilhações) de uma empresa qualquer e tem a função de fazer perguntas insanas e totalmente desprovidas de sentido. Psicólogas não tem outra função na sociedade que não seja a procriação. Não é a toa que hoje em dia elas são o tipo de profissional mais odiada (ganhando até mesmo dos advogados). Essas "profissionais" não conseguem nem resolver o problema delas mesmas, quanto mais o problema dos outros. Em caso de depressão, o mais recomendado é procurar um puteiro ou encher a cara com os amigos. Psicólogas podem dizer que você é talentoso quando você estiver com baixa alto estima, porém cobram para isso o equivalente a duas garrafas de uísque Blue Label do bom, ou seja, não compensa! Procure uma psicóloga apenas se você tiver interessado em fazer sexo com ela. Geralmente é um grande problema porque elas gostam de discutir a relação antes do ato. É uma imensa enrolação e o pior: costumam ser péssimas de cama. Ficam discutindo sua ansiedade em querer enrabá-la e nada de deixar rolar.

Chocante, não?